domingo, 28 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

         Hoje somos diferentes: Gozamos períodos de férias, quase não há as tabernas de antigamente e o mundo português encheu-se de cafés - é de bom tom haver uma taberna de degustação cuja não é sequer parente afastada das tais alumiadas a petromax, com as pipas à vista e um cheiro a vinho tinto que se incrustava nas paredes e revolvia o estômago, de mistura com a saturação de suores múltiplos e de vários dias, que o banho era graça de dia santo. Hoje, tomam-se os banhos que cada um entenda, escolhemos a bebida, petiscamos ou fazemos refeições completas. A vida quotidiana mudou. As mulheres e alguns homens sentem-se gratos às máquinas que lhes poupam trabalho, saem a sós se assim o entenderem, ganham a sua subsistência, caminho de cada um para ser dono de si. Que bom podermos escolher o que desejamos para o almoço ou o jantar. Que gosto ter profissão que assegure cuidados que antes nem havia. E que supremacia se, profissionalmente, fizermos o que gostamos.

        A escolaridade obrigatória foi prolongada, portanto, a dependência dos pais existe até mais tarde, a juventude começa cedo a sair à noite e prolonga manhãs na cama quando as noites esticaram ao extremo. Aos fins-de-semana e noites de festa, distribuídos democraticamente entre os dois sexos, os cômas alcoólicos tornam-se corriqueiros em hospitais e centros de saúde. E apesar dos preservativos e da pílula do dia seguinte, continuam a surgir mães adolescentes. São em menor número e, na maioria dos casos, os motivos da gravidez diferem dos antigos. A solução também pode diferir, o aborto foi legalizado. Não há dúvida que as mulheres são quem mais beneficiou do regime democrático. Contudo, a morte por violência doméstica continua a aumentar. Pergunto-me se o álcool anda metido nas brigas entre pares; se será por ausência de barreiras no respeito que é devido ao outro seja ele quem for; se são mentes frágeis que se deixam contagiar por filmes e redes sociais; se há muita energia que não se liberta por uso excessivo de telemóveis e outras conexões nas quais se gastam horas e horas; depois falta paciência para os da casa e o disparate sai agressivo à menor contrariedade.

        O que mais se verifica é que, antigamente, no tempo das tabernas, o mal era quase sempre de raiz exterior: a miséria, a falta de instrução, a falta de cuidados de saúde… a taberna era o limbo dos homens e o castigo de muita mulher. Hoje o mal vem de dentro, é individual e comum de muitos. Somos mais instruídos, mas nem por isso melhor formados; temos excesso de informação e raro sabemos distingui-la ou sequer pô-la de lado. Todos sabemos ler, mas interpretar continua a ser função de alguns.

        E eu que vinha para contar do mar e das férias, dou por mim neste atoleiro tão questionante como questionável. Fica para uma próxima.

        Divirtam-se.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

 

        O povo de que nasci não conhecia férias, nesse tempo não havia pausas. Entristece-me saber isto e mais que sabê-lo, ter assistido a essas vidas de trabalho que, sobretudo nas mulheres, era por demais intenso. A pausa, a existir, denominava-se mudança de uma função a outra. Alguns homens também entravam neste rol; chegavam a casa, comiam uma bucha e iam semear e vigiar o crescimento do plantio e, se necessário, regavam a horta que ajudava a sustentar a família. A horta era o lugar sagrado onde à força dos braços juntavam a fé cega na terra; iam buscá-la não se sabe onde, que ela, pobre e esfarelada, parecia ingrata aos que a não conhecessem, não a eles que lhe sentiam a miséria dos nutrientes e a vontade de germinação. Desconheciam o termo resiliência, mas tentavam sempre, puxavam por ela com carinho e velavam o canteiro de nabiça ou a couve tronchuda quase com o mesmo empenho com que ensinavam os filhos pequenos a dar os primeiros passos. Era admirável vê-los debruçados sobre a terra, aqui um montinho de hortelã, ali um rego de cenouras, uma correnteza de cebolo e outra de alhos; além, salsa e coentro a vicejar. E punham canas no feijão de trepar e sacudiam caracóis e outra bicheza, as galinhas de olho no verde hortícola e enxotadas na tardinha quando enfim o galinheiro se abria à liberdade breve de ciscar no lusco-fusco. Passava-se isto um nadinha antes de engolfarem no poleiro onde, por misericórdia divina, se equilibravam até o dia clarear e  haver os gritos de um galo esparvoado; mal soava o clarinete do macho sobranceiro, surgiam estremunhadas e prestes, pata aqui, pata acolá, sacudindo o sono, carraça pegadiça que se escondera nas asas. 

