quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Sem Bola de Cristal

 

Houve tempo em que fazia propósitos para o novo ano. Por mais simples, cumpria-os, digamos, nos dois primeiros meses. Depois, bom, depois a vida levava-me na sua voragem e não tinha tempo para. Esquecia-os sem remorso ou culpa. Mudavam a amplitude, eram passado, coisa feita e que quase não deixa marca. Não fora a memória de me ter proposto a eles, e nem um assomo restaria. Mas ainda sorrio de mim para mim, se os recordo. No ano passado, ocorreu-me que uma boa ideia seria terminar as histórias que começo e vou deixando pelo caminho. Mas só pensei nisso. Porque já nem sei ir ao lugar em que as deixei e também não me apetecia revivê-las. Se acaso as encontrasse, teria de reentrar na pele de então. Depois, ia apetecer-me reescrevê-las porque a gente nunca se reencontra completamente. E por aí.

Hoje, não tenho sequer a desculpa do tempo voraz. Mau grado o ininterrupto dos meses, dias e noites esticam a sua incomensurabilidade, e, salvo uma ou outra excepção, exaure-me tanta hora parada no relógio. Por outro lado, o mundo em geral interessa-me pouco como raio de acção, não tenho maneira de agir sobre o geral senão agindo sobre o particular que me cerca. Somos a gota de água, não o rio; mas fazemos parte dele, é indubitável.  E não me apetece andar aqui a fazer de candidata a miss mundo - fica mal nesta provecta idade -  e a dizer coisas como, o que mais desejo é a paz no mundo; o fim da fome; o fim das sevícias que os homens infligem uns aos outros, a animalidade em transgressão adiposa; como diz a canção “a paz, o pão, educação, saúde…” Pergunto, mas quem é que não deseja isto tudo para todos, quem é que não quereria este paraíso terreal. Pode haver uma minoria que o não deseje, mas estamos de acordo, a maioria não se importava nada que acontecesse. Acontecesse, reparem bem. Ora, o que acontece não é da nossa responsabilidade, simplesmente acontece; sucede; chega-nos de supetão ou brandamente, mas chega sem mexermos uma palha para. E tenho para mim que só nas imediações grande parte de nós tem efeitos práticos.

Portanto, fico-me pelos arredores de mim, aqueles até onde possa chegar. E seja o que Deus quiser. Se eu Lhe puder dar uma mãozinha, estou ao dispor.

E que a vontade não me falte para o evidentemente.

Posto isto, que o ano de 2022 vos sorria. E deixem de lado as previsões catastróficas. O que tiver de ser, será. Nada de antecipações desastrosas. Logo se vê. Para já, o meu brinde de incentivo em alvores do novo ano: A nós. E a todos que gostam de nós. Tchim-Tchim.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Notas do Sem Fim

 

Pronto. Desceu-me – finalmente – a adrenalina. A casa está mais ou menos no lugar de sempre e perdeu a estranheza que a percorria de alto a baixo quando, desaparecidos os lugares fixos, arrumar era mudar de sítio. Havia sempre gente ou objectos inabituais a procurar um encaixe, querendo, melhor ou pior, passar a pertencer. E depois, não só a casa se sente estranha. Nós mesmos zanzamos nela. Parece-nos outra, a que impa brilhos e odores. A exibir-se, ela que é toda recato e discrição. E há risos e alegria que extravasa; e conversas cruzadas, os decibéis em conta quilómetros, subindo o escândalo liso e branco de paredes boquiabertas, oh!. Hoje, de tarde, a casa recompôs-se e voltou ao mutismo habitual, recuperou os lugares um a um, as paredes relaxaram, libertas de cheiros culinários e gente. E cada divisão repousa em seu ser, julgo eu que contente.

Mas em mim enquistou uma melancolia fina, entrou-me um friozinho de alma quando acenei o último adeus e nos apertei no abraço final. Agora é tudo longe e separado. Madrid ou Lisboa, que importa. Ilumina-me a tua ternura cuidadosa. Guardo-a para os dias de cinza e pó, horas de vento bravio que tudo varre, momentos de gólgota que urge atravessar. Como contas de colar e muito mais que elas, conservo a meiguice repetida do teu indicador a rir na minha bochecha; a mão que me pousas no ombro se encostas à minha a tua cabeça; as tuas ironias ternas, implicâncias felizes acertando nos meus sonos irrisórios; o jeito casual se acaso referes o voluntariado em que te empenhas; as dicas carinhosas sobre filmes; a forma como pronuncias, mãe, e de que tenho uma formidável e ingente saudade que nunca te confessarei para não estragar. Sempre nos habituamos ao depois do Natal.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Meu Menino Jesus

  

Bem sei que vives à beira do meu quarto. Imagino que gostes mais desta época em que podes olhar para tudo apesar de não te mexeres do berço azul – sim, fui eu mesma que to arranjei, chegaste de oferta, bochechudo e nutrido, mas sem cama. Bom, “olhar para tudo” é força de expressão, deitado, o mais que vês é o tecto e rostos debruçados para ti. E são tão poucos; talvez só a mim conheças e ensaies comigo a exclusividade que, palavra, me agrada superior e pecaminosamente. Pois, para que te escrevo, se estás sempre aqui, ao alcance da mão. Podia falar contigo. Será para deixar marca. Ou me tolhem as pernitas rechonchudas, os refeguinhos nos braços, a fixidez de artifício raso na cal dos olhos sem vislumbre de vaso sanguíneo. Ou vou encontrando desculpas para escrever-te só por gostar de ti, calcorreando um caminho de arabescos, com espírito de Heidi nas montanhas, que é como quem diz, em pulinhos contentes. É assim mesmo, nas palavras me procuro, gasto o tempo a desbravar mato em demanda de mim e curtos são os momentos em que um perpassar de sombra fugidia me acontece.  Chama-lhe o que queiras, mero desejo, devaneio de solidão, arte de sobrevivência. Mas, no recato de um embrulho, refugiado dentro de caixa segura e com dístico “Meninos Jesus”, ainda te julgo atento a mim. Ai julgo, julgo. Pura necessidade, coisa tão humana que talvez nem a entendas embora sejas Deus, ou sobretudo por esse patamar tão fora de nível.

Descansa, não vim pedir-Te coisa alguma. Vim apenas fazer-te vénia. Agradecer. Ter a família em minha casa é, em cada ano que passa, bênção aprazada. Não estará longe o tempo em que não vou ser capaz de tanto e cada um ruma a seu destino. O núcleo actual vai partir-se em três, cada um com suas prerrogativas. A vida é mudança. Porém, deixa que te conte esta minha pequena vaidade, todos lembrarão – por isto ou aquilo – o tempo de Natal conjunto.

Até hoje, propicias a melhor noite do ano. E isso não tem preço. E dás-me ideias para prendas. Este ano foste supimpa, as manas até se esqueceram de abrir o resto dos presentes que lhes dei. Não nego, fiquei ardendo de satisfação e até um bocadinho orgulhosa. Bem hajas. Mesmo.

Desculpa se não consegui satisfazer todos os amigos como recomendas anualmente. Mas sabes que tentei.

Do que me diz respeito, agradeço-te a meia dúzia de livros tentadores, é prenda que amplamente me satisfaz. E é claro que voltei a receber chás e canecas de chá em abundância. Já posso usar uma por semana. Como sobram algumas, tenho certa esperança de conseguir uma para cada dia do mês. Tu que achas, conseguirei?! Depois pensamos na logística, né?

E agora vou mirar-te o branco dos olhos. Pode que estejas a sorrir-me brandamente. Pronto, para o caso de precisares ou te fazer jeito – o amor dos homens nunca te é demais -, olha,  gosto muito de ti.

 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Quando o natal se aproxima penso mais nos sem abrigo que vejo dormindo tapados com cartões e jornais no banco marmóreo e corrido do túnel do metro que vai desembocar no Centro Comercial Vasco da Gama. Não que sejam mais ou menos infelizes que outros espalhados Lisboa fora e que pernoitam em vãos de porta na Baixa, nos degraus da estação dos Restauradores, e em tanto lugar. Mas aquele túnel é frígido, percorre-o uma corrente de ar gelada que desanima e abotoa qualquer ser.  É inconcebível que alguém consiga adormecer sobre o gelo de lápide de tais bancos. Mas observei durante vários minutos um adormecido e não deu por mim. Dormia quieto, tranquilo, igual à maioria das pessoas em sua cama: posição fetal, as mãos sob a face, um cartão debaixo do corpo e embrulhado num casaco comprido e sujo, pejado de folhas de jornal abertas. Debaixo destes preparos havia uma vida a respirar, um suposto descanso que eu devia, ao menos, respeitar. E escrevi eu que “igual à maioria das pessoas em sua cama”. Mas igual como? Igual no ar de interior de frigorífico; ou no facto de não se poder virar e, mesmo adormecido, se obrigar a manter a posição; ou igual na fofura do colchão, na privacidade que o tempo de sono nos demanda. Com que sonham estes homens e mulheres, que os acorda para mais um dia, além do entorpecente frio. E como se chega aqui. E pára.

