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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Luz Que Alumia

 

        A memória é preciosa aliada de que pouco entendemos, quais formigas afanosas, passeamos-lhe a superfície no desejo contínuo de que nos não abandone. Atribuimos-lhe falhas de que ignoramos a proveniência, questionamos gestos e manias que se tornaram hábito, ou eventualidades que não imaginávamos guardadas e, a dado momento, nos relampejam fulgurantes.

        Hoje, agora mesmo quase, enquanto mastigava solenemente o pão – sou solone qb ao pequeno almoço -, pararam-se-me os gestos na lembrança do meu décimo oitavo aniversário. Costumo lembrá-lo sempre que alguém faz dezoito anos, hoje marca de maioridade. E desejo contínua e sinceramente que seja um ano melhor do que esse meu já tão longínquo. Mas os anos dão patine e tingem o acontecer, razão porque me aparece o despontar dos dezoito a outra luz.

        Alguém me disse que nos romances existe o que se chama “o ponto de viragem”, momento de mudança na sequência da história, motivado pela introdução de novo factor. Os dezoito anos trouxeram-me vários novos factores e as subsequentes alterações. Terá sido um dos meus pontos de viragem. Pondero que levei da melhor forma toda a transformação a que, então, me vi sujeita. Sem mérito pessoal, era jovem e a juventude comporta um optimismo raro que talvez entronque no facto do presente agigantar e o futuro ser em grande parte um possível que sujeito e vida podem alterar e logo, a premência não está a uso; e sofrer por antecipação também não é vulgar.

        Lembro-me do hospital e de as visitas me olharem através de um vidro. Nesse dia recebi exactamente quarenta postais ilustrados de gente da minha terra a felicitar-me. Foi uma das surpresas mais bonitas que já tive. Todos os amigos, familiares e jovens me enviaram um postal. Mesmo aquelas garotas que pouco conhecia. Mesmo os rapazes que agora só via de longe e com quem nem falava porque na minha terra as conversas mistas eram sinal de namoro. E talvez por tal motivo, o facto de me terem escrito, a maioria ainda com a letrinha da primária que eu tão bem conhecia, comoveu-me. Como é que nunca mais me lembrei disto?! Como é que esqueci aquele garoto que foi meu parceiro, que comprou para mim um postalinho e se suicidou após a morte da única filha também ela com dezoito; como é que não vi num desses postais o amor escondido sob a amizade de infância e como é que tantos anos mais tarde voltei a incorrer no mesmo erro?! O certo é que ainda hoje não sei de quem partiu ideia tão bonita e tenho até vergonha de tê-la esquecido por anos e anos.

        E depois houve a surpresa da visita (ao vidro) de minha irmã e prima, as duas com onze anos, vindas de cascos de rolha até ao hospital do distrito. E houve um postal surpresa de alguém que visitava uma colega e, talvez sem o saber, me fez presa de ciúme que não me recordo de ter merecido.

        A coroar o dia, mas não por esta ordem, que na verdade foi a primeira surpresa, o hospital ofereceu-me o melhor bolo de todos os aniversários, por certo feito na Violeta que inda hoje comanda a qualidade em pastelaria.

        O que devo aos muitos anónimos que a vida pôs no meu caminho e assim deixaram de sê-lo, pede-me que vá em frente. Sempre em frente. Para lugar nenhum.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

O Sustentado Peso da Memória

  Ninguém consegue explicar a razão de o pensamento ir buscar pessoas que não fazem parte do quotidiano, com quem, adormecidos, nunca sonhamos e que a súbita memória desembrulha de anos e nos apresenta a sós. Não sabemos se por recreio particular, se apenas um seu fait divers, um "ora vamos ver o que acontece".  E a consciência dá por si a reconhecer um rosto, um corpo, os gestos precisos, o sorriso, o olhar. E outros pormenores. 

Há uma eternidade vivemos ambas numa instituição religiosa. Ainda hoje não compreendi a razão por que caiu num convento (ex-convento) do Alentejo, vinda da Afurada, zona que desconheço.  Soube por ela e pelos autocarros que vi passar tantos anos volvidos, ser lugar perto do Porto.  Provavelmente também pelo endereço de extensas missivas trocadas. Ignoro qual de nós quebrou a cadeia de correspondência iniciada quando a vida nos retirou do Alentejo e nos lançou aos acasos em que é fértil. A sua lembrança alegra-me e também me penaliza: esqueci o apelido, tem um dos nomes mais vulgares em Portugal e, oficialmente, não constou da instituição hoje extinta, as directoras já outra coisa, que a morte  nos muda nesse desinteresse de ser coisa quando antes fomos pessoa. Penso mais nela à medida que envelheço. Na minha mente continua jovem, uma inteira mulher do norte em corpo e voz, mas de alma não condizente. Braços compridos e desenvoltos, corpo de varina despachada, o traseiro a avultar.  Nada faria adivinhar naquela mulheraça a gentileza para com os outros e o amoroso desvelo que me dedicou. Tenho presente que me ofereceu, verbalizada, a sua amizade sem reservas. Que insistiu, nem sei porquê; eu, toda entornada em drama existencial, não estava para aí virada. Não se rendeu. Borboleteava em meu redor pretendendo ser útil, a adivinhar-me vontades que não tinha. Oferecia-se para isto e mais aquilo. Talvez não soubesse da abulia em que me deixava ir. Ou, melhor que eu, a via ela. Lembro-a a baixar-se e atar-me os sapatos que eu não conseguira abotoar, a buscar uma caneta, a endireitar-me os livros na cabeceira, a lavar-me a roupa íntima, a espreitar-me da porta uma vez e outra, a sua cabeça toda caracóis e sorriso na nesga entreaberta. Por vezes contrariava ordens e entrava a avaliar-me a febre, mão na testa. Punha-me o termómetro e saía num valha-me Deus que trazia as freiras num corrupio e remédios e o que fosse. Nesses momentos, a preocupação franzia-lhe os lábios em biquinho e escondia o dente que tinha sobreposto e lhe personalizava o sorriso.

  Não sei explicar como, mas houve um  dia em que se fez luz: entendi que éramos amigas, tínhamos dado o salto (eu dera o salto), morava em cada uma a amizade da outra. Foi tempo de singularidades e confidências. Ela fazia-me resumos de vida de que eu pouco retirava. Pedindo que contasse mais, encolhia os ombros, olhava-me sorrindo e puxava pelos meus assuntos: conta lá outra vez  como são as laranjeiras carregadas, gostava de as ver. Ou, mostra-me  o retrato do teu irmão. Coisas assim. Nunca lhe ouvi uma queixa de saudade - só visitava os seus nas férias do Natal. Contudo, amiúde, a tristeza fazia casa no seu olhar. Não sabendo como agir, eu respeitava esses silêncios que hoje penso destilarem amargura e desilusão. Sentia que alguma coisa nela se ausentava, talvez as certezas.

