sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Hoje ganhei coragem e revirei duas caixas com adereços de Natal. Devia pô-los a arejar, mas a cor do céu esmoreceu-me.  Também cortei em rectangulos as folhas de um bloco para tintas a óleo. Já desisti de me entender, não sei pintar a óleo, não tenho óleos e ainda menos quem me ensine. Mas pronto, já não me falta tudo; descobri não um, mas dois blocos. Em compensação, não encontrei os lápis habituais nem o bloco de ano passado. Coisas. Note-se que, na conjuntura actual - eu mesma e mais os meus lapsos e esquecimentos -,   recuso buscas insanas. Não sei, não acho? Governo-me com o que há. Os objectos sabem ser muito castradores, não lhes podemos dar confiança. Não há como provar-lhes que passamos bem sem eles. Ora essa.

Pois a verdade é que essa espécie de papel destinado a tinta a óleo não é muito salutar como cartão de boas festas. Não é, mas não existe outro (fujo à verdade, bem entendido).  É mole, dobra-se sobre si e encaracola feito lesma destrambelhada, e o meu pincel diz que bla, bla bla, mas não lhe faço caso. Resumindo, está tudo uma burrada em ponto pequeno. Paciência.

Bom, para facilitar o espírito natalício, nada como ouvir canções de natal. Foi agradável, as agulhas de tricot, habituadas a conversa e mais conversa, arrebitaram as orelhas, que é lá isso, missa cantada? Peço desculpa por elas,  estão velhas e não sabem modernices de coros da estranja a cantar para nós a qualquer hora que se deseje. Depois de ouvir os arcanjos, cumpre-me informar que me ficou a apetecer algo. Portanto, algo, foi ver um filme de Natal. Mas era dobrado em brasileiro e se nos desenhos animados gosto das suas vozinhas, nos filmes com gente dentro, desafinam. Entretanto, lembrei Shirley Temple que foi garota muito mais tempo que eu ou qualquer mulher. Ainda é garota a Shirley Temple. Apeteceu-me revê-la. Lancei-me pois num dos seus filmes. E banzei com as traduções. Nem é questão de concordâncias ou assim. Passo a contar. O meu inglês não dá para os gastos, mas ainda assim não necessito estar sempre de olho no écran. Basicamente, o filme trata do amor entre pai e filha, o pai militar e ela num colégio por via da guerra que chama o soldado. Entretanto, o pai morre. E quando a professora preferida  vai dar  a notícia à garota (aí levantei a cabeça para olhar o écran, era importante) li a legenda, “você é uma puta”. Fiquei parva a soletrar julgando meu o engano. Mas não. Está lá.

Dado que no you tube também mostrava O Pequeno Lorde e não o recordo, decidi apreciar um niquinho do filme. Ah, pois é, mas a qualidade da tradução mantém-se. A afirmação, “O Dick ainda não chegou”  está traduzida por “A pila ainda não chegou”. Ai, valha-me Deus. Tenho esperança que as crianças não vejam isto, que só gostem daqueles filmes animados com bonecos horríveis e menos horríveis, que achem a Shirley Temple uma coisa que não lhes serve para nada. Mas, mesmo sem crianças, a quem é que a gente se queixa deste despautério, deste assassinato a frio da nossa língua e à disposição de qualquer. Deve ser coisa automática, só pode. Mas por que razão temos nós que aguentar tanta ofensa por escrito. E por que razão está acessível e é conservado num media. Palavra que não entendo.

Fiquei escandalizada e sem apetite ao Natal.

 

10 comentários:

  1. Acontece muito com a legendagem brasileira.
    São muito "práticos" os brasileiros, como diz uma amiga minha.
    Eu chamo-lhes outra coisa...
    Bom fim-de-semana, Bea

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    1. É que desconhecia completamente estes factos. Ainda estou um bocadinho abismada.~Bom fim de semana, Magui:). Gosto em vê-la.

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  2. Interessante.
    Nunca tive jeito para desenho, muito menos para pintura. Na escola, com os guaches e a minha falta de jeito, borrava tudo e eufemisticamente dizia que eram trabalhos do surrealismo. Também nunca me esforcei para aprender ou melhorar. Não gostava, era inata a falta de jeito.
    Com a música foi diferente. Tive iniciação musical e ao piano, mas depois não continuei porque tinha de se pagar à parte e os rendimentos tinham outras prioridades. Mas gostava.
    O meu cunhado (já lhe contei) quando era miúdo gostava de ter uma guitarra, que só comprou em adulto e está lá a um canto sem préstimo, pois não sabe tocar.
    Na minha curta passagem pela tropa, os camaradas tocavam muito guitarra, ainda tentei aprender uns acordes, mas ficou tudo pelo caminho com muita pena.
    No princípio do mês retirei o cd do Natal em Viena com o Plácido Domingo, uma soprano asiática e o Michael Bolton. Uma companhia para Dezembro for every hours and nights.
    Bom fim-de-semana Bea.

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  3. Também hei-de ouvir esse cd do natal em Viena, mas a ópera não é o meu campo. Até os violinos não me soam como à outra gente. Para mim não são divinais.
    Quanto a desenho, somos iguais, não tenho jeito e nunca tentei aprender mais. Bom, tive uma lição de aprendizagem na idade adulta:). Quanto à viola...acho que também já contei que levei anos a juntar para uma e logo na primeira semana a parti. Acabou-se a música. O seu cunhado ainda podia tentar, não chegava a bom músico, mas aprendia uns acordes se se dispusesse a ferir a polpa dos dedos. Mas também o entendo, há gostos de juventude que ficam lá, pertencem a esse tempo.

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  4. É um filme infantil contado como uma história e já a Shirley não era aquela menina pequenina que vi noutras fitas. Gosto de histórias. Em livro, em filmes contados e para adultos e até em filmes infantis. E nem me importo se têm personagens muito estereotipados. As histórias descansam-me. Qualquer que seja a forma de as contar.

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  5. Omg! Que estupidez de tradução literal é essa? Deveriam ser punidos quanto mais não fosse por assim irremediavelmente destruírem a magia do Natal a quem ainda a preserva.bom fim de semana ou o que dela resta,

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  6. Estou muito ofendida, embora não saiba bem com quem. E já me está a parecer questão internacional. Até ver, envolve pelo menos três países, Portugal, Reino Unido e Brasil e lesa os dois primeiros.
    Não sei o que é Omg. Posso alentejanamente alvitrar ó miga, mas o ponto de exclamação estraga-me o supor.
    Boa noite, Nina.

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  7. Oh! My God! Repito. Diabo de tradução. Até é cómica de tão louca. Beijinhos

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  8. Certo:). Sou péssima para esta coisa de siglas.
    A tradução é tão, mas tão idiota, que se torna engraçada.

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