sábado, 30 de setembro de 2017

Bulício Pessoal

Uma das minhas manias é começar coisas. Entro por elas dentro num entusiasmo  afadigado e, em muito caso, breve as abandono. Sou assim, gosto de começos.  Por vezes, recaio e torno, detenho-me a observar o feito. E encontro-o tão sensaborão, o olhar despido de emoção e momento exibe um sem valor de tal ordem que compreendo o que intuição ou apenas preguiça me segredaram: não vale a pena. Portanto, a minha vida desenrola num encadear de começos e desistências. De nada acabado.

O que concluo? Pois, no seguimento da sina de interrupções, não concluo. Há-de haver um Deus – ou um acaso material – que me conclua e dê destino. Que pode ser definitivo. Ou não. Que, se “ou não” e  ainda a razão me assista, pergunte logo à chegada, o que fizeste?, e eu sem gaguejar, comecei um inúmero de coisas. Ele, e...?, e eu, e... nada; foi só assim uma coisa de tudo a começar, nada de acabamentos ou lindezas, nem ao reboco cheguei. A haver tal diálogo, sou bem capaz de levar a eternidade a aprender a rebocar. Mas se há quem empurre pedregulhos e se aguente...

sábado, 16 de setembro de 2017

Demasias

Chegou sem fome, banhado em alegria e conversedo. E alagou os presentes em beijos e abraços. Verborreico. Sentou-se a depenicar a refeição. E bebeu. Garrafa a meio, interrompeu para fumar um cigarro. No exterior. Envolto em noite. Ao entreabrir da porta, uma aragem fria espevitou arrepios sala fora e logo um coro uníssono, atenção à porta. Fechou-a sorrindo, a mão a palpar o isqueiro no bolso. E as conversas recomeçaram sem imoderados, pausadas. Faltava ele, braços a alongar pela mesa e palavras de atropelo, as tais palavras a borbulhar alegria, espuma breve que por vezes se perdia no entaramelado da língua sob a curiosidade auspiciosa de quatro ou cinco pares de olhos que as anzolavam sem êxito.
Um súbito abrir da porta desenhou-o em fundo escuro. E logo o coro, a porta. Então, feito sinaleiro, impôs calma, um dedo em gancho a definir-lhe a intenção; acenou-lhe, chamou-a sem palavra. Ela corrigiu um botão da blusinha e interpretando o desejo comum, saiu fechando a porta. Sentaram-se no poial, apenas iluminados pelo postigo, sinal da vida que, a três passos, corria quente e cómoda. Ali, não. Ali, havia a hostilidade da aragem. Ele fumava a olhá-la. Atento. Finalmente tomou coragem e veio o discurso da partilha de emoções e problemas, o eterno discurso feito e tão vezeiro, a partilha ajuda; o, julgo que sabes porque estás aqui e eu julgo que sei o teu problema. Ela sorriu. Apenas. E foi tão indefinida quanto ele, partilhar não resolve, mas obrigada na mesma.  Ele entre baforadas, tu é que sabes. Findo o cigarro, entraram ambos. Sentaram-se à mesa a retomar fios de meada. A garrafa decerto morreu vazia que ela saiu antes, era tarde, esfriara no seu vestido de verão.
No dia seguinte, cumpriu o prometido, visitou-a. Era manhã. Partiu depois de beber um café quotidiano enquanto  conversava pelos cotovelos. Ela viu-o desaparecer em pressas de acelerador e pensou na por demais incerta certeza dele, “quando formos mais velhos tomamos conta uns dos outros”. Jovem e bem intencionado. Oh, a incólume juventude, sem rastos  de tempo e sua corrosiva importância.  Como é que ele consegue?!...


