quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Tudo é Caminho

 

        Lembra-me muito certo poema que retive, ignoro se ipsis verbis, “Não sei viver, nunca soube viver/ sou um relógio que pára de quando em quando/ falta-me o ritmo, a continuidade(…)”. Talvez sejamos todos, mas uns mais que outros, esse relógio avariado que ora trabalha, ora não; ora cavalga rápido, ora se imobiliza sem motivo visível, para arrancar de novo também sem razão. Podia desculpar-me com o mundo e o descalabro a que assistimos; com o estado depauperado de Portugal e dos que no país tudo pagam e pouco recebem; com a educação que tanto falha nos seus princípios cada vez mais complexos e de menor exigência - a haver futuro, a factura vai pesar, já pesa; com a miséria que verificamos na saúde e são os mesmos que trabalham a vivê-la, que os restantes encontram outros meios que não o Serviço Nacional de Saúde; com tanto empréstimo que, de alguma forma, terá de ser pago pelos de sempre e, por regra, enriquece também uns certos mesmos.

        Preocupa-me, em democracia, o regresso da nomenclatura que denuncia a realidade social de ricos e pobres – os ricos amontoam na sua classe, enquanto os pobres se dividem entre os muito pobres, os miseráveis sem casa, alguns com um quartinho alugado e que não têm dinheiro que lhes aguente o mês inteiro. Depois vêm todos os empregados nisto e naquilo, os pequenos agricultores e outros; são a imensa maioria: com dobrado esforço, contenção e certa dose de empréstimos conseguem sobreviver e ir cumprindo a fracção das dívidas. Se um acaso os lança no desemprego, o passivo acumula e descem um degrau ou tornam-se dependentes da boa vontade de familiares, em regra os pais reformados e que lhes abrem portas ou a bolsa, ficando pais e filhos na corda bamba. Muitos, sobretudo casais jovens, após o dia quinze vivem da ajuda dos progenitores; pertencem à célebre geração mil euros. E são muitíssimos. Por último, dentro da classe dos pobres quase remediados, está a chamada classe média baixa que tem uma incomensurável distância da classe média alta; tão incomensurável que a classe média alta se inclui já no grupo dos ricos, é outra coisa. A classe média baixa não depende dos progenitores para se aguentar até final do mês desde que use de alguma contenção; em geral não se endivida senão por aquisição de casa própria ou compra de veículo e não cai em incumprimento nas prestações da dívida. A classe média baixa é hoje o que deveria ser a classe mais rasa de uma democracia, a pobreza miserável não é própria deste regime político e nem da dignidade humana que tanto se apregoa. Mas existe.

        Não sou da notícia, irritam-me tantos comentadores na política e ainda mais no futebol. Desgostam-me as guerras por capricho, a devastação como caminho do poder, o desrespeito pela dignidade de cada homem, as “amizades” políticas exclusivamente por interesse.

        Por cá, tornámo-nos democratas da palavra. Como se, por magia, ela se transforme em acção. Mais de cinquenta anos de democracia e estamos nisto.

        Desculpem, não era deste assunto que vinha falar. Faltam-me soluções para tamanha doença e nem sequer é tema do meu agrado. Deu-me para aqui.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Eternas Alegrias

 

        É verdade que envelheço como toda a gente: lembro melhor factos antigos (do meu tempo) que recentes. Mas a velhice da mente comporta nuances de ternura, apontamentos que nos comovem hoje na lembrança do que ontem foi e gera em nós perplexidade e incerteza: pessoas de antanho que não passaram, não nos morreram, talvez tenham, agilmente, saltado sobre a morte e pairem suspensos. Ou será apenas questão mais simples, como não soubemos da sua morte física, continuam vivos no nosso espírito. Tão vivos como os deixámos quando a vida assim exigiu.