E perdi-a. Dei-me ao desplante de perdê-la. Será por isso que a memória, em ocasiões muitas, pimba(!), a faz presente. Aprecio essas visitas tão incompreensíveis quanto a amizade que, sem motivo, a garota me dedicou.


domingo, 21 de janeiro de 2024

Olívia

 

Corremos por dentro do tempo e rápido nos chega o fim. Talvez já nem existas. Não sei mesmo se a morte te aconteceu. Não uma morte comum, das que se apresentam como portas fechadas a impelir-nos ao caminho. Falo da tua morte física. Sempre me pareceste desvivida e sem ousadia. Hoje hesito grandemente no particípio. Exerci a força de que fui capaz para te despertar do que eu supunha  letargia, queria mover-te. Fora de igrejas e catequeses; fora de primas benquistas e vorazes; fora de um sistema que te prometia nada e tu abraçaste ou te abraçou. Ou ambos. Talvez eu tenha, finalmente, crescido. Ou envelhecido. Nunca eu te pensei como se fosse tu. Nunca. Usei a conhecida bengala: não se pode ser o outro porque o outro é um outro eu - afirmação que tem tanto de semelhança como de diferença; uma desculpa para não me pôr no teu lugar. Se tal acontecera, logo saberia que não poderias ser diferente.  Foste ou ainda és feita de mil pedaços incógnitos; estás, talvez, nos meus antípodas. Que parvoíce a minha pretender a mudança vendo-te uma vez por ano. Que loucura ter olvidado que não se foge a quem se é. As minhas sugestões eram como água escorrendo entre os teus dedos. Um dia alguém me disse, “ fica a frescura”. Mas nem sei se houve frescura, não sei se desejavas que voltasse; se não fui, em cada encontro, o empecilho que rodeaste como sabias; se, ao partir, não deixava em ti um alívio. É verdade que nunca me convidaste e chegaste a recusar dias em que me propunha visitar-te. Motivos tão fúteis! Mas olha, mesmo assim não cheguei lá.  Tu não querias ver-me, era eu a intrometida, sempre eu a convidar-me e a mostrar um mundo bonito, sem queixas e pesares, onde as pequenas novidades tinham lugar. Um mundo que ignoravas e talvez acreditasses, quem sabe se não fazias como as crianças nas histórias:  intuem que é um mundo a fingir, mas afligem-se na mesma, choram ou riem consoante o assunto.

E é como te digo, envelheci:  ver o passado com os olhos de hoje dá-nos nova dimensão. Não me parece que seja sabedoria.  Raro respondeste às minhas missivas compridas. E, porque não te esquecia no Natal, ligavas a agradecer. Ao invés do que afirmavas ao telefone, era um bem parecer; decidi não escrever mais e esvaneceste.

Ou preferias evitar-me para impedir desconcertos e dúvidas sobre ti mesma. Para não te arrependeres do caminho. É uma hipótese.

Sem serventia, penso em ti com frequência. E tenho entre as páginas de um livro o último cartão de natal que não enviei. Já tem anos, mas continua a fazer-me pensar.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Cristais

 

Creio que me retiraram do anonimato onde dorme grande parte dos professores que todos tivemos. No meu mundo particular são duas estrelinhas. Uma convidou-me para o casamento; a gordinha sorridente não fez convites, casou brevemente e a sós com quem é hoje marido. Admiro-a. É batalhadora e pacífica em alguns momentos, mas sabe fazer valer os seus direitos. Tem um filho universitário que vi crescer, lembro-o bebé numa alcofa e logo, logo, a gatinhar na manta que abri na sala para ele. É um bom aluno, orgulho dos pais e meu. Sinto - e já lho disse - que é quase como se fora minha filha: conheço-lhe problemas e alegrias, e vou acompanhando com mais escuta e assentimento que palavras. O cancro levou-lhe a única irmã, o pai também ainda há pouco se foi, a mãe é pessoa difícil e sozinha. A minha menina, é assim que a penso, já se submeteu a duas cirurgias, está à beira da terceira e não vai ser fácil, tem problemas sérios. De tempos a tempos conversa comigo, mas raro aborda saúde e doença próprias, sou eu quem pergunta e pede resposta. Um dia destes foi abaixo e entrou pela psicologia dentro. Deram-lhe baixa e ficou em casa, facto que não comoveu a mãe, nem a convenceu a ela. Melhorou, regressou ao emprego e afirma convicta que não se dá com psicólogos. Os três são uma família a sério. A santíssima trindade vem sempre almoçar comigo em vésperas de Natal - escolhem o dia livre do pai e avisam antes. São horas que apreciamos longamente. Eles gostam de conversar e sempre lhes apetece tudo o que almoçam. O meu prazer a vê-los comer é genuíno e um pouco vaidoso. Depois e durante, lembram o tempo - diferente - em que ambos foram meus alunos. Trazem notícias da amiga (continuam unha e carne) e de antigos colegas que encontram ao sabor do acaso. Mas a essência, a infinita glória, é a certeza que temos uma na outra. Há verdades assim, cristalinas.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Cristais

 

É uma miúda gordinha. Olhando-a, supõe-se que o tenha sido desde sempre. Aluna mediana, por vontade própria não foi além do 11º ano. Nunca chumbou/ficou retida. Conheci-a quando frequentava o 11º ano. Era uma falsa dócil, sorridente e determinada. Tinha uma amiga do peito que se mantém e que acompanhou nas aventuras do teatro, ainda que se autoexcluísse desde o início. Viviam ambas longe, mas chegavam à cidade no mesmo autocarro, uma guardando lugar à outra, como era hábito de todos os garotos que nele viajavam. Nunca ouvi queixas dos que se levantavam às cinco, seis e sete da manhã e a maioria dos professores ignorava o facto, poucos liam o verso da folha da caderneta de turma. Não é uma crítica. Ou é.  Assumo a pertença ao grupo de leitores preguiçosos. Mas o teatro traz um conhecimento outro a todos os participantes. O modo como nos conhecíamos num projecto criado desde a raiz, que brotava com o tema, seguia para a situação e logo para as palavras com que a queríamos dizer. Líamos em conjunto e era um entusiasmo passar aos que depois se aventuravam a decorá-las assumindo-as como suas, enquanto alguns ficavam a olhar e opinar sobre isto e aquilo. Tudo extra-aula. Ela, a gordinha simpática, esteve sempre lá. Chegavam cedíssimo à escola e partiam tarde; os autocarros camarários tinham muito a fazer e o horário era o que era. Mas foram sempre esses alunos quem mais participou em actividades voluntárias e extra-aula; eram os mais respeitosos; porém, em quase todos germinava a determinação que os da cidade não tinham. Se convictos, afrontavam a própria direcção da escola. Faziam cenários em hora aprazada dos fins de semana, o papel estendido no chão da minha sala vazia e os dotados a mostrarem o que valiam; ou ensaiavam a peça que a semana, de turmas, horários e anos diferenciados não permitia. Durante a semana fazíamos ensaios por fracção, de acordo com a disponibilidade escolar e de explicações. Mas aquelas duas garotas davam um jeito. Convenciam os mais renitentes e ajudavam no que podiam.

Uma vez, talvez por um ensaio, talvez por qualquer outra ajuda, acabei a dar-lhes almoço. Azar! Nesse dia não tinha nada em casa e julgo que nos limitámos a fritar batatas e estrelar ovos, ou coisa semelhante. Mas combinámos sei lá quê enquanto almoçávamos. Adiantámos. Eram tão entusiastas que repetidamente me deram empurrões mentais e nem eu desconfiava das conversas que tinham tido na direcção, nem quanto as negativas que recebiam se transformavam em força radical. Só há uns dois ou três anos a minha gordinha querida se descoseu. Combinaram não me contar e cumpriram. Fiquei a admirá-las ainda mais. Não esqueço que a minha gordinha sorridente, para ficar a ajudar, abdicava do transporte e pernoitava em casa da amiga. Radiantes ambas, contando sobre os ses dos progenitores e a perspectiva de uma noite inteira para elas.