        Contudo, a maioria masculina, suada e suja, barba a sombrear empoeirados vincos do rosto, negava-se ao lar e parava na taberna em busca de alegrias avinhadas que caíam mal na carteira e não poucas vezes eram rastilho traiçoeiro em família. Ser taberneiro era um posto: atrás do balcão, o taberneiro sentia-se alguém, aviava copos de cinco e de dez, uma aguardente ou outra em copinhos pequenos e ia limpando com um trapo descolorido de tão surrado, os círculos arroxeados do fundo dos copos. Torneiras de água corrente não havia. Atrás do taberneiro, ao lado das pipas de vinho, um alguidar cheio de água que manhãzinha era limpa e à noite tinha a cor do vinho tinto, era serventia da casa. Havia muito menos higiene, lavar os copos era "passar por água". Os mais inveterados iam ficando e só desencostavam do balcão renitente à invectiva do taberneiro, “ já não avio mais nada, tudo p’ra casa, já passa das dez, passa aí a Guarda e ainda levo com uma multa”.  E havia quem, para desanuviar, jogasse o chinquilho e o dominó entre rodadas pagas à vez. Com a TV ninguém sonhava; lá bem no alto, o som do rádio abafava na algazarra. Fazia-se um silêncio de respeito para ouvir Amália, o conjunto Maria Albertina e a acordeonista Eugénia Lima, que se apanhavam já a meio por via da desatenção geral e mercê de alguém que conseguia destrinçá-los e gritava, “deixem ouvir, porra!”.  E então ia-se fazendo um silêncio geral e só faltava que os homens tirassem o boné como à passagem dos funerais. Em vez disso ouvia-se uma voz ou outra a traduzir a unanimidade, "é uma artista!". Ou, "sim senhor, isto é que é cantar/tocar!". E mal cessava a função retomavam o chinquilho, colocava-se outra pedra no jogo do dominó, pedia-se ou escorropichava-se a bebida. Era um mundo de homens onde o mulherio não tinha cabimento . Havendo novidade séria, as mulheres enviavam os filhos e esperavam fora que os seus homens viessem para lhes dar a má nova - morrera a mãe, o pai, um irmão, sabe Deus quem; um filho fora hospitalizado; a filha fugira de casa com o namorico; regressara o filho emigrante; a mulher morrera num repente, de um ar que passou por ela; o filho mais novo, gatinhara e fora encontrado a boiar na presa de regar a horta. Era quase sempre fatídico sinal um homem ser retirado às pressas desse mundo macho. Com as devidas diferenças, a taberna figurava  na miséria portuguesa o que os clubes ingleses representavam na classe superior: um apharteid masculino.

                                      (cont.)


domingo, 14 de junho de 2026

História de Verão

         Uma abelha, dessas que dizem ser italianas, entrou pela janela, obstinou-se em escolher-me, pousa-me no ombro, descansa de seus trabalhos. Lisonjeado com aquela preferência, comecei a amá-la devagar, retendo a respiração, com receio de que não tardasse a dar pelo seu engano, que cedo viesse a descobrir que não era eu a haste de onde se avistam as dunas. Mas o seu olhar tranquilizava, era calma ondulação do trigo. Agora só uma interrogação perturbava a minha alegria - comigo, como é que faria o seu mel?

