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quinta-feira, 26 de março de 2026

Ponto por Ponto

 

        Repito o que já frisei aqui, invejo as mentes que, quotidianas, escrevem sobre assuntos diversos, as que nunca se imiscuem neles particularmente e antes os tratam com a objectividade de observador. Invejo aqueles que postam quase com o calendário – e mesmo dia a dia –, conseguindo que nada lhes transpire da vida que vivem, de quem os rodeia, de como agem e pensam no particular de si mesmos. Ah!, podem dizer-me, mas todos nos revelamos no que escrevemos. Balelas. Não acontece a todos, não senhor. No mundo da blogosfera existem personagens impenetráveis, uns porque criam aqui uma personalidade diversa, são outros e exercem o seu direito a sê-lo; aqueles, porque sendo si mesmos, cortam com todo o particular que possa identificá-los – nunca saberemos das pequenas arrelias que os invadem, das tristezas casuais ou intrínsecas que os digladiam, dos desastres que o quotidiano despoleta; dos desgostos que sofrem. E estes personagens – que são mesmo personagens, ficção que outros vêem como realidade – fazem-me pensar que sou ovni e no que raio ando aqui a fazer. Cheguei por vontade mas desprotegida do eu fictício e, mau grado esforços porfiados, ainda vou deixando por cá a pele que me veste desde sempre, aquela que cresceu comigo e comigo envelhece, enruga e encobre todas as misérias que humanamente nos constituem. Esses outros, não! Deixam pele falsa, podem despi-la quando queiram, mudá-la; transformarem-se; cessar a existência se assim o entendam ou a sua necessidade de mudança tal lhes aponte. Tenho para mim que só eles são os verdadeiros bloguers, os escritores conhecidos ou sem nome. Bem sei que existem os influencers, mas a esses não os coloco dentro do grupo de bloguers habituais. São categoria que me desinteressa e a que nem atento.

        Reconheço-me muito sem assunto, tanta vez aqui chego de mãos e mente vazias. Alinhavo umas palavras quaisquer e depois ou me vem coisa que lhes pegue, ou apago esse começo e vou andando por outro que entretanto surge. E há também aquelas horas em que me parece haver um tema e mão e mente contrariam, seguem outro caminho; deixo ir, tanto dá passar por aqui ou por ali, é tudo muito irrisório e bastante igual a quase nada.

        Poderão pensar, e as histórias?! Bom, as histórias eram a construção da vida dos outros e o mundo que conheço visto por olhos meus. Tão expostos, santo Deus! Tanto de minha lavra que os próprios seriam incapazes de identificar-se nos personagens – alguns existiram ou existem ainda. É certo, amigos e amores permaneceram intocados. Nenhum dos meus personagens os copiou ou copiará. Eles são a sacralidade que guardei, guardo e defendo com unhas e dentes. Tudo o resto é dizível, verbalizável, volátil. Amores e amigos - que também são amores os meus amigos - permanecem, são a brevíssima eternidade que se me colou. Talvez sejam mais imaginários que reais, mas pensar desse modo desanima; portanto, não penso. Não quero nem posso dar-me ao luxo de perder companhia já de si exígua. Visitamo-nos a espaços para nos certificarmos uns dos outros, matarmos saudade e robustecermos, em horas sempre breves, o fio que nos une. Porque os olhos se precisam e é só neles que a falta sentida na alma se faz transmissível.

domingo, 14 de setembro de 2025

Um Dia Atrás do Outro

 

        Passou uma semana desde o último post. A mania de contar o tempo pertence-nos. Ignoro se inscrita no ADN ou fruto de aprendizagem. Verdadeiramente, parece-me que o tempo não é de passar e somos nós quem dentro dele começa e acaba. Nós o inventámos para contar a brevidade da vida, alinharmos afazeres, conversarmos assentes sobre os tempos de haver tempo: passado, presente e futuro; esta estratificação do que em si mesmo não é senão um continuum, organiza-nos o discurso, orienta-nos o pensamento simples e a reflexão mais elaborada, situa-nos.

        Sei. É tempo de escrever. Mas nestes dias de tudo, de uma guerra iminente, da inércia culpada ou das hesitações que apontam a pérfida fraqueza e o desejo de colo, nestes tempos em que o continente mais antigo se porta como uma criança, mas não é senão um velho senil agarrado a sonhos impossíveis, confesso: perco a vontade.