(cont.)

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

                 Minha mãe quis saber o que me passara pela cabeça para fazer tal avaria. Respondi contristada com a obra, pensava que vocês iam gostar; e depois a franja nunca mais ficava certa e fui cortando para acertar, de um lado, do outro, até que desisti porque já se via a testa quase toda.  A mãe zangou-se um bocadão e explicou-me por que não devia repetir a façanha. Tive de pedir desculpa. Cabisbaixa e arrependida do mal feito, lá fui. Desculpas aceites, ela sorriu e animou, deixa, logo cresce, não fiques triste. E avisou, não voltes a experimentar.

Hoje, eu e a garotinha da franja assassinada, somos boas amigas e também de muitos anos. E a amizade que tinha pela minha amiga mais velha não esmoreceu. Se passo em sua casa só para a ver e saber de como leva as maleitas da idade, logo me enche de presentes. Sabendo do meu gosto, guarda-me os dióspiros, dispõe-me flores em vaso e dá-mas já floridas, oferece-me anualmente os marmelos para a marmelada caseira. É um coração de ouro a que não sei como agradecer. Toca-me o seu desvelo, porque envelhecemos feitos criança que precisa de ternura e sou profundamente grata aos seus gestos protectores.

As filhas são umas sortudas.  Mas ela também. A mais velha emigrou há muito ano para o Reino Unido; por lá casou e gerou descendência. A dada altura, teve cancro. A mãe, mal soube, não perguntou nada, não foi ouvir este ou aquele que já tinha voado. Arranjou-se e foi para o aeroporto, comprou um bilhete e meteu-se num avião pela primeira vez. Não sabia uma palavra de inglês, desconhecia aeroportos e de bilhetes de avião. Mas chegou lá. E só voltou quando a filha restabeleceu da cirurgia. O amor maternal pode muito. Mas o amor dela era desesperado; tinha o desespero da lonjura e da doença, o desespero da filha sozinha num país diferente. Nada a impediria de ir. Em contrapartida, certa vez em que a filha me mostrava as peónias do quintal (era um ramo lindo), reparei que a jarra de peónias estava sobre uma mesinha e acompanhava uma foto de bom tamanho: a mãe jovem, sorrindo eterna na moldura. Uma rapariga graciosa, igual à que existe na minha memória e talvez ela nem tenha conhecido.

Que beleza e sorte temos, se nos é dado deparar com gestos de amor profundo.

                                                                FIM

 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

Mau grado os avisos de minha mãe “tens de bater à porta, a casa não é tua”, continuava a entrar como um pé de vento, sem bater, puxando o atilho ligado ao trinco. Por tal desmando, observei pela primeira vez um homem nu. A surpresa atrapalhada de quem se banhava na cozinha e quedou de olhos arregalados, deu-me asas para a volta. Minha mãe numa estranheza, “não estavam em casa?”. E eu aldrabando - a verdade chamava a zanga materna -, tinham o postigo fechado, não devem estar em casa. E sentei-me a pensar em tamanha atrapalhação a que não via causa e a constatar mentalmente quanto aquele apêndice de nada crescia nos homens. Fiquei bastante contente por ser diferente deles.

Certo é que aprendi de uma vez a bater antes de franquear a porta. Para o que também serviu a minha vizinha, no seu meio sorriso habitual, ter contado a verdade a minha mãe.  

Entretanto, os nossos pais compraram terrenos contíguos e bravios que desmatavam aos fins de semana. Meus pais arrancavam e eu carregava estevas,  mato e demais arbustos para um montão a que pegavam fogo e vigiavam; muita vez me deixaram por casa com a mana e chegavam já a lua subia no céu. Ao tanque da roupa, em tarde de sábado ou nos domingos, ouvia-lhes os projectos – as duas sonhando abrir um poço e ter um laranjal erguido a pulso, um tanque de rega perto da casa a haver. Era um sonho bonito, esperança futura tecida com fadiga e sons de enxada.  Eu sonhava distinto. Por esse tempo, escrevia ingénuas cartas a Salazar pedindo uma bolsa de estudo – ainda que não soubesse o que era, repetiam-me a condicionante: se queria estudar, havia que tê-la. Fez-se definitiva a evidência - habitávamos mundos distintos. A minha amiga transitara para o planeta de minha mãe e eu vagava num limbo, poeira cósmica ainda sem lugar. Aquela que eu encontrara desde sempre, existia num fundo muito fundo; casamento, maternidade e problemas de mulher casada tinham-me posto entre parêntesis.

       Numa tarde em que ficara de vigia às duas garotas, daí a um nadinha de chegarem cansados e suados "da fazenda", horas extraordinárias depois de um dia de trabalho, a minha amiga entrou com a filha pela mão e logo o meu lugar um foco; podendo, eu desaparecia. Meio a rir para minha mãe, ela pediu: olha bem a minha filha, não lhe notas nada? E nem um soslaio para o lado onde eu minguava quanto podia. Enquanto minha mãe esquadrinhava o rosto da criança, enchi-me de apetites de invisibilidade, de haver uma magia de história encantada que me fizesse desaparecer. Mas o tempo desapiedado e a encolher ombros, seguia a passo de caracol. Não houve milagre nem varinha de condão, só a voz de minha mãe: é a franja. Ai coitadinha da menina, quem é que lhe fez isto? E foi quando ela, meio desencantada, desatou o saco,  foi a tua Bea – aí olhou para mim –; cheguei a casa e disse ao marido, tu não achas a menina esquisita hoje? E ficámos os dois a atentar nela; quando descobrimos, perguntei e ela anunciou que a Bea a cortou porque o cabelo já lhe entrava nos olhos; mas já viste bem este trabalho, deixou-ma quase sem franja. Agarrou a mão da filha e saiu.

domingo, 19 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

                 Os bebés devem ter chegado na ordem certa e não tenho memória de sofrer de ciumeira por ter em casa uma irmã que os vizinhos espreitavam.  Passados meses, chegou a vez da minha vizinha e eu, tal como eles, corri a ver a criança. Sabia ser uma menina e verifiquei que a minha amiga estava contente e "babosa" com a criatura, mas cheia de mil cuidados levou-me até ela. Mirei e remirei a bebé e não encontrei causa para tanto interesse. Era uma carequinha de penugem loira e olhos claros que, na minha vaidade e orgulhoso entendimento, tinha menos graça que a morenita de olho e cabelo negro que me sorria no berço lá de casa. Entretanto, o lar da minha amiga sofrera enorme reviravolta. Não me parecia a mesma casa de tudo no lugar certo, folhos abertos a golpe de ferro de brasas e mobília de brilhos. Além disso, as duas mães levavam o tempo a puxar da mama ou no tanque lavando fraldas. Durante a lavagem, conversavam sobre leite materno e davam-se receitas para o aumentarem, assunto que, de tão incompreensível, me desinteressava. Recordo que mastigavam bacalhau cru e bebiam muita água por via de ser salgado. Por certo, o "fiel amigo" era a receita caseira menos dispendiosa. O maior dano, sofri-o em casa da minha amiga. Havia fraldas por todo o lado e todas as cadeiras estavam ocupadas com artigos da rainha do lar; tempo para mim era sonho puro: a bebé chorava bastante e o rosto da mãe afiançava noites mal dormidas. Em tal ambiente, fomo-nos distanciando. No final do verão, entrei para a escola e apeguei-me à professora com a força de raiz aprumada. A mestra, dama paciente e voz doce, maravilhava-nos por ter marido. Era um senhor jovem e de gravata, que nos surgia ao volante de um carro preto. Espreitávamos ao descaro a despedida dos dois. Não tínhamos tv, não conhecíamos cinema, os nossos pais não se beijavam assim e nem de outro modo. Descobrir o beijo na boca foi uma das grandes novidades que a professora nos trouxe. Foram aqueles dois seres amoráveis e amorosos, os nossos actores particulares. Era um simples tocar de lábios muito terno e cheiinho de contempladores - o senhor já sorria ligeiramente antes do beijo. A novidade foi rastilho universal, assistíamos encantados à anomalia prazenteira que cumpriam religiosamente. Muitos anos depois, soube que eram recém-casados.  

