terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Tolentino



Esta semana a obra em análise era “O Principezinho”. “Le petit Prince”, sendo textual. Não vou falar-te de Saint Exupéry e da sua vida aventurosa. E nem sequer me dou ao trabalho de te resumir o texto que li tanta vez. Também vou passar em branco a viagem que a professora fez pela obra e a digressão do Padre António que também meteu o bedelho. Não que tenham sido banais. Nada disso. Mas julgo ser livro para ler e pensar a sós.  Fora os “meus” poetas, é seguramente a obra que li e reli mais vezes. Tens razão, é muito curta. Apetece-me sempre que continue, mas infelizmente não acontece e rápido lhe chega o final. Que eu morria no deserto com aquele príncipe de cachecol desfraldado. Desaparecíamos os dois. Escafedíamos no ar sem deixar rasto.
Voltar ao Principezinho acordou em mim pessoas que já não estão. Gente que, se o lesse, ia medir o seu gosto com o meu e agradecer-me muito. A pena que tenho de não lho ter dado a conhecer. Para eles, não houve o tempo deste livro e quase não houve o tempo dos livros. Por outro lado, relê-lo fez mais presente um professor de quem tive a sorte de ser aluna. Pelo extraordinário conhecimento que possuía; pela forma como o transmitia e que não observei em mais ninguém; pela humanidade que emanava, se notava no olhar e em tudo que dele viesse. Era uma pessoa serena e foi o único professor que me beijou; assim uma coisa sem palavras, mas com a ternura que se precisa. Também foi num dos seus testes que tive uma amnésia suspeita e de que não suspeitei. E ele calmo, mesmo atrás de mim que olhava a chuva sem me lembrar do que fosse; ele, não te preocupes, descansas e repetes o teste na semana que vem. E eu tão atónita comigo e a pensar, como é que se descansa que já não sei. E outras parvidades assim que eram afinal muito razoáveis porque estava a perder o controlo. Esse professor que vive comigo e foi sempre o meu exemplo, a quem chamávamos ternamente, e por ser três réis de gente, “O Serpinha”. Oficialmente, ensinou-me Psicologia. Mas o que ele ensinava sempre sem que o dissesse é que “O essencial é invisível para os olhos”. E o que mais fez foi cativar-nos. Foi nas suas aulas que me foram apresentados três livros: Um livrinho pequeno de Matilde Rosa Araújo que ainda conservo já todo descapado e de folhas soltas, O Meu Pé de Laranja Lima que ofereci a uma garota que gostava de ler, e O Principezinho. Os dois primeiros fizeram as delícias dos meus alunos e perderam nas suas mãos o brilho inicial. E conservo-os a todos naquele papel amarelecido de tempo e dedadas.
Tenho certeza que o Serpinha faz companhia ao Principezinho. Não sei se cabe no seu planeta minúsculo, mas a esta hora arranjou maneira de ajudá-lo a varrer a cratera, alimentar e cuidar da rosa e delicia-se com uma data de pôres do sol.
E olha, Tolentino, continuamos em modo de primavera. E a tua igreja tem um tecto maravilhoso. Mesmo.

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Era uma vez...


Seguia sozinho na lateral, como quem não pertence, o fato negro a agigantá-lo na brancura da camisa. Nos últimos anos a novidade do dia a dia, outra família e a irrequieta juventude da mulher davam-lhe novo alento, remoçara. Assoberbado, quase esquecera que   a vida se compraz no exercício de momentos difíceis. Tinha conseguido um apartamento aprazível num quarteirão de qualidade e a saudade dos filhos já crescidos virara hábito de gaveta, se não fora a contribuição mensal, quase poderia iludir-se e pensar que não existia senão o bebé que, em desdentado entusiasmo, lhe estendia os bracitos. Viajava pouco para Portugal e em cada  regresso à terra se sentia mais deslocado, exposto a mirones que o observavam num misto de perspicácia e animosidade que avultava  em crítica velada e nunca dita, como foste capaz. E as visitas espaçavam tomadas de brevidade, um abraço e dois dedos de conversa com os pais que envelheciam regulares, involuindo no seu canto, desprendidos de preocupações exteriores a medicação, refeições e sono. Fetos em placenta, alheavam de novidades. Outro neto, nora jovem, a nova vida do filho, assuntos  fora da redoma. Tudo neles se apagava excepto a réstea ressentida pelo abandono. E ele acusava esse mau estar de amor magoado, um cheiro de sentimento requeimado a que a boa vontade sucumbia de palavras presas na garganta. Olhava os pais a desconhecer-se, não pode ser, gosto deles, são meus pais. Mas não encontrava dentro de si senão pena, dó de dois velhos taralhocos e que mal se tinham de pé. Despedia-se. Agora, triste ironia, estavam os dois vivos e a morte levara-lhe o filho. A vida sabe ser desastrosa, proposita-se a escândalos que contrariam a natureza das coisas. Ao invés das irmãs, o filho escrevia-lhe por vezes longos mails, mas pouco lhe confidenciava ao telefone. E vivia a prometer a visita de férias sempre incumprida porque as namoradas, o emprego de férias, um curso rápido que queria concluir. Reparou que toda a gente parada, um murmúrio a atravessar a multidão. Lá à frente, um magote de preocupação reunida e junto dele duas velhas, num soslaio de esguelha a altearem a voz, coitadinha, a pobre desmaiou outra vez. Sozinha com o desgosto é que ela está. E ele para si, então e eu, não conto. Andei com ele às cavalitas, ensinei-lhe os pés no triciclo, empurrei-o na bicicleta, acompanhei-o no vício do futebol, dei-lhe banho, vigiei-lhe as febres infantis, vesti-lhe os bibes da pré escola, dei-lhe a papa à boca, inventei histórias para que comesse a sopa, adormeci-o vezes sem conta. Mas não conto. Sou ninguém, um pai de faz de conta, sem direito a desgosto. Se choro, lágrimas de crocodilo; se entristeço, é só para parecer; se me acerco da mãe, é tudo fingimento.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Amigas Minhas...