Se eu fosse um Jesus de todos os homens dava-lhes sonhos de verdade, fazia-lhes mais leves e bonitas as noites. E depois, quem sabe se, na posse da esperança e criando oportunidades, não se reassumiam. Era uma vitória sobre os cobertores e as sopas nocturnos.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Pé Ante Pé

 

Perpassas no silêncio que só o toque das agulhas quebra, o mundo parado lá fora. Perpassas sem passar. Continuamos. Contíguos. Ou afundas e és eu. Alteados de sonho e ignorantes da linguagem do tempo, demos as mãos. Dou conta do teu ser exaurido e exangue, as mãos húmidas do teu suor; e, levemente, te deito em pousio, aninho-te na terra cansada a que pertenço e sou. Aconchego-te a raiz com as minhas mãos de terra, rodeio-a de pó concavo, preparo-te para a água.  Talvez te recupere um pouco no trabalho de mãos que tem outros destinos e vou deixar por aí. Talvez permaneças em mãos alheias, dedos florescendo.  E espero - espero sempre - que em ti se cumpra a dádiva e em ti ocorra a redenção. E a terra que sou vai distender e ser suave e quieta como pertence.

O Chão do Natal

 

         Em garota, nos serões de inverno, costumava ficar sentada à mesa, olhando fixamente a pressa de agulhas de minha mãe que, chegada à luz do candeeiro de petróleo, tricotava para mim ou minha irmã. Abismava na pressa frontal com que as malhas passavam de uma agulha a outra e, milagre dos milagres, ia crescendo uma peça na sua parte inferior. Por certo, ali haveria passe de mágica, pois se apenas mudava as malhas de uma para outra agulha, como é que lhe nasciam e cresciam mangas, costas, frentes. Mas, perante o surdir destemido do trabalho, calava as dúvidas. Ora, certa noite de maior pressa, minha mãe deixou escapar que atrasara o tricot e não conseguiria terminar o casaquito antes do Natal. No dia seguinte, enquanto moirejava longe, pensei em fazer surpresa e dar-lhe uma ajuda. Trouxe a obra para o meu colo, passei a lã pelo pescoço, enrolei o fio da direita num dedo como lhe via fazer e dispus-me a mudar as malhas de agulha. Foi o busílis. As malhas fugiam-me, faziam finca-pé e resistiam à mudança de agulha como os portugueses aos castelhanos. Quando, enfim, consegui mudar uma, entendi a dimensão da minha ignorância e percebi que à facilidade de minha mãe correspondia, em grau elevado, a minha inabilidade. Portanto, o meu desejo de ajuda cingiu-se a mudar de lugar duas malhas e a recolocá-las, desanimada da tarefa. Não me lembro se deixei ou não cair malhas. Sei que arrumei tudo no lugar e passei a dar maior valor à função e que, finalmente, criei coragem e inquiri de minha mãe como podia crescer o tricot apenas com a mudança de malhas de uma agulha a outra. Minha mãe sorriu docemente e, abrandando o ritmo, explicou como tecia e ia consumindo a lã que dobávamos as duas em novelo. E tudo fez sentido. Nunca lhe contei dos meus vãos propósitos de ajuda. Suponho ter herdado o gosto pelo tricot e lamento não me ter interessado por ele quando mo podia ensinar. Foi coisa que não me ocorreu. Penso nisto enquanto teço, talvez com a destreza que antes lhe pertenceu, sorrindo de mim e da minha ignorância, tal como se assistisse um filme. À medida que se prolonga, o passado vai-se tornando cada vez mais o filme que protagonizámos ou em que fomos figura secundária.

         Ontem encontrei um ex-aluno que me reconheceu (reconhece-me sempre). Disse-me, “gosto muito de si”. Assim mesmo. Babei a olhá-lo nos olhos gratamente; perguntei pela filha que tem 18 anos; lembrei, agora que já não existe leitor para tal, a cassete dos Dire Straits que tocava enquanto lhe dava boleia e trouxe à liça o entusiasmo dele com o grupo. Abraçámo-nos e desejámo-nos bom natal. Não lhe disse que o encontro por vezes aos esses pela rua, desamparado e só; não lhe contei da infinita pena e desolação que me dá vê-lo e saber que só a mãe o recebe. Meu pai, que eu acompanhava, elidiu. Éramos só nós a fazer parar o tempo, unidos na sintonia antiga que recuperamos em cada encontro.

Talvez o passado não seja apenas um filme.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Chegou-me ontem uma prenda que, pensava eu, era de Natal. Mas o remetente, muito sui generis, dizia: esta é a prenda do teu natal, não é a prenda de Natal.  Coisa mais bonita de se escrever. Portanto, tenho no horizonte novo presente. Algures, a dado passo do caminho, as nossas prendas cruzaram-se, já que coincidiram na chegada ao destino. E quem é que sabe se não pararam a cumprimentar-se antes de seguir viagem. Sou pelo sim.

Encerrei trabalhos de escadote que foi empoleirar-me no banco da cozinha a repetir o estribilho de sempre, já sou velha para estas coisas.  E, calculem, achei o meu menino Jesus de pé partido. Capaz de ser desinquieto e ter escorregado da manjedoira. Desta vez, para obviar quedas, deitei-lhe aos pés uma ovelha que andava por aí perdida e é quase maior que ele. Dou serventia à pobre ovelha que não entendo como apareceu em minha casa assim nédia e desencardida, que não a comprei nem me lembro de ter sido oferecida. Quem é que me ia dar uma ovelha, e logo maior que o doce Menino. Já fui espreitar os dois. E, se o Menino pouco liga à ovelha, ela está nas suas sete quintas. Repousa-lhe por perto com tal fervor e fidelidade que nem uma erupção vulcânica será capaz de a fazer abandonar o poiso.

O dia foi curto para o que havia a urdir. Portanto, quando já noite aqui me vim sentar, procurei a Heidi  gozando o prazer de não bulir mais. Pois foi. Só que adormeci por um bocadinho. Não fez grande mossa ao desenrolar do filme. E soube bem.

Em casa já é  natal. E dado que os olhos se me fecham, nada a acrescentar.

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

         O natal anda-me espalhado por mesas, camas, chão. Há laços onde menos os espero; prendas arrumadas e prontas que tenho dificuldade em lembrar como assinalei; embrulhos ainda abertos porque incompletos e um ou dois projectos que conto ver hoje terminados e vão deixar tudo – ou quase – no lugar certo. Dado que o vigor parece abandonar-me nestas alturas, já tratei de me embebedar de café com leite. E melhorei.

         É provável que tenha esquecido algumas pessoas a quem envio Boas Festas. Mas já seguiram e decidi não pensar mais nisso. Quer dizer, vou abrir uma excepção, estou a lembrar-me que esqueci uma amiga daquelas que nunca responde, mas dá um toque nas vésperas de Natal. Portanto, vou arrepiar caminho e ainda lhe escrevo umas linhas. Depois fecho para balanço e, por escrito, não estou para ninguém.

         Hoje foi dia de envio para as minhas amizades mais chegadas. Vai-me nos embrulhos uma ternura indelével que elas não notam e nem eu digo, mas segue junto. E, como já frisei, as prendinhas são um nada do que quereria dar-lhes, parca amostra do meu desvelo. Gostaria de enviar presentes que arrancassem ohs e ahs de satisfação infantil e que as levasse a rememorar gostosa incredulidade no desembrulhar das embalagens. Ainda assim, guardo a esperança de surpreendê-las um nadinha. Fazê-las felizes ao minuto.

         Estou a abandonar o tricot em demasia, mas que querem, ontem  parei as agulhas para ver Oliver Twist que, palavra, nunca tinha visto. Gosto de filmes com gente boa. Mesmo tendo que gramar com pestes do pior a fazer contraponto. E aquele Oliver era um actor e tanto. Logo à tardinha, havendo um nico de tempo, sou capaz de ver a Heidi. Os meus conhecimentos sobre a garota datam dos saudosos vinte anos, quando ia ver um ou outro episódio a um café. Dizia uma amiga que inda conservo, “estes desenhos animados dão saúde”. Quem sabe, era por isso que fez tanta força para que eu os visse. O viço que tinha, então, a nossa amizade.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Dia dos deveres. Eu, zero; deveres, meia dúzia. Deram-me uma abada, isso é que foi. Restou o tempo de escrevinhar meia folha de papel e fui correndo aos correios. Ufa! Já tenho prendas a fazer caminho.

Há ainda cartas e cartões por escrever e fazer. Vou a meio do tricot (mais de meio). Faltam-me várias compras; ainda há arrumações em espera. E se eu hibernasse?! Ora. Hibernava,  mas não era a mesma coisa. Será melhor se me limite a dormir.

Dia seguinte, que foi hoje:  pela manhã dei corda aos sapatos e andei nas compras. De prendas. E foi aquele entrar, passar revista, comprar ou não comprar e sair de lojas. E logo, voltar a entrar e repetir a dose. Pelo meio, achando que podia valer a pena, fazia um estágio nos provadores. E enfiei todos os gorros que vi. É claro que já não saio lá muito contente de um provador. Passou-me o tempo daquelas indecisões acontecidas porque tudo nos serve e fica bem. Este problema, garanto, eclipsou. É mais o inverso. Bom, não andei a experimentar para mim, mas em mim. Foram quatro horas bastante intensas. Mas cheguei ao carro toda contentinha e cheia de sacos.

