domingo, 30 de outubro de 2022

Sombra Chinesa

 

Na paleta dos sentimentos que são cola comum, nenhum iguala a compaixão. Só ela faz nascer laços fraternos que derramam a piedade e igualam o vulgo aos sofredores.  Um vento de mudança  varreu a aldeia quando se soube da aventura de Francisca e Nunes. E mesmo os mais desbocados, olvidando invejas e malquerenças, se curvaram à desgraça e a tomaram um pouco à sua conta. Em uníssono, a aldeia tornou-se compassiva. Ernesto vivia agora como herói, despido já de qualidades corriqueiras: um rapaz inteligente que se perdia em conversas com os pé-rapado e a todos saudava com simpatia. E até a inveja da boa estrela que bafejara os progenitores foi recoberta pelo manto da desgraça, de que vale o dinheiro nestes casos – e, benzendo-se, as mulheres rematavam de verbo na boca – quem não queria estar na pele dela era eu. As que viviam próximo e lhe espreitavam a figura que afilava, condoíam, é só pele e osso, coitadinha, elas não matam mas moem.

E eis que, enquanto a aldeia aguardava a autorização para a ansiada visita dos pais a Ernesto, Jaime se apresentou na casa paterna. Corriam os finais de Março, a primavera crescia nos rebentos novos e as vinhas eram tenras e verdejavam. Formosinho aclimatara o desgosto às videiras que a mulher amara e perdia-se em tarefas que podia delegar. Abraçou o filho em silêncio comovido. Celestina viu-os assim e desviou-se no de sempre, vou à cozinha ver das panelas que estão ao lume. Mas, antes de se dissolver na penumbra do corredor, ainda os notou, Formosinho abria a porta da casa da escrita e pagamentos e entraram ambos. Por ordem do patrão, a mulher dobrou as horas de trabalho na casa que sempre chamou de “a casa da Verdiana”, e excedia-se em mimos e cuidados  com o rapaz que, dizia a quem a ouvisse, lhe chegava magro e esfaimado. Na raiz das suas ternuras vivia a lembrança do que presenciara entre mãe e filho, e o desejo de aliviar o reencontro com a casa. A natureza feminina intuía que a ausência de Veridiana era tinta fresca e podia esborratar ao menor toque.

Para surpresa da aldeia, findas as férias da Páscoa, Jaime permaneceu. À medida dos dias que passavam, o que se pensara visita de férias adquiria outros contornos. Uma insidiosa curiosidade, pouco a pouco, tomava conta dos espíritos. Da casa de Veridiana nada transpirava. Instada, Celestina encolhia os ombros, eu cá não sei nada, mas o Jaime parece que esqueceu os estudos; se lhe pergunto, ri-se e só diz, queres-me daqui para fora? E eu, Jesus me valha se estou a inventar, percebo nisso que não tem vontade de falar e calo-me. E fechava o assunto, que eu não tenho nada com isso, estou ali para servir.

Entretanto, Jaime era visto por todos deambulando por cantos e recantos, em pequenos passeios de fim de tarde. Cumprimentava sem se alongar e, aos mirones que o observavam, denotava o mesmo bom aspecto de sempre. Já não corria os sôfregos campos pedalando em bicicleta fugitiva, antes os passeava lentamente, como que imerso em intrincadas reflexões.

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

O Bem e o Mal

 

De quando em vez, resolvo dar uma sacudidela nesta minha vida de alentejana pasmada. Num desses estremeços, lembrei-me de espreitar – de novo - os cursos do Corte Inglês. E é que me inscrevi e, pela primeira vez, fui seleccionada. Duplamente. Para um curso e uma conferência. O curso foge um tanto à área que prefiro, mas a conferência “O Bem e o Mal” foi tiro no porta aviões.

O conferencista era Miguel Real. Dele sabia apenas ser formado em filosofia e que escrevia livros. De acordo com a informação constante na breve biografia, o meu saber era muito restrito. Não li nada deste professor, não sabia a idade e julgava até que fosse jovem (jovem para mim é alguém à volta dos 40 anos; abaixo, estão crianças mais ou menos crescidas). Mas gosto de surpresas; portanto, não li a dita biografia e mantive a imagem, acrescentando-lhe mesmo um bocadinho de prosápia vaidosa.

