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quinta-feira, 27 de julho de 2023

Sombra Chinesa

 

Enquanto um enxame de pés pisava de cor veredas e atalhos, as mulheres, ainda atarantadas, todas surpresa e ansiedade, continuavam conversa. E arvoravam o encanto de trabalho que deixava mimosa e estimada a família que servia a seus senhores, gente que entrava jovem e por lá crescia e amadurava, mãos sem gretas onde a sujidade não incrustava senão de leve, faces macias e subtraídas à agrura dos ventos, o rosto liberto do tisnado da soalheira, água que corria de torneiras; e mais maravilhas. E, à medida que anteviam desgraça atrás de desgraça nessa Lisboa de incógnito fim de mundo, acudia-lhes à memória a última visita da criada para todo o serviço e compraziam-se na diferença, salientavam-na, exaltavam-na até aos píncaros que conseguiam. Que as próprias não se demoravam a explanar a vida por Lisboa. Não propalavam que o afamado quarto era uma arrecadação junto à cozinha ou um sótão desconjuntado, perpassados de cheiros e odores de prejuízo, divisões que não jogavam com o resto da casa e a princípio as aterrorizavam; era um resmalhar de ratos ou ratazanas, fontes de pesadelo a roubar-lhes o repouso, elas em posição fetal, cabeça enfiada dentro de cobertores. Não falavam da desconfiança da patroa que contava as peças de fruta e os doces e acusava cheirando o ar, “as tangerinas são muito alcoviteiras”; calavam a diferença nas refeições, os maus tratos dos meninos, os atrevimentos do patrão, os humores da senhora e até de outras criadas se as havia. Não diziam que da capital conheciam a rua onde moravam e não iam além da mercearia de bairro onde entravam com tempo contado. 

Mas, na vida de quem sobrevive, cada um vê o que quer, e as mães impressionavam  com a destreza de mãos que se apresentavam limpas e sem calos, e invejavam mansamente o rosto empalidecido de prisão doméstica. Auto convenciam o espírito renitente, foi o melhor para ti, olha como estás boa de pele. Não se perguntavam como é ter onze, doze anos e servir em casa estranha, sem mão amiga a encaminhar, ou presença que oiça desabafos e acalme estoiros de saudade; não lhes viria ao pensamento o facto de as filhas crescerem a sós com os mistérios do corpo? Desconheciam a frustração de vir da fome e entrar na abundância proibida; ignoravam a humilhação de provar do fruto proibido, levar umas porradas e ser descontada a prova no salário com a ameaça “se não andares na linha conto aos teus pais que és ladra”. E custava-lhes a entender que, no último dia, elas se despedissem como se as esperasse degredo longínquo, uma aura triste a sobrecarregar-lhes a figura.

E, enquanto tal supunham e lembravam, iam imaginando uma avalanche de desgraças na capital. Cumpridores, pés e pernas não se escusavam à função e, sem que o grupo desse pelo caminho, desembocou no local de trabalho. Também os homens não estavam em si. Esquecidos de colocar ao fogão a panela do almoço, assoberbavam em discussão de espalhafato e a que não se via fim, tal o entusiasmo. Entregues taleigos e cabazes àquela a quem competia nesse dia a cozinha, o grupo feminino voou numa angústia até ao núcleo de homens. Queriam saber novas de Lisboa e do que por lá acontecia. E todos a falar à uma: parece que é uma revolução.  Elas extáticas, afrontadas pela estranheza. A Olívia pestanuda, uma inadvertida mão coçando a cabeça sobre o lenço e a dar voz ao pensar do mulherio ainda estupefacto, uma revolução?! Que é lá isso?

domingo, 23 de julho de 2023

Sombra Chinesa

 

O dia amanheceu previsível. Em vulgar claridade primaveril, a aldeia foi acordando por camadas: primeiro os pastores, depois homens e mulheres que trabalhavam longe e tinham pela frente uma hora de caminho, em seguida os que laboravam na aldeia; e, por último, as crianças de escola e os velhos doentes que se avinham uns com os outros ou a sós, desenvencilhando-se da cama como podiam. Um dia igual a tantos. Os pastores cumpriram o costumeiro e aventuraram-se aos pastos no espírito de sempre. O rancho de homens e mulheres seguia a caminho do trabalho, os homens ouvindo o rádio pequeno, pertença  do da V5, solteiro e bom rapaz, aparte acelerações espaventosas se via garota de encher o olho. Transportavam-no à vez, um dia um, um dia outro, a despesa das pilhas dividida pelo rancho, que a vida custa a todos. Entretinha-os a música, os “reclames”, uma ou outra notícia de que não entendiam a extensão; ouviam de inaugurações e presidentes, factos alheios ao seu viver e de que casquinavam, “mais uma para o corta-fitas”. Pela hora de almoço, o rádio pertencia às mulheres que avançavam o volume e ouviam o romance, um mar de cabeças afogando o aparelho. Porém, nessa manhã soalheira, houve um súbito de diferença. De quando em vez, os homens amontoavam em volta do rádio, pernas esquecidas de caminhar. O grupo das mulheres, que os seguia em cacho barulhento, ultrapassava-lhes a estupefacção e eles tardavam a retomar a dianteira. Isto até que, em resposta a tantos olhos de interrogar, o da V5 bichanou ao passar, parece que há borrasca lá por Lisboa. E ao estado de alerta masculino seguiram-se as palpitações das mulheres, foi outro tremor de terra? Ai valha-os Deus. Ou foi desastre? Não me digam que foi aquele comboio que anda debaixo do chão. E benziam-se a lembrar conhecidos e família que por lá se ajeitara. Preocupavam-se com irmãs e filhas que serviam em casa abastada, recomendadas pelas senhoras da herdade, a Menina Maria Francisca e Dona Maria do Pilar. E as duas a convencer os pais, é gente séria e só com dois filhos, uma moradia com tudo do melhor, que mais querem. Recebe o mesmo que se fosse ao campo, têm de ver, ainda é muito novinha. Salvam-na de trabalhos pesados e ainda a sustentam, a vestem – anda fardada – e lhe dão dormida. E ultimavam o incentivo dirigindo-se à garota, vais ter quarto só teu, viva o luxo. E ela que adormecia num catre aberto todas as noites à beira da chaminé, via nisso grande vulto. Contrato aceite, partia com seus donos novos, os pertences numa trouxinha de nada a que se arrimava como se fora corrimão de escada. Levava o desgosto de deixar a aldeia e os seus, mas devorava-a a curiosidade, ia conhecer a capital desconhecida, terra de encantos imaginários. Garotas da miséria, ignorância de doze ou treze anos espigados ou rechonchudos. E os pais a empurrá-las, no desejo de evitar dificuldades maiores, vai, vai, é melhor para ti, livras-te da enxada e da foice. Os pais com a mente em cifrões e escudos, fazendo contas à vida - menos uma boca a alimentar e o catre podia arrumar-se até ela vir de férias, que isso nem de ano a ano; e ficavam ansiando a paga que a patroa se comprometia a entregar quase intacta, que sempre precisaria de algum para os seus alfinetes. Portanto, todos lucravam.

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Sombra Chinesa

 

O tempo não se compadece dos homens, não pára a sofrer-lhes as lágrimas, nem espera que se aplaquem ditos e mexericos. Exclusivo, gira na duração que parece infinita, indiferente a humanos, bichos e demais bens perecíveis que nele surgem e esvaem sem causar mossa.  Como sempre acontece, a vida da aldeia andou em frente. A mãe de Liu resolveu-se a aceitar mais horas de trabalho extra e não alugou os cómodos, “fica para a minha Liu, qualquer dia casa e já tem um tecto; assim como assim, já não vou para nova e sempre fica por perto”.

Correram meses e o povo perdeu a esperança de ver regressar os fugitivos, habituou-se à casa fechada. A ausência de Jaime, que antes era hábito, foi menos sofrida; não havia dele a mesma necessidade, os rastos deixados eram leves, sacudiu-os a brisa. Sem alimento, as conversas foram morrendo de cambulhada com as folhas de outono que o vento varria ou apenas mudava de lugar avolumando em monte sustentado por atrito capaz. Ficou a memória do caso. E a fosforescência da filha do Pelinhos.