Nestas horas de compras, com cartões meus e ao dispor, sou grata a quem me quis empregada, “um curso, precisa de um curso”, e envidou esforços para tal. Foram várias vontades a erguer-se em ponte para que eu atravessasse sobre o rio caudaloso da pobreza. Chama-se mérito? E eles, eles que me aguentaram com a força dos braços como pilares e abrindo mão de si, uniram dedos e fizeram o chão onde pisei. Não saberei nunca se gostam da obra, mas o resultado é do conjunto, isso é certo.

E porque estou um nadinha cansada, desejo que fiquem bem e um anjo vos vele o sono. Vou ver se descanso com um filme de Natal, desejando que seja sem legendas.

domingo, 12 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Pronto. Já cortei a fita e abri oficialmente a época dos enfeites. Abri. E pouco mais. É Natal em minha casa.  Sobrou para uma tarde. Isto se descontar os arranjos, talvez armados no dia 23, ou o azevinho ainda me sai tristonho.  Assim em jeito de confidência, sempre vos digo que me resolvi a uma malandrice: bebi um café com leite. Ou jamais ganharia ânimo para o pontapé de saída. E correu bem. Não caí do escadote e não hesitei na bancada da cozinha. Pronto, não caí e nem estive perto, tenho muita prática a galgar o lava loiça.

Entretanto, descobri que os livros para oferta estão todos. Viva! E fiz a centésima lista de prendas em falta. Mas como é que  pode ser, já comprei uma data delas (data, data) e a última lista é maior que a primeira. Bom, avante. E enchi-me de ternura a reler os cartões antigos, enviados daqui e dali. Gente que já partiu; gente que não partiu mas não sei onde anda; gente a quem muito devo e nem sei se vive;  peiam-me pruridos de incomodar a família e perturbá-la se acaso  já o eterno os guarda. E a todos lembro como eram. O carinho que me dedicaram  não tem moeda de troca. E nas palavras escritas, leio não apenas as que lá estão, mas todas as que não dizem e são ou foram verdade entre nós. E do mais fundo de mim as agradeço.

Posto isto, o segundo menino Jesus também já picou o ponto e repousa calmamente na sua almofadinha de veludo escarlate.  Falta-me o do pezinho partido. Demora mais a chegar, naturalmente. É que nem a manjedoura. Pergunto-me se estará de visita à terra natal e, por via das dúvidas, carregou com a camita. Que, a ser assim, e coxo como está agora, não chega a tempo da festa.

 Nada de sobressaltos. Aguardemos.

Melíflua

 

Há gente como ela. Que se move para ajudar os filhos da má sorte, não por altruísmo ou verdadeira amizade, mas porque o mal dos outros lhe  empresta vigor. É uma fome que a move e atrai para a desgraça, debitando conselhos que ninguém quer e nem pediu, servidos com o molho de exemplos práticos que os certificam.

Estava eu na farmácia, sentada no banquinho dos velhos que enfileiram para o balcão, quando ela entrou. Espreitou com olho crítico o interior. Inquisitiva, observou cada elemento da fila e percorreu os clientes no balcão.  Uns segundos e já ela avançava justificando, não tiro a vez a ninguém, sou atrás daquele senhor lá fora. E veio sentar-se na outra ponta do banco a remexer dentro da mala. Quase de seguida, lhe ouvimos, então, comadre, já soube que estão todos infectados; olha o azar. Do outro lado, resposta curta. E ela contrariada, não estão? Ora essa, pois se está tudo cheio que agora nem podem sair de casa… e a comadre não se acanhe, o que precise, eu compro. Novo silêncio de escuta e a voz a perder entusiasmo, é só o mais novo… e está isolado... E após duas ou três interjeições, desligou meio enxofrada de dedos.  Desgostosa da novidade, deixou escapar o solilóquio, afinal é só um. Já a correr o fecho da mala de mão, notando alguns pares de olhos a fixá-la, suavizou contrafeita, ainda bem, não é.

 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Hoje ganhei coragem e revirei duas caixas com adereços de Natal. Devia pô-los a arejar, mas a cor do céu esmoreceu-me.  Também cortei em rectangulos as folhas de um bloco para tintas a óleo. Já desisti de me entender, não sei pintar a óleo, não tenho óleos e ainda menos quem me ensine. Mas pronto, já não me falta tudo; descobri não um, mas dois blocos. Em compensação, não encontrei os lápis habituais nem o bloco de ano passado. Coisas. Note-se que, na conjuntura actual - eu mesma e mais os meus lapsos e esquecimentos -,   recuso buscas insanas. Não sei, não acho? Governo-me com o que há. Os objectos sabem ser muito castradores, não lhes podemos dar confiança. Não há como provar-lhes que passamos bem sem eles. Ora essa.

Pois a verdade é que essa espécie de papel destinado a tinta a óleo não é muito salutar como cartão de boas festas. Não é, mas não existe outro (fujo à verdade, bem entendido).  É mole, dobra-se sobre si e encaracola feito lesma destrambelhada, e o meu pincel diz que bla, bla bla, mas não lhe faço caso. Resumindo, está tudo uma burrada em ponto pequeno. Paciência.

Bom, para facilitar o espírito natalício, nada como ouvir canções de natal. Foi agradável, as agulhas de tricot, habituadas a conversa e mais conversa, arrebitaram as orelhas, que é lá isso, missa cantada? Peço desculpa por elas,  estão velhas e não sabem modernices de coros da estranja a cantar para nós a qualquer hora que se deseje. Depois de ouvir os arcanjos, cumpre-me informar que me ficou a apetecer algo. Portanto, algo, foi ver um filme de Natal. Mas era dobrado em brasileiro e se nos desenhos animados gosto das suas vozinhas, nos filmes com gente dentro, desafinam. Entretanto, lembrei Shirley Temple que foi garota muito mais tempo que eu ou qualquer mulher. Ainda é garota a Shirley Temple. Apeteceu-me revê-la. Lancei-me pois num dos seus filmes. E banzei com as traduções. Nem é questão de concordâncias ou assim. Passo a contar. O meu inglês não dá para os gastos, mas ainda assim não necessito estar sempre de olho no écran. Basicamente, o filme trata do amor entre pai e filha, o pai militar e ela num colégio por via da guerra que chama o soldado. Entretanto, o pai morre. E quando a professora preferida  vai dar  a notícia à garota (aí levantei a cabeça para olhar o écran, era importante) li a legenda, “você é uma puta”. Fiquei parva a soletrar julgando meu o engano. Mas não. Está lá.

Dado que no you tube também mostrava O Pequeno Lorde e não o recordo, decidi apreciar um niquinho do filme. Ah, pois é, mas a qualidade da tradução mantém-se. A afirmação, “O Dick ainda não chegou”  está traduzida por “A pila ainda não chegou”. Ai, valha-me Deus. Tenho esperança que as crianças não vejam isto, que só gostem daqueles filmes animados com bonecos horríveis e menos horríveis, que achem a Shirley Temple uma coisa que não lhes serve para nada. Mas, mesmo sem crianças, a quem é que a gente se queixa deste despautério, deste assassinato a frio da nossa língua e à disposição de qualquer. Deve ser coisa automática, só pode. Mas por que razão temos nós que aguentar tanta ofensa por escrito. E por que razão está acessível e é conservado num media. Palavra que não entendo.

Fiquei escandalizada e sem apetite ao Natal.

 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O chão do Natal

 

         Logo ao segundo dia, falho o calendário de Natal. Ora bolas. Mas quem ia prever que a parva da vacina assim me tolhia. Bem quis colaborar com a quadra. Ainda andei a esgravelhar no sótão em demanda dos lápis e das folhas que não se deixaram ver. Portanto, este ano vai ser o bom e o bonito, só tenho folhas para pintura a óleo – não que tenha óleos ou saiba pintar – e guache. Mas pronto, trouxe tudo para baixo e ainda cortei três cartões. E foi tudo. De resto, a dar-me ânimo, chegou, com toque de campainha (o meu carteiro é mesmo um querido), a primeira prenda de Natal😊. Primeira, quer dizer, já me tinham dado um pano de cozinha, mas não conto utensílios que me lembram trabalho e me parece sempre serem dados à dona de casa que sou mas não sou. Pois foi imediato, comecei logo a leitura. Esta encomenda veio de uma amiga que bem conhece o meu amor a viagens e que, sensatamente, me enviou as viagens de Miguel Cadilhe (já tinha lido várias porque reúne as crónicas que escrevia para a Visão). É uma leitura fácil e que não farta mesmo se repetida, nem se incomoda com a lentidão do meu eu doente. Ideal para o efeito. Portanto, já li quase metade do livro. A prenda está meio comida. É claro que liguei à minha amiga. E, como sempre, não atendeu. Enviei carta em versão triplicada de sms. Voltei a olhar os cartões e as tintas. Pensei que era a minha vez de enviar o pacote que já tenho feito  para ela e a que falta apenas uma carta a sério e o cartão. Mas ela precisa de uma carta bem disposta (tem aquela mania parva da angústia) e não estava para aí virada. Adiei. E li mais um bocadinho.

         Portanto. Na sala, sobre os sofás, estão há que tempos, engomados e prontos, os enfeites de Natal. Acho que vão continuar meio mortos porque ainda não me apetecem escadotes. Isto de apetites a um escadote não é fácil de conseguir. A ver vamos.

