Quando corpo e mente entranharam o irremediável e a morte lhe foi real, Jaime desapareceu da aldeia por via de não perder os estudos, assim o apregoou Celestina. Grato pela dedicação da mulher e a pedido de Veridiana, Formosinho conservou-a no serviço doméstico. Que ele, bem se via, não dava para as coisas da casa; respeitador e bom patrão como não há, dizia ela a procurar salvar-se da má língua. Ora, língua afiada em meio pequeno é coisa natural, mal que não cura. E logo, logo, surgiu o burburinho: que era mulher casada em casa de homem sozinho; que o marido tinha de pôr mão naquilo e nada; que quem sabe ele gostava do que, pela certa, lhe entrava em casa por portas travessas; que há muito corno manso; que coitadinho do Jaime; e havia até língua suja que aventava a anterioridade da relação, tudo vinha de há muito e a doença de Veridiana viera a calhar, o diabo tem sempre sorte. E mais. Havendo hipótese de costurar defeito, num ai os homens esquecem qualidades e vida provada. Mas, tal como nascem, se levantam e voam de uma boca a outra, assim, na ausência de provas a engordá-los, e por força da inteireza do tractorista, os boatos estiolaram. Celestina fazia o seu trabalho e raro via o patrão; o marido, mesmo fazendo cara feia ao diz que diz, não pôs prego nem estopa no assunto e, à parte ter-se travado de razões com o Dionísio da Brazilízia e lhe ter enfiado uns murros no focinho que foram aviso para os mais, era homem de respeito e pouca fala. Para mais, , dizia-se à boca pequena que só ele podia ter encomendado as duas comadres calhandreiras e maldizentes ao cabo da guarda. Não era segredo que caçavam juntos, os cães à ilharga e arma pronta; à vista de todos atravessavam matos e planícies, lebres e perdizes penduradas na cinta. Embora ninguém os visse de amizade noutros lugares, a aldeia regozijou com o castigo das linguarudas, para mais, sentindo-se cada um livre da acusação. Era tácito, havia ali a mão do tractorista. Chamadas ao posto da GNR, o carro dos cadastrados a buscá-las, ninguém soube o que aconteceu lá dentro. Passados dias, regressaram envergonhadas e mansas como cordeiros, não se sabe se arrependidas. O certo é que, por longo tempo, a viola ficou no saco e não houve boatos. Formosinho, esse, talvez nem tenha dado conta do falatório. Ninguém soube onde o homem guardou os apetites, mas, perdida a mulher, jamais o viram de olhos cobiçosos para o outro sexo. Na falta de quem o chamava por nome próprio, virou-se às vinhas, apostado em fazê-las crescer. O filho, entregara-o ao zelo materno e sentia-se estranho a cuidá-lo, para mais que já era rapaz e estudava longe. Mas as vinhas eram suas de nascença, corria-lhes a seiva de mistura com suor e cada cepa era uma vitória . E depois, fora projecto seu e de Veridiana, era mister honrá-lo e dar-lhe seguimento. Lembrava-a debruçada sobre os bacelos novos, receosa de que não pegassem; as primeiras uvas e o cacho que comera logo ali sem atender ao pó do caminho, o trejeito entre o medo e desagrado, não prestam, e ele, sorriso confiante e a dar uma trinca, ainda não estão maduras; a alegria de ambos na vindima a estrear, e o pisoteio das uvas no tanque, ela de saia regaçada e pernas contentes e tintas, uma cinta colorida até perto do joelho, as pontas da saia pejadas de respingo. Emudecia de ternura à vista das pernas dela tão diversas por entre as masculinas, cabeludas e musculadas; e o seu orgulho na força de viver da mulher, no íntegro entusiasmo que era viço a percorrê-la. Enchia-se de uma saudade que lhe remexia as vísceras e era garrote a desarranjar-lhe os interiores se recordava o jeito morno de ajudá-la a deitar, aconchegando a roupa ao corpo que sempre o surpreendia nos lampejos do amor. A fortuna que era tê-la a seu lado. Pensativo, revivia a solenidade da primeira garrafa de vinho a destacar na alvura da toalha, a mesa em festa.
Existe prazo razoável para viúvo poder voltar a olhar saias?
ResponderEliminarPorque gosta tanto o povo de levantar calúnias, onde ainda a dor não se despegou?
São duas questões que não sei responder, à primeira talvez o povo, a ambas pessoa de juízo.
Bom fim-de-semana Bea.
Excelente crónica. Mesmo.
Não creio que existam prazos para tais coisas, Joaquim. Voltar a olhar saias não é amar. Mas tudo depende dos lutos que se fazem e da sua natureza que é a de quem os faz. Ou não.
ResponderEliminarO povo vive muito do diz que diz, é uma forma de se manter vivo quando a própria vida lhe desagrada ou é demasiado quieta; têm de agitar, fazer-se notados. Mas há também os caluniadores quase profissionais, quero dizer, os maldosos irremissíveis. A maldade cresce-lhes a esmo, são boa terra para erva daninha.
Bom fim de semana, joaquim:).
Querida Bea, olá! encontrei-a no blogue da Gracinha, eu que tão arredada ando destes espaços. Perdi o entusiasmo, acho! Coisas da vida. Vale mais deixar que os acontecimentos fluam e depois logo se verá. Não me esqueci de si, juro que não. Apenas me perdi. Vai passar, espero. Um beijinho
ResponderEliminarOra, ora, viva a Nina que me encontrou sem eu notar. Perfídias digitais. Chegou como quem veio ao pé coxinho, por mor da falta de entusiasmo. Por esta surpresa eu não esperava. E soube bem reencontrá-la, sim.
EliminarVai ver o seu entusiasmo era verde e um burro comeu-o. Pois claro, acredito e é salutar que se entusiasme por outras bandas e por lá cirande. Se de longe em longe se lembra de nós -enquanto tudo flui -, somos gratos. E cá estamos. De vontade, só jura quem não tem certeza.
Bem haja por se ter perdido por estas bandas.
E Bom Natal.
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ResponderEliminarÓ Mary James, atão qué isso de samandar a vender banha da cobra na minha janela. Arreda, quê na compro desse material.
EliminarVoltar a olhar saias não é amar... ou também pode ser...🤔😉
ResponderEliminarA Bea engendra cada uma!!! 😳... Bom domingo!
Não acho, Gracinha. Voltar a olhar saias é voltar a reparar nas mulheres, não tem que ser um interesse particular, talvez seja apenas o sintoma de que o desgosto (se é o caso) está a tomar o seu lugar na vida de alguém. Nem sequer significa que tenha passado.
ResponderEliminarBoa noite. E bom domingo:).
Não, perdi-me ali no "voltar a olhar saias" :P
ResponderEliminarAchei graça à expressão! :D
Beijocas
:))) os mais novos não usam estes termos, Cláudia. Usarão outros, mas não os sei.
ResponderEliminarBom Dia.