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quinta-feira, 26 de março de 2026

Ponto por Ponto

 

        Repito o que já frisei aqui, invejo as mentes que, quotidianas, escrevem sobre assuntos diversos, as que nunca se imiscuem neles particularmente e antes os tratam com a objectividade de observador. Invejo aqueles que postam quase com o calendário – e mesmo dia a dia –, conseguindo que nada lhes transpire da vida que vivem, de quem os rodeia, de como agem e pensam no particular de si mesmos. Ah!, podem dizer-me, mas todos nos revelamos no que escrevemos. Balelas. Não acontece a todos, não senhor. No mundo da blogosfera existem personagens impenetráveis, uns porque criam aqui uma personalidade diversa, são outros e exercem o seu direito a sê-lo; aqueles, porque sendo si mesmos, cortam com todo o particular que possa identificá-los – nunca saberemos das pequenas arrelias que os invadem, das tristezas casuais ou intrínsecas que os digladiam, dos desastres que o quotidiano despoleta; dos desgostos que sofrem. E estes personagens – que são mesmo personagens, ficção que outros vêem como realidade – fazem-me pensar que sou ovni e no que raio ando aqui a fazer. Cheguei por vontade mas desprotegida do eu fictício e, mau grado esforços porfiados, ainda vou deixando por cá a pele que me veste desde sempre, aquela que cresceu comigo e comigo envelhece, enruga e encobre todas as misérias que humanamente nos constituem. Esses outros, não! Deixam pele falsa, podem despi-la quando queiram, mudá-la; transformarem-se; cessar a existência se assim o entendam ou a sua necessidade de mudança tal lhes aponte. Tenho para mim que só eles são os verdadeiros bloguers, os escritores conhecidos ou sem nome. Bem sei que existem os influencers, mas a esses não os coloco dentro do grupo de bloguers habituais. São categoria que me desinteressa e a que nem atento.

        Reconheço-me muito sem assunto, tanta vez aqui chego de mãos e mente vazias. Alinhavo umas palavras quaisquer e depois ou me vem coisa que lhes pegue, ou apago esse começo e vou andando por outro que entretanto surge. E há também aquelas horas em que me parece haver um tema e mão e mente contrariam, seguem outro caminho; deixo ir, tanto dá passar por aqui ou por ali, é tudo muito irrisório e bastante igual a quase nada.

        Poderão pensar, e as histórias?! Bom, as histórias eram a construção da vida dos outros e o mundo que conheço visto por olhos meus. Tão expostos, santo Deus! Tanto de minha lavra que os próprios seriam incapazes de identificar-se nos personagens – alguns existiram ou existem ainda. É certo, amigos e amores permaneceram intocados. Nenhum dos meus personagens os copiou ou copiará. Eles são a sacralidade que guardei, guardo e defendo com unhas e dentes. Tudo o resto é dizível, verbalizável, volátil. Amores e amigos - que também são amores os meus amigos - permanecem, são a brevíssima eternidade que se me colou. Talvez sejam mais imaginários que reais, mas pensar desse modo desanima; portanto, não penso. Não quero nem posso dar-me ao luxo de perder companhia já de si exígua. Visitamo-nos a espaços para nos certificarmos uns dos outros, matarmos saudade e robustecermos, em horas sempre breves, o fio que nos une. Porque os olhos se precisam e é só neles que a falta sentida na alma se faz transmissível.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ambiências

 

        Pouco me visitas, ou será o meu eu materno a queixar-se. Chegas (quase sempre) carregado. Entras pelas traseiras, pousas o saco de viagem junto à máquina de lavar e, num meio sorriso, desculpas-te por ser roupa de quinze dias e que precisas levar de volta. Sendo inverno, o fim de semana faz-se de cordas cheias desde cedo e, de tarde, à hora em que a humidade se agarra às coisas, as peças terminam na máquina de secar. Entre almoços e jantares, estendo, engomo, dou uns pontos. Acompanha-me o prazer de estares presente e colaborares no estendal ou no dobrar das peças. Reparo que, ou não sais de casa, ou te escapas brevemente, com o único amigo que inda tens por cá. Não te lembras já das nossas conversas antigas, quando reivindicavas que as tuas amizades estavam todas aqui e seria sempre assim, eu a contrariar mansamente a tua opinião acerca de amigos inabaláveis, a dar-te exemplos pessoais. A juventude é, nas suas convicções, força intransponível. Mas o tempo ensina.

        Quando sais, o teu quarto fica tão arrumado como antes de chegares e, se penso nas tuas visitas, noto que sempre encontras um tempo para conversarmos a sós sobre filmes, livros, espectáculos. Aconselhas-me esta ou aquela fita recente, perguntas por livros, falamos acerca de viagens que pretendes fazer. Tão natural nas dádivas como cortante nas recusas, desta vez pegaste no portátil e deixaste-me o Filmin. Conversando, foste olhar-me a engomar as T-shirts que dizes levar mais tempo a passar e ficarem piores; depois experimentaste. E corrigiste alguns pontos. Trouxeste-me um diário comprado para ajudar um gatil. Não sei bem o que fazer com ele, a persistência não é o meu forte e a palavra escrita é pouco secreta.

        Quando partes, a casa arrefece. Mas é assim mesmo, pertence.

domingo, 10 de agosto de 2025

Rabugem

 

        Quando criei este blogue – já não sei se este, se outro que tive e perdi no inúmero volátil das palavras -, propus-me a um optimismo que não me pertence: escreveria sobre assuntos diversos de amarguras e tristezas, faria uso de termos e sentidos edificantes como tanto leio noutras janelas onde passeio e daí que por detrás suponha pessoas extraordinárias, condição a que nunca acederei; elas não se desnudam, escrevem sobre o mundo; e o que pensam é invariavelmente muito à frente do que eu mesma sei ou imagino. Os seus propósitos são próximos ou coincidem com o dever ser. Dão-me a ver gente de boa índole mental. Que tudo o resto, e mesmo isso, é um “supônhamos”.

        Regressando ao assunto, propus-me discorrer criticamente sobre aquilo que menos me move neste meio: os desmandos e deformações do mundo em geral, mais a loucura de seus ocupantes. E, óbvio, contava histórias. De tudo que me propus, o que mais fiz foi contar histórias; e dessas, também a minha. Devo ser a pessoa (ou das pessoas) que mais se desnuda na escrita. Talvez me invente um bocado: a família não crê em quase nada do que digo, se conto factos que não presenciaram. Este anátema persegue-me, ainda que seja verdade integral, levam tudo por conta do meu imaginário. Parece agradável? Não é. Negam-me verdades à descarada; e desdizem-me peremptórios, afirmam mesmo não terem dito o que disseram e tenho presente. “Inventaste!”, é escolho que serve muito tema e sempre me pica.