Quando o inverno se apresentou, talvez por falta de mais assunto, e ainda que por via indirecta, Ernesto voltou a ser notícia. Todos os pesares se voltavam agora para Nunes e Francisca que, sem novas do filho - continuava sem visitas -, temiam o pior. A aldeia espiava o carteiro e havia mesmo quem, ao vê-lo despontar nos fundos do caminho, se dirigisse à mercearia a fim de apurar a correspondência. Mas o merceeiro passava os olhos pelas cartas e  dava-lhes uma nega de cabeça, olhos de desânimo e como que a pedir desculpa. E logo se levantavam hipóteses, se calha, morreu e nem os pais sabem, diz que a polícia política é do pior, matam sem castigo. E havia quem trouxesse um tio, um primo, um conhecido de alguém que estivera preso em Caxias, lugar concreto que todos desconheciam e de que o parente contava alguma coisa. Falava da PIDE e das suas incalculáveis  sevícias:  os presos eram sujeitos à tortura do sono, que é como quem diz, não os deixavam dormir dias e noites a fio;  encandeavam-nos por horas e horas, uma luz forte assestada ao rosto, enquanto os esbirros na penumbra, inquisidores e malvados, talvez a bater-lhes sem dó para haver mais efeito. Naquela aldeia perdida de notícias, gente dobrada por salários de miséria e cargas de trabalho, sabiam lá eles como era a vida dos presos políticos, ou o que os levara à revolta. Ouviam dizer que os pides inventavam torturas, negavam-lhes a ida à casinha e, quando não conseguiam reter-se, sovavam-nos, chacoteavam deles e obrigavam-nos limpar atirando-lhes insultos dos piores; e negavam comida e água enquanto se banqueteavam à vista dos pobres famintos. Tudo faziam para que denunciassem outros revoltosos, tanta vez gente simples e revoltada que apenas lutava por vida melhor para todos. Compadecida, a aldeia assumiu sem palavras um compromisso de silêncio, guardou para si o que sabia. Poupava aos pais a certeza do sofrimento. No que é incerto espreita ainda a esperança, tudo que seja hipótese, para o bem e para o mal, não lhe fecha portas.

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Sombra Chinesa

 

Zé da adega apascentava as ovelhas imaginando o impacto da novidade na aldeia. Sabia-o ele, aquilo ia cair que nem bomba. Portanto, não assistiu ao burburinho das mulheres esquecidas da lida e coalhadas perto da casa, hipóteses como hélice de motor, rodando, rodando; não escutou as suspeitas em zunzum de vespeiro alumiado de sol; não ouviu proclames e receios, perdas só então sentidas: era a mãe da Liu lamentando a fonte de rendimento que se fora; era a lamúria pela ausência de comércio tão à mão; era o fim das sugestões grátis e bem esgalhadas, os toques de moda barata que incentivavam o imaginário de cada uma e, num tempo de publicidade directa, criavam necessidades; era o mimo à compradora, embrulhado em elogio sempre pronto, mais o livro de assentos a engordar parcelas em clientes de paga certa; eram, apesar de não verbalizados, os ganhos daquelas que ainda tinham dívida pendente e assim se viam desobrigadas; era privação de vizinhança que acudia na desgraça; era haver, “inda bem não”, algum dislate da filha do Pelinhos a adubar as conversas.   Bem vistas as coisas, aquela partida significava o retorno à mesmice aldeã. 

Também não se debruçaram sobre sentimentos, não avaliaram sem peias a decepção de Jaime ao saber que o objecto do seu amor rodara para parte incerta, feito cometa. Jaime estava absolvido, ponto final. Para ele sobraram uns restos de curiosidade mórbida, queriam observar-lhe o sofrimento, ver até onde chegavam os sortilégios da amante, que danos provocava a saudade quando se transforma em irremediável fantasia. Que, a Formosinho, todas julgavam entender, o homem defendia filho e património. Podia lá ser, um garoto de estudos e com posses requeria mulher a contento e não aquela requentada e ignorante tendeira que devia o protagonismo à beleza e desfaçatez. Ninguém lhe verbalizou sentires. Fechada a porta e reposta na condição recomeçaria noutro lugar, que aquilo era gata de telhado, tinha sete vidas. Havia de prender a cortina noutra janela, alimentar um jardim, criar novas clientes. Não a imaginavam chorando sobre leite derramado. Nem pensaram que, havendo amor, tanto sofre quem parte como quem fica: é a falta que conta, tudo o mais são insignificâncias.

Porém, quando todos esperavam um Jaime meditabundo e vago, percorrendo sem nexo caminhos que antes o faziam feliz, nada aconteceu. Passou um dia, dois, três…, intrigadas e receosas, as mulheres delegaram função em Deolinda a comadre de Celestina que a abordou no regresso a casa. E ela num cansaço lacónico e moído de alma, decerto sermão encomendado por Formosinho, o Jaime partiu há três madrugadas para os estudos e não sei mais; quando cheguei de manhã, já não havia sinais dele. 

impiedosa versão da aldeia  reinava no bate-boca. Se era arremedo ou amor de perdição moderno, ninguém quis saber. Não havia quem conhecesse o romance ou sequer a Camilo Castelo Branco. Os amores de perdição eram outra coisa. Chegavam em poemas vendidos porta a porta e faziam chorar as pedras. As mulheres emudeciam atentas à história que o vendedor desfiava a partir de fiadas de letras certinhas, um negrume de formigas que, não se percebia como, alumiava desgraças e paixões nunca vistas. Ouviam-nas quadra a quadra, a entremear lágrimas e exclamações, ai tão bonito, é de partir o coração. E limpavam os olhos aos dedos grossos e encardidos, retalhados por antigos cortes de faca; algumas disfarçavam secando fragilidades na ponta do avental, enquanto o coração se desfazia em ternura penalizada.

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Sombra Chinesa

 

Na meia luz da aurora, as flores do jardim lamuriavam a desdita desde a força das raízes. O desamparo corria seiva fora e propagava-se às corolas a empalidecê-las, adoeciam mansamente. Em justíssima tristeza -tinham assistido a tudo -, reconheciam ser preferível um súbito da morte. O abandono era expiação, a vida a ir-se aos poucos; e acrescentavam que talvez as ovelhas pudessem ser mão no gatilho e pôr cobro ao conta-gotas da desgraça. Presas à terra, sobrava-lhes a amargura do afastamento que não podiam secundar e adivinhavam irrevogável. Zé da adega, fosse pelo contacto com a natureza, fosse por dom natural, mantinha secretos diálogos com as flores - entendia as doenças e as alegrias, escutava os pequenos segredos, compadecia de quezílias e vaidades. E tinha boa paga, elas debruçavam-se inteiras a festejar-lhe os pés, perfumavam-lhe as mãos, sorriam-lhe por pétalas a desprender e polvilhos de pólen, e alvoroçavam desde os longes de vê-lo - já se sabe, um longe de flor é o perto dos homens -. Quando Zé da adega entrava em casa, Virgínia sentenciava, tu entras e cheira a campo. Por vezes, num ressalto de perdigueiro, aspirava-lhe o braço peludo a conferir, tens cheiro de prado. E ele inteirinho no braço, o resto do corpo emigrado sabe Deus para onde. Ele agradado da atenção, a sentir o nariz junto à pele, subindo em tracejado respirar, o calor morno e todo suavidade de respiração, exalando ternura bem humorada. Ele em vénia mental, grato às flores silvestres. E em jeito de justificação, os pastores cheiram a outra coisa, à mistura de suor e natureza. Mas, no íntimo, duvidava. Perguntava-se se seria assim mesmo, ou se tudo advinha do entendimento extra com que nascera e nunca divulgara, não fosse quebrar a magia ou passar por maluco.  No entanto, estendia às ovelhas o banquete. Procurava em campo aberto os melhores tufos, as florinhas mais gostosas. E, se as observava a remoer, desculpava-se, o ciclo da vida não deve ser interrompido; assim como assim, vida de flor pouco dura.

