sábado, 25 de abril de 2026

25 de ABRIL

 

        Às mulheres que do passado me espreitam e por quem e para quem escrevo ainda algumas vezes, as que me fizeram ou colaboraram no fazer-me e não sabiam ler, ou liam romances de cordel por desconhecimento de outras leituras, as que nunca ouviram falar de Sophia e da madrugada esperada, elas que nem sequer esperavam alguma coisa e a quem a madrugada encontrava já a pé servindo na cozinha de seus senhores ou entranhadas no tojo das herdades, procurando chegar “ao fogão” antes do sol, arrear as merendas e seguir ligeiras para a lida do dia anterior. Às que não tinham nome de Catarina e nem de Eufémias sabiam, mas são as minhas heroínas a quem a circunstância e esses seres masculinos e de maior força física e poder escravizaram como puderam, levando-as de vencida, qual bezerra puxada por arreata.

        Nunca foram asa e inda menos gaivota. Engravidaram meninas, cumprindo a tradição de mães e avós. Umas desgraçaram-se para a vida quando “apareceram de barriga” sem um namorado que as puxasse para si – tinham sido apanhadas a caminho da fonte, num ermo onde andassem aos paus para o fogo, nos emaranhados de montes e herdades. Um homem - casado, solteiro, qual fosse o estado - as apanhou e abusou; não digo que homem, um animal cedendo ao cio. Mas as desgraçadas foram elas. As mais iam a bailaricos, tinham derriços, elas tinham a barriga a crescer, eram excomungadas até pela família e nascia-lhes um filho quando mal sabiam o que era o sexo, o prazer ausente quando um animal dito homem se lhes atirava para cima, as manietava e descarregava nelas o sémen impaciente.

        Abril quase apagou esta maldição: terminaram os filhos incógnitos, elas saíram debaixo da pata de tanto marido que não foi senão suserano. Porque casar e levar no enxoval um filho de outro, era invariável mau negócio; se as mais tinham poucos direitos, elas tinham menos. Que os “maridos bons” eram matéria rara. E não, não eram melhores os maridos das outras como se canta por aí. Só o sonho e o canto de sereia do corpo motivava casamentos que raro eram mais que amiganços.

        Em tudo há o melhor e o pior; e existem as atenuantes que temo em chamar tal: de época; as desculpas palermas das igrejas; o preconceito de nós todas que vivemos séculos de submissão e segundo sexo; o masculino controlo do mundo conhecido. Mas é objectivamente verdade: o 25 de Abril mudou a vida das mulheres para um lado melhor. A democracia puxou por nós. Não somos livres, creio bem que nunca o seremos. Mas temos a chance de tentar, temos as leis que nos protegem, criámos alguma consciência do valor próprio, entrámos em território antes só masculino. Bem sei, há muito por fazer e esqueci propositadamente outras benesses democráticas. Mas estou a pensar nelas, nessas pobres que me antecederam: não estudaram, não aprenderam a ler, sofreram às mãos dos homens sevícias que não contaram, foram escravas de maridos e senhores, levaram porradas muitas, trabalharam até à morte.

        Para elas que nada souberam da liberdade, da democracia e seus princípios, o meu Grande, o meu Enorme, VIVA O 25 DE ABRIL!!!

terça-feira, 21 de abril de 2026

Ambiguidades

 

        Slauerhoff é poeta (e novelista) holandês. Morreu aos trinta e oito anos, antes de se habituar à idade. Conheci-o com “O Descobridor” de Cristina Branco que uma amiga me apresentou e até ofereceu. Desarmei de encantamento. Ambos, poeta e cantora, eram a minha medida. Depois desse vieram outros cêdês, sou de coleccionar músicas e livros de autores preferidos. “Ulisses” foi um dos que mais gostei e reconheço que, enquanto fez parceria com Custódio Castelo, todas as canções e fados valiam, tinham peso singular; depois que a parceria se dissolveu encontrei vários assim-assim sem perder o interesse pela voz da Cristina.

        Sem porquê, lembram-me muito os versos – que, nesse tempo, cantei à exaustão – de “A uma princesa distante”. Ficou-me o início da canção, “Jamais voltaremos a ver-nos / entre nós dois há um mundo pelo meio. / Por vezes, de noite, à janela nos detemos / mas são outras as estrelas que vemos”. Bom, talvez a história de vida de Slauerhoff os torne compreensíveis, naturais: o poeta era médico em navios, fácil lhe seria cruzar uma princesa ou alguém a quem assim designasse e que, expectavelmente, não veria mais. Ignorante da data da composição, posso imaginar que cantem uma despedida irrevogável como terá sido a do seu divórcio. Mas na verdade imagino outras coisas. Slauerhoff sempre foi de saúde débil e morreu diz-se que de malária, mas por certo também da tuberculose que o consumia há tempo demais. A tuberculose não faz poetas, mas dá certa sensibilidade em grau exacerbado, uma melancolia quase mórbida e que advém talvez da sensação de se sentir morrer aos poucos. Por si mesma, a doença não é aguda, é antes um enlanguescer de tudo que antes era interesse e vivacidade, uma desistência e falta de desejo que enfraquece corpo e alma e se faz acompanhar do matraqueio da tosse. Imaginei sempre, mesmo antes de pesquisar a vida de Slauerhoff, que ambos se cruzavam num navio, um entrando, outro saindo; que eram duas pessoas iguais a todas as que entravam e saíam, mas que só entre eles o raio acendeu, só eles souberam dessa possibilidade impossível. E acho bonito. E possível.