    Uma das manas proibiu-me sem delicadezas a repetição: “já contaste isso, por que é que não te calas? Tens esse hábito de contar tudo mais de uma vez e com todos os pormenores, assuntos que não interessam nada”. E eu, cordata e sob o silêncio geral, prometi que não conto mais e vou ter cuidado com as repetições. Mas fico a pensar em quantas vezes ouvi dela as mesmas histórias e nem aflorei que já as ouvira. Porquê? Por achar natural que tal aconteça; avalio serem assuntos que a moem e se tornam mais leves se os contar de novo; ou penso ter-se esquecido que já os sei e ouvi-los não me faz, sinceramente, qualquer diferença (por temperamento é mais calada que eu, se conta, quase agradeço). Embora dentro da esfera familiar, manifesta-se sempre publicamente e fico um bocadinho sem reacção; fiz por ela o mais que consegui e voltaria a fazê-lo se fora necessário. Falar demais será defeito meu a que a circunstância dá uma mão – gasto a maior parte dos dias sozinha. Creio que também ela envelheceu, que a vida lhe foi difícil e a idade a está fazendo intolerante aos defeitos e feitios de cada um. Não duvido que me estime, embora sempre tenha pensado – quiçá orgulhosa e erradamente – que gosto mais dos meus amores que eles de mim. E um destes dias disse-me, de novo em família alargada e quando interrompi uma conversa para contar algo a propósito, “tu és sempre assim, também já te aconteceu tudo que contamos e tens sempre que meter a tua história, mas ninguém te perguntou, por que é que te metes? Tens esse defeito.” Respondi que tal observação me desagradava, mas, calmamente, dei-lhe razão e fiz, faço e farei propósito de emendar o comportamento. E ela – na presença dos vários e mudos terceiros -, nem entendo por que é que te aborrece, eu gosto que me digam os meus defeitos, assim posso emendar. Pensei que ora me encontra e expõe defeitos em demasia (há outros que não vale a pena citar) e que sem eles eu seria uma perfeição de pessoa, o que não me interessa um chavo.

        Acontece ter posição diversa: levo-lhe as características (as que me parecem menos agradáveis) à conta do respeito pela sua maneira de ser, e julgo haver muito mais para admirar nela; portanto, aceito sem crítica. E pensei ainda que, desde a adultícia, nem uma vez a critiquei; será ela perfeita?! Ou erro de novo em não criticar aquilo que é nela mais característico e nem considero defeito, embora não aprecie grandemente?! É que não sei mesmo. Sei o que não farei. Posso aconselhar isto ou aquilo. Não tenho arte para mais.

        Portanto, vou ter cuidado na sua presença: não lhe interrompo conversas com achegas ou histórias e tento não repetir nada. Prometi. Cumprirei enquanto conseguir morigerar-me. É mais um cuidado dos tantos que já tenho – cada dia nos tornamos menos livres no contacto com os mais próximos; se calhar tem que ser assim mesmo. Vamos acabar mudos como texugos (serão mudos, eles?!)

        A idade transforma-nos. A mim debilita-me o físico e pelo visto, faz-me ainda mais faladora do que sempre fui (queria morrer gasta - encontro-me em processo de aceleração contínua). A outras pessoas debilita a mente. A uns torna débil a paciência. Outros tornam-se intolerantes à lactose e a terceiros. Sabemos lá nós para o que estamos guardados! Urge encontrar um meio termo entre a liberdade que nos falta e o respeito pelo que os outros desejam que sejamos. Viver é complicado até ao fim. Mas, já perto do final, aprendemos coisas que gostaríamos de ignorar:))

Beijinhos e desculpem o desabafo


Nota: tenho a gata adormecida a meus pés. Só (n)as madrugadas nos pertencem(os).

sexta-feira, 4 de julho de 2025

A Canção da Cerejeira

 

        “Na Primavera disse Deus: Ponham a mesa às lagartas. E a cerejeira cobriu-se de folhas, milhões de folhas verdejantes e fresquinhas”… Era assim o início da lição que a nossa inocência preferia e a mente guardou. Nesse tempo de haver tempo, contávamos as atentas lições que faltavam para chegar ao prazer de coisa tão bonita. “A canção da cerejeira” era objectivo comum de leitura, embora só alguns – os eleitos pela mestra – lessem alto breve trecho; a voz dela, “continua o X; e depois, continua o Y; e assim por diante até à última linha. E nós anelantes, cada um desejando ouvir o nome próprio e saborear o prazer de reler para todos um bocadinho do texto que quase sabíamos de cor. Portanto, antecipávamos, escolhíamos e discutíamos a parte sonhada nossa.

        Visto à distância, parece-me que nunca me foi dado o ensejo de. Mas subia-nos o desejo das cerejas, crescia na proporção do imaginário que amadurecia os frutos. Conhecíamos a árvore, existia uma a meio de um vedado pomar, olhos de hortelão vigilante a truncarem planos de pequenos larápios e pássaros, a cerejeira tão engalanada de espantalhos como os barcos de pesca na procissão deslizante das festas de Nossa Senhora da Boa Viagem. Vislumbrávamos de longe parte da copa do objecto desejado, impossibilitados de entrever os frutos vermelhos.

        Entre nós, um único garoto tudo arriscara para as provar; o Faísca, rápido como um gato, conseguira iludir o cão de fila do hortelão: esgadanhou-se cerejeira acima e encheu os bolsos. Porém, ao pular para o chão, logo foi filado e abanado, as indiscretas cerejas caindo em cadeia dos bolsos esgarçados, linhas em fim de vida descosendo de exaustão. O velho afivelou-lhe as tenazes dos dedos e, num relâmpago, anulou o prazer que a boca antecipava. E, no momento breve da surpresa paralisante, o Faísca ganhou velocidade com um pontapé no fundilho dos calções, acrescido de impropérios habituais, desfaço-te as fuças se tornares; ou, monto a ratoeira das raposas e sais daqui com uma perna a menos. Vocabulário simpático, siamês de olhos carrascos e fosforescentes.

        O garoto contava e recontava a façanha revivendo a aventura. Arqueava o lábio superior num sorriso de triunfo que lhe chegava à melena namorada do nariz e frisava, Mas provei-as! O velho esqueceu-se de uma; era encarnadinha e redonda que parecia mesmo um coração. Tão docinha! E nós impressionados dele e da cereja, mas sem lhe conhecer o gosto.   É assim o palavreado, um gosto que não é, se a experiência ausente.

        Quantos anos medearam até provarmos cerejas! Tantos. Enquanto esperávamos, a cerejeira do pomar envelheceu, deixou de dar frutos e os espanta pardais lá no cimo, desconcertados e tortos, cada vez mais desconjuntados, que fazemos aqui?! Mas Deus esquecido das quatro estações mais seus efeitos na cerejeira do pomar. Deus talvez atento a outros lugares, talvez revendo-se no espectáculo de milhões de flores nas cerejeiras novas que tanta falta fazem às abelhas, cujas muito nos faltam a nós. Deus absorvido no pormenor dos recomeços.

        Só na nossa memória colectiva as cerejas surgem de cambulhada com uma lição do livro de leitura e uma cerejeira que alguém deitou ao lixo ou queimou num inverno de lareira. Essa é a nossa cerejeira. Enlaça-nos em cada estação. E onde um dia regressaremos. Talvez. Entretanto, hélas!, vamos comendo cerejas.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

A Doçura das Manhãs

 

        Havia um silêncio rodeando a casa quando minha mãe me acordava brandamente. Sentia-lhe a mão passando de leve no meu rosto, candeeiro a petróleo pousado na mesa de cabeceira. De seguida, “filha, são horas de estudar”. E era assim todos os dias da semana, exceptuando domingos e feriados.