Hoje a cafeína deu-me para a nostalgia. Assim uma necessidade do meu trio de amizade mais funda e que me fica factualmente tão distante como perto do coração. As minhas amigas não têm destes descaminhos. Se os sentem, jamais deles soube. Não se plantaram de surpresa à minha porta, nem, por impossibilidade de presença,  me disseram via mail ou sms, lembrei-me de ti, como é que estás. Nada. São um túmulo, aquelas santas. Contudo, sei que sou, talvez para as três, mas seguramente para duas delas, a amiga dilecta. É verdade, há uma que é diletante e é incerto o meu lugar na sua vida, admito ser mais memória  que actualidade e tal facto não me perturba. Digamos que nos queremos bem com demasiada liberdade. A intimidade é laço que não estrangula mas aperta. Ora, o aperto de união entre nós duas, desatou.
Com as outras duas experimento o sentimento unívoco das amizades plenas. Se as encontro, é como se os longos intervalos  entre nós elidam, parece-me sempre que, por sermos tão as mesmas umas para as outras, nos vimos no dia anterior. Tenho com elas milagrosas afinidades de raiz secular. Na relação que mantemos, cada uma prolonga-se na outra e tudo que vivemos juntas encontra-se ungido de sacralidade. No entanto, são ambas muito diferentes.
Com uma tenho afinidades electivas, intelectuais talvez, admiro-a e estimo-a com o amor que dedico às coisas belas e frágeis – tudo que é belo é por natureza frágil - e creio sinceramente que, no género feminino, só eu estou perto de entendê-la. Acredito-a especial e única, seres da sua natureza não são apenas raros, detêm uma fragilidade ímpar, flores de planeta distante que necessitam certa redoma para sobreviverem na Terra. Precisam de um pequeno príncipe a velá-las, constante. Nunca passeei a sós com ela e sei que talvez não aconteça, a sua segunda natureza acompanha-a sempre.
 A outra é trabalhadora incansável, o esteio da família e leitora voraz.  Gosta sobretudo de romance histórico, tem um carácter de bondade ímpar e uma fragilidade comovente que se magoa em espinhos fictícios e por eles entristece. É um coração de ouro e gostei dela ao primeiro encontro. Não consigo entender como é que não tem um carradão de amigas, é mais acolhedora que salinha de estar agradável e aquecida, com bebida fumegante sobre a mesa em dia de inverno. Dou graças aos céus por tê-la conhecido. Junto dela não me existem estranhezas e todo o caminho é aromático. Gosto tanto dos nossos encontros como de beber café. Aquela garota revigora-me.  Mas encontramo-nos tão pouco que, este ano, me (e a) levei a um ultimato: vamos encontrar-nos a 8 de Março. Até ao fim. Não que eu ligue ao Dia da Mulher. Mas sei que, como eu, prefere datas e rituais. Além disso, o seu aniversário é nas imediações. Vai ser bom dar-lhe a prenda em mão. Estar com ela a sós uma vez no ano, pelo menos. Esperar por um dia que nos pertença.
Não sei tanta coisa da vida delas. E quanto ignoram da minha. Mas de cada vez que nos juntamos, é sempre uma alegria completa.
Bem hajam!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Tolentino


