quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Pós-Natal

Há quem viva o advento a preparar o Natal,  a trabalhá-lo desde as fundações. Sem esquecer aquele Cristo Menino que nasceu não se sabe quando, mas convencionámos ser benção dessa noite feliz. É como afirma e sublinha o Papa Francisco: sem o nascimento dEle a festa não existia. Que um Deus aceitar ser homem não é coisa vulgar, os deuses têm a divindade em grande apreço. Mas o nosso Deus prescindiu dela (só parcialmente) e deu-se ao trabalho de nascer, viver e morrer como qualquer ser vivo. Como qualquer, não. Como um homem que é mais que homem. Cristo foi o homem perfeito, qualidade que não existe senão nEle.
Bom, mas eu não vinha por uma aula de catequese. Vinha mesmo para pensar o pós-natal dessa gente bem aventurada que tece a teia natalícia com arte e paciência. O que lhe acontece quando passa a quadra? Fica ainda imbuída do espírito e prolonga-o muito para além do Dia de Reis? esvazia como balão? Ou nada disso?  Tenho para mim que é um pós parto difícil, as mudanças de paradigma não se fazem sem luta. Julgo mesmo que nos dias subsequentes zanza sonâmbula e lhe falta chão, desirmanada da casa ainda em traje de festa. Entre o Natal os Reis, a recuperação tarda. Reapossa-se de si tacteando, como quem vem de sono profundo e ainda não domina e nem lhe apetece o menu do corpo e da vida que lhe coube. A vontade que antes enfileirava resoluta, agora inibe, receia, desapetece.

E ao invés de nuestros hermanos, o Dia de Reis apanha os portugueses já de costas para o Natal. É dia de arrumos e o infiltrado espírito de serviçal comanda as operações. Frio. Cego. Eficiente. Esquecido da ternura desembrulhada em cada objecto,  uma saudade amorfa e prestativa a orientar o quadro de ano inteiro.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Dia Vinte e Quatro

 Levanto-me cedo, a gata colada às pernas como se a ração desça por mim abaixo. Satisfaço-lhe o instinto e dou início ao ritual do café a subir na cafeteira, uma fervura odorosa e borbulhante que deslizar e deixa bem morena a taça de leite quente, volutas de vapor a coalharem apetites, bebe-me. Que nem precisava, o desejo à beira da satisfação é gosto líquido.
Depois das cerimónias matinais, posto o traje de guerra, nada me pára. Primeiro os últimos embrulhos e o sistémico compartimentar de prendas: casa, sobrinhos, manos, outros. Uma foto que rejeita a moldura, cortar, verificar, embrulhar. Está tudo. Porta fechada às prendas.
E agora, e agora. A roupa no estendal e nova máquina, gorda de sujidade promíscua. Um doce? Um bolo? Ainda não. O almoço urge, que as visitas cumprem horário. Sai um almoço de festa antes da festa. Depois sim, arruma-se a cozinha para a desarrumar de novo. As visitas vão à sua vida de visitar, e beijos e abraços, e queres isto e queres aquilo, quando a gente já não engole nem mais um átomo. E um sai a isto e outro àquilo.
Sozinha com o mais novo. Os dois na cozinha. Enquanto prepara refogados e corta batata doce, teço paciências no leite creme, derramo-lhe uns toques de caramelo, deito-lhe uma altura de claras em ondas marotas, borrifo com estradinhas leves de caramelo e entrego tudo a forno forte com lume por cima, a dourar a crista das ondas. Ficou lindo. Entretanto, bato o bolo de amêndoa a pensar na torta de chocolate que tem uma apoiante cativa e se tornou um clássico.  Arrumados os doces, é hora de mudar a agulha. As batatas doces estão descascadas e em água, a cebola e alhos cortados. Breve estrugem alhos e cebola enquanto acomodo no forno as batatas cortadas em rodelas, apenas regadas com um fio de azeite. Deito o capão no tacho, misturo a marinada em que dormiu, tapo. Seja o que Deus quiser. Atiro-me às batatas doces restantes que corto em palitos. Antes de iniciar a fritura, ocupo-me a instruir o meu ajudante no pôr da mesa, e vejo se a lareira está de feição a ser quente e acolher o Natal. Chegam todos. Há uma azáfama em volta da mesa e das cadeiras, do faqueiro e dos pratos, das notícias que não se sabiam de um primo a outro. E eu na cozinha fritando batatas e a mexer a abóbora cozida e escorrida para os fritos de tradição. Uma mana põe o avental enquanto a outra orienta no frigorífico a salada de frutas. Uma supervisiona a sala, a mais velha acompanha-me na cozinha. Toma conta da abóbora enquanto frito e lhe vou chegando ingredientes. Provo a massa, está boa, acrescento um tudo nada de aguardente. Agora sim. Ela deita colheradas na frigideira, eu viro e embrulho em açúcar e canela. Entretanto, a última fritada de batata normal para os eventuais que não comem batata doce. De seguida, estão todos à mesa a devorar a entrada. Todos, menos eu e a mana. Coloco o tabuleiro de bacalhau no forno para uma achega de calor e misturo o sangue na cabidela. A mana tira o avental e vai sentar-se. As entradas estão no fim. Levanto os pratos. E quando bacalhau e carne chegam à mesa, ah, esqueci a salada. Volto, encho um recipiente, tempero e levo. Nova viagem a tirar a última fritada de batata (julguei que poderia fazer falta mais uma), espero um pouco até que estejam prontas. Tiro o avental. Levo mais pão. Volto para reencher o jarro de água. Sento-me a provar a cabidela e o bacalhau. Pode ser do apetite mas parecem-me bem. A salada esgota e volto a fazer nova. Levo. Quando levanto a mesa, não há bacalhau nem cabidela nas travessas. O resultado do exagero nota-se em doces e salada de frutas. Há bolos intactos e a salada está alta, os fofos de abóbora levaram um avanço e o meu doce é um nozinho de claras a boiar num laguito amarelo de leite creme, um cabelo escuro de caramelo em travessia preguiçosa.

E depois foi ir arrumando na máquina e lavando. No pós doces, conversar à roda da lareira, falar disto e daquilo. Rir. Distribuir e receber presentes. Aquela alegria. E abraços e beijos de despedida. E gosto muito de ti, até para o ano e que nos voltemos a juntar. E parece-me que o Menino Jesus nos sorria da sua cama de almofada e havia mais gente do que a que víamos. Tenho certeza.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Dia Vinte e três

À medida que se aproxima o Natal,  os afazeres e tarefas vão caindo sobre ele e exigem, subterrando capacidades de apreciação. Ao longo do dia, preparam-se carnes e doces; revêem-se ingredientes, fazem-se as últimas compras e embrulhos, dá-se um retoque na casa. Na corrida de à rua, as noites perdem o encanto gelado. Falta tempo para o brilho encantatório e longínquo das estrelas, o sugestivo dos enfeites, o sossego frio da escuridão. Tudo acontece no interior das casas.
Ao modo da outra gente, também ultimei compras e embrulhos. Que, no resto, a surpresa mudou-me o itinerário. As visitas anunciaram que chegavam para jantar e fizeram-me uma revisão ao frigorífico e ao programa do dia. Em vez da mansa execução de  doces foi um ver se te agrado no fogão, seguido de um jantar demorado. Depois, esgotada por três noites alimentadas a migalhas de sono, desvaneci. E por isso hoje é domingo mas vai ser sexta. Desço para um pequeno almoço de café com leite vigoroso, ligo o turbo e os doces têm de sair; temo a falta de tempo para o vagar amoroso com que me habituei   a alimentá-los. Mas há que tentar. Apesar de um almoço e um jantar de festa. Que o Natal me chegou sem aviso e de véspera. Mas de brilho superior. Tudo se há-de fazer. O menino Jesus espreita-me das almofadas, nuzinho e divertido, nem um pelinho eriçado no corpo roliço, que um deus paira sobre as minudências. Pode que me dê uma mãozinha.
E à noitinha a casa enche como ovo, a cozinha numa azáfama de tachos e lumes e cheiros insidiosos, os homens na sala abrir a mesa e carregar cadeiras, a compô-la de copos e pratos comandados pela menina da família. Tão bonita uma mesa cheia de festa, debruada de gente!