 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

O Natal. Ah, o Natal da nossa infância. Chegava já os frios transiam e dava sinal no ramo de pinheiro armado fora do nosso alcance, onde o merceeiro suspendia, com cordel de embrulho, os pequenos chocolates do nosso encanto: peixinhos que oscilavam as escamas desenhadas na prata; rebuçados com recheio liquido e aparato farfalhudo no papel; pequenas tabletes da Regina, os nossos dedos imaginando o relevo sob a prata amarela e vermelha e a que os garotos garantiam queda certa (nunca aconteceu); um maço de cigarros de chocolate; um saquinho de rebuçados de meio tostão ou paladares; e uma prolífica quantidade de tabletes de cinco tostões, delgadas como dedos e de recheio execrável.  Na nossa ilha de pobreza,  não sabíamos de lugares com outros doces, de ruas feéricas, de gente enluvada e toda conforto a passear por elas, de pastelarias com toda a espécie de doçaria e pessoas que a adquiriam calmamente, sem um bater de pestana.

Nada nestes natais me faz saudosa deles. Não foram bons tempos. Mas a saudade é sentimento que isola os factores que  deseja. Natal era o amor de minha mãe pelos filhos e a sua tentativa de agradá-los fazendo mais doce o dia. E era tamanha a ternura que nenhum de nós o esquece e perpetua a tradição em sua casa. Ora vem isto a propósito de um programa de rádio, “A páginas tantas” (parece que não tem a ver, mas tem). Com grande pena da minha parte, o programa termina no final de Dezembro. Gosto da junção das três a falar de livros. Apesar das picuinhices birrentas de Rita Ferro a fugir para o lado de menina bem; das vezes que Patrícia Reis diz “amor” e “ó amor” referindo-se às duas colegas; da prontidão sem tréguas da Inês, investindo com a lança feminismo. Mas fazem o trabalho de casa, são fluentes e desinibidas e cada uma tem vida e sensibilidade próprias. E verifico mais uma vez que só sabemos falar do que se passa connosco (eu incluída), no nosso meio. Pois aquele trio denota alguma alergia ao natal. Por exemplo, são contra os presentes. Dizem elas que o ónus do trabalho recai sobre a mulher (Inês, claro), que só dão livros (Patrícia), mas sabem que os recebedores (a maioria) está já a pensar a quem irá dá-los. E fico a matutar, habitaremos o meu planeta? No meu planeta todas as prendas são bem vindas. Todas. E, por essa razão, não matamos a cabeça a pensar no que dar. Vamos comprar com muita alegria uma coisa que julgamos – temos quase a certeza – que agrada. No meu planeta, não há gente que já tem tudo e os outros cumulam de prendas. Também não concordo em dar livros a quem não os lê; quando muito, que se ofereça um livro e mais alguma coisa que a pessoa prefira mesmo, goste. Os presentes só os damos porque gostamos da outra pessoa, temos, também, de respeitar as suas preferências; ou não resulta. Do que tenho a certeza é que a maioria dos portugueses me faz companhia. E que o barco das três senhoras tem menos gente que o meu. Sendo também verdade que quem viaja no meu barco ouve pouco os programas de rádio sobre livros. E portanto, talvez elas tenham razão, falam para os seus ouvintes. Ali, sou apenas ave rara, coisa que não pertence. Gosto de comprar e oferecer presentes. Amo de paixão. Sei que os apreciam, usam, gostam, agradecem. E nunca será uma estopada. O Natal é a festa onde o meu coração se espraia.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Pé ante Pé

 

Se haja regresso da morte, se, promete que não me segues. Promete que não serás sombra nem luz, que não cristalizas na espera dos meus passos e não farás sobre eles o teu caminho. Promete que no impossível me dás a mão e ficamos lado a lado. 

Higiene Dentária

 

No cinema actual, muitas conversas ocorrem enquanto os protagonistas escovam os dentes. Bem sei que o cinema imita a vida, que é sintoma de quotidiano (os filmes antigos não tinham destas madurezas), mas que raio se conversa de escova na boca é coisa que não entendo; já me deitei a experimentar e não é discurso que se apresente, é que, se tal sucede, realmente, a uma pessoa, adia-se a conversa por uns minutos. A gente tira por segundos a escova e diz qualquer coisa como, um momento, estou a acabar de lavar os dentes. Mas eles não, eles vêm até onde está a outra pessoa, escovando sempre e mantendo o diálogo; ou vão dialogando enquanto se olham no espelho, a escova sempre a fazer o seu trabalho. A agravante é que dou em reparar que aquela gente não deve usar pasta dentífrica, vão mexendo, viram e reviram a escova dentro da boca e nada de pasta, nem um fio branco lhes espreita ou escorre. De saliente, só os altos da escova na bochecha, para cá, para lá. Pronto, é verdade que às vezes param só para dar a entender que a outra pessoa tocou com as suas palavras um ponto nevrálgico, pôs dedo em ferida. E fica aquele alto na bochecha, a mão parada no cabo da escova. Hão-de reparar, eles bochecham, bochecham, e sai só água. Oa isto dá que pensar. Será que ensinei mal os meus filhos, que aprendi errada a lição de escovar os dentes e sou só eu a olhar o espelho e achar-me apalhaçada, boca de bolhas e brancura de sabão em debrum. 

Ná, não me convencem.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Sombra Chinesa

 

                Quando corpo e mente entranharam o irremediável e a morte lhe foi real, Jaime desapareceu da aldeia por via de não perder os estudos, assim o apregoou Celestina. Grato pela dedicação da mulher e a pedido de Veridiana, Formosinho conservou-a no serviço doméstico. Que ele, bem se via, não dava para as coisas da casa; respeitador e bom patrão como não há, dizia ela a procurar salvar-se da má língua.   Ora, língua afiada em meio pequeno é coisa natural, mal que não cura. E logo, logo, surgiu o burburinho: que era mulher casada em casa de homem sozinho; que o marido tinha de pôr mão naquilo e nada; que quem sabe ele gostava do que, pela certa, lhe entrava em casa por portas travessas; que há muito corno manso; que coitadinho do Jaime; e havia até língua suja que aventava a anterioridade da relação, tudo vinha de há muito e a doença de Veridiana viera a calhar, o diabo tem sempre sorte. E mais. Havendo hipótese de costurar defeito, num ai os homens esquecem qualidades e vida provada. Mas, tal como nascem, se levantam e voam de uma boca a outra, assim, na ausência de provas a engordá-los, e por força da inteireza do tractorista, os boatos estiolaram. Celestina fazia o seu trabalho e raro via o patrão; o marido, mesmo fazendo cara feia ao diz que diz, não pôs prego nem estopa no assunto e, à parte ter-se travado de razões com o Dionísio da Brazilízia e lhe ter enfiado uns murros no focinho que foram aviso para os mais, era homem de respeito e pouca fala. Para mais, , dizia-se à boca pequena que só ele podia ter encomendado as duas comadres calhandreiras e maldizentes ao cabo da guarda. Não era segredo  que caçavam juntos, os cães à ilharga e arma pronta; à vista de todos atravessavam matos e planícies,  lebres e perdizes penduradas na cinta.  Embora ninguém os visse de amizade noutros lugares, a aldeia regozijou  com o castigo das linguarudas, para mais, sentindo-se cada um livre da acusação. Era tácito, havia ali a mão do tractorista. Chamadas ao posto da GNR, o carro dos cadastrados a buscá-las, ninguém soube o que aconteceu lá dentro. Passados dias, regressaram envergonhadas e mansas como cordeiros, não se sabe se arrependidas. O certo é que, por longo tempo, a viola ficou no saco e não houve boatos.   Formosinho, esse, talvez nem tenha dado conta do falatório. Ninguém soube onde o homem guardou os apetites, mas, perdida a mulher, jamais o viram de olhos cobiçosos para o outro sexo.  Na falta de quem o chamava por nome próprio, virou-se às vinhas, apostado em fazê-las crescer. O filho, entregara-o ao zelo materno e sentia-se estranho a cuidá-lo, para mais que já era rapaz e estudava longe. Mas as vinhas eram suas de nascença, corria-lhes a seiva  de mistura com suor e cada cepa era uma vitória . E depois, fora projecto seu e de Veridiana, era mister honrá-lo e dar-lhe seguimento. Lembrava-a debruçada sobre os bacelos novos, receosa de que não pegassem; as primeiras uvas e o cacho que comera logo ali sem atender ao pó do caminho, o trejeito entre o medo e desagrado, não prestam, e ele, sorriso confiante e a dar uma trinca, ainda não estão maduras; a  alegria de ambos na vindima a estrear, e o pisoteio das uvas no tanque, ela de saia regaçada e pernas contentes e tintas, uma cinta colorida até perto do joelho, as pontas da saia pejadas de respingo. Emudecia de ternura à vista das pernas dela  tão diversas por entre as masculinas, cabeludas e musculadas; e o seu orgulho na força de viver da mulher, no íntegro entusiasmo que era viço a percorrê-la. Enchia-se de uma saudade que lhe remexia as vísceras e era garrote a desarranjar-lhe os interiores se recordava o jeito morno de ajudá-la a deitar, aconchegando a roupa  ao corpo que sempre o surpreendia nos lampejos do amor. A fortuna que era tê-la a seu lado. Pensativo, revivia a solenidade da primeira garrafa de vinho a destacar na alvura da toalha, a mesa em festa.