(cont)
A peça, que se desenvolve em teia relacional, termina com a frase, “o inferno são os outros” e é enriquecida por constantes contradições, sendo uma delas que, se a porta abrir, não ficam mais próximos do exterior, seguem-se mais salas e corredores. Não há saída.
Pois apreciei a professora e o que li para a sessão, e fiz o meu boneco mental que talvez não coincida com nenhum outro mas é o meu. Supus que aquele interior é a consciência tomada em duplo sentido: a autoconsciência de si e a consciência que o eu tem de si por influência do espelho que são os outros e lhe reflectem a imagem (a exterioridade). Nos três personagens, autoconsciente é só uma pessoa (Inês), os outros dois vivem para a mundaneidade, estão marcados pela preocupação de parecer. Portanto, outra contradição: imersos num interior sem mudança afirmam a sua exterioridade e aparência. Outro facto insólito é que a porta, quase no final da peça, se abre. Contudo, nenhum sai. Podiam fazê-lo. Pergunto, e para que sairiam? Para um corredor ou outra sala?...estão mortos e não têm saída, escolher não existe, les jeux sont faits; No sentido inverso, nós estamos vivos e, enquanto tal, condenados à liberdade. Porém, no sentido menos literal, o facto de permanecerem os três juntos e não atravessarem a porta aponta a ausência de escapatória: não se foge da autoconsciência de si e de outrém sobre si.
E o inferno são os outros? Sim, também. Porque petrificam, enchem de rigidez a imagem de um ser que é mutável. Porque nos olham com olhos seus, subjectivos, e a visão pode deturpar, não ser justa, funcionar de acordo com as vicissitudes de quem olha. Mas, também “l’infer c’est le moi”. Porque cada outro é um eu que, como os dois personagens, pode não ter a coragem de se olhar a si mesmo e menos ainda de admitir publicamente essa verdade: o espelho é uma força.
Deixo apenas a questão, será que Inês consegue levar os outros dois a esse nível de autoconsciência de si? E isso salva os três? Pois acredita, não o sei. Mas parece-se um bocadinho com a escalada dos prisioneiros para o exterior da caverna. Mais claustrofóbico. Tu que dizes?
Só para terminar – eu sei, falei em demasia e pouco disse -, fica sabendo que Fevereiro este ano destravou. Digo-te que tem estado ameno e de rara chuva, quem sabe permutou com Março. Tolentino, fica atento que as mínimas em Roma são uma desgraça, fui dar uma olhada por via da tua pessoa. Cuida-te nas madrugadas. Enfia um casaco, dá duas voltas no cachecol que esses ares não são Lisboa e menos ainda a ilha da Madeira.
Até para a semana e não trabalhes em excesso.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Tolentino


Peço desculpa pelo atraso, mas, como sabes, a vida às vezes escraviza-me e em vez de me deixar escrever põe-me a fazer coisas. E eu que rápida era, agora, por razões, encho-me de lentidão e vagares. A bem dizer razões é o que não me falta.
Ias gostar desta sessão. Seguramente. A forma como Isabel Caldeira Cabral, que conheci apenas Isabel Caldeira, tratou a peça de Sartre “Huis clos”, foi por demais agradável. E sábia. Digo-te, saí repleta. Não ta vou contar em pormenor, de certeza a conheces. Julgo ser mais grato e útil lê-la que assistir à representação. A leitura usufrui de bens que a peça exige: tempo para pensar, reler, repensar, matutar no valor de palavras e expressões. Bom, mas isto sabes tu de sobra.
 O enredo desenvolve-se num único acto e o cenário é o interior de uma sala fechada. Há apenas três personagens, três mortos: um homem e duas mulheres. Qualquer das personagens, no desenvolver dos seus defeitos, nos lembra alguém –  nós mesmos em determinados momentos. Somos levados a concluir que estão no inferno, são três assassinos isentos de sentimentos profundos: não estão arrependidos e nem sentem ou sentiram em vida verdadeiro amor por alguém. Foram postos conjuntamente numa sala para a eternidade, estão fora do tempo, sem dia ou noite, sempre juntos num calor sufocante e sem janelas, iluminados eternamente, o seu descanso da luz é o pestanejar. Um trio que se olha e julga sem descanso - Julgo eu que não faltem espelhos na sala, os três são espelho uns dos outros, mas só um é espelho de si mesmo.
(Continua)

sábado, 16 de fevereiro de 2019

Era uma vez...