                                                                                      Eugénio de Andrade


Nota: este blogue regressa ao activo depois de dia 23. Entretanto, tenham uma óptima semana.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Voltas do Bem-Me-Quer

 

        Lisboa está repleta de jacarandás. Mas são os do Parque Eduardo VII que mais me encantam. Vejo-os apenas de ano em ano, na Feira do Livro, e sinto por eles um carinho inexplicável. Se um dia mudam a Feira não sei que faça, talvez viaje até ao parque só para fruir a visão de uma rua atapetada em lilás e onde caminho sentindo-me a herege que pisa território sagrado. E que vai ser do prazer que me agarra nos semáforos da Rotunda do Marquês, eu desvanecendo nesciamente à visão daquelas nuvens azuladas em que os meus olhos batem até sem propósito?! Não. A Feira tem de conservar o endereço. Além do mais, os livros condizem com os jacarandás, têm tudo a ver, mesmo sendo relação que não sei explanar.

        Portanto, mais uma vez por lá andei no encantamento do costume.

        Mas estou de mal com os livreiros que na Hora H faziam 50% de desconto em livros com mais de três anos de edição. Este ano, pelo menos na Relógio d’Água, tudo mudou: só alguns livros assinalados - e eram relativamente poucos – beneficiavam de desconto de 30%. De modos que foi a última vez que comprei na dita editora; exceptuo o livro do dia caso me interesse, e se continuar com boa promoção. Mas enchi-me de livros na mesma porque fui cedo e comecei pelos alfarrabistas onde li praticamente todos os títulos expostos nos primeiros quatro postos de venda. E comprei vários. E desisti de outros tantos.

        No dia seguinte saio cedo, o Metro vem à cunha, o rosto dos lisboetas é triste e amarfanhado. A maioria viaja no desencanto de um trabalho onde. Alguns já apanharam dois transportes até ali; outros terão ainda de chegar à outra margem; muitos descem na estação de Entrecampos, Sete Rios, Restauradores e correm para comboios e autocarros. A garota a meu lado puxa de um estojo de maquilhagem e, dois dedos enfiados no cetim da esponja, vai pondo no rosto alguma coisa que não identifico. É jovem e de boa pele, mas, paulatina, passa a esponjinha por todo o rosto, embebendo-a no redondo do estojo a cada retoque. Terminada a operação, puxa de um espelhinho que abre com um clique e mira-se em ângulo de cento e oitenta graus; após novo clique, desaparece tudo no interior da mala de mão, corre o fecho e sai aprumada e altaneira que nem juíza em tribunal. Não me deitou um soslaio, estava só, concentrada em si. Era uma manhã friorenta e um ar de tristeza emanava da carruagem: ombros descaídos, semblantes neutros, mãos ao telemóvel mais hábito que interesse. Nas horas matutinas manda o egoísmo sonâmbulo: ninguém dá lugar a ninguém, não se olha o vizinho. Mas já ali estive noutras manhãs e havia sempre alguém contente e conversando com entusiasmo. Lembro a jovenzinha de cabelo azul, uma Menina do Mar em tamanho natural que deixou o interlocutor - e até quem os olhou – bem disposto e agradado.

         Pergunto-me agora se teria sido defeito dos meus olhos; se eu mesma teria aquele ar de frete, do que se faz por dever e não por gosto. O que é que os portugueses perdem que assim os desalenta. Ou terei sido eu que perdi a capacidade de vê-los realmente. 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

O Tempo que nos Falta

 