Quando a minha amiga recuperou de ser mãe e retomou o trabalho no campo, já às nossas vidas faltava a proximidade que eu cultivara com desvelo. Não sei o destino da máquina de bordar, mas a filha dela não teve bibes com a história da carochinha bordada em despiques de agulha e agruras de pano. Entretanto, as duas garotas cresciam: aprenderam a falar e a andar e era frequente brincarem juntas. Por vezes, tomava conta delas um bocadinho e logo me fartava, tal a atenção que exigiam; a filha da minha amiga era birrenta e, se chorava, abria um túnel de berraria e língua em concha, deduzindo eu ser sinal de mázura. E ficava grata por minha irmãzita ser menos expansiva nas suas cóleras: de tão mansas, e por comparação com a guincharia irada da outra, mais pareciam rastos de queixume.


domingo, 12 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

A vida corria devagar, eu saltitando entre a minha casa e a dela. Não senti muita saudade do tio que me sentava nos joelhos e que construíra casa e se mudara cedendo o espaço à filha. E o novo lar era-me muito mais agradável. Podia, por exemplo, mirar-me no tampo espelhado da mesa. E nas janelas havia cortinas de florinhas em tons de claridade; enfim, sendo a mesma casa, parecia-me outra e, mal ela chegava do trabalho, escapava-me até lá. Tinha perdido o companheiro das torradas, mas encontrara onde espraiar a minha vaidade e debruçava-me sobre a mesa, qual narciso.   

Ora o que caracteriza a novidade é surgir súbita e filar-nos pelo inesperado.   Foi assim que ela veio agitar-me as meninges: minha mãe, que engordava a olhos vistos, disse-me que ia ter um(a) mano(a). Os meus seis anos acreditavam que os bebés vinham de França no bico de uma cegonha – tinha-mo garantido o senhor farmacêutico, cara séria, bata branca e óculos de respeito; portanto, era por força verdade. O dito senhor, ouvira o meu perguntar sobre aquela cegonha bem à vista de todos, no interior da farmácia.   O animal – em relevo e de perfil - tinha suspensos no bico uma fralda com um bebé dentro; encontrava-se em posição de vôo, patas para trás e asa alçada. Devo dizer que, até à intervenção do farmacêutico, desconfiava bastante da cegonha da farmácia, o que me levava a perguntar e perguntar, preocupada com o facto de ela poder deixar cair a criança quando, por certo distraída, abrisse o bico.  Além disso, as cegonhas que eu conhecia, de certeza que não tinham força para transportar um bebé. Portanto, dúvidas sanadas, não estranhei minha mãe ter encomendado um bebé à cegonha (não que ela alguma vez mo tenha dito nesses termos). Enchi-a de perguntas até ao exagero sobre a lonjura de França, se a cegonha comia ou não comia no caminho, se dormia, onde depunha o bebé durante o sono, coisas destas. Hoje penso que, estranhamente, nunca perguntei como fizera a encomenda. Desde a conversa do farmacêutico, se acaso passava uma cegonha, eu olhava-lhe o bico e a parte inferior ainda assim não fosse uma das que traziam bebés. Não consegui ver nenhuma dessa qualidade. E, para minha alegria, daí a um mês ou dois, a minha amiga e vizinha, num dos dias em que me mirava no seu espelho de verdade (viva o luxo!), disse-me que também encomendara um bebé e a cegonha havia de trazê-lo daí a uns meses. O esquisito era que também ela engordava. Receios dobrados. Eram duas casas tão próximas, e se a cegonha se enganasse na encomenda?! Mas ambas me garantiram que a ave transportadora chegava em tempos diferentes e podia descansar, não havia hipótese de trocar os bebés. Quando minha mãe tinha um barrigão que se agitava ao toque e mesmo sem ele, compreendi que o farmacêutico era um mentiroso. A mãe afirmou que ele gostava de contar histórias, não era bem um mentiroso. Mas não me convenceu, um senhor tão senhor, bata, gravata de nó, óculos... e a mentir-me. Foi assim que soube/adivinhei que o bebé estava dentro dela e me contou que precisava ir para o hospital para o porem cá fora. Fui logo contar à minha amiga, não andasse ela a pensar na história da cegonha. Ela num sorriso, põe aqui a mão; senti a barriga dela a mexer de leve, havia um bebé lá dentro. Não pensei em como lá tinha ido parar. Esse esclarecimento veio-me de colegas de escola. Pareceu-me natural ainda que, dormindo no quarto de meus pais, não tivesse dado por nada. À infância interessa a resposta ao que foi perguntado; o resto é apenas curiosidade leve, passa sem mais.

(cont.)

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Senhora Minha

  Pouco me entretive a vê-la bordar e cedo aborreci aquele mundo: queria levantar a patilha da máquina quando não devia, ou pedia para ser eu a pôr o pé no pedal supondo - ó pobreza de espírito - que a máquina trabalhava sozinha e os pés ao pousar no pedal iniciavam o movimento. Por outro lado, desorientava-me tanto o frenesim da linha no carrinho que rodava continuamente, como a fria determinação da agulha que espetava no tecido esticado num implacável som de vingança. Saía para minha casa receando os malefícios da agulha e revendo a proximidade atenta das mãos dela que esticavam e ajeitavam o tecido junto à desalmada perfuradora. 

Talvez para ajudar no pagamento da máquina, cujo milagre se chamava prestações mensais, minha mãe decidiu  que me faria um bibe branco onde ela ia bordar a história da carochinha. Fiz um autêntico arraial. Não estava em mim de contente. Na altura, ela, muito paciente, mostrou-me a revista com os desenhos da história: lembro vagamente as antenas e sapatos da carochinha, as orelhas e bigodes de João Ratão, a igreja com uma cruz e as lágrimas saltitantes da carochinha-noiva, horrorizada perante o caldeirão aberto e fumarento. A história dava a volta completa ao bibe e dela constavam pormenores que o tempo levou.  Sobrou-me a vaidade de usá-lo e a confusão de ser tão rodado que parte do conto se perdia nos canudos do tecido. Relevo a sua arte no bordado e a boa e paciente recepção com que aturava as minhas repetidas inconveniências, ainda fizeste só isso?, hoje não fizeste nada, quando é que tu acabas. 