Ela indiferente, passo certo. O filho que desde o peito lhe bebera gostos e manias, mesmo que quisesses não conseguias, és fraquinha - e passando-lhe um dedo na linha do rosto - olha para isto, ficaste uma fuinha, tu já te viste ao espelho. Pois não te vejas que estás feia. E logo ela a escurecer ainda mais, bem sei. Ele a emendar arrependido, mãe, então...esta hora é para a passadeira, pensas apenas em mexer as pernas. E tinha sido assim. Recomeço de passadeira, treino de corpo e pensamento. A afastar o marido devagar, por vezes só uns milímetros, planta débil que endireitava lentamente para o sol, mais instinto que vontade. Filha única, fora menina de sua mãe, um ai jesus mimado ao exagero, as empregadas correndo atrás com casaquinhos de lã e agasalhos, luvas e gorros. Na primária, a deferência da professora, menina Maria Laura como estão os paizinhos. Adolescente, o corpo  a organizar-se sozinho, peito entumescido e cintura que afinava, as colegas na ginástica mirando-a e a cochicharem, é bonita não é. E bonita, sim. Crisálida virando borboleta. A pele acetinava de gosto, pestanas embastecidas sombreavam a vivacidade dos olhos e as sobrancelhas ganhavam um louro escurecido que emprestava ao olhar certa profundidade pensativa. O corpo, moldado por artesão incógnito, torneava. E o cabelo apanhado exibia a ternura de anéis principiantes aninhando na nuca uns contra os outros, quais pássaros friorentos que apetecia afagar. Ou, garotos em esquina brincalhona, espreitavam a fronte a um lado e a outro.  Solto, o cabelo era manto que espargia em ondas largas, substitutas de prosaica e infantil campina loira. A directora da escola agradada do aprumo, mirando o uniforme impecável, cabelo comprido só apanhado, ouviste. E ela uma trança, um elástico, carrapito.  
E o filho sempre atento, espreitando à porta do quarto, a desviá-la e instruí-la, não te apetece mas tens de vir, vamos ao cinema; não queres, vens sem vontade – e num repente -, se não vieres, ficamos os dois em casa. Outras vezes puxava por ela, hoje treinas um bocadinho mais, cansada dormes melhor. As filhas, mais pegadas ao pai, num mutismo involutivo, a olhá-la estranhas, olhos de acusação incerta, não será que a culpa foi tua. E apesar do ginásio, dias e noites um aborrecimento de horas iguais e sem esperança que acudisse. A dúvida a insistir, teria sido ela. Talvez que certo desleixo na imagem, mas onde. Os partos não lhe tinham roubado a figura, não descurava a cabeleireira, era de boa pele e o agrado masculino ainda a acompanhava.  
Mas deixar-te ali filho, em lugar de pedras e flores fingidas, como é que posso. Que toda a crueldade se esconjura de uma vida em botão. E este sol que assenta forte, e se te faz mal a soalheira neste ermo sem uma sombra, meu menino. Ajuda-me agora, filho. Ensina-me como é que se deixa quem não se aparta de nós, ou não me aguento. E a garota a segurá-la, mãe, mãe, ajudem aqui que ela desmaiou de novo. E logo a fortaleza de dois braços a sustê-la, o féretro parado, um murmúrio de dó e suor no calor da tarde. Palmadinhas, uns borrifos de água, bebe uns goles, faz-te bem. E ela a pensar na injustiça de a arrancarem da morte, no para quê do sofrimento.


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Destratar


Rotinas cumpridas não dão pelo nome de prazer, são antes uma tonalidade agradável, espécie de aroma a roupa lavada que predispõe. Ou predispunha, se depois delas sobrasse disposição.
As mulheres que conheço têm um abuso de rotinas sobre elas. Se as cumprem, há pelo menos um alívio, mesmo que sem odor ao desencardido da limpeza. E no entanto, um estudo recente – há estudos de tudo, cheios de percentagens e conclusões que leio e por vezes releio fora de toda a crença – mostra que as mulheres sofrem em média mais uma hora diária de rotinas caseiras que os homens. Santa paciência. Mas isto é verdade onde?  Talvez em casais sem filhos, jovens, nos que têm empregada, ou pelo menos umas horas de empregada diária. Mas, salvo raras excepções, nos casais de menor rendimento económico, tal diferença  nem sequer se aproxima da verdade. Uma hora diária de trabalho extra seria risível se essas mulheres tivessem acesso e lessem tal artigo. O artigo deveria antes dizer que os homens, aqueles queridos, gastam em média uma hora diária em trabalho caseiro. E esta hora pertence, é claro, aos bons companheiros, aqueles que fazem o favor de apanhar uma roupa do estendal, põem a mesa, dão comer ao animal de estimação, podem lavar uma loiça e sabem pôr a loiça na máquina. Com muito boa vontade, no total, somado e arredondado, perfaz uma hora de trabalho  diário. Que a maioria não faz nada; diria uma amiga minha na sua gíria arremelgada, "não fazem a ponta de um corno".
Ora as mulheres que me inflamam são as portuguesas e arrisco que sejam a maioria. Pois elas, ao contrário do que o artigo apregoa, sofrem igual carga horária no emprego que não existem horários fabris ou de restauração, ou do que seja, senão de oito horas quando não são mais e sem paga de horas extraordinárias. Sim, estamos nisto.
Irritam-me estes estudos da treta muito cheios de objectividade fictícia. Muito dos resultados depende da qualidade e rigor da amostra, como sejam a quantidade e diversidade percentual de exemplares que a amostra contempla. Ora estou consciente que os deserdados da sorte são em muito maior número que os beneficiados. Com a classe média a ir por água abaixo, os jovens a ganharem tuta e meia, sejam licenciados ou tenham o décimo segundo incompleto, o Portugal de hoje tem ingressos na pelintrice a dar com um pau. E sempre a aumentar. Mas as mulheres vão segurando. E assegurando. Que os homens têm o seu emprego. Coitados. Que trabalham tanto. Os pobres.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Tolentino