        Fico-me a olhar a gata que é seta disparada na minha frente e lembro o mercado biológico na Herdade de Freixo do Meio, o pão de bolota que nem aprecio, mas tem muita freguesia e é feito por alguém com forte acento estrangeiro; a senhora – possivelmente inglesa - que vende colares e gargantilhas tão bonitos e baratos, garantindo que não faz dois iguais; os vendedores de mel e de batata doce que lhes apregoam a doçura; o holandês que vende queijos da sua produção artesanal; as meninas com olhar de poço profundo junto às essências, vestindo árabe discreto, altas, um moreno estonteante. E singram lindas, num admirável roçagar de sedas, pulseiras em braços de serpente misteriosa. Também o público que compra detém elementos insólitos: aquele senhor de farto rabo de cavalo que chega descalço, a dama que usa um colar que lhe chega aos joelhos, os garotos de pés nus e perna ao léu que se refrescam livremente no tanque que foi bebedouro de bestas. E mais.

        Almoçamos: mesas e bancos corridos, dois pratos em escolha prévia e sempre de produtos da herdade. Gosto destes almoços em que parecemos conhecer-nos uns aos outros por refeiçoarmos juntos. O certo é que, mesmo sentados lado a lado, não estamos senão com aqueles que trouxemos. A dar o tom ao almoço, o grupo de cante da minha terra - um dos elementos junta-se comigo na peixaria e quando fiz referência ao mercado adiantou, “estamos sempre lá; a gente gosta daquilo”. Ali pontuam alunos que tive há mais de vinte anos e onde já os filhos fazem uma perninha. Há até uma raridade que poucos conhecem: um francês reformado que veio há poucos anos viver por cá e canta alentejano como os melhores; diz ele que foi a forma de aprender a língua. Espero eu que o seu português seja diverso do de minha cunhada, inglesa de gema, que chama o filho mais velho de Joséi.

        Aos solavancos na estrada de terra, a última surpresa: o bambi dos desenhos animados despedia-se olhando-nos fixo e sem surpresa, estátua plantada nas suaves curvas da savana empoeirada do Alentejo. Uma meiguice líquida no olhar, como que a prometer, até à próxima.

        Não sei do futuro, tento pensar que só o presente existe em verdade e circunstância. Sei que particularidades desta natureza me agradam e sustentam num mundo de homens cada vez mais alienados do seu ser.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A Doçura das Manhãs

 

        Havia um silêncio rodeando a casa quando minha mãe me acordava brandamente. Sentia-lhe a mão passando de leve no meu rosto, candeeiro a petróleo pousado na mesa de cabeceira. De seguida, “filha, são horas de estudar”. E era assim todos os dias da semana, exceptuando domingos e feriados.

        Talvez o inverno fizesse ouvir o vento no pomar ou agitasse por demais o damasqueiro que beirava a janela do meu quarto e de que não pressenti, nem uma única vez, murmúrios ou fúrias, o cansaço a tesourar-me as noites. Talvez a chuva me lembrasse a molha futura, o vento dobrando-me a fragilidade - a bicicleta, nas subidas contra o vento, pesava mil quilos e, por mais que forcejasse nos pedais, a roda dianteira parecia colar no alcatrão. Nesses momentos de esforço supremo, um carradão de livros e lancheiras no suporte a desequilibrar, lembrava-me dela e do tanto que fizera e pedira para me manter no colégio. Então, reunia tudo o que me restava e, mau grado intensa dor nas pernas de aranhiço, a roda movia-se: a contragosto, o pneu começava a descolar e percorria em vacilantes passinhos de bebé o meio metro de incentivo que decidia o resto da subida. Por isso, enquanto estudava junto ao calor da chaminé, o vento encanando em assobio que nos enchia a cozinha de fumo, por entre lágrimas involuntárias e fumarentas, pedia a Deus a mercê da sua ausência na travessia. Que a chuva matinal  incomodava ao longo do dia, na viagem fazia-se refrescante, tocava-me a pele e escorria rosto fora, seguindo pescoço abaixo até onde. E idem para as pernas, a capa de chuva extravasava desculpas, lágrimas em fio, não consigo mais, queria tapar-te toda mas não dá. E eu, olhos de chuva pestanejante, atenta à estrada e ao trânsito, já me atrasei, não estou a encontrar os automóveis do costume. E tentava acelerar. Mas saia e bata coladas nas pernas ditavam o avanço dos pedais. Então, preocupava à lembrança da querida amiga que me aguardava, decerto já de portão aberto e toalha pronta a enxugar rosto e cabelo.