Há-de ser.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Dia Vinte e Dois

Hoje era para ser um dia de coisas boas, mas a segunda noite má dentou-me a alegria. Nada sem remédio, diga-se; todos os dias têm uma noite, portanto vivo em esperança. Almoço marcado com uma amiga. A vida tem-nos trocado as voltas, apostada em gorar os nossos encontros. Acho uma maldade andar assim a rebentar os nossos balões de oxigénio. Mas hoje foi de vez, rompemos o enguiço. Esperei-a na beira da via férrea, paciente e saudosa do cheiro que evolava das traves sustituídas agora por blocos de cimento. À vista da linha do comboio transmuto, viajo para lugar longínquo onde tudo é diverso e outro. Ali, hei-de renascer. Não entendo a nostalgia do que não vivi nem o facto da via férrea me ser família. Mas já me resignei, é questão de aceitar, não lhe assiste explicação plausível. O efeito dos caminhos de ferro no meu espírito é um mistério. Quem sabe se fosse maquinista, revisora, fiscal... Mas não sou. E pronto, Durante a refeição conversámos, trocámos presentinhos, e acabei  a embarcá-la.
          Ao princípio da noite, o concerto. Tão, mas tão bonito. Pela primeira vez, tive pena de não ter adquirido o programa. E portanto não fiquei sabendo o nome da fadazinha que apareceu de branco vestida com uma sobressaia de tule vermelho e um rabo de cavalo bem puxado acima, a franjinha garota a rematar. Sim, sim, uma fada: Jovem, leve e magrinha, com cinturinha de vespa cingida a fita vermelha e voz de cristal. Desconheço a que modalidade do bel canto pertencia, mas era uma voz cristalina como ela inteira. Linda, linda, linda (oxalá eu tenha sido um bocadinho assim, há quem diga que os meus rabos de cavalo lá bem no alto tinham certa graça, mas era coisa em que então não pensava). Pois esta menina, que era uma menina na casa dos vinte, cantou em inglês – suponho que era galesa -, com voz límpida e clara como água, canções de filmes. Canções mais sentimentais que natalícias, mas talvez mais deliciosas por isso. Comoveu-me, sim; até porque, lá bem em cima, a letra passava em português. E o público não regateou palmas e assobios em barda. E ela, uma Audrey Hepburn desvanecida, agradecia em vénias sucessivas, mãos postas. Já assisti ao canto de outras mulheres – várias – no mesmo auditório. Mas nenhuma aliou a figura ao canto. A maioria canta quase extática. Mas a garota era toda movimento. Não que bulisse muito. Ao contrário. Era a expressão do rosto; eram os braços e as linhas que descreviam, os arcos tristes, a alegria a sacudi-los, a melancolia a adoçá-los em alongamento prolongado; eram as mãos de dedos que abriam e fechavam como anémonas; eram os olhos vivos e irrequietos, ora ardentes ora dolorosos, tão doces se agradecia ao público.
E o coro da Gulbenkian e a orquestra, excepcionais, alegres, a mexerem connosco. O maestro, de que também ignoro o nome, a ensinar refrões para todos cantarmos. Por comparação com as músicas de ano passado, este concerto foi melhor e completamente diverso. Quem tem uma fada sininho a cantar com sensibilidade e voz de tal timbre, tem muito mais do que deseja. No final, os músicos e coro endoidaram e, num ar de rock e batida forte, puseram narizes, armações de rena, barbas e barretes, agitaram os cachecóis vermelhos e dançaram enquanto cantavam e tocavam. Contagiado, o público  imitava-os.

         Depois foi seguir num carrego enlevado. Eu e mais duas sacadas de livros que também assistiram. Para o ano, eu seja ceguinha se não levo também uma peça de roupa vermelha. Ai isso é que levo.

Dia Vinte e Um

Em véspera de viagem durmo intranquila, velo horas atrás de horas, observo-as espojadas no mostrador, postas em vagar de passo certo que arremeda pressas na mudança de dígitos e logo volta ao ramerrame habitual.  Portanto, o alarme do relógio não chega a cumprir função, a voz numa virgindade amuada,
Não gostas de mim; tanto tempo a escolher sons, hesitas entre rainy day e writing adventure no temor do sono pesado que não te visita, e depois é isto, quando já bochecho a clarear a voz, cortas-me as asas.  
e por mais que eu,
 Não, não, bem sabes que muito te prezo, acompanhas-me sono e vigília e não existe ser que tão bem me conheça. Se te emudeço é por mor do incómodo a outra gente.
desliga de mim e continua viagem, posto em imperturbável indiferença. Desço ao pequeno almoço, ideias voadoras em regresso manso e sorridente, atrasámos?, eu a cingir um elástico nos cabelos ensonados, vá lá que vêm bem dispostas, já briguei com o relógio. E depois ficamos a chá e torradas e elas suspendem sobre as letras em curiosidade protectora, enquanto o mundo se lamenta a estender uma mão para fora da noite, hora de acordar. Não usa relógio, o mundo. Evolve. Intrépido. Inflexível. E nós com ele.
Há que despachar. Tomar a estrada. Seguir. Paragem rápida para uma lembrança doce. E o mundo que corre na janela, viajantes com atraso a roncar estrada fora, que Deus os guie.
Chego de novo. Sigo escada acima que os elevadores emburraram os dois e lá estão de braços cruzados e olhar carrancudo, bem assentes no rés do chão. Palermas. Atravesso uma manhã de trabalho que vai caminhando para a meia tarde. E um almoço apressado. Mas prometi. Portanto, nada de descanso.

Encontro-me com uma delicadeza de pessoa. Foi sorte minha ter-me cruzado a vida. Vai buscar-me, ensina-me caminhos para guiar até sua casa e  que não aprendo nem por nada. Serve-me chá e bolos. Faz questão da sala para nós duas. Chávenas lindas, tão elegantes quanto ela. E o seu pôr-me à vontade tem coisas pequeninas e raras. Trouxe uns pratinhos de sobremesa para os bolos, mas, com a minha falta de elegância, tirei um bolo e acabou. E ela, silenciosa, quase sem se dar por isso, copiou-me e pôs de lado os dois pratos. Depois, mostrou-me livros e trabalhos que faz em horas livres e deu-me a escolher dois. É uma artista esta senhora, molda, pinta, escreve. E tem cinco netos sempre por perto, um deles bebé e amoroso. Todos dentro da casa que é a sua e não tem quintal. Por vezes, estão muita hora. Reconheço, temos vidas muito diversas. Admiro-lhe o carácter, a serenidade com que envelhece, o modo carinhoso como convive com o mundo sem deixar de expor os pontos de vista pessoais. Depois, levou-me de novo. E fiz viagem com uns bocadinhos dela. Vou tê-la por perto. Mesmo à beirinha de mim:). Companhia.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Dia Vinte

O meu estendal subtrai-se ao calendário dos homens, não lhe existem dias santos, feriados, fins de semana.  Braços abertos e eternos, aguarda que a roupa lhe chegue. Espera. Como a palavra no poema de Eugénio, “até que passe um vento que a mereça”. Paciente com os elevadores postiços que já foram suporte de cortinados, a escutar-lhes as queixas e um ou outro parafuso esquecido que concorda num tremelique de cabeça, ao que nós chegámos; tão estimados que estávamos na sala e agora...isto. E os parafusos tremendo de leve pelo aguçado do bico. E isto são pormenores matinais, coisa mais  agradável que a roupa que escapa das mãos e se suja, o inferno das molas que parecem enguias, o cão que se enrola nas pernas e quase me faz cair quando não preciso dele para isso sou bem capaz de queda sem ajudas.

E volto. Pondero segundo pequeno almoço. Desisto. Abro a janela, aqueço o corpo e a alma. Zanzo. Mosca que tenta não incomodar. Coisa impossível é ser mosca sem incomodar. Visito a entrada de cada um. Tudo tão sereno. Em algumas florescem palavras novas. Noutras, dura ainda o sono de véspera ou prolongam a longa letargia do inverno. É triste uma casa assim sem efeitos de vassoura, um aceno de mão, uma flor à espreita. Vou andando. Andando. Oiço aqui uma música, leio ali um artigo, deixo além um sinal de presença. Entretanto, listo mentalmente as compras. Tanto recado precisamos cumprir para que o trem não saia dos trilhos. De novo em casa, preparo um almoço simples e rápido e começo a ajeitar casa e mesa para receber uma visita. Mais um arroz doce e fatias douradas e a estrear que não saíram muito bem, tenho de estudar este assunto. Mas quando a visita chegou carregando mais uns acréscimos  para o lanche, a casa estava quente, o chá pronto, as fatias e o arroz doce na mesa. Depressa passou o bocadinho de languice que nos permitimos. Noitinha, palavra que é título de um poema de Florbela, “a noite sobre nós se debruçou...”. Mas o jantar. Mas a sopa. Mas a mala com os pedidos e os devidos. Mas o meu cachecol vermelho que está quase quase. E uma amiga a ligar-me, coisa boa. Fecho a janela, já não dou mais para este dia.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Dia Dezanove

Por qualquer obtusa razão, hoje não me apetecia levantar. O sono perseguia-me. Custei mesmo a acordar, tão empenhada estava em encontrar um dos sapatos que deveria calçar e não aparecia em lugar nenhum. E eu à beira de perder o transporte e só com um sapato calçado. E mais umas peripécias que esqueci. Apetecia continuar a dormir nem que fosse para procurar o sapato que não chegou a aparecer. E depois tinha tanto sono que nem houve sessão de leitura ao pequeno almoço. Deu jeito, terminei mais depressa. E desatei a enviar mails por mor da greve dos correios. Mas havia um almoço. Ah pois, o almoço de perninhas de frango com mel e vinho branco acompanhado com batata doce assada. Não é mau, mas foi de afogadilho que tinha marcado de me despedir da piscina e a estas coisas não falto nem que a vaca tussa. E hoje, tinha uma pista à disposição. Nadei, nadei, nadei. E descobri (finalmente! Já não era sem tempo) que fiz uns avanços no crawl. Boa! Claro que ainda me canso qb, mas menos que há uns tempos. Espero que, daqui a um ano, já consiga mergulhar em apneia até meio da piscina, mas duvido, os pulmões não se aguentam. Voltei leve e contente, pronta a arranjar o material e preparar tudo para ir de visita a meu pai. Trabalho duro está ali. Já escurecia quando dei os últimos retoques. Portanto, lá vim. Ainda sem sentir o cansaço. Esfomeada, claro. Felizmente, não fiz jantar. Graças a jantares e almoços de natal, vou tendo umas folgas aqui e ali. Que venham natais em abundância. E portanto. Aqueci a sopa que sobrou e me soube a néctar divino, assim uma canja estilo a que Jacinto comeu em Tormes e o deixou de boca aberta, provavelmente para repetir como eu repeti. Posto isto, tive a minha prenda de Natal. Calhei de olhar para o telemóvel e os meus amores madrilenos vêm passar a quadra. Viva! Mas quando arrefeci, o corpo não se aguentava. E olha, deitei-me. E estou por aqui às dentadas a uma maçã boazíssima (devia escrever boníssima, mas é termo que recuso, parece-se com boné e a maçã não merece) e a escrever estas parvidades, contente do trabalho que vou ter este Natal. Corrijo, contente por ter à minha volta pessoas que gosto e me vêm da infância mais os descendentes de cada uma.  Família.  E, por hoje, é isto.