        Talvez o inverno fizesse ouvir o vento no pomar ou agitasse por demais o damasqueiro que beirava a janela do meu quarto e de que não pressenti, nem uma única vez, murmúrios ou fúrias, o cansaço a tesourar-me as noites. Talvez a chuva me lembrasse a molha futura, o vento dobrando-me a fragilidade - a bicicleta, nas subidas contra o vento, pesava mil quilos e, por mais que forcejasse nos pedais, a roda dianteira parecia colar no alcatrão. Nesses momentos de esforço supremo, um carradão de livros e lancheiras no suporte a desequilibrar, lembrava-me dela e do tanto que fizera e pedira para me manter no colégio. Então, reunia tudo o que me restava e, mau grado intensa dor nas pernas de aranhiço, a roda movia-se: a contragosto, o pneu começava a descolar e percorria em vacilantes passinhos de bebé o meio metro de incentivo que decidia o resto da subida. Por isso, enquanto estudava junto ao calor da chaminé, o vento encanando em assobio que nos enchia a cozinha de fumo, por entre lágrimas involuntárias e fumarentas, pedia a Deus a mercê da sua ausência na travessia. Que a chuva matinal  incomodava ao longo do dia, na viagem fazia-se refrescante, tocava-me a pele e escorria rosto fora, seguindo pescoço abaixo até onde. E idem para as pernas, a capa de chuva extravasava desculpas, lágrimas em fio, não consigo mais, queria tapar-te toda mas não dá. E eu, olhos de chuva pestanejante, atenta à estrada e ao trânsito, já me atrasei, não estou a encontrar os automóveis do costume. E tentava acelerar. Mas saia e bata coladas nas pernas ditavam o avanço dos pedais. Então, preocupava à lembrança da querida amiga que me aguardava, decerto já de portão aberto e toalha pronta a enxugar rosto e cabelo.

        Chegava. E, enquanto eu me enxugava em rompante atabalhoado, ela desatava-me o material do suporte da bicicleta. Logo após, a nossa corrida até ao colégio e o aviso de sua mãe a fazer-nos ligeiras, ai filhas tão atrasadas que estão. Nós duas estrada fora, assolapadas de livros e guarda chuva. Eu, desarrumada de todo, a desviar dos olhos uma catrefa de cabelos húmidos, e uma cambulhada de livros e cadernos sacolejando na mala à dependura do ombro. Quanta ternura de aconchego devo a essa menina-mulher e a seus pais que, sem paga ou moeda de troca, sempre me acolheram e deram a mão em tempos de voz áspera. Foram a minha segunda família e nunca saberão quanto lhes invejei o viver harmonioso. Era o tempo da inocência egocêntrica.

        Guardo dessas manhãs comovida recordação: durante duas horas, estudava e tomava o pequeno almoço enquanto minha mãe apenas se ocupava de mim – fazia o desjejum das duas e o meu almoço, passava a ferro de brasas o meu fato de ginástica e, nos dias em que eu estudava até ao último minuto, atava-me a pasta e o saco do almoço no suporte da bicicleta e retirava-a de casa, trazia-me a bata e ajudava a abotoá-la, segurava a bicicleta para que a montasse, beijava-me com os olhos que só ela tinha e eram meus, e com eles me seguia até que eu, aos esses no caminho, equilibrava na descida do monte e fazia a curva já senhora do veículo.

        Não ficam em branco os defeitos que já me dardejavam irreflectidos: vezes existiam em que pedia a minha mãe para acordar mais cedo a fim de estudar; ela prometia, mas acordava-me à mesma hora aduzindo que fora ao quarto e eu dormia tão profundamente que lhe faltara a coragem. E eu não conseguia ver o amor por detrás, invectivava, quase chorava, culpava-a por um possível decréscimo no resultado do teste. Em suma, feita estúpida, aborrecia-me com ela. Não via o amor subentendido. Fazia-me ignorante de que ela sim, acordava duas horas mais cedo, duas horas que roubava ao descanso e lhe encurtavam as noites, cento e vinte minutos que me consagrava quase inteiramente. Como os filhos podem ser cruéis, ainda que o não desejem ou sequer notem. Sobretudo por nem sequer o notarem.


domingo, 12 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

A vida corria devagar, eu saltitando entre a minha casa e a dela. Não senti muita saudade do tio que me sentava nos joelhos e que construíra casa e se mudara cedendo o espaço à filha. E o novo lar era-me muito mais agradável. Podia, por exemplo, mirar-me no tampo espelhado da mesa. E nas janelas havia cortinas de florinhas em tons de claridade; enfim, sendo a mesma casa, parecia-me outra e, mal ela chegava do trabalho, escapava-me até lá. Tinha perdido o companheiro das torradas, mas encontrara onde espraiar a minha vaidade e debruçava-me sobre a mesa, qual narciso.   

Ora o que caracteriza a novidade é surgir súbita e filar-nos pelo inesperado.   Foi assim que ela veio agitar-me as meninges: minha mãe, que engordava a olhos vistos, disse-me que ia ter um(a) mano(a). Os meus seis anos acreditavam que os bebés vinham de França no bico de uma cegonha – tinha-mo garantido o senhor farmacêutico, cara séria, bata branca e óculos de respeito; portanto, era por força verdade. O dito senhor, ouvira o meu perguntar sobre aquela cegonha bem à vista de todos, no interior da farmácia.   O animal – em relevo e de perfil - tinha suspensos no bico uma fralda com um bebé dentro; encontrava-se em posição de vôo, patas para trás e asa alçada. Devo dizer que, até à intervenção do farmacêutico, desconfiava bastante da cegonha da farmácia, o que me levava a perguntar e perguntar, preocupada com o facto de ela poder deixar cair a criança quando, por certo distraída, abrisse o bico.  Além disso, as cegonhas que eu conhecia, de certeza que não tinham força para transportar um bebé. Portanto, dúvidas sanadas, não estranhei minha mãe ter encomendado um bebé à cegonha (não que ela alguma vez mo tenha dito nesses termos). Enchi-a de perguntas até ao exagero sobre a lonjura de França, se a cegonha comia ou não comia no caminho, se dormia, onde depunha o bebé durante o sono, coisas destas. Hoje penso que, estranhamente, nunca perguntei como fizera a encomenda. Desde a conversa do farmacêutico, se acaso passava uma cegonha, eu olhava-lhe o bico e a parte inferior ainda assim não fosse uma das que traziam bebés. Não consegui ver nenhuma dessa qualidade. E, para minha alegria, daí a um mês ou dois, a minha amiga e vizinha, num dos dias em que me mirava no seu espelho de verdade (viva o luxo!), disse-me que também encomendara um bebé e a cegonha havia de trazê-lo daí a uns meses. O esquisito era que também ela engordava. Receios dobrados. Eram duas casas tão próximas, e se a cegonha se enganasse na encomenda?! Mas ambas me garantiram que a ave transportadora chegava em tempos diferentes e podia descansar, não havia hipótese de trocar os bebés. Quando minha mãe tinha um barrigão que se agitava ao toque e mesmo sem ele, compreendi que o farmacêutico era um mentiroso. A mãe afirmou que ele gostava de contar histórias, não era bem um mentiroso. Mas não me convenceu, um senhor tão senhor, bata, gravata de nó, óculos... e a mentir-me. Foi assim que soube/adivinhei que o bebé estava dentro dela e me contou que precisava ir para o hospital para o porem cá fora. Fui logo contar à minha amiga, não andasse ela a pensar na história da cegonha. Ela num sorriso, põe aqui a mão; senti a barriga dela a mexer de leve, havia um bebé lá dentro. Não pensei em como lá tinha ido parar. Esse esclarecimento veio-me de colegas de escola. Pareceu-me natural ainda que, dormindo no quarto de meus pais, não tivesse dado por nada. À infância interessa a resposta ao que foi perguntado; o resto é apenas curiosidade leve, passa sem mais.

(cont.)

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Senhora Minha

 Hoje sou sua amiga e da filha mais velha. Um dia, tomando chá as três, ela contou que me ouviu o primeiro choro (nasci em casa) e que sempre fui mimada por seus pais - foi a minha época de querubim; sobram-me nesgas em clarão, sóis fosforescendo na neblina dos anos. 