        Vem este paleio a propósito da leitura que vou fazendo da Conta Corrente de Vergílio Ferreira. Leio o diário vagarosamente, como convém. Vergílio é mordaz, perpassa-lhe amiúde uma ironia fina e muito sua, mas, sobretudo, dá que pensar. Aprecio o escritor desde Aparição, o primeiro livro que li e julgo que por imposição escolar. Abençoada seja! Depois fui comprando outras obras aqui e ali, cada vez mais animada. Nunca a sua escrita me desanimou. Talvez as teorias existencialistas o tenham influenciado, mas o que encontro nele que me incentiva é o modo como escreve e imagina a dilaceração que se pressente nos personagens e suponho que sentia na vida – apesar de Vergílio sempre admitir a existência em si de dois seres distintos: o escritor e si mesmo. Em qualquer obra sua há o traço forte da realidade pensada, omnipresente, o vinco fundo da incompletude humana com todas as suas questões. Mais que resolvê-las o romance aponta-as no pleno de humanidade às vezes dolorosa, outras repugnante, outras quase terna na exposição de carências e estados que nos fazem o ser.

        Pois, mas o que me leva a postar sobre os diários é ter ontem encontrado, no ano de 1977, dia 10 de Agosto (suponho, tem várias entradas), um encontro em Galamares com os Serpa Branco que conhecera em Évora. E eu tão contente! Contente e orgulhosa. Foi como se o escritor dissesse que veio jantar a minha casa e gostou. Sabíamos tão pouco dos professores, nós. De Serpa Branco apenas corria que viera de Lisboa, era vegetariano e marido da professora mais querida do liceu, Beatriz Caroço. Galamares era-nos incógnita. Mas Vergílio escreve acerca da casa, “Em frente a serra de Sintra. Nítida, verdejante ao sol. De vez em quando, passavam nuvens em correria. Vindas do mar. A casa fica no meio de um pequeno jardim com uma pelouse de relva verde, aparada rente. Luz suave, e a cor, e uma flutuação aérea de tudo.” E quedei-me a imaginar o bem que o meu professor de psicologia ficava nessa casa por certo recatada e onde os filhos espraiavam (havia pelo menos um, Manuel Serpa Branco que testou a vocação religiosa numas férias exilando-se na Cartuxa). Desconheço Galamares, mas fiquei gostando do nome que já conhecia e me era tão indiferente como o trigo para a raposa do principezinho que Serpa Branco nos deu a conhecer.

        Que conforto saber que Serpa Branco e Vergílio foram amigos! Quase me senti íntima dos dois. E que sortilégio foi Évora na vida do escritor! Ali leccionou ao longo de catorze anos. Ali casou e voltou vezes sem conta em visita a amigos que fizera e foi deixando de encontrar, a cidade que conhecia a transformar-se. Não o conheci, não foi meu professor, mas Serpa Branco passou por mim e ficou. Ensinou-me a ensinar embora não tenha sido professor de didáctica. E, na hora certa, teve para mim as palavras, os gestos e as acções certas. Por mim, fica em Galamares até à eternidade que me pertence: não morre.



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Luz Que Alumia

 

        A memória é preciosa aliada de que pouco entendemos, quais formigas afanosas, passeamos-lhe a superfície no desejo contínuo de que nos não abandone. Atribuimos-lhe falhas de que ignoramos a proveniência, questionamos gestos e manias que se tornaram hábito, ou eventualidades que não imaginávamos guardadas e, a dado momento, nos relampejam fulgurantes.

        Hoje, agora mesmo quase, enquanto mastigava solenemente o pão – sou solone qb ao pequeno almoço -, pararam-se-me os gestos na lembrança do meu décimo oitavo aniversário. Costumo lembrá-lo sempre que alguém faz dezoito anos, hoje marca de maioridade. E desejo contínua e sinceramente que seja um ano melhor do que esse meu já tão longínquo. Mas os anos dão patine e tingem o acontecer, razão porque me aparece o despontar dos dezoito a outra luz.

        Alguém me disse que nos romances existe o que se chama “o ponto de viragem”, momento de mudança na sequência da história, motivado pela introdução de novo factor. Os dezoito anos trouxeram-me vários novos factores e as subsequentes alterações. Terá sido um dos meus pontos de viragem. Pondero que levei da melhor forma toda a transformação a que, então, me vi sujeita. Sem mérito pessoal, era jovem e a juventude comporta um optimismo raro que talvez entronque no facto do presente agigantar e o futuro ser em grande parte um possível que sujeito e vida podem alterar e logo, a premência não está a uso; e sofrer por antecipação também não é vulgar.