        Chegava. E, enquanto eu me enxugava em rompante atabalhoado, ela desatava-me o material do suporte da bicicleta. Logo após, a nossa corrida até ao colégio e o aviso de sua mãe a fazer-nos ligeiras, ai filhas tão atrasadas que estão. Nós duas estrada fora, assolapadas de livros e guarda chuva. Eu, desarrumada de todo, a desviar dos olhos uma catrefa de cabelos húmidos, e uma cambulhada de livros e cadernos sacolejando na mala à dependura do ombro. Quanta ternura de aconchego devo a essa menina-mulher e a seus pais que, sem paga ou moeda de troca, sempre me acolheram e deram a mão em tempos de voz áspera. Foram a minha segunda família e nunca saberão quanto lhes invejei o viver harmonioso. Era o tempo da inocência egocêntrica.

        Guardo dessas manhãs comovida recordação: durante duas horas, estudava e tomava o pequeno almoço enquanto minha mãe apenas se ocupava de mim – fazia o desjejum das duas e o meu almoço, passava a ferro de brasas o meu fato de ginástica e, nos dias em que eu estudava até ao último minuto, atava-me a pasta e o saco do almoço no suporte da bicicleta e retirava-a de casa, trazia-me a bata e ajudava a abotoá-la, segurava a bicicleta para que a montasse, beijava-me com os olhos que só ela tinha e eram meus, e com eles me seguia até que eu, aos esses no caminho, equilibrava na descida do monte e fazia a curva já senhora do veículo.

        Não ficam em branco os defeitos que já me dardejavam irreflectidos: vezes existiam em que pedia a minha mãe para acordar mais cedo a fim de estudar; ela prometia, mas acordava-me à mesma hora aduzindo que fora ao quarto e eu dormia tão profundamente que lhe faltara a coragem. E eu não conseguia ver o amor por detrás, invectivava, quase chorava, culpava-a por um possível decréscimo no resultado do teste. Em suma, feita estúpida, aborrecia-me com ela. Não via o amor subentendido. Fazia-me ignorante de que ela sim, acordava duas horas mais cedo, duas horas que roubava ao descanso e lhe encurtavam as noites, cento e vinte minutos que me consagrava quase inteiramente. Como os filhos podem ser cruéis, ainda que o não desejem ou sequer notem. Sobretudo por nem sequer o notarem.


sexta-feira, 3 de junho de 2022

A Vida que Passa

Está na minha frente, ray ban genuínos, fato preto vincado em harmonia com irrepreensível camisa branca. No rosto fino e menineiro, a barba aparada assenta de forma agradável e confere a gravidade que, palpita-me, não lhe habita o rosto limpo e miúdo. Tem as duas mãos enlaçadas à frente, descidas ao comprimento dos braços como compete a um mestre de cerimónias fúnebres.  Será mais de metro e oitenta de elegância retro. Enquanto o miro e me distraio, empenha-se no papel. Sabe o que responder na cerimónia religiosa, age como crente.  A seu lado e um pouco atrás, a jovenzita que julgo ser a sua menina. Não lhe chega ao ombro. Veste como ele, cabelo longo e liso, rosto lavado e sem óculos. Percebo ao longo da cerimónia que começou a treinar e ainda não está segura no desempenho. Do outro lado, a avó, cérebro do negócio, pragmatismo em forma de gente no trato da morte dos outros. Sustenta-se nela. Miro-a longamente, recordando o que conheci há muito tempo quando, na minha vida nómada, aportei a este lugar por uns anos. Nesse tempo, Conceição tinha um marido carrancudo que lhe arreava como a qualquer animal, nas vezes em que levantava cabelo – era respingona -, ou apenas porque a dispepsia lho pedia, a pancada um descarrego de humores. Viviam na minha rua e era frequente a noite ser assombrada pela voz colérica do homem que levava de vencida a resistência das paredes. O festival de gritaria antecipava o que conhecíamos: no dia seguinte, a mulher aparecia a coxear, protegia-se com óculos escuros e tinha negras pelo corpo.  Era um sujeito temível, sem amigos e que só não assustava os mortos. Tinha, pois, a profissão que convinha. Eu, adulta certificada e com prática, fugia de ser atendida por ele na loja de flores que possuíam. Nos olhos de Conceição lia eu – talvez mesmo só eu – os desastres e naufrágios do casamento, em bolandas com submissão falsa e um excesso de desesperança posta  em fundura de poço.