Lembrámos isto e aquilo e recordei-lhe o pai que bem cedo se foi desta vida. Gostava quase tanto dele como de meu avô. Conhecia-lhe a fadiga arrastada no regresso do trabalho. E ainda a silhueta lhe desaparecia na esquina e já eu, se minha mãe não me segurava, corria desarvorada até à sua porta traseira. Por vezes,  chegava-lhe à cozinha e ainda ele de enxada ao ombro e cesto da merenda na mão. Fazia-me sempre boa cara, e mais parecia que não nos víamos há séculos, o "Olha a Bea" enquanto eu lhe abraçava as pernas, era tão ou mais acolhedor que os beijos que não me dava. Pousava a cesta no seu canto e, quando ia deixar a enxada na barraca, já me carregava no colo. Depois, sentava-me à chaminé onde o jantar aprontava, deitava a mão ao saco da merenda e retirava as sobras do pão. Eu puxava um garfo da gaveta da banquinha, ele espetava-o no pão e fazia-lhe lugar junto às brasas.  Enquanto o pão ia torrando, perguntava, queres à rica ou à pobre? À rica, respondia com sorriso delambido. Ele sorria bonacheirão e barrava o pão torrado só de um lado. Empenhado na função, sublinhava  com pesar, escolheste mal outra vez, os ricos barram o pão só de um lado. E passava-me a torrada como que esquecido de mim, atiçava o lume com a tenás, ou levantava-se a esvaziar o saco do almoço e chegava mesmo a sair em busca de mais lenha. Depois, olhava de esguelha o meu desânimo - ainda estou por saber a razão deste desânimo diário, ele convencia-me sempre que daquela vez é que era a sério, teria de comer a torrada barrada só de um lado. Mas, face ao meu semblante triste e torrada intocada,  logo ele decidia, mas eu quero à pobre, vamos lá untá-la dos dois lados.  Depois do acepipe generosamente  completo, içava-me do banquinho pequeno e sentava-me numa das pernas - o banquito fora serventia dos filhos mas, com eles crescidos, não autorizava que saísse da chaminé,  é o banco da Bea. E ficávamos os dois a alternar bocadinhos de torrada que ele cortava a canivete. 

            Quando contei isto, subiu-nos uma saudade espessa, aquele homem morreu bem novo e houve lancinante padecer antes da misericordiosa morte. Então, sofri o primeiro nunca mais de um afecto. 

Ela recobrou do alheamento, sacudiu a tristeza e desfez o momento com outra história. Certa vez, era eu bebé, minha mãe tinha de sair e pediu-lhe que cuidasse de mim. E ela logo que sim, alvoroçada com a imitação de ama, orgulhosa da confiança. 

A princípio, tudo pacífico, eu sorria-lhe sossegada. Mas minha mãe demorou. E, ou por fome, ou por estar molhada, ou apenas por ter deixado de ver o rosto materno, desatei num berreiro sem fim. Ela abanou o berço, pegou-me no colo, ninou as canções que ouvia a minha mãe. Sem resultado, eu berrava cada vez mais. Afligiu, que diria minha mãe quando chegasse?! Então ocorreu-lhe que poderia estar na hora da mamada. E, na inocência dos seus treze anos, decidiu resolver o caso. Abriu a blusa e puxou o mamilo como conseguiu.  E muito se defraudou do esforço ao ver-me a estrebuchar, ela agarrando o peito que mal avultava e eu a repugná-lo fortemente e sem ao menos lhe tocar. E pronto, desatámos à gargalhada (ela, como minha mãe, apenas sorri). A filha admirada, ó mãe! Nunca me contou isso. E continuámos na risota.

(cont.)


terça-feira, 24 de outubro de 2023

Senhora Minha

         Conheço-a desde sempre. Lembro-a talvez desde os seus espigados dezassete anos e não sei de quem melhor case pessoa e nome. Não a vou denunciar, ignoro se apreciava ver-se aqui retratada. Foi minha vizinha directa desde que nasci até aos meus famélicos onze anos, quando meus pais construíram casa.  E tenho dela memórias vagas e comentários de mãe desconcertada, esta rapariga não pára de crescer. Ou num acinte de orgulho sussurrado a minha mãe e a que eu apurava o ouvido, mas já se notam os marmelitos.

        Falha dos obscuros mistérios da língua eu corria a observá-la. Encontrava-a quase sempre sentada num banquinho baixo a passajar, remendar ou, o que mais me agradava, de pé frente à mesa da casa de jantar, talhando aventais com um giz, mistério alienígena que, nas suas mãos certeiras, seguia tecido abaixo deixando um rasto branco e que, se eu avançava a mão,  não que tu estragas sem querer e faz-me falta. Espreitava-a sentada. Concentrava-me se ela estava de pé, olhos de raio x a percorrê-la. Mas, por mais que olhasse e estivesse atenta, não descobria  sinais de marmelos no seu corpo esguio. Mais nova que minha mãe, mas muito sua amiga, ela estranhava-me de tão quieta, queres alguma coisa, Bea. estás tão caladinha... Eu negava com a cabeça e palpava-lhe os bolsos em  busca dos marmelitos, ela julgando que buscasse rebuçados. Na terra que lhe pertencia, bem ao fundo, havia vários marmeleiros e eu conhecia o fruto e temia os ramos. O mundo da infância repelia a vara de marmeleiro quase na mesma medida do amor que consagrava à marmelada caseira que as mães arriscavam (o açúcar era  caro) se acaso alguém lhes dava uns marmelos ou possuíam a árvore. Acresce que os pais contavam histórias sobre sovas com vara de marmeleiro. E preveniam-nos acerca do desconhecido mundo da escola, habitado por professoras que as usavam para disciplinar alunos inssurrectos. Grandes pedagogos, os nossos pais.

                   Por outro lado, eu intuía que os sussurros eram os pequenos tabus dos adultos e que, como alertava minha mãe, se alguém segreda é porque não quer que se saiba. E não insisti no assunto, a infância  é fértil em novidades e mistérios.

(cont.)


domingo, 18 de dezembro de 2022

Sissi

 

Depois da inolvidável Sissi que Romy popularizou e gravou em mim, li outros romances e outras sínteses de filmes, na colecção que sabemos. Lembro-me de “A condessa descalça” e “O homem do braço de ouro”, mas foram muitos mais. Nenhum destronou a história de Sissi. Nesse tempo, já as galinhas tinham desertado do casinhoto e as restrições de minha avó empalideciam. Os livros seguiam a caminho de minha casa e a exigência era  ser minha mãe a escolhê-los. E assim acontecia, oficialmente; no particular, eu sugeria. Portanto, passei a ansiar as visitas de minha mãe a meus avós, facto que ocorria de quando em quando e, mal ela chegava, havia uma busca ao saco e um abraço apertado mais uma série de beijos a honrar os quatro ou cinco livros de que me apossava.