Digo eu e concordará o leitor que a brevidade está inscrita no ADN de alguns seres delicados, pertence à fragilidade ser altamente perecível. Quanto ao Zé, sujeito que sabemos de romantismo fácil e fugaz filosofia, andou para os montes sem mais pensar, um assobio à preguiça sonolenta do cão, vai lá Farrusco, e, cajado em riste, apontava as tresmalhadas. Lá ao fundo, a casa clareava no seu posto, despida de gente. A digerir mais uma morte à revelia.

segunda-feira, 26 de junho de 2023

Sombra Chinesa

 

Quando a tarde se despedia, a majestade do crepúsculo a fazer-se anunciar em tons rosados pelo horizonte, a aldeia sofreu tremura de curiosidade mórbida. Vários pares de olhos arredondaram na surpresa da carrinha do Chico manobrando para descer a ladeira e, num ai, estacionou na rua de casa. No ar, um retardatário bafo de calor lembrava o dia encalmadiço, mas a nova correu célere e sem afrontamentos. Foi como se uma orelha gigante e receptiva invadisse a atmosfera. Era convicção comum que Formosinho estava por detrás deste acontecer. E desta feita não houve decepções nem engano: o Chico parou o carro e, desligado de mirones ou de saudar a vizinhança, entrou numa pressa, fechou a porta e, sem mais – não sou eu a dizê-lo, mas quem ouviu -, desatou às porradas. Contudo, apesar de ninguém em presença, ficou a certeza: o homem bateu e foi batido –  a filha do Pelinhos, fosse qual fosse a condição, não era mulher de sofrer pancada. Dela, não se ouviu um pio, nenhum queixume; e, se lágrimas houve, caíram silentes. Não fora o fragor de objectos espatifados, mesas arrastadas, o desancar e partir de cadeiras, mais os vitupérios embrulhados em ódio e atirados como adagas, quase se podia pensar que brigava e barafustava sozinho. Ouviram-no vociferar até altas horas da noite enquanto fazia o que só Deus sabe, passos para aqui, passos para ali, murros nas paredes, a violência de sentimentos um empecilho ao sono, a impedir-lhe o coalho. Agitava-se por todas as divisões da casa, qual queijo deslaçado que não conhece cinta, numa inquietação de cólera e desgosto que se adivinhavam nas pisadas, no rangamalho dos objectos, na exaltação da voz que, contra a vontade, denunciava pesares de requiem. Da filha do Pelinhos-ela-mesma, nada se soube. Quando a vizinhança teve sossego e pôde descansar, quando a adrenalina, enfim, desceu e sobreveio o cansaço, a aldeia mergulhou na urgência silenciosa de sono pesado.

Mas o tempo – ou será a vida - não se compadece com os desaires dos homens, os dias exigem sequência e continuidade. Mal os alvores da manhã se anunciavam, já Zé da adega abria a cancela do curral e punha as ovelhas ao caminho. No avultar difuso do monte, logo o pastor intuiu, o Chico e a filha do Pelinhos tinham partido: a carrinha evaporara. Fez-se próximo. A casa apresentava-se inviolável, sem nesga por onde espreitar. O postigo da porta, tímido e desasado, uma sombra de si mesmo; faltava-lhe a graça do rendado habitual.

domingo, 18 de junho de 2023

Sombra Chinesa

 

A uns, como a Zé da adega, confrangia o fim da novela. Àqueles, sob aparência moralizante e capa de decência religiosa, acicatava-os a inveja da possível sorte dos amantes, do “não te rales” a que a filha do Pelinhos sempre votara mexericos, e da sua índole capaz de esquecer a condição e dizer sim aos anseios do jovem. Que aquilo era tudo menos amor, sentenciavam a reprová-la por boca  e olhos. Era mau caminho da carne, capricho de um juntamente  com descoberta do sexo no outro. Mas, no íntimo, as invejas pequenas eram cobras contorcendo-se em desejos de liberdade que nunca satisfariam em pleno senão de si consigo. Que havia dois lados e a gente de bem só podia estar num deles – a condenar. As mulheres, sem que o afirmassem, e mesmo incapazes de admitir tal fenómeno, invejaram a liberdade a que a outra se resolvera. E daí lhes veio, em ondas crescentes, o  rancor: impiedosas, trouxeram a lume o seu andar de nariz empinado, a vaidade, a cegueira que a possuía quando sovara a filha, o estouvamento com os homens e que só sabiam por tanto não saber, que na aldeia ninguém tinha que lhe apontar. Desenterraram e acrescentaram esqueletos num diz que diz imparável, e até o facto que a orgulhava nos negócios, “sou de boas contas”, veio a ser achincalhado e posto em dúvida. Havia uma má vontade geral nascida na diferença que a filha do Pelinhos representava. Afrontava-as que fosse decidida e muito senhora do seu nariz, facto que acentuava a inabilidade e insignificância a que elas mesmas se votavam, sombras mais ou menos obedientes de homens de pouco valor. Não lhe perdoavam a beleza natural, os olhos esverdeados de gata, a graça com que apanhava a saia no subir das ladeiras.

Mas Afonso, o Formosinho de todos, também cegara. Não deu pelos olhares que o seguiam, não absorveu a cupidez desejante de sangue, de homens a quem a filha do Pelinhos rira na cara desprezando-lhes as secretas pretensões; não adivinhou o estardalhaço que se esperava. De vigia, Zefa do Prado sentiu um arrepio à vista de Formosinho descendo a ladeira e a encaminhar para a porta vizinha. Ainda ela no estupor gaguejante de aviso não aviso, e já ele batia decidido.  E, portanto, não preveniu, não houve sequer o sinal combinado para situação de perigo, umas quantas batidas rápidas na parede comum. Nada.

É certo que a filha do Pelinhos não esperava Formosinho. Mas, nem ele vinha armado de varapau, nem ela era mulher de grandes assombros. Ou talvez já o tivesse pensado, talvez imaginasse que o pai de Jaime por ali viesse a tirar satisfações. Quando contou os factos, Zefa estava segura que a porta se abriu às primeiras batidas e ele entrou. Na aldeia ninguém soube palavra do que houve. Zefa bem apurou o ouvido, bem o encostou na parede, mas, decerto com propósito, a filha do Pelinhos e o pai de Jaime encontravam-se na divisão oposta à de parede comum. Falavam baixo. De porta fechada, apenas se entendiam sussurros que levaram a mulher a concluir que Formosinho fazia a despesa na conversa. Uma hora inteira e não houve uma exaltação, um murro na mesa, uma recriminação mais ostensiva. Quando o homem saiu, a porta não bateu com mais força que a devida e a casa ensimesmou na paz de sempre.

terça-feira, 13 de junho de 2023

Sombra chinesa

 

