O tempo de sermos no mundo vai-se.
Esgota. E a mesma fugacidade envolveu o Natal: chegou e passou,
comboio rápido que não abranda ao vislumbre das estações, antes as
deixa para trás com a pressa de quem vai apagar um fogo que lavra
mais à frente. Não se conteve no aniversário de nascimento
divino, um Menino que, diz a religião cristã, veio salvar o mundo
que parece não ter salvação. Pois, digo eu, que venha. Só um deus
pode pôr mão neste fricassé indigesto. Mas deixemos o futuro que
eu estou para contar o passado.
Por razões extra programa não foi
um natal semelhante a outros. Mas juntou-os a todos. Os primos
reuniram sem falhas. Vê-los crescidos, cada um em seu caminho,
palrando animados e amigos, descansa o espírito. Há neles
resquícios das crianças que foram: gestos inadvertidos e um fundo
imutável no olhar afirmativo que lhes delata forças e fraquezas.
Hoje, a juventude desaparecida, são homens feitos, pernas compridas
sob a mesa, barba rija e voz forte, enchem e despejam copos com o à
vontade que a adultícia lhes deu. E a minha princesinha abstémia
continua princesa, sorriso fácil e bonito, flor silvestre adaptada à
condição de ser única. Depois, o clã dos mais velhos. Foi noite
em que tudo saiu bem: bolos, doces, cozinhados. Tão bem que,
contrariamente a outros natais, a refeição que começou cedo
terminou depois das vinte e três. A ninguém o tempo foi pesado. Não
houve telemóveis nem TV e a barulheira desvairava. Minha mãe,
pessoa tão calada, o que pensará da verborreia que nos invade todos
os natais e festas?! Ela que não viu os filhos crescer (ou terá
visto?), que dirá dos netos adultos e mais dos caminhos que trilham?
Será decerto mais compreensiva que meu pai, carvalho rígido e
incapaz de entender o percurso de alguns netos. Este ano, por cansaço
meu ou alheamento geral, não vieram sentar-se connosco nem ficaram a
mirar a lareira enquanto jantávamos. Mas, junto ao Jesus que tem o
tamanho da ovelha, meu irmão e família sorriam-nos da foto de
outros natais. Quem sabe meus pais os visitaram, os pais sabem onde
são mais necessários.
Guardo de cada natal o meu ramo de
alento e que por vezes são conversas, lembranças que se fazem
presentes. Este ano, talvez por estar longe, o filho mais novo, que
agora aprecia Cristina Branco, comentou a olhar-me: cresci a ouvir os
cds que tens dela e não lhes dava importância, mas agora, se a
oiço, lembro-te na cozinha a trabalhar e ouvi-la e penso quanto
mudamos o gosto com a idade. E disse isto a olhar-me com olhos
ternos, ternos. Noutro dia, sorrindo, comentou: andei ali a folhear
alguns livros teus e vi um em que fizeste uma dedicatória para ti
mesma. O livro é do Houellebecq e tu escreveste, “em tempo de
experimentações. Só para experimentar”; e dataste e assinaste.
Não recordava o escrito, mas lembro-me de o ter comprado numa Feira
do Livro na Alfaguara, mercê de uma vendedora muito jovem e
persuasiva. Desconhecia que este filho folheasse livros meus.
Agradou-me. Outro ramo foi trazido por minha irmã que chegou cedo
para ajudar e ajudou mesmo. E me deu um presente que ela sabe do meu
gosto, tanto como sabe que o não compraria.
E agora? Agora vi-os partir um a um.
Alguns para outro país, estes para outra cidade. É de hábito. Como
as andorinhas, saem juntos ainda que as rotas sejam outras. A casa
perdeu brilho, retomou o quase silêncio e as noites repetem-se nas
intermitências do sono, pausas cheias de pomadas e unguentos que
isto de ter mesa posta durante cinco dias tem preço.
Cá estou de novo. Para fechar o
calendário. E vos rever, se tal se pode dizer na escrita.