Porém, e contra todas as minhas expectativas, foi meu tio preferido o primeiro a desfear a imagem dos imperadores de conto de fadas. As suas opiniões caíam-me como lei, esse tio era a minha fonte de água pura. Julgava-o o mais inteligente dos homens, o mais paciente e alegre, o mais optimista. E tinha absoluta certeza, gostava de mim. Era-me indizivelmente grato todo o carinho que me demonstrava - fui a primeira sobrinha e minha mãe era a sua irmã preferida -. No mundo áspero dos homens, a sua ternura e desvelo enchiam-me o coração e faziam-me devota daquele amor que retribuía a mãos cheias. Mas, certo dia em que louvava o império austro-húngaro  e mais Sissi e Francisco José, meu tio atirou quase desdenhoso, olha que a história que tu leste não é igual à história que eles viveram. E, no meu pasmo essencial, deixou cair nódoa a alastrar: a imperatriz morreu assassinada e vivia a passear e separada do marido; havia muita gente que não gostava dela. Pensei que brincava. Mas negou, chegou mesmo a dizer-me que lhe tinha lido a biografia (explicou o que era uma biografia) e que o filme lhe fugia por muito lado.  Fiquei sem palavra. A mulher a sério não me interessava. Queria de volta a Sissi de Romy que meu tio partira e jazia sem conserto. Perguntei e perguntei. Mas o que ele contou desfez ainda mais a imagem. Não é fácil crescer.

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

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         Tanta vez a vida é o que tem de ser. Habituamo-nos. Corrijo, vamo-nos habituando a que ela nos contrarie as voltas, os desejos e anseios. Não que o hábito nos isole do sofrimento. Ao invés. Continuamos a mover-nos a desejo, sempre a desejo e esperança. A decepção e a mágoa  brotam dessa nascente que envolve expectativas goradas, castelos que afinal nunca existiram (que parvoíce, castelos), realidades feias demais, mas que se impõem e têm de ser.

Estou eu com estes ademanes, a fazer cama - por escrito -  a uma decepção a que fechei olhos (o desejo cega). Pronto, é certo que sou medianamente inteligente, mas tem vezes que funciono por likes, querem o quê. Não os do Face que nem tenho, mas os gostos amorosos, essa seda sentimental, cinta de pessoas e bichos. Bom, no caso, também alguns objectos, tive um despertador que me morreu de repente e foi como se me arrancassem uma unha a sangue frio. Portanto, está visto que era amor.

Pois é, leitor/a, foi triste o meu encontro com a Lili. A pobre está velhíssima, pouco vê, tem tumores e cataratas. Não creio que me recorde. O alheamento em que vive será um bem, está confinada ao sofá; ainda assim, teimava e queria voltar atrás e vir comigo. Nunca a Lili me festejou como a Violeta. A Lili era a doente e nós dois pensávamos (eu o pensei até à manhã de hoje) que a Violeta, toda alegre e irrequieta, lhe sobrevivia.  E não sabia eu que a Violeta era a mais nova, a que desatava numa correria mal me enxergava na lonjura? Sabia. Não sabia que era essa a que tinha morrido? Sabia. Mas acho que não quis saber. A minha consciência preferiu ignorar. Ou melhor, preferiu trocá-las. Portanto, era convicção, ia revê-la. Só que a realidade não deslaça. Impõe-se. Ordena. E eu sentada no anteparo do aqueduto a esperá-la. Imaginando-lhe os olhitos contentes e o pulo maroto que a deixava no meu colo. Mas chegou-me uma Lili cansada e vagarosa, velhice desinteressada do mundo. O senhor Zé notando-me a confusão reiterou, esta é a Lili, a mais velha. E ela dócil sob as minhas mãos, olhando-me triste como quem se desculpa da idade. A querida Lili que contra todas as expectativas, ainda resiste.

Penso no velhote prestes a perder a companhia de todas as horas e entendo-lhe a tristeza de fim de caminho. Confidenciou-me num encolher de ombros que o cardiologista já não quer operar. Cansa-se muito e a respiração, por vezes, é difícil. Mas não vai haver cirurgia.

Triste de quem é velho e pobre. De quem fica anos em espera, aguardando uma cirurgia que, diz o senhor doutor na consulta esperada, agora já é de temer, não vale a pena.  É isto que vale um velho sem dinheiro, pedidos ou conhecimentos. Só ele (devia bastar, não?). Uma vida de descontos e trabalho.

quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Voltar

 

É sabido que, de quando em vez, me nascem necessidades parvas e altero a ordem dos dias. Dos dias é como quem diz, nascem-me sextas-feiras a torto e a direito. Hoje, o dia inteiro foi sexta. Até aos milésimos de segundo. Até no forro e no avesso da nervoseira dos segundos, dentro dos bolsos fundos das horas, nas bainhas descosidas dos minutos. Sexta feira no completo de si.

E, portanto, deu-me para experimentar o passeio de quando andava sem pensar que tinha pés. E fui assim pela frescura apetecida de uma manhã feita bebé birrento. Que bom encontrar as mesmas casas a cheirar a lume de chão, e o cão que me segue em silêncio até ao fim do muro, por certo intrigado, que anda esta mulher a fazer no cedo. E o que eu desejava mesmo era ver a figura do senhor Zé lá ao fundo com as cadelitas. Anelante, virei a curva. Olhei. Nada. Devo estar mais pitosga que só dei pelo velhote já ele estava próximo. Atravessei a estrada procurando as cadelas que ficam para trás a cheirar tudo, ou entretidas em cumprimento animal, conversando de assuntos caninos, focinho com focinho com um cão ou outro que por ali vagueia. Mas não. O senhor Zé era árvore na beira do caminho, mais encorpado, cabelo embranquecido de todo e na figura uma tristeza resignada, um não te rales desleixado. Dei-lhe o meu sorriso mais amplo e saudoso – ou dos mais – e, a esquadrinhar as imediações inquiri, e elas. O velhote com olhos vagos, a Violeta morreu com um tumor; e a olhar-me, a Lili já não aguenta o caminho, está em casa, pouco sai do sofá. Fiquei sem acção, completamente desasada. Talvez tenha dito duas ou três frases das mais palermas que entremeava com,  e agora já nunca mais as vejo.  E saíam-me uns ós de pesar que não ajudavam. O velho moía o desgosto, não precisava o meu contributo. Mas a minha mente embarrancara. Não mais nos sentaríamos no muro a conversar, enquanto a Lili me saltava para o colo e a Violeta mirava do chão com seus olhos de catarata. Abalholhada, quase esquecia o saquito que trazia e lhe passei para a mão. Foi a primeira vez que o senhor Zé agradeceu. Antes, não éramos disso, o saco mudava de mãos como água que corre. Foi um obrigado que me soube a palmada nas costas. Para me dar ânimo. Ainda arrisquei, arranja um cãozinho pequeno. Mas ele negou, a minha idade já não dá para esses trabalhos.

Mas, quando me despedi, até segunda, virou-se para trás e, vem na segunda, então trago a Lili. Eu sei, vai parar muitas vezes para descanso do animal. Mas estou tão contente da atitude, tão contente por afogar a saudade da Lili. Apressei-me a desalojar o “nunca mais as vejo”.

PS: dói-me a porcaria do pé. Mau Maria.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Flores

 

O dia acordou doente por via do sol que cumpriu o horário, mas se apresentou olheirento. E as olheiras do sol espalham o amarelo deslavado pelas horas, uma cor desmaiando em fraqueza, coisa de tom aguado e reles que não vale o que come. Mas eu sei que, lá longe -não assim tão longe, só que a distância  fica bem ao texto, dá-lhe ar de história – o velhote, a Violeta e a Lili já saíram de casa. E temos encontro marcado. Quero dizer, não temos mas temos. Que é como quem diz, eu espero cruzar o trio; e eles, quero eu crer que sim, esperam encontrar-me. Pois é claro que não me apetecia levantar. Bom. Não podemos fazer só o que nos apetece. E o que num momento desagrada daí a dois ou três minutos pode tornar-se agradável. Portanto, além do meu pensamento matinal “tomara a noite para me deitar”, aponho flores: gosto de estar levantada, caminhar faz-me bem à psique, tenho saudades das cadelitas. E mais. Mas até sair de casa tudo está numa confusão de vai não vai, tão depressa penso, deito-me de novo, hoje não vou; como, mas o que fico a fazer já vestida e pronta, depois arrependo-me e não posso emendar que eles já chegaram a casa.