        Se dou por mim à janela, penso neles, se existirão factualmente amantes indefinidos que miram céus diferentes. Ignoram o nome um do outro, mas, num cruzamento de olhos, reconheceram-se.

        Mesmo que falso, é bonito na mesma:)

domingo, 19 de abril de 2026

Mágoa

 

        Pensamos gostar de escrever, agrada-nos dizer sim ao apelo de deitar às letras o que sentimos ou imaginamos e que é sentir diversamente. Mas por vezes perde-se o apetite, ataca-nos uma afasia capsular, um transtorno talvez inominável a barrar as palavras. Em geral – mas não sempre – surge relacionado com o sofrimento e a injustiça que comporta. Não o Teu sofrimento. O sofrimento que presencias, a dor que sentes sem a sentir, a mão que apertas e deslaça nas tuas, o riso que já não ouves e faz de ti palhaço incapaz, um rosto a minguar na almofada, olhos sem expressão. É certo, todos morremos de alguma coisa e somos de alguma forma um fracasso que passa pela vida: não a dominámos e antes fomos e somos joguetes da perversão que exerce sobre o tempo que pertence a cada um e no final nos anula.

        Tanta lei, tanto decreto, tanta norma de viver. E não há quem pense no sofrimento inútil, doloroso, progressivo e inexorável de uma vida transmutada e que não deseja continuar. Ficamos eternamente na questão, presos – dizemos – à ética. Mas que ética existe em assistir à deterioração progressiva de um corpo e sua dependência de terceiros para todo e qualquer gesto?! Que ética é essa que deixa pessoas conscientes mas já sem palavras ou movimentos, à mercê dos outros, esperando a morte que lhes tarda e a que a debilidade própria impediu a antecipação?!

        Quanta injustiça no mundo. Mas também muita luta: de mulheres e seus direitos, de imigrantes, de salários mais justos, por uma habitação que nos guarde, pelas crianças que vivem apavoradas em cenários de guerra e morte e por todas as outras a quem devemos protecção, etc. É assim a injustiça dos homens. Mas contra ela lutamos e lutaremos. Não lhe veremos fim. Mas podemos lutar, temos um corpo e uma mente que podem determinar-se em deixar um mundo melhor. Mas e eles? Esses que são atingidos por doenças desapiedadas, das que matam passo a passo, em suplício de Tântalo?! Que luta podemos por eles?! Nada podemos. E isso não apenas dói. Corrói, retira pretensas certezas, enraivece e subtrai qualquer desejo. E a vontade, essa vaidade tão humana, serve zero, é inoperante. Mas em nossas camas dormimos o sono dos justos.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Inscrição

 

        Penso voltar, criar uma aberta, chegar a este porto de salvação e escrever. Mas só penso. Sei do assoberbamento e de quase não ser possível quando te tenho por perto. De soslaio, não vá eu embaraçar-te, reparo na juventude que te mora nas mãos longas e brancas ajudando-me na cozinha como ninguém. Moves-te familiar, faca sobre a tábua de corte, hábito que, cada vez mais, noto que te embebe. A teu lado, desvaneço por dentro no receio da tua perturbação e bendigo todos os momentos em que te quis sem saber de ti. Desejei-te com o inteiro de mim, prolongadamente. Propus-te a um parceiro avesso a mais noites sem dormir, e biberões, e fraldas, e doenças incógnitas. Por esses meses de insistência perseverante, olho-te sempre como se foras apenas meu – que não és, bem o sei; consegues mesmo a proeza de ter a mal disfarçada preferência paterna.

        Jamais me pareceu que gostasses de crianças e desta vez descubro-te na atenção aos sobrinhos, no saber como vesti-los e servir a refeição; no teu modo inteligente e sagaz de jogar cartas com o minorca, seis anos verborreicos que se te grudam como cola e calmamente refreias, ensinando regras sem impor - propões com humor, continuamente puxas por meninges infantis que, é indubitável, te admiram. Observo o jogo (eu que nem consigo conhecer as cartas) e vem-me a tua infância de infindáveis jogatanas com os primos; eram partidas cordatas, transpirando concentração. Hoje, dois adultos e duas crianças mantêm o estilo – fora os apartes educativos da tia e teus. A garota mais velha, de quando em vez, põe os dedos entre os teus caracóis sempre despenteados, um gesto terno que podia ser meu e a que dá gosto assistir. Sim, o minorca tem razão, ganhaste nova família. Mesmo. Vejo-vos e oiço da cozinha, e noto que não se esforçam por utilizar termos básicos, antes explicam as novas palavras que usam e repetem-nas várias vezes durante o jogo. Pergunto-me se faria semelhante. Se, em presença do minorca, não me limitava a simplificar a linguagem. Na verdade sou bem menos didáctica. Passa-me pela cabeça a ideia de que não fui grande educadora; e não devo ter sido. Mas a verdade é que, olhando-te agora, ninguém o diria. Grande parte foi trabalho teu sobre a genética. É verdade que manténs os  defeitos, mas aperfeiçoaste as qualidades. Parabéns, meu doce filho. Tanto amor e não consigo proteger-te. E, como o poeta, temo que tropeces numa gota de água. 

sábado, 4 de abril de 2026

Páscoa

 

"Deste-nos um trabalho imenso a matar, 

custou imenso erguermo-nos sobre os pés. 