        Lembro-me do hospital e de as visitas me olharem através de um vidro. Nesse dia recebi exactamente quarenta postais ilustrados de gente da minha terra a felicitar-me. Foi uma das surpresas mais bonitas que já tive. Todos os amigos, familiares e jovens me enviaram um postal. Mesmo aquelas garotas que pouco conhecia. Mesmo os rapazes que agora só via de longe e com quem nem falava porque na minha terra as conversas mistas eram sinal de namoro. E talvez por tal motivo, o facto de me terem escrito, a maioria ainda com a letrinha da primária que eu tão bem conhecia, comoveu-me. Como é que nunca mais me lembrei disto?! Como é que esqueci aquele garoto que foi meu parceiro, que comprou para mim um postalinho e se suicidou após a morte da única filha também ela com dezoito; como é que não vi num desses postais o amor escondido sob a amizade de infância e como é que tantos anos mais tarde voltei a incorrer no mesmo erro?! O certo é que ainda hoje não sei de quem partiu ideia tão bonita e tenho até vergonha de tê-la esquecido por anos e anos.

        E depois houve a surpresa da visita (ao vidro) de minha irmã e prima, as duas com onze anos, vindas de cascos de rolha até ao hospital do distrito. E houve um postal surpresa de alguém que visitava uma colega e, talvez sem o saber, me fez presa de ciúme que não me recordo de ter merecido.

        A coroar o dia, mas não por esta ordem, que na verdade foi a primeira surpresa, o hospital ofereceu-me o melhor bolo de todos os aniversários, por certo feito na Violeta que inda hoje comanda a qualidade em pastelaria.

        O que devo aos muitos anónimos que a vida pôs no meu caminho e assim deixaram de sê-lo, pede-me que vá em frente. Sempre em frente. Para lugar nenhum.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Ambiências

 

        Pouco me visitas, ou será o meu eu materno a queixar-se. Chegas (quase sempre) carregado. Entras pelas traseiras, pousas o saco de viagem junto à máquina de lavar e, num meio sorriso, desculpas-te por ser roupa de quinze dias e que precisas levar de volta. Sendo inverno, o fim de semana faz-se de cordas cheias desde cedo e, de tarde, à hora em que a humidade se agarra às coisas, as peças terminam na máquina de secar. Entre almoços e jantares, estendo, engomo, dou uns pontos. Acompanha-me o prazer de estares presente e colaborares no estendal ou no dobrar das peças. Reparo que, ou não sais de casa, ou te escapas brevemente, com o único amigo que inda tens por cá. Não te lembras já das nossas conversas antigas, quando reivindicavas que as tuas amizades estavam todas aqui e seria sempre assim, eu a contrariar mansamente a tua opinião acerca de amigos inabaláveis, a dar-te exemplos pessoais. A juventude é, nas suas convicções, força intransponível. Mas o tempo ensina.

        Quando sais, o teu quarto fica tão arrumado como antes de chegares e, se penso nas tuas visitas, noto que sempre encontras um tempo para conversarmos a sós sobre filmes, livros, espectáculos. Aconselhas-me esta ou aquela fita recente, perguntas por livros, falamos acerca de viagens que pretendes fazer. Tão natural nas dádivas como cortante nas recusas, desta vez pegaste no portátil e deixaste-me o Filmin. Conversando, foste olhar-me a engomar as T-shirts que dizes levar mais tempo a passar e ficarem piores; depois experimentaste. E corrigiste alguns pontos. Trouxeste-me um diário comprado para ajudar um gatil. Não sei bem o que fazer com ele, a persistência não é o meu forte e a palavra escrita é pouco secreta.

        Quando partes, a casa arrefece. Mas é assim mesmo, pertence.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Subterfúgios

 

        São engenheiras, arquitectas, doutoras. Fazem parte dos quadros de todas as autarquias e são pagas como quadros superiores. Merecem-no, concorreram ao lugar e ficaram; ignoro se com ou sem as chamadas “cunhas”. Conheço algumas. Há as que não conseguiram ainda colocar-se na cidade de origem, mas trabalham em zonas limítrofes; e as que preferiram ficar por lá e regressam apenas para rever os pais ou por festa. Quase todas casadas e com filhos levam a vida como podem. Dessas algumas que conheço, há as que trabalham em autarquias castigadas por ventos e cheias. Acredito que quem frequente redes sociais se depare com pedidos da mais variada natureza, as situações calamitosas existem e a ajuda popular faz muita vez a diferença. Mas não deixo de pensar em todos aqueles que a não pediram – por vergonha de mendigar o que necessitam, por não saberem como fazê-lo, ou por motivo que agora não antevejo. Eles também são gente e talvez a sua necessidade seja maior.