Ninguém soube dizer quando e como chegou a notícia a Formosinho. Talvez por observação simples num intervalo das vinhas, que os namorados tomam mundo à parte e, presos em mente avoada, não são difíceis de detectar. Acresce que, sem desvelar o segredo, Jaime se acautelava com pouco jeito; de tão jovem, confiava. Ou talvez fizesse perigar o secretismo por, de forma inconsciente, ser modo de dá-lo a saber sem confronto. A cobardia – e não apenas ela -, jovem ou não, foge do confronto. Por outro lado, no caleidoscópio pessoal de Jaime, o amor sobrepunha e, com frequência, atordoava em euforia e ilusão. Nesses momentos, julgava-se invencível e armado contra o mundo, via-se elemento de par indivisível. E não será isto o que acontece aos amantes?! Não lhe vinham dúvidas pela falta de proventos próprios, não lhe ocorria que a condição de estudante o fazia depender do pai, votava a canto escuso o facto de dormir em cama alheia e com mulher que lhe não pertencia senão de coração. Com o evoluir da relação ganhava futuro, projectava. Mas, do outro lado de si, minava de receios não isentos de culpa e protelava a novidade a que Formosinho tinha direito.  De outras vezes, toldado pelo ouro da ilusão, convencia-se que o amor tudo supera e leva de vencida. Acreditava que, aclarada a situação, o Chico havia de o esmurrar. E dava-lhe razão, julgava que ser sovado era preço da carta de alforria. E que, desfeito o imbróglio e paga a dívida, seriam livres. Que, arrumadas as parcelas umas sob as outras, faltava proceder à soma antes de começar conta diferente. Tudo lhe surgia simples na vida complexa: sonhava que saíam para o sol de mão na mão como outra gente, cessavam de se acobertar no silêncio da noite como ladrões que eram. A paixão era jovem e exacerbava. E, dessa efervescência borbulhante de vinho que fermenta, ausentava-se a lógica e a razoabilidade; tampouco considerava os imponderáveis que saem ao caminho dos homens, acrescidos do transtorno dos acasos. Dentro da circunstância, podemos bem acreditá-lo de alma inocente, todo fogosidade e enlevo. Mas que dizer da filha do Pelinhos, mais velha e experiente, vendedora afamada que tirava benefício das fraquezas dos outros e jamais perdera para um homem. Que procurava em Jaime, o orgulho satisfeito e a vitória da vaidade? trazia o rapaz pelo beicinho, sabia-a toda. Brincava aos amores e ele era incauta vítima.  Entontecia-o pelo agrado de o sentir rendido, e o Chico, esse, não era visto nem achado. Não a atazanava a traição, o engano não lhe bulia com a consciência.

Mas quem assim imagina – e a aldeia imaginava -, nem sempre acerta. O imaginário constrói-se sobre o mundo de cada um e o resultado delata também o sujeito que supõe e enforma o objecto pensado. De resto, quem seria capaz de ver na força couraçada da filha do Pelinhos um ser frágil; quem anteciparia que o apego a Jaime fosse também amor inocente; quem, sequer, arriscou a dúvida: será amor de verdade. Ninguém.  Na mente comum tudo se resumia em poucas palavras: leviandade e falta de juízo da mulher que a aldeia admirava sem adopção. Mais velha, casada, mãe, negociante de mão cheia; ninguém o notara, mas seduzira-o, o insólito era obra sua, fêmea de belzebu. A ele desculpava-o o mundo, era inocência de Sansão nas pérfidas mãos de Dalila. Portanto, quando Formosinho desceu o valado e bateu à porta da filha do Pelinhos atropelaram-se sentires.

terça-feira, 4 de abril de 2023

Sombra Chinesa

 

Por vezes, mercê de movimento espontâneo, os homens copiam a natureza. Espíritos mais avisados sentem na quietude do ar uma agitação, palpam na luz diária os nós preocupados da existência, sofrem angústias vindas de onde. Tal como animais que adivinhando tempestade correm a esconder-se na toca, a alma amarfanha-se em vincos dolorosos e, dobrada por amarguras incompreensíveis, entristece de coisa nenhuma. Isto sentia um ou outro habitante da aldeia intuindo desgraças com acuidade idêntica à de abutres cheirando a morte. Sentia-o Zefa do Prado, santa de pau oco, vizinha e mental protectora dos dois amantes.

  Mas os dias corriam gráceis e luminosos e os trabalhos de princípio de Verão continuavam a ocupar mulheres, homens e crianças. Os namoros começados nos bailes da pinha davam em nada ou progrediam junto a  portas e janelas, policiados por crianças mais ou menos impacientes com a função e sempre prontas a desertar, no que eram secundadas e mesmo instadas pelo par.  Contudo, a bem dos bons costumes, logo mães vigilantes lhes afinfavam um estalo e as recambiavam ou as levavam por uma orelha até ao posto. Então, os enamorados separavam-se aligeirando os impúdicos enleios da paixão e retomavam conversa de meninos bem comportados, as mãos interrompidas ainda moldando gestos, dedos aquietando-se em desilusão; e as garotas-namoradas a alisar a blusinha de dralon na atrapalhação delatora de certo rubor indiscreto. Por dentro do orgulho dos progenitores -um namoro era já uma vitória -, os pais mergulhavam em sentimentos dúbios: desejavam as filhas arrumadas e avaliavam a nova distribuição do espaço em casa e o ganho para os mais novos que se aboletavam num catre como sardinhas, a cabeça de uns junto aos pés de outros. Mas ocorria-lhes também a féria que perdiam e a machadada na conta da mercearia; eram dois braços de trabalho  a descontar.

Entretanto, os pais de Ernesto choravam nova provação do filho. Por qualquer ignota razão, encontrava-se de novo sem visitas. Francisca imaginava os desvarios dos guardas prisionais e o sono fugia-lhe. Noites e noites a pé firme olhando o nada de todas as coisas; ou na cama, de olho aberto, a mente desenfreada e sofrida, próxima da loucura. Emagreceu até ao osso e os cabelos embranqueceram-lhe. O desgosto cavou-se a esmo pelo rosto ainda interessante. Idêntico processo sofreu Nunes. A mudança tornou o casal uma sombra. O filho mais novo, tornado macambúzio, ressentia-se da falta de atenção. Vivia por cafés de reputação duvidosa, fazia amigos que os pais não aceitariam em casa, faltava às aulas. Tudo nele adensara o “olhem-me, reparem-me” que vinha de trás.

Mas, por mais namoros que despontassem, o orgulho de exibi-los sempre activo,  o romance proibido de Jaime eclipsava-os. Se aos primeiros esperava o desfecho previsível, no caso de Jaime e da filha do Pelinhos havia demasiadas incógnitas e, verdade seja dita, a poucos interessavam os amores propriamente ditos. Pairava no ar uma ânsia de escândalo que crescia como bola de sabão e, num acto de misericórdia, todos pareciam esperar que rebentasse por si.

terça-feira, 21 de março de 2023

Sombra Chinesa

 

O amor tem suas prerrogativas, tolda a vista e o juízo dos humanos.  Se para Jaime tudo era novo, não o era menos para ela. Dava por si a espiar sinais da idade, adivinhando rugas e cabelos brancos que não lhe existiam, receando - apesar de sentidas negativas e repetidas juras - que um dia Jaime escolhesse garota da sua idade, se fartasse dela com receio do mundo e da condenação que padre Fausto declarava pecado capital. Que a ela pouco se lhe dava, sempre vivera nas margens dos preceitos religiosos e mantinha com os homens uma espécie de pacto de uso consentido, a cada um o seu quinhão. Conhecia bem a violência e a força masculina a que respondia na mesma moeda, puxando dos recônditos a raiva que lhe entesava os músculos. Em cada desavença que ultrapassava a palavra, lutava contra o universo dos homens. Acudiam-lhe pontiagudos olhares lúbricos e sorrisos untuosos a remendar as intenções perversas dos ditos bem casados e pios. No corpo a corpo, vingava o sofrimento injusto das mulheres, fora sempre  esse o cerne das suas vitórias. Acendia-se-lhe nas entranhas um vulcão que respondia com lava à sobranceria saloia e besta dos homens que subjugavam pela força e tratavam as mulheres como animais desobedientes, sem pingo de vergonha por acto tão desleal. Chegada a sua vez, comprazia-se em humilhá-los, vencê-los onde se julgavam fortes, mostrar-lhes o desconforto de ser dominado, a quebra no orgulho macho a encorpar por ser a  fêmea a deitá-lo por terra, a imobilizá-lo, o pé no pescoço. Então, qual mamífero com sua cria, fazia-se ciosa do corpo e, ocultando os seus mistérios, sacudia aproximações. Ou desprezava-os. Esperava a noite e, num abandono liso e sem palavra, partia. Apagava-os do presente. Eram gente morta na memória. Assim sucedera com o pai de Teresa. 

