A memória é preciosa aliada de que pouco entendemos, quais formigas afanosas, passeamos-lhe a superfície no desejo contínuo de que nos não abandone. Atribuimos-lhe falhas de que ignoramos a proveniência, questionamos gestos e manias que se tornaram hábito, ou eventualidades que não imaginávamos guardadas e, a dado momento, nos relampejam fulgurantes.
Hoje, agora mesmo quase, enquanto mastigava solenemente o pão – sou solone qb ao pequeno almoço -, pararam-se-me os gestos na lembrança do meu décimo oitavo aniversário. Costumo lembrá-lo sempre que alguém faz dezoito anos, hoje marca de maioridade. E desejo contínua e sinceramente que seja um ano melhor do que esse meu já tão longínquo. Mas os anos dão patine e tingem o acontecer, razão porque me aparece o despontar dos dezoito a outra luz.
Alguém me disse que nos romances existe o que se chama “o ponto de viragem”, momento de mudança na sequência da história, motivado pela introdução de novo factor. Os dezoito anos trouxeram-me vários novos factores e as subsequentes alterações. Terá sido um dos meus pontos de viragem. Pondero que levei da melhor forma toda a transformação a que, então, me vi sujeita. Sem mérito pessoal, era jovem e a juventude comporta um optimismo raro que talvez entronque no facto do presente agigantar e o futuro ser em grande parte um possível que sujeito e vida podem alterar e logo, a premência não está a uso; e sofrer por antecipação também não é vulgar.
Lembro-me do hospital e de as visitas me olharem através de um vidro. Nesse dia recebi exactamente quarenta postais ilustrados de gente da minha terra a felicitar-me. Foi uma das surpresas mais bonitas que já tive. Todos os amigos, familiares e jovens me enviaram um postal. Mesmo aquelas garotas que pouco conhecia. Mesmo os rapazes que agora só via de longe e com quem nem falava porque na minha terra as conversas mistas eram sinal de namoro. E talvez por tal motivo, o facto de me terem escrito, a maioria ainda com a letrinha da primária que eu tão bem conhecia, comoveu-me. Como é que nunca mais me lembrei disto?! Como é que esqueci aquele garoto que foi meu parceiro, que comprou para mim um postalinho e se suicidou após a morte da única filha também ela com dezoito; como é que não vi num desses postais o amor escondido sob a amizade de infância e como é que tantos anos mais tarde voltei a incorrer no mesmo erro?! O certo é que ainda hoje não sei de quem partiu ideia tão bonita e tenho até vergonha de tê-la esquecido por anos e anos.
E depois houve a surpresa da visita (ao vidro) de minha irmã e prima, as duas com onze anos, vindas de cascos de rolha até ao hospital do distrito. E houve um postal surpresa de alguém que visitava uma colega e, talvez sem o saber, me fez presa de ciúme que não me recordo de ter merecido.
A coroar o dia, mas não por esta ordem, que na verdade foi a primeira surpresa, o hospital ofereceu-me o melhor bolo de todos os aniversários, por certo feito na Violeta que inda hoje comanda a qualidade em pastelaria.
O que devo aos muitos anónimos que a vida pôs no meu caminho e assim deixaram de sê-lo, pede-me que vá em frente. Sempre em frente. Para lugar nenhum.