Não vais agora pôr-te a ressuscitar

p'ra começar tudo outra vez"

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente, 1977 - Domingo de Páscoa


"(...)É hoje dia de Páscoa. De ressurreição. Não é um problema nosso. É um problema de deuses. (...)Esquece, entretanto. Sentado no escritório - esquece. (...) está um dia bonito. Olho-o nos pinheiros imóveis da mata. Curioso: não há pássaros a explicá-lo. Estão mudos. Estarão talvez meditando no fim das coisas. É horrível, mas os pássaros também morrem. Esquece, entretanto. Olho o sol escorrendo pelos pinheiros. A vida existe. Agora, agora. E é quanto basta para haver sorriso no mundo."

idem, 1980 - Domingo de Páscoa

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Sul-Norte e o Inverso

 

        Dizer-me. Mesmo dizendo o mundo, dizer-me, tanta vez sem bem saber o que digo nem dosear a forma como me vou insinuando por dentro das palavras que também são eu. Ignoro se seremos capazes de, em algum momento, dispensar a subjectividade que nos constitui no todo e no particular. 

        Sigo pela segunda circular, as vias pejadas de trânsito. Somos muitos. Mas cada um no seu mundo, na intenção que ali o levou, no fim que pretende e de que a segunda circular é um meio. Imagino que a esta hora um vento de cansaço e desejo nos empurre para casa, o trânsito rola já sem atrito, serão as vinte e uma. Penso em condutores esfomeados, apressados por compromissos ainda em espera, ansiosos por rever doentes lá onde querem estar com eles; ou apenas desejando beijar os filhos que encontram já deitados e desejam ver inda de olho aberto; e há também os inquietos, os fugazes por natureza, os sem sossêgo para quem limites de velocidade são desimportâncias; são os mesmos que se sentem mal quando à sua frente segue uma mulher ao volante e pioram se alguma os ultrapassa. O seu fito é escapulir mais rápido, furam as faixas ora uma ora outra, marinheiros experientes vencendo ondas, ganhando metros atrás de metros, sabe Deus porquê. Viro à direita olhando com saudade os que seguem para oeste. Penso nessa amiga longe, no que fará em hora de paz caseira: talvez ajeite os óculos a ver um programa guardado em dupla cumplicidade, ou apenas converse quotidiana, ou terá consigo os netos e, como tanta mulher, lhes vigie a higiene nocturna, a dar uma mão terna; no final, de olhos quietos, emudece no estado de calma amorosa que só a visão da infância adormecida propicia. Penso isto pisando de leve o travão, enquanto faço a curva no sentido contrário ao caminho para ela. No meu todo da esquerda, desaparecendo no ímpeto de velocidade em crescendo, as viaturas seguem para Norte. Não é o norte da estrela polar; que, para quem ali circule, talvez seja. É um norte desconhecido, onde nada me espera e ninguém conheço com a confiante largueza dessa amiga de tanto ano. Atravessa-me sempre o mesmo pensamento: e se fosse para o norte; onde chegaria, metendo por essa via em que a velocidade aumenta na proporção da distância a percorrer. Entro na ponte a enxotar a melancolia do incógnito. A seta do sul sobe por três vias, um percurso recto clamando por mim- ali malogrei ilusões várias, e, em sentido inverso, engrinaldei esperanças. Já a atravessei em sangue, desolada, inquieta, infeliz; mas também curiosa, ansiosa, saudosa, em calma indiferença ou, na grande maioria dos casos, em radiosa solidão, sentindo o pulsar da vida em volta: o sol, o falso chão que as rodas pisam, o sibilar baixo do motor num encanto que me seduz, o lufa-lufa de tanta gente. Vidas. Na ponte somos quase iguais, rolamos.

        Na viagem de ida, o casario onde hei-de internar-me impõe-se; parece-me tão fechado que não caberei por lá. Mas em quinze minutos, o abrir da porta e o trinco a deixar-me com um pé na tua casa – que é tua, não duvides. Pouso a mochila e o saco sem ruído porque trabalhas, mas logo, logo, tu vens silencioso e abraças-me e só nesse momento o sol me penetra inteiro e se interna nas minhas veias, desenvolve. Olhas-me. Preocupas-te não sei porquê, está tudo bem nesse hiato que criaste por mim. E logo retornas ao trabalho. Então, rebentam-me uns restos do que fui. Cubro o quotidiano com um parêntesis opaco e não esqueço, antes de sair, de usar os olhos que trago fechados na alma, assim como quem põe óculos escuros porque o sol lhe veio num repente.