Dia Dezoito

Era uma vez o dia dezoito de Dezembro. E quando abri a janela só não nevava porque vivo a sul onde só uma vez vi neve. Mas gelava. Era madrugada e gelava. Mais tarde, que também era cedo, o carro marcava um grau e meio de temperatura exterior. E a piscina era ninho aquecido a vinte e oito graus. Ali, onde tudo se apaga e impera o esforço de pernas e braços (em mim, também de respiração). Se não fora esta luta livre – mas elegante -  com a água, diria que imergimos no líquido amniótico  de uma placenta gigante e partilhada. Os meus colegas não falham, pontualíssimos. Levantam-se cedo para nadar. Uns, estão por gosto; outros, por recomendação médica; outros ainda, por ambos. Vemo-nos há anos em trajes menores e não nos conhecemos, se nos encontrarmos na rua não sabemos quem somos. Imagino que, de touca, óculos e mola no nariz, fique maravilhosa. Não lhes sei nome, profissão, ou qual a viatura que os espera na saída (mea culpa, sou a última a entrar e a sair).  Partilhamos a condição de aluno sem proximidade. Entretanto, a temperatura subiu para quatro graus e meio. O largo onde deixo o carro condensa em frio, passa rara gente embarretada, pernas como tesouras, fugindo para lugares de apetite. Atravesso um jardim deserto de flores, sem vivalma, árvores à esparavela e que só não tremem por vergonha. E depois, namasté, saudações a Shiva. E mais uma série de alongamentos e equilíbrios que me são difíceis, mas aqui ninguém desiste. Saio contente da palavra fim. E foi bonito, o Menino Jesus deixou uma prendinha para a professora do yoga. Querido, ele. Entretanto, a temperatura subiu de novo, oito graus centígrados. Rolo para casa. Como alguma coisa e vou ao super numa corrida. Volto no tempo limite para o almoço. Enquanto mastigo, avalio a situação dos envelopes e prendas, fechados  dentro do carro desde cedo. Após a refeição dou-lhes destino. Informam-me que os correios vão entrar em greve quinta e sexta feira de natal. Ora bolas. E eu que tinha ainda umas prendas, ainda uns envelopes. Ainda. Regresso a tempo de um chá com uma visita rápida que trouxe lembrancinhas de Natal. Arrumo as roupas, começo a sopa do jantar, sento-me a escrever as boas festas que ficaram sobre a mesa. Quando levanto os olhos das letras, a escuridão apagou o mundo da rua. Não há o azevinho alto, nem o estendal, nem as estrelícias. É noite. A noite mágica de tudo poder ser. Que veloz, o tempo de prazer. E sobre mim desce um cansaço anoitecido, melancolia da madrugada extemporânea. Fecho todas as janelas. Aninho.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Dia Dezassete

E hoje...bem, hoje estive atentamente fazendo uns risquinhos de boas festas. Que isto de riscar com o pensamento nas pessoas requer tanto silêncio como escrever. Pelo rumor, duvido que amanhã  seja o dia em que envie todos os cartões e prendinhas. Digamos que o assunto está encaminhado, mas falta. Praza a Deus que o serviço dos correios seja lesto ( ter de confiar em desconhecidos não é a melhor ideia, mas tem de ser).
Portanto, a janela de hoje é mesmo de caminho e passos. De olhar para dentro. De pensar em gente de quem gosto e me gosta. De tentar que continuem gostando e sejam felizes. Ou que, ao ler-me, se sintam melhor, um  Natal por dentro a crescer. Que é no espírito (podes chamar-lhe mente) que o Natal acontece. Podes ter os enfeites de maior requinte, os doces mais perfeitos e de reconhecida qualidade, a árvore de Natal solada de prendas, todas desejadas e óptimas, gente boa à tua volta. Faltando o espírito de Natal, garanto, nada feito. Ficas com uma felicidade de plástico que, na altura, até pode parecer-te boa. Mas o plástico é aquela coisa, não desgasta. Fica. Endurece. Cria ângulos agudos que arranham e magoam a sério. O ponto é que nos faz mais feliz o que nos desgasta e cansa por bem; de nós mesmos e dos outros. E que o Natal se prepara em comunhão.
Hoje as manas visitaram-me. Uma de cada vez.  Planeámos os contributos na consoada familiar. E, por enquanto, o Natal é essa luz de haver,  um futuro que nos exige às três e só resulta em união específica que, bem sei, nada tem de indestrutível. Mas sempre o planeamos em perenidade. Ano a ano. Ser eterno enquanto dure, como diz o poeta. Suponho que o poeta desconhecia que tudo que se vive com eternidade não morre. Suponho que ele pensava antes que vivendo, digamos, com a chama no máximo, o efémero seria a marca da nossa eternidade. E não sei se tem razão. 

Dia Dezasseis

Ontem foi mesmo de janela fechada. Sem calendário. Porque sim. Sorry, sorry, sorry. Apenas estive a ver “O Leopardo”, filme jamais  visto em versão integral.  Visconti como só ele. E a formidável  interpretação de Burt Lancaster. Mestria suprema do cinema italiano. A prender-me, a prender-me, a prender-me. Mau grado o sono que me arrasava as ideias e nos intervalos me fechava os olhos. O encanto de ver cinema de desmedida classe.
Como eu gostei do Burt/Leopardo! Da sua inteligênia pensativa, algo filosófica; do jeito elegantemente tristonho de quem sabe o que é e conhece que não há mais caminho para  poder sê-lo. Do realismo conhecedor que lhe clarifica as ideias. De não ser um filme a rebentar de sexo e sangue e por isso estar mais próximo do que vivemos do que os filmes empolados que vivem da imagem que choca ou apela à força das pulsões mais primitivas. Amei aquela elegância decadente e nostálgica, tristemente sábia, a lembrar Palmira Bastos em,  “As árvores morrem de pé”.

E quanto aquelas horas valeram! Portanto, é hoje que me dedico sem falhas a escrever no que andei pintando. Urgência de completude e partilha no  Natal que é de praxe e faço gosto. Muito gosto mesmo.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Dia Quinze

À sexta, entro numa de boa disposição fictícia provocada pelo café matinal. Fico tão sugestivamente bem disposta e dinâmica que talvez dê azo ao dito setubalense perante comportamento anómalo, “estás bêbado ou endrrógado?” (os erres é por môr da pronúncia de charrôco). Eu, claro, estou “endrrógada”. E o ponto é dar conta do recado nas imensas sextas feiras das semanas que, a cinquenta e tal por ano, e já lá vão tantos anos, sou bem capaz de ter vivido para cima de três mil e quinhentas semanas, assim por alto e sem fazer as contas. Bom, se não vivi também não se perde nada, são só números e a numeração é desinteressante. E portanto, três mil e quinhentas sextas feiras, dois terços delas gastos a arrumar o que nos outros dias desarrumo. Não se pode dizer que seja tarefa palpitante. Antes uma soberana chatice que a poder de um café bem generoso me ajeita as lentes da vida. Convenhamos, é melhor do que beber. Bêbeda não faria nada, o cotão à vara larga, pó idem, móveis cheios de tralha fora de sítio, roupeiros na mesma leva. E por aí. Portanto, diria que acertei na droga. Fico espevitadinha e saliente, é bom que não saia de casa que mesmo velha era capaz de ficar perigosa. Não sair de casa é como quem diz. Depois de uma manhã a correr fora e dentro, do almoço feito e engolido numa fona, corro à natação e derreio por quarenta minutos ou um pouco menos que a tendência é para o atraso. E só no banho descanso. Sozinha no balneário, o que é uma sorte. Nessa hora, não há alunos na piscina e os empregados somem. Suponho que todos almocem. E garanto, podia cantar, andar por ali nua e a pingar, pôr-me ao espelho a fazer mitetes. Mas compraz-me sentir a água a correr e ocupo-me a ser feliz. Não sei se ainda por influência do café, invade-me uma felicidade beatífica. Cá fora, encontro velhotas conhecidas, gente como eu e mais velha correndo por algum bem estar, um joelho, uma perna, um braço, a depressão, trinta por uma linha.  Jamais agradecerei o bastante a quem inventou piscinas públicas de água quente. Abençoado seja. Ámem.
Volto a casa e há outros afazeres. Hoje, queria apaparicar uma visita. Portanto, chovia a valer mas ainda assim fui aos bolos e deitei-me a fazer um arroz doce, coisa que, avaliei eu, ocupava menos tempo. E depois foi aquela coisa de um cheiro bom pela cozinha e mexer, mexer, mexer, enquanto fazia uns desvios – curtos - a verificar a ordem da casa. Ainda estava a apagar o fogão, entram-me as visitas pela cozinha. Ora esta. E depois tiveram de assistir ao deitar do arroz nas travessas e à cerimónia do quadriculado de canela que não dispenso, embora de perfeito não tenha nada. Uma das assistentes-visitas era criança interessadíssima no nascimento das quadrículas. No final, dei-lhe o tacho que me calha sempre a mim rapar (fui simpática, vá). Só depois fomos para a mesa. Parti a escangalhada (nome tão estapafúrdio), servi o chá (não quiseram pão), levei a taça de arroz doce e as tacinhas pequenas. E as minhas visitas a-do-ra-ram. Pode ter sido só para fazer jeito, mas olha, se foi, pior para elas que levaram uma travessinha para a sobremesa lá de casa. Mas a garota repetiu duas vezes. E dei a receita que não copiei, é simples demais e andei que tempos a testar, mais leite, menos açúcar, mais tempo a ferver, e etc e tal.  Despedidas de Natal, beijos e abraços sinceros e amigos. Que falta me faziam.

