terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Miudezas

 

Hoje, excepcionalmente, fui às compras fora da terrinha. Maus hábitos, na verdade. Fui ao abrir da loja e correram lindamente, duas meninas simpáticas inteirinhas para mim e a desejarem um 2021 cheio de coisas boas, hipótese que, a falar verdade, não consigo visualizar; mas pode ser da miopia, quem sabe piorou, que isto do covid fecha-nos em casa e as doenças andam por dentro de nós à rédea solta. Bom, quando saí toda contentinha havia filas para tudo que era sítio, excepto a casa de banho que, é claro, fui conhecer.  À saída, não me entendi com aquela manigância do pedal em que se carrega para a porta abrir e não mexermos no manípulo. Confesso, sou pouco expedita para tais mariquices e já custo bastante a destrinçar o funcionamento das torneiras, quanto mais perceber de pedais que abrem portas. Bom, ainda tentei mas, depois de andar com o pé por aqui e por ali a fazer festas ao pedal, que é como quem diz, na perpendicular e enviesado, socorreu-me uma senhora mais hábil e que afinal teve que puxar a porta manualmente ou não chegávamos a sair. E eu a ufanar ao comprimento das filas intermináveis. Portanto, bem disposta e de saída, resolvi que merecia uma meia de leite e um scone. Zás, entrei no Portela e plantei-me na obediente fila para a caixa. Era a quarta e última pessoa. Às tantas, o número dois desenfiou-se e foi colocar-se a distância razoável; supus que seria acompanhante e fiz sinal à pessoa na minha frente para avançar. O que eu fui fazer. O Homem passou-se e vociferou sibilino, eu estou na fila. E eu logo, peço desculpa, pensei que acompanhava a senhora que está a pagar. E ele quase, quase a engolir-nos (a mim e à emudecida criatura na minha frente), acha que isto é um metro, acha que isto é um metro…. Eu estúpida, a olhá-lo sem entender por que carga de água chamava o metro à conversa. E deve ter sido uma cara mesmo muito palerma porque acrescentou escarninho, não leu as recomendações, não me diga que não leu…e oh, houve faísca dentro de mim…Pois, o covid.  E demos as duas uns passos atrás. Moral da história: o senhor pediu o café lá mesmo nos confins do balcão e, apesar da sala estar vazia (eu, a senhora da frente e ele, a cliente número um já tinha desaparecido do mapa) foi bebê-lo para o átrio, virado ao vazio e de costas para toda a gente. Pois eu e a senhora sentámo-nos cada uma em sua mesa e ela desejou-me um bom café. E quando saíu entregou-me um sorriso bonito e os votos de feliz ano novo e boas entradas. Mas o senhor não me toques, no trazer da chávena olhou-me como se esteja carregadinha de vírus e não saiba. O que até pode ser possível, mas escusava de ser tão descarado.

Simpatizei com aquela senhora que, é quase certo, não tornarei a ver. Apetecia-me que fosse minha vizinha. Ou isso.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Consoada

 

Pela tardinha, cheira a lume e as chaminés não se cansam de fumar. Nas lareiras, depois de escolha aturada ou guardado há meses para o efeito, afastando negrumes de alma e nódoas negras da vida, em alegria e promessas de calor e companhia,  crepita vivaz um encorpado tronco de Natal. Vê-se da rua o pisca-pisca das luzes do pinheiro sintético, um aprumo de vaidade colorida a subir-lhe pelo tronco. E, aqui e ali, sobre uma mesa ou num saco de asa aberta, espreita o glamour indiscreto de fitas e laços em embrulhos com destino. As casas deliciam na azáfama, derrete-as o calor a entranhar e o ruído de vozes no abrir da porta, rufo de tambores em prenúncio de festa.  Falta gente querida, mas o núcleo permanece intacto e imbuído pela ternura da noite que reúne a família e é santa até para os que esquecem que comemoram a festa de anos de um Deus a quem, de verdade, nada pensam ofertar. Deus Menino faz anos, a mãe, em sua casa celeste, há-de estar, amorosamente, a bater-lhe um bolo. Um Deus que nasceu pobre e indefeso como qualquer criança e a quem, em rotundo e divino sim a toda a pobreza, bastou um curral para vir ao mundo. É este Deus-bebé que festejamos desde o conforto de nossas casas limpas e aquecidas e longe do bafo de animais e do  cheiro a excrementos e feno.  No clean de penates paira o cheiro doce das guloseimas,  filhós, arroz doce, pudins e caramelo, bolos vários e delícias fofas que a batedeira pariu. E sobre ele, o vapor alentado do jantar que condensa e embacia nas janelas da cozinha.  Mas que terão oferecido os inesperados  pastores, visitas primeiras do Menino,  senão um nico da sua mão cheia de nada. Ou nada apenas, que quem corre para ver uma estrela na Terra não se arma de presentes, vai ao encontro do ignoto e terno Deus que acaba de nascer, corre sem saber a quê. Como nós.