Entretanto, não sei como, ela arranjou um namorado. Eu não conhecia nenhum namorado e chaguei a paciência dela e de minha mãe sobre o espécime. Quando o rapaz tornou o caso mais sério e foi a sua casa, tive basta decepção, era um homem igualinho aos outros. Breve concluí que também eu precisava de encontrar um namorado. E já que tinha de ser um homem podia ser o rapaz que visitava outra vizinha e me pegava ao colo sorridente. A partir dessa altura a minha amiga crescida tinha um namorado; e eu outro. Nos domingos à tarde ela empapoilava: penteava-se com esmero, punha pó de arroz.  Eu surripiava-lhe o pente e dava um jeito na franja, já que ela nem me deixava tocar na caixinha do pó de arroz. E ficávamos as duas esperando os nossos namorados que não tardavam. Eu ia até à beira da estrada e gritava-lhe se o dela aparecia. Se o meu surgia primeiro, dizia a minha mãe, vem ali o meu namorado e desatava numa corrida, saltando o valado que separava os terrenos, a fim de chegar antes dele a casa da vizinha. Apesar da explicação que me chegou, e a que fiz orelhas moucas, fui proibida de incomodar a vizinha e de chamar namorado ao rapaz. Quanto ao namoro da minha amiga, a ordem era não me intrometer, minha mãe sabia zelar pela intimidade dos dois. 

         No que me pareceu pouco tempo, mas pode ter sido um ano ou dois, ela anunciou o casamento e convidou-me para "menina das alianças". Não fazia ideia do que fosse, mas achei extraordinário. Foi boda de pobre, caseira e sem esplendor. Mas a visão da minha amiga vestida de noiva foi uma das maravilhas da minha infância. Curiosamente, nada recordo do momento das alianças. Mas não esqueço - tenho uma foto  - que calcei luvas pela primeira vez e, na tal fotografia, tenho as mãos bem na minha frente, qual cãozinho amestrado que se põe de pé. 

(cont.)

domingo, 29 de outubro de 2023

Senhora Minha

             E já deu para entender que cresci um nadinha sob a sua asa. A primeira vez que dei pela sua ausência na casa paterna, fiz beicinho e acabei chorando o desgosto  no ombro de minha mãe. A falta sentida magoava-me o pensamento e nem consegui hipóteses que minorassem o desgosto. Com a doçura costumada, minha mãe deu fim aos soluços, vem à noitinha na carreira, foi aprender a bordar. Bordar - pensei - era serviço importante. E mais importante se tornou quando ela chegou num entusiasmo, podia fazer isto e aquilo com a máquina da costura que também bordava. Então enchi-a de curiosidade, és capaz de fazer uma folha? Ela assentia; e uma flor? E ela que sim;  e um burro? E ela dando fim ao estendal inquisidor: faço o que tu quiseres, mas primeiro tenho de aprender e comprar uma máquina daquelas. Comecei a desconfiar da aprendizagem.  Então, um dia inteiro longe de mim e ainda não sabia fazer nada?! Pareceu-me mal e fui para casa emburrada. Desinteressei-me dos bordados e só nos sábados e domingos voltávamos ao de antes.  Decerto num  desses dias conheci minimamente aquela a quem ela chamava "a minha patroa" ao que a mãe repontava, patroa, patroa! Não te paga um tostão, fazes o que ela manda, e ela é que arrecada; bela patroa, não haja dúvida. E ela, mas dança tão bem, mãe. Dança como nunca vi alguém dançar. E logo representei a senhora, muito vaporosa,  ensinando as aprendizes por entre passos de dança. Ora, não era bem assim. 

   Profissional de rua, vivia no hábito de dar conta de tudo. Portanto, fitei arregalada a minha vizinha que descera da camioneta da tarde. É claro que dobrei a esquina a todo o vapor. Fui dar com ela em casa, limpando os olhos ao lencinho de assoar e a fungar disfarçadamente. Perguntei porque chorava, e ela que só estava constipada e por isso tinha saído mais cedo. Não me convenceu e fui dar parte a minha mãe. Dessa vez foi a pressa materna a contornar a esquina, eu espreitando à porta e sem autorização de pôr o pé na rua. Afinal, soube por portas travessas - conversas adultas no tanque de lavar -,  a garota chorava "com a força dos nervos". A patroa e o subentendido patrão brigavam um com o outro a qualquer hora e por todo o motivo. Atiravam-se panelas e o que viesse à mão, chamavam-se todos os nomes feios que sabiam e acusavam-se mutuamente de terem amantes, coisa que nunca se apurou ser verdade para nenhuma das partes; diziam as más línguas que eram bastante desengraçados e ninguém os quereria. Parece que se entendiam e eram um, apenas dançando. E que esse lado belicista do matrimónio não era segredo para ninguém, excepto as aprendizes que vinham dos campos, ignorantes do imbróglio. Tal como brigavam e se odiavam com todas as forças no dia a dia, assim se acertavam nas noites de sábado e parte dos serões de domingo. Se ensejavam levantar-se, o mundo parava na Sociedade da terra. E, ainda mal pisavam a pista, já deslizavam leves como penas. Sei hoje que arrecadavam todos os prémios e eram famosos em qualquer modalidade, paso dobles, tangos, valsas, rumbas e etcetera: ao som da música, eram um só num só desejo: dançar.

           E eu, de birra, desertara dela; portanto, não vira o seu rostinho de chegar a casa senão no agrado de estreante; não soube sequer que calava o que via para não perturbar os progenitores. Para minha aflição, minha mãe demorou. Regressada, disse-me que precisava falar com os pais que ainda tinham pela frente mais umas horas de trabalho. E não adiantou. 

        Resultou de tudo isto que não voltou à mestra e algum tempo depois, como por milagre, a máquina de bordar apareceu em sua casa. 

(cont.)

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Senhora Minha

 Hoje sou sua amiga e da filha mais velha. Um dia, tomando chá as três, ela contou que me ouviu o primeiro choro (nasci em casa) e que sempre fui mimada por seus pais - foi a minha época de querubim; sobram-me nesgas em clarão, sóis fosforescendo na neblina dos anos. 

Lembrámos isto e aquilo e recordei-lhe o pai que bem cedo se foi desta vida. Gostava quase tanto dele como de meu avô. Conhecia-lhe a fadiga arrastada no regresso do trabalho. E ainda a silhueta lhe desaparecia na esquina e já eu, se minha mãe não me segurava, corria desarvorada até à sua porta traseira. Por vezes,  chegava-lhe à cozinha e ainda ele de enxada ao ombro e cesto da merenda na mão. Fazia-me sempre boa cara, e mais parecia que não nos víamos há séculos, o "Olha a Bea" enquanto eu lhe abraçava as pernas, era tão ou mais acolhedor que os beijos que não me dava. Pousava a cesta no seu canto e, quando ia deixar a enxada na barraca, já me carregava no colo. Depois, sentava-me à chaminé onde o jantar aprontava, deitava a mão ao saco da merenda e retirava as sobras do pão. Eu puxava um garfo da gaveta da banquinha, ele espetava-o no pão e fazia-lhe lugar junto às brasas.  Enquanto o pão ia torrando, perguntava, queres à rica ou à pobre? À rica, respondia com sorriso delambido. Ele sorria bonacheirão e barrava o pão torrado só de um lado. Empenhado na função, sublinhava  com pesar, escolheste mal outra vez, os ricos barram o pão só de um lado. E passava-me a torrada como que esquecido de mim, atiçava o lume com a tenás, ou levantava-se a esvaziar o saco do almoço e chegava mesmo a sair em busca de mais lenha. Depois, olhava de esguelha o meu desânimo - ainda estou por saber a razão deste desânimo diário, ele convencia-me sempre que daquela vez é que era a sério, teria de comer a torrada barrada só de um lado. Mas, face ao meu semblante triste e torrada intocada,  logo ele decidia, mas eu quero à pobre, vamos lá untá-la dos dois lados.  Depois do acepipe generosamente  completo, içava-me do banquinho pequeno e sentava-me numa das pernas - o banquito fora serventia dos filhos mas, com eles crescidos, não autorizava que saísse da chaminé,  é o banco da Bea. E ficávamos os dois a alternar bocadinhos de torrada que ele cortava a canivete. 