Como sou nova nestas andanças do Corte Inglês - em boa verdade só lhe conheço as salas de cinema - cheguei a horas.  Chovia e o professor atrasou. Uma senhora capa de revista -  espécie feminina competentíssima, das que nunca desmancha o sorriso face a um cliente ainda que ele lhe peça a lua - dava o  aviso quando, ah, o professor já aí vem. E ficámos a apreciar aquela sorridente transpiração de elegância a fazer sala junto ao micro.  

Fui obrigada a concluir que o meu imaginário figurativo é um asno da pior espécie. O que nos apareceu foi um senhor velhote, três caracóis e meio arrelampados, como quem se perdeu na dispersão do vento e esteve vai não vai para voar. Um todo frágil que a voz não desmentiu e o fazia simpático. E depois aconteceu a magia que só alguns professores sabem criar, encantou. Encantou escrevendo no quadro que não prestava, esquemas que também não eram grande coisa. Mas encantou. E sou a melhor pessoa para escrevê-lo e não é a vaidade a comandar-me. O professor analisava o Mal ao longo da vida da filosofia ocidental e nada do que disse foi novo para mim ( a questão do Bem, para minha desgraça, já tinha sido esmiuçada em sessão anterior).  Levou-nos por caminhos que conheço, extirpando escolhos intectualóides. Mostrou-os mais límpidos do que os aprendi, consciente que dissertava para um universo não necessariamente familiarizado com as teorias. Era quase terno olhar os seus esquemas naquele quadro de nefasto minimalismo, tão desprotegidos que, por si mesmos, não eram quase nada. À vista disto, insinuava-se-me o impulso de ajudá-lo,  ir lá apagar-lhe o quadro, por exemplo. O bonito, o verdadeiramente belo, era o que sentíamos estar por detrás do que dizia e deixava entrever. Tinha algumas folhas de apontamentos que consultava uma vez por outra, como quem já não confia em absoluto na memória (quanto o entendo) e até se perdia um pouco nelas e delas. Nesses momentos, voltava-me a vontade de ajudar e ir lá procurar por ele. Mas foi de mestre a forma como encadeou as várias noções de Mal e o que nelas pôs de sua lavra. Ouvi-lo era sentir que havia no discurso dois tecidos. Uma trama primeira, forte e bem urdida, que não entrevíamos senão uma vez ou outra, por entre o que, na nossa frente, ia bordando.

E é claro que quando Miguel Real disse que ficava por ali pois devia estar perto da hora de terminar, já passavam trinta e cinco minutos. O tempo cavalgara veloz, sem que alguém desse por ele. No meu caso, esqueci completamente que sou um ser temporal, e ali ficaria longamente. Acamparia de vontade. Por certo me sentia como na situação das escrituras, quando, vivendo o indizível prazer do momento, um discípulo sugere a Cristo, "Façamos aqui três tendas..."

Aparte ligeiramente pateta (bisbilhotice): mais ou menos na minha frente estava uma figura conhecida ladeada, possivelmente, por mulher ou namorada. Lembrou-me um filme que vi, talvez “Amigos improváveis”, e em que pontuava um tetraplégico cujas orelhas – se não erro – eram a sua única fonte de prazer. Pois não é que a senhora esteve que tempos a manobrar com mestria a orelha da dita figura conhecida, que toda se derretia.  Digo-vos que baixei os olhos para o caderno, sentia-me a violar a intimidade do casal.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Palácios dos Nasridas

 

Os palácios da dinastia nasrida são a jóia da coroa: Mexuar, Comares e dos Leões. Mexuar servia aos sultões para receberem os súbditos. Nele existe a ampla sala de audiências e, ao fundo do pátio – cada palácio tem um pátio -, a sala de espera. Lembro melhor o Palácio e pátio de Comares, onde se encontra a sala do trono de que já falei e que tem o tecto em madeira escura toda bordada a luz e tão recortada como qualquer bordado inglês que se preze; as janelas, veladas por uma rede de madeira trabalhada e perfurada, dão à sala certo aspecto de confessionário gigante, tal a penumbra. O que ali percepcionamos bastaria para nos render à arte árabe: a evidente inteligência da concepção; a beleza paciente e delicada que reveste paredes e colunas com azulejo miniatural e colorido; as inscrições em árabe e os frisos, um mais belo que o outro. E tanto pormenor que já não recordo, mas faz do conjunto uma obra primorosa. 