Deixa-te disso, senta-te aqui só um bocadinho que não será por me leres que a Terra sai da órbita, ou fica um volume sem cota, na biblioteca de Sua Santidade o Papa Francisco.  Pois a tua capela lá continua – este ano também a porta dos fundos está aberta, o que é bom. E olha, algumas ovelhas começam a tresmalhar facto que, pelo menos para mim, é novo. Mas pronto, o ramo ainda esteve composto. E afinal, por via de uma gripe, Teolinda Gersão e mais o seu Silêncio foram adiados para as calendas. E a professora Luísa Ribeiro Ferreira elaborou um improviso –  improvisos que são todos de primeira água – sobre  Simone de Beauvoir, filósofa com que mantém uma relação ambivalente – diz ela –, mas toda a gente sabe e vê que lhe dedica carinho especial. Sim, que o gosto não impede a ambivalência. E oxalá a maioria das pessoas comungue dessa ambivalência. Oh, mas sou uma avoada e gosto da filósofa pelo nome, sempre gostei de Simone (ainda que seja o feminino de Simão, nome assaz estranho e de apóstolo). E gosto por ser mulher de ideias próprias e com a coragem da sua vivência e propagação em época adversa. Admiro-a porque viveu e aturou muita coisa a Sartre e não precisava dele para nada; portanto, era capaz de ser amor. E também a admiro por ter tido um amor americano e talvez outros mais. Até aceito que não concordes, mas, se pensares bem, era de coragem assumir vários amores, mesmo que seriados. Além disso, há quem precise de modelos e admire pessoas. Portanto, não te metas neste assunto que não vou retirá-la do pedestal só por tua causa; e isso de estares a trabalho no vaticano não me faz mossa; cada um trabalha onde pode e desde que cumpra e dê o seu melhor, em termos de merecimento, seremos todos muito semelhantes.
Não nos iludamos, o objectivo das prelecções são umas luzes e tintas de filosofia e literatura que remetam o público para a leitura das obras. E creio que ficou a vontade de ler O Segundo Sexo, “on ne nait pas femme, on le devient”. Mas até julgo que Simone de Beauvoir se portou muito bem dentro do papel necessário de mulher lutadora pelos seus direitos, dentro do mato grosso em que, corajosamente, desbravou caminho para a igualdade entre homens e mulheres, advogando o princípio existencialista de que nenhum dos géneros é por natureza superior ao outro e atribuindo ao factor cultural a diferença de pesos. Pois digo-te que não concordo com ela (olha a novidade). Hoje, a grande maioria das mulheres admite que se nasce mulher, sim. E não apenas pelas diferenças anatómicas. Somos diferentes e queremos continuar diferentes. E a igualdade dá-se e só pode acontecer no respeito pela diferença de género. Mas que longe estamos disso. Tão longe como haver dez mortes por violência doméstica durante o primeiro mês do ano de 2019.  Fora o mundo de maus tratos e destratos que existe e se não vê. Ou se vê tanto que deixou de contar. E isto, Tolentino, é que dói. No meu caso também provoca raiva, doença mais própria dos cães, mas que queres...
Desculpa, não te tomo mais tempo. Vai, vai aos teus livros e papéis. Quem sabe escreves um poema, uma crónica, fazes uma homilia.


domingo, 10 de fevereiro de 2019

Era uma vez...


