sábado, 30 de dezembro de 2023

E Que Venha 2024

 

Mais 365 dias que atravessámos. 365 dias que se foram. Ontem, nas minhas voltinhas pela net, li num blogue uma reflexão sobre o que o ano teve de aborrecido e o que trouxe de bom à autora. Sintetizando, parece que padecemos todos do mesmo: sofremos mal a falta de dinheiro, os electrodomésticos que se estragam sem perguntar se podemos adquirir um modelo novo cuja vida será mais curta que a do anterior, as parvoíces das casas que racham e estalam sem razão, torneiras que pingam ininterruptas e pedem arranjo, copos que nos escapam das mãos e se fazem em fanicos tão pequenos que seis meses depois ainda descobrimos esquinas debaixo do frigorífico ou dos armários, as crianças que são amorosas só às vezes e teimam em exigir atenção quando o corpo nos pede descanso, os adultos tanta vez a fazer mais dano que a criançada, as ervas do jardim crescendo mais que nos desenhos animados, o orgulho viçoso a exibir-se esgalgado entre medrosos projectos de flor, a solidão que se instala quando bem quer e nos tolda o ser que nuns é mal da alma e noutros do corpo todo, o reconhecimento da harmonia que vemos nos outros e nos falta. Resumindo, e sem querer entrar em mais detalhe, um quotidiano difícil e trabalhoso a que não vemos fim seja qual seja a versão do ano vindouro que, afinal, é só um dia depois e é impossível acreditar que seja assim tão diverso.

Na segunda parte do texto a heroína não  esqueceu as benesses recebidas. Concluí que, se nos desastres me assemelho, os meus momentos airosos foram bem diferentes. Tal como ela, assinalo as horas de praia; foram boas, mas escassas na circunstância deste verão aziago. O meu aniversário foi um bom momento num dia quente de verão - todos reunidos e contentes, meu pai pela primeira vez de lágrima no olho, “parabéns filha”, e meu filho estreando-se a filmar os quatro manos e o avô. Houve ainda dois passeios em família que, sem serem especialíssimos, foram bonzinhos – conhecer outras gentes e lugares, dispor os olhos à beleza, é privilégio a que sou grata em qualquer circunstância.

Depois a menina do blogue refere filmes e espectáculos que considerou uma espécie de oásis no seu quotidiano. Ora eu vi pouquíssimos filmes no cinema e nenhum me mereceu referência. Lembro-me de ter apreciado uma ou outra série alemã ou inglesa que passaram na rtp2 e vi na rtp play.  O espectáculo que mais gostei – gosto sempre – mereceu mesmo um texto: o Concerto de Ano Novo da Gulbenkian a que, por azares da vida e do verão, este ano não assisti. Também arejei frequentando alguns cursos: vi pessoas, ouvi gente que sabe do que fala e em linguagem acessível, cirandei por lojas de roupa barata, bebi meias-de-leite que pareciam cappuccinos (viva!), andei à vontade pela rua da Prata. Vi apenas uma exposição de pintura e escultura na Gulbenkian. Fui feliz em cada visita dos filhos. Pasmo da diferença entre eles e do amor o mesmo que lhes tenho. Se há tempo livre e a casa volta a pertencer-me, também passo bons momentos a sós; e sempre que escrevo e estou atenta à mente de que os dedos tentam dar conta, habito um limbo sem outro tempo que o da escrita. E parece-me ser isto uma felicidade de que não dou conta.

Desejo que 2024 seja mais ameno. Para mim e para os que sofrem agruras de guerra e doenças sem remédio ou cura. Para os mais, e mesmo que não vejam filmes extraordinários, nem frequentem espectáculos (divinais ou não), que sejam si mesmos e aprendam a convivência entre os homens e com o mundo natural. 

Que o amor nos salve.  

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Menino Jesus

 

Não faças beicinho que eu anotei: o calendário de Natal passou umas por outras; não te tirei das caixas senão em vésperas (já nem sabia onde estavas, apesar do adizer “meninos Jesus”); escrevi uma miséria de postais e os que prometi entre Natal e Ano Novo, ainda não nasceram e estou em crer que serão nada até ao próximo ano. Do pinheirinho sintéctico, que o filho fez o favor de enfeitar, até já tinha desistido. Acontecia a noite apanhar-me desprevenidamente arruinada e nem o portátil me ressuscitava. Diga-se em abono da verdade, que o corpo inteiro suspirava pela posição horizontal. Um exagero.

 Neste Natal perpassou-nos um espírito diverso. Houve risos? Houve. Alegria da família junta? Sim. Bem de saúde? Mais ou menos. Bolos, vinhos e doces à vontade? também, mas sem exageros. E um brinde feito pelo neto mais velho, a quem nos faltou este ano. Gostei da atitude. E penso que meus pais, e em especial o avô, se orgulharam dele. Contudo, não os senti. Mal me sentei à mesa da consoada e pouco  estive à lareira, onde os nossos mortos, sei lá porquê, gostam de estar. Li “La psychanalyse du feu” de fio a pavio, - uma amiga querida fez o favor de mo oferecer -, mas juro que não encontrei resposta em tanta página. No entanto, admito que me tenha passado. Advogo que meu avô, minha mãe e meu pai gostavam muito de “lume de chão”. Talvez por tal motivo se cheguem ao brasido.

E enquanto nós éramos mais ou menos felizes tu que fazias, Menino? Entretinhas-te a nascer de novo; ou apagavas as velas de aniversário que espero sejam só quatro, cada uma com um número. Ou nem com ajuda de todos os anjos do céu – na terra também os há - tu conseguias apagá-las; ainda incendiavas as nuvens e olha que já temos desgraças que cheguem na Terra, não precisamos que um céu esbraseado nos caia em cima.

Pois é, deixei passar um tempinho sobre o teu aniversário para não me acusares de desmancha prazeres. Mas tenho de te dizer muito sinceramente que me foges à compreensão. Afinal que pai és tu, hoje?! Que sempre me pareceste um pai estranho, isso é verdade. Quantos inocentes deixaste condenar pelos que se dizem teus representantes? Quantos foram, vá. Quantas guerras e mortandades à sombra do Teu nome?! São os homens, bem sei. Tudo são erros e desmandos humanos. Tudo é ambição e desnorte. Os homens estão a falhar a si próprios. A corrupção é de tal ordem e o sangue corre tão espesso que o mal do mundo me parece insolúvel. Mas quantas vezes os nossos antepassados pensaram o mesmo?!

Ora, julgo eu, um bom pai não cruza os braços e fica, soberano, assistindo todas as perversões a que os filhos se dão. Tu toma tento, ouviste? E não me venhas pôr tremores de terra à porta, sff.

Obrigadíssima


quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Fora de Contexto

 

Acredito piamente que a Isabel consiga mais, mas talvez menos que a Carmen: não é jovem e, excepto se tiver conhecimentos nos media, apesar de ser sábia e uma conversadora extraordinária e muito fluente, nada tímida, cheinha de histórias que não enfadam e antes põem bem dispostos os ouvintes - entretém qualquer público - precisaria outro género de divulgação. Contudo, admito que ela o possua e eu não saiba, há muitos anos que não contactamos. Além disso, e apesar do sotaque e de amizades selectas, possui fluência verbal e imaginação de escritora. É professora de português e Inglês, idolatrada por alunos e ex-alunos de todas as idades (compram de certeza o livro ainda que possam não o ler). Ontem reconheceu que contava muitas histórias nas aulas, funcionavam como isco da matéria. Ainda acrescentou que, na Academia Sénior dá inglês ao som dos Beatles e cantam todos antes ou durante a aula propriamente dita. E sei que os vários tipos de aluno a preferem, fui sua colega no ensino nocturno e diurno.

O livro foi apresentado por um amigo também escritor e advogado e que desconheço. Disse o que é normal dizer-se. A representante da Academia, que provavelmente tratou de toda a apresentação e trabalho de bastidores, teceu elogios às aulas, à pessoa, ao livro que lhe foi dado ler antes da divulgação pública. Isabel foi familiar sem excessos. Tinha o neto mais velho (já com bigode farto e certo ar de rapaz-homem) a vender os livros; e o marido pontuava na primeira fila. Emendou sempre o eu que lhe saía espontâneo para um nós bastante enfático, e cingiu-se à matéria do livro contando que versa sobre a sua criação serrana e a importância das pedras, amor que procura transmitir aos netos quando por lá passeia com eles; acrescentou que ali estão plasmados os seus princípios até à juventude.

Digo que a Isabel foi realmente a personagem principal do evento e tomou conta da conversa-monólogo. Mas como ela é sempre ela, e sempre professora, achei engraçado que, durante a sessão de autógrafos, foi ralhando com os alunos seniores que andam a faltar às suas aulas. Sei muitas das suas histórias de vida e assisti em directo a algumas. Espero o novo livro. Por ser o que deseja e no que trabalha neste momento. Oxalá a vida lhe permita a construção.

Realizou mais um sonho – ouvi-a vezes sem conta dizer que, quando se reformasse, havia de escrever um livro com os episódios mais relevantes e quanto eles lhe mudaram a vida e o pensamento. Digo: Conseguiu! Do que a autora explanou – e explanou por onde quis -  deixo apenas uma ideia: tudo tem de ser feito com paixão. Ou fica insonso - digo eu.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Fora de Contexto

 

Ontem desmarquei-me do Natal e fui de alma e corpo para a apresentação do livro de ex-colega de trabalho. Não sou, nem nunca fui sua amiga. É uma colega que veio “da Linha”, com um sotaque todo “tia de  Cascais“ – ontem soube que é da Serra da Estrela onde ainda tem casa. Casou com um outro colega com quem trabalhei a vida toda, até nos reformarmos antecipadamente – ele  antes de mim. Têm uma queijaria famosa na terra e fora dela. Vendem queijo fresco por todo o país. Neste momento, pelo menos dois dos filhos entraram a todo o vapor no negócio que parece correr bem.