Mal elas saíram, lancei-me ao jantar que uma das minhas visitas residentes já enviara um sms e breve chegaria. Não é por nada, mas esmerei-me. E quanto gosto de observar a satisfação com que esta visita  agradece o repasto que não é extraordinário mas sei que prefere. Depois...bem depois ficamos à conversa enquanto acrescento mais umas voltas no tricot. Falamos de filmes, de séries, do que a Tv mostra e pouco me interessa. E talvez o efeito do café tenha evaporado. E descanso de tanto ser sexta feira. 

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Dia Catorze

Hoje, o tempo para estar à  janela é escasso. Porque me cansei demais a fazer pouca coisa. Porque, logo pela manhã, me aborreci com um velho que me gritou (os gritos teimam em perseguir-me) como se eu culpada de ser velho e doente. Porque não compra os comprimidos; porque ele é que sabe o que há-de tomar e os médicos são todos uns...e uns...e uns...que eu não digo aqui, são nomes bem desagradáveis e que antigamente ele não diria, mas os resquícios de respeito já se lhe varreram. Que se morrer um ano mais cedo não faz mal;  que já não vai a mais médico nenhum excepto o do centro de saúde. Culpa minha, claro, que o levei até à medicina. E depois que nos separámos, corri às mercearias de natal e dos outros dias. E havia o almoço por fazer.  Depois, uma compra que esquecera. E retomar laços e papéis, cortes e vincos, fita cola e brilhos. Finalmente, tudo embrulhado. Espectáculo de cores e formas (ainda não estão completas), as minhas prendas são uma beleza. Coisa de ternura dividida por papeis e cingida com laço. Entretanto, o aviso de uma visita para amanhã. Rematar um tricot e embrulhar. Tecer noutro mais atrasado e ir dando um olho no jantar. E dar um basta em tudo. E agora que descontraí, encosto a janela  devagarinho e seja o que Deus quiser.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Dia Treze

Uma janela de alindar, enlaçar, rimar cores e feitios; subir escadote, descer, observar, subir de novo a endireitar, empapoilar, dar novo toque. E tudo por uma noite e um dia de festa. Corrijo, para viver A Festa. Porque não me existe quadra ou data comparável. Época que tanto nos une a quem gostamos. Aos que estão próximos e aos distantes; aos que são palpáveis e aos etéreos, esses que, quem sabe, estão amorosamente à nossa volta e imagino que sintam por nós certo orgulho contente. Mas uma impotência saudosa se afunda na ausência de quem já não podemos abraçar, de quem nos deixou jovens e talvez  não nos reconhecesse. Disponho as pequenas lembranças de gente amiga, trabalhos de mãos de natais anteriores, ter-lhes as dádivas ao alcance da vista dá-me a ilusão de presença  e partilha da quadra.  Na chaminé,  o único cartão de Boas Festas que me chegou; sobre a mesa, prendas de laço; no cesto, uma alegria de azevinho a lembrar a data.

Era a meia tarde, um polvoró de tira isto e põe aquilo e apetecia-me escrever. Isso, largar tudo e lançar-me à escrita das cartas de Natal que ainda nem comecei apesar de alguns cartões já prontos. Ter umas horas para pensar livremente nas pessoas a quem escrevo, de quem gosto e que fazem falta na minha vida. Ia fazer-me bem. Porque só pensando nelas, exclusiva e atenta, atenção que é minha mas lhes pertence por inteiro, me chegam as palavras. Mas não podia. São laços. Ou eu assim o desejo. Também para eles vai haver tempo. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Dia Doze

De hoje a uma dúzia de dias é consoada. Viva! Podem vocês dizer em meia troça, quantos dias para preparar umas horas. E dizem bem. Mas, assim conquistadas a pulso, são horas mágicas. É magia tudo que se põe na mesa e foi cozinhado durante a tarde, apurando em lumes brandos, os azulejos da cozinha a escorrer vapores que não se aguentam e condensam em mudez lacrimosa que desliza vidrado abaixo.  Vai parecer estranho consoar ao domingo. Estranho mas bom, porque contraria a catástrofe da segunda-feira. Haver Natal à segunda é fenómeno quase  anedótico, mas, este ano, verdadeiro. Caso que merece dupla celebração.

Entretanto, ninguém espera parado. Há um ou dois tricots que vão avançando devagar, os cartões de Natal e o embrulhar das prendas ainda em pousio. E há que enfeitar a casa: primeiro as caixas rotuladas descem do sótão; depois de abertas,  as peças maiores deitam-se a arejar; em seguida, há que passar a ferro laços e cortinas e subir a escadotes para montagem. Na janela de hoje já desponta certa beleza de época.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Dia Onze

Hoje, capicua, à cause das folhas, ramos  e mais sujeira que o vendaval fez cair e carregou,  a janela de Natal entupiu. E foi por um triz que a pobre se viu livre de uma escuridão perdida. Houve que acudir à devastação da rua, que o chão era campo de batalha no day after e os despojos sobrepunham por todo o lugar.


Em cima da mesa, por certo, permanece o estendal. Um rol de coisas por completar, pinceis e tintas de água, cartões já cortados, rolos de papel de embrulho, fitas, laços... que esperem. Depois de uma noite em que o mundo exterior nos sugou o sono apostado em revoluções feitas de vento e saraivadas de chuva, de me levarem a toalha na natação, de saturantes saudações a Shiva, e de terminar em compenetrada varredora camarária, não me sobra disposição. É demais para um dia só.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Dia Dez

Parece que houve uns países, entre os quais Portugal, que se juntaram para dar nomes a ventos fortes e outras desregulamentos naturais. Isto, é claro, para não ficarem atrás dos EUA que põem nome aos furacões como se dessa forma lhe deitem arreata e os domem. Nada disso, chamá-los pelo nome – que não é o deles, são apenas furacões – não adianta nem atrasa que a calamidade não lhe faz qualquer caso e nem se cinge a nome de pessoa, ela é um fenómeno natural de destruição maciça e tenho para mim que mais irritadiça se torna com a cena do baptismo. E agora nós, feitos macaquinhos de imitação, zás, um nome qualquer no vento de hoje. Mania de copianço.
Bom, que eu hoje me postei a fazer uns rabiscos de natal no que pomposamente chamo cartões de navidad e reparei que, quem os recebe, pode bem julgar que também os copio, já que todos os anos são o mesmo. Mas é que não. A minha mão é que, segundo julgo, apenas sabe essa vereda; é que não a esquece, passa um ano e ela retoma tudo igual como se fosse ontem ou esteja diária numa fábrica de porcelanas a pintar flores em série. Azar. Imagino que os meus amigos, se me guardam os cartões - não que mereçam tal honra, mas há gente capaz de guardar tudo -, os olhem a sorrir pensando, esta não sabe fazer mais nada. E têm razão, nem sequer quero pensar nisso. O facto é que a técnica é do mais simples, agarro no lápis ou no pincel, penso na pessoa e risco. E são muito iguais para as mesmas pessoas; por vezes mudo as cores, mas afianço, tenho de me contrariar.

E agora o vento insufla portas e janelas e é tudo um batuque desgraçado e há a chuva que cai e portanto a minha mão recusa-se a riscar o que for, diz que desconcentrou e que assim não vale. Amanhã há mais.

sábado, 9 de dezembro de 2017

Dia Nove

Todos os anos pelo Natal, projecto oferecer compotas caseiras.  Feitas por minhas mãos. Projecto. Mas não chego a fazê-las. Porque se enleiam as voltas da vida ou eu me enleio e lhe invento as voltas e depois não consigo sair delas para fazer compotas. Contudo, a quem me parece de necessidade ofertá-las, recorro à dispensa, rabisco aquele doce guardado para as delícias de inverno e lá vai terminar noutro pálato. Mas hoje propus-me contrariar o lema e pela manhã coloquei a cesta de frutos na cozinha a fim de me auto convencer  a dissolvê-los em açúcar.
Ao pequeno almoço, a olharem-me inquisitivos, ainda mantinham as suas formas de origem. Chegados directamente da sala e devidamente acondicionados em Vista Alegre, que a fruta me é realeza alimentar e merece muito respeito. Deixei-os à claridade, na santa ignorância dos inocentes, um tudo nada perturbados pelo clean da cozinha. E, imperturbável, fui à vida. Mas não tardei. Abri-os de meio a meio e tirei sementes. Depois, sem fazer caso de queixas de, não sei nadar socorro que me afogo, mergulhei-os em água quente, tapei a panela para não ouvir esquisitices e deixei coser. Quando os retirei do lume não pareciam os mesmos, estavam uma seda, amolecidos, cordatos. Perguntei com medo de melindres, posso espetar um garfo? E eles no oposto de si mesmos, podes tudo.
Oh! Mas é que o garfo lhes fazia cócegas e escorregavam que nem enguias num riso que lhes desmanchava a carne. Eu, estejam quietos ou nunca mais acabo. E eles, desculpa mas não somos capazes, é que nenhum garfo nos tinha espetado ainda e nem sabíamos o que eram cócegas, mas a faca a passar-nos na pele é uma coisa que nos derrete. Eu, Mau, mau, preciso de vos tirar a pele. E eles a concentrarem-se, vamos tentar. E entre uns que caíam e outros que não, lá os pelei. Deixei-os assim nuzinhos a confraternizar sobre o futuro e preparei a calda de açúcar num ponto que nem sei qual seja, mas há-de ser um ponto qualquer. Eles ridentes, todos  alvura de carnes, isso é para nós? Eu, sim. E não acrescentei. Mas quando me pareceu, mergulhei-os. Não houve sombra de motim. Não sei como aprenderam tão rápido, mas garanto que nadavam estilosos e derramados. Contentes. E depois foram umas horas a vê-los dissolver aos poucos. Perdiam formas na medida do vagar de lume que os tingia em tom canela. Há uma espécie de amor vegetal na mistura de açúcar e polpa, uma coisa de fusão doce em que nenhum dos elementos anteriores é ele e o resultado é o esplendor da mistura por efeito de tempo, brando calor e paciência humana.