Mas Deus nasce a cada um. Nasce talvez sob outras formas e noutras idades porque se cansa de ser sempre bebé. No dia 24, as oito a despontar com o sol, encontrei-o trôpego e friorento. Por companhia, duas cadelitas da mesma idade e a vara de tocá-las. Quando nos cruzámos, sentámos no muro por um bocadinho de nada e inquiri da companhia em noite de consoada. Ele sério, a vara a apontar os animais, “a mulher não pode vir, aqui está tudo infestado e cheio do bicho, não a quero cá”.  E rematou peremptório, “Fica com a filha, lá, está melhor”. Fiz-lhe uma festa na mão e passei-lhe um saquinho de asas. E, no silêncio friorento da manhã, Deus agradeceu com os olhos e seguiu caminho.

 

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Diversos

 

Julgo sempre que a vida dos outros é que tem interesse e glamour e a sua conversa é mais agradável e chama assuntos com substância em vez das bagatelas que se me gravam na mona. Dou uma voltinha pelos blogs e confirmo, têm assuntos  que me não lembram ou não sei, quotidianos que não me acontecem, muito mais habilidade que eu, partem do pormenor e criam um texto todo em ponto pé de flor, delicadeza que, repito, não me bate. Saio da net com a sensação um bocadinho invejosa de que gostava de ser esta ou aquela pessoa, cuja nem faço ideia quem seja, mas me parece de mente muito mais aberta e esclarecida que je, moi même. Mas cada um é ele e não outro. Portanto, olhem, passando por aqui, terão o remedeio da minha vida rasa, um ou outro grão de arroz a altear o quotidiano. É o que sei.

Ontem fui fazer um exame médico. E, claro, ir ao médico nesta altura de recolhimento sabe-me a passeio, coisa próxima de um extraordinário. Pois o meu grão de arroz aconteceu quando, depois de me desfardar e enfiar aquela bata amorfa que é mais ou menos um saco com três aberturas, a senhora enfermeira a sorrir, esta senhora vem a rigor. Ora eu, meus deuses, que roupa tinha. Terei feito um ar assim atoleimado porque completou, calçou meias de Natal. E foi aí que acordei para as meias  com flores e pinheiros de Natal. Achei muito próprio.

Pois hoje fui matar saudades da Violeta e da Lili que já não via há oito dias. E ficámos uns minutos a abraçar-nos como sabemos, elas a subirem por mim acima com o pêlo todo húmido e os olhos lacrimosos engastados num monte de lã cheia de falrripas a pedir tesoura  e decerto a entortarem-lhes a vista. E eu ajoelhada na beira da estrada a fazer-lhes festas e a desviar as melenas. O senhor Zé, encostado a um pau, sorria com ar bonacheirão sempre que a Violeta se atravessava na frente da Lili para que me não chegasse. É uma ciumenta, a Violeta. E dizia o velhote, uma semana ham…uma semana…e eu a mentir, tive umas coisas para fazer. Eu que não entendo porque sou às vezes tão estúpida e me nego estes pequenos prazeres matinais. Terei alguma costela masoquista. Há muito ano, li numa revista que Jane Fonda, quando a idade a começou a alargar um bocadinho,  para afinar de novo a cintura tirou as costelas flutuantes (cada vez que me lembro que tenho costelas flutuantes fico satisfeita da vida); cá por mim tirava a(s) costela(s) masoquista(s) e já está, nem era preciso pôr cinto para verificar, ficava logo, digamos, mais operacional. E hoje, só hoje, chegou o ar do Natal. Era um friozinho fino a infiltrar e dizia-me o senhor que passeia um cão que também já me conhece, arrefeceu. E eu que fico contente se há frio e estou agasalhada, apressei-me a acrescentar, e vai piorar. Isto, com o ar satisfeito de quem pensa, agora é que vai ser bom.