 

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Cinema

 

Não sei bem porquê, mas penso bastante nas pessoas que não gostam de cinema. E penso ainda mais nas que gostam e raramente vêem um filme numa sala de cinema. As salas de cinema são lugares mágicos. A gente senta-se e fica ali a salivar, estilo ser desejante na expectativa de participar de uma boa história. Talvez seja pelo gigantismo das personagens. Ou pelo fundo musical. O certo é que, mal começa o filme, e sem que os personagens saibam, nos plantamos dentro da história. Creio que sejamos os únicos a vivê-la na íntegra. Que os actores têm de representar aos bocadinhos, quiçá sem sequência (quanto os admiro por isso). Dizem-me, ah, o cinema é pura ilusão. Ora essa, e por acaso não é disso que vivemos. Pois se vivêssemos apenas de realidade há muito nos tínhamos esganado uns aos outros e estava tudo morto. Mas há um prazer a que, de modo geral, não fugimos, e é o de sair dela. Uns bocadinhos por outros. Só para aguentar nova carga. Que a realidade pesa. Oh, se pesa. Pronto, ok, há vários modos de entrar nesse mundo de faz de conta e viver outras vidas (mas a brincar, sem perigo-danger, que não estão lá as tíbias cruzadas e nem a caveira). Podemos ler, dançar (ou ver dançar), cantar (ou assistir a quem canta), passear na natureza ou descobrir a arte humana em galerias ou edifícios, sabe-se lá o que agrada a cada um. Seja qual for a forma, a ilusão só é remédio se sairmos da comum realidade e vivermos nessa outra que buscámos. É um mergulho. E depois ficamos lá, debaixo de água e, enquanto dura, somos peixes. E nadamos.

Foi mais ou menos assim que assisti o filme de Nanni Moretti, “Três andares”. Um realizador que me agrada. Trata os conflitos por tu e possui a arte do quotidiano. A gente nem se sente debaixo de água, os seus filmes centram-nos. Os factores secundários são átonos: ninguém lembra o mobiliário, os cortes de cabelo, a beleza das actrizes, o modelo dos automóveis, a excelência da paisagem.  Sabemos, isso sim, que as  personagens tomam conta do enredo. Dão conta dele.


quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Pé Ante Pé

 

Chuva.  Água que entranha e a terra recebe em agonia, boca seca, lábios gretados. Oh, sede infinita que te persegue, fado triste de seres deserto, o sol um fogo que tudo assola. E torra.  E desmaia. Pudesse eu, e carregava-te no colo até inexpugnável fonte limpa. Ali te daria de beber, te aspergia o rosto, te reclinava, modesta e mansa, em sombra fresca de aroma bravio. E para  te adormecer havia de modular em doçura lenta, dolente e tão prosaico, um cantar alentejano.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Sombra Chinesa

 

Não esqueço a manhã morna e oblíqua em que Jaime desaguou na aldeia.  Pesaroso e sem mundo. Aterrado.  Vivendo como em filme,  personagem e espectador. Desde a violência de lâmina que o chocou inda a madrugada cabeceava, “o jovem tem de regressar a casa, sua mãe faleceu”, até à sugestão murmurada nos degraus do comboio, desce, desce, desce, a plataforma e o rosto do pai a fazerem-se próximos. Desde então, o mundo parecia-lhe cenário desarrazoado,  exibição sem chamamento. Notava até certa desfaçatez no dia que clareava, uma ironia desdobrada em luz, fazendo contraponto à sua escuridão. Ao sol, casas desordenadas branquejavam aqui e ali; nos campos, o feno acamado em paralelepípedo num jeito de prenda abandonada e sem laço; um tractor pressuroso a deslocar-se numa nuvem de poeira e ruído; galinhas em passinhos ocos, ziguezagueando o apetite desconfiado por capoeiras inóspitas, ou em monturos que espiolhavam como quem procura ouro em mina; e galos de passada larga, despedindo soberba em ademanes de patrão; cães que a fome adentrava pelos quintais, cheirando restos, virando latas e desfazendo-se em ladridos de atenção aos movimentos da rua e animais da casa. Que coisa essa de os sentidos continuarem funções e o mundo ignorar a estranheza da inaudita morte que o abismava. E ele crescido, casaco e gravata, ombreando com o pai, atento a tudo, esforçando-se por não pensar no precipício e na vida desarrumada, a evitar o pranto porque um homem não chora, bastava ver a tristeza seca e impenetrável do progenitor. E ambos recebiam abraços e palavras de conforto deste e daquele, e louvores gratos de tanta mulher a quem a mãe acudira, uma santa que Deus chamou por ser tão boa. Mas ele não lamentava a santa, talvez nem a conhecesse bem. Com e sem lágrimas chorava a mãe que só ele tinha.  Nos grandes desgostos, os homens não aguentam subterfúgios e as lágrimas, todos o sabem, amarfanham propósitos. Ora Jaime era  apenas um garoto em disfarce de rapaz, um menino magoado, trespassado pela evidência da orfandade, incrédulo do nunca mais que a morte escrevera no ser que mais amava. A falta  materna fazia-lhe incerto o mundo, tremia-lhe o chão e o desgosto escorria.

Nos dias que se seguiram às cerimónias, quando a casa tentava recompor-se de humores e cheiros, das flores, de tanto rosto e tanto passo, de rezas, crendices e promessas, do diz que diz murmurado por respeito a quem Deus já lá tinha, Jaime colhia ânimo fixando-se nas coisas. Amparava-se ao quotidiano, enchia-se de sons e ruídos, a tudo  dava atenção. Postava-se frente ao espelho perscrutando o rosto como quem espera sinal de bexigas, sarampo, uma febre tifóide.  Mas, fora a palidez e certo lastro triste, era o mesmo rosto de antes.  De outras vezes, perdia-se a olhar objectos que a mãe preferira; pegava, voltava-os na mão e repunha-os no lugar.  

Cada homem molda a tristeza como sabe e pode. Há os que se iludem e, assoberbados na dor, negam a realidade; noutros, os sentidos depuram e como que se vão sofrendo nas coisas apercebidas e nelas exorcizam a mágoa. A natureza de Jaime incluía-o nos últimos e, à medida que os dias corriam, a juventude insistia, estás vivo. Expedita, Celestina empurrava-o para os estudos e desdizia da solidão, vá ver os amigos da cidade, torne aos livros e à escola, era o que sua mãe mais queria. O pai, sempre por fora e sem a mãe para uni-los, pouco se deixava ver. Que andava pelas vinhas, dizia. Cada um disfarçando  a tragédia a seu modo. À vista um do outro, tentavam minimizar o próprio sofrimento, contrariavam a apatia, fingiam. Fingir era necessidade. Por vezes, um acto de misericórdia.

sábado, 20 de novembro de 2021

Sombra Chinesa

 

Poderia contar que Veridiana se finou num outono poético e partiu como quem adormece, qual folha desprendida pela aragem. Mas não seria verdade. Foi num outono de poesia, sim, mas morreu exaurida, roubada de si. A impiedade da ceifeira esventrou-a. Sem voz ou réplica, sobravam-lhe a pele colada no esqueleto e os olhos sofredores implorando sabe Deus o quê, decerto o fim. Só o coração, músculo em tudo teimoso, sustentava a agonia. E a vizinhança compungida, mais lhe valia morrer, dizem que vai um cheiro a morte naquele quarto que só visto. E, sem transição, acusavam, estes médicos não valem o que ganham. E em silvo desdenhoso, sempre à cabeceira, sempre à cabeceira, é um gastador de dinheiro e  mal dela se não fosse a Celestina do tratorista. Aquilo era dar-lhe uma injecção e pronto. Algumas avançavam certezas sentimentais, espera pelo filho, a pobrezinha; não morre sem ele. Ignoravam que, em fraqueza titubeante, reiterara ao ouvido debruçado de Formosinho, deixa-me acabar, depois o chamas.

Desensofrido e solitário, Formosinho entregava a mulher aos cuidados de Celestina e do doutor e rumava às vinhas, arrastando-se desarvorado por entre as videiras. Já sem fruto, as cepas avermelhavam e despiam-se suaves. Sobressaía-lhes a vida retorcida, os nós imitando sofridos aleijões, parecia-lhe que em  sintonia com o padecer de Veridiana. Alheado e como louco, enterrava sapatos e bainha de calças na poeira e, penitente, calcorreava torrões fora, somando horas de angústia e impotência que derramava como quem deita adubo à terra. À vista das vides e gavinhas apodrecidas que agora lhe surgiam padecentes, lembrava o sofrimento caseiro, o relógio parando nas horas doloridas. E era em vão que buscava culpas e justificações para tamanha crueldade. A harmonia vivida parecia-lhe já sonho, quimera evaporada por castigo da sorte.

Contudo, a natureza seguia o seu curso. Em cada manhã, o  sol rompia doce e igual e havia no ar uma serenidade de pássaros em ramo que anoitece. E a indiferença alegre das crianças  prolongava o mundo natural. Aproveitavam a temperatura acolhedora e, depois da escola, enchiam as ruas de algazarra.  Ou, em pequenos grupos, perdiam-se pelos quintais à descoberta de tudo, pedrinhas que brilhavam, lisos pedaços de tijolo pedindo ser atirados no jogo do pisa, flores coquetes que as garotas arrancavam para aninhar detrás da orelha ou prender com gancho; enfim, exploravam um nunca acabar de tesouros. Pelos jardins, flores fora de época enalteciam jubilosas. Senhoris, puxavam o colarinho dos atributos e sentiam-se raras; esqueciam que só o atraso de gelos e vento norte dava luz verde à basófia.