            Quando contei isto, subiu-nos uma saudade espessa, aquele homem morreu bem novo e houve lancinante padecer antes da misericordiosa morte. Então, sofri o primeiro nunca mais de um afecto. 

Ela recobrou do alheamento, sacudiu a tristeza e desfez o momento com outra história. Certa vez, era eu bebé, minha mãe tinha de sair e pediu-lhe que cuidasse de mim. E ela logo que sim, alvoroçada com a imitação de ama, orgulhosa da confiança. 

A princípio, tudo pacífico, eu sorria-lhe sossegada. Mas minha mãe demorou. E, ou por fome, ou por estar molhada, ou apenas por ter deixado de ver o rosto materno, desatei num berreiro sem fim. Ela abanou o berço, pegou-me no colo, ninou as canções que ouvia a minha mãe. Sem resultado, eu berrava cada vez mais. Afligiu, que diria minha mãe quando chegasse?! Então ocorreu-lhe que poderia estar na hora da mamada. E, na inocência dos seus treze anos, decidiu resolver o caso. Abriu a blusa e puxou o mamilo como conseguiu.  E muito se defraudou do esforço ao ver-me a estrebuchar, ela agarrando o peito que mal avultava e eu a repugná-lo fortemente e sem ao menos lhe tocar. E pronto, desatámos à gargalhada (ela, como minha mãe, apenas sorri). A filha admirada, ó mãe! Nunca me contou isso. E continuámos na risota.

(cont.)


terça-feira, 24 de outubro de 2023

Senhora Minha

         Conheço-a desde sempre. Lembro-a talvez desde os seus espigados dezassete anos e não sei de quem melhor case pessoa e nome. Não a vou denunciar, ignoro se apreciava ver-se aqui retratada. Foi minha vizinha directa desde que nasci até aos meus famélicos onze anos, quando meus pais construíram casa.  E tenho dela memórias vagas e comentários de mãe desconcertada, esta rapariga não pára de crescer. Ou num acinte de orgulho sussurrado a minha mãe e a que eu apurava o ouvido, mas já se notam os marmelitos.

        Falha dos obscuros mistérios da língua eu corria a observá-la. Encontrava-a quase sempre sentada num banquinho baixo a passajar, remendar ou, o que mais me agradava, de pé frente à mesa da casa de jantar, talhando aventais com um giz, mistério alienígena que, nas suas mãos certeiras, seguia tecido abaixo deixando um rasto branco e que, se eu avançava a mão,  não que tu estragas sem querer e faz-me falta. Espreitava-a sentada. Concentrava-me se ela estava de pé, olhos de raio x a percorrê-la. Mas, por mais que olhasse e estivesse atenta, não descobria  sinais de marmelos no seu corpo esguio. Mais nova que minha mãe, mas muito sua amiga, ela estranhava-me de tão quieta, queres alguma coisa, Bea. estás tão caladinha... Eu negava com a cabeça e palpava-lhe os bolsos em  busca dos marmelitos, ela julgando que buscasse rebuçados. Na terra que lhe pertencia, bem ao fundo, havia vários marmeleiros e eu conhecia o fruto e temia os ramos. O mundo da infância repelia a vara de marmeleiro quase na mesma medida do amor que consagrava à marmelada caseira que as mães arriscavam (o açúcar era  caro) se acaso alguém lhes dava uns marmelos ou possuíam a árvore. Acresce que os pais contavam histórias sobre sovas com vara de marmeleiro. E preveniam-nos acerca do desconhecido mundo da escola, habitado por professoras que as usavam para disciplinar alunos inssurrectos. Grandes pedagogos, os nossos pais.

                   Por outro lado, eu intuía que os sussurros eram os pequenos tabus dos adultos e que, como alertava minha mãe, se alguém segreda é porque não quer que se saiba. E não insisti no assunto, a infância  é fértil em novidades e mistérios.

(cont.)


sexta-feira, 3 de março de 2023

À Beira Rio

 

Eu queria ver-te havia tempo. Mas tinha de te entregar o tempo. Aprender a viver com a dor que não é física requer paciência, tem avanços e recuos. Digo que não é física, mas conheço as horas em que o coração se retorce e não se entende a razão de não cairmos varados. Também sabemos que, à menor compressão, a ferida sangra. Precisamos despi-la de ser pungente, trabalho que só o tempo consegue.  São dias atrás de dias, meses de adaptação.  A dor da perda prostra-nos fisicamente, torna-nos mais vulneráveis a doenças - dizem os entendidos que são médicos do corpo; e também os da mente. É compreensível, houve grande desgaste físico e psíquico, o organismo ressente-se;  por vezes  não aguenta a pressão e rasga, abre brechas, surge um mal inesperado. Ou são os nossos mortos que, como nós, tardam a habituar-se e nos chamam; talvez tentem levar-nos, não sei.  Também não entendo a razão de não querermos ir. Mas não queremos. De forma consciente ou inconsciente, queremos viver. É a força da vida sobre a morte, espontânea obediência às leis naturais. E há um dia, não sabemos qual, em que a perda foi interiorizada. Ou racionalizada. Mudámos a nossa pessoa querida de lugar. Coabitamos com ela e com a dor que se tornou latência. Sendo um, somos dois. Ou mesmo mais. Vivemos por nós e por eles. E há nisso a alegria do amor e a certeza de que, estejam onde estiverem, nos acompanham. Sempre.

E tudo isto eu te quis dizer hoje. Mas falámos de outras coisas.  É tema sapatinho de cristal, só o silêncio lhe serve.

domingo, 5 de junho de 2022

Imprecisão

 

“A vida é feita de nadas/de grandes serras paradas”, como escreveu Torga. Nadas. Pequenos nadas que nos tecem, entremeados de pontuais formações rochosas que curvam a marcha e nos alteram a paisagem. No variegado percurso, complexificamos e divergimos. Mas o substracto que reverdece os homens e distende raízes chama-se sentimento e vive de emoções, às vezes de paixões, umas mais eternas que outras.

Talvez ela prezasse a amizade, aquele sentimento da fundura e não aqueloutros que abusam da palavra e são arremedo. Um amigo não habita a esfera de colegas e conhecidos, companheiros profissionais ou de viagem, gente com quem simpatizamos e já está. O amigo joga noutra liga, a nossa. Os amigos entendem-se como pertença natural. Usam de confiança e tentam por todos meios encontrar-se; e cada encontro cimenta a relação.  Os amigos têm-se mutuamente presentes - em corpo ou apenas em espírito - nas agruras e festejos; ajudam-se com a espontaneidade de erva primaveril brotando da terra; são sinceros e comunicam entre si, senão com palavras, no silêncio de quem as dispensa, dando graças por esse recatado remanso. Por vezes, são o norte uns dos outros.