E já vai sendo tempo de deixar aqui o meu desejo sincero de Bom Natal para todos.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Visita de Natal

 

Ganhei mais um livro. É verdade que o esperava e portanto já são três, uns sobre os outros. E ainda aguardo um ou dois.

É deveras insólito ver chegar os amigos de máscara e senti-los depois preocupados e   a isolarem a respiração se estamos próximos. Ninguém quer contrair o vírus e ter a doença para que não há antídoto, todos enxotam a morte como podem, xô, xô, xô. Estranhos tempos vivemos. À mesa, como que nos esquecemos de precauções, mas notam-se as incómodas paragens na conversa que deixou de ser palavrosa, há hiatos de silêncio, espaços brancos a decepar a naturalidade. No pós almoço, sou informada acerca do presente, mostram-me os projectos futuros no portátil, negócio pronto a ser lançado ao mundo digital e  que o vírus não impede e talvez potencie.  E gosto de ver gente assim, como deve ser, que não baixa os braços e é actuante e vivaça.  Gente que descansa mudando de actividade.  Depois…bom, depois lanchamos, que as leis do confinamento os querem cedo em casa e a idade ajuda a puxar cada um para o ninho. Constato que o vírus é mal estar que não previ, mas existe até sem ser nomeado. E saem. Quiçá aliviados e temerosos.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

A Roupa do Dia

 

Chegou a minha segunda prenda,  outro livro. Que encontrou poiso sobre o primeiro. Seguro e incógnito. Vem de uma amiga quase barricada em casa desde Março, pergunto-me como aguenta. Mas o livre arbítrio de cada um faz os arrojados e os temerosos. E em questão de liberdades individuais, não colocando terceiros em perigo, ordena o discernimento de cada um. Talvez ela peque por excesso e eu por defeito.

Li sobre a importância das pequenas coisas, das rotinas que cumprimos com prazer por prazer serem. Dos pormenores que preenchem os espaços da vida e não importam a ninguém senão a nós, nos instantes em que importam: o quadradinho luminoso onde nos aquecemos ao sol de inverno, os desenhos trémulos que a luz solar faz e desfaz se um ventinho agita as folhas da árvore, a voz de alguém a dar-nos pertença, leituras que agradam e deixam a sensação de que o autor as escreveu para nós, o que nunca é verdade, mas também não é mentira.

Ouvi numa entrevista à autora do livro O infinito num Junco que as bibliotecas antigas eram lugares sem o silêncio que hoje as caracteriza. E isto porque, não existindo ainda a pontuação, havia a necessidade de ler em voz alta para capturar o sentido do que se lia. Imaginei aqueles homens a ler em laboriosos e incipientes livros manuscritos que deviam ser raros e diferentes dos práticos livros que carregamos para onde queremos, que dobramos e a que marcamos páginas, onde sublinhamos e escrevemos anotações. Que, enfim, banalizámos. Os antigos liam pouco e poucos eram os que liam. Faltava-lhes a fluidez que nos caracteriza, liam provavelmente a silabar e a repetir uma e outra vez até fazerem visível o que já lá estava e antes era oculto. Nesse tempo, não existiria a noção de leitura silenciosa. Assolou-me a gratidão  de ter vindo ao mundo no século XX quando a escrita tem forma límpida e universal. Mas quanto se fez antes de nós para guardar a perecibilidade do mundo. Na sofreguidão dos dias, tragados pela voragem, pouco nos lembramos que a escrita é a guardiã da memória.   

 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Luzes de Natal

 

O serviço de correios já me trouxe a prendinha da minha amiga A, amiga de alto gabarito, um A+. Foi a primeira e está no meu quarto sobre a cómoda, entretida a emitir sugestivos desafios a que faço orelhas moucas. Diz ela a toda a largura do papel de embrulho, espreita só, não precisas abrir tudo. Sei que é um livro e de que autor, só não sei o título e faço questão de continuar a não saber para que haja algum suspense no desembrulhar. Mas é claro que a verdadeira surpresa está em lê-lo e é esse um dos motivos por que gosto de receber livros, são prendas com expoente, eu elevo-as ao quadrado. Isto apesar de não ter lido vários que comprei na Feira do Livro e alguns que recebi no aniversário. Se o maldito vírus passe de lado, vai ser um inverno erudito.

