Esta
semana a obra em análise era “O Principezinho”. “Le petit Prince”, sendo
textual. Não vou falar-te de Saint Exupéry e da sua vida aventurosa. E nem
sequer me dou ao trabalho de te resumir o texto que li tanta vez. Também vou
passar em branco a viagem que a professora fez pela obra e a digressão do Padre
António que também meteu o bedelho. Não que tenham sido banais. Nada disso.
Mas julgo ser livro para ler e pensar a sós. Fora os “meus” poetas, é
seguramente a obra que li e reli mais vezes. Tens razão, é muito curta.
Apetece-me sempre que continue, mas infelizmente não acontece e rápido lhe
chega o final. Que eu morria no deserto com aquele príncipe de cachecol
desfraldado. Desaparecíamos os dois. Escafedíamos no ar sem deixar rasto.
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ao Principezinho acordou em mim pessoas que já não estão. Gente que, se o lesse,
ia medir o seu gosto com o meu e agradecer-me muito. A pena que tenho de não lho
ter dado a conhecer. Para eles, não houve o tempo deste livro e quase não houve
o tempo dos livros. Por outro lado, relê-lo fez mais presente um professor de
quem tive a sorte de ser aluna. Pelo extraordinário conhecimento que possuía;
pela forma como o transmitia e que não observei em mais ninguém; pela
humanidade que emanava, se notava no olhar e em tudo que dele viesse. Era uma
pessoa serena e foi o único professor que me beijou; assim uma coisa sem
palavras, mas com a ternura que se precisa. Também foi num
dos seus testes que tive uma amnésia suspeita e de que não suspeitei. E ele
calmo, mesmo atrás de mim que olhava a chuva sem me lembrar do que fosse; ele,
não te preocupes, descansas e repetes o teste na semana que vem. E eu tão
atónita comigo e a pensar, como é que se descansa que já não sei. E outras
parvidades assim que eram afinal muito razoáveis porque estava a perder o
controlo. Esse professor que vive comigo e foi sempre o meu exemplo,
a quem chamávamos ternamente, e por ser três réis de gente, “O Serpinha”. Oficialmente,
ensinou-me Psicologia. Mas o que ele ensinava sempre sem que o dissesse é que “O
essencial é invisível para os olhos”. E o que mais fez foi cativar-nos. Foi nas
suas aulas que me foram apresentados três livros: Um livrinho pequeno de
Matilde Rosa Araújo que ainda conservo já todo descapado e de folhas soltas, O
Meu Pé de Laranja Lima que ofereci a uma garota que gostava de ler, e O
Principezinho. Os dois primeiros fizeram as delícias dos meus alunos e perderam
nas suas mãos o brilho inicial. E conservo-os a todos naquele papel
amarelecido de tempo e dedadas.
Tenho
certeza que o Serpinha faz companhia ao Principezinho. Não sei se cabe no seu
planeta minúsculo, mas a esta hora arranjou maneira de ajudá-lo a varrer a
cratera, alimentar e cuidar da rosa e delicia-se com uma data de pôres do sol.
E
olha, Tolentino, continuamos em modo de primavera. E a tua igreja tem um tecto
maravilhoso. Mesmo.