E pronto. O doce/compota cumpriu destino e chegou aos frascos, arrefece beatífico sobre a bancada numa doçura que só visto. 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Dia Oito

Não lembrei a data senão agora, no exacto momento em que procurava abrir a minha janela de advento. Talvez a mente se me tenha entorpecido de frio. Ou seria resposta à manhã toda encolhida, murchinha, uma morrinha de cinza a pingar na janela. Lá fora, o mundo escorria lustro e patinhava humidades. Ou por via de um pesadelo que perdi mal acordei - a consciência apaga-os na hora - e me fez alegre por despertar. Ou apenas o feriado já não me vale como antanho. Mas não. É a data a avivar tristezas de mim. Vergonha. Embaraço. Vontade de fugir para um buraco escuro.  Ainda hoje não sei se o fundo de tal buraco, não me seria mais aprazível.
Conta meu pai chasquinando, que um dos irmãos de meu avô - sujeito com quem, possivelmente, partilho uma costela flutuante - era um solitário que vivia a pastorear pelos montes e tinha por abrigo buracos e rochas. No meu álbum mais antigo existe uma foto, barba comprida, vestes estranhas.  Em garota, perdia-me a olhá-lo e era visível a ternura de minha mãe pelo tio que pouco vira. Para mim foi, desde o início, o celtibero ansiosamente esperado, convicta de que um dia chegava por uma camisa, um banho, uma doença qualquer. Pois o meu celtibero de estimação, que nunca encontrei senão em foto, também desdenhava do dinheiro. Quando um dos irmãos correu montes e vales para lhe entregar a parte herdada, atirou-a fora logo ali (é seguro que alguém a apanhou) e tornou à sua solidão de eremita. Por lá (não se sabe onde), viveu e morreu. Não formou família. Ninguém o chorou ou lhe soube da morte. Minha mãe e avó julgavam-no um santo e reconheciam que era a bondade em figura de gente, mas sem palavras. Diziam  que, em família, não ultrapassou as dez falas. Aquele tio-avô é a pessoa mais intrigante da minha família. E surgiu-me aqui nesta janela a propósito do buraco escuro que eu agradecia durante os três anos em que, no dia oito de Dezembro,  a professora me fez declamar poemas, um dos quais ainda me lembro chamar-se “Invocação” (não encontrei no google), e que, mal subia para a cadeira e já a tremer como varas verdes, minha mãe a ter de segurar-me as pernas, notava os olhos das mulheres postos em mim e varria-se-me tudo por completo, não ficava uma vírgula, a pintinha no i, nada. E daí a necessidade de um bendito buraco para esconder a vergonha de, ano atrás de ano, ser a mesma triste. Ah, e rematava num aparato de lágrimas e ranho. Era, garantidamente, muito aborrecido. Talvez por isso  me tenha hoje decidido a branquear a cozinha. Com amor e dedicação. Que a vergonha de não ter conseguido dizer nem um verso à única mulher que me interessava no mundo inteiro, não é coisa que se esqueça.

E no entanto, no super a borbulhar de gente, ninguém parecia sequer ter pensado na padroeira. Mas isso são eles que não sofrem a severidade dos meus traumas. Três anos de negas à poesia maternal não são brincadeira. Que a padroeira fica um bocadinho mais ao lado.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Dia Sete

A Baixa iluminada. E a beleza da cidade a ressaltar no frio de Natal, palpitando em luzes de festa e gente que passeia agasalhada, abafos, gorros e cachecóis ao despique. Em apoderação natural, a espanholada evolve, é onda cantante e bem disposta - possivelmente em gozo de férias -, halo que cruza ruas e transversais, de bico para a discrição inglesa, alta e loura como compete. E há aquela senhora fina de gestos, fina de ela só, a aconchegar o casaco de bom corte e pura lã, saltos apressados subindo a rua para a apresentação do livro da amiga. Vive em Cascais ou nos Estoris, e vem a Lisboa fazer turismo, aluga quarto, visita museus e exposições, anda a pé pela cidade que não há pressas quando se é turista. Experimenta restaurantes bem referenciados, degusta. Há vidas assim. Que observo do meio do frio. Lembra-me a actrizinha de Cesário, sobressai no conjunto. Mas tem, como toda a gente, um telemóvel. Que chama de dentro da malinha de pele. Pára e entrega-se ao aparelho, a bota de couro fino movida por inconsciente nervosice.

Mas eu abraço um saco plástico e uma prenda barata, espera-me o aperto no metro, tenho o jantar por fazer em casa por esquentar. Decididamente, pertenço a outro lote de preocupações. Contudo, agrada-me assistir a esta diversidade. E que vivamos no mesmo calendário.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Dia Seis

Às vezes há janelas contíguas. Num dia lembro os almoços e jantares de Natal. Na manhã seguinte abro nova janela e o que me há-de surgir?! Um convite. Portanto, à míngua de almoços natalícios não vou morrer. Deixo-me seduzir pela ideia deste almoço, perspectiva solarenga que, quem sabe, veio a desejo.
         Hoje, na minha janela, havia um saco de prendinhas embrulhadas em sorrateiro espreitar. Que viajou até ao destino e fez feliz alguém que recebe um minguado de mimos e vive em decréscimo porque a ronda da morte coíbe os homens.
         Na volta, o pôr do sol no mar, a beleza da paisagem, a saudade inscrita na estação onde nunca mais desci. E aquela descarga dolorosa, súbita e rara, a invadir-me os olhos lá bem atrás, mal lhe li o nome. Tantos e tão grandes impossíveis nos existiram. E como então eram possíveis! 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Dia Cinco

Ao invés da gente que se lamenta do corropio de almoços e jantares de natal, prefiro-os a quaisquer outras comemorações, são-me clave de sol na partitura natalícia. No trabalho, faltei apenas quando razões desviantes e por demais óbvias lhes alteraram a feição. Que nem sempre é possível conservar a ingenuidade necessária ao espírito da quadra. Revivo a união fraterna de todos juntos às portas de alguns dias de descanso, ao rés da lufa-lufa de  presentes, enfeites, doces, e o mais que é familiar e pertence. Lá fora, o mundo existe numa frieza de cortar à faca, árvores transidas, flores medrosas, caminhos apressados. A ordem climatérica mais nos instiga à impossível clausura, que ao fora e dentro que se impõe.
Diga-se que o número de almoços e jantares nunca me pesou. E que recusei muita reunião sem espírito. Devo a saudade a estas duas alíneas e a mais uma: quando chega a azáfama de almoços e jantares, uns daqui e outros de acoli, não tenho onde correr. Hoje, nada celebro em companhia. Festejo à unidade. Enquanto o mundo perfila, cotovelo a cotovelo, em mesas de restaurante, reúno comigo e comemoro estar viva em mais um natal, projectada no desejo de poder servir a consoada sem grande defeito. Fiel ao espírito originário, a ceia de Natal aglutina poderes, não é apenas a reunião familiar tradicional, é o meu único jantar de natal. Facto que só lhe outorga glamour.

E, porém. À beirinha da adventícia janela de refeições, serei, quem sabe, um sortudo espécime português.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Dia Quatro

Todos os natais acontece, guardamos prendas e chocolates que depois desaparecem, facto que nos tortura a mente e empurra para as detestáveis compras de última hora.  Por exemplo, no mês passado encontrei duas caixas de mon chéri, destinadas a acompanhar as prendas das manas que se pelam por eles, um contentamento aliviado nas mãos a palpar a caixa sob o papel, ah, estão aqui os bombons. Descreio que fossem do ano passado; estavam sequinhos, os pobres. As ginjas eram uma intragável carapucita de açúcar, licor viste-o, e o chocolate esbranquiçava. Por via de não repetir esta jigajoga, pensei – e se pensei melhor o fiz -  deixar tudo à vista. No sótão,  a resguardo de  indiscrições, para manter a surpresa. Resultado: tenho o quarto invadido, e, no quarto ao lado – dito vazio -, uma mesa a impar de sobrelotação e um sofá pejado de saquinhos e saquetas. Coisa de moer o juízo só de olhar. Mas pronto, nada na manga, que é como quem diz, no fundo das gavetas. Por outro lado, reconheço que, apesar de me deslocar aos pulinhos para abrir a janela, estou a afeiçoar-me ao movimento de altos e baixos; é fora de dúvida, o quarto ficou outro. Acordo e há dois cabos de guarda chuva – bem bonitinhos – a espreitar-me muito direitos, desde a sua altura delicada. Parecem polícias que não dão muita bola à profissão. E eu num solilóquio horizontal, o que pensarão de mim. Levanto-me. Sacos magrinhos e resmalhantes aninham a discrição de peças de roupa que os meus pés tocam descalços a lamentar em estrangeiro (manias de pés, está visto), sorry, sorry, sorry. Mas eles, à parte um ou outro ai plastificado, não melindram. Suspeito até que me entendem. Não é para menos. Dormem a meu lado, entram-me um bocadinho nas intimidades. No primeiro dia, eu a vestir-me de costas, com licença. E eles, a gente aqui dentro vê tudo desfocado, os guarda chuvas é que... E logo os guarda chuvas cercearam, então que é isso? Respeitinho. Não sabem que um guarda chuva fechado não tem olhos?! Santa ignorância.