O livro é, segundo a autora disse ontem - ainda não li uma linha -, a sua autobiografia. Já tem garantida a edição de um segundo volume onde continua a saga e que conta propriamente o que viveu e aprendeu e ensinou na minha terra, lugar para onde se deslocou já casada e com quatro filhos, quando, para satisfazer um sonho da dupla, deixaram o conforto da dita “casa da linha”, compraram uma quinta no Alentejo e se viram de repente a braços com ela, sem entenderem um boi de agricultura e numa casa velha e decrépita, falha de esgotos e electricidade. Tinham telefone (que ela pronuncia tefóne), mas sem portas interiores. Isto é absoluta verdade, foram meus alunos três dos seus seis filhos e as suas descrições eram hilariantes. Claro que, do que dois deles me confidenciaram, nada transpira aqui ou noutro lugar. Não por ser segredo absoluto, que não é; mas confidências são confidências. E ponto. Qualquer deles foi, em seu tempo, dos meus alunos dilectos. O Francisco conseguiu mesmo que me deixasse fotografar com a turma para uma revista escolar de que já nem lembro o nome. Era o garoto menos estudioso e mais culto da turma; também o mais genial e bem disposto que conheci na vida; atrasava com regularidade à primeira hora e tinha sempre uma desculpa convincente a que só algumas vezes anuí.

E gostei da apresentação  - detesto apresentações de livros e é movida por qualquer sentimento alheio à obra que compareço em algumas. Mas faço questão de comparecer em todas as que se fazem aqui na terra e de que tenho conhecimento, para divulgar talento e obra de um conterrâneo. Por saber que aquele é o seu momento de glória. Salvo Carmen Garcia, nenhum vai além da primeira ou segunda edição e, na maioria, a tiragem de exemplares nem a primeira edição esgota. Mas há em qualquer livro o exercício aturado da palavra e muito tempo dispendido em torno desses símbolos gráficos. Portanto, estou lá no momento de cada um dizer, “já está, consegui”. E aplaudo.

(cont.)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Cristais

 

Creio que me retiraram do anonimato onde dorme grande parte dos professores que todos tivemos. No meu mundo particular são duas estrelinhas. Uma convidou-me para o casamento; a gordinha sorridente não fez convites, casou brevemente e a sós com quem é hoje marido. Admiro-a. É batalhadora e pacífica em alguns momentos, mas sabe fazer valer os seus direitos. Tem um filho universitário que vi crescer, lembro-o bebé numa alcofa e logo, logo, a gatinhar na manta que abri na sala para ele. É um bom aluno, orgulho dos pais e meu. Sinto - e já lho disse - que é quase como se fora minha filha: conheço-lhe problemas e alegrias, e vou acompanhando com mais escuta e assentimento que palavras. O cancro levou-lhe a única irmã, o pai também ainda há pouco se foi, a mãe é pessoa difícil e sozinha. A minha menina, é assim que a penso, já se submeteu a duas cirurgias, está à beira da terceira e não vai ser fácil, tem problemas sérios. De tempos a tempos conversa comigo, mas raro aborda saúde e doença próprias, sou eu quem pergunta e pede resposta. Um dia destes foi abaixo e entrou pela psicologia dentro. Deram-lhe baixa e ficou em casa, facto que não comoveu a mãe, nem a convenceu a ela. Melhorou, regressou ao emprego e afirma convicta que não se dá com psicólogos. Os três são uma família a sério. A santíssima trindade vem sempre almoçar comigo em vésperas de Natal - escolhem o dia livre do pai e avisam antes. São horas que apreciamos longamente. Eles gostam de conversar e sempre lhes apetece tudo o que almoçam. O meu prazer a vê-los comer é genuíno e um pouco vaidoso. Depois e durante, lembram o tempo - diferente - em que ambos foram meus alunos. Trazem notícias da amiga (continuam unha e carne) e de antigos colegas que encontram ao sabor do acaso. Mas a essência, a infinita glória, é a certeza que temos uma na outra. Há verdades assim, cristalinas.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Cristais

 

É uma miúda gordinha. Olhando-a, supõe-se que o tenha sido desde sempre. Aluna mediana, por vontade própria não foi além do 11º ano. Nunca chumbou/ficou retida. Conheci-a quando frequentava o 11º ano. Era uma falsa dócil, sorridente e determinada. Tinha uma amiga do peito que se mantém e que acompanhou nas aventuras do teatro, ainda que se autoexcluísse desde o início. Viviam ambas longe, mas chegavam à cidade no mesmo autocarro, uma guardando lugar à outra, como era hábito de todos os garotos que nele viajavam. Nunca ouvi queixas dos que se levantavam às cinco, seis e sete da manhã e a maioria dos professores ignorava o facto, poucos liam o verso da folha da caderneta de turma. Não é uma crítica. Ou é.  Assumo a pertença ao grupo de leitores preguiçosos. Mas o teatro traz um conhecimento outro a todos os participantes. O modo como nos conhecíamos num projecto criado desde a raiz, que brotava com o tema, seguia para a situação e logo para as palavras com que a queríamos dizer. Líamos em conjunto e era um entusiasmo passar aos que depois se aventuravam a decorá-las assumindo-as como suas, enquanto alguns ficavam a olhar e opinar sobre isto e aquilo. Tudo extra-aula. Ela, a gordinha simpática, esteve sempre lá. Chegavam cedíssimo à escola e partiam tarde; os autocarros camarários tinham muito a fazer e o horário era o que era. Mas foram sempre esses alunos quem mais participou em actividades voluntárias e extra-aula; eram os mais respeitosos; porém, em quase todos germinava a determinação que os da cidade não tinham. Se convictos, afrontavam a própria direcção da escola. Faziam cenários em hora aprazada dos fins de semana, o papel estendido no chão da minha sala vazia e os dotados a mostrarem o que valiam; ou ensaiavam a peça que a semana, de turmas, horários e anos diferenciados não permitia. Durante a semana fazíamos ensaios por fracção, de acordo com a disponibilidade escolar e de explicações. Mas aquelas duas garotas davam um jeito. Convenciam os mais renitentes e ajudavam no que podiam.

Uma vez, talvez por um ensaio, talvez por qualquer outra ajuda, acabei a dar-lhes almoço. Azar! Nesse dia não tinha nada em casa e julgo que nos limitámos a fritar batatas e estrelar ovos, ou coisa semelhante. Mas combinámos sei lá quê enquanto almoçávamos. Adiantámos. Eram tão entusiastas que repetidamente me deram empurrões mentais e nem eu desconfiava das conversas que tinham tido na direcção, nem quanto as negativas que recebiam se transformavam em força radical. Só há uns dois ou três anos a minha gordinha querida se descoseu. Combinaram não me contar e cumpriram. Fiquei a admirá-las ainda mais. Não esqueço que a minha gordinha sorridente, para ficar a ajudar, abdicava do transporte e pernoitava em casa da amiga. Radiantes ambas, contando sobre os ses dos progenitores e a perspectiva de uma noite inteira para elas.

(cont.)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Alegria

 

Ontem foi um dia muito cheio. De movimento. De trabalho. De alegria.  Escolho dar notícia da alegria: em viagem no Intercidades ouvi de repente “Olha a minha professora de…” E desta vez, ainda que só ouvisse a voz vinda lá de trás da carruagem, pensei que era comigo. Pronto, às vezes não penso isso. Uma vez num consultório chamaram a doutora x – que era eu – e pensei um tanto surpresa pela coincidência, “Olha, há uma médica com o meu nome e é uma das pessoas que está nesta sala”; e nem sequer levantei os olhos. À segunda vez, pensei se a doutora x não estaria na casa de banho ou assim, dado não ter ouvido ninguém a levantar-se. E continuei na minha (talvez estivesse a ler). Quando a funcionária saiu do guichê e parou na minha frente, julguei que viesse recolher dados, preencher papelada, mas ela sublinhou: doutora x o doutor y (isto está a ficar cheio de variáveis) está à sua espera no gabinete. E eu a levantar-me à pressa, arrumando a tralha que devia ser o tal livro, e admiradíssima, a doutora sou eu?!! Ok, ok, ok. E lá fui para o respectivo. Bom, já entrei em devaneio.  

Voltando à causa da minha alegria de ontem: Ia sentadinha no meu lugar, muda e queda lendo o princípio do segundo livro da Carmen, o que tem organização de Isabel Alçada, quando um brasileiro no banco ao lado me perguntou se o comboio ia para Setúbal. Informei-o que ia para o Alentejo e que fora sorte ter perguntado antes do Pinhal Novo, estação onde poderia descer e apanhar o comboio certo. O brasileiro respondeu qualquer coisa que me fez rir. E foi nesse momento que ouvi o “Olha a minha professora de…” Não reconheci a voz nem vi ninguém, mas tinha de ser comigo. É que, se chamam pelo meu nome, penso ser para outra pessoa; mas se disserem “a minha professora de”, penso logo que sou eu. Isto bem analisado devia dar bom assunto. Mas não estou para isso, quero escrever alegria.

Entretanto, o revisor acercou-se do brasileiro para o informar melhor. Mas, em vez de olhar para ele, ficou a sorrir-me dizendo com laivos de orgulhosa e terna perspicácia, “conheci-lhe a voz e o riso, e olhe que nem a vi.” É claro que também o reconheci apesar de duas décadas sem nos sabermos. Foi um momento mágico, os nossos olhos contentes do encontro. Há laços que parecem ténues, mas não desgrudam. E não foram assim tão ténues, três horas lectivas semanais durante dois anos escolares atam-nos uns aos outros. Eu não lhe disse que engordara e estava careca; ele não me disse que o meu corpo também mudara, que as rugas se instalaram e o cabelo embranqueceu. Tais constatações não nos importam.

Para terminar o dia  - em dezembro os dias encurtam -, fui dar uma aula, a última deste ano civil. Julgo que correu bem. Uma aluna disse-me que sou a professora que veste mais fora da caixa, e deixou-me a pensar se as outras profs vão de saia-casaco ou assim. Outra confidenciou-me a sós, “eu quase chorei com os poemas”. Os poemas lidos eram poemas de Natal. Não escolhi poemas tristes ou que falem da morte. Perguntei apenas, mas gostou deles? E ela, “gostei muito”.  

