domingo, 29 de julho de 2018

Diários


Ando imersa nos Diários de Virgínia Woolf graças a um daqueles cheques-prenda que dão tanto jeito e me rareiam. Capa cartonada e tudo,  que presentes assim  merecem fatiota a condizer.  A forma morosa de lê-los é que me atrasa. Por razões que não vêm ao caso e por ser livro de peso, leio deitada, a virar-me de um lado a outro a cada página. E breve me aborreço deste ofício de leitura tão dado ao movimento. Mas, ainda assim, vou lendo.
Não cheguei ainda a meio da obra. E se de início me arrependi da compra, logo, logo, me surpreendeu o gosto. Desagradou-me o esmiuçar dos dias, saber quando fazia pão de passas ou comprava um vestido; assistir às casas que deseja e visita, às que compra e porquê, ao tudo e nada que a perturba ou incentiva na escrita. No entanto, é de uma honestidade sem filtro. O Diário inicial apresentava-se manuscrito em cadernos - escrita corrida e de alma aberta - a que se propunha dar tratamento posterior (pretendia editá-los na velhice como memórias).  Prende-nos o traço contínuo da sinceridade. Não poucas vezes, a escritora volta atrás a corrigir, precisar ou sublinhar o que deveras sente e nem sempre é auto elogioso.  Reconhece ser muito vulnerável à crítica de qualquer espécie e verificamos que afunda em tristeza tanto por lhe arrasarem um artigo ou romance, como um chapéu ou vestido. 
No entanto, manifesta um invejável ímpeto de trabalho. Ao contrário de escribas actuais que mergulham na obra e nada mais lhes ocupa a mente, Virgínia mantinha intensa actividade intelectual, só quebrada por doença. A par dos trabalhos de edição – alimentava uma editora caseira com o marido – havia sempre obras que queria ler e lia; artigos que escrevia como jornalista e crítica; e o grego que estudava afincadamente até escrever, por volta das duzentas páginas do Diário (tem umas setecentas), que já consegue ler no grego original com a ajuda de uma cábula. A reconhecida necessidade de ocupação mental é factor memorável - são inúmeros e hei-de voltar ao Diário mais vezes e sob outros ângulos - que se adensa à medida que o livro faz caminho e se nota em meticulosa e repetida programação de actividades. O trabalho intelectual propicia-lhe uma base sólida para a escrita. Mas também os encontros e discussões com amigos e os passeios pelo campo ou pela cidade a revigoram.
Dona Virgínia, queira aceitar a minha humilde e eterna gratidão por não ter desistido dos seus cadernos. Mesmo.

domingo, 22 de julho de 2018

A Pequena Sereia


Ontem fui à praia. Dia quente, céu  limpo. E a água imensa e transparente, ondas frigoríficas a espreguiçarem-se pela areia num langor de terno beija pés. Terno mas frio em demasia. Estava eu no cerimonial de reserva, a arrepiar-me em bicos de pés e por completo nas beirinhas, carnes recuando até ao possível, quando reparei, bem na minha frente, uma moreninha de franja risonha, toda dentinhos de leite. Perguntei-lhe se não tinha frio e ela às voltinhas dentro da água, a garantir prazenteira, a água não está fria. Duvidosa competente, olhei o fundo dos olhos escuros e o fatinho de banho minúsculo que a água ondulava de prazer e perguntei, tu não tens frio? E ela num ademane contente, a desvendar o mistério com a mesma certeza, não, eu sou uma sereia. E eu finalmente a compreendê-la, oh, muito prazer, logo vi que pertencias ao mar. Ela pouco importada com o estatuto, a convidar, anda, a água está boa. Mas eu, e como é que te chamas, sereia? Anita. Sereia Anita, que nome bonito, comentei. E ela, e tu? E quando ouviu o meu nome assentou indiscutível, o teu também é bonito – e insistiu, anda, a água não está fria. Justifiquei-me, é que eu não sou sereia. Mas aceitava-me a condição de simples mortal, olha, queres que eu faça ballet para ti, queres ver um passo? Eu, faz lá. E logo uma perninha graciosa no ar e os dois braços em harmonia de bailarina, um  atrás, outro à frente; um em baixo, outro em cima. Desvaneci, Oh, que lindo. Ela a repetir bem na minha frente, faz lá tu agora. E eu, paquiderme em movimentos leves que tanto admiro,  contristei, eu não sei ballet. Ela repetiu graciosa, é só assim, vês; faz lá, não custa nada. Eu a esconder que tinha vergonha, acho que não sou capaz. E ela sem transição, olha podes fazer antes este, e deu uma voltinha em bicos de pés, braços no ar. Eu estarrecida do momento, inebriada da graça, a desejar ter aprendido ballet para ficarmos as duas a dar voltinhas dentro da água de que até esqueci a friúra, acho que tenho de ir para o ballet contigo, tu onde é que andas, para me ir inscrever. E ela, olha, é ao pé da rua de Portugal, andas mais umas casas e vês logo a porta. E fez mais uns passinhos em bicos de pés, a água pela cintura.
Depois a mãe chamou e a sereia Anita saiu correndo. Três ou quatro anos de esplendor inocente que a vida me pôs aos pés.