Era o princípio da tarde e o ar tremia de calor quando a visão e o som  inconfundível da ladainha e de muitos pés pisando em lenta cadência fez parar o trânsito. Ela seguia quase colada ao carro que ronrovava a passo, indiferente ao esfalfamento de gasóleo, imune à inclemência do sol, cega à exuberância clara da tarde e às folhas das árvores que ladeavam a estrada e pendiam exaustas, não aguentamos mais. Caminhava. Devagar, lentamente, um pé depois do outro. Seguia amparada numa das filhas, um maciço de caracóis loiros a esmo pelas costas, cabeça ligeiramente inclinada para a frente. Não chorava. Não gemia. Lábios e olhos secos, movia o corpo como se lhe fora exterior, objecto de comando a que apenas importava dar corda. Atrás, a imensa mole humana que se arrastava encalorada e condoída, leques num sufrágio de brisa que não havia, “coitada!”.
O calor esparramava sobre a multidão por entre padres nossos e avé marias que o prior ditava abrigado em sombrinha escura e  a que poucos respondiam, cada um ocupado a fintar a canícula, olhos em ânsia de refrigério, aqui a tira sombria de uma esquina, ali a fita de camioneta carregada, acolá moita mais basta. Um inferno de sol plasmava-se sem quebra sobre o compacto de gente e o suor escorria. Viam-se sombrinhas abertas, boinas e bonés que abandonaram o respeito das mãos pela cabeça escaldada, chapéus de palha chinesa, mãos desprevenidas que se lançavam a equilibrar papeis e folhas de jornal no cocuruto. Ao arrepio das orações, as conversas em surdina, constatações tristes e conformadas, diz que piorou de repente, coitadinho do rapaz tão novo e já lá está; quando a doença é malina não há nada a fazer; e a mãe, tenho pena dela, que não há pior desgosto, está um caco; pudera. E as linguarudas apreciando as tricas como quem revira rendados de lençol, vês aquele, é o pai. Agora parece que vive na América, é um pedaço de homem, não me admira que a gaiata se tenha embeiçado. E os muitos que acompanhavam fugindo do calmeiro às carreirinhas, de sombra em sombra, e já pensando na vida, ainda tenho de passar no super que me falta pão, daqui vou à oficina ver a afinação dos travões; mal isto acabe piro-me para o café que não há tristeza que uma cervejinha gelada não cure.
Mas ela indiferente, mergulhada no círculo de gasóleo de que todos fugiam, olhando os pés, um agora e depois o outro, o alcatrão tão igual, talvez que sempre o mesmo, talvez os pés numa passadeira de alcatrão. E o riso do filho no ginásio, correndo na passadeira, não és capaz. O filho a desafiar-lhe o torpor, cobrindo-se de suor jovem, o corpo a ganhar brilho, não és capaz mãe, não consegues.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Número Zero


Às sextas, é sabido e consagrado, bebo um café com leite para lá de double, no intuito de me ajudar as horas de expediente caseiro. E resulta. Acontece que, mal o engulo, me invade intensa vontade de escrever. Logo no dia e nas horas em que não posso. Azar. Acode-me ao pensamento o parente de Mafalda Veiga a confidenciar-me (éramos muitos), assim como quem não quer a coisa mas está seguro de possuir matéria de interesse público, sabe quantas bicas ela toma para compor. E depois, perante o meu ar esparvecido pelo insólito,- falávamos de assunto assaz diferente e, inda bem não, por dá cá aquela palha, esparveço – rematou em triunfo, a bater o ás sobre a mesa, nove. Convenhamos, nove é um bom número de cafés, dava cabo de mim ao primeiro ensaio. E todas as sextas acredito na Mafalda Veiga que ainda canta com a mesma qualidade, benza-a Deus, e nem parece sofrer de fígado ou assim, até julgo que as bicas a conservem, está quase quase na mesma, se as imagens da TV não mentem. E no entanto, três bicas bem tiradas davam-me cabo do canastro e provavelmente do cadastro, o amor universal que me invade à primeira, multiplicado por três, era capaz de se tornar perigoso. E portanto está à vista, hoje arrisquei escrever com prejuízo da lida e mais das visitas de caridade pública e privada que me ocupam as tardes de sexta. É assim, uns compõem; outros dispõem.
Mas eu vinha era falar da crónica de Lobo Antunes na Visão desta semana. Tão terna. Ele lá tem a sua maneira de escrever e de contar como lhe chega a escrita dos livros – a das crónicas é coisa leve e desimportante que decerto não conta senão para mealheiro – e sempre me maravilha com as expressões que usa: por serem corriqueiras e logo ficarem reforçadas, que escrevê-las é instruí-las de valor; e porque, parece-me às vezes que me copia a forma do pensamento, diz por exemplo, “o formato da cara de minha avó em muito mais bonito” e fico logo toda contente. As crónicas são o seu sorriso povoado, um imenso e benéfico sorriso de amizade e amor indiscriminado a nós todos. Ali se encontram os seus amores mais altos, as pequenas coisas que valem, os medos mais atrozes disfarçados de pormenores risíveis e comezinhos, a presença-ausência dos mortos a espreitar-lhe no ombro, velando o redondo da letra (é menino de letra redondinha, sim). São falsamente restritas, expandem, expandem, expandem. São todos nós nele. É isso.
E portanto. Eu que pensava começar hoje outra história de mulheres. Que não é de violência sobre, mas é de violência, por ser o que sempre vejo com estes que a terra há-de comer. As mortes brutais arrasam-me, destroem-me a crença no género humano, abusam da minha boa vontade e fecham-me ao perdão. Mas é o feminino comum  que me instiga e vai moendo. O que quase não se vê, a crispação breve, a resignação que tanto choca o ramalhete de feministas emancipadas.
E foi isto. Por via de um café satisfeito e uma crónica ternurenta de olho azul, lusitana até ao osso e fantasiada de alemã. Coisas.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Um Deus Benevolente