Mas o que decerto mais surpreende a maioria dos visitantes é o miradouro de Daraxa, situado – julgo – no Palácio dos Leões. É coisa de outro mundo. Avassalado, o visitante imerge, sente-se a sós com ele. Esquece que está rodeado de gente e que vive no século XXI. O donaire artístico daquelas janelas – sobretudo a que tem uma coluna a meio -  é de ver e não de descrever. E depois há toda a envolvência, a luxuriante vegetação e a simetria a que obedece, nos pátios  baixos que rodeiam o famoso miradouro. Apesar de nunca estarmos sozinhos, entra em nós um prazer grato e uma paz que se julgariam impossíveis. Vista dali, Granada aparece como a vida de cada um: irrelevante.

O pátio dos Leões é exemplo dessa harmonia entre materiais e construção. Não se esquece a elegância das colunas nem a sua disposição relativa; e tampouco a claridade que o chão de mármore proporciona ao olhar. A meus olhos, os ditos animais surgiram para justificar o nome, e eu trocava todos eles pela harmonia de qualquer coluna.

Talvez califas e sultões fossem seres de muita preocupação e guerra. Mas souberam rodear-se de beleza. O apreço ao belo e o reconhecimento da sua importância na vida humana são os melhores indicadores da sua cultura.

Não sei como lhes agradecer o facto de terem invadido a península ibérica. Por outro lado, pergunto-me como é que um povo tão evoluído se atrasou tanto e é capaz de infligir tamanho sofrimento às mulheres.

 

sábado, 8 de outubro de 2022

Deo Gratias

 

Imagino-a assim o ano inteiro: Remansosa, espargindo tépida doçura  no ar morno.  Amo o silêncio de missa que se estende até às dunas, a litúrgica voz do mar oficiando. E desvaneço no sabor fresco e vagar caricioso da água festejando pés e tornozelos. Ao fundo, a serra   levanta a cabeça sobre um cachecol de névoa abraçado na indistinta linha do horizonte. A névoa acintosa, agarrada à água como filho às saias de sua mãe, reduz o espaço e aproxima-nos. Finalmente o encontro a sós. Não há pio de gaivota ou voz humana que quebre este cristal de silêncio e os meus pés avançam mudos, acobertados pela dispersão sedosa da areia. Sou crente grata que, atrevendo-se a penetrar no templo natural, tenta entender o sagrado mistério que perpassa na voz das ondas. Talvez eu seja indistinto grão de areia, orante em puro desejo, ou apenas fogo fátuo da criação. Não importa. Há elos fortalecidos. Assim nós de mão na mão, eu e o mar da minha praia quando é minha.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Alhambra e Generalife

 

Era ainda manhã fresca quando desembocámos nos jardins do Generalife. Ou seriam de Alhambra, que de tudo neste mundo se me baralha a geografia.  Vivo desgarrada de conjuntos, em alheios lugares que ao mundo pertencem, mas torno meus e únicos, cortando - sem intenção - amarras de continuidade. Irrompem-me a sós, desligados, imersos no meu mal geográfico. E, ainda assim, são eles e não eu.

Desmedimos na surpresa natural que nos recebe e naquela que nos diz adeus. Em delicioso remanso, tudo por ali floresce. São aprazíveis jardins de  canteiros coloridos e cheirosos, árvores aqui e ali, arbustos de viço invejável, um pacífico sussurro de águas a acompanhar-nos o andar por ruas cheirosas e com debrum de verdura.  No meu parco entender, logo ali me quedava. Ficaria rente aos cheiros a cedro e murta, dedos a saborear o frescor da água corrente, desenhos de luz e sombra a tremeluzir-me na roupa. Surgiam-me recatadas mouras (penso-as vagarosas e susceptíveis de deleite), num vaguear dolente, ora debruçadas sobre as flores, ora no remanso de fresca sombra. Contudo, penso que talvez fossem minorcas magrinhas ou anafadas e cabeludas, o que não cai nada bem no quadro, mas é capaz de ser real; é comum de gente tão morena ter abundância de pêlo. Quem sabe se não eram bigodudas ou assim. Mas calma aí, os gostos da época também contam; e podiam ser esses. O buço de maior acento era bem capaz de ser o mais requestado.  Ora esta, estou a esbandalhar o quadro. Avante.