Portanto, a janelinha de hoje é ainda e só um amontoado projecto de prendas. Com alguma beleza, vá.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Dia Três

Desvendo já, pronto, a minha janela hoje abre em pontos de tricot. Empurro a vidraça e lá estão as agulhas espetadas nos novelos. Montes delas. Montes deles. Novelos claros e escuros; garridos e pacatos; mesclados e uniformes; peludos e rasinhos; fio grosso e fininho. Estão todos aí. Todos os que teci nos longos invernos.  Blusas e casacos; lenços e echarpes; gorros e cachecóis; luvas de um dedo ou de cinco; botinhas que cabem na palma da mão; floridos enfeites em pregador e fitas de cabelo.
Aos vinte e um anos, adulta no BI, iniciei-me no tricot. Como nas guerras que estudámos no liceu, tinha causas próximas e causas remotas. Próximas: era muito mais económico se fosse eu a tecer e havia uma exímia colega capaz de me ensinar a arte; remotas: a minha mãe dedicara muito serão a tecer vestidos e blusas para os filhos, facto que me fascinava. Ora, como em algumas coisas sou temerária, comecei por uma blusa comprida, em fio azul escuro; à altura do peito, tinha um desenho de lãs entrelaçadas de que resultava uma fila de camelos avermelhados a passear em fundo branco, tira ampla que me circundava o corpo. Um máximo que, sem exageros, caía bem. As manas encantaram naquela qualidade (os mais novos admiram tudo que os mais velhos fazem). Foi nesse dia que nasceu a minha mini empresa de prendas de Natal. Portanto, os pentes, batons, espelhos, faltavam dentro de malas e sacos, mas novelos e agulhas diziam presente mal lhes metia a mão. Um pormenor interessante foi que vesti anos e anos essa blusa primeira – até porque a expansão da actividade se dirigiu mais  ao exterior –, ela velhinha e uma das manas a apontar, “os camelos têm as patas viradas ao contrário”. Eu, “têm agora”. E ela “ai isso é que têm, despe lá a blusa para veres melhor”. Despi. E tinham. Tanto nos encantáramos durante anos que não demos pela falha. De patas viradas à cauda, levaram a vida às recuas. Sem queixas. Padeciam todos de igual deformação, quem sabe não julgavam ser da sua natureza.

À parte os gestos de boa vontade e economia, agulhas, lã e eu lutávamos com flagrante falta de tempo e dor nas costas. Por motivos de doença mais ou menos recente, o tricot extenuava-me. Havia uma dor interna e bem localizada que se ia instalando em persistência, me amarelecia a tez, alagava em suor e me tolhia e agoniava na razão directa das minhas pressas de maratona. Por vezes, ia tanto esforço em cada volta da agulha que, a meus olhos, o valor da obra dobrava e quadruplicava. No mais íntimo de mim, o resultado devinha sem preço. Julgo que não mais serei capaz de artefactos tão bonitos como os desse tempo de juventude em que a natureza se comprazia a mostrar-me as fragilidades do corpo. Não teci apenas lã, sonhos, desejos. Era um novelo de tudo. Qualquer coisa como amor e dádiva entrelaçados agulha a agulha e que resultavam num casaco fofo, blusa de cores alegres, pullôver. E, imaginem,  quando lia o Eugénio e o seu deslumbrado percorrer de um corpo lábio a lábio, pensava nas agulhas de tricot e na agonia dos fios a mudarem de uma a outra, ponto a ponto.  Um lábio a lábio.

sábado, 2 de dezembro de 2017

Dia Dois

Um sol gélido irradia sobre o corpo. As mãos entaramelam de aragem, a roupa a entesar no arame em acenos cortantes e repetidos. Uma secura estática brilha na manhã e, no ar diamantino e raro, a atmosfera faz-se gume abusivo. O mundo é um rádio desligado. Ninguém na rua. As casas dormem em silêncio ensimesmado, rodeadas por pequenos arbustos imóveis, dobrados sobre si num desgosto de frio. E nem a elegância preguiçosa  da gataria cruza a rua.
Dentro das casas há sonhos lânguidos, lentidões de pensamento liberto, amores que se fazem urgentes e convidam amanheceres de diferença.
 Eu não sou eu e tu não és tu, somos sem nome ou idade e procuramo-nos num planeta de conforto e lençóis e o resto esvai e ficamos só nós a boiar no mar da ternura.
E há sonos pesados e etílicos que carregam nas costas noitada de copos e conversa e quem sabe o quê. E as articulações dos velhos que gemem e murmuram, eles a palpar o ambiente, uma mão fora da cama. Depois, na satisfação de ser sábado, levantam-se a subir as meias e enfiar a dormência dos chinelos, vão ao wc verter a água salobra, nivelam o aquecimento do quarto e acimam a dobra do lençol. E há a exasperante e terna madruguice das crianças a invadir o quarto dos pais porque falta o pequeno almoço, e rabeiam pela casa e avivam tudo antes de se sentarem a olhar a tv ou a jogar. E há sonos medidos a calmantes e ansiolíticos, olhos no tecto, perplexos, existo para quê. E o tecto sem resposta, os calmantes e soporíferos sem resposta, a repetirem, nós apagamos a pergunta, serve? Pelas madrugadas, pululam as revoltas juvenis, achas de hormonas que consomem em fogueira alta os saberes paternos, mas dormem as manhãs a sono solto e esquecido de inimigos e raivas.

E enquanto isto, a roupa ordenou no arame e Dezembro ameaça congelar-me. Sento-me e abro a janelinha do calendário  natalício. 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Dia UM

O meu calendário de Natal começa com as prendas. Bem antes do Dia UM. Neste ano de contenção e economia palpitei, inventei, e, entre os vários presentes manuais, pensei ofertar os livros que eu mesma tinha comprado e lido ao longo do ano, apagava um ou outro sublinhado e já está. Fiz, sub-liminarmente, uma lista de compras para os imprescindíveis: uns de quem gosto demais; outros que precisam delas; aqueles porque não gostam de ler; estes porque sei que ninguém mais lhes oferta coisa de jeito, a leitura não lhes faz gosto e esperam o meu presente. E saí a compras. Com despesa assente, rememorando limites na friúra da manhã. 
Mas, ó deuses, divergi. Divergi largamente. Lá se foi o subsídio.
Não importa. A primeira janela é de caleidoscópio. Basta agitar e, lá dentro, bem à vista, desenham-se alegrias de Natal, bolas às cores, pinheiros com cheiro a resina e caruma verde, neve em estrela, lareiras acesas, vinho quente, azevinho, um Menino Jesus em pelota. 
Viva! 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Da Necessidade

Em crianças vivemos sem pensar no tempo. Se me diziam que estava quase a fazer anos, deixavam-me confusa. Como é que os adultos sabiam de tal coisa, o que os levaria  a afirmá-la  naquele ar de certeza?! E perguntava. Respondiam-me qualquer coisa como “tu nasceste neste dia”. O que ainda me era mais incompreensível. Julgava o tempo uma sequência de dias perdidos em cadeia. Como é que os crescidos podiam recuperá-los depois da queda, isso é que não entendia. Continuo a pensar que os dias caem inexoráveis e sem hipótese de repescagem. Caem mortos, hora atrás de hora, minuto após minuto. Mas, na correnteza dos dias há também as noites.

Oh, o bendito silêncio da noite que cobre todas as coisas, as emudece e enovela. O silêncio de lembrar quem e o que gostamos. A paz dos livros e das letras. O sermos nós tão longe do nosso centro. A doce sensação de saber que, depois, o sono nos há-de tomar e por algumas horas nada mais  seremos que um corpo animal que respira. Despida a farda de sermos homens, pouco nos fica. A verdade é que, se acordados nos esforçamos por ser quem somos, adormecidos, ainda que o não queiramos, é isso que esquecemos. Um animal que respira e descansa sem peias. Horas cheinhas de minutos. E nelas somos sem idade, sexo ou condição. É repouso e evasão. Pura necessidade. 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Crescer não tem Idade

Na juventude, continuei escrevinhando em cartas e cadernos. E ainda as lágrimas me apoquentavam. Contudo, já não me borravam a escrita. Debulhava como uma madalena nos filmes, e, por norma, tinha ataques de choro junto das pessoas menos indicadas. Por outras palavras, envergonhava-me mostrar a certa e determinada gente tais preparos lacrimosos e cheios de ranho que considerava infantis em idade claramente adulta. E fui fazendo propósitos de me aguentar sem lágrimas, que a essa altura já eu tinha chorado rios inteiros de desgosto. Não sei se por via deles, se por ser mesmo assim o crescimento, a minha fonte salgada foi minguando e vive reduzida a uma névoa que se instala no olhar quando a voz me trai.  Mas não é que começo a sentir saudades das lágrimas, daquele choro desentraitado que me tomava a soluçar e me deixava depois numa dor de cabeça ligeira?!  Falta-me, ó sacrossanta insatisfação, o alívio descomprometido do após, o cansaço físico e sonolento, a paz silenciosa e falha de adrenalina, o hiato suspenso de momentânea calma, sem futuro nem passado.
Foi em jovem adulta que a poesia me bateu de rompante. A poesia escrita por outros, bem entendido. Desatei a copiar poemas e a fazer rimas em quadra. Sem graça ou préstimo. Mas era tal a novidade que embevecia a olhá-las. Ciente de que o meu lado poético era só de leitura, nem por isso deixei de engraçar com as minhas pobres quadras. E quando descobri o verso branco...foi um ver se te avias de poemas. Guardei alguns num caderno, herança da melhor amiga, em caso de morte. Era pois um testamento. Mas não sei onde pára.