À tarde, o meu vagar na estrada. Guio a observar a vida que retoma movimento casa a casa. Aqui, uma mulher que tira a roupa da corda; ali, o dono de duas cabras a tocá-las ao curral; além, um casal que retira as compras e os filhos do automóvel. Há casas mudas desde cedo, esperando ruídos e riso de crianças, o barulho de portas a abrir e fechar enquanto correm umas atrás das outras, o início de cheiros culinários, refogados, sopas, fritos. E a extravasar, a alegria sem freio dos cães. Na descida, a tarde encandeia em despedidas de luz, um cão vadio desce pela berma a passo e, do outro lado, numa pasteleira velha, uma mulher avança metro a metro, pedais esforçados e lentos, respiração arfante, gotículas de suor em formação. Lá à frente, o nosso cavalo dorme  meio escondido em sombras e deixou de ser nosso. Pelos casais, os homens fecham gado e criação. Dentro de uma hora a estrada deserta, cozinhas num salssifré, gritos, vozes disto e daquilo a forrar as casas fazendo-as quentes.  Desfaço a curva e a casa olha-me branca e fria como a neve da balada. Mudou-se em habitação dormitório. Na soleira, uma frieza desabitada e penumbrosa desconvida. Avanço. Abro uma janela ou outra e é quase noite. Em busca de silêncio absoluto, retiro o aparelho auditivo a que dizias, debaixo do cabelo, nem se nota. Ora mãe, pois claro que não se nota. Nota-se na voz, a voz que me custou aprender e não tem a tonalidade da outra gente. Na infância, mal dizia umas palavras, desfaziam-se em elogios, muito bem, muito bem; o Nuno sempre a obrigar-me a treinar; a professora a insistir, se te esforçares, falas como toda a gente. E certo dia em que depois da bica fui à casa de banho, o proprietário a gritar lá do fundo para a empregada, olha lá, a cana rachada já pagou? A empregada de bandeja na mão e aos mitetes para lhe indicar que eu ainda ali estava. Vexada, fiz de conta que não ouvira. E ele por certo convencido, ela também é surda não é. E é surda sim senhor, mas ensinaram-na a ouvir e a falar, devia ter tido mais cuidado. E depois disso habituei-me ainda mais a deixar a voz em repouso. Tornei-me sem conversa. Que não é só o do café, é toda a gente, virou alcunha. Ninguém me pergunta nome. Em presença, menina. Ganhei rugas e cabelos brancos e todos, menina. Menina para sempre. Mas, se acaso falam de mim, me lembram por qualquer razão, logo atiram o postiço, a cana rachada. Tu, filha. Se te zangavas, sua panhonha. Só o Nuno e a professora, Sílvia. Sílvia é o nome que descolou de mim, tem música que já não há. Quando a morte me chegue e um vizinho me descubra o corpo passados dias, dirão, morreu a cana rachada. E durante o ofício religioso, olha, chamava-se Sílvia, nem tinha um nome feio.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Tolentino


Desejo que estejas bem de saúde e digo isto porque começo a compreender - na carne e no osso – o início das missivas de minhas avós e tias velhas. A saúde é bem inestimável a que, enquanto corremos aqui e ali, não nos ocorre ser gratos. Não é ingratidão, há tanto em que pensar que, sobre aquilo que desliza sem atrito, não se pensa. Mas sabes, gripes e reumáticos andam a apoquentar os velhos. Descansa, não és velho, já me calo.
Os teus paroquianos por lá andam muito atentos às palestras e embrulhados em casacos de monta. Ontem, o frio desviou alguns. Mas ainda ficaram muitos, descansa.
Pois olha, Tolentino, não é muito agradável de dizer, mas não me seduziu a exposição sobre a encíclica do Senhor Papa. Toda a gente a achou extraordinária. Toda a gente, but me. Mas já no ano passado reparei nesse extraordinário comum, facto que decerto conheces e suponho ter aquela razão máxima de os convidados ali estarem graciosamente. Tens razão, é um critério como qualquer outro, porque é mesmo uma extraordinária disponibilidade.
Ora depois de ler a encíclica Laudato Si’, que sistematiza os grandes problemas do nosso pequeno e único mundo e nos aponta como grande causa dos males e única possibilidade de salvaguarda da mãe natureza e de nós mesmos; para além da revolta ao verificar, mais uma vez, onde nos conduz a burrice que detemos e por vezes ostentamos como se de coisa boa se trate; e da forte convicção de que o poder cega. Depois de lê-la, digo-te que fiquei contente porque a Igreja, na tua pessoa, pensa sobre o mundo que existe. Mas, à parte a roupagem teológica, nada no dito é novo sob o sol. Ok, tens razão, não era para ser novidade. E nem a encíclica – que é de 2015 - parece ter dado origem à necessária viragem nas atitudes. Nenhum dos grandes problemas que aponta foi ou está a ser resolvido (se está, peço desculpa da minha ignorância). E as respostas da Igreja à segunda carta encíclica do Papa Francisco foram e são coisas tão pequenas e pontuais que me aborrece apontar-tas, me aborreceu que mas apontassem, e decerto as conheces melhor que eu.
Fazer depender um problema desta dimensão de boas vontades individuais e envolvimentos particulares não é solução. E parece que tudo navega nas mesmas águas, incluindo o que ouvi. Pareceu-me o mesmo timbre, a igreja não se levantou em peso para executar o que propuseste: palavras muito certas e algumas genuínas e casuísticas boas vontades.
 Continuamos a marchar alegremente para o abismo. Porque, como disse alguém, tem que haver vontade política, coisa que as sucessivas cimeiras desmentem e na tua capela soou muito abafado, ninguém lhe pegou à séria. É que estamos desabitados de políticos, Tolentino. Há a sede de poder e a excelsa economia, divindades de substituição que criaram raiz. Sem amor, não compassivas. Deixam-nos sem futuro.
E no entanto, estou com Francisco, todos juntos – nós, a imensa parede dos descontentes – éramos capazes de conseguir. É verdade, eu disse, “éramos”.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Um Deus Benevolente


