Este ano o inverno encomprida: enrola, desenrola, e, em teimosia de onda, volta de novo. Talvez esta constatação seja fenómeno de Fevereiro e não a realidade. Que nem as temperaturas mínimas foram além do previsto para a estação; nem a chuva foi demasiada; nem a neve caiu em lugares virgens de tal friúra. Tampouco o calendário foi atraiçoado. O inverno cumpre os trâmites legais.
Chega-nos um dia de sol e quem pode curte-o por jardins e ruas, lança-se a uma esplanada, banha-se de luz e calor bendizendo a súbita conjunção favorável. Quem não pode, se a tem, trabalha espiando, aqui e ali, a janela; entretém-se a planear almoço rápido e passeio ligeiro, anseia sentir-se vivo na claridade e inveja de boa mente os que dão o rosto à brisa. Ou prefere sentar-se também numa esplanada a aquecer a alma olhando a vida que passa. Na província, a roupa festeja pelos quintais: baloiçam mangas de camisa em arco íris, pernas de calça discretas, pijamas fofos num desafogo, peças íntimas enrubescidas da exibição. Escancaram-se janelas e um ar jovem insinua-se disfarçado de brisa. Casas fora, todas as coisas embebem em contentamento, alegria mansa de serem quietas e desanuviadas, enfim libertas do tom cinzento e frio que mais inibe que propicia. Nasce na alma dos homens uma vontade de nem sei quê, apetites de fuga ao quotidiano, um corolário de impossíveis que só a veemência solar põe de pé. Os mais crédulos julgam que o inverno fechou portas e chegam a conceber o dia seguinte ligeiro de roupas. A juventude passa num abraço alheio à efeméride temporal, casacões à dependura e botas da tropa. Ninguém como eles para abraçar o futuro que não sabem e tanto preocupa os mais velhos.