domingo, 10 de setembro de 2017

Cremes de Corpo - Epílogo

Foi colocado na minha frente, colorido e apelativo. Era um saquinho pequeno, talvez com riscas. Uma prenda. Para mim. Nessa manhã tinha vestido uma blusinha do avesso, mas fui tão rápida na correcção que nem me lembrei de contabilizar o evento como um prévio de presente. Mas ele veio, secreto, escondido em saqueta de bom papel que quadrava lindamente e até talvez não lhe pertencesse de raiz. Na raridade do momento, alvorocei. O facto de alguém andar a procurar – em casa, loja, ou seja onde for – um artigo que me tenha por destino, deixa-me sem jeito e sempre agradada e grata. Curiosa, espreitei o interior e vi uma caixinha branca. Retirei-a. Li, Lilies of the valley, body lotion (o rótulo prometia, as florinhas são lindas). Desrolhei. Cheirei o creme que me espreitava em preguiça leitosa. Tinha odor agradável, parecia suave. Agradeci a avivar a recordação das últimas façanhas com cremes de corpo. Contente da utilidade.

Mais tarde, experimentei. Não é a loção que desejaria. Os lilies incorrem em delacção. Em vez da nota floral, assumem com garra o plástico da embalagem. Também acontece que não hidratam com o vigor do simples e diáfano nívea, “que não te falte o nívea, que não te falte, que não te falte”. Contudo, a oferta surpreendeu-me. Para bem. Portanto, guarde-se o efeito surpresa e gaste-se a loção. Além do mais, a odisseia dos cremes de corpo permitiu-me recuperar o alcance diário do meu amigo mais velho da secção, o always  nívea. 

Chapinhando

Sou de sequeiro e não sei se gosto do mar enquanto oceano e imensidão. Temo-o. E rondo-o. Olho maravilhada aquela imensa mole, admiro-lhe a grandeza e a paleta de cores, o movimento incessante e vivaz, o brilho sob o sol. Se penso nele, habita-me um respeito temeroso, inibidor do sentimento.  Não apeteço cruzeiros e o meu ser repele um horizonte de água. Sou adversa à constância do cheiro ao iodo marítimo e a viver balanceada num insuportável colchão aquoso.
Mas a praia. A praia sedutora, a expandir-se até aos confins mais escusos do eu e infra eu. Exigente, despoja-me do ser que sou e me habita. E ali ficamos em sintonia. Entretanto, não me preocupa o que sou, sabendo que sou ainda alguma coisa. Agrada-me como amante romanesca que arrasa convenções e se deita sobre elas a descansar. Com ela tolero a vida; de outras vezes, ajuda-me a viver com mais ou menos apreço. Sou de visitas pontuais em calores de verão. E ainda assim me sustenta. É um dos meus amores perfeitos. Alinda-me os interiores.

Penso bastas vezes na hipótese de perdê-la. Sonho que deixa de me existir. Na verdade, qualquer contingência pode impedir-me de visitá-la e obrigar-me a desistir dos momentos que acolho e acabido dentro de mim, preciosidade que são. Mas talvez Isabel Allende tenha razão. No que julgo o seu último livro há uma mulher que durante três anos envia cartas a si mesma. Faz viagens para nada. Ora, coisa nenhuma é “para nada”. O chato disto tudo é que a gente, mediante as linhas que a vida e os outros nos traçam, pensa ser original. E não. Vai-se a ver há uma escritora que pensou exactamente o mesmo. Mas ela apenas pensou. 

sábado, 9 de setembro de 2017

Particular Indiano

Estou no metro. Entro devagar na carruagem, a  aproveitar a benesse da idade e sento-me frente a um casal jovem. São indianos. Ele tem os óculos e os olhos virados a ela. Focalizados. É linda e típica, pele acetinada em moreno escurecido, boca carnuda,  um traço natural e acastanhado em debrum, o meio do lábio inferior em vermelho natural. Mais acima, o donaire em arco da sobrancelha é asa que guarda a graça do risco de Kohol ajustado ao poço sem fundo dos olhos. Ciciam palavras alegres ou ternas enquanto as mãos se vão entretendo em conversa de umas a outras, num enlaça deslaça digno de filme. Presumo que combinem quotidianos futuros, cada um esperando a palavra do outro. Talvez aprazem a tarde, as próximas horas, o dia de amanhã. Existem-me da cintura para cima que o resto do corpo elide e morre sentado, quieto. Nada neles é urgência, antes parecem comungar do sentimento do apóstolo que em bem aventurança se vira a Cristo e, negando o mundo real, pede o eterno, “ senhor, é bom estarmos aqui. Se desejares, farei aqui três tendas, uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias”.