 Envelheceu e engordou. É hoje uma avó de duplo e farto queixo adiposo e mudou-se-lhe o olhar.  A escuridão de poço sumiu. Ao invés, noto-lhe a vaidade orgulhosa de quem subiu e está bem de vida. Também recordo o garoto de então, três ou quatro anos de gente que entregava no jardim de infância. E a educadora a receber a encomenda e entrando com ele pela mão, Hem, Ricardo, uma boleia no carro funerário, olha que não é para todos. E ele tão magrito e pequenino como impante, a minha avó trouxe-me.

Observo-os a trabalhar, consonantes e comedidos. Apenas a garota, talvez por esquecimento, mastiga pastilha elástica, facto que muitos lastimam para dentro e a avó vai reverberar em casa. Mas ele é um craque. Discreto. Silencioso. Eficaz. Simpático na medida justa.

Depois…bom, depois a avó leva-os no carro funerário até ao descapotável de último grito. Entram e recuperam-se. Partem para onde, cabelo de champô em rodopio. Dois jovens a quem a pandemia trouxe benefício. E a Conceição? Ora, a Conceição está sozinha há muito ano e do defunto não há em casa um sinal. Homens, só o neto. Um dia destes, quem sabe, lá volta o carro funerário ao jardim de infância. E ela a repetir-se, desfeita em ternura.


sábado, 12 de fevereiro de 2022

A Casa Amarela

 

É uma casa alegre de mulheres tristes. Mais que alegre, a casa de dois pisos é receptiva, clara, tons pastel nos lugares certos. Aqui e ali, um pormenor de bom gosto, talvez influência da mais jovem. Por cantos e recantos, dispostas com arte, flores naturais e artificiais alindam e acompanham. Abundam fotos de família e amigos com pátina de tempo e mérito. Apesar da delicadeza semeada, da conjugação repousante das cores, dos pequenos ardis decorativos, há pela casa rasgados sulcos de saudade arados no chão da memória. O interior deste gineceu particular guarda a história de uma família, caminho  quase a completar-se, círculo que se fecha. Ao primeiro olhar, o défice: falta vivacidade, perfume juvenil. A casa é serena, sem sombra de desarrumação. Talvez nem conheça passos de infância, saltinhos, pulos, bater de palmas, birras em agudos que desapetecem,  ridículos de ternura adulta opada de diminutivos. A casa chora para si a incógnita ausência de um brinquedo atrás da porta, por cima das mesas, no patamar da escada. E as paredes, ridentes e perfeitas, continuam virgens de inocências garotas, não existe sinal de risco de lápis ou dedadas infantis. Mas como pode uma casa ser alegre, sendo triste quem a habita e a percorre, quem lhe alisa os refegos quotidianos. A claridade das paredes guarda infiltrados segredos e anseios, lágrimas e rogos, revoltas e acasos de má sorte. Que casa sobrevive em alegria à mágoa que lhe corrói os interiores.

Ontem lanchei nessa casa de alegria só por fora. Bebi um chá que me soube a não sei quê. Julgo que a diferença no sabor lhe vinha de ser feito também para mim. E há muita alegria em noventa e muitos anos descerem a escada e mergulharem na cozinha no preparo de um chá. Desvaneci. Pareceu-me que as duas mulheres suspenderam desgostos e maleitas, éramos apenas três mulheres sem história em volta de um chá. Foi um tempo de nada, mas foi. Vou guardar a bênção de ter sido.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Notas do Sem Fim

 

Pronto. Desceu-me – finalmente – a adrenalina. A casa está mais ou menos no lugar de sempre e perdeu a estranheza que a percorria de alto a baixo quando, desaparecidos os lugares fixos, arrumar era mudar de sítio. Havia sempre gente ou objectos inabituais a procurar um encaixe, querendo, melhor ou pior, passar a pertencer. E depois, não só a casa se sente estranha. Nós mesmos zanzamos nela. Parece-nos outra, a que impa brilhos e odores. A exibir-se, ela que é toda recato e discrição. E há risos e alegria que extravasa; e conversas cruzadas, os decibéis em conta quilómetros, subindo o escândalo liso e branco de paredes boquiabertas, oh!. Hoje, de tarde, a casa recompôs-se e voltou ao mutismo habitual, recuperou os lugares um a um, as paredes relaxaram, libertas de cheiros culinários e gente. E cada divisão repousa em seu ser, julgo eu que contente.