O futuro sem homem não a assustava, mas, por exemplo de criação, força atractiva da natureza, ou por ser de crista levantada e desafiadora, preferia-os por perto.  Parecia-lhe a vida menos átona. Isto até Jaime lhe entrar porta dentro, a decisão amorosa no desarrumo dos caracóis, olhar agónico sublinhando a ausência de som que uma seda de dedos a tacto balbuciava.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Sombra Chinesa

 

E que dizer dos amantes sem mundo e de curto tempo.  Desprovido de necessidade, o universo era-lhes sobejo e vago. Imerso em devaneios com rosto e forma definidos, Jaime vivia dias aéreos e ditosos que esparveciam Ernestina por abundância dos inadvertidos sinais de enamoramento. Lia-lhe as noites nas olheiras, no jeito deslembrado de andar pela casa, no sono que o tomava mal se estendia no sofá da saleta. Perguntava. E Jaime sorria, fazia mistério.  A mulher  abismava para as suas costas curvadas, horas a escrevinhar o que - e isso não o sabia ela -, mais tarde, em recobro de canseira amorosa, havia de ler em presença e de viva voz, deleite conjunto de madrugadas fugidias, as horas num sopro.

A filha do Pelinhos desvanecia. Não sabia ao certo se mais lhe agradavam os vagares do amor, se a voz de Jaime a contá-los. E, antes da dobra sacramental, selava de beijo cada folha lida. Não cuidava em destruir provas e toda se derruía em lágrimas se lhe acudia o assunto ou lhe perpassava na mente a existência do Chico. Antes guardava a arte do amado como se venera osso de santo, ou a aldeia na admiração da veia poética de Padre Fausto espraiando-se nas homilias. Ainda jovem, o sacerdote deixava o pessoal de cara à banda com a arte oratória que Deus lhe dera. No cume do ritual, encavacadas da fraqueza, as velhas, em disfarce de ajustar o traçado no peito,  fungavam para o negrume de xailes fumosos, enquanto as mais novas limpavam arrependidas lágrimas à costa da mão, talvez pecando, “mal empregadinho, um destes é que me ia a calhar”.  A jovens de maior comoção – a juventude ainda tem a lágrima ao canto do olho -, pingava-lhes o nariz e puxavam da manga lencinhos miniaturais, um quadradinho dobrado a força de ferro e onde só cabia muco de assoadela ligeira a que escolhiam lugar, ainda assim não maculasse o bordado de maior apreço.

A filha do Pelinhos, mais entendida em contas e expedientes de vendedora que em leituras para que nunca tivera tempo e de que nem sabia se gostava, derretia com as palavras de Jaime que, no seu entender, punham a um canto os sermões de Padre Fausto e todos os santos do céu - em osso ou de corpo inteiro. Os homens que a tinham vivido não eram letrados, e auges do coração chegavam-lhe com a robustez de tronco de árvore, imbuídos de secura. Um macho pobre de meios simplifica o futuro se não faz cama à brandura, ou ainda o tomam por frouxo; a brandura não quadra com mãos calejadas. Notava-lhes o gosto no sufoco de um abraço ou na vertigem de sexo que se instalava no olhar, uma espécie de loucura urgente que lhes tomava o corpo e ela apetecia. Jaime inaugurava um mundo de palavras, loucura mansa que a cativava por modulação. Notava agora a vida das vogais, o prazer de casadas consoantes, a doçura do seu nome ciciado sílaba a sílaba. Alheia a romances e filmes, provava o sortilégio da linguagem, o sabor dos vocábulos, a escada de sonho que mora nas frases. Nesse encantamento, supunha-se capaz de horas infindas a ouvir-lhe as descrições e a festejar-lhe o ego e, pródiga em superlativos de extremo, julgava o seu menino o rapaz mais bonito e inteligente do universo.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Sombra Chinesa

 

Os dias corriam sem atrito, deslizavam no calendário e escorregavam tempo abaixo. Isto pensaria alguém chegado à aldeia, notando a pacatez dos moradores e observando artes femininas na barra desbotada e que um dia fora azul, mas agora desmaiava nas frontarias.  Ou os olhos se perdiam na tristura de paredes descaliçadas onde as crianças, em despique que colhia  vencedor, fantasiavam objectos e animais nos recortes de acaso onde a cal desgrudara. Mas todos os grupos têm no subsolo a sua fonte de movimento. No magma que reinava sob a calma e a pobreza, a aldeia borbulhava. Esperava o estouro. Talvez só os amantes e Formosinho vivessem alheios ao que os rodeava.

Formosinho concentrava-se nos negócios e protegia as vinhas como quem encaminha filhos pela vida. Enchia-se de cuidados e tratava por suas mãos as videiras que plantara com Veridiana. Embebia na lembrança das primeiras uvas, dos receios em tarefas a estrear, do temor que uma filoxera ou desgraça maior assolapasse as cepas e arrebentasse o futuro. Nesse tempo verde, nenhum dos dois se atardava a pensar na própria longevidade: eram jovens e eternos.  Os medos cingiam-se a perigos e desmandos da natureza.

Os jornaleiros observavam-lhe os cuidados e cochichavam que era pancada aquela cisma de não os deixar pôr um pé no pedaço de vinha mais antigo. Mas era patrão e pagava a tempo, respeitavam. Para Formosinho era ponto de honra que mão sacrílega se alheasse das cepas que em silêncio de conluio guardavam gestos e suor de Veridiana e mais a esperança de ambos. A vinha era igreja, e ampará-la assumia foros de culto. 

Não lhe importava o quarto onde nascera Jaime; a cama de bravatas amorosas e desvanecimentos, do sono que o cansaço dos campos mudava em semimorte, das grandes insónias da doença, os olhos vagueando pelo mostrador do relógio, temendo mexer-se, ainda assim Veridiana não se doesse do movimento; da dor de vê-la a mirrar sob a colcha, os pulsos no osso, maçãs do rosto a crescerem-lhe, tanto osso que temos senhores, ninguém diria que tanto osso sob a carne. Via-a por vezes a passear na cozinha, sentia-a encostada ao fogão de lenha que chispava ou deambulando corredor fora, um canto em surdina, doce bálsamo caseiro. Breves delíquios que enxotava em passada rápida. Abria a porta virada ao quintal, descia os degraus e, atravessado de realidade, quedava-se a meio, estou a ficar maluco. Ernestina vinha por ele, que há patrão, deu-lhe um pontada, quer alguma coisa da cozinha. E ele desaparecia sob o pomar, um aceno de não foi nada, não tem importância. O que diriam se soubessem que via a mulher amiúde. E que mais podiam dizer, senão que amolecera do juízo. Calava o segredo. Também por gosto de tê-la só para si, a desabrochar-lhe nos olhos. Sem palavras.

 

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

Por detrás do postigo desvidrado, Zefa do Prado, embiocava na escuridão espreitando a silhueta de Jaime, recorte móvel no ar pardacento, por vezes já atravessado de um ou outro raio de sol que dourava este e aquele telhado. Agente secreto posto em serviço, um resto de xaile pelos ombros, espiolhava a rua seguindo os passos do rapaz até a figura esfumar e desaparecer na curva. Enquanto isto, Zé da Adega descoroçoava e dava voltas ao miolo para não contar o que vira e supunha secreto e apenas seu. Moía-o não repartir com a mulher. Bem a conhecia. Virgínia era uma língua de trapos, não sabia guardar mexericos, e este era de alto lá, o que lhe impedia o desabafo. O segredo aturdia-o, pesava-lhe nos interiores. Para amenizar, espalhava-o pelos montes, abria-se à indiferença das ovelhas e contava-lhes o que vira. Mas não resolvia. Adormecido, a mente expandia o mal estar e apoquentava a mulher, homem, tu não andas bom, dantes, dormias que nem pedra; agora, levas as noites aos esticões e a revirar a cabeça na almofada como um danado. E ele com desculpas e atenuantes esfarrapadas, uma ovelha perdida, menos leite na ordenha, o dinheiro que faltava para a contribuição. A agravar, vinham-lhe as histórias que ouvira na infância, histórias de segredos invioláveis que torturavam os detentores. Vinha-lhe o tocador que fora ao canavial por uma flauta e que, mal a punha à boca, logo divulgava o segredo que alguém fora enterrar nesse lugar. E, na sua crença ingénua, temia que castigo semelhante caísse sobre ele. Por vezes, imaginava que o Chico aportava a casa, havia um estrilho tamanho mas resolvia o seu mau estar. E chegava mesmo a fingir o assombro devido, no momento em que a mulher lhe comunicava a nova.  Mas a vida não se dobra aos desejos de cada um.  Zefa e Zé, presentes e sem interferência, pareciam anjos de Wim Wenders. Não julgavam. Refém da amizade que dedicava a Jaime, Zefa emudecia contrariando a sua natureza; quanto ao Zé, sujeito de boa índole e algum romantismo serôdio, sentia-se compelido a proteger os amantes e apoquentava-o o remorso se, em pensamento, chamava o Chico.