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Em Espiral

 

Não sei onde param os meus três Meninos de Natal. Descansemos (a minha alma e eu), ainda há várias caixas por abrir, nada de suspense. E se no interior do sigiloso cartão houvesse outras coisas?! Jogos, peças de lego e outras bugigangas. Se em vez dos laços e fitas me surgisse uma espiral de serpentinas, por exemplo. Hummm….Diria o meu professor de Antiga cheio de propriedade enfática, “ Se, se, se. Se a minha avó tivesse rodas era uma bicicleta.” E eu que nunca entendi bem o que era uma faculdade apesar de frequentar aquela tal, arregalava os olhos um bocadinho ofendida com a injúria à avó desconhecida, enquanto o resto do people sorria largamente, fazendo aquele ar de compreensão experimentada que me faltava e não chegou a nascer-me. Verdade, cultivo o humor mais básico. Devia ter razão o meu professor, os ses não interessam. Os ses não são reais. Os ses são hipóteses palermas.

Ora! Vendo bem, há hipóteses irrealizáveis sim senhor. Que não podem ser, impossíveis. Por certo prevendo lesões no ego, aconselhava Aristóteles que, a serem postas hipóteses, elas teriam de ser possíveis. A impossibilidade é aquilo que na minha terra se traduz por, “não dá fajaca”. Contudo, suponho que todas as descobertas, da hiperbólica à nano-micro (não sei se existe tal unidade de medida, se a inventei agora - ai, ai, dois ses na mesma afirmação), iniciam com um se, uma dúvida, um desejo de que, de uma certa relação ainda não experimentada resulte algo novo ou apenas diverso. A avó dele, tendo rodas, era uma bicicleta? Fiquei com pena da senhora, coitada. Ali, numa aula, mais de cinquenta mânfios a ouvirem que lhe bastariam duas rodas e pumba, mudava-se em bicicleta. Ainda hoje tenho dúvidas sobre a árvore genealógica do meu professor. Bom, ele parecia humano em toda a linha e aprumava um sorriso lento quando entrava, gloriosa e inocente, certa garota que, era inegável,  lhe dizia qualquer coisa ao âmago. Revi-o há alguns anos, continua a parecer humano, proferiu mesmo palavras naturais, muito idênticas às de toda a gente. Porém, não me convenceu, preservo os ses. E a certeza que não basta pôr duas rodas numa pessoa para a mudar em bicicleta.

E tudo isto para dizer que hoje reservei um tempo especial para dispor a casa e a mim de molde a recebermos o Natal, a família, os amigos, e quem mais queira vir e venha por bem. Mas quis o acaso que o usasse inteirinho numa inesperada lição de tricot. Ele há coisas...

 

domingo, 10 de dezembro de 2023

Ao Natural

A força de viver da natureza continua imperturbável. Se dela nos esquecemos, assola-nos e pode submergir-nos. Falo da natureza domesticável e não de terramotos, efusões de vulcão ou assim. Falo das ervitas e do musgo de que se revestem os campos e bordam a toda a volta os meus mosaicos da rua; falo da impertinência e proliferação de espécies que nascem em qualquer canto; falo da satisfação herbácea e clorofílica a que o meu cão, que Deus tem, dava um basta de deserto – nada nascia no seu perímetro de acção.

A minha veia natalícia desasou com o aspecto abandonado do quintal. Portanto, quando dei por mim, em vez do proposto retirar de conteúdos daquelas duas ou três caixas, atacou-me uma filoxera, peguei na tesoura de podar e zás! Pus termo àquela malva descomunal que retirava força às não me lembro o nome, flores pequenas e de cor variegada, em forma de campainha e  esmagadoramente olorosas - o odor palpita pelo quarto quando, em inícios de primavera, colho algumas. Pois essas mesmas, este ano quase não conseguiram nascer (parva da malva e da dona dela). Devo-lhes cuidado redobrado, já que, ao longo dos anos, e sem que eu mova um dedo, têm brotado como cogumelos; quando dou por mim, estou a contemplar-lhes a vontade de viver. Em bom português, sou a única culpada da sua asfixia, que a malva, até ver, não lhe conheço alma pensante. Pobres flores (só me estou a lembrar de petúnias mas são outro nome; pode que ainda me venha).

Mas não se pense que me faltou vontade de Natal. Nada. Era já noite cerrada, quer dizer umas dezoito e picos, quando me fui a uma das caixas. E para não bisar a pausa, passei a ferro um monte de franzidos encarquilhados, sinos e laços a competir em número e cor. Detesto – e nem costumo -  engomar, mas deu-me algum prazer desfazer vincos e assistir activamente ao reaparecer de padrões estafados, mas que a minha alma de infância conserva e a que encontra beleza. Em minha casa antiga, era eu filha única, o breve do Natal eram mesmo os meus sapatos em cima do moxo pequeno, meu assento particular, feito e oferecido por meu avô. Não conheci mais chaminé que a do candeeiro a petróleo, mas todo o amor em que imergia, os braços e as mãos que sempre me acolhiam são sem tempo ou preço e valiam tudo que  o balsâmico calor da lenha a queimar nunca me dará. Mas tive em profusão. É farol que, em dias e noites de névoa, quando mal se vê nos longes, afirma o de sempre, “estou aqui. Contigo”.


sábado, 9 de dezembro de 2023

Embirrâncias

 

Sei muito bem porque me lembra hoje aquele colega do liceu que afirmava convicto, “eu, se fosse professor, logo no primeiro dia apresentava-me à turma e dizia, como nesta hora sou eu que mando, podem sair, dou  feriado”. Segui-o no completo. Logo à primeira, dei feriado ao calendário de natal. Suponho que os artigos dentro das caixas estejam piursos; e eu ralada.

Hoje, provavelmente, acordei meia adoecida, só pode. É que amanheci decidida a aprender a trabalhar com a nova máquina de costura. Nova, é como quem diz, comprei-a – é minha mesmo minha - há uns bons quatro ou cinco anos, se não mais. Digamos que, durante este tempo, lhe dediquei respeito integral: nem da caixa saiu. Podia ter defeito, estar avariada? Podia, a garantia estava finadíssima. Se eu pensava nisso? Nada. Sou do mais optimista no que respeita a maquinaria, creio a pés juntos e jurados que máquinas novas em toda a altura estão aptas ao trabalho. Tal qual. Portanto, gastei um bom par de horas a decifrar peças e estranhezas do objecto, olhos ora no manual, ora na máquina própria ela. Somando mais meia hora para aprender a encher a bobine com a precisão devida (meia hora, muita linha e imprecação), e outra meia para acertar com o enfiar correcto da linha, acrescentando 15 minutos para encher panos velhos de ziguezague e ponto corrido, perfiz a bonita conta de três horas e mais um tanto. Arre, que é burra mesmo (razão tinha o prof de matemática). Perco eu a manhã desvendando segredos de uma máquina, para depois coser o descosido em menos de dez minutos. Está visto que a “queda” para a costura me comeu os ânimos natalícios e nem um olhar lancei às ditas caixas. Estão aqui bem perto? Ora, quero lá saber.  

 

No início era o Verbo...

 

         O querer dos homens é até certo ponto previsível. É assim que, em dia incerto de Dezembro, me toma a febre dos enfeites natalícios. São dormentes de ano inteiro e quase à minha beira, sem a benesse de ponta de saudade humana, motivo para julgá-los contristados. Dou-me mesmo ao desplante de os sobrecarregar com caixas de outra natureza: roupa fora de estação, pormenores que fazem falta e depois não encontro nas gavetas habituais por estarem a pesar sobre eles onde, desmemoriada da pressa com que os enfiei na fila de adereços natalícios, jazem mortificados pela incúria que me pertence (tudo almeja arrumação de gaveta). E sobre este assunto muito haveria a dizer porque já comprei caixas em forma de gaveta, mas não consegui – até hoje – convencê-los de tal afinidade.

         Mais por dever que vontade expressa, trouxe algumas caixas que enfileirei lado a lado pensando no amanhã - hoje - para lhes dar a ver a luz do dia que, por acaso, acordou mortiço e mais anestesiado e mono que doente em bloco cirúrgico. Contudo, e só por desfastio, destapei uma ou duas caixas. E vi bolas de brilho recobertas por laços sem graça, amachucados de saudade. Acudiu-me uma pontada de remorso, estão ali entre 340 e 350 dias. É obra. Aguentam o aperto promíscuo e permanecem inertes e desmaiados até que as minhas mãos decidam dar-lhes a vida para que nasceram. Verdade, há vidas mais breves, insectos e flores que duram um dia apenas. Nós, humanos, duramos o que durarmos, mas fomos dados à morte desde o nascimento. Ocorreu-me que não posso mesmo descuidar objectos que apenas existem no natal. Talvez os laços que prendo no alto dos cortinados, em breve deixem de estar; talvez as cortininhas da copa e o folho da cozinha os acompanhem, haverá um dia em que o escadote me seja interdito. Mas, antes que tudo fique mudo e quedo, antes que as minhas mãos lhes faltem, hei-de desalinhavá-los de caixas, dar-lhes um toque de graça. Grande parte foi-me oferecida e assim me  rodeio de quem me gosta. Alguns já partiram, a outros a vida impossibilita visitas, mas nesta data estão comigo e espalham-se pela casa. Numa das caixas abertas espreitavam abas franzidas dos saquinhos que minha irmã confeccionou no primeiro Natal em minha casa. A minha querida S. batendo palmas e a pôr o dedinho para a mãe fazer o laço, e depois a mãe a içá-la para poder distribuí-los no interior do parapeito da janela. Não esqueço o seu encantamento com o efeito final, nem as vezes que parou a mirá-los enquanto a infância lhe durou, o orgulhoso “fomos nós que fizemos e demos à tia”. S. cresceu, fez-se uma adulta simples e linda e tenho um orgulho imenso no seu sorriso capaz de aquecer o coração mais empedernido (o avô tinha por ela um carinho especial). É certo que dos dois anos que tinha então, nada recorda; mas é com mesmo gosto que vou hoje - e sempre que o Natal e a vida mo permitam -, ajeitá-los na janela da copa, tentando repetir o seu gesto iniciático.