Não juro, mas parece-me ter entrado pelo Generalife. Sei que esparveci perante aqueles tectos de madeira finamente talhada. Uma coisa do outro mundo, espécie de paraíso que, traduzido, era a fina delicadeza de madeira trabalhada, aparentando véus rendados e parcialmente sobrepostos. Nada o indica, mas são milhares de pequenos pedacinhos encaixados uns nos outros de forma milagrosa e em leveza inconcebível. Ignoro como foi possível executar tal maravilha. Mas existe, está lá, pronta a ser admirada por olhos pagãos. Os nossos.

Depois deste cenário de paraíso, reparei na sala dos embaixadores (não tenho certezas acerca do nome). Por ser linda, penumbrosa, e ter na frente um pátio rectangular, enorme e luminoso. Nele, salienta-se um tanque com repuxos, a todo o comprimento debruado de murta. Tanta murta, pensa alguém. Ora aí está, a murta servia para desanimar maus odores. Porque - estas minhoquices sou capaz de recordar -, depois do tal tanque, lá ao fundo e mesmo defronte da sala do trono onde o califa recebia os ditos embaixadores, ficava a sala onde os cavaleiros aportavam vindos de todo o sítio. E não havia duches nessa sala. Nem abluções (não haveria?! Então e a hospitalidade...estarei a inventar?). Os sábios califas tinham a arquitectura por eles.  Sentavam-se de frente para o pátio e ficavam da penumbra a escrutinar os visitantes que chegavam cansados da viagem de vários dias e é claro que cheiravam mal. Portanto, parece-me que a disposição e fausto do pátio que tinham de atravessar, acrescidos à canseira do caminho, faziam mais vulneráveis os emissários que, atemorizados e encandeados por fausto e luminosidade, penetravam na sala do trono incapazes de distinguir o califa (viam-lhe a silhueta). Que os estudava. Observava-os à indiscreta e pesada luz do sol, desde os confins do pátio  e assistia à perturbada entrada na sala do trono. Não haja dúvida, os califas sabiam o que fazer e como. Até nos aspectos da política útil sublinhavam a sua superioridade.   Alguns sorriam da turvação dos cavaleiros e a outros divertia-os a imagem de cavaleiros poderosos e muito senhores do seu nariz que entravam receosos, ofuscados e meio cegos, quem sabe se aos tropeços.

 

domingo, 2 de outubro de 2022

Pormenores

 

De Córdoba guardo  imagem colorida. A cidade surge-me avivada por usos e costumes, pinceladas de vida que a enformam. Recordo hábitos que a defendem de agruras climáticas; o burburinho contente da vida nocturna, mas sem o alarido de outras regiões espanholas; as lojas judaicas em discreta exibição da sua arte comercial; os bancos de pedra virados à ponte romana, porto seguro de quem anseia descansar, ou por ali se perde em devaneio contemplador; as flores de varanda em sorrisos de salve-o Deus; o rasto vibrante dos árabes a ressumar desde os seixos do chão. Córdoba permite repetir o desejo instante que me acudiu em Ravena: podia viver aqui. E isto traz-me versos de canção, talvez de Sérgio Godinho, “aqui (ali?) vivemos muitos anos”.

 Olhando para trás, pesa-me o desconhecimento da vida citadina de Granada. Nesta cidade, a memória descola do presente e guarda pontos turísticos: o barrio Albaicín, Alhambra e o Generalife, Mosteiro da Cartuja, a Catedral. Ali, a grandeza do passado oblitera o presente. Ruas, granadinos, bulício de gente com seus usos e hábitos hodiernos, tudo se extingue, resume, contrai. Granada vive circundada pela luminária da história. Nos miradouros, turistas encandeados contemplam a cidade branca. Por entre as casas, salpicos de cipreste são persistência militar no combate à aridez. E que descanso, olhar essas manchas de verde profundo mescladas na alvura refulgente das casas. Demoram-se os olhos nelas, repousam, como se a frescura lhes venha da cor e sejam apenas sombra.

E que dizer da ideia de trazer os rios até ao chão que se pisa? Em Córdoba e Granada a calçada é uma renda feita de seixos, pequenos seixos rolados que ardem sob os pés do turista desprevenido. Arrumados em formas várias, quadrados, círculos, rectângulos, são pequena maravilha. E é bonito verificar a utilidade de todas as coisas. Saber que os milhares de pedrinhas do chão vieram da água e guardam na forma o seu efeito suave; não refresca, mas comporta beleza imparável. Às pedras tão pisadas, já, por anos e anos, as afagou a água. Pequenas e subsumidas em linhas de cimento, terão elas saudade?!