E afinal, saio. A aragem faz-me bem, mau grado a pressa dos dedos nos botões do casaco. Ao fundo da rua deserta pisca o carro daquela garota simpática que vi crescer e agora traz uma réplica no banco traseiro, roupão e chupeta, testemunhas de sono remanescente. Estão ambas às voltas com o trinco do portão da avó. Cruzo-as, a mascote vira-me a chupeta e a mãe sorri-me um bom dia de pressas de emprego. À medida que estugo o passo (ainda estou fresca e, ao cumprimento, entra-me certa vontade de viver) e saio do bairro, elas entram em casa. Na rua seguinte, sei do cãozito guedelhudo e silente que vem ver-me às grades do portão e depois volta para casa. E vejo o esforço daquele garoto que pedala, mochila às costas. Vem dos montes e já fez uma subida mais difícil que esta. Há-de chegar à escola antes dos outros, aquecido e cansado. No primeiro dia cumprimentei-o e ele ergueu os olhos da roda dianteira; no segundo, cumprimentámo-nos; agora sorrimos um para o outro e cumprimentamo-nos. Tem um sorriso tão bonito, ele. São doze ou treze anos e chamo-lhe olhos de azeitona preta. Parece-me que usa óculos mas não tenho a certeza; um dia em que a manhã arrefecia, trazia um gorro que lhe fica lindamente e me fez pensar nos que tenho e inda não saíram do ninho.

Depois encontro o mata-velhos que vai decerto à padaria, ainda o vejo de regresso. Passo mais ou menos incógnita por vivendas de olhos fechados, uma ou outra persiana que sobe, um roupão a desfocar por detrás da cortina. E, mal faço a curva, mais abaixo ou mais acima, o trio. Quando o senhor Zé incentiva a Violeta, atravesso para o lado deles e abro os braços. Ela lança-se como a perseguir um coelho e eu ajoelho na estrada de parco movimento. E ali ficamos as duas no ritual de matar saudade. Entretanto, já mais perto, a Lili corre também e, apesar do ciúme da irmã, consegue chegar-se a mim. Depois chega o velhote que fica a olhar-nos agarrado ao pau com que as toca e que o ajuda. Conversamos uns minutos e despedimo-nos com o até amanhã se Deus quiser da praxe. Há metade por andar, um ou outro agricultor que me cumprimenta, os cães daquela velhota que trata de animais perdidos. Mas o caminho está feito.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Formigar


O ano vinte-vinte saiu-nos pior que a encomenda. No início, parecia um bom número, capicua  irrepetível. Havia por força de ter algo a distingui-lo.  E temos de concluir que, nesse aspecto, se esmerou; terminando agora (lagarto, lagarto), já era inesquecível. E ainda nem chegámos a meio. Se olho para o tempo de confinamento à conta do covid-19, reparo que fui obrigada a desistir de duas actividades que eram carimbo nos meus dias. No mais, a vida seguiu igual. Não senti ponta de medo e ainda não sinto. O fatalismo alentejano tem assim uma coragem da desgraça e o que tiver de ser, será. Sem sustos. Fiquei em casa, lugar onde estou quase sempre. Não vi os amigos, mas é raro vê-los; vivem longe e a vida é muito cheia de mil pequenas coisas que lhes enchem o tempo que em mim é sempre livre para eles. Mas os filhos nunca se ausentam tão prolongadamente. E, de tanto os gostar, cresceu-me uma atabalhoada saudade. Os dias tornaram-se mais iguais e dei por mim a desejar a ida ao super, conversar um pouco com a menina da caixa, cada uma com sua máscara. De tanta secura, esmoreceu-me a vontade de escrever. E, portanto, virei bordadeira e comecei uma mui longa toalha para a mesa de Natal. Com os cuidados devidos, retomei o tricot. Mercê das inevitáveis arrumações – tanto tempo de confinamento obriga a arrumar - descobri um livro enorme que ainda não lera, facto que me animou. E passei a valorizar o Youtube ondes descubro coisas e pessoas muito válidas e a meu gosto. Acontece que, mesmo sem me mudar a vida, o covid alterou-me o estado de liberdade relativa, situação que aparenta ser-me básica.
E do desconfinamento, que dizer? Pois, que quase não o senti senão na TV, o que é o mesmo que dizer, não foi a sério. Não me foi possível retomar as duas actividades vedadas em Março; Experimentei uma única loja, máscara e fila de espera na rua. Conclusão: aborrecimento a evitar sempre que possível. Os passeios matinais passaram a registo de assiduidade para encontrar a Violeta e a Lili que por acaso vão mudar de horário. Aborreci de morte as notícias e as partes gagas de governo e jornalistas. Descreio cada vez mais fortemente dos senhores políticos.
Num caso e noutro – confinar/desconfinar - o portátil foi a ligação ao mundo, e se os blogues forem um lugar, foi nele que mais me atardei. Umas vezes comentando, outras nem por isso.
É sempre bom ler escritas diferentes. Contactar  outras galáxias mesmo se de fotos e beleza em geral. Obrigada.  

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Percalços e Contradições da Timidez

                E as botinhas das minhas amigas, toc, toc,toc, martelando as tábuas do passadiço, um ou outro transeunte a cruzar-nos. Nas dunas, o amarelo afogueado das mimosas em espanto abúlico, afinal é verão e falhámos o carnaval; a gratidão risonha das flores silvestres  curtindo o sol; certo ar de tundra, presente na vastidão levemente arqueada da terra. Na esperança de WC aberto (procedia  ao transbordo imediato do fato de banho), desviámo-nos até à harmonia de um casinhoto de madeira, apoio de praia bem enquadrado. Infundado intento. As maçanetas, zangadas com a nossa vã pressão manual, enxotavam-nos, fora, fora, não nos perturbem. E as fechaduras a secundá-las,  olhando de viés, são parvas, então não vêem que temos duas voltas de chave, ora esta. Refizemos caminho. Incentivados pela sublevação minimalista ocorrida na casota, os recamados do corpo aprontavam-se à revolta, isto não é lugar para mim, quem me dera a sapateira lá de casa, o fresco do roupeiro, um lugar sem surpresas e subidas de mercúrio. Mas, num repente de calor, chegou-nos o final do passadiço e, logo, logo, a liberdade dos pés na areia. Ter os pés assentes na terra definiu-me. Olhei em volta. A uns metros, plantava-se nova casota. Maior. Um restaurante de praia ou, quem sabe, lugar de venda de gelados. Arrepiei caminho e decidi, vou vestir-me ali naquela sombra. A esta altura, a natureza do calor já não convidava, impunha. E enquanto as minhas amigas descansavam conferenciando hipóteses e possibilidades, abarquei num ápice dois pormenores: chegava gente no passadiço e eu estava na sua frente; o lugar que à distancia nos parecia deserto, estava tão ocupado como outros que recusáramos. Pactuei comigo mesma ser assunto de irrisória importância, qualquer topless ligeiro, em gente da minha idade, é coisa que não alonga cobiças e até se pode tornar incómodo para quem vê.  E eu era tão estrangeira para eles como eles para mim, que é como quem diz, não me existiam. Foi mesmo fácil.
                Escolhido um lugar isolado com gente à volta mas resguardadas de mirones abusivos, completámos a obra. A ninfa, claro, ostentava uma lingerie de estalo e ninguém diria - verdadinha - que não usava biquini. Linda, linda. Molhada desde a firmeza dos pézinhos à ponta mais afastada do seu afro rotundo. A mãe optou por, guarde-a Deus pela ideia, ir ao banho com body de manga comprida que, acaso feliz, usava por debaixo do vestido. Ora, é claro que nos rimos do body e de tudo,  mas as fotos estão bem originais. Portanto, o trio repartiu a minha toalha e casaco. E, caso insólito, digam lá se já viram alguém, em dia estival, estender um cachecol na areia para se deitar sobre ele. Pois também nos aconteceu. E mais. Na tardinha, já saíamos em cansaço leve, quando vimos, calculem vocês bem,  uma fada caminhando pela areia. E a minha amiga na sua proverbial lucidez, olha, está na hora das fadas virem à praia.
Não foi bonito?! Foi. E tão memorável.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Percalços e Contradições da Timidez