domingo, 15 de julho de 2018

Crónica Feminina


A leitura foi uma descoberta a que num ápice ganhei hábito. Mas hoje já não me empanturro de páginas. Leio de gosto, com o vagar que a mente dita, isenta da sofreguidão antiga. Deixei de aspirar ao fim do livro. Ao contrário, o fim é o que menos me interessa, agora degusto a escrita da obra inteira. Esta nova forma de olhar filmes e livros veio-me com a idade. Na minha terra diriam que estou a tornar-me “pascôncia”  regionalismo assaz específico e que suponho ser equivalente a “pascácia”. É que, se suspeito o final, dou por mim a desligar a tv ou o portátil em economia tempo; a ver um filme em três ou mais sessões como se de série se trate; a passar à frente nas cenas de sexo por me desinteressar e aquele afogadilho me indispôr a bolina.
O certo é que, por mais que o cinema me mostre um certo rasga-a-roupa a que parece atreito, não me convence. Como nunca me convenceram aquelas brigas cinéfilas em que a vingança feminina é temperamental e desaba em gritaria histérica entremeada com o atiranço destemperado da loiça mais à mão. Perde-se a loiça, a casa fica uma miséria dificílima de limpar - os cacos aninham-se nos lugares mais estranhos e reconditos, anda uma pessoa seis meses a apanhá-los. Os homens, é claro, saem de cabeça mergulhada nos braços, cotovelos aparando cacaria e vidros perdidos que isto com os olhos todo o cuidado é pouco. E no final do descosido caso, as geniosas solitárias, em vez de satisfeitas com o estardalhaço e contentes por pô-los com dono, desatam num choro mais desenfreado do que o de qualquer pacata mulher que só use tal forma de desabafo. Não se aproveita nada.
Portanto, creio poder concluir que a mulher portuguesa não foi o modelo das fitas do cinema. Teremos falta de génio, pouco dinheiro para comprar loiça nova, os homens portugueses são uns brutamontes dominadores...sei lá bem. Cada mulher pense no seu caso, que eu vinha só escrever sobre o diário de Virgínia Woolf, mas descambei. Paciência.

Humano Sentir


Tem oitenta e alguns anos e ressalta-lhe a vitalidade que mingua em tanta gente mais jovem. Afirma-se incapaz de parar. Mas usa bengala e mal mexe as pernas. Acumula cirurgias uma atrás de outra e, em lume brando, ajeita um cancro companheiro dos finalmente. E não pára, é verdade. Os dedos de crochet artrítico desmancham-se em rendas infindas e originais que procura na net; lê artigos que lhe interessam; vigia o regurgitante pátio do recreio, ovo borbulhando garotos que a respeitam e gostam. Obedecem de boamente à sua brandura suave, interessam-se pela saúde que não tem, compensam-na do carinho que tanto falta entre iguais.
Pelas férias, chega pontual num comboio que fala alentejano por todos os lados do seu vagar. Não vem apenas por mim. Vem pelo lugar onde viveu quase metade da vida. E começa a romagem: bebe café nos mesmos sítios, mete conversa com caras conhecidas, pergunta pela família, inquire dos progressos dos estudantes. De seguida, rumo à casa que foi sua e onde se perde corredores fora em conversas de amizade, imagino que um ferrão de nostalgia a afundar por dentro do sorriso aberto. Depois degusta o meu almoço cuidadoso - a última cirurgia foi de foro gástrico - e mastiga com prazer filial na retoma  de tempêros de mãe. Tudo lhe agrada e experimenta com satisfação ingénua de primeira vez, legumes cozidos, saladas, doces, bolos, fruta. No final do almoço, nova visita. É um dia embebido na alegria de rever amores antigos que contrariam a lei do efémero sentir.
Ao comboio de regresso chega de coração cheio, cansadíssima. No dia seguinte, descansa, a alma ainda engalanada.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Alfabeto da Saudade