Não houve tendas para o Senhor Deus. Não haverá para o casal indiano. Mas oxalá o momento deles seja eterno o quanto baste.

domingo, 3 de setembro de 2017

Desastres sem Remédio

Sou um desastre a comprar produtos de beleza. Talvez por desábito, mas inclino-me mais para desorientação e falta de jeito congénitas.
Em final de férias, sobrou-me moeda estrangeira e, por via disso, adquiri-os num free shop de aeroporto. Incentivada por um extra de apuro feminino, fui a uma marca de preços módicos, que a carteira ordena-me sobre o gosto. Cheirámos daqui e dacoli. Optei por um perfume que me pareceu de suave aroma cítrico. Entretanto, juntámos as nossas últimas e conjuntas moedas e trouxe mais um artigo: um creme perfumado para o corpo que, segundo ela, é por demais hidratante e, para o cloro da piscina, não existe melhor. E lá vim com dois artefactos jeitosos a priori, pensando que a vida me desabituou de perfumes e cremes de corpo, que talvez não seja boa ideia reactivar o hábito, e etc. Já em casa, apresso-me a experimentar o body cream. E não é que me sai um açúcar?! Um açúcar?! ó Deus, se nem sabia que isto existia  no mundo da beleza! Afinal, depois de investigações, é um açúcar esfoliante (lá se foi a hidratação superior e cheirosa). Bom. Entretanto, pensei  que um mimo, mesmo pequeno, me caía bem. Que o merecia. 
Mal tive oportunidade, já em Portugal, procurei a mesma marca. Cansadíssima. Liga-me uma colega daquelas com vagar e conversa que não acaba. E eu lá. Dores de costas sem fim, a pôr mãos aqui e ali para amparar o corpo. A deitar bençãos à materialização de um banquinho, uma cadeira, o fim da ligação. Nada. Às tantas, a empregada - não quero pensar na intenção da jovem -  trouxe-me um copinho de chá. Eu queria era uma cadeira. Bebi o chá. E ainda sem coragem de terminar a ligação, que bastava um falamos amanhã que estou que nem posso. E quanto tardei a dizê-lo, sempre na mira do fim de uma conversa sem quês, das que podem acabar mal começam. Enfim livre, desejando a casa com toda a alma que me pertence, senti-me na obrigação de satisfazer o desejo com que ali entrara (foi também para conseguir ouvir, o barulho nos centros comerciais piorou), comprar o tal creme de corpo super super. Cheirei, experimentei, mas já estava um tanto impaciente. Optei por um cítrico (só havia dois e o outro era de cheiro bem penetrante), pensei até que conjugava com o perfume, cujo, descobri, deve ser meio árabe porque me deixa manchas gordurosas e peganhentas na pele. Acerca da minha opção, a empregada ainda acrescentou : é de verão, deixa um certo brilho na pele. Pensei que o brilho seria consequência da forte hidratação e me daria o ar de saúde a que sou eterna aspirante. Retorqui que me dava jeito. Comprei e pronto.

No dia seguinte, repeti o gesto onde descobrira um açúcar e espalhei creme por todo o lado. Ora bolas. É que tem mesmo partículas brilhantes. Fiquei que nem uma lantejoula. Nada de ar saudával. Nada de cheiro fresco que perdura. Até julgo que me suja com os brilhos. Empalmando as duas compras, quase comprava um frasquinho de 100 mililitros de uma qualquer coisa de jeito. Sou uma naba, é o que é.