Mas em mim enquistou uma melancolia fina, entrou-me um friozinho de alma quando acenei o último adeus e nos apertei no abraço final. Agora é tudo longe e separado. Madrid ou Lisboa, que importa. Ilumina-me a tua ternura cuidadosa. Guardo-a para os dias de cinza e pó, horas de vento bravio que tudo varre, momentos de gólgota que urge atravessar. Como contas de colar e muito mais que elas, conservo a meiguice repetida do teu indicador a rir na minha bochecha; a mão que me pousas no ombro se encostas à minha a tua cabeça; as tuas ironias ternas, implicâncias felizes acertando nos meus sonos irrisórios; o jeito casual se acaso referes o voluntariado em que te empenhas; as dicas carinhosas sobre filmes; a forma como pronuncias, mãe, e de que tenho uma formidável e ingente saudade que nunca te confessarei para não estragar. Sempre nos habituamos ao depois do Natal.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Gotas de Orvalho

 

Como as árvores, espero anualmente a primavera. Que chega no verão, movida a tepidez e força de calor. No tempo das cegonhas paradas no azul reverdeço, encho-me de folhas e breve se juntam algumas flores. Árvore envelhecida por anos de líquenes e musgos, já os vigores primaveris me demoram e constrangem na floração. Mas tudo que é natureza usa de contrapartida. Por serem menos, são mais lindas as flores. Ou assim as sinto. A velhice, em meu parco entender, é um Deo Gratias. Até para quem não tem Deus. Talvez por serem em menor número, e pelas contingências mais ou menos aceleradas de apodrecer gradual, vamos perdendo capacidades de vária ordem. Porém, num esquema muito próprio de compensações isentas de justiça, a vida vai-se desdobrando nas pequenas coisas que antes não vinham à liça porque a lufa-lufa quotidiana amontoava e engolia o tempo.

Como as árvores, espero a minha primavera: um dia azul e de clara quentura, a suavidade bailando na mistura de cheiros. E o mundo recomeça. Pego no carro e na mochila, faço um caminho comprido e quase sem curvas, marginado por árvores e ninhos conhecidos e tudo me acontece em nítida e alegre serenidade. Cruzo a imensa poça de nenúfares em  que o gado dessedenta; uma fábrica sazonal que prepara a azáfama da estação; os portões grandes onde se abrigam não sei que fortunas e que, por mais abertos, são alheios à hospitalidade; o restaurante que foi escola; os esqueletos de árvores retorcidas e poéticas que o inverno matou e se mantêm na beira do caminho, a lembrar aos homens que “as árvores morrem de pé” e fazendo presente uma noite de infância estupefacta, siderada pela extraordinária interpretação de Amélia Rey Colaço; uma aldeia de cais palafítico apresentado por um amigo em tarde de inverno (onde andarão essas fotos); uma praia de entrada poeirenta que abomino; o caminho bordando verdura, bermas de areia movediça e perigosa onde certa vez enterrei o carro; o mar aqui e ali a espreitar na paisagem, recorte comovente e de extraordinária beleza que acena em terno chamamento. O lugar onde estaciono, sempre o mesmo, na sombra dos pinheiros; a vereda nas dunas, ladeada de plantas que admiro estarrecida; e, enfim, o mar, a areia fina e macia festejando os pés, o sol na pele, a água que me tolda o pensar, me descansa e se impõe a sós: sou eu e ela, coisa que o corpo vive e a alma sente.

Mas este ano a areia solta importuna-me um pé. E, portanto, nada de dunas, nada de condução, nada de nadar. Andar na areia molhada. É alguma coisa. Mas, garanto, não é a mesma coisa. É que nem consigo saber se me chegou a primavera.

sábado, 20 de março de 2021

Um Certo Ar de Primavera

 

Nestes dias em que a primavera parece ter-se soltado e anda ocupada a desenrugar folhas e pétalas por aí, e agora que as crianças retornaram à escola para alegria das próprias e dos pais que já estavam com elas pelos cabelos, digo com segurança que o mundo ficou mais ele.  