        O polícia olhava seriamente na minha direcção (sendo benévola comigo, estaria a verificar se eu era um dos residentes). Portanto, guiei até ele, encostei, abri o vidro e perguntei, estou mal aqui? Não vejo outros carros a circular... A resposta veio em gume, a senhora não viu os pinos? Não pode circular. E eu, mas só sei este caminho...lá `a frente a circulação também está cortada? E a carranca, pois claro que está. Insisti, e agora vou por onde? E ele, agora sai e segue para a esquerda e depois de umas ruas volta à avenida. Agradeci e enquanto fazia a inversão de marcha com os olhos dele tão fixos no meu veículo como os da minha gata enquanto espera os pássaros, pensava atabalhoadamente, não posso virar à esquerda, não sei sequer que ruas existem ali (também desconhecia as da direita mas enfim). Resolvi que continuava em frente na esperança de que houvesse por ali uma rua que me permitisse virar à direita. O semáforo estava vermelho e os dois veículos na minha frente abriram o pisca para a direita. Imaginei que se eles continuassem a virar à direita talvez segui-los fosse boa ideia. Tive sorte: viraram à direita e não seguiram em frente, antes meteram por uma via de três faixas e aí perdi-os de vista porque o meu único palpite era a exigência de voltar a virar à direita; logo, mantive-me nessa faixa enquanto lhes dizia adeus que já aceleravam noutras direcções. Ainda me perdi ligeiramente num caminho secundário mas voltei à faixa da direita na esperança de encontrar uns semáforos conhecidos. E é que os encontrei mesmo. A partir daí foi canja. Andei a virar aqui e ali para conseguir chegar antes das 14,30. E cheguei. Carreguei as coisas, subi no elevador mais rápido e antes de meter a chave à porta ela abriu-se e o meu filho num sorriso terno e descansado, estava a ver que não chegavas a horas. Estivemos uns minutos à conversa e logo de seguida lá foi para a sua reunião de trabalho. Acionei a via verde, arrumei o que levara e saí. Tinha uma data de recados para fazer até às dezoito.

        Dei conta de quase tudo. Avancei para a linha vermelha e fui até ao Corte Inglês para a sessão Poemar, Viagens pela minha Terra (em verso alheio). Quando me sentei na sala, carregada de encomendas, suspirei tão longamente que a colega do lado me olhou, facto não vulgar. Ali, as pessoas ou se conhecem e falam baixo umas com as outras, ou nada acontece. Na situação, nada devia acontecer, denunciou-me a fundura dos suspiros. Creio que nem tirei o caderno. O Poemar é de sentir e não de escrever. Foi tão bonito ouvir os poemas na voz de Rui Spranger, por vezes acompanhado do mentor José Anjos e com música de Sara Santos Ribeiro. E como a voz se alterava, e chegava a parecer outra, consoante o poema! Agora mordaz, agora troçando ternamente, ou onda raivosa que se levantava voraz e tudo varria. Tinha lanchado no Metro, já sem tempo para o fazer mais tarde, mas, do tanto que fiz, nada me caiu tão bem como a poesia. Foi água para a minha sede. E para ali fiquei, planta ressequida, a embeber, a embeber, as folhinhas desmaiadas arrebitando contentes. Bom, falta dizer que os poemas eram todos sobre a cidade do Porto (pelos vistos antes houve poemas do Minho e de Trás-os-Montes). Poemas e prosa poética. Gente que desconhecia e gente que logo identifiquei. Por exemplo, a prosa de Miguel Torga, ainda que não tenha lido O Reino Encantado e nem Portugal. José e Rui nasceram no Porto a Sara é de Lisboa, mas eles atiraram-lhe ao sorriso com Manuel Pina, “Eu não nasci no Porto, nasci-me no Porto”. A selecção de poemas e poetas foi feita com critério, os filmes (pedaços), sobretudo de Manuel de Oliveira, constituíram momentos telúricos que cimentaram o ambiente do norte e portuense; não me perguntem sobre a música, parece-me ter ouvido apenas alguns acordes. A voz sim, bebi-a inteira.

        Um grande bem haja ao Corte Inglês e a José Anjos pela sensibilidade com que aborda os temas e o bom gosto na escolha de quem traz consigo. Em mim, valeu.


Nota: alguém deu uns tiros no placard da velocidade média e virou as câmaras para o ar. Portanto, andámos todos a arriscar, felizes da vida. Já as arranjaram e não fui informada. Daqui a uns tempos recebo duas multas. Mas agora não vou pensar nelas.