No entanto, foi Eugénio de Andrade o poeta responsável pela transformação. Até aos 24, 25 anos a poesia manteve-se exterior apesar dos versos copiados e lidos. A partir do Eugénio – que devo a uma conversa casual entre duas estudantes -, entendi-me dentro dela. Eu sou aquilo que ele diz. Há um lado de mim que lateja nas suas metáforas desassombradas. E gosto de muitos poetas. Mas em nenhum outro sou tão completa e assustadoramente vulnerável. E cedo compreendi que é a alma humana que ele sente, é a dor humana que lhe dói e o contraditório amor que o sustenta. E que nós gostamos nele do que é tão nosso e íntimo que ele sabê-lo é um mistério. Além do dito, a poesia de  Eugénio de Andrade, conhecido como poeta solar e da paixão, tem um ingrediente que me fascina. Diluída em todos os seus livros há uma espécie de impossibilidade, um eterno presságio de tempestade suspenso sobre o poema mais irradiante. E amo o seu ir com as aves  sem esquecer que nem ele nem nenhum de nós é ave. Este é o drama que o (e nos) cruza e marca o existir. E no entanto, todos sabemos que viver poeticamente é muito doloroso. Mais nos vale ler poesia.

Horas Perdidas

Não conservo amigas de infância. No entanto, julgo que, ao longo da vida, fui fiel às velhas amizades. Corri sem hesitar atrás daquelas que, nos ardores de casamentos e fraldas, descuraram a relação (esqueceram o que eu julgava não ser de esquecer). Na maioria dos casos – três contra um -,  devo a relação a esse desvelo quase materno que nutro para com as poucas amigas que sintonizam comigo. Não me arrependo.
Ora esta estabilidade relacional nunca comprometeu outras amizades. Tanto no caso delas – que têm outras e até mais íntimas amigas que eu – como no meu. “Como no meu!”, é quase idiota esta afirmação. Porque não coincide. Tento. Todos os anos tento. Tento sempre que a oportunidade surge. Tento na minha terra e fora dela. Mas não consigo fazer novas amigas. Será incapacidade minha. Contudo, experimento e volto a experimentar. Ligam-me a convidar para um encontro com cinema a seguir. E eu, apologista de valores antigos, nem que esteja doente, anuo e elido a doença. O encontro é a uma hora que me faz quase juntar o almoço ao pequeno-almoço? Não importa, é um dia. Corro caminho fora. Chego pontual. Ninguém. Dou umas voltas. Envio uns sms.  Chegam depois. Queixa-se uma do lugar em que nos encontramos; a outra, de doenças. Mostram fotos; compram artigos para os netos. E não consigo evitar o pensamento de que mais me valera ter vindo para uma volta a sós: tinha saído de casa quando entendesse, trazia a hora do cinema pensada e lá estaria. E o que fiz foi nada. Nada. Para além dos gastos na viagem.

Acontece que padeço de alguma falta de egoísmo. Mas desta vez é que é, faço sério propósito de emenda. Não há utilidade em que se encontrem três pessoas se cada uma cuida apenas de si. Julgava eu que o cinema era projecto comum. Ó quimera. Continuo incapaz de ver o mundo tal como é. Mas hei-de aprender.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Três Quartos de Mundo

Quando as mulheres casam com os homens – algumas casam com mulheres e não sei bem como seja -, constroem um lar, como diziam as nossas mães e avós. E o dito cujo “lar” é dos dois. Se por um acaso se separarem, divide-se tudo meio a meio que ninguém quer ficar mal. Isto, claro está, se os dois forem de boas contas e se um não apostar comer as papas na cabeça do outro. Mas pronto, avante que o assunto nem é bem este e ainda só estou nos arredores. Portanto, dizia eu que têm o tal lar que é pertença dos dois e vale para ambos do mesmo modo. É tecto e refúgio, ninho e lugar de aconchego. E, porque a vida não é o que queremos mas o que é,  até muita coisa insuspeita ali sucede.
Dado este empate na função da casa comum do casal, há coisas que não se entendem nesta dita sociedade moderna que, muito se diz, caminha para a igualdade entre os sexos. Vamos lá a ver. As mulheres trabalham como os homens, contribuem como eles – e algumas mais que eles – para o tal tecto, os filhos e os automóveis, as férias e todos os acrescentos, necessidades e doenças que vêm com os anos. E, se isto é assim, por que razão se o homem tem de sair em trabalho ou folguedo, apenas lhe basta tratar de si. Mas a mulher quando sai?! Ai dela, que bastas vezes melhor seria ficar em casa. Vejamos: se tem filhos, tem de encontrar quem os leve ou traga da escola e providenciar onde são almoços e lanches. Mas esta, meus amigos, é a parte fácil da coisa. Tem que se levantar mais cedo para fazer o jantar, pois se chega e é já noite, o pormenor desinteressa, está tudo à sua espera. Sem nica de jantar. Oh, dizem vocês, e por que não encomenda um jantar feito? Ah, pois é, vocês não aprenderam na escola delas, não sabem o como de poupar em quem tem e ganha pouco. A miséria não tem onde encostar senão em si mesma. É que só à custa da poupança vai um trabalhão do caraças. Para o lado delas. Isso mesmo. Não almoçam nem jantam fora? E depois? Ela até sabe cozinhar, portanto, poupa-se. Quem é que pensa  no couro dela que tem de decidir, procurar ingredientes e fazer a catrefada de almoços e jantares diários, sem folga ou feriado?! Ninguém. E os queridos maridos? Ah, os queridos maridos dizem ufanos do seu papel, “não gasto dinheiro mal gasto”. Pois não. Não gastam mal gasto. Mas a poupança cai sobre elas. Precisam de um muro pintado? É com elas. Os garotos querem ou precisam blusa nova? Elas fazem e bordam ao serão. Precisam lençóis, atoalhados, cortinados? Elas compram, talham e costuram, para que lhes serve a máquina?! É poupança. Em cima de quem.
Bom, mas eu ia lá atrás nas saídas. Pronto, os filhos já estão arrumados; também já fizeram a sopa e o segundo prato do jantar que para isso se ergueram com as matinas. Oh, mas há que varrer as ruas que no outono se enchem de folhas. E oh, há que lavar o carro que dorme debaixo da passarada e está sujo. E ah, que a roupa badala no estendal e numa corrida vão recolhê-la, dobrar e arrumar no cesto ou nos armários, consoante. Ah, e as flores que estão sem água, têm de ser regadas. E oh, o canário que não tem a gaiola limpa. E ai que o saco para levar ainda não foi feito. E até o prato da gata está sedento. E depois o tempo vai passando e elas num solilóquio, já não dá para tomar banho, paciência. E o saco? Ora, atira-se qualquer coisa lá para dentro e o que faltar faltou, senão nunca mais saio de casa. E quando saem vão moídas, raladas da canseira e pressa, a rememorar, será que deixei uma luz acesa? Será que há pão bastante? Não me lembro se fechei a porta.
Mas as viagens distraem-nas e levam-nas para longe de casa, o dito “lar” que é dos dois em partes muito desiguais de trabalho. Pouco interessa onde vão. Basta-lhes ir a algum lugar fora do circuito: um cinema, uma compra, exposição, conferência ou congresso, encontrar uma amiga.

Quando num soslaio se olham no espelho do carro verificam, esqueceram-se de se pentear, estão pálidas, olheirentas da madrugada e correria matinal, não mudaram as botas de trazer por casa e só agora reparam as mãos no volante, não cortaram as unhas. Nada a fazer. Chegam ao destino e as outras mulheres estão como flores em vaso: bem dispostas e com tudo no lugar. Algumas foram ao cabeleireiro, outras foram mas parece que não foram e por isso brilham mais que todas no seu ar natural todo artifício. E elas...bem, elas ficam um bocadinho irresolutas a olhar a paisagem, mas depois de tanta canseira vão desistir?! É que nem pensar. Têm o mesmo direito a estar. Digo eu que têm muito mais direito a estar. E tenho certeza: onde quer que estejam, exposição ou cinema, shoping ou concerto, o grau de apreciação delas tem uma incomparável diferença de sabor. Mas é pena.

sábado, 21 de outubro de 2017

Escrevinhando

A pena que eu tenho de ser portadora de um ímpeto rasgador que se refastela naquele som de papel que não pode mais e se cinde a contragosto, desfazendo a unidade de si mesmo num términus violento e ruidoso. Era esse ruído de laceração que me impelia a destruir os escritos dos verdes anos e seguintes;  “não presta”. E truz, tudo em fanicos antes que algum cusco casual desse de caras com os meus estados de alma. A bem dizer, só a velhice me fez poupar alguns escritos e creio que o mérito cabe quase inteiro ao mundo digital onde não nasci – e juro, achei-o mais estranho que o sabor da coca-cola -  mas que entranhei num ai.
Porque comecei cedo a escrevinhar. Desde os bilhetinhos para garotos da escola primária que nunca se dignaram sequer olhar-me e portanto dobrava, dobrava e   saíam do bibe em fanicos, à correspondência das minhas avós onde espraiava romantismos de cordel em gente que apenas imaginava e era decerto bem diversa do meu ideário, passando pelas redacções onde tentava à viva força enquadrar palavras e expressões do sôfrego mundo dos livros. Cedo compreendi que conversar era uma coisa e fazer uma redacção, outra. As redacções eram um mundo específico e agradável e fugiam ao linguajar conhecido. Assim uma espécie de almoço de Páscoa ou ceia de Natal encriptada. Essa ideia divertia-me sobejamente, era como se eu falasse esperanto com a professora. Quanto mais desconhecidos os termos, mais os olhos dela me sorriam. De modos que eu esmerava-me. Todos gostamos de agradar.
Mas o meu ponto alto foi a adolescência. Nessa época de infinda tristeza, comecei a escrita em cadernos. Sem ordem ou propósito, além da vontade de fugir de casa para não voltar. E só não fugi por palpitar que teria medo de atravessar o pinhal que via ao longe - a minha mente tem a particularidade de não aceitar o alcatrão e foge pinhais fora,  fuga que se preze não quer estradas –, vexada de ser encontrada pelos guardas republicanos. Imaginava-me perdida no meio do pinhal, trazida a casa no jipe da guarda e a encaixar uma valente sova a seguir. Convenhamos, arrasa qualquer coragem adolescente. E é claro que, vezes sem conta, me apetecia morrer. Havia semanas de infortúnio: nos dias mais negros, viajava no banco da frente da carreira, podia haver a sorte de um acidente. Não calhou. Não morri. Mas fui escrevendo e deitando fora a enxurrada lacrimejante. As lágrimas caíam em cima das linhas, faziam poça, o fio azul escorregava um bocadinho para baixo e nascia-lhe uma barriga à medida que o papel enfolava no redondo da lágrima empapada. E depois não podia escrever naquele lugar porque borrava. Por vezes, insistia e rasgava-o. Quando acontecia, cobria o caderno e a folha furada com irritações cheias de unhas a riscar no vidro, assoava-me, lavava a cara e ia olhar o longe do pinhal a discorrer, se fugisse de manhã e fosse sempre em frente e a correr, certamente saía do pinhal antes de ser noite. Mas de manhã ia para a escola e não me lembrava de ser tétrica. Selectiva, a tristeza visitava-me às tardes e fins de semana. Ou durante férias. Estou em crer que não mudei nada, as manhãs exploram o meu melhor. Mas pronto, talvez seja conveniente dizer que sim. Acrescentar que cresci, amadureci, pus travão ligeiro à imediatez.
Entretanto, lancei-me a escrever a todos os amigos e não amigos. Por conhecê-los. Ou porque os queria conhecer. Através do serviço dos correios, mantinha contacto com meio mundo. Os carteiros desconhecem, mas contribuí de forma activa para a sua continuidade. Claro que não fazia rascunhos. Se os fizera, não havia necessidade de fechar missivas com fita cola e de algumas chegarem multadas por excesso de peso. O meu mínimo assentava em três folhas de bloco de carta. Que a norma eram nove. Nove folhas escritas em frente e verso, com recados na margem superior. Não me lembro de seguirem assinadas. A minha vida era escola-casa, casa-escola, o que contaria em dezoito páginas?! Mas o prazer que eu sentia se uma destas missivas  me chegasse às mãos...