Tudo começou aqui. Com a Nina a lembrar o que não esqueço. E depois, a meteorologia detonou-me. Sem espavento, no seu debitar quotidiano, anunciou um domingo cálido, de sol radioso. Num palpite relâmpago, o tiro partiu sob a forma de sms que, em terreno fértil, germinou. Combinámos o essencial,  espaço e tempo do encontro. Somos assim, desinteressadas de pormenores. No dia seguinte, depois de algumas peripécias irrelevantes, encontrámo-nos. Passava das doze. Três mulheres. Eu, ténis, collants e vestido largo de flanela cingido por espessura de cinto, mochila ao ombro e o estorvo de um casaco de malha no braço; elas, collants de malha, botas, kispo, vestidinhos de fazenda suave, um saquinho discreto a tiracolo. Dado o lugar para onde nos dirigíamos, ligeiramente bizarras. Mas tudo bem, íamos só ver, morder o ambiente. Entretanto, o ar resplendia e convidava. Lamentámos não levar chapéus (tanto gosto de enfiar barretes e escapou-me).
No barco, relembrando cenas de há mil anos e nós duas jovens, optámos pelo ar livre, mas não ousámos a amurada onde, completamente fora do mundo, nos pendurávamos a cantar tudo o que sabíamos, pares de golfinhos em cambalhotas felizes, seguindo-nos empolgados, quem sabe se presos da nossa flauta de Hamelin. Mentalmente arredadas do pessoal, éramos nós e o rio. Desta vez, sentadinhas e compostas, éramos nós e a nossa circunstância, a insistente força do sol insinuando dúvidas na oportunidade da indumentária; golfinhos não havia. Mas, em rigor, ainda só lamentávamos a falta de chapéu. A luminosidade franzia, e, à ninfa cuja juventude condescendia em acompanhar-nos faltavam as lentes solares, ufano objecto que a minha miopia ostentava.  Embaladas no ronronar do veículo que cortava a água como faca em manteiga, comparámos equipamento. Eu levava toalha e – descargo de consciência - tinha atirado para o fundo da mochila o displicente fato de banho da natação. As minhas amigas, pousadas no banco como deusas, ambas em traje de passeio. Enfiadas em suas botinhas e collants opacos, vestidas de invernia diáfana. Muito in. Quando o barco atracou, num rasgo de frescura, aproveitei a casa de banho, despi os collants e desfiz-me do cinto, apetecendo-me despir o vestido. Elas mantiveram a compostura.
Fazer caminho ao longo do passadiço foi vento de mudança, que é como quem diz, suportámos um calorão que fez surgir propostas. Minhas. Claro. Por essa altura, a nossa ninfa afro já lamentava o fato de banho e maldizia os dois pares de meias; a mãe pretendia sentar-se na areia e despir os collants; eu oferecia o fato de banho engaiolado à pequena deusa que caminhava donairosa. E ninguém ousaria pensar, daquele passo seguro, que também lamentosa.
Fomos andando no calor das dunas. Cheirava a terra aquecida de sol e à vegetação rasteira que sobrevive em alegria. E, à medida que eu levantava hipóteses que elas rechaçavam de voz mas iam acomodando na mente, íamo-nos afastando de lugares mais povoados. Parece que tinha dado a toda a gente um vaipe idêntico ao meu. No compasso de calor, as minhas propostas já ousavam os trajes menores, com exemplos práticos, o savoir faire e a total desvergonha que me caracteriza  em situações caricatas. Mas elas reticentes. E se. As pontas soltas de restos de pudor  boiavam no ar e amoleciam no calor, quase, quase, a desmaiarem. E eu, de cabeça, a confirmar o impossível de enfiar o fato de banho rejeitado através do recato de vestido menineiro. Mas convicta, hoje vai ser o meu primeiro dia, está feito.
(cont.)

sábado, 9 de novembro de 2019

É tudo Vida


Estive num almoço surpresa. Foi uma refeição de aniversário e a surpresa era apenas para a aniversariante, os dez convivas em linha  com a proposta. Tudo terminado, afirmo que cumprimos o propósito: houve genuína e alegre surpresa na amiga que fazia anos, ficou bastante agradada; além disso, a sua magreza fez-me suspeitar que precisava deste abraço múltiplo, assim um calor redondo e sem fugas que lhe deu a ilusão de companhia. Um lado bonito no dia cinzento.
Tudo o mais pertence à espécie de coisas que me acontecem. Primeiro investiguei o restaurante e ficava à beirinha da Praia Grande, numa região que para o meu parco saber automóvel é no estrangeiro. Portanto, nem pensar em levar o carro. A mana, mais expedita por várias razões, assumiu a função. E lá fomos, GPS em punho. Chovia quanto bastava e nós a subir a serra, uma estreita fita de estrada, curva e contracurva, e a fila de carros sem vontade, rrrrr...rrrrr..... Ainda mal habituados ao abrandar da chuva, engole-nos uma nuvem de algodão em rama. Isolados do mundo. Quem é que sabe se D. Sebastião não começa por Sintra, quem é que garante que o cavalo branco não vem a trotar atrás de nós. A estrada ainda estreita. Piso molhado. Motores num desconforto de deixem-nos em paz, por que razão nos obrigam. A senhora do GPS - de certeza no conforto do sofá e em casa aquecida -  perorando avisos, a trezentos metros vire à esquerda, na rotunda vire à segunda saída. E mais coisas de igual teor. É que não se sentia nela um pingo de cuidado pelos viajantes em dia tão mau. Avisava como quem joga o jogo da glória. E nós peões. Mas pronto, cumpriu. Nada incomodada com a chuva que nos esperava à saída da névoa, levou-nos à Praia Grande. O parque automóvel cheio. Voltámos atrás e estacionámos. Abreviando: mesmo com sombrinha e impermeável, molhámo-nos. Perdi o vaporoso da sainha plissada  no peso de chuva e, em cada passo desejei que as botinhas de tecido se aguentassem ao balanço.
Depois desta odisseia soubemos no restaurante que estávamos quarenta minutos adiantadas. Aguardámos. E, à medida que os convivas iam chegando, ia-me estendendo para as ondas incansáveis. As amigas conheciam-se entre si, falavam umas com as outras, mostravam fotos de filhos e netos, recordavam viagens e professores, minha irmã abarbatada à lateral por historietas sem fim à vista. E eu sozinha com as ondas, mas que raio estou aqui a fazer. E depois, a calcar o desconsolo, os pratos eram para anorécticos, coisa que, com excepção da aniversariante, ninguém parecia. Valeu-nos que uma das amigas fez um bolo – bastante bom, diga-se – e portanto não sobrou nada. Cereja no topo: a refeição saiu mesmo bastante cara. Nada que não esperássemos.
Ah, e para voltarmos? Pois não sei, mas receámos ir parar ao Porto. Saímos ao anoitecer e cumprimos tudo, mas tudo, o que a senhora ordenou. E é verdade que chegámos a casa. Mas ainda não consegui entender por que razão não nos enviou para a ponte – uma das duas pontes chegava-nos. Nada. Não as vimos. Não passámos por nenhuma delas. Em noite escura e chuvosa, que maravilhosa sensação é estar perdido na auto estrada. Um mimo.
Pensava eu que a surpresa ia toda para a aniversariante.