A tem gosto e modos delicados, voz profunda e canta muito bem. Faz parte de um grupo coral e, por vezes, vai buscar o livro das músicas e põe-se a desfolhá-lo trauteando uma aqui e outra ali, enquanto eu vou enfiando esses momentos no colar de recordações comuns. Há horas em que as boas recordações valem em dobro, acodem-nos. Gosto de sua casa por tudo, mas não aprecio o inverno na casa.  É uma moradia luminosa, arejada e, muito importante, tem bom ambiente. As flores gostam tanto do ar que ali se respira quanto eu. Crescem e encantam. Ofereço-lhe umas coisinhas minorcas e quando regresso estão irreconhecíveis, prosperaram no encanto do lugar e vivem ali a contento, sorrindo confiantes, braços abertos. Às vezes entra-me certa inveja da simplicidade floral. Flor não pensa e vive de luz, terra e água.

 

domingo, 13 de dezembro de 2020

Estranheza

 

Vem por aí um Natal atípico. Mas, liga-se a tv e nem parece.  Como em anos anteriores, já começou a publicidade massiva a perfumes e joias, os supermercados exibem as iguarias da quadra a preços desafiantes; um publicitário de excepção consegue ressuscitar o espírito natalício e apetece participar da ficção, sentarmo-nos à mesa familiar que ali se vê. Mas também às ruas chegou o natal. As autarquias apressaram-se a enfeitá-las e brilham iluminadas por mil cores, talvez na tentativa de alegrar o espírito de quem as percorre. E há gente que não se demora, as mãos ocupadas pelos sacos de compras, quiçá na pressa de cumprir confinamentos impostos de fora e de dentro, que os internos não são de menor rigor. Todos assistimos à azáfama das compras. No Porto. Em Lisboa. E todos reparámos na falta de entusiasmo de quem anda este ano na rua em busca de presentes.  Onde se terá metido a descontracção de flanar de montra em montra na procura do que mais possa agradar aos outros. Que é da nossa disponibilidade sentada num café a apreciar os passantes carregados e felizes. Onde o vagar de nos sentarmos a ler pedaços de um romance e de outro, a fim de escolhermos o que mais se adequa. Hoje fazemos compras de Natal com má consciência, apressados, em exercícios de toca e foge, quase como ladrões inexperientes.  

Estamos à beira da vacina. À beira de um novo ano. À beira de ficarmos ainda mais pobres e endividados. E tanto desejamos recuperar a vida como a conhecemos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

A Música do Natal

 

Talvez o Natal não seja apenas o nascimento de um Deus de Amor. Talvez não se cinja ao rememorar da infância ou a esse tempo de trazer à tona a criança que existe dentro de cada um e se vai calando e fazendo tímida na voragem dos anos.  Quem sabe os festejos da época não apenas ressuscitam quem fomos mas, sobretudo, procuram realizar as falhas da infância. E, ao invés de tanta coisa que existe, desejemos emendar e tornar quase perfeitos os momentos de união familiar que não tivemos. Não deve haver outra forma para explicar o que nos move no Natal. São os pinheiros, símbolos daquele que invejávamos guardando o presépio da igreja e a fazer peito a fitas ouro e prata, uma estrela de cartão lá bem no alto a coroar-lhe a importância. E depois há os enfeites, os laços, as velas, o azevinho e flores de Natal que antes desconhecíamos e hoje espalhamos pela casa em jeito de festa que irradia. E o aconchego de lareiras natalícias que nos pertencem e antes, por ausência da tv, eram ignotas peças. Na sala, a mesa posta dias a fio com as iguarias invejadas e que só conhecíamos dos lanches dos cinco nos livros de Enid Blyton. E, na manhã de dia 25, surpresa!, os sapatos à chaminé ajoujam sob embrulhos ataviados.

Que longe estamos da aldeia sem luz eléctrica; do embiocado xaile negro das velhas; da felicidade pelo gatinho ou sombrinha de chocolate dentro de um sapato; da nossa algaraviada a caminho da igreja, os pés a tacto, evitando o concavo das poças de água no chão. Mas foi assim que nos cresceu o amor ao Natal.