O desnorte aconteceu-lhe via telefone. Uma colega ligara protestando acesa e palavrosa amizade. Conheciam-se havia alguns anos. Um encontro casual gerara simpatias de férias, facto muito vulgar.  Posteriormente, num momento difícil, dera-lhe uma ajuda.  Não se movera por amizade, apenas se predispôs e ajudou; poderia tê-lo feito por outra pessoa que assim a necessitasse. A exígua totalidade dos encontros - dois ou três almoços – permitia supor algumas afinidades. E, por força do papel de boa samaritana, conhecera-lhe a casa; voltaram a juntar-se brevemente mais duas ou três vezes. Não lobrigava, pois, qualquer razão para tais protestos de amizade. Se as tantas amigas que a outra proclamava fossem de igual teor, a compaixão assentava-lhe. Repassava os momentos vividos juntas e não a sentia próxima. Jamais a procurara nos apertos e confusões pessoais e nem tal lhe ocorreria. E, revisando a vida da outra e o longo tempo sem contacto, concluía que se pagavam na mesma moeda. O que surgia na esfera do inadmissível eram os seus protestos, o dizer-se a amiga profunda que nunca fora e talvez nem soubesse ser. Há quem se passeie pela superfície e ignore a seiva. Um logro emocional. Ora a amizade não se pode deslustrar com faz de conta. Protestos a apontá-la como melhor amiga?!  Homessa. É de quem não aprende.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Era uma vez...

 

E tudo foi simples e se fez próximo nesse mundo feminino e palavroso, as vozes em crescendo. Pena a mesa angular que impedia visão comum. E é certo, o vinho instala espírito festivo. Alma e corpo distenderam com  a sangria, as conversas avivaram, os nós residuais de súbito deslaçados. As aias, voltando atrás no tempo, serviam-se mutuamente como quem está em companhia de tu cá, tu lá. E brindavam. Aos brindes faltaram apenas os versinhos antigos que faziam os avós, “vou beber este copinho com muita alegria, viva a nossa professora e mais toda a companhia”.  Mas os avós das quadras, que é deles. Hoje, elas são as avós. E talvez não façam saúdes rimadas e populares. Mas brindam. E a princesa ergueu o copo e fez tchim-tchim. Linda e alegre na sua serenidade comovida por via da festinha.

A degustação foi sem mistério e a contento. Pode mesmo dizer-se que acrescentou o espírito que as animava.  E depois, é de praxe, num almoço de mulheres, sobremesas são necessidade: o bolo húmido de chocolate, uma tarte que podia ser de leite ou limão, a sericaia, um bolo de natas. E talvez antes, durante, ou depois da doçaria, a hora grata.  O álacre ramo de flores que a princesa-professora recebeu de suas aias, as palavras bonitas que o coração ditou na hora e sem ensaio. E a professora comovida, uma irremissível e púdica lágrima logo disfarçada por dedos cúmplices; a lágrima a teimar, deixem-me escorrer, por que me cortam o caminho. E a professora a recolhê-la mudamente, os dedos falando por si, não, não; as emoções  não podem desaguar ao ralenti, somos os moderadores. E talvez que uma aia maravilhada, embevecida por entrever um coração numa lágrima que quer esconder-se e assim  se faz mais pura, relíquia que se guarda e reluz na memória.

E não foi de deitar fora a hora dos licores: de poejo e bolota. Tinham a ver, somos Alentejo, caramba. O de poejo, esmerado em sabor e álcool, agradou largamente. O de bolota, quase insalubre (como o fruto) e apenas doce. Sem explicação plausível, apesar da disparidade, os licores desceram festivos.

Da torrente de conversas e sugestões, ficou a promessa de repetição  – quiçá na primavera de 2022 –; uma reportagem fotográfica que, salvo a foto de grupo e uma ou outra a pedido, não foi notada senão quando a doce autora no-la fez presente; e a lembrança de era uma vez um almoço, guardada no cofre pessoal e identitário da memória.

Um Bem Haja a todas as participantes.

 Obrigada, Querida Professora.

Era uma vez...

 

Era uma vez um almoço.  E, como em todas as histórias, havia nele uma  princesa e suas aias. Seguindo o curso dos contos e as leis dos homens, umas lhe seriam mais próximas que outras, mas a todas queria bem. Algumas sabiam-lhe um ou outro gosto, juntavam-se-lhe em amenos passeios nas áleas do jardim, gostavam de a ouvir discorrer. Amavam o seu pensamento claro, os projectos, o enraizado amor à vida. Mas, sobretudo,  apreciavam a forma discreta e sempre elegante de dizer sabendo ouvir, a atenção que lhe merecia cada uma das companheiras.  Que as princesas de verdade treinam a escuta, faz-lhes parte da conversação.

Registe-se que o quotidiano da nossa princesa e seu séquito de aias seguiu a norma, cedo lhes veio o consabido tempo da separação. O castelo ficou para trás, cada uma escolheu ou foi escolhida por caminhos e trilhos que correu até ao fim ou arrepiou. E, em diverso passo, todas verificaram que pouco o homem escolhe e só as preferências do coração resistem à fugacidade. Quando resistem. Se. Ficou-lhes a memória. O único elemento que permanece e não pode ser sonegado é o ter sido. Hoje, serão outras de si mesmas. Mas jamais perdem quem foram. Os meandros do castelo que agora lhes surgem envoltos em pobreza acanhada, já fizeram parte do seu mundo de sonhos e pequenas raivas, animaram tropelias e amizades esfumadas e que, à época, se julgavam eternas. Era ali que a princesa moderna pisava e fazia mundo, sapatinho de salto e saia justa, impecáveis vestidos com gravata,  esbelta miss em invejada meia de vidro. Se o passado as visitava, as aias pensativas, por onde andará. E logo,  oxalá seja feliz. Cada uma relembrando seu episódio. Que a discreta princesa cuidava por suas aias. E em todas, qual perfume que não dorme,  morava o seu jeitinho exemplar.

Foi talvez desta base de gratidão e amizade respeitosa que a ideia brotou. Será porque a princesa regressada. Ou por amarmos o imutável de cada um e nela vibrar intacto, pedra de toque com o passado. Terá acontecido por força de reencontro com aia mais atenta. Pois que seja. A ela/elas devemos o almoço de era uma vez. 

Soavam as treze quando se juntaram num misto de confiança e estranheza, cada uma em busca de rosto que antes lhe foi próximo, desvendando detalhes que a  idade mascara, certa forma de olhar, o tom de voz, a linha do nariz ou da fronte, o riso. E a discreta princesa contente, revendo-se nelas; tão jovens  as de antes; e agora mulheres no outono da vida. Outras. De certeza, outras. Mas não completamente.

(cont.)

segunda-feira, 26 de julho de 2021

A Amiga Imaginária

 

Em tempos, tive uma amiga que hoje penso ter sido imaginária. Bem, ela existiu. Existe ainda, julgo. Conhecemo-nos tinha eu uns magros dezassete anos e a nota que me distinguia era o cabelo de risca ao meio a devorar-me o rosto miúdo, coisa pouco aprazível à vista dos outros e à minha, sujeita à densa e incómoda  cortina que me  restringia o campo visual. Portanto, no meio das alentejanas daquela escola quase exclusivamente feminina por que tanto me batera, eu e ela éramos gota mínima em  homogéneo oceano.

