Mais
365 dias que atravessámos. 365 dias que se foram. Ontem, nas minhas voltinhas
pela net, li num blogue uma reflexão sobre o que o ano teve de aborrecido e o
que trouxe de bom à autora. Sintetizando, parece que padecemos todos do mesmo:
sofremos mal a falta de dinheiro, os electrodomésticos que se estragam sem perguntar
se podemos adquirir um modelo novo cuja vida será mais curta que a do anterior,
as parvoíces das casas que racham e estalam sem razão, torneiras que pingam ininterruptas
e pedem arranjo, copos que nos escapam das mãos e se fazem em fanicos tão
pequenos que seis meses depois ainda descobrimos esquinas debaixo do
frigorífico ou dos armários, as crianças que são amorosas só às vezes e teimam
em exigir atenção quando o corpo nos pede descanso, os adultos tanta vez a
fazer mais dano que a criançada, as ervas do jardim crescendo mais que nos
desenhos animados, o orgulho viçoso a exibir-se esgalgado entre medrosos projectos
de flor, a solidão que se instala quando bem quer e nos tolda o ser que nuns é mal
da alma e noutros do corpo todo, o reconhecimento da harmonia que vemos nos
outros e nos falta. Resumindo, e sem querer entrar em mais detalhe, um
quotidiano difícil e trabalhoso a que não vemos fim seja qual seja a versão do
ano vindouro que, afinal, é só um dia depois e é impossível acreditar que seja
assim tão diverso.
Na
segunda parte do texto a heroína não
esqueceu as benesses recebidas. Concluí que, se nos desastres me
assemelho, os meus momentos airosos foram bem diferentes. Tal como ela, assinalo
as horas de praia; foram boas, mas escassas na circunstância deste verão aziago.
O meu aniversário foi um bom momento num dia quente de verão - todos reunidos e
contentes, meu pai pela primeira vez de lágrima no olho, “parabéns filha”, e
meu filho estreando-se a filmar os quatro manos e o avô. Houve ainda dois
passeios em família que, sem serem especialíssimos, foram bonzinhos – conhecer
outras gentes e lugares, dispor os olhos à beleza, é privilégio a que sou grata
em qualquer circunstância.
Depois
a menina do blogue refere filmes e espectáculos que considerou uma espécie de
oásis no seu quotidiano. Ora eu vi pouquíssimos filmes no cinema e nenhum me
mereceu referência. Lembro-me de ter apreciado uma ou outra série alemã ou
inglesa que passaram na rtp2 e vi na rtp play.
O espectáculo que mais gostei – gosto sempre – mereceu mesmo um texto: o
Concerto de Ano Novo da Gulbenkian a que, por azares da vida e do verão, este
ano não assisti. Também arejei frequentando alguns cursos: vi pessoas, ouvi
gente que sabe do que fala e em linguagem acessível, cirandei por lojas de
roupa barata, bebi meias-de-leite que pareciam cappuccinos (viva!), andei à
vontade pela rua da Prata. Vi apenas uma exposição de pintura e escultura na
Gulbenkian. Fui feliz em cada visita dos filhos. Pasmo da diferença entre eles
e do amor o mesmo que lhes tenho. Se há tempo livre e a casa volta a
pertencer-me, também passo bons momentos a sós; e sempre que escrevo e estou
atenta à mente de que os dedos tentam dar conta, habito um limbo sem outro tempo
que o da escrita. E parece-me ser isto uma felicidade de que não dou conta.
Desejo que 2024 seja mais ameno. Para mim e para os que sofrem agruras de guerra e doenças sem remédio ou cura. Para os mais, e mesmo que não vejam filmes extraordinários, nem frequentem espectáculos (divinais ou não), que sejam si mesmos e aprendam a convivência entre os homens e com o mundo natural.
Que o amor nos
salve.