Mas os anjos mundanos perderam as asas, habitam a Terra de olhos inquietos e desejantes, e eternamente guardam o céu a que aspiram e lhes é incógnito. São por vezes de uma imperfeição tocante, de outras, mera boçalidade; uns dias capazes de heroicidade e noutros apenas malévolos, vaidosos, autênticos barris de inveja. Ninguém sabe onde nasceu, quem acendeu o rastilho, mas a bomba rebentou: era fonte segura, tinham-no visto, Jaime andava metido com a filha do Pelinhos. E foi um diz que diz, um tal arrasar da mulher que, com filha crescida e pouco mais nova que Jaime, devia ter juízo. Porém, qual fosse a razão, o burburinho fazia-se em surdina e em surdina se esperava a vinda do Chico. Enquanto isso, as madrugadas fizeram-se de companhia, havia gente que desejava surpreender a desfaçatez dos amantes.  


domingo, 29 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

A primavera é um tempo destemido. Ele são botões que despontam em todo o canto, no meio de cardos e escolhos, por entre espinhos, na correnteza de ervas que ladeiam os trilhos. Ele são as crias que nascem e logo tentam seguir as mães, ternura de patas que desfalecem e as faz  cair de joelhos aos primeiros tentos; contudo, logo insistem e retomam a marcha, a verdura dos membros flectindo aqui e ali, mas ganhando firmeza a cada passo. Que, por natureza, reagem ao mundo com rapidez; na mesma hora em que nascem e tenteiam, já as crias correm seguras. E é vê-las, contentes do equilíbrio, buscando sôfregas tetas de que gulosas e frágeis se fazem senhoras, uma escorrência de leite a descer pelo canto da beiça, vírgula de imperfeição no gesto primeiro. E a imobilidade materna a pontuar amorosa atenção, imersa na ternura animal que lhe pertence e que, se fora humana, havia de ser colo e braço de aconchego fazendo ninho ao rebento, entre o médio e o indicador da mão livre, um mamilo que espreita e atrai. Será o mesmo impulso – preensão e sucção - a guiar as crias, mas só nos humanos a saciedade se faz anunciar em música de nomes pequenos, tesouro escondido de  que só as mães possuem a chave. No emaranhado de novo sons,  o ouvido capta e releva a terna modulação da  palavra e por ela se deixa cativar. Significação e sentido acompanham os humanos desde a linguagem sensorial.

Ora os nossos quase incógnitos amantes, ainda meio inexistentes porque não reconhecidos, pareciam acompanhar o despudor primaveril. Juventude que desabrocha maravilhada, Jaime atardava-se cada vez mais por casa alheia. Saía vagaroso e bendito, como quem  vem do que lhe pertence por natureza e condição. Que véu espesso lhe ocultava a realidade, não o saberia talvez. Num primeiro momento, os amantes param o tempo, são eterno presente. Existem à semelhança dos rituais religiosos: vibram em mundo próprio e intransmissível, lente colorida e transformadora que sobrepõe o sonho à realidade. Imbuídos no incomensurável presente, elidem o futuro e, guiados por sentimento e paixão, mergulham no efémero paraíso de todos os impossíveis. Floresce-lhes a inaudita flor das altas montanhas, e, em inédito e assombrado desvelo contemplam e alimentam a cria. Mas, se a Jaime assistia a juventude e os primores do sexo; se podemos crer na força que nele tinha a novidade conjunta de sexo e amor; se tal constituiu descoberta e encanto, que dizer  da filha do Pelinhos, abandonada de missivas e que pouco se deixava ver. Não fora a luz sub-reptícia que por vezes lhe cintilava no olhar, diríamos até que nada a alterava. As mulheres aprendem cedo a arte do disfarce. São elas as grandes e quase inatas fingidoras.  No quadro, Jaime aparecia como incauto equilibrista, braços em cruz experimentando o arame. Mas, e ela?! Não tinha ela experiência de homens que bastasse, não havia de sua parte um palmarés que justificava o resguardo de passageiras paixões. Que dizer dela, mulher vivida que atirava às urtigas o seu mundo organizado. Em que pensaria, nesse tempo sem par. Se acaso pensava no assunto, que espaço deixara ao Chico e à vida de antes.

sábado, 21 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

Foi o Zé da adega,  simples detentor de estábulo, quem, num dos acasos da vida, deu de caras com o insólito. Passavam ele, o cão e as ovelhas pelo monte ainda mal iluminado de Zefa do Prado e da vizinha, quando enxergou a figura masculina saindo de casa da filha do Pelinhos. Firmou a vista, não lhe parecera o recorte do Chico. E mal podia crer no que os olhos viam:  em seu modo natural e aprumado, Jaime aproximava-se subindo a ladeira. Estacou num assombro. Mas Jaime cruzou-o com um sorriso; mãos nos bolsos e  lesto cumprimento,  afastou-se a caminho de casa. E ele, Zé, provavelmente esbugalhado, a chamar o cão só por disfarce do espanto, e acrescentando, sem competência, atabalhoada salvação. Em notável indiferença, retoiçando aqui e ali, as ovelhas eram gordos novelos espalhados pelo valado que, aos primeiros raios, verdejava levemente. E o Zé embuchado na surpresa, ainda não bem em si, “olha que ele há coisas…. quem havia de dizer”. Com gesto mecânico tocava o gado, mente centrada na descoberta, “o Jaime…um garoto ainda...o ai Jesus do Formosinho”. Chegou-lhe até um apetite de voltar ao estábulo, enfiar as ovelhas no redil e correr a casa, sacudir Virgínia, desentorpecê-la de sonhos até que os olhos lhe voltassem ao rosto e ganhasse vida. E, na interrogação estremunhada dos olhos dela, plantar o espanto, dar-lhe a nova. Mas aquietou. Ficavam os amantes com mais um dia de anonimato e respeitava o sono da mulher. Virgínia era moura de trabalho, viera para a sua cama a convite, alegre e de boa mente. Deixara a miséria e as sossegadas bebedeiras da mãe, viúva calma e trabalhadeira, senhora de grande mutismo que, verão ou inverno, se enfrascava pela noitinha, adentrada na chaminé, num ritual de tristura que ninguém entendia, a filha alertando mansamente, minha mãe, toca a deitar. E foi ponto assente para os dois: ficavam juntos. Não precisaram de papel passado senão quando nasceu o mais velho e o padre fez cara feia à mancebia. Para que contrariar o abade, não se lhes dava o papel, sentiam-se casados desde a descoberta comum da linguagem do corpo, pele na pele, ungidos de juventude saciada. Mas, a imagem de Virgínia logo lhe lembrou a filha do Pelinhos e se lhe pespegou a dúvida, que quereria ela com o garoto. Contas feitas por alto, ajuizou que a mulher quase dobrava a idade de Jaime. Seria desarvorada fome de fêmea o que assim a perdia. Estes e mais solilóquios empeçavam-lhe o caminho, dava por si parado, cajado na mão. O cão, desconfiado já do dono e intrigado com a demora, acercava-se numa corrida, a cauda balançando a um lado e a outro. Faltavam-lhe as ordens assobiadas para ser seta e, de orelha espetada, forçar ao trilho esta ou aquela ovelha que transviava. 