        E depois recebo um sms de uma dessas meninas bem educadas, quadro superior e família endinheirada, pedindo verba para um desumidificador a colocar na sua sala de trabalho. Talvez eu esteja errada, mas vou ignorar o pedido. Ofende-me.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Pequenos Nadas

 

        Com ou sem propósito, a natureza sabe estarrecer. Mas é também encantatória. Nestes dias de tempestade em que mal pusemos pé na rua e o mundo era líquido, limitámo-nos ao essencial. O tempo chuvoso faz-nos adiar a vida, se tal é possível. E a tantos derrubou.

        Ontem, atendendo a necessidades culinárias, calcei botas e fui ao quintal por um ramo de tomilho. E foi assim que os reparei, orvalhados de chuva mas erectos e gráceis, três narcisos. Juntos como um sol pequenino, sabiam a ressurreição. Amarelo intenso a bater palmas no cinzento do dia. Um abraço vegetal em canteiro despido de flores e que ignoro se hoje sobrevive, tanta a chuva que sucedeu. No impasse de surpresa boa, quase colhi dois, gosto de contemplar as flores dispostas na jarrita pequena que ora veste de verde simples. Desisti. Não lhes atentara nos botões, não dera sequer pelas hastes, seria ingratidão e violência colhê-los em florescência tão única.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A Tristeza dos Dias

 

        Esta parda melancolia arrasta-se semana atrás de semana, insidiosa, vai engordando por dentro da deselegância dos dias. Que não há cintura que os afine. Cerceados na estatura, nascem um após outro com a densidade de blocos tristonhos e lisos por onde as horas escorregam na ambivalência de não ser dia nem ser noite.

        Tudo em Portugal lacrimeja: choram-se de viva voz os que perderam a vida e os vivos que perderam o que tinham e lhes custou a ganhar; choram-se as árvores e o gado, os cães e os gatos, a mobília e outros haveres transviados, esmagados, idos “de água abaixo”. Mais que tudo, chora-se a casa, ninho que o vento malvado varreu ou machucou num arremesso. A casa, pensamos, é refúgio seguro, lugar de estar e também de ser. Ter uma casa, seja ela como e onde for, é permitir-se o repouso de corpo e espírito, evasão preciosa e vital à continuidade na luta.

        De pé, as casas não escondem o desalento, lágrimas escorrem por embaciadas vidraças, persianas e portadas. As portas cerradas empenam e no interior há lágrimas que ressumam nas juntas da madeira ou rolam pvc abaixo. Lá fora, uma humidade verde alastra por pedras e cimento, invade a cal de paredes e muros ensopados, enquanto vastos lagos se formam onde antes só havia a secura pobre da terra feita um pó fino e cinzento que agora é lama onde os pés enterram sem remédio.

        Tudo te chora neste mês aziago em que vieste ao mundo e dele te foste tão sem ruído como viveste. Acaso ou propósito, no dia do teu aniversário tão triste nova!


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

De Flores e Outras Coisas

 

        Em precisão de fungo invasivo, a chuva minou as camélias. A cameleira desfalcada, aqui e ali pífias flores desiludidas, lembra um crânio destinado ao deserto. É um dó ver o que resta da árvore grácil que, derrubada sob a chuva, evidencia o peso desalentado por ramos que escorrem virados ao invisível íman das raízes. No exíguo das flores sobreviventes faltam as sugestivas gotas de orvalho; antes surgem empapadas, pétalas extenuadas e apodrecidas exibindo manchas, sinais de gotosa velhice que a delicadeza abandonou. Ajoujada de chuva, a cameleira desnaturou carregando imposta escravidão de salgueiro. Desconheço esta a quem a intempérie malbaratou botões e flores, a sua primavera truncada pela água. Pergunto-me se haverá para ela outro ano, ou se a água a levará consigo, renúncia de morte que a primavera falhada precipitou. Jamais estarei preparada para a morte dos seres que me rodearam a vida. Inertes ou animados, são companheiros de muita hora, vigilantes dos dias e das noites, marcas de amigos que partiram. Trato-os como família e assim os sofro.

