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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

O Bem Amado

 

        Este ano o inverno encomprida: enrola, desenrola, e, em teimosia de onda, volta de novo. Talvez esta constatação seja fenómeno de Fevereiro e não a realidade. Que nem as temperaturas mínimas foram além do previsto para a estação; nem a chuva foi demasiada; nem a neve caiu em lugares virgens de tal friúra. Tampouco o calendário foi atraiçoado. O inverno cumpre os trâmites legais.

        Chega-nos um dia de sol e quem pode curte-o por jardins e ruas, lança-se a uma esplanada, banha-se de luz e calor bendizendo a súbita conjunção favorável. Quem não pode, se a tem, trabalha espiando, aqui e ali, a janela; entretém-se a planear almoço rápido e passeio ligeiro, anseia sentir-se vivo na claridade e inveja de boa mente os que dão o rosto à brisa. Ou prefere sentar-se também numa esplanada a aquecer a alma olhando a vida que passa. Na província, a roupa festeja pelos quintais: baloiçam mangas de camisa em arco íris, pernas de calça discretas, pijamas fofos num desafogo, peças íntimas enrubescidas da exibição. Escancaram-se janelas e um ar jovem insinua-se disfarçado de brisa. Casas fora, todas as coisas embebem em contentamento, alegria mansa de serem quietas e desanuviadas, enfim libertas do tom cinzento e frio que mais inibe que propicia. Nasce na alma dos homens uma vontade de nem sei quê, apetites de fuga ao quotidiano, um corolário de impossíveis que só a veemência solar põe de pé. Os mais crédulos julgam que o inverno fechou portas e chegam a conceber o dia seguinte ligeiro de roupas. A juventude passa num abraço alheio à efeméride temporal, casacões à dependura e botas da tropa. Ninguém como eles para abraçar o futuro que não sabem e tanto preocupa os mais velhos.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Sem Bola de Cristal

 

Houve tempo em que fazia propósitos para o novo ano. Por mais simples, cumpria-os, digamos, nos dois primeiros meses. Depois, bom, depois a vida levava-me na sua voragem e não tinha tempo para. Esquecia-os sem remorso ou culpa. Mudavam a amplitude, eram passado, coisa feita e que quase não deixa marca. Não fora a memória de me ter proposto a eles, e nem um assomo restaria. Mas ainda sorrio de mim para mim, se os recordo. No ano passado, ocorreu-me que uma boa ideia seria terminar as histórias que começo e vou deixando pelo caminho. Mas só pensei nisso. Porque já nem sei ir ao lugar em que as deixei e também não me apetecia revivê-las. Se acaso as encontrasse, teria de reentrar na pele de então. Depois, ia apetecer-me reescrevê-las porque a gente nunca se reencontra completamente. E por aí.

Hoje, não tenho sequer a desculpa do tempo voraz. Mau grado o ininterrupto dos meses, dias e noites esticam a sua incomensurabilidade, e, salvo uma ou outra excepção, exaure-me tanta hora parada no relógio. Por outro lado, o mundo em geral interessa-me pouco como raio de acção, não tenho maneira de agir sobre o geral senão agindo sobre o particular que me cerca. Somos a gota de água, não o rio; mas fazemos parte dele, é indubitável.  E não me apetece andar aqui a fazer de candidata a miss mundo - fica mal nesta provecta idade -  e a dizer coisas como, o que mais desejo é a paz no mundo; o fim da fome; o fim das sevícias que os homens infligem uns aos outros, a animalidade em transgressão adiposa; como diz a canção “a paz, o pão, educação, saúde…” Pergunto, mas quem é que não deseja isto tudo para todos, quem é que não quereria este paraíso terreal. Pode haver uma minoria que o não deseje, mas estamos de acordo, a maioria não se importava nada que acontecesse. Acontecesse, reparem bem. Ora, o que acontece não é da nossa responsabilidade, simplesmente acontece; sucede; chega-nos de supetão ou brandamente, mas chega sem mexermos uma palha para. E tenho para mim que só nas imediações grande parte de nós tem efeitos práticos.

Portanto, fico-me pelos arredores de mim, aqueles até onde possa chegar. E seja o que Deus quiser. Se eu Lhe puder dar uma mãozinha, estou ao dispor.

E que a vontade não me falte para o evidentemente.

Posto isto, que o ano de 2022 vos sorria. E deixem de lado as previsões catastróficas. O que tiver de ser, será. Nada de antecipações desastrosas. Logo se vê. Para já, o meu brinde de incentivo em alvores do novo ano: A nós. E a todos que gostam de nós. Tchim-Tchim.