quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

O Natal. Ah, o Natal da nossa infância. Chegava já os frios transiam e dava sinal no ramo de pinheiro armado fora do nosso alcance, onde o merceeiro suspendia, com cordel de embrulho, os pequenos chocolates do nosso encanto: peixinhos que oscilavam as escamas desenhadas na prata; rebuçados com recheio liquido e aparato farfalhudo no papel; pequenas tabletes da Regina, os nossos dedos imaginando o relevo sob a prata amarela e vermelha e a que os garotos garantiam queda certa (nunca aconteceu); um maço de cigarros de chocolate; um saquinho de rebuçados de meio tostão ou paladares; e uma prolífica quantidade de tabletes de cinco tostões, delgadas como dedos e de recheio execrável.  Na nossa ilha de pobreza,  não sabíamos de lugares com outros doces, de ruas feéricas, de gente enluvada e toda conforto a passear por elas, de pastelarias com toda a espécie de doçaria e pessoas que a adquiriam calmamente, sem um bater de pestana.

Nada nestes natais me faz saudosa deles. Não foram bons tempos. Mas a saudade é sentimento que isola os factores que  deseja. Natal era o amor de minha mãe pelos filhos e a sua tentativa de agradá-los fazendo mais doce o dia. E era tamanha a ternura que nenhum de nós o esquece e perpetua a tradição em sua casa. Ora vem isto a propósito de um programa de rádio, “A páginas tantas” (parece que não tem a ver, mas tem). Com grande pena da minha parte, o programa termina no final de Dezembro. Gosto da junção das três a falar de livros. Apesar das picuinhices birrentas de Rita Ferro a fugir para o lado de menina bem; das vezes que Patrícia Reis diz “amor” e “ó amor” referindo-se às duas colegas; da prontidão sem tréguas da Inês, investindo com a lança feminismo. Mas fazem o trabalho de casa, são fluentes e desinibidas e cada uma tem vida e sensibilidade próprias. E verifico mais uma vez que só sabemos falar do que se passa connosco (eu incluída), no nosso meio. Pois aquele trio denota alguma alergia ao natal. Por exemplo, são contra os presentes. Dizem elas que o ónus do trabalho recai sobre a mulher (Inês, claro), que só dão livros (Patrícia), mas sabem que os recebedores (a maioria) está já a pensar a quem irá dá-los. E fico a matutar, habitaremos o meu planeta? No meu planeta todas as prendas são bem vindas. Todas. E, por essa razão, não matamos a cabeça a pensar no que dar. Vamos comprar com muita alegria uma coisa que julgamos – temos quase a certeza – que agrada. No meu planeta, não há gente que já tem tudo e os outros cumulam de prendas. Também não concordo em dar livros a quem não os lê; quando muito, que se ofereça um livro e mais alguma coisa que a pessoa prefira mesmo, goste. Os presentes só os damos porque gostamos da outra pessoa, temos, também, de respeitar as suas preferências; ou não resulta. Do que tenho a certeza é que a maioria dos portugueses me faz companhia. E que o barco das três senhoras tem menos gente que o meu. Sendo também verdade que quem viaja no meu barco ouve pouco os programas de rádio sobre livros. E portanto, talvez elas tenham razão, falam para os seus ouvintes. Ali, sou apenas ave rara, coisa que não pertence. Gosto de comprar e oferecer presentes. Amo de paixão. Sei que os apreciam, usam, gostam, agradecem. E nunca será uma estopada. O Natal é a festa onde o meu coração se espraia.

15 comentários:

  1. Nunca ouvi o programa. Gosto do Natal e de oferecer presentes, mas as escolhas não são sempre fáceis. Dá- me algum trabalho, sim... Quanto aos outros tempos e respetivos chocolates: então e as sombrinhas? :)

    ResponderEliminar
  2. Oh, as sombrinhas e os gatinhos de chocolate era o Menino Jesus que os trazia. Tal luxo não existia em loja de aldeia. Chocolate de leite. Tão bom.
    Talvez a Luísa dê a quem já tem muito; ou a pessoas esquisitinhas. A minha dificuldade é bem outra.

    ResponderEliminar
  3. Sou um herege.
    Nunca fui grande fã do Natal.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Os hereges também fazem parte do mundo, Pedro. E o gosto é o que há de mais diverso. O Pedro terá outros interesses. E é só.

      Eliminar
  4. O ideal seria que o espírito de Natal se cumprisse todo o ano.
    Abraço natalício.
    Juvenal Nunes

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Por acaso nem concordo, Juvenal. Qualquer coisa que exista sempre não é valorizada como merece. Falta o suspense, a preparação, a antevisão grata da família toda junta e em harmonia. Não sei por quantos anos ainda vamos conseguir juntar-nos, sendo certo que nos juntamos mais vezes, mas não com o mesmo espírito.
      Um abraço.

      Eliminar
  5. É a diversidade de planetas que faz rico o mundo Bea.
    Não sei se a maioria dos portugueses me faz companhia seja no que for, nem isso me preocupa - nunca lhes fiz um referendo :)

    ResponderEliminar
  6. É mesmo, Joaquim. Mas não é a diversidade que me incomoda.
    Sei onde pertenço e quem me acompanha. Sem necessidade de referendo :).
    Bom dia.

    ResponderEliminar
  7. Natal para mim sempre foi família e poucos presentes! Hoje, continua a ser família, sem presentes 😊! Bj

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É uma opção como qualquer outra, Gracinha. No meu caso, os presentes fazem parte. Recebemo-los na noite da consoada, mas, como dantes, só os abrimos na manhã de Natal. E continuo a pôr no sapato que é hoje a porta do quarto:), as prendas dos meus filhos. Coisas.
      Bom dia:).

      Eliminar
  8. Associo o Natal a momentos e a histórias de grande ternura. Por isso prezo a época, apesar do trabalho que dá.
    Sobre prendas, na minha família somos muito práticos: para além das pequenas surpresas que sempre aparecem resultantes da criatividade de cada um e que se tenta que sejam a gosto do outro, há uns anos que optamos por partilhar listas de livros, cd´s ou outras coisas que apreciamos ou precisamos.
    Uns seguem-nas, outros nem por isso e arriscam outras coisas.
    O que é certo é que a maioria das prendas são uteis e a gosto de todos!

    ResponderEliminar
  9. Nós não partilhamos listas e nunca houve até hoje o risco de bisar. A única coisa que lamento é não poder oferecer a minhas irmãs prendas melhores e de mais valia. Gostava de, nem que seja uma vez sem igual, entrar numa loja e adquirir o que apetece ao coração; mandar bugiar a carteira e comprar sem peias. Isso é que era. Que bem o merece quem criou um par de filhos a sós e remando por entre tanto escolho. Não que tal facto aumentasse o amor que existe. Mas seria um contentamento mais.
    Bom dia, Dulce.

    ResponderEliminar
  10. Bea, embarco no barco dessas radialistas no que ao Natal diz respeito, embora da minha infância guarde doces recordações.

    ResponderEliminar
  11. Pertence à minoria, mas todos pertencemos a algum lado, Nina:).

    ResponderEliminar
  12. Eu adoro oferecer prendas, mas igualmente adoro recebê-las.
    Sinto que é uma maneira não só de mimar a pessoa, mas o cuidado que tivemos em escolher o presente, tudo.

    Beijocas

    ResponderEliminar