Antes do confinamento, já no regresso do meu passeio matinal e nos dias em que me atraso vários minutos (não convém chamar caminhada àquele passo de caracol), na vizinhança da escola do primeiro ciclo costumo encontrar uma desempoeirada e jovem mãe que entrega a filha à avó e arranca para o emprego. A filha não é a miss chupeta que chega de robe e sentadinha na cadeirita de bebé, mas uma loirinha de óculos, que sai do carro muito lesta, um rabo de cavalo competente e flexível a lamber-lhe ternuras na mochila. Pois é, ainda não contei, mas aquelas duas partilham a minha alegria matinal. Talvez a avó ou a mãe me conheçam, mas não tenho memória delas. O certo é que as três me cumprimentam sorrindo, como se velhas conhecidas. Não passamos do cumprimento amistoso que me sabe pela vida. Fechada a escola, deixei de vê-las. Mas, para meu contentamento, já voltámos umas às outras. No dia inaugural, não consegui evitar a abordagem e disse para o esfusiante da miúda, finalmente recomeçou a escola. Logo a mãe pegou a deixa e, sorrindo um alívio fundo, graças a Deus, a escola fazia-lhe falta a ela e a mim, estes confinamentos num prédio são uma coisa que não se imagina e ela estava farta de não poder brincar na rua, isto foi demais, até parece que lhe nasceu alma nova. E, enquanto entrava no carro, já a miúda, qual cachorrinho contente, virava a esquina aos saltinhos, rabo de cavalo a dar a dar, a avó no seu encalço. Que bonita é a vida no seu quotidiano, oxalá as marcas destes exílios caseiros se diluam. E surgiu-me minha irmã contando dos seus meninos pequenos, os garotos estão tão sedentos de brincadeira que, quando toca à saída, não querem ir, refilam, não brincámos nada, queremos brincar mais.

E quem disser que não fomos feitos para viver em comunidade é porque mente.  

quinta-feira, 18 de março de 2021

Dias Ciganos

 

Há dias assim, acordamos e escurece mesmo se o sol encandeia. E depois, bom, depois pensamos no que deixámos incompleto e fazemos gosto em terminar. E como não estamos de feição mas somos de cumprir, cumprimos. Dentro ou fora, nada a que ater-nos. Estranhos seres que somos em dias de assim, o jeito que nos fazia uma bengala, qualquer cajado tosco, um arrimo onde pendurar nossas tristezas pequenas. Mas a vida continua. E tal. E tal. E houve uma coisa boa, ainda a manhã bebé. A Lili, já recuperada, festeja-me com o olho são, portanto julgo que vem para mim a tacto, talvez  pela voz, e fica a olhar-me gratamente (a gratidão canina move-nos), proximidade que a Violeta abomina e impede atravessando-se entre mim e a irmã. Rio da estratégia e penso que talvez a use como provocação, imagino que o velhote não gargalhe com elas apesar do muito amor que lhes tem; diz ele liquidamente, “são a minha companhia”, o olhar derramado em bem querer. Depois de nos cruzarmos, ocorre-me pensar em quem dorme ainda e que talvez acorde ao excesso dos meus bons dias às peludinhas agora tosquiadas. Portanto, vai uma coisa boa.

Há-de ter sido por tanto a desejar que chegou. Ligaram-me os amigos de férias dizendo que têm dia livre à quinta e que, quem sabe, pegamos numas sandes e vamos até à praia. Olha logo a quem o disseram. É que me despontou uma alma cheia de viço. E pois claro que sim; e se nos fartarmos da praia há muito Alentejo bonito para ver, e qualquer dia faço um almoço para nós. Coisas assim, inspiradoras e  de companhia. Não há que ver, dois - zero.

Não contente com isto, resolvi convidar as manas para um lanche que terminou a horas mortas. Antes, entretive-me a fazer doces que me estão vedados ao paladar e vi comer com agrado. É bom ter quem gostamos à nossa mesa. E são três a zero.

Ao fundo da rua, na escola do primeiro ciclo, voltaram os gritos das crianças, uma algaraviada de que não se entendem palavras: as saudades que nós tínhamos dessa mistura de risos e vozes elevando-se e a retinir como cristal. Quatro-zero.

Ontem foi um dia cigano, de maus princípios.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Os Nós e os Laços

 