 

sábado, 5 de dezembro de 2020

Os Últimos Serão os Primeiros

 

Por vezes julgo que este meu exercício da banalidade, do comezinho desfrutável, é apenas caminho de fuga a incómodas verdades que o mundo exibe, às suas feridas e pústulas assanhadas e insanáveis. Provável mecanismo de defesa ou só mania de carácter. O certo é que, enquanto outros exaltam isto e aquilo, croniqueiam sobre este ou aquele descalabro, se insurgem – justamente, diga-se – contra determinado espírito que grassa, um ou outro figurão que é apenas uma triste figura, eu estou nisto. Enquanto o perigo da direita mais asquerosa se vai exibindo aplaudido pelos exponenciais descontentes do sistema, enquanto isso, finco-me num quotidiano insosso e remendo-me cerzindo vagares a ponto certo, no tecido cada vez mais esfiapado que nos veste. Desentendo-me do vírus que nos manieta, de máscara e álcool-gel, dos avisos médicos e da vacinação, da Tv em geral. Alieno tudo se passeio manhãzinha, o frio a bater-me no rosto e o nariz em humidade ressentida. Tanto assunto importante, questões de vida e morte, e, sei lá porquê, o pensamento fixa-se naquela mulher que cosia. Dias inteiros de magreza virada à costura, dedos longos e mágicos alinhavando informes bocados de tecido que os pontos nomeavam. Era assim que lhe nasciam mangas e rodas de saia, cabeções e cintos, bolsos e casas de botão. Eu maravilhava na arte sacra de casar quadrados e listas, enviesar godés, passar alinhavos num pregueado de fita métrica.  Sentada num banquinho baixo, vestia negro rigoroso, luto eterno pela filha morta aos dezanove, flor tão rara como não vi outra e como cantava bem "conta a lenda que certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar...". Bela e doce, a garota era amada e estimada por todos. Até ao namoro fixo, os rapazes  casadoiros disputavam-lhe a atenção e qualquer mãe a desejava na família. Era do conhecimento comum, por gritos e serrabulho masculinos, que dentro de casa amparava as penas maternas, oferecia o corpo como defesa e acarinhava contra as porradas da besta que mandava e desmandava a seu bel prazer. O pai era um casmurro que nem os bons dias dava e a quem a mulher falava e servia docemente, sem queixa ou lamento. Casados os filhos homens, ficaram as duas à mercê da tempestade, e o que se soube sobreveio dos desacatos a que o animal se entregava.

Vejo-a muita vez assim, a memória traz-ma a coser, dobrada  à desgraça de vestir a sua menina morta e casada in extremis com um namorado desfeito. E enquanto a agulha atravessa o tecido maquinal, confidencia, comprei o vestido de noiva que tínhamos visto as duas no Tito Cunha, tanto que ela o sonhava e nunca se viu com ele vestido. E as duas lágrimas presas no virar das pestanas descem até aos óculos que retira, a menina desculpe estas lembranças tristes, não tem nada com isso, mas para que é isto bom.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Devoção Diária

 

Não sou muito afim de devoções. A devoção é da ordem do sentimento e leva-nos a fazer alguma coisa, acto que, no caso, se repete diário. E difere de obrigação. Embora infinitamente  repetido,  o acto devoto é livre e relança o sujeito face ao objecto, num apelo sempre desejado. Mas a devoção coloca-nos de joelhos em relação ao objecto que é, de uma forma ou de outra, admirável.  Subentende-se que há diferença muito clara entre os dois intervenientes, e se em alguns casos pode ser abismal, noutros, é apenas notória desigualdade, o objecto de devoção é reconhecido  como qualitativamente superior e com poder incomum enquanto o sujeito lhe é eternamente submisso e grato. Há algo de filial na forma como um sujeito se devota a um objecto. Vista à lupa humana, parece uma relação de excessos: do sujeito devoto que se entrega, espera e confia; e do objecto de devoção, poderoso e condescendente no que toca ao sujeito. Sendo excessiva, sentimental e emotiva, é relação que não classifico de irracional, mas me parece escapar, ao menos parcialmente, ao movimento da razão.

E ficaríamos assim se não fora eu reconhecer que o homem precisa de devoções comezinhas e sem essa aura de quase sacralidade de que se alimentam os devotos. Talvez haja um sagrado quotidiano a repetir-se nos homens. Dá pelo nome de amor e não espera do seu objecto nada de transcendente, mas toma-o sempre pela infinita diferença e unicidade e sabe, sem ter aprendido, que só ela lhe serve. Creio ser assim que se gosta de um filho e de alguns outros poucos amores que não são de passagem e na fugacidade da vida se demoram.