Salvavam-se as poucas jovens vindas da capital, talvez num caprichado e tardio bater de pé adolescente, deixem-me ver como é o Alentejo, quero estudar ali. As garotas de Lisboa eram diferentes de nós. Sei lá bem, parecia-me terem pernas afirmativas, rosto mais original, olhos de fulgor. Talvez fosse do ar que respiravam por lá. Mas usavam, seguramente, mini saias a combinar com casacos maxi, em bonito e arrojado conjunto. Nos rigores do inverno alentejano, eram quatro sereias de botas altas, a boiar delicadamente no nosso universo moreno e sem patuá. Mas faziam a moda. No pintar dos olhos; nas cores de roupa e maquilhagem; na forma como se penteavam; nos gestos graciosos e muito mais desembaraçados. Dávamos por nós a ver como faziam ressaltar os acessórios, cujos se compraziam da pertença, olhem para nós. Lembro particularmente o modo como uma delas ajeitava amiúde a alça larga de uma mala dos livros em tom verde e que fazia os meus desvelos; e dos lencinhos com que a colega, uma capitosa morena toda pernas e decote, olhos verdíssimos, dava um nozinho no lado esquerdo do pescoço, moda que foi fogo em cortiço.

Neste mundo de modelos e cópias, eu e a dita amiga singrávamos pardacentas e nocturnas. Sem lencinhos nem olhos que se vissem, e muito menos pernas, que as nossas só serviam mesmo era para andar e, hélas, haja Deus, que nunca se negaram à função. Hospedávamo-nos juntas. E mais nos aproximou o facto de, comparadas, as nossas vidas bordarem quase pela mesma linha e em semelhança de cor. Posto isto, restava-nos ser boas alunas que ao resto não chegávamos nem em bicos de pés ou sequer com escadote. Das duas, eu era a mais pespineta, tinha imensa pena de não sair nos sábados e domingos que passava na cidade e aborreciam-me de morte as missas, agoniava com o cheiro das velas e por vezes ela via-se forçada a pôr-me a arejar, tal a palidez cambaleante. Quando saiu da escola – frequentava o ano acima do meu  -, ficámos a corresponder-nos. Quer dizer, eu escrevia-lhe e ela, por vezes, respondia. E foi sempre a mesma ladainha. Eu visitava-a e ela desculpava-se de cada vez que eu insistia; nunca fui retribuída. Entretanto, escrevia e escrevia. Sem resposta. Afligia-me a falta de notícias, pensava em desgraças e, a missiva mais aguda, ela dizia presente. Anos e anos. Mais de vinte.  Apesar de saber que gostava de me ver em sua casa, hoje, a frio e sem cachecol, acho que supus nela o que nunca houve. Passava e parava na minha terra vezes sem conta, e nem uma palavra, o convite, estou aqui, queres vir ver-me.

Deixei de enviar presentes e boas festas apesar de continuar a escrevê-las e andarem por aí dentro de um livro e de outro. Ela não escreveu. Não ligou. Ao invés do que sempre afirmou – que se um Natal eu não escrevesse ela o faria –, passaram dois Natais e nem uma letra. Levei anos a desiludir. Mas não é que continuo a gostar da amiga que inventei?!

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Ao Sol

 

Por norma, rodeio o mar. Vou de volta. Faço um caminho verde até ele. Enlevo nos pinheiros e arbustos que guardam a estrada, mas o verde mais amplo é o da alma. É um caminho plano, de Alentejo que se espreguiça estendido ao sol, árvores mortas ainda erectas, o negrume fatalista dos braços gritando para o azul. Por acção do calor ainda morno e requebrado em ternuras matinais, os cheiros são de seda, trazem à pituitária essa mistura única de frescura nocturna que evapora e exalação ainda tímida. É o dia a adolescer, perfume inigualável, fragrância de que nenhum perfumista se aproxima. Não é ainda o suor da terra e das coisas, o que me entra pela janela é o odor próprio de cada uma, enlaçado em puro rasto de noite. E o carro avança na fita negra a perder de vista, enquanto eu, alma sem arreata, não sei onde vou nem como,  e valho-me da condução descansada. Viajo sempre acompanhada, até se vou só. Converso umas coisas com os meus imaginários, canto, às vezes resmungo, mas só um nadinha que a paciência espreita na beira dos valados.

Este ano não fiz ainda esse caminho a que pertenço com força de raiz e razões de bem querer. Mas hoje, hoje mesmo, dia 22 de Junho, fui ver o mar. Outro mar, que é afinal o mesmo. A transparência ansiada e cristalina da água. Deste caminho outro, quase todo entretecido em frescura de remansoso verde, abrevio que pouco o olhei. Ali sim, árvores atentas debruçam sobre nós. Mas a estreiteza da estrada e o torvelinho de curvas  preenchem os sentidos. Não é um caminho alentejano, mas encantou a minha pendura.

E depois, o mar. Aquele espaço aberto ao conluio de água e céu, o sussurro bebé de ondas pequeninas, os passos da água desmaiando na areia e a cantar que está viva. E a exultante frescura salgada que não senti mas invejei, a minha querida  pendura a asfixiar a saudade pelos pés, calças arregaçadas; e eu na areia, parada e inerme, os olhos degolando saudades dela e do mar. E havia sol e calor sem urgências a fazer companhia à nossa amizade.

 

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Breves

 

Já não viajava há tanto tempo que esquecêramos os caminhos (eu e o carro). De modos que me enganei algumas vezes, coisa pouca. Infelizmente não deu tempo para andar feita parola a olhar as montras. Fui só num saltinho comprar dois livritos, companhia de horas mortas e que, por assim estarem ausentes de si, só estorvam. E pode que os livros as componham, sejam remédio.

Adquiri – finalmente – “O Infinito num Junco”. Li apenas duas páginas e, portanto, não palpito. Mas é obra capaz para oferecer a uma amiga que as prefere sobre figuras da História. Não que seja monárquica, mas as prateleiras ajoujam de rainhas e príncipes consortes (e sem sorte por vezes), princesas nem sempre felizes, damas que ficaram na memória dos tempos por vincadas qualidades e não menores defeitos. Já lhe disse que é uma bisbilhoteira imparável, mas não me faz caso e continua na senda da realeza a devorar o fausto e os podres de certas cabeças coroadas ou com tiara. Em prol da minha escolha, e de acordo com o que ouvi numa entrevista a Irene Vallejo a autora (sugestão da Maria), a personagem é o livro e a utilização do artigo não é casual. Resumindo, não é um romance, a obra conta a história do livro ao longo dos tempos. Não esclarece o carácter de reis e rainhas, mas tem o mérito de tratar de um objecto real e necessário, ser fruto de pesquisa e aturado trabalho, exalando – imagino -  certa liberdade criativa na abordagem dos assuntos. Ó  miga tens que gostar. Só podes.

E porque muita estupidez grassa pelo mundo e  nada de novo sob o sol além das desgraças em que os telejornais são pródigos, vou ali agarrar a minha bóia a ver se reanimo horas que, mortas, nada me adiantam.

Durmam com os anjos e acordem bem dispostos. É sexta.