 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Desconforto

 

Aviso à navegação: hoje acordei cedinho, provavelmente por estar a subir uma escada difícil, em caracol e a que faltavam degraus. Os que existiam eram móveis – esticavam e encolhiam a seu bel prazer. Como em todos os pesadelos, tinha de subi-los, embora sem sombra de agrado; olhar os movimentos da escada já me impressionava. Portanto, desatei a abrir portas atrás de portas no rés do chão (acho que era estudante e ia fazer um exame ou assim, qualquer coisa com hora marcada) mas, para meu espanto, atrás de cada porta decorria um ensaio de teatro e todos me olhavam como se estivesse a interromper momentos mágicos; eu fechava a porta, sentia-me importuna e desiludia antevendo a subida da escada (que coisa!) e receava cada porta por abrir. A cena repetiu-se invariável, até que uma aluna me informou que a minha classe estava no primeiro andar. Foi simpática e levou-me até à escada que, perversa, aumentara a velocidade no movimento inesperado dos degraus e na distância que tinham os buracos negros entre eles. Compreendemos ambas que quanto mais eu demorasse maior seria a distância a saltar. Então aproveitei a maré e, sem aviso, saltei para o primeiro degrau que logo, logo, encolheria; mas já eu tinha pela frente uma distância considerável até ao próximo degrau. Calculei a exigência do salto e lancei-me no momento exacto em que o meu degrau desaparecia. Consegui. Do patamar, ela aplaudiu e fez-me sinal de retorno à aula de teatro. Olhei para cima e tive perfeita noção da dificuldade daquele mecanismo inexorável, que trabalhava contra mim num ciclo de velocidade progressiva que seria incapaz de aguentar. Portanto, acordei. E foi o melhor que fiz.

Dado estar numa de lamentações pueris, quem quiser passe à frente, que este post é mesmo desimportante. Vale-me ser estado passageiro.

Acontece que nos momentos em que deveria sentar-me num banquito e esperar que passe, por vezes, me apetece escrita desditosa. Então desembrulho o meu rol de queixas e quero lá saber do optimismo. Vou decerto recuperar o espírito natalício, nem que seja a fingir. Tenho - puro acaso -, uma prenda comprada, este ano não fiz sequer a lista. A amiga (creio que tanta desdita nos aproximou) vai-se consumindo dia a dia em doença irrevogável. Mas continua a ligar-me, sinto-lhe o esforço de comunicação e a solidão que a vai revestindo à medida que o poder de comunicar falha. Muitas vezes liga por engano, treme-lhe o dedo nas teclas, vê mal e não acerta. Se a visito, uma das minhas funções é clicar na tecla de atender e pôr-lhe o telemóvel ao ouvido. Desconfio que o tutor esteja demasiado afectado pela situação, parece-me que deprime à medida que ela piora; esta semana faltou-lhe, tem problemas com o automóvel, disse (não acredito). Um tutor que é amigo de infância porque não há familiar que se chegue, teve de ser um amigo a aceitar a tutoria. É casado, tem filhos já autónomos e de bom viver. Mas vive longe e, perante o progresso da doença, parece claudicar (por vezes encontro-o lá). Ela depende muito dele, dedica-se a quem mais a acompanha e tem nele a possibilidade de rememorar tempos em que se reconhece, ainda era ela. Parece-me natural. Linguagem a que não pertenci e não sei. Conheci-a à beira da doença, ainda íntegra e com outros interesses, ligada a outras pessoas com quem fazia grupo. Pouco sei da infância, juventude e até da maturidade. Falo-lhe de música - que não ouve por lhe dar dor de cabeça -, de livros, leio-lhe uma página ou duas em que faz questão (diz que prefere ouvir-me ler ou contar) e paro logo que lhe noto desconforto. Quero dar-lhe um áudio-livro de presente, mas não sei se poderá ouvi-lo. E é isto.

Desculpem a queixinha. Talvez este desabafo me destranque e amanhã inicie o Calendário de Natal. Quem sabe…

quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Acasos

 

Pergunto-me por vezes a razão de estar atenta às pessoas que seguem viagem comigo nos transportes públicos.  Suponho que a pouca frequência de habitá-los me espicaça e de cada vez encontro um mundo novo. O hábito tem outros olhos. Terá sido por isso que guardei aquele cabelo azul em obediência saliente, espraiado pelas costas e reluzindo vida marítima. Era uma menina do mar sorridente, dir-se-ia mesmo feliz e em conversa, talvez com o grande deus do mar, que cingia ambos. Um mundo de apetite e sorrisos travessos (sim, sim, vi bem a sua natureza) a cintilar sobre o dia cinzento, guarda chuvas chorando mágoas que não lhes pertencem, pinga aqui, pinga ali, nó de mãos ciosas, inconscientes de dedos chuvosos. E os dois cintilando sem dar conta. Talvez como as estrelas que todos olhamos e não nos vêem, mas são mais belas por esse intocado que resplandece. Do outro lado, uma mãe devota carregava no colo a criança e procurava lugar. Hoje é difícil ver este quadro, uma criança guardada dentro dos braços. Quando a jovem se sentou, reparei que a garotinha usava chupeta e, braço levantado, os dedos ninavam a sua cantiga no lóbulo da orelha materna. Lembrou-me o verso de Miguel Torga sobre um carneirito e a mãe ovelha. Não sei se, como no poema, a vida parou a ver, mas a bebé foi fechando os olhos e adormeceu. A mãe ajeitou-a melhor na cama dos braços, como se daí a minutos ela não chegasse ao destino, e antes fossem assim unidas até ao fim do mundo. Na lufa-lufa das manhãs não vi sair a menina do mar. Mas, quebrado o encanto, o deus já não era deus; era um rapaz encostado numa esquina do Metro a olhar para nada e que, na estação seguinte, ouvia música metido consigo. 

Numa das estações, não sei qual, entrou um pedinte – há muitos nesta época do ano. Não costumo ceder a quem pede. Não sei que doença tinha ou se sofrera queda grave. As pernas eram uma chaga em carne viva e apoiava-se numa muleta. Mais parecia que lhe tinham escavado a perna em vários lugares. Faltava-lhe carne, via-se sangue e os pequenos vasos que percorrem os músculos. Podia ser um bêbado, alguém atropelado, sei lá. À vista daquelas chagas arrepiou-se-me a pele. Qualquer que seja o motivo, não consegui ficar indiferente. Mesmo sabendo que em nada contribuo para o seu bem-estar. Quem sabe era um dos muitos sem abrigo que vivem por Lisboa como por outras cidades do mundo. De certeza se exibia para suscitar piedade e receber esmolas. Mas não interessa o motivo e nem o fim. Alguém ferido daquela maneira não devia precisar exibir a moléstia para sobreviver.

O resto da viagem não recordo quem entrou e quem saiu, aquele desgraçado tomou-me conta do pensamento. A questão não me abandona. Como se resolvem problemas destes. Quando.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

                 Minha mãe quis saber o que me passara pela cabeça para fazer tal avaria. Respondi contristada com a obra, pensava que vocês iam gostar; e depois a franja nunca mais ficava certa e fui cortando para acertar, de um lado, do outro, até que desisti porque já se via a testa quase toda.  A mãe zangou-se um bocadão e explicou-me por que não devia repetir a façanha. Tive de pedir desculpa. Cabisbaixa e arrependida do mal feito, lá fui. Desculpas aceites, ela sorriu e animou, deixa, logo cresce, não fiques triste. E avisou, não voltes a experimentar.

Hoje, eu e a garotinha da franja assassinada, somos boas amigas e também de muitos anos. E a amizade que tinha pela minha amiga mais velha não esmoreceu. Se passo em sua casa só para a ver e saber de como leva as maleitas da idade, logo me enche de presentes. Sabendo do meu gosto, guarda-me os dióspiros, dispõe-me flores em vaso e dá-mas já floridas, oferece-me anualmente os marmelos para a marmelada caseira. É um coração de ouro a que não sei como agradecer. Toca-me o seu desvelo, porque envelhecemos feitos criança que precisa de ternura e sou profundamente grata aos seus gestos protectores.

As filhas são umas sortudas.  Mas ela também. A mais velha emigrou há muito ano para o Reino Unido; por lá casou e gerou descendência. A dada altura, teve cancro. A mãe, mal soube, não perguntou nada, não foi ouvir este ou aquele que já tinha voado. Arranjou-se e foi para o aeroporto, comprou um bilhete e meteu-se num avião pela primeira vez. Não sabia uma palavra de inglês, desconhecia aeroportos e de bilhetes de avião. Mas chegou lá. E só voltou quando a filha restabeleceu da cirurgia. O amor maternal pode muito. Mas o amor dela era desesperado; tinha o desespero da lonjura e da doença, o desespero da filha sozinha num país diferente. Nada a impediria de ir. Em contrapartida, certa vez em que a filha me mostrava as peónias do quintal (era um ramo lindo), reparei que a jarra de peónias estava sobre uma mesinha e acompanhava uma foto de bom tamanho: a mãe jovem, sorrindo eterna na moldura. Uma rapariga graciosa, igual à que existe na minha memória e talvez ela nem tenha conhecido.

Que beleza e sorte temos, se nos é dado deparar com gestos de amor profundo.

                                                                FIM

 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

Mau grado os avisos de minha mãe “tens de bater à porta, a casa não é tua”, continuava a entrar como um pé de vento, sem bater, puxando o atilho ligado ao trinco. Por tal desmando, observei pela primeira vez um homem nu. A surpresa atrapalhada de quem se banhava na cozinha e quedou de olhos arregalados, deu-me asas para a volta. Minha mãe numa estranheza, “não estavam em casa?”. E eu aldrabando - a verdade chamava a zanga materna -, tinham o postigo fechado, não devem estar em casa. E sentei-me a pensar em tamanha atrapalhação a que não via causa e a constatar mentalmente quanto aquele apêndice de nada crescia nos homens. Fiquei bastante contente por ser diferente deles.