        Mas o que são estes meus desleixos queixosos face ao sofrer real dos perdedores?! Que podem representar umas dezenas de camélias, face às desgraças de telejornal, árvores caídas, muros que desmancham, terrenos que cedem, habitações que deixam de sê-lo, fábricas que nunca mais o serão?! Precisamos que a meteorologia falhe: que a chuva seja menos intensa que o previsto, que os ventos aquietem e não se insurjam contra nós, que as terras saturadas de água possam reanimar de tão perigosa fluidez. Que, enfim, um sol qualquer, mesmo um sol doente, percorra as veias da terra e a reponha no seu ser.

        Dizer ou pensar nos povos nórdicos, aqueles a quem o clima dá dias que são noites, semanas seguidas de chuva, furiosos lamentos de ventos uivantes que se arrastam por muita hora e temperaturas que nos gelam só de pensá-las, não é remédio. Tais povos têm com eles a habituação, o remédio institucionalizado para os males, a preparação e organização para fazer frente aos condicionalismos. Portanto, não existe termo de comparação. Abstraindo das causas que provocam as alterações climáticas e que com grande probabilidade são e serão a fonte da maior parte dos nossos males (fazemos mal a nós mesmos desde sempre), parece-me claro que não existe no país qualquer organização que permita celeridade em casos de emergência calamitosa desta ou doutra natureza. Não entendo por que não se penaliza fortemente o SIRESP que falhou pela segunda vez. A falta de responsabilidade e de coragem é assustadora. Somos compelidos a concluir que não é apenas no nascimento e na morte que estamos sozinhos.


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Tudo e Nada

 

        Durante a noite sonho conexões que não existem, frases bonitas aparecem-me feitas, completo histórias que já contei ou refaço-as. No meu pouco dormir, as palavras tomam-me de assalto. Talvez suceda porque mudei de pensamento: por norma adormecia a pensar em coisas que gostava. Coisas fáceis e a meu alcance: pessoas que gostaria de rever, copos de sumo de laranja, passeios em perspectiva, dias de sol em que descalça me sento livre de pés, exposição de alegres e desenvoltos dedos. E mais uma caterva de pequenos nadas que ora me desanimam; por certo esvaziaram mercê da chuva. Para mal dos meus pecados, tudo esvai logo que a consciência me desponta. Mas não consigo pensar que esteja inconsciente quando sonho e articulo tais palavras e frases e textos. Tal como Descartes, tenho a certeza que os penso, resolvo, componho. Os meus sonhos abortaram as pessoas, não há vivalma neles, o que me contrista sobremaneira, sonhar com gente é muito mais animado. Nem sequer eu que sonho estou presente em mim. Que maçada saber temas do sonho sem qualquer concretude. De que é que isto me vale?!

        Porém, enquanto me acontecem estas desimportâncias, nos enormes intervalos das mesmas, aflijo com quem está a descoberto em sua casa, com todos os que têm um plástico armadilhado a esconder os buracos - Ventura afirmou que vai disponibilizar os seus outdoors para cobertura de telhados:); desnorteio com quem não tem energia eléctrica e logo não tem água, com aqueles a quem o vento varreu empregos e património. E isto passados que são cinco longos dias. De nada vale e a ninguém aproveita se não durmo, mas a chuva, que antes me ninava, agora é despertador; mais eficaz que um café. Pois como podemos adormecer com irmãos nossos em privação de quase tudo?! Como é que se dorme o sono dos justos, quando à natureza que não sabe o que faz – ou o que nós lhe fazemos – se junta a incúria dos homens que tardam em responder às necessidades populares que são tantas nas zonas afectadas. Aí, sim, o povo e os autarcas têm-se esfalfado. Tanto quanto é possível, a população vive de entreajuda. Mas a reposição de energia não compete ao povo e os meios alternativos devem ser disponibilizados pelo governo. Hoje que foi ontem, ouvi o primeiro ministro a desfiar medidas. Não as avaliei, mas também não entendi o motivo de reunirem ao domingo quando com uma desgraça destas a ajuda devia ter sido quase imediata. Será para nos levar a pensar o que não pensamos, “Pobres políticos que precisam reunir numa manhã