Não chegara ainda o agastamento desabrido da frialdade a chamar a pressa de gestos  e o cheiro a lenha queimada em dias soturnos que  almejam a tepidez do lar. Portanto, havia muito quem lidasse por fora e vislumbrasse o desvario de Formosinho. Ao longe, semelhava boneco desarticulado, ébrio caminheiro entre as longas filas de videiras. E as mulheres paradas, olhos fitos, persignavam-se, o homem anda desvalido que nem cão vadio.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Voltar

 

         Tanta vez a vida é o que tem de ser. Habituamo-nos. Corrijo, vamo-nos habituando a que ela nos contrarie as voltas, os desejos e anseios. Não que o hábito nos isole do sofrimento. Ao invés. Continuamos a mover-nos a desejo, sempre a desejo e esperança. A decepção e a mágoa  brotam dessa nascente que envolve expectativas goradas, castelos que afinal nunca existiram (que parvoíce, castelos), realidades feias demais, mas que se impõem e têm de ser.

Estou eu com estes ademanes, a fazer cama - por escrito -  a uma decepção a que fechei olhos (o desejo cega). Pronto, é certo que sou medianamente inteligente, mas tem vezes que funciono por likes, querem o quê. Não os do Face que nem tenho, mas os gostos amorosos, essa seda sentimental, cinta de pessoas e bichos. Bom, no caso, também alguns objectos, tive um despertador que me morreu de repente e foi como se me arrancassem uma unha a sangue frio. Portanto, está visto que era amor.

Pois é, leitor/a, foi triste o meu encontro com a Lili. A pobre está velhíssima, pouco vê, tem tumores e cataratas. Não creio que me recorde. O alheamento em que vive será um bem, está confinada ao sofá; ainda assim, teimava e queria voltar atrás e vir comigo. Nunca a Lili me festejou como a Violeta. A Lili era a doente e nós dois pensávamos (eu o pensei até à manhã de hoje) que a Violeta, toda alegre e irrequieta, lhe sobrevivia.  E não sabia eu que a Violeta era a mais nova, a que desatava numa correria mal me enxergava na lonjura? Sabia. Não sabia que era essa a que tinha morrido? Sabia. Mas acho que não quis saber. A minha consciência preferiu ignorar. Ou melhor, preferiu trocá-las. Portanto, era convicção, ia revê-la. Só que a realidade não deslaça. Impõe-se. Ordena. E eu sentada no anteparo do aqueduto a esperá-la. Imaginando-lhe os olhitos contentes e o pulo maroto que a deixava no meu colo. Mas chegou-me uma Lili cansada e vagarosa, velhice desinteressada do mundo. O senhor Zé notando-me a confusão reiterou, esta é a Lili, a mais velha. E ela dócil sob as minhas mãos, olhando-me triste como quem se desculpa da idade. A querida Lili que contra todas as expectativas, ainda resiste.

Penso no velhote prestes a perder a companhia de todas as horas e entendo-lhe a tristeza de fim de caminho. Confidenciou-me num encolher de ombros que o cardiologista já não quer operar. Cansa-se muito e a respiração, por vezes, é difícil. Mas não vai haver cirurgia.

Triste de quem é velho e pobre. De quem fica anos em espera, aguardando uma cirurgia que, diz o senhor doutor na consulta esperada, agora já é de temer, não vale a pena.  É isto que vale um velho sem dinheiro, pedidos ou conhecimentos. Só ele (devia bastar, não?). Uma vida de descontos e trabalho.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Voltar

 

É sabido que, de quando em vez, me nascem necessidades parvas e altero a ordem dos dias. Dos dias é como quem diz, nascem-me sextas-feiras a torto e a direito. Hoje, o dia inteiro foi sexta. Até aos milésimos de segundo. Até no forro e no avesso da nervoseira dos segundos, dentro dos bolsos fundos das horas, nas bainhas descosidas dos minutos. Sexta feira no completo de si.

E, portanto, deu-me para experimentar o passeio de quando andava sem pensar que tinha pés. E fui assim pela frescura apetecida de uma manhã feita bebé birrento. Que bom encontrar as mesmas casas a cheirar a lume de chão, e o cão que me segue em silêncio até ao fim do muro, por certo intrigado, que anda esta mulher a fazer no cedo. E o que eu desejava mesmo era ver a figura do senhor Zé lá ao fundo com as cadelitas. Anelante, virei a curva. Olhei. Nada. Devo estar mais pitosga que só dei pelo velhote já ele estava próximo. Atravessei a estrada procurando as cadelas que ficam para trás a cheirar tudo, ou entretidas em cumprimento animal, conversando de assuntos caninos, focinho com focinho com um cão ou outro que por ali vagueia. Mas não. O senhor Zé era árvore na beira do caminho, mais encorpado, cabelo embranquecido de todo e na figura uma tristeza resignada, um não te rales desleixado. Dei-lhe o meu sorriso mais amplo e saudoso – ou dos mais – e, a esquadrinhar as imediações inquiri, e elas. O velhote com olhos vagos, a Violeta morreu com um tumor; e a olhar-me, a Lili já não aguenta o caminho, está em casa, pouco sai do sofá. Fiquei sem acção, completamente desasada. Talvez tenha dito duas ou três frases das mais palermas que entremeava com,  e agora já nunca mais as vejo.  E saíam-me uns ós de pesar que não ajudavam. O velho moía o desgosto, não precisava o meu contributo. Mas a minha mente embarrancara. Não mais nos sentaríamos no muro a conversar, enquanto a Lili me saltava para o colo e a Violeta mirava do chão com seus olhos de catarata. Abalholhada, quase esquecia o saquito que trazia e lhe passei para a mão. Foi a primeira vez que o senhor Zé agradeceu. Antes, não éramos disso, o saco mudava de mãos como água que corre. Foi um obrigado que me soube a palmada nas costas. Para me dar ânimo. Ainda arrisquei, arranja um cãozinho pequeno. Mas ele negou, a minha idade já não dá para esses trabalhos.

Mas, quando me despedi, até segunda, virou-se para trás e, vem na segunda, então trago a Lili. Eu sei, vai parar muitas vezes para descanso do animal. Mas estou tão contente da atitude, tão contente por afogar a saudade da Lili. Apressei-me a desalojar o “nunca mais as vejo”.

PS: dói-me a porcaria do pé. Mau Maria.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Era uma vez...

 

E tudo foi simples e se fez próximo nesse mundo feminino e palavroso, as vozes em crescendo. Pena a mesa angular que impedia visão comum. E é certo, o vinho instala espírito festivo. Alma e corpo distenderam com  a sangria, as conversas avivaram, os nós residuais de súbito deslaçados. As aias, voltando atrás no tempo, serviam-se mutuamente como quem está em companhia de tu cá, tu lá. E brindavam. Aos brindes faltaram apenas os versinhos antigos que faziam os avós, “vou beber este copinho com muita alegria, viva a nossa professora e mais toda a companhia”.  Mas os avós das quadras, que é deles. Hoje, elas são as avós. E talvez não façam saúdes rimadas e populares. Mas brindam. E a princesa ergueu o copo e fez tchim-tchim. Linda e alegre na sua serenidade comovida por via da festinha.

A degustação foi sem mistério e a contento. Pode mesmo dizer-se que acrescentou o espírito que as animava.  E depois, é de praxe, num almoço de mulheres, sobremesas são necessidade: o bolo húmido de chocolate, uma tarte que podia ser de leite ou limão, a sericaia, um bolo de natas. E talvez antes, durante, ou depois da doçaria, a hora grata.  O álacre ramo de flores que a princesa-professora recebeu de suas aias, as palavras bonitas que o coração ditou na hora e sem ensaio. E a professora comovida, uma irremissível e púdica lágrima logo disfarçada por dedos cúmplices; a lágrima a teimar, deixem-me escorrer, por que me cortam o caminho. E a professora a recolhê-la mudamente, os dedos falando por si, não, não; as emoções  não podem desaguar ao ralenti, somos os moderadores. E talvez que uma aia maravilhada, embevecida por entrever um coração numa lágrima que quer esconder-se e assim  se faz mais pura, relíquia que se guarda e reluz na memória.

E não foi de deitar fora a hora dos licores: de poejo e bolota. Tinham a ver, somos Alentejo, caramba. O de poejo, esmerado em sabor e álcool, agradou largamente. O de bolota, quase insalubre (como o fruto) e apenas doce. Sem explicação plausível, apesar da disparidade, os licores desceram festivos.

Da torrente de conversas e sugestões, ficou a promessa de repetição  – quiçá na primavera de 2022 –; uma reportagem fotográfica que, salvo a foto de grupo e uma ou outra a pedido, não foi notada senão quando a doce autora no-la fez presente; e a lembrança de era uma vez um almoço, guardada no cofre pessoal e identitário da memória.

Um Bem Haja a todas as participantes.

 Obrigada, Querida Professora.

Era uma vez...