Certo é que aprendi de uma vez a bater antes de franquear a porta. Para o que também serviu a minha vizinha, no seu meio sorriso habitual, ter contado a verdade a minha mãe.  

Entretanto, os nossos pais compraram terrenos contíguos e bravios que desmatavam aos fins de semana. Meus pais arrancavam e eu carregava estevas,  mato e demais arbustos para um montão a que pegavam fogo e vigiavam; muita vez me deixaram por casa com a mana e chegavam já a lua subia no céu. Ao tanque da roupa, em tarde de sábado ou nos domingos, ouvia-lhes os projectos – as duas sonhando abrir um poço e ter um laranjal erguido a pulso, um tanque de rega perto da casa a haver. Era um sonho bonito, esperança futura tecida com fadiga e sons de enxada.  Eu sonhava distinto. Por esse tempo, escrevia ingénuas cartas a Salazar pedindo uma bolsa de estudo – ainda que não soubesse o que era, repetiam-me a condicionante: se queria estudar, havia que tê-la. Fez-se definitiva a evidência - habitávamos mundos distintos. A minha amiga transitara para o planeta de minha mãe e eu vagava num limbo, poeira cósmica ainda sem lugar. Aquela que eu encontrara desde sempre, existia num fundo muito fundo; casamento, maternidade e problemas de mulher casada tinham-me posto entre parêntesis.

       Numa tarde em que ficara de vigia às duas garotas, daí a um nadinha de chegarem cansados e suados "da fazenda", horas extraordinárias depois de um dia de trabalho, a minha amiga entrou com a filha pela mão e logo o meu lugar um foco; podendo, eu desaparecia. Meio a rir para minha mãe, ela pediu: olha bem a minha filha, não lhe notas nada? E nem um soslaio para o lado onde eu minguava quanto podia. Enquanto minha mãe esquadrinhava o rosto da criança, enchi-me de apetites de invisibilidade, de haver uma magia de história encantada que me fizesse desaparecer. Mas o tempo desapiedado e a encolher ombros, seguia a passo de caracol. Não houve milagre nem varinha de condão, só a voz de minha mãe: é a franja. Ai coitadinha da menina, quem é que lhe fez isto? E foi quando ela, meio desencantada, desatou o saco,  foi a tua Bea – aí olhou para mim –; cheguei a casa e disse ao marido, tu não achas a menina esquisita hoje? E ficámos os dois a atentar nela; quando descobrimos, perguntei e ela anunciou que a Bea a cortou porque o cabelo já lhe entrava nos olhos; mas já viste bem este trabalho, deixou-ma quase sem franja. Agarrou a mão da filha e saiu.

domingo, 19 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

                 Os bebés devem ter chegado na ordem certa e não tenho memória de sofrer de ciumeira por ter em casa uma irmã que os vizinhos espreitavam.  Passados meses, chegou a vez da minha vizinha e eu, tal como eles, corri a ver a criança. Sabia ser uma menina e verifiquei que a minha amiga estava contente e "babosa" com a criatura, mas cheia de mil cuidados levou-me até ela. Mirei e remirei a bebé e não encontrei causa para tanto interesse. Era uma carequinha de penugem loira e olhos claros que, na minha vaidade e orgulhoso entendimento, tinha menos graça que a morenita de olho e cabelo negro que me sorria no berço lá de casa. Entretanto, o lar da minha amiga sofrera enorme reviravolta. Não me parecia a mesma casa de tudo no lugar certo, folhos abertos a golpe de ferro de brasas e mobília de brilhos. Além disso, as duas mães levavam o tempo a puxar da mama ou no tanque lavando fraldas. Durante a lavagem, conversavam sobre leite materno e davam-se receitas para o aumentarem, assunto que, de tão incompreensível, me desinteressava. Recordo que mastigavam bacalhau cru e bebiam muita água por via de ser salgado. Por certo, o "fiel amigo" era a receita caseira menos dispendiosa. O maior dano, sofri-o em casa da minha amiga. Havia fraldas por todo o lado e todas as cadeiras estavam ocupadas com artigos da rainha do lar; tempo para mim era sonho puro: a bebé chorava bastante e o rosto da mãe afiançava noites mal dormidas. Em tal ambiente, fomo-nos distanciando. No final do verão, entrei para a escola e apeguei-me à professora com a força de raiz aprumada. A mestra, dama paciente e voz doce, maravilhava-nos por ter marido. Era um senhor jovem e de gravata, que nos surgia ao volante de um carro preto. Espreitávamos ao descaro a despedida dos dois. Não tínhamos tv, não conhecíamos cinema, os nossos pais não se beijavam assim e nem de outro modo. Descobrir o beijo na boca foi uma das grandes novidades que a professora nos trouxe. Foram aqueles dois seres amoráveis e amorosos, os nossos actores particulares. Era um simples tocar de lábios muito terno e cheiinho de contempladores - o senhor já sorria ligeiramente antes do beijo. A novidade foi rastilho universal, assistíamos encantados à anomalia prazenteira que cumpriam religiosamente. Muitos anos depois, soube que eram recém-casados.  

Quando a minha amiga recuperou de ser mãe e retomou o trabalho no campo, já às nossas vidas faltava a proximidade que eu cultivara com desvelo. Não sei o destino da máquina de bordar, mas a filha dela não teve bibes com a história da carochinha bordada em despiques de agulha e agruras de pano. Entretanto, as duas garotas cresciam: aprenderam a falar e a andar e era frequente brincarem juntas. Por vezes, tomava conta delas um bocadinho e logo me fartava, tal a atenção que exigiam; a filha da minha amiga era birrenta e, se chorava, abria um túnel de berraria e língua em concha, deduzindo eu ser sinal de mázura. E ficava grata por minha irmãzita ser menos expansiva nas suas cóleras: de tão mansas, e por comparação com a guincharia irada da outra, mais pareciam rastos de queixume.


domingo, 12 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

A vida corria devagar, eu saltitando entre a minha casa e a dela. Não senti muita saudade do tio que me sentava nos joelhos e que construíra casa e se mudara cedendo o espaço à filha. E o novo lar era-me muito mais agradável. Podia, por exemplo, mirar-me no tampo espelhado da mesa. E nas janelas havia cortinas de florinhas em tons de claridade; enfim, sendo a mesma casa, parecia-me outra e, mal ela chegava do trabalho, escapava-me até lá. Tinha perdido o companheiro das torradas, mas encontrara onde espraiar a minha vaidade e debruçava-me sobre a mesa, qual narciso.   

Ora o que caracteriza a novidade é surgir súbita e filar-nos pelo inesperado.   Foi assim que ela veio agitar-me as meninges: minha mãe, que engordava a olhos vistos, disse-me que ia ter um(a) mano(a). Os meus seis anos acreditavam que os bebés vinham de França no bico de uma cegonha – tinha-mo garantido o senhor farmacêutico, cara séria, bata branca e óculos de respeito; portanto, era por força verdade. O dito senhor, ouvira o meu perguntar sobre aquela cegonha bem à vista de todos, no interior da farmácia.   O animal – em relevo e de perfil - tinha suspensos no bico uma fralda com um bebé dentro; encontrava-se em posição de vôo, patas para trás e asa alçada. Devo dizer que, até à intervenção do farmacêutico, desconfiava bastante da cegonha da farmácia, o que me levava a perguntar e perguntar, preocupada com o facto de ela poder deixar cair a criança quando, por certo distraída, abrisse o bico.  Além disso, as cegonhas que eu conhecia, de certeza que não tinham força para transportar um bebé. Portanto, dúvidas sanadas, não estranhei minha mãe ter encomendado um bebé à cegonha (não que ela alguma vez mo tenha dito nesses termos). Enchi-a de perguntas até ao exagero sobre a lonjura de França, se a cegonha comia ou não comia no caminho, se dormia, onde depunha o bebé durante o sono, coisas destas. Hoje penso que, estranhamente, nunca perguntei como fizera a encomenda. Desde a conversa do farmacêutico, se acaso passava uma cegonha, eu olhava-lhe o bico e a parte inferior ainda assim não fosse uma das que traziam bebés. Não consegui ver nenhuma dessa qualidade. E, para minha alegria, daí a um mês ou dois, a minha amiga e vizinha, num dos dias em que me mirava no seu espelho de verdade (viva o luxo!), disse-me que também encomendara um bebé e a cegonha havia de trazê-lo daí a uns meses. O esquisito era que também ela engordava. Receios dobrados. Eram duas casas tão próximas, e se a cegonha se enganasse na encomenda?! Mas ambas me garantiram que a ave transportadora chegava em tempos diferentes e podia descansar, não havia hipótese de trocar os bebés. Quando minha mãe tinha um barrigão que se agitava ao toque e mesmo sem ele, compreendi que o farmacêutico era um mentiroso. A mãe afirmou que ele gostava de contar histórias, não era bem um mentiroso. Mas não me convenceu, um senhor tão senhor, bata, gravata de nó, óculos... e a mentir-me. Foi assim que soube/adivinhei que o bebé estava dentro dela e me contou que precisava ir para o hospital para o porem cá fora. Fui logo contar à minha amiga, não andasse ela a pensar na história da cegonha. Ela num sorriso, põe aqui a mão; senti a barriga dela a mexer de leve, havia um bebé lá dentro. Não pensei em como lá tinha ido parar. Esse esclarecimento veio-me de colegas de escola. Pareceu-me natural ainda que, dormindo no quarto de meus pais, não tivesse dado por nada. À infância interessa a resposta ao que foi perguntado; o resto é apenas curiosidade leve, passa sem mais.

(cont.)

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Aqui entre Nós

          Foi um ano escolar trabalhoso e gratificante. Houve gente que passou do não conhecer as letras à leitura fluente. Tu foste, sem dúvida, quem mais alegremente correu  na aprendizagem, sinto grande orgulho por ter despertado em ti uma centelha adormecida, tornaste-te um garoto interessado nas "coisas da escola". Trazias quase sempre os trabalhos de casa feitos e enrubescias até às orelhas quando te perguntava muito séria, olho no olho, "por que não os fizeste?" Mas eras sincero, dizias por exemplo, "ontem não me apeteceu". E toda a gente tem direito, uma vez ou outra, à falta de apetite. Eras pontual e alegre como só a infância sabe ser; um miúdo vivaço e buliçoso, isento de maldades fundas.