Gente como eu, se se habitua a não ter carro, deixa de pensar no assunto. Resolve-se sem ele. O certo é que o automóvel só me entrou na bolsa depois de casada e à beira do primeiro filho. Chegou, praticamente, com a cegonha. E, é claro, eu nem por sombras pensava guiá-lo. Não lhe achei grande piada, não caí de amores. Mas dava-me jeito com a criança e artilharia anexa. Foi então que  se iniciou a campanha. O parceiro instava-me constante. Empurrava-me resoluto e chagava-me a mona, tens de tirar a carta, já foste à escola, vai inscrever-te. E tal e tal. Mediante o meu desacerto e inacção, um dia, papéis batidos na secretária, estão aqui os impressos é só preencher e entregar.  Portanto, muito sem vontade e farta de ser inquirida, resolvi investir na habilitação. Está visto que não me interessei minimamente e faltei a quase todas as aulas teóricas. A data do exame de código acendeu a peleja caseira, não fazes caso, não ligas, vamos perder o dinheiro, nem o livro de código compraste, vê tu o caso que fizeste. E tal. E tal. Resumindo:  comprei o livro de código e gastei-me a lê-lo no fim de semana anterior ao exame. Satisfeita com o resultado, inscrevi-me nas aulas práticas.  A que continuei a faltar por variadas razões, uma das quais trabalhar noutra cidade e não haver horário compatível entre mim e a escola de condução. Marcada a prova de exame, faltavam-me dez lições. Então, no fim de semana anterior, um outro instrutor gastou comigo e de afogadilho a maior parte das sessões em falta. Primei pela asneira.  Mas aprovei, jurando a mim mesma que nunca mais me apanhavam noutra, já me bastava o memorável martírio das orais escolares, não precisava acrescentos. Encartada, sem saber conduzir. Verificada a minha inépcia, depois de sujeito a um ou dois perigos de grau elevado na via pública, o meu parceiro desligou de mim ao volante, facto que agradeci. Passaram dois anos. O automóvel não me existia senão com chofer. Um dia, uma amiga foi passar o fim de semana a minha casa e instou-me para que conduzisse, não saio daqui senão contigo ao volante. E consegui. À partida, deixou aviso, agora levas o carro para a escola todos os dias, ouviste? Quando voltar vamos dar um passeio grande, só nós duas e o garoto. Obedeci-lhe na convicção de visita breve. Mas a vida levou-a por outros caminhos e nunca o passeio se concretizou. Anos atrás,  o reencontro. E retomámos caminho. A vida dá mais voltas que a Terra sobre si mesma. Pois não é que a garota tem carta de condução, mas não guia.  Quanto a mim, distraída e até  perigosa ao volante, ganhei estima profunda ao automóvel, um dos poucos lugares onde me acho cantarolando.

domingo, 7 de março de 2021

Os Nós e os Laços

 

Dada a conjuntura, ou, em termos mais eruditos, a minha circunstância, em vez da carta de condução, tirei outro curso. Ajudava a passar o tempo e saía mais barato. Portanto, lancei-me a estudar à noite e surgiram novas amizades, uma das quais se fez siamesa e, mercê do optimismo e decisão rápida que inda lhe pertencem, tornou mais leve a juventude que me coube. Entretanto, meus irmãos iam crescendo. Entre estudos, profissão e casa paterna com seus apêndices e carrêgos, não me sobrava tempo para pensar em conduzir automóveis. Olhando para trás, reparo que  fabricava um nico de tempo livre ao fim de semana, e apenas se não ia a casa. Mas era jovem e alegre; tinha a profissão com que sempre sonhara e cujo exercício me fazia feliz; três irmãos mais novos que aguardavam os meus fins de semana e as férias em casa com ânsia igual e até superior à minha; recebia um ordenado mensal. E, tal como a Dulce, passava de vez em quando nos Porfírios que, estranhamente, me parecia loja  escura em demasia e cheia de cubículos labirínticos, facto deveras intrigante, nem conseguíamos ver com nitidez as cores da roupa. Acrescia a música – que raramente identificava, não eram discos de “Quando o telefone Toca” e do senhor Matos Maia – em tom pouco discreto. E, é vero, percorríamos-lhe os meandros intestinos e estava apinhada. Ignorava que fosse loja da moda. É que só dei por isso quando a Dulce o escarrapachou na crónica. No meu entendimento, dada a quantidade de jovens que a frequentava, o que havia era muita gente como eu, pessoal que não encontrava número nas lojas normais. Sentia-me pois irmanada e até sortuda. Finalmente, descobrira poiso onde comprar. Devo-o a essa amiga que ainda conservo e que, notando a dificuldade, me deitou um olho crítico e vaticinou científica, tu, só nos Porfírios. E levou-me. Que eu, andando pela capital num aperto de horas, não os teria descoberto. Bom. Lembro-me da escada em espiral, uma chatice de todo o tamanho que me entorpecia as pernas sei lá porquê (ainda sou um bocado parva com escadas), e ainda por cima sempre cheia de gente a subir e a descer. Mas, a minha amiga estava com a razão, nos Porfírios eu era superstar, tudo me assentava. Até parecia uma pessoa normal. E os preços eram da minha igualha. Além do mais, tinha empregadas lindas, autênticos manequins de passerelle e cujo visual me dava algumas dicas.

Por essa época, garotas da minha idade e condição compravam carro e até casa. Eu tirava novo curso e, a conselho da minha siamesa que custeou as despesas iniciais, investi  numa tenda, artefacto que jamais tinha visto. Fomos, expressamente, ao Grandela, observá-las  em seu esplendor. Não tínhamos carro, carta de condução, casa. Mas cada uma de nós era proprietária de uma barraquinha que nos fez felizes ao longo de dez anos de férias em comum. Viva!