terça-feira, 3 de setembro de 2019

Parentesis Recto


Visito-a de quando em vez. E sorriem os olhos azuis na moldura enbranquecida, voz nostálgica. Fala-me dos tempos de namoro por carta, do ultramar, do casamento e da filha única e desvelada. Não se acanha e adjectiva familiares próximos  pronunciada e rotundamente. São os melhores, os mais honestos, inteligentes e bonitos; habilidosos como só eles, facto, aliás,  reconhecido por todos. Conta as façanhas de mortos e vivos que lhe permanecem indistintos e salta de uns a outros sem mais paragem que o acto de respirar. Obriga-me a certa ginástica mental.
E com passo lesto se vão minutos e horas. Apresto-me a sair antes que enfileire em nova história da sua  gente. Delicada, traz-me à porta. É então que se lembra. O neto escreveu um livro e uma editora vai publicar. Conheço o rapaz, é vivo e mexe-se por tudo: parece que pôs na net a obra e o pedido a editora interessada. Ladino como um garoto. Merece a atenção, ou a editora não lhe pegava, que não é edição de autor. Fez-me ler o prefácio do editor. Satisfez-me. Dei os parabéns. Prometi estar na sessão de homenagem ao lançamento prometida pela autarquia, falei sobre o orgulho de ter um neto escritor. E ela, olho azul muito aberto, como quem, dentro da circunstância, acha natural, “é para isso, tem mesmo o curso”.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Fundo de Mar numa Nuvem


Há pequenos brilhos na blogosfera, podem ser pedrinhas sem valor que emitem luz, opalas rigorosas ou safiras disfarçadas. É claro que falo de quem conheço deste meio e em palavras que confio. Refiro, portanto, relações mais ou menos longas. 
Aprecio e recomendo A página negra de Manuel da Fonseca que sucede ao blogue mais ou menos colectivo, Escrever é triste. É uma página sábia e crítica, matreira, cinéfila e com aroma de alma silvestre e um bocadinho brincalhona que por vezes também nos dá música. Gosta de falar sobre livros e entende-se porquê, mas julgo que seja sobretudo porque é um bom leitor. Deve ser ainda outras coisas, mas estas bastam para acicatar curiosidades. O Manuel não se importa que comentemos e até nos responde de vez em quando. Percebe-se que é pessoa educada e ocupada e que  Antónia ocupa o seu altar privativo. Há lados dele que são muito públicos e não faz falta lembrar. Para mim, é bloguer de qualidade. Voto nele sempre que precise e mesmo que não. E recomendo.
Sem desprimor para ninguém, há outro blogue que considero. Sei do autor (pode ser uma autora) apenas o nickname, xilre. De postagens regulares, tem alguns personagens cativos e dos quais sou íntima: uma brasileira que tira cafés e o lugar onde os tira e que xilre frequenta; um reformado erudito, Eustáquio de Andrada e sua mais que tudo Orchidée, cujo escreve a xilre missivas hilariantes e todas muito nove horas, sempre preocupado com a saúde e bem estar do amigo (a); um pássaro no beiral que ora lhe tira o sono por cantar cedíssimo, ora porque desaparece e o apoquenta a falta de gorjeio matinal. E há mais artigos avulsos; também nos dá música e, por vezes, ataca-o (a) uma veia romântica que muito prezo e me comove. Xilre é original e usa de economia  na escrita. Saliento as publicações do dia vinte e nove de Julho.
Recomendo pois estas duas pequenas maravilhas lançadas à praia. Serão conchas ou búzios, restos de fundo de mar e coral que valem a pena neste mundo que nem de papel é. Será de nuvem. Ou coisa assim.


quinta-feira, 25 de julho de 2019

Anima Mundi


No meio dos incêndios e das labaredas, para lá do desalento dos que viram a vida arder e não têm rumo, do fumo e das árvores carbonizadas e cadavéricas, do espavorido animal sobrante,  estás tu. Chegaste. Verde e imponderável ressurgimento a mudar-nos o quotidiano, enchendo os dias de novidade. Marcas almoços, jantares, encontros de praia; ocupas-nos o controlado tempo, transbordas. E não admites desistência. É o teu ímpeto de união avassalante, a tua trompeta de toque único, reunir, reunir, reunir. Nesta hora desorientada e sem lugar, horizonte nebuloso em que tudo queima e sofre, tu, inconsciente do necessário  e oportuno de ti, és refrigério de apetite, espaço livre, amurada com vista para o infinito.
Olho-te e ressalta-me a criança que sentava no colo, garoto ladino e inventivo que me ensinou a maternidade. Vejo os pequenos nadas de infância, a forma quase impúdica de usar os calções de banho, os olhos de pássaro atento e destemido, a rapidez a entrar na água, o gesto de cachorrinho que  sacode o pêlo molhado. As peculiaridades que nos existem!  Quem gosta denota a posse de gestos e expressões que no próprio são insuspeitos nadas. Tudo junto, o que é bem e o que não, faz o gosto e molda a imagem de univocidade do outro. Não morro de amores pela corrente grossa que usas no pescoço, mas, na tua ausência, adoça-me o olhar ver artigo semelhante e – se acaso a notem - devem motares e demais utilizadores  ajuizar sobre a minha ternura obtusa. Deixá-lo, vê-la é lembrar-te por inteiro; que, em cada momento, o objecto amado condensa a vida toda, é ele integral. E é assim, devotamente, que te gosto. Não apenas na tua mundaneidade actual, que pouco sei dos teus pormenores, das pequenas coisas mutáveis em que tanta gente se concentra. Mas sei dos teus cabelos que encanecem nas têmporas seguindo a linha dos meus, das rugas que te sulcam prematuras; e sei que, cabelo escorrido de mar, as semelhanças se acentuam entre nós. E isso, como compreenderás, alegra e entristece.
E os dias que temos juntos serão sempre curtos. Por serem poucos e porque os divides por tanta gente. Porém, convence-te, mal raias, logo a família resplendece. Que bonito!

terça-feira, 16 de julho de 2019

Realidade às Pregas


Disse num meio sorriso forçado
- Tu não gostas de juntar as amigas.
- Pois não.- respondi - Ela é uma amiga diferente e devemo-nos um tempo a duas.
Depois, neste meu ser que se justifica como se a toda a hora seja apanhado em falta, acrescentei
- Conheço-a desde  criança e vivemos muita coisa juntas.
E despedi-me. Hora de ponta. Mas aquela incompreensão. Talvez eu devesse ter sido crua
- Não és minha amiga.
Não, isso também não. Mas lançar-me ali nos graus da amizade...como é que se diz que há amizades que são pura sintonia, coisa de sentir igual e gostar do mesmo, e que este sentir igual e gostar do mesmo nos descansa e não foi descoberta de dois dias, ou mesmo dois anos. Que a amizade que me levou a outro lugar é toda outra e muita, um dia ao pé da noite.
Não se diz. É coisa de sentimento e intuição.