           Uma pessoa prende-se a tudo, às pessoas, às coisas, às estações do ano e até à rotina. Ou, como eu, a uma estrada de pouco trânsito, incensada de natureza. A nossa casa, que remodelei a gosto com a tua aprovação, “fica melhor assim, sim senhor”, fez as tuas delícias, mas eu continuei presa ao caminho. Desabituada de conforto, toda te envaidecias no estampado dos sofás, na maciez de colchões, no estofo das cadeiras de braços onde te nasciam rendas e bordados a que não dei uso  e que repassam tristuras no fundo do móvel a que chamaste a arca do enxoval. E persististe nessa ideia de anualmente o acrescentares. No verão, arejavas as peças uma a uma, esmiuçavas bolores e manchas, lavavas, engomavas. E guardavas tudo de novo. Para quê, se nem um homem se acercou ou me propositou na sua vida. Nenhum com promessas. Que,  mesmo vãs, lhes seria grata. Não é verdade que não se acerquem, o que mais há todos os dias escritório adentro, são homens. E não posso esquecer o garoto com quem trabalho, pernas de metro e meio e muito espaço para si. Mas assim um braço nos meus ombros, o seu calor brando a misturar na minha carne, a satisfação daquele formigueiro de beijos e abraços, ou a febre de sexo partilhado como ora nos filmes, não tive não senhor. Só o senhor Almiro foi capaz de me fazer pensar em patos e membranas interdigitais, calcula. Foi isso que chorei quando se reformou. E tu, coitado, estava na sua hora de descansar, deixa-te mas é de choradeiras, logo te chega outro para ajudar na escrita. Tu que, “estamos tão bem assim”, afugentando com uma frase possíveis adversários.
E contar-te hoje já não tem diferença, que nem sequer sei se me escutas. Nesse mundo que possa haver, não vai ser isto que te incomode. Num dia de chuva e cinza, escritório e rua desertos, o senhor Almiro pousou os papeis na minha mesa como tantas vezes fazia e, de surpresa, tomou-me uma mão do teclado, creio bem que a esquerda que era a que estava mais a jeito. Menina...e o indicador vagaroso perdeu-se a percorrer-me o espaço entre os dedos, eu surpresa e alvorotada, alguma coisa a acordar-me para uma ânsia calorosa de membranas interdigitais, um agudo desejo de ser pato e deter uma longitude de pele membranosa onde ele espraiasse o vagar dos dedos que me apetecia eterno. O que a gente tem no corpo e nem sabe que tem, santo Deus. E logo a seguir ele a afastar-se, desculpe, não volta a suceder. E é que não voltou mesmo que se reformou e me desapareceu da vista sem mais. Ouvi dizer que foi para a terra com a mulher. Andará por lá a passear o indicador nos interstícios dos dedos dela. Ou, o que, confesso, aceito melhor e mais me agrada, pensa ainda na minha mão esquerda e no espaço rente ao pulso onde os dedos se demoraram em palavras de silêncio que me parecia que eram por mim e morriam de me acordar. E olha, não puxei a mão, não o enxotei como seria teu desejo. Fiquei como estava, virada à fúria das gotas na vidraça embaciada e terei enrubescido qual noiva púdica, que um calor inaudito me abrasava o rosto. Pareceu-me que ele, sempre tão profissional e delicado, vivia um repente completo, sem mácula. Ora, um apelo originário é intocável.