No fim do ano, não sei se para bem ou para mal, mas de certeza na minha vontade de permanecer, deixei-vos o palhaço que adoravam porque mexia braços e pernas e a meio tinha um relógio onde todos aprenderam a marcar e ver horas, e que suponho ter aprimorado ainda no Magistério Primário. Ficaram também os bonecos do livro de leitura do primeiro ano. Não consigo recordar com precisão o nome do livro, mas nisso podes ajudar, talvez se chamasse Papu. Mas lembro-me de quanto chateava minha irmã para me desenhar os bonecos que eu recortava e pintava, copiando o modelo do livro. Uma nova letra era sempre uma festa para vocês, havia a curiosidade sobre o boneco novo, quase em tamanho natural,   o nome em baixo manuscrito e a bold. E, a amortizar os afectos, propus o desafio: estudem muito para nos encontrarmos na Escola Secundária onde hei-de estar a ensinar quando forem já crescidos. 

          A vida levou-me por outros caminhos, mas fui sempre contando os anos. Quando previa que pudessem estar por lá, esmiuçava as listas de décimo ano.  Encontrei uma aluna, a única previsível do seu ano. Sei-lhe ainda nome e apelido (MP),  mas não me calhou a sua turma e nunca se me dirigiu. Talvez a infância fosse nela um tempo desaparecido que me levou na correnteza dos dias. Ou, quem sabe, me reconheceu e, como acontece a alguns, faltou-lhe coragem para. De ti só encontrei o nome, porque, e eu contei,  também lá chegaste dois anos depois. Não foste meu aluno. Procurei-te várias vezes e faltavas muito às aulas. Chumbaste por faltas muito antes do fim do ano. Não deste ensejo ao puxão de orelhas verbal:).

Vários anos passados, numa manhã fria e soalheira de sábado, andava eu  em atarefadas compras, um matulão - para aí metro e oitenta ou mais - planta-se na minha frente, fardado, e pergunta sorridente "Já não me conhece?" E eu a esquadrinhar-lhe os traços, naquela de atirar moeda ao ar,  "Foi meu aluno na secundária?", E ele rindo e tirando o boné da fardamenta, "e agora?" E eu a olhá-lo nos olhos que a pala ocultara parcialmente, "Paulo Jorge!!!" E demos um abraço esquisito, ele a baixar-se todo, corpo em arco, como fazemos com algumas crianças e velhos. E perguntámos e respondemos mutuamente. Senti de novo o calor de estarmos juntos. Foram alguns minutos, mas apagámos o mundo (estávamos na frialdade da rua) e ali permanecemos intocados, imersos na agradável realidade de encontro tão bom como inesperado. 

Não voltámos a ver-nos. Entretanto, o amor aconteceu-te e arranjaste companheira. Eras bem disposto e  os camaradas de profissão estimavam-te.  No jogo fátuo que a vida é, a leucemia ganhou. Ordem do coração: tinha de ir despedir-me. De ti. Tenho ainda de despedir-me. Estou a fazê-lo. Quando o padre perguntou quem queria fazer a leitura, ninguém se ofereceu. Tua irmã, minha aluna na secundária, olhava em volta desamparada. E fiz o que faço sempre que alguém espera e ninguém se oferece, fui ler. Estou ciente que ninguém compreendeu metade do que disse. A minha voz tremia imenso e tive de parar;  o padre pôs a mão sobre a minha e disse baixinho, "calma, vai conseguir". Antevi-me despenhada em soluços no altar e pensei em ti,  vi o teu sorriso confiante de criança. Foi por tua invisível mão que retomei a leitura. Merecias que lesse melhor. Desculpa, mas há momentos em que a tempestade nos atinge mais fundo. Eu que te ensinei a ler não consegui fazê-lo. 

Até sempre, Paulo Jorge

PS: quem sabe se um dia não nos encontramos de novo. Tu irás reconhecer-me como eu te reconheço. E abrimos um parêntesis na outra vida se ela houver. 


terça-feira, 7 de novembro de 2023

Aqui entre Nós

 Convivemos durante um ano escolar - o meu último no ensino primário. Eu ensinando  - e pomos gerúndio nisso -, tu aprendendo. Sintonizámos desde o primeiro dia; eras pequenino, despachado e sorridente, cabelo e olhos castanhos, a mochila nas costas. 

Eu vinha de uma escola alegre, cheia de gente, funcionários, professores e um montão de crianças. Dessa vez última, como da primeira, tinha um edifício de sala única, sem outra companhia que a vossa.  Abri a porta e o interior da escola era tristonho, o desmazelo do chão sujo, da acumulação de pó  e o rendado das teias de aranha foram as boas vindas que tivemos; ao único armário, logo à esquerda de quem entrava a porta da frente,  faltava meia porta. Foi perante aquela desolação escancarada e deserta de tudo que entrei na que seria a minha escola ao longo do ano. Assim a nú, não parecia uma escola - não havia um livro onde quer que fosse, cortinas ou persianas nas janelas, mas o sol jorrava a horas certas. Os alunos eram poucos e as quatro classes trabalhavam em mesas redondas, o que não era propriamente mau - nas horas de sol, pegávamos nas mesas em busca de zona mais sombria. Nesse primeiro dia, depois de entrarmos, entre todos, limpámos as teias de aranha e varremos a escola. Suponho que os alunos que viviam mais próximo foram pedir o material a casa; eu não conhecia vivalma no lugar. Pensei em Matilde Rosa Araújo e na sua experiência de primeira vez num bairro pobre de Lisboa. Seria bem mais poético e pedagógico se, como ela, eu tivesse pegado na régua e dissesse a um garoto, "vai atirar fora". Mas nós só varremos, limpámos pó e etc. Cada um tem a poesia e a pedagogia que tem.

Pela primeira vez trabalhava em regime normal, com pausa para almoço; o hábito das lancheiras no trabalho não é assim tão moderno. Tu oferecias-te para tudo. Frequentavas o então chamado segundo ano da primeira fase e, como todos os outros da tua classe, não conhecias ainda todo o alfabeto e mal sabias contar, as quatro operações não te diziam nada. Analisei-vos um a um e verifiquei que o atraso era geral. Perguntei como se chamava a professora do ano anterior. Não sabiam, faltava muito e não criara simpatias. 

No dia seguinte, após as aulas, fui à cidade informar-me na Delegação Escolar sobre o assunto da limpeza escolar, fornecimento de caixas de giz, apagadores... miudezas. Consegui uma verba mínima mensal. E que a usasse como entendesse (tinha de prestar contas).  Entre todos resolvermos quem limpava a escola nos fins de semana e contratámos uma jovem para o trabalho. Nesse mês, lembras-te, gastámos tudo na compra de material escolar. Nunca eu vira um garoto apagar o quadro com tanta afeição pelo apagador. E o giz de cor era  a curiosidade geral; se acontecia passarem pelo quadro  estando algum disponível, riscavam um nadinha com ele, um número, uma vírgula, um pontinho pequeno. E eu fazendo que não via. Vocês ficavam duplamente contentes, tinham feito o que queriam e a professora nem tinha visto.

  No mês seguinte, comprei uma chita vermelha com pintas brancas e fiz uma cortina para a meia porta do armário que não havia e onde os que traziam almoço deixavam a marmita sem que fosse visível da entrada. E no outro mês vieram anilinas para a porta que restava do mesmo armário e onde eles e eu pintámos cogumelos vermelhos com bolas brancas e florinhas à moda de cada um. Vocês orgulhavam-se do que tinham feito; entravam e ficavam embevecidos na vossa arte "eu fiz esta aqui" Além disso, nas horas de trabalhos manuais, dedicámo-nos a enfeitar com as quatro estações,  a parte superior da sala. Havia uma árvore de tronco sempre igual e que acrescentávamos em cada estação; no final, já tinhamos quatro árvores muito sazonais - a sala tinha um friso de madeira que dividia a meio todas as paredes. Em geral pareciam contentes com a obra, mas tu eras dos mais entusiastas e querias por força que  tua mãe visse a sala onde aprendias, como ela estava bonita. Mas ela resistia. Talvez por vergonha, não sei.

(cont.)

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Senhora Minha

  Pouco me entretive a vê-la bordar e cedo aborreci aquele mundo: queria levantar a patilha da máquina quando não devia, ou pedia para ser eu a pôr o pé no pedal supondo - ó pobreza de espírito - que a máquina trabalhava sozinha e os pés ao pousar no pedal iniciavam o movimento. Por outro lado, desorientava-me tanto o frenesim da linha no carrinho que rodava continuamente, como a fria determinação da agulha que espetava no tecido esticado num implacável som de vingança. Saía para minha casa receando os malefícios da agulha e revendo a proximidade atenta das mãos dela que esticavam e ajeitavam o tecido junto à desalmada perfuradora. 

Talvez para ajudar no pagamento da máquina, cujo milagre se chamava prestações mensais, minha mãe decidiu  que me faria um bibe branco onde ela ia bordar a história da carochinha. Fiz um autêntico arraial. Não estava em mim de contente. Na altura, ela, muito paciente, mostrou-me a revista com os desenhos da história: lembro vagamente as antenas e sapatos da carochinha, as orelhas e bigodes de João Ratão, a igreja com uma cruz e as lágrimas saltitantes da carochinha-noiva, horrorizada perante o caldeirão aberto e fumarento. A história dava a volta completa ao bibe e dela constavam pormenores que o tempo levou.  Sobrou-me a vaidade de usá-lo e a confusão de ser tão rodado que parte do conto se perdia nos canudos do tecido. Relevo a sua arte no bordado e a boa e paciente recepção com que aturava as minhas repetidas inconveniências, ainda fizeste só isso?, hoje não fizeste nada, quando é que tu acabas. 