Já em campo aberto, ovelhas no pasto, o Zé entregava-se a estender o problema, desdobrava-o em cuidados que se dispensam a coisa rara. E, a cada pedra levantada, lhe parecia maior o imbróglio. Os personagens cresciam-lhe no pensamento, o Chico, o Formosinho, a filha do Pelinhos, Jaime e mesmo a Zefa do Prado. E verificava que o mesmo problema se fazia outro em cada um. E isto até cair em si e reparar que a solução, se solução havia, não era coisa de sua lavra; e que, à data, só ele participava do segredo.

 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

Às portas do estio, a aldeia regurgitava de vida e economizava a noite. Em saia longa e de cauda, os dias passeavam na duração. Alimentados por incógnitas marés distantes e luas benévolas a que pouco faziam caso, homens e mulheres madrugavam revigorados. Era como se o alimento lhes viesse também do ar claro e das horas solares, tónicos milagrosos e revigorantes actuando sobre o cansaço quotidiano que lhes endurecia o rosto e assombrava a figura involutiva. Não que o afastassem de todo, mas pincelavam-no de alguma leveza. Emprestavam ao olhar de uns e de outros modo menos granítico e acerado, alisavam gesto e voz, faziam mais erecta a figura.

Desde cedo se ouvia bulir. Nos campos, o som cavo de enxada cuidadosa animava a terra, tratando da semeadura ou plantando leguminosas e outras vitualhas que enriqueciam a mesa e melhor enganavam o infindo  apetite. Outros recorriam a meio diverso. Recebiam da fábrica de pinhão sacadas de pinhas e, na rua de casa, procediam à queima que as violentava, a coluna de fumo num alerta.  O ar cheirava a lume e a aragem fazia-se menos fresca com o odor da resina aquecida. Ouviam-se os estalidos das pinhas que, encaloradas, abriam os alvéolos deixando à vista as sementes. Junto à fogueira, duas figuras munidas de pá comprida, forquilha ou pau, atentas às pinhas e a retirá-las à medida que estrondeavam em obediência à dilatação.  E todos conheciam o passo seguinte:  frutos sacudidos e vasculhados, sementes juntas em monte, o fogo esmorecia ou era de novo alimentado pela tristeza desalentada das pinhas estropeadas e tão sem graça como mulher abusada. Num ápice, se ouviam os martelos ao despique, partindo, um a um, os pinhões. E a função prolongava até ser tempo de comer uma bucha e sair para o trabalho. Então, o monte de pinhão era carregado para casa. Nessa noite, serão fora, toda a família se afadigava a despir as sementes. Horas a fio, o incessante batuque dos martelos. Indistintas, as madrugadas competiam a homens e mulheres. Mas os serões eram de todos, dos mais velhos aos mais novos; nem sempre pacíficos. Os homens, cansados da enxada e açodados por prazos de entrega, menos pacientes que as mulheres, não raro sovavam os filhos pela inabilidade: se partiam o pinhão, se martelavam um dedo, se esmoreciam de cansaço. Na maioria das famílias, não eram serões fáceis. Deitavam-se a horas mortas, a pele escurecida do pó negro dos pinhões. E logo dormiam.

Andava o povo tão embrenhado na lida, tão sequioso de algum bem extra, que já o caso ia alto quando foi notado. Ao invés do hábito, e mau grado ditos e mexericos, a bisbilhotice sussurrada, ninguém lhe aumentou o volume. Do que mais tarde soube, à época, houve como que um sentimento de protecção geral a comedir o diz que diz.

sábado, 7 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

                O tempo irreversível foi andando, passo certo como só ele. Conservou abertas as pequenas frinchas de esperança no coração dos pais de Ernesto, murou de silêncio a natureza transida, deu nova arte às brincadeiras das crianças, assistiu ao zelo aziago dos homens que blasfemavam com a escassez da forragem, o gado em manjedouras tristes. E trouxe o Chico. O homem passou uns dias letárgico e mono. Comia, dormia, sentava-se uns minutos na rua. Encasacado, a risca do cabelo desalinhada e barba por fazer, pensaram-no doente. Mas logo, renovado de forças, se dedicou à limpeza e arrumação cuidada da carrinha. Quando a mercadoria voltou à ordem que só ele dominava e fazia a admiração feminina, e porque o inverno era tempo de miséria pungente e dali nada retirava, voltou a partir.

Na aldeia, o sufoco invernoso eternizava os suspiros e o frio levava mulheres e crianças a catar os pinhais. Não havia, a média lonjura, mais que as árvores e mato; ramos secos e pinhas, há muito desaparecidos. Chegavam cansados de calcorrear, um feixe magro de gravetos à cabeça das mulheres e,  na mão dos garotos, uma ou outra pinha preterida em buscas anteriores. Uma insuficiência para o frio que atazanava os corpos a todo o comprimento da noite.

E foi assim até a primavera se apresentar em claridade e a terra sair do marasmo. Voltaram a soar os balidos do gado e ouviam-se os chocalhos das vacas  a caminho do pasto de mistura aos gritos dos homens e das crianças que as tocavam. Os dias mostraram o seu poder elástico enquanto a natureza se enfeitava de verde e botões avulsos. A silhueta das mulheres clareou e os laços armados de goma nos aventais das raparigas alegravam a vida e chamavam amores. Na mercearia, a um canto do balcão, a vaidade da rima de chapéus novos convidava.  Após o avio semanal, a rima modificou e o mundo da rua coloriu. Chapéus de palha com remates de fita e garridice de cores protegiam a cabeça das crianças mais abonadas. Mas a surpresa geral era a carta. Época de pouco escrevente, as cartas eram luxo; ou, tarjadas de luto, aviso de grande perda. A carta  chegava branca e pontual - um dia sim, um dia não - para a filha do Pelinhos. E o mulherio invejando a sorte, a relembrar bilhetinhos engordurados, gatafunhos e erros que marcavam encontros e denunciavam amores, em papel de caderno antigo e linguagem de lenços de Viana. Escondiam-nos junto ao coração como fortuna bem guardada; e era ainda bendizendo essa memória que exclamavam, olhem bem o que havia de dar ao Chico. E vinha-lhes uma saudade do que não houvera e, então, não careciam: nunca na vida e só para elas uma carta endereçada e com selo. Nunca a expressão de um amor palavroso e de romance em caneta de tinta permanente com o seu nome caprichado no endereço. Em força de gesto invariável, a filha do Pelinhos chegava-se à mercearia mal via o carteiro. O homem, ainda sentado na bicicleta, um pé nos pedais outro no chão, abria a mala do correio e passava-lha. Só depois entrava a depositar o correio restante sobre o balcão; e já ela seguia, alada, até casa.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

Incongruência do tempo, ser imune ao que gera. Não se apressa nem retarda. Quer terríficos cataclismos, quer contratempos de trazer por casa esbarram na sua indiferente acefalia.  Nesse oceano de costumes que é a vida, não se agitam os homens antes da desgraça ou da sorte imprevistas, e só algumas almas predestinadas e portadoras de sensibilidade incomum sentem a agonia que, tanta vez, não lhes pertence. Ignora-se a razão por que o corpo colabora com a tristeza e não exulta na previsão do benefício. Quem sabe se acontece apenas porque a desgraça põe em causa a integridade física e, adivinhando a ameaça, o corpo dispara. Idênticas a tanto animal que detecta descalabros - naturais ou emotivos -, assim elas adoecem de coisa nenhuma, antevendo ninguém sabe o quê. Não são videntes, não preveem qualquer acontecimento, antes o sofrem incógnito. Vem-lhes o sentir tão espontâneo e imediato como possivelmente acontece em seres vivos irracionais que uivam e alvoroçam sem que se entenda o motivo. E é isto um facto tão inexplicável no homem como neles.