 

Era uma vez um almoço.  E, como em todas as histórias, havia nele uma  princesa e suas aias. Seguindo o curso dos contos e as leis dos homens, umas lhe seriam mais próximas que outras, mas a todas queria bem. Algumas sabiam-lhe um ou outro gosto, juntavam-se-lhe em amenos passeios nas áleas do jardim, gostavam de a ouvir discorrer. Amavam o seu pensamento claro, os projectos, o enraizado amor à vida. Mas, sobretudo,  apreciavam a forma discreta e sempre elegante de dizer sabendo ouvir, a atenção que lhe merecia cada uma das companheiras.  Que as princesas de verdade treinam a escuta, faz-lhes parte da conversação.

Registe-se que o quotidiano da nossa princesa e seu séquito de aias seguiu a norma, cedo lhes veio o consabido tempo da separação. O castelo ficou para trás, cada uma escolheu ou foi escolhida por caminhos e trilhos que correu até ao fim ou arrepiou. E, em diverso passo, todas verificaram que pouco o homem escolhe e só as preferências do coração resistem à fugacidade. Quando resistem. Se. Ficou-lhes a memória. O único elemento que permanece e não pode ser sonegado é o ter sido. Hoje, serão outras de si mesmas. Mas jamais perdem quem foram. Os meandros do castelo que agora lhes surgem envoltos em pobreza acanhada, já fizeram parte do seu mundo de sonhos e pequenas raivas, animaram tropelias e amizades esfumadas e que, à época, se julgavam eternas. Era ali que a princesa moderna pisava e fazia mundo, sapatinho de salto e saia justa, impecáveis vestidos com gravata,  esbelta miss em invejada meia de vidro. Se o passado as visitava, as aias pensativas, por onde andará. E logo,  oxalá seja feliz. Cada uma relembrando seu episódio. Que a discreta princesa cuidava por suas aias. E em todas, qual perfume que não dorme,  morava o seu jeitinho exemplar.

Foi talvez desta base de gratidão e amizade respeitosa que a ideia brotou. Será porque a princesa regressada. Ou por amarmos o imutável de cada um e nela vibrar intacto, pedra de toque com o passado. Terá acontecido por força de reencontro com aia mais atenta. Pois que seja. A ela/elas devemos o almoço de era uma vez. 

Soavam as treze quando se juntaram num misto de confiança e estranheza, cada uma em busca de rosto que antes lhe foi próximo, desvendando detalhes que a  idade mascara, certa forma de olhar, o tom de voz, a linha do nariz ou da fronte, o riso. E a discreta princesa contente, revendo-se nelas; tão jovens  as de antes; e agora mulheres no outono da vida. Outras. De certeza, outras. Mas não completamente.

(cont.)

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Sombra Chinesa

 

Embebido em si, Jaime agradeceu retornar aos estudos sem passar por casa. Sentia-se inseguro quanto ao bem estar materno, mas o instante desejo de permanecer desanuviado justificava-lhe a convicção de melhoras. Distância, desconhecimento e juventude velavam-lhe a realidade. E  aliviava na ausência de notícia. Descontraía. Empanturrado de liberdade e sonho, via-se  capaz de fazer caminho por si e tomar partido,  deixando a aldeia  e a tutela no passado, qual roupa antiga onde o corpo já não cabe. Queria mudanças. Construía castelos. Projectava. Estudar e ser doutor, ganhar nome na cidade. Antevia-se de bem com a vida, repimpado em casamento feliz, pessoa de respeito a que os colegas de café acenavam com agrado, mãos procurando lépida cadeira e abrindo espaço na mesa. Descoberto o juvenil poder da amizade masculina, e assente na lembrança de garoto solitário, decidia-se por um círculo de amigos, selecto e bem humorado, de longevidade e coesão invejadas. Mas, apesar da imaginação à desfilada, a saudade insistia. As malas chegadas da terra traziam-lhe os cuidados maternos. Revia a preocupação da mãe a vasculhar o quarto e espreitar a mala aberta, ainda assim não olvidasse algum pertence ou necessidade; vinha-lhe o eterno chão de ternura entretecido de pormenores; os poucos conselhos; as surpresas escondidas sob roupas e livros e de que só dava conta no desfazer da mala; o aconchego dos braços na despedida, olhos que, na impossibilidade de segui-lo, derramavam, saíam de si, palpitavam na exaltação inquieta das mãos, corriam-lhe o semblante e, protectores, se afirmavam no todo do corpo, a querer memorizá-lo, fixar dobras e vincos, captar sombras e penumbra.

Não era ainda a saudade irremediável, funesta, que modifica os interiores do homem, porque só dentro de cada um existe a verdade possível, só o pensamento nomeia e qualifica. E a morte ainda não existia em Jaime. Mau grado a estranheza sentida na ausência das pequenas surpresas sob a roupa, o escrúpulo de Celestina suprira mais desconfianças. E a juventude fazia o seu papel.

Deste modo, enquanto Jaime se afirmava e eu crescia, enquanto a filha do Pelinhos vivia alegremente de amealhar em fins de semana por montes e lugarejos, toda a aldeia estava ciente da morte iminente de Veridiana e a lamentava como se já o facto consumado. Restava apenas a dúvida acerca de Jaime, será que o pai o chama antes, ou depois da morte. E as mulheres com seus lamentos de agoiro, coitadinha, tanto que ela gostava do filho, vai-lhe atravessado. Outras, pobrezinha, anda ele todo lampeiro lá pelos estudos, sabe-se lá a fazer o quê, e ela aqui neste padecer. Ou ainda, que Deus não se demore a chamá-la, está fartinha de  penar e tanto sofrer não se deseja a ninguém, o Formosinho está um caco, nem parece ele. Mas, até ali, as invejas chegavam em seu disfarce de apertar xailes ao peito, Deus o dá e Deus o tira, Ele lá sabe porquê.

O irrefutável da morte chegava com aviso. Muitos tinham reparado nos corvos sobrevoando a casa. Três dias a fio, no alvor matinal, as aves proféticas a assinalaram, revoluteando sobre as telhas. Era certo o odor fétido, nada a fazer.

 

 

sábado, 23 de outubro de 2021

Sombra Chinesa

 

         Esfumada a francesa, a dupla revigorou. Jaime extasiava perante senhoras e jovens de alta roda que ousavam o fato de banho. Mas, nas praias que correu, raro as viu em tal preparo. Dizia-lhe Paulo que no Algarve é que era, ou nas praias do Estoril onde havia mesmo menina que, num duas peças decotado, varria o juízo a um homem .  Nas praias alentejanas, não. Tantos dias eram ovos goros, nem um assomo de fêmea. Mas, na estada em Porto Covo, aldeia minúscula de pescadores e praias pequenas, encontravam por vezes uma ou outra mãe de família no recato da barraca listada, a sopeira sempre à mão e por conta da prole, um pescador contratado para carregos e guarda costas. As madames - à média de uma ou duas por praia –, matronas enfarpeladas e pouco apetecíveis,  bordavam ou aborreciam-se na sombra da lona estirada sobre a entrada. Não era bem visto ser trigueira, tom que quadrava a trabalhadores braçais. E a gente citadina fazia gala na distinção, que, vá-se lá saber porquê, sempre a cor da pele serviu para dividir os homens. Seguindo os ditames da moda, as damas empoavam rosto e demais pele visível, olhos e boca a ressaltarem da alvura. Só os mais informados sobre tendências e usos estrangeiros o saberiam, mas a era da pele de leite estava de partida. A elite horrorizava o rosto escuro de varinas e pescadores e protegia-se. O sexo feminino embiocava ou exibia chapéus de aba extensa, revessava melancólico e besuntava produtos para clarear a pele. Mas deitava disfarçado olhar à destreza dos braços morenos e musculados dos homens. Mais tarde, no confessionário, “tive maus pensamentos”, uma atenção de ventosa ainda agarrada à indiferença de membros retesados no esforço de puxar cordas e redes. Neles, o ranço de cheiro a peixe. As damas desagradadas de si, mirando-se num espelhinho, cheias de boquinhas e trejeitos. Mas a ventosa. A perturbação. Um remoinho interior de abraços morenos a confundi-las, mas que quero eu. E davam por si a invejar o desplante das varinas de língua fácil e roda de tamanco habituado. As varinas que ondulavam em perna pela rua, eterno bandeio de saias enodoadas, sementeira de escamas e escorrimentos, canastra à cabeça, um filho ou outro nos calcanhares. As damas retocavam o pó de arroz e o espelhinho mostrava o rosto pensativo que eliminavam com um estalido.

Jaime e Paulo eram deuses dourados, folgando pelas areias no entusiasmo de mar e céu, uns dias por outros atrevendo-se a banhos. Banqueteavam-se pelas tabernas, riam e conversavam horas a fio, Paulo cumprindo papel de anfitrião. Adormeciam de bem com a vida e, durante o sono, Jaime era seduzido por sereias de terra metidas em estonteantes duas peças e tinha sonhos molhados e exaustos de que acordava entre o susto do coração descompassado e o prazer do corpo a deslaçar. Pensava às vezes em Veridiana e procurava imaginá-la a melhorar, nos olhos um lampejo da força antiga, o corpo ganhando energia. Vivia a desejo, como a sua mãe agradaria.  Descobria-se na novidade do mundo.