(cont.)

sexta-feira, 5 de março de 2021

Os Nós e os Laços

 

Quem me conhece intuiu que eu gostaria da prosa de Dulce Maria Cardoso e ofereceu-me “Os meus sentimentos”, obra que li anos depois de “O retorno”.   Comprara o  livro em acesso pressagiante,  completamente às escuras, e auto dispensando-me da tarefa introdutória em busca de sinais - ler inícios de capítulos e outros eteceteras. Escuso de dizer que fiquei fã e sou fanática: compro tudo que encontre escrito pela distinta senhora (faltam-me alguns volumes), leio-lhe com enlevo as entrevistas, já fui vê-la ao vivo correndo (de carro) muito quilómetro madrugada fora. Gosto dela e de José Luís Peixoto pelo valor literário que lhes reconheço, pela forma como se exprimem, pela simbiose de pensamento que me permitem, por originária e bravia verdade camponesa  que respeitam, de que se orgulham e que partilho. Julgo que, se me tivera dedicado e amadurecido nas letras, seria um pouco como eles. Bom. Isto para dizer que leio amorosamente as crónicas da Dulce na Visão. Facto curioso e que não deixa de me espantar, destronaram as de Mia Couto, romancista de primeira água, com décadas de musgo no meu gosto. Ora, se a crónica cabe a Dulce, talvez porque as nossas origens tenham um quê de semelhança, contraponho mentalmente a minha versão (sucedia com José Luís Peixoto quando era ele o cronista). De prosa claramente excessiva em termos pessoais, talvez pela intimidade que desvendam, jamais tive coragem para assumir os relatos que Dulce Maria Cardoso me sugere. Mas, a crónica da passada semana, “A conduzir”, foi uma farpa. Ninguém, mas mesmo ninguém, me ultrapassa em histórias de condução. Que essas (algumas), escrevi-as algures e não são para aqui chamadas.

Enquanto o sonho de Dulce com a condução começou com o Bolinhas, carro velho que o pai comprara para desemburrar a irmã mais velha, pouco me lembro de sonhar tão alto. Como o pai da escritora, o meu é de parcos presentes. Dado, dado, enquanto jovem, deu-me o primeiro casaco comprido, então designado “casaco grande”. Aconteceu no inverno posterior a doença grave e foi para mim O acontecimento. Mas também me dera um relógio após a quarta classe. Comprou-o depois de uma tarde de copos a ourives ambulante. O homem entrou-nos em casa por via da escolha da bracelete que encurtou a canivete e perfurou especialmente, atendendo à magreza impressionante do meu pulso. Por fim, cabeça  abanando o desalento e na impossibilidade de mais furos, deixou-mo a bailar sem remédio e partiu na motorizada, o cofre do ouro acondicionado no suporte da dita. Não tive escolha. Desconhecia outros relógios femininos e não havia termo de comparação. Mas dava horas certas. Portanto, serviu os intentos. Nunca fui apologista de relógios e não o senti como presente. Representava, isso sim,  o fim da primária. Jamais meu pai, em seu juízo, falou em carta de condução ou compra de carro. Com os copos, em dias benévolos (há muito mau vinho por essas bebedeiras fora), prometia mundos e fundos a esmo, o seu lado de sonho a vir à tona, todo espuma (meu mano caçula acreditou que teria um cavalo). Os meus estudos nunca lhe importaram minimamente e, na óptica que reiterava dia sim, dia não, repetia haver de sua parte uma benevolência sem limite por deixar-me estudar e não me pôr a trabalhar ao campo dando lucro à casa. Portanto, quem pensaria em presentes. Eu, não. Já formada, não se ofereceu para me emprestar a verba que eu sabia que tinha para o dito bólide e antes insistia lestamente em que ajudasse os meus irmãos mais novos e pagasse a educação da mana que se me seguia. Contudo, lembro-me de pensar na Diane. Pensar como se pensa no impossível, se eu ganhasse a lotaria em que nunca joguei. Por exemplo.

Ressalvo que a maxi push, minha acelera querida, não foi bem um presente. Ao longo  do primeiro ano de trabalho, resolvi entregar-lhe um terço do meu ordenado. Ele juntou-o e comprou a maxi push. Compreendi o subentendido: “o seu a seu dono”. Éramos mundos económicos separados, cada um assumia as suas responsabilidades e valia-se de si mesmo.

(cont.)