Ora, na aldeia, ninguém sofria de distúrbios sem motivo e as poucas admirações surgiam com o uivo continuado dos cães de Zé da adega que nunca falhavam a adivinhar trovoadas: os animais eram avessos à electricidade espalhada no ar e encafuavam, todos tremeliques, no mais fundo do estábulo, muito antes da trovoada deflagrar. Havia também o temor aos corvos. Se as aves sobrevoavam alguma habitação insistente, eram prenúncio de morte próxima.  Porém, reparavam todos, quando tal acontecia, já nessa casa havia um enfermo. E também isso se escondia do defunto a haver e se explicava em crueza lapidar: “corvos são pássaros que comem carne podre e lhe sentem o cheiro a léguas”. As aves eram a cadeira eléctrica que se escondia do condenado, não havia escapatória.

Sem avisos nem sinais, a vida seguiu. Alguns notaram vagamente a continuidade das visitas de Jaime a Zefa do Prado. E o mais que delas se soube e viu foi a mudança de posição da cadeira de quarto. Fugido ao centro da rua, Jaime chegara-se ao canteiro de flores debruado de canas certas e cruzadas que separava o território da Zefa do da filha do Pelinhos. E, depois da figura de Jaime se tornar hábito, quando já nem era reparado, as conversas cessaram abruptas. Sem explicação, o rapaz perdeu-se por outras bandas. Comentava-se na aldeia que eram ideias de rico sem mais que fazer. Caprichos. Ainda vaidosa da companhia, a Zefa sorria. E minha avó, exímia contadora, tudo me apontava. Aos meus treze anos Jaime aparecia como um jovem Deus. Por vezes, em visão unilateral, admirava-lhe a compostura e o ser masculino. Vinda de um mundo de mulheres, os rapazes interessavam-me pelo desconcerto. Ainda só me agitava a curiosidade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

Admirava essa água que nascia bebé no cimo do monte de Maria Florinda e corria a engrossar até à estrada, enchendo e esboroando a esmerada valeta que o cantoneiro reparava ao longo do ano. A vala recebia a espessura líquida que julgávamos  rio, correndo sabe Deus para onde. Diziam os mais arteiros que saía liberta para os lados da ponte e onde eu imaginava um lago enorme, crescendo a cada inverno. Revia as manilhas atravessadas no portão de nossa casa e que anos antes, em dias secos e luminosos, eu atravessava ao desafio, arrastando-me pelo interior e saindo impante do outro lado, suja e com teias de aranha agarradas a roupa e cabelos. Ou, no inverno, em intervalos de chuva, um rudimento de cortiça talhado sem arte e a que chamava barco, um mastro que era haste de um bugalho afiada à faca e atravessada por  um triângulo de papel a fazer de bandeira. Enviava-o no sentido da corrente, de um lado a outro do túnel, correndo feliz a apanhá-lo do outro lado, como quem, no temor de perdê-lo, dá a mão a um filho pequeno. E repetia a viagem até ao enjôo ou azar, a vela desfeita ou ele embarrancado em qualquer lixo ou saliência casual.  Então, já sentia o peso da idade, os treze anos que ninguém me dava e me impediam de ser infância.

Entretanto, pelo braço do inverno chegaram geadas que inteiriçavam a terra e pousavam em todas as coisas, plumas leves de corista que tolhiam fortemente homens e bichos. Era uma leveza maligna que cerceava sem escrúpulos a ousadia de qualquer rebento novo e enregelava os homens que saíam de casa abotoados em seus casacos de meia tijela, mãos em bolsos esburacados a grossura dos bonés  enfiada até às orelhas. Nessas manhãs brancas, o mundo suspirava por algum bem e no ar em gume palpitava o desejo, quem me dera hibernar.

Vieram névoas cerradas, dias de tudo dentro da nuvem, pestanas e sobrancelhas que engordavam de gotas minúsculas e frias, estradas molhadas, caminhos patinhados e peganhentos, a calma dos automóveis  supervisionada pelos faróis, o mundo às aranhas, puxando dos olhos de raio-x para se enxergar, onde estou, quem vem lá.  Nos campos, animais abúlicos, balidos breves de novelos impressionistas, atarraxados sobre lençol a que não se via fim.

E houve “dias de morraceira”, horas e horas de chuva miudinha como se o regador do céu entupido e com dano no ralo. Na aldeia, o chão das ruas empapava e a lama fazia das suas. Regressadas da escola, as crianças permaneciam em casa. Mas a gente miúda vive de gastar energia, correr, saltar. E a confusão instalava-se.  Judiavam com os bichos e os irmãos mais novos, derrubavam cacarecos, desarrumavam o lume, punham todos em perigo.  Quando o chinfrim se tornava insuportável, perdida a paciência de mães ou avós, uma porrada aqui outra ali, os arruaceiros eram arrastados por um braço até aos barracos de arrumos ou à soleira da porta (havendo um paradouro a protegê-los da morraceira), qualquer lugar ao abrigo da chuvinha e onde não fossem causa de moléstia. A ninguém agradava a chuva “molha parvos”.

Reconfortava-me a cadência suave e prolongada da chuva nocturna, cantiga mansa que ninava o meu sono e não iludia o ressonar compassado de minha avó. Em casa de madrinha Felícia, o som de chuva visitava-me de longe em longe, quando, por um acaso, chegava zangada e, numa fúria de vento, batia urgências na minha janela de varanda, exigindo de mim alguma coisa que nunca entendi. Era outra chuva. Uma contestatária.

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

Por este motivo ou aquele, o curso dos anos modifica-nos e espicaça o interesse por questões e parâmetros da vida que antes nos eram estranhos ou inexistentes. E verificamos a ingenuidade tonta de concepções criadas ou apenas apropriadas e postas como infalíveis. A ampliação do mundo interior foge à banalidade das certezas, embora a primeira reacção seja procurar a réplica, tapar a dúvida com nova certeza que se quer absoluta. Porém, uma vez instalada, a dúvida pergunta e pergunta; pode o sujeito ignorar-lhe o justo valor, mas cada pergunta é já parte da resposta.  É assim que o adolescente – alguns  -  pergunta de si para si, quanto do que pensa e faz é efeito da liberdade – se é que ela existe – e quanto há de molde e condição nas suas decisões.  E talvez entenda que habita o vaso comunicante da história, fora do qual não sabemos existir.  Ora, à época, pensamentos desta natureza não me acudiam. Minha avó velhinha sustentava a pulso a redenção dos meus dias irresponsáveis, e eu encarnava a inocência saloia correspondente à idade: vivia o presente sem outra nuvem que a vida escolar - os sempre temidos resultados de testes e exames. Era inconscientemente feliz. Mau grado a sua ameaça reiterada - ou talvez por esse motivo -, o “qualquer dia morro”, soava-me a estribilho que levava à conta de fogo fátuo, certo gosto mórbido que lhe crescia na proporção da alvura capilar. Minha avó, mulher pouco demonstrativa no que toca a ternuras e outras vitualhas, escondia em bolsa de silêncio as pequenas misérias que lhe minavam o corpo e, no meu parco raciocínio –  em geral, os jovens dispensam tal questão -, a velhice limitava-se a alterações capilares, abundância de rugas e dificuldades motoras. Alheia à mecânica do corpo e esquecendo leis naturais dos seres vivos, as aparências bastavam-me. As aparências. Que, no eterno e casual jogo da vida, salvam uns e perdem outros.

         Nesse ano, abateu-se sobre nós um inverno à moda antiga: rigoroso e variado de chuvas. Vieram as chuvas fortes formando regueiras cada vez mais espessas. Na vila, eu olhava a meditabunda rua de  madrinha Felícia, água gorgolejando nas sarjetas.  E revia a aldeia banhada de chuva: as águas desciam até à estrada arrastando o lixo dos caminhos de terra, pauzitos, pedrisco, areias, pássaros, ratos e toupeiras  mortos, trapos sujos, cascas de laranja, ervas de raiz ao léu; se encontravam resistência, havia um depósito de lixo e elas, mais depuradas, curvavam e seguiam viagem em caminho natural.