 

terça-feira, 19 de outubro de 2021

Ritual

 

Guardei-te. Em saudade e doçura. Pés para a frente e cabeça para trás, olhos difíceis a mirar-te a definição horizontal de espelho luminoso. No desejo de conservar-te assim todo um inverno, de seres em mim cálida e suave, debruada por terno recorte de serra em fundo. Aos poucos, o dia dobrava-se sob oblíquos raios de sol e a poalha dourada e outoniça enchia o ar. No céu sem nuvem, uma gaivota deslaçada e sem pressa. E no fofo da areia, em saltinhos de mau jeito, como quem teme vidros ou picadela de cardo marinho, quatro corvos passeantes. Lá em baixo, as vagas cresciam e vincavam soberanias. Diziam brusca e estrondosamente que o mar se fechara em si e, em longos braços de espuma, varriam a praia deixando lençóis rendados  que entrelaçavam em ressaltos de água e areia. Longe do mundo, eu lia Tchekov e lagartava, o sol fazendo caminhos na pele.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Vida Contada

 

Voltar onde se foi feliz é tentação a que cedo com frequência. A mesma praia; os mesmos amigos; a mesma sala de cinema; os mesmos programas de rádio. Há um ror de anos, considerava-me moderna, arejada, aberta à sedução da novidade. Hoje, verifico o meu conservadorismo. É provável que tenha cristalizado o amor à terra e suas maravilhas; a preservação das amizades mais fundas; os meus amores mais intrínsecos e olorosos por quem me deixaria esquartejar, se necessário; e a minha impossível nuvem de sonho, liberdade que não há, mas quem/o que seríamos sem sonhos.

Portanto, a Gulbenkian. Lugar de pequenas maravilhas onde mais nos sentimos unidos ao mundo. A beleza ata-nos ao universo, puxa pelo melhor de cada homem. E quanto lamento que, neste país, o belo apareça tão elitista. Que o ensino nas escolas a não fomente a partir de um programa inteligente e sensível.  Que crianças e jovens não tenham a chance de a contemplar nas suas vertentes, ou dela beneficiem apenas e se, em sorte, lhes cabe professor que a preserve. É liminar, não se opta pelo desconhecido. Pode acontecer, mas o princípio aristotélico mantém-se, o que não acontece nem sempre nem quase sempre é excepção. Ora, o espírito de um povo não se forma nem modifica com excepções.  A cultura através da arte amplia o espírito: produz abertura e aceitação, flexibilidade mental e capacidade crítica. É minha convicção que, mais do que a filosofia para crianças, uma educação que preserve a beleza e a harmonia, que eduque o espírito para a necessidade do belo descerrando-o e trazendo-o à rua de todos os homens, fará mais pelo espírito crítico e dará melhores resultados. Claro que é apenas convicção, mera hipótese pedagógica.

Na Gulbenkian, sou sem passado nem futuro, uma espécie de reunião dos tempos, a fragmentação elidida pela harmonia. Apesar da malvadez da máscara, puro inferno no calor deste outono; apesar do meu cansaço que resolveu assentar arraiais naquele fim de dia e me espapaçar no conforto do lugar; apesar de ter fechado os olhos por uns bocadinhos e me virem frases desgarradas que não sei mesmo onde se formavam que nem parecia que vinham de mim, mas era no meu ser que se manifestavam. E portanto não houve qualquer epifania, mas tão só uma olímpica estranheza.  Ainda estou para saber por que raio só me vinham frases e qual a razão de as ter olvidado por completo (não recordo uma para exemplo). Ora, em meu entender, os enigmas pessoais não são de resolver, fazem parte dos mistérios de cada um. Acontecem. Deixemo-los pois entregues a si mesmos.

Mau grado as vicissitudes do regresso, trouxe comigo a esperança de poder repetir. Luz bruxuleando ao fundo do túnel. A espreitar-me. Que beleza.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

MIGALHAS DE MIM (plagiado)

                                          

         Há pessoas que nos interpretam sem disso terem conhecimento, dizem-nos no completo de nós e como não saberíamos fazê-lo. Espelham-nos. Na realidade física e também no sonho, que sempre o desejo nos move e acicata e cada um é o que é mais o sonho que o alenta. E, dos dois, só o sonho desmede, que a realidade nos fixa e determina ao mundo da norma.

         Pois é. Anos e anos a ler o blogue Tempo Contado. Dia atrás de dia. Umas vezes em concordância. Outras nem tanto. Algumas em aberto desacordo. Mas a alma de escrita está lá, em tudo que sai daquela bendita pena. E muito lastimo quando o autor me falte  e siga a lei da vida, que é também a da morte. Ficam as histórias, os livros, os pensamentos que vai deixando nas crónicas e no blogue; quiçá nas entrevistas que não leio, nos possíveis vídeos que decerto abundam pela net e ainda não bisbilhotei. E portanto. Não acrescento. Basta ler o que escreveu e de que sou copiadora assumida. Cá vai. Julgue-o cada um como entenda. Para mim é uma preciosidade. Profunda.

 

"É contigo que falo, me abro, deixo entrever boas e más horas, te mando em código sentimentos, abjurações, raivas, alegrias. É para ti que componho frases onde tudo está e tudo se esconde, a aparência mascarada de realidade, o acontecido embrulhado em fantasia, o eu tantas vezes multiplicado que não reconheço a própria sombra e desconfio que não seja minha a voz que julgas ouvir.

Falo-te e contudo não existo, nem sequer como me imaginas, porque a todos os momentos me refaço. Escondo e escondo-me, reapareço, invento-me. Iludo-te com palavras, e elas, fazendo ricochete, transtornam a imagem que de mim formas, a do espelho em que julgas ver-me e onde nunca estou.

Falo, tu escutas. Parece realidade mas é só aparência, distância e sonho, a bela ilusão do possível que nunca acontece, o poder volátil do desejo tonto. Enfio palavras como contas num rosário de orações, sem credo nem sentido, ignorando que música te farão ouvir, ou se de alguma dor sentirás alívio.

São só palavras, migalhas de mim, sacudidas com fingido descaso, mas na esperança de que, se as apanhares, te dêem a ilusão de que estivemos a falar e nos compreendemos."

 

Não é uma preciosidade?

 

domingo, 10 de outubro de 2021

Amélia

 

 Foi nesta hora que Violante descabeçou a nova. Um olho no salta-pocinhas empoleirado no escadote a limpar a prateleira dos barros toscos e vidrados, e outro na registadora cheia de dedos numerados e mãos de trocos, anunciou como quem não quer a coisa, o salta-pocinhas arranjou madrinha, não querem lá ver que  a Amélia se ofereceu para lhe tratar da roupa. Qual odor invasivo, um vento de admiração insinuou-se por toda a loja. Silêncio. O salta-pocinhas entesou no escadote e o cutelo da carne estacou a meio caminho, machadadas absortas sob o punho do Januário. A estupefacção arrebatava os quatro cantos do mercadito. E, logo logo, o burburinho despudorado, um cacho de mulheres junto à caixa, o quê, como é que é isso, conta lá. Lá atrás, silêncio canino. Perdigueiros  de orelha à espreita, os homens respigavam a novidade como quem não quer nada. Violante, gaveta da registadora aberta e satisfeita de si, sem atender o pedido mudo do garoto, pois é o que eu digo, a Amélia toma conta da roupa do salta-pocinhas. Que o gaiato é como os mais, não passa do portão, a Amélia é assim, que se há-de fazer, aquilo nem é bem um portão, é o balcão das trocas. Pois não vemos todos como vende o leite e os queijos. Mas as mudas aparecem cerzidas e sem nódoa, botões cosidos e emparelhados. E, apartando uma barra de sabão que embrulhava em papel de jornal, reconhecia, que até me deu jeito, isso é verdade. Tomara eu dar conta das minhas coisas, quanto mais andar de posse dos trapos do salta-pocinhas. O mulherio, olhos de raio x complacente fixo no fogo que enrubescia a atrapalhação do garoto, reconheceu, anda mais limpo, isso é verdade.

Ora, cumpre informar o leitor que salta-pocinhas, roubado à solidão de um monte, pertencia  a família numerosa e grata a Violante por lho tirar de casa. Menos uma boca. No contratado por bate-boca, constava o direito a cama, refeições e idas à escola. A contrapartida era ser pau para toda a obra, sem folgas ou ordenado.  Salta-pocinhas, um saltarico magricela e bem disposto, eterno lápis atrás da orelha, era o preferido da clientela que, em adequado desvelo de bem querer, breve lhe deu alcunha. Só na escola D. Assunção do Pereiro teimava em chamá-lo pelo nome, Manuel António, vai ao quadro. E, o mais das vezes, salta-pocinhas mudo e quedo, desligado do nome que lhe pertencia desde sempre. Porém, no mini mercado detinha rapidez sorridente e imbatível. Além disso, para que negá-lo, os clientes sentiam-no como um dos seus, irmanado na má sorte que os fazia contar os pretos e os brancos, poupando a vida das  poucas notas  que bailavam no interior das carteiras e malas de mão. Era de lei que salta-pocinhas nem um dedo na registadora, fazia a conta no papel de embrulho que o cliente levaria para casa. Sabiam-no em piores condições de vida e isso dava-lhes inédita oportunidade, podiam pôr a uso a superioridade compassiva, coitadinho do salta-pocinhas. E sentir-se bafejados pela sorte, acima dos salta-pocinhas da vida. O dinheiro que ali deixavam era água que o garoto manejava sem pertença; logo, demonstrada a sua transparente honestidade no mister das compras, viam nele uma espécie de querubim sem asas, pontinhado e sujo, sempre de cara alegre.