  

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

o Meu Padrinho de Empréstimo

Lembro-me de si desde um casaco azul e uma bicicleta de pedais na descida dos eucaliptos. Era um casaco de dralon, mescla de fios entre o azul e o negro, alguns ligeiramente brilhantes. Nesse tempo de mangas de camisa e calça de cotim, parecia um príncipe. É verdade, padrinho, e a camisa branca a espreitar por dentro do casaco, aumentava a minha admiração. Olho com atenção e nada restou das pestanas arqueadas e das centelhas brincalhonas a esverdear  pela íris, encantos que migraram para filhos e netos. No lugar da destreza antiga, uma cadeira de rodas a amparar o corpo magro. E na voz uma mistela de sons desarticulados, a gente a aproximar-se num esforço inglório de compreensão, apenas para o ver contente de  “ ainda consigo falar com eles”, participo.
Não sei que fez a vida ao rapaz do casaco azul. Agora há o incompreensível de um babete sobre a camisa que já não é branca e há a baba que corre; há os pulsos finos meio mortos e as mãos trementes; há os pés que temos de ajeitar-lhe no estrado. Devagar. Cuidadosamente. E há a minha madrinha a dar-lhe bocadinhos de torta. Parte a fatia pedacinho a pedacinho e alimenta-o na boca, qual mãe desvelada. Observo este exercício de ternura manual, todo entretecido de dedos cuidadores. E oiço-o dizer baixinho “saudade da nossa casinha”. Mas logo depois me olha e a voz se perde; é a tradutora que revela, “estamos mais velhos”. E estamos, padrinho, estamos os dois mais velhos. Que as nossas mães escolheram o mesmo dia e mês para nascermos.
No fim da visita, está de mão dada com a minha madrinha. Mudo e triste. Como se só a mão ali esteja ainda presa à terra, o resto do corpo ausente. Ao meu beijo, murmura sem tradução, “cumprimentos a teu pai”. Tenho vontade de o abraçar. Era sempre assim que nos despedíamos em vossa casa quando eu aparecia inesperada, um doce de braçado. Minha madrinha fervia um chá de ervas que aquecia e aromatizava a casa, punha a toalha na mesa e chamava-o para dar-lhe tempo a empurrar o andarilho e chegar no momento de servir.
Não sei pensar-nos agora. Portanto, é provável que opte pelo passado. A morte é sempre triste, padrinho. E muito solitária.


domingo, 8 de outubro de 2017

Rascunho de Viver

Em tempos, tive o privilégio e a oportunidade de ler uma conversa entre um caderno e o seu proprietário, cujo teria uns dez anos. Uma pérola de amor ingénuo. Haja Deus, que a memória é de venetas e bastas vezes lhe dá para guardar não-prestas, na minha terra ditos “torgia”, termo que não escutei noutros lugares e a que não conheço grafia (portanto, pode estar mal escrito). No meu sítio, assim por junto e em via oral, "torgia" designa uma miscelânia de coisas sem qualquer préstimo. Ontem, folheando os meus cadernos, lembrei a pequena composição escolar. Já lhe perdi frases concretas, mas sei que transpirava a fidelidade intrínseca entre garoto e caderno. Eram parceiros numa relação feliz. O meu amor aos cadernos comunga de idênticos princípios.
É verdade que as agendas me auxiliam na economia doméstica e são o meu diário de gastos. Mas é nos cadernos que pulsa a minha vida. Folheá-los é recuar sobre os passos, saber o que fiz e com quem. Desarrumada congénita, tudo por lá se encontra na sequência da sucessão temporal. Quase aposto que a miscelânea de assuntos que detêm é também uma “torgia”. De recados a apontamentos, pedaços de cartas difíceis por pragmáticas e dirigidas a instituições diversas, listas de pessoas, projectos em várias fases de desenvolvimento, frases que li e gostei, endereços e outras formas de contacto com dia, hora... rascunho de mails em colectivo, resenhas de conferência, pensamentos pessoais, reuniões e muito trabalho profissional. Quanta gente encontrei ontem sem que ao menos uma dessas pessoas soubesse do encontro! Algumas marcaram-me para a vida, não seria a mesma sem elas. Umas por bem. Outras por mal.
Agradeço à minha desarrumação o enredo vital e manuscrito dos meus cadernos, ao ritmo de um por ano de vida. Ainda hoje me invade o doce impulso de comprá-los e tenho-os em excesso. Faz-me bem mirá-los assim quedos e próximos, em virgindade intocada. E há quem mos ofereça na certeza de agradar. Ontem, desfolhei os pretéritos. E encontrei-os a escorrer a minha vida com os outros. Na abertura do primeiro, julgava-me em despedida final. Pretendia queimá-los um a um, elevar ao nada páginas e páginas de não importância. E soube de imediato que não conseguia. O acto de preservar foi involuntário, mais parecia acto reflexo.

Portanto, hei-de juntá-los. Primeiro dou-lhes colo, mimo-os (e me) e adormeço-os como a bebés. Depois, deito-os cuidadosa e materna em berço de caixa e embalo-os para não acordarem. Um dia não muito longe, vai sobrar nos filhos a memória da mãe que tiveram. Não serei na sua memória quem me desejo, mas a lembrança do que neles se formou com o que de mim e por mim sentiram e souberam. Então, sem consulta, vão atirar tudo fora. Mas serão eles a fazê-lo. Não é a mesma coisa.

sábado, 7 de outubro de 2017

Instantes

Observo-a à distância, a mão distraída no bolso do avental. Longe dela, mas tão próxima no bem querer. Por vezes, como hoje, pega no carro e sai sem rumo. Passa. Mas não vê. Adivinha-se no rosto fechado o choro ao volante, óculos a embaciar, um lenço de papel puxado às pressas. Qualquer coisa a partir-se dentro dela, a entornar a tristeza toda. Invento-lhe um mar roxo, sem salvação. E o carro a esmo. Preocupo-me. Queria sabê-la positiva, de alma iluminada. Mas é difícil fazer caminho pelo forro. Entretanto, o automóvel sumiu. Fecho a cancela, volto sobre os passos, dedos palpando um inconsciente fio solto na costura do bolso. Agarro um nódulo de cotão preso no canto e trago-o à luz, dedos em pinça. É um breve montinho cinzento. Penso nela e nas suas tristezas de tempestade. Deito o montículo no caixote e a hipótese avança por dentro de mim: esquecermo-nos nos outros é ainda uma forma egoísta de ser, um ponto de fuga no horizonte individual. Apenas  uma hipótese. Tudo que eu quero é que ela volte mais leve, rosto desanuviado. Não me conhece. Não lhe sei o o nome. É um mundo ao fundo da rua.

sábado, 30 de setembro de 2017

Bulício Pessoal

Uma das minhas manias é começar coisas. Entro por elas dentro num entusiasmo  afadigado e, em muito caso, breve as abandono. Sou assim, gosto de começos.  Por vezes, recaio e torno, detenho-me a observar o feito. E encontro-o tão sensaborão, o olhar despido de emoção e momento exibe um sem valor de tal ordem que compreendo o que intuição ou apenas preguiça me segredaram: não vale a pena. Portanto, a minha vida desenrola num encadear de começos e desistências. De nada acabado.

O que concluo? Pois, no seguimento da sina de interrupções, não concluo. Há-de haver um Deus – ou um acaso material – que me conclua e dê destino. Que pode ser definitivo. Ou não. Que, se “ou não” e  ainda a razão me assista, pergunte logo à chegada, o que fizeste?, e eu sem gaguejar, comecei um inúmero de coisas. Ele, e...?, e eu, e... nada; foi só assim uma coisa de tudo a começar, nada de acabamentos ou lindezas, nem ao reboco cheguei. A haver tal diálogo, sou bem capaz de levar a eternidade a aprender a rebocar. Mas se há quem empurre pedregulhos e se aguente...