Invejo gente que se senta nas esplanadas de café e vai ficando por entre conversas. Não é o poderem estar, que também eu posso. Invejo o espírito leve dos que se sentam no presente e parecem não ter amanhã. Oiço-lhes riso e murmúrio de conversas que  alinham ao retoiço de chávena em pires e tinir de vidro na mesa. Gente que não se esfalfa a pensar em faltas de mercearia, horas de almoço ou jantar, roupas por arranjar. E outras larachas. Bebem ali a sua eternidade. Quando se despedem, viram anjos nocturnos e rumam a uma casa arrumada, o jantar em espera. Incríveis donos do bom humor.
Hoje, passei ambivalente ao rés  de várias esplanadas siamesas com a Nacional. Ao lado, meu olímpico pai perorava longamente sobre os amigos de infância e as hortas e searas e eiras substituídas por toldos, mesas e cadeiras; lastimava as mulheres que em seu tempo eram bem bonitas e agora vê magras e encorriadas; discorria sobre automóveis e jurava por tudo que os carros alemães avareiam menos que outra marca qualquer; intrigava com a fisolofia que não percebe para que serve, mas desconfio que tem em alta conta; desbaratava exaltações com os chóninhas (condutores masculinos) que me ultrapassavam. De caminho, entremeava bençãos a todas as rotundas, atirando eloquências deselegantes aos desmandos do país. Tudo a eito. Sem um bater de pestana.
Enquanto isto, estou de chofer e dona de casa mental. Além de guiar, invisto-me do uso de pontuação na verborreia. Ele fala, eu arrumo e dou sentido. Ponho vírgulas  e travessões, faço ponto final parágrafo e mudo de linha, uso os dois pontos, as aspas e etecetera.
E portanto apetecia-me antes ser anjo de esplanada e bebericar bolhinhas gasosas. Nada feito. Meu pai navega à bolina da infância, agora contabilizando desgraças, “morreram na miséria e tão ricos que eram”. E ainda acrescenta com piedade de falsete, certa vitória a espreitar-lhe a voz, "tiveram azar, perderam tudo". 

sábado, 7 de julho de 2018

Eternidade do Efémero


Vi-o entrar com a criança ao colo.  Sem carrinho ou suporte.  Oh, rara atracção dos olhos. Sustinha-a junto ao coração, sentada sobre o braço esquerdo e amparava-lhe as costas com o direito. Teria menos de dois anos, talvez uns vinte meses de t-shirt  e bonequitos azuis no calção curtinho em chumaço de fralda, mãozinhas rechonchudas a descansarem nas espáduas do pai. O homem sentou-se e colocou o bebé no banco em frente e logo a urgência de um bracinho estendido o levou de novo ao colo, peito com peito. E vislumbrei a energia da chupeta, olhos e cabelo castanho em anéis largos. Não teria mais de ano e meio, o corpinho de pato  unido ao do pai, chupeta abaixo e acima, os dedos de uma mãozinha papuda a festejar o pescoço do homem, jeito de confiança prazeirosa que toda se embebia na mornidão da pele, enquanto a outra fazia e desfazia um caracol num vaivém de enrola-desenrola, sinal de bebé que quer dormir. O metro parava, prosseguia e voltava a parar. Julguei que adormecia.  Mas eis senão quando se endireita, tira a chupeta e desata a beijar o pai. Beijava-o sem solicitação e onde lhe chegava a boca, no bocadinho de peito que lhe espreitava da camisa, no queixo barbado, na lateral do maxilar inferior. Ele não riu, não a apertou mais. Ele, só uma centelha que lhe saía do olhar e fazia verdade o verso do poeta, “ e a vida pára também a ver”.

domingo, 1 de julho de 2018

Vida Feminina


Eram as catorze horas quando me sentei no metro. Ninguém enfronhado no  telemóvel, abundância de lugares vagos. A passageira em frente repousava muito quieta, olhos fechados, saco transparente dependurado no braço. Dentro dele, uma babilónia caseira. O que as coisas dizem de nós! Destaquei dois ou três desenhos infantis feitos em folhas de caderno e dobrados a meio, uma bolsa mais pequena, uma revista também dobrada, uma lista de compras, nariz no plástico: ovos, esparguete, polpa de tomate, pão. Reparei na bata branca cuidadosamente dobrada no assento ao lado. Seguia para um turno de trabalho, talvez numa farmácia. E eis senão quando pareceu acordar. Decisiva. Lançou olhos ao saco e retirou a bolsa. Correu o fecho e a sabedoria das mãos encontrou um espelhinho redondo que abriu num clic. Procurou de novo. E surgiu com um tubo que destapou.  Apertou-o e logo uma lagarta ocre  foi aparada na palma da mão esquerda. E enquanto o metro parava e arrancava, entre estações e nelas, procedeu metódica à colocação do creme no rosto. Com a mestria de quem está em sua casa frente ao espelho. Retirou uma porção maior e espalhou-a pelo conjunto do rosto até esbater qualquer vestígio, depois molhou apenas o indicador e entre ele o médio repartiu o creme pelas pálpebras; fez o mesmo com a zona do pescoço e boca que entretanto entreabriu. Podem não acreditar, mas a uniformidade do creme deu-lhe certo ar de pêssego, um ar  que imagino faça comichão nas palmas dos homens que soslaiam suspirosos, oh,  descer-lhe os dedos pela face. Bom. Depois acobreou ligeiramente as pálpebras superiores com um pincel que passava por uma caixinha. Voltou a arrumar e retirou o rimel com que embasteceu e alongou pestanas. Finalmente mirou a obra, corrigiu o sobrolho com um lápis preto, passou um dedo na linha dos lábios a desfazer restos de base. E novo clic do espelho logo fechado na bolsa que retomou o saco. E na estação seguinte, saiu, bata no braço. Sóbria. Elegante e competente como ela só.
No banco ao lado, o mundo natural. Uma teenager inconsciente da própria beleza, cachos de caracolinhos africanos e olhos de azeitona preta, abria claridades só de olhar.