Entretanto, não sei como, ela arranjou um namorado. Eu não conhecia nenhum namorado e chaguei a paciência dela e de minha mãe sobre o espécime. Quando o rapaz tornou o caso mais sério e foi a sua casa, tive basta decepção, era um homem igualinho aos outros. Breve concluí que também eu precisava de encontrar um namorado. E já que tinha de ser um homem podia ser o rapaz que visitava outra vizinha e me pegava ao colo sorridente. A partir dessa altura a minha amiga crescida tinha um namorado; e eu outro. Nos domingos à tarde ela empapoilava: penteava-se com esmero, punha pó de arroz.  Eu surripiava-lhe o pente e dava um jeito na franja, já que ela nem me deixava tocar na caixinha do pó de arroz. E ficávamos as duas esperando os nossos namorados que não tardavam. Eu ia até à beira da estrada e gritava-lhe se o dela aparecia. Se o meu surgia primeiro, dizia a minha mãe, vem ali o meu namorado e desatava numa corrida, saltando o valado que separava os terrenos, a fim de chegar antes dele a casa da vizinha. Apesar da explicação que me chegou, e a que fiz orelhas moucas, fui proibida de incomodar a vizinha e de chamar namorado ao rapaz. Quanto ao namoro da minha amiga, a ordem era não me intrometer, minha mãe sabia zelar pela intimidade dos dois. 

         No que me pareceu pouco tempo, mas pode ter sido um ano ou dois, ela anunciou o casamento e convidou-me para "menina das alianças". Não fazia ideia do que fosse, mas achei extraordinário. Foi boda de pobre, caseira e sem esplendor. Mas a visão da minha amiga vestida de noiva foi uma das maravilhas da minha infância. Curiosamente, nada recordo do momento das alianças. Mas não esqueço - tenho uma foto  - que calcei luvas pela primeira vez e, na tal fotografia, tenho as mãos bem na minha frente, qual cãozinho amestrado que se põe de pé. 

(cont.)

domingo, 29 de outubro de 2023

Senhora Minha

             E já deu para entender que cresci um nadinha sob a sua asa. A primeira vez que dei pela sua ausência na casa paterna, fiz beicinho e acabei chorando o desgosto  no ombro de minha mãe. A falta sentida magoava-me o pensamento e nem consegui hipóteses que minorassem o desgosto. Com a doçura costumada, minha mãe deu fim aos soluços, vem à noitinha na carreira, foi aprender a bordar. Bordar - pensei - era serviço importante. E mais importante se tornou quando ela chegou num entusiasmo, podia fazer isto e aquilo com a máquina da costura que também bordava. Então enchi-a de curiosidade, és capaz de fazer uma folha? Ela assentia; e uma flor? E ela que sim;  e um burro? E ela dando fim ao estendal inquisidor: faço o que tu quiseres, mas primeiro tenho de aprender e comprar uma máquina daquelas. Comecei a desconfiar da aprendizagem.  Então, um dia inteiro longe de mim e ainda não sabia fazer nada?! Pareceu-me mal e fui para casa emburrada. Desinteressei-me dos bordados e só nos sábados e domingos voltávamos ao de antes.  Decerto num  desses dias conheci minimamente aquela a quem ela chamava "a minha patroa" ao que a mãe repontava, patroa, patroa! Não te paga um tostão, fazes o que ela manda, e ela é que arrecada; bela patroa, não haja dúvida. E ela, mas dança tão bem, mãe. Dança como nunca vi alguém dançar. E logo representei a senhora, muito vaporosa,  ensinando as aprendizes por entre passos de dança. Ora, não era bem assim. 

   Profissional de rua, vivia no hábito de dar conta de tudo. Portanto, fitei arregalada a minha vizinha que descera da camioneta da tarde. É claro que dobrei a esquina a todo o vapor. Fui dar com ela em casa, limpando os olhos ao lencinho de assoar e a fungar disfarçadamente. Perguntei porque chorava, e ela que só estava constipada e por isso tinha saído mais cedo. Não me convenceu e fui dar parte a minha mãe. Dessa vez foi a pressa materna a contornar a esquina, eu espreitando à porta e sem autorização de pôr o pé na rua. Afinal, soube por portas travessas - conversas adultas no tanque de lavar -,  a garota chorava "com a força dos nervos". A patroa e o subentendido patrão brigavam um com o outro a qualquer hora e por todo o motivo. Atiravam-se panelas e o que viesse à mão, chamavam-se todos os nomes feios que sabiam e acusavam-se mutuamente de terem amantes, coisa que nunca se apurou ser verdade para nenhuma das partes; diziam as más línguas que eram bastante desengraçados e ninguém os quereria. Parece que se entendiam e eram um, apenas dançando. E que esse lado belicista do matrimónio não era segredo para ninguém, excepto as aprendizes que vinham dos campos, ignorantes do imbróglio. Tal como brigavam e se odiavam com todas as forças no dia a dia, assim se acertavam nas noites de sábado e parte dos serões de domingo. Se ensejavam levantar-se, o mundo parava na Sociedade da terra. E, ainda mal pisavam a pista, já deslizavam leves como penas. Sei hoje que arrecadavam todos os prémios e eram famosos em qualquer modalidade, paso dobles, tangos, valsas, rumbas e etcetera: ao som da música, eram um só num só desejo: dançar.

           E eu, de birra, desertara dela; portanto, não vira o seu rostinho de chegar a casa senão no agrado de estreante; não soube sequer que calava o que via para não perturbar os progenitores. Para minha aflição, minha mãe demorou. Regressada, disse-me que precisava falar com os pais que ainda tinham pela frente mais umas horas de trabalho. E não adiantou. 

        Resultou de tudo isto que não voltou à mestra e algum tempo depois, como por milagre, a máquina de bordar apareceu em sua casa. 

(cont.)

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Senhora Minha

 Hoje sou sua amiga e da filha mais velha. Um dia, tomando chá as três, ela contou que me ouviu o primeiro choro (nasci em casa) e que sempre fui mimada por seus pais - foi a minha época de querubim; sobram-me nesgas em clarão, sóis fosforescendo na neblina dos anos. 

Lembrámos isto e aquilo e recordei-lhe o pai que bem cedo se foi desta vida. Gostava quase tanto dele como de meu avô. Conhecia-lhe a fadiga arrastada no regresso do trabalho. E ainda a silhueta lhe desaparecia na esquina e já eu, se minha mãe não me segurava, corria desarvorada até à sua porta traseira. Por vezes,  chegava-lhe à cozinha e ainda ele de enxada ao ombro e cesto da merenda na mão. Fazia-me sempre boa cara, e mais parecia que não nos víamos há séculos, o "Olha a Bea" enquanto eu lhe abraçava as pernas, era tão ou mais acolhedor que os beijos que não me dava. Pousava a cesta no seu canto e, quando ia deixar a enxada na barraca, já me carregava no colo. Depois, sentava-me à chaminé onde o jantar aprontava, deitava a mão ao saco da merenda e retirava as sobras do pão. Eu puxava um garfo da gaveta da banquinha, ele espetava-o no pão e fazia-lhe lugar junto às brasas.  Enquanto o pão ia torrando, perguntava, queres à rica ou à pobre? À rica, respondia com sorriso delambido. Ele sorria bonacheirão e barrava o pão torrado só de um lado. Empenhado na função, sublinhava  com pesar, escolheste mal outra vez, os ricos barram o pão só de um lado. E passava-me a torrada como que esquecido de mim, atiçava o lume com a tenás, ou levantava-se a esvaziar o saco do almoço e chegava mesmo a sair em busca de mais lenha. Depois, olhava de esguelha o meu desânimo - ainda estou por saber a razão deste desânimo diário, ele convencia-me sempre que daquela vez é que era a sério, teria de comer a torrada barrada só de um lado. Mas, face ao meu semblante triste e torrada intocada,  logo ele decidia, mas eu quero à pobre, vamos lá untá-la dos dois lados.  Depois do acepipe generosamente  completo, içava-me do banquinho pequeno e sentava-me numa das pernas - o banquito fora serventia dos filhos mas, com eles crescidos, não autorizava que saísse da chaminé,  é o banco da Bea. E ficávamos os dois a alternar bocadinhos de torrada que ele cortava a canivete. 

            Quando contei isto, subiu-nos uma saudade espessa, aquele homem morreu bem novo e houve lancinante padecer antes da misericordiosa morte. Então, sofri o primeiro nunca mais de um afecto. 

Ela recobrou do alheamento, sacudiu a tristeza e desfez o momento com outra história. Certa vez, era eu bebé, minha mãe tinha de sair e pediu-lhe que cuidasse de mim. E ela logo que sim, alvoroçada com a imitação de ama, orgulhosa da confiança. 

A princípio, tudo pacífico, eu sorria-lhe sossegada. Mas minha mãe demorou. E, ou por fome, ou por estar molhada, ou apenas por ter deixado de ver o rosto materno, desatei num berreiro sem fim. Ela abanou o berço, pegou-me no colo, ninou as canções que ouvia a minha mãe. Sem resultado, eu berrava cada vez mais. Afligiu, que diria minha mãe quando chegasse?! Então ocorreu-lhe que poderia estar na hora da mamada. E, na inocência dos seus treze anos, decidiu resolver o caso. Abriu a blusa e puxou o mamilo como conseguiu.  E muito se defraudou do esforço ao ver-me a estrebuchar, ela agarrando o peito que mal avultava e eu a repugná-lo fortemente e sem ao menos lhe tocar. E pronto, desatámos à gargalhada (ela, como minha mãe, apenas sorri). A filha admirada, ó mãe! Nunca me contou isso. E continuámos na risota.

(cont.)


terça-feira, 24 de outubro de 2023

Senhora Minha

         Conheço-a desde sempre. Lembro-a talvez desde os seus espigados dezassete anos e não sei de quem melhor case pessoa e nome. Não a vou denunciar, ignoro se apreciava ver-se aqui retratada. Foi minha vizinha directa desde que nasci até aos meus famélicos onze anos, quando meus pais construíram casa.  E tenho dela memórias vagas e comentários de mãe desconcertada, esta rapariga não pára de crescer. Ou num acinte de orgulho sussurrado a minha mãe e a que eu apurava o ouvido, mas já se notam os marmelitos.

        Falha dos obscuros mistérios da língua eu corria a observá-la. Encontrava-a quase sempre sentada num banquinho baixo a passajar, remendar ou, o que mais me agradava, de pé frente à mesa da casa de jantar, talhando aventais com um giz, mistério alienígena que, nas suas mãos certeiras, seguia tecido abaixo deixando um rasto branco e que, se eu avançava a mão,  não que tu estragas sem querer e faz-me falta. Espreitava-a sentada. Concentrava-me se ela estava de pé, olhos de raio x a percorrê-la. Mas, por mais que olhasse e estivesse atenta, não descobria  sinais de marmelos no seu corpo esguio. Mais nova que minha mãe, mas muito sua amiga, ela estranhava-me de tão quieta, queres alguma coisa, Bea. estás tão caladinha... Eu negava com a cabeça e palpava-lhe os bolsos em  busca dos marmelitos, ela julgando que buscasse rebuçados. Na terra que lhe pertencia, bem ao fundo, havia vários marmeleiros e eu conhecia o fruto e temia os ramos. O mundo da infância repelia a vara de marmeleiro quase na mesma medida do amor que consagrava à marmelada caseira que as mães arriscavam (o açúcar era  caro) se acaso alguém lhes dava uns marmelos ou possuíam a árvore. Acresce que os pais contavam histórias sobre sovas com vara de marmeleiro. E preveniam-nos acerca do desconhecido mundo da escola, habitado por professoras que as usavam para disciplinar alunos inssurrectos. Grandes pedagogos, os nossos pais.

                   Por outro lado, eu intuía que os sussurros eram os pequenos tabus dos adultos e que, como alertava minha mãe, se alguém segreda é porque não quer que se saiba. E não insisti no assunto, a infância  é fértil em novidades e mistérios.

(cont.)


segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Tolentino

         Pois é, sem o teu conhecimento, ou sequer consentimento, converso contigo. Tem vezes que te escuto falando e me parece ser comigo que falas. Não bem comigo, para mim.  Que o teu Vaticano pode parecer perto, mas não tenhas ilusões, fica-me longíssimo. De modos que moramos muito longe um do outro e duvido que nos vejamos mais perto do que já nos vimos, tu na ribalta e eu no público. Cada um no seu lugar: é dos livros e da vida. Pergunto-me se ainda seria capaz de ir a correr ver-te como já fui (e em circunstância bem adversa).  E concluo que já não. Em primeiro lugar porque o corpo se me vai negando à corrida; em segundo porque me sinto sempre um bocadinho perdida no meio de tanta pessoa, o que costumo chamar de uma floresta de gente e eu lá no meio sem caminho. É seguro que não passas despercebido e te rodeia a fé dos homens, mesmo dos que não a têm - um cardeal é nome de importância. E tu escreves livros e  crónicas. E fazes mais ou menos o de toda a gente que tem talento e se torna conhecido: vais publicando os teus pensamentos e convicções. Talvez, por te lermos tornes melhor o mundo de algumas pessoas; que o outro, o grande mundo, descamba e fenece à vista de todos, mesmo dos alienados umbigos que o empurram para o abismo e dos ignorantes despreocupados (serão?! Tu que achas?). Já sabes que te leio desde um certo programa. Sou assim, de manias. Pendo para autores que me prendem à leitura. Pouco me interessa como são fisicamente, que idade têm (Rentes de Carvalho é um velhinho lúcido e agreste como só os transmontanos sabem ser e tenho pela sua escrita um amor entranhado. É teso, ele), o que lêem, se casam ou descasam.  Mas em ti, repara, interessam-me as tuas mãos, alguns gestos que repetes e acho únicos, o prisma por onde olhas a realidade e os teus olhos de atenção compreensiva (é invulgar ter olhos desta natureza). Eu que não tenho conta no facebook, olha, sou tua seguidora. Já sabes, não concordo com tudo que dizes e, por vezes, fico a remorder, contraponho as tuas opiniões com exemplos, nego o que pensas com outros exemplos. Coisas.

        Ora, bem sei que nasceste em Dezembro. Tinha de ser, dá-te um ar mais católico. Mas apetece-me dar-te os parabéns hoje. Porque sim e porque comecei a ficar eu. Ok, é uma forma estranha, pois se nem me lês. Não interessa. Em Dezembro hei-de andar em busca do espírito do Natal e não dá jeito. E, sei lá eu, um postal não chegava hoje ao teu Vaticano. Além do mais, tenho vindo a habitar o lado negro da lua que é, como tu sabes (não sei se sabes mesmo, mesmo, mas quero crer que sim), uma vontade de dormir e não acordar. Só dormir - sem passado nem futuro. Mas fica ciente, hoje bebi um café com leite dos meus e fui nadar. Atirei-me da borda da piscina como quem mergulha a um poço. E, aparte o chapanço, fez-me bem a tudo. 

Portanto, tenho de aproveitar a madrugada do meu ser para dizer-te: PARABÉNS. E que o Deus que te guia faça o seu trabalho, e os teus pequenos e eternos deuses te façam companhia. Mereces.

Com as devidas cautelas (um cardeal é um cardeal) segue junto o meu abraço e um beijo na bochecha (se quiseres adiar isto tudo para dia 15 de dezembro, estás à vontade).


sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Informações a Meu Pai

  Na noite em que de corpo e mente me morreste, não dormi apesar de ter dobrado a medicação. Claro que pensei em algo estranho e coloquei mesmo essa hipótese. Mas, eu que não assistira minha mãe na morte, tinha  requerido à enfermeira que me avisasse do fim e ligasse a qualquer hora, noite ou dia - elas conhecem os sinais da morte. Queria fazer, por ti e contigo, a passagem que me tornaste impossível com a mãe. No meio de tal agitação interior e sem o combinado aviso no telemóvel, decidi esperar pela hora - das 8 às 9 - da ligação habitual. Na natação, esbracejei o mais que pude - sem qualidade, só em gasto de energia. E recebi a notícia. 

Tinha acompanhado sem quebra e ao longo de um mês certo,  o teu calvário contínuo. Vi-te dia-a-dia. Primeiro cheia de esperança e depois, a definhar gradualmente,  sem um carinho que não o nosso em meia hora diária. Braços e mãos repletos de negras, agulhas espetadas nos dois membros, sangue misturado nos tubos. E nunca me deixaram ver o estado dos genitais onde contraíras uma infecção supostamente por arranque da algália e, por isso, diziam, te amarravam. Talvez fosse verdade. Incómoda e confrangedora verdade que eu aliviava em 30 minutos, resguardando-te os movimentos das mãos só então libertas.

  Tu e a mãe falaram pela última vez comigo. Inexplicável acontecimento. O certo é que o vosso último momento de lucidez aconteceu na minha presença; qualquer dos dois, havia dias que não dava palavra e, logo após, manteve o estado. Nenhum me disse algo de extraordinário, não houve pedidos de última hora: tu queixavas-te da forma como eras tratado e disseste "só quem passa por isto como eu, percebe o que custa, nunca houve nada que me custasse tanto"; e, "se eu soubesse tinha-me matado antes, agora vou ficar para aqui a sofrer semanas, quem sabe se meses"; depois perguntaste preocupado, "já pagaste?".  Pensavas que virias comigo, tu que não conseguias sequer virar-te na cama, e disseste esperançoso, "trouxeste o carro?" Descansei-te:  sim, estava tudo pago, eu tinha levado o carro como sempre. E olha, penso exactamente como tu, morreste sem voltar  a tua casa, à tua cama, à paz do teu quarto. Talvez vivesses menos, mas garanto-te: se soubera o que e como aconteceria a passagem, ficavas em tua casa, sem a profusão de agulhas espetadas à trouxe-mouxe, amarrado dia e noite, falho de amparo e cuidados além dos que a medicina obriga. Que aos velhos muito velhos não se dá atenção, antes se pensa nos que entram com 50 e mais anos e sobretudo se a doença não os incapacita como a ti. Em casa morrias mais cedo e não terias o benefício do oxigénio?  É verdade. Porém, à medicina que só prolonga o sofrimento não chamo medicina. Outros que lhe chamem o que quiserem. Mas já cumpriste o calvário. E foi o que foi.

Talvez tenha sido mero acaso. Mas, na última visita, quando já nem a nossa mão apertavas e havia no céu uma lua cheia e acinzentada, parei o carro e repeti o Cristo na cruz, " mãe, leva-o; por favor, leva-o o mais rápido possível". Pouco lhe pedi até hoje, dos meus erros e irresponsabilidades, ela como eu, sabemos que me pertence dar conta. Dizem que morreste na vigésima quinta hora. Não sei, acho mesmo que, ao invés da minha vontade, morreste só. E antes. Mas, às dez da manhã, tratados os pormenores, e quando enfim me deixaram ver-te, já tu feito o senhor que um dia me acenou de um carro e eu armada na palerma que sou, "quem será aquele senhor, deve  conhecer-me, riu-se para mim", digo-te que  o rigor mortis ia em estado avançado. De todo o modo, gosto de pensar que a mãe me atendeu e te puxou para si naquele jeitinho doce que lhe era tão próprio como respirar. Ao teu corpo juntámos o que resta da mulher que amaste tão mal, mas amaste como sabias. E um ramo do teu outro amor: as laranjeiras. E a certeza de que, a seu tempo, nós vos seguiremos.

Ontem demos "a cura para o bichaço", como usavas  dizer em relação às laranjeiras. E começámos a esvaziar a tua secretária. Pai, tu guardaste tudo, verba entrada e saída, desde o tempo em que tiveste lugar e dinheiro para haver secretária. Todas as facturas e requerimentos. Tudo. O que emprestaste e o que negaste emprestar. Enfim, o teu diário em cifrões. Andamos a vasculhar a tua vida desde 1966. As horas que gastámos a esvaziar uma gaveta! E o tanto que falta.

     Fica a certeza: nas asas do  pensamento estamos juntos.

O meu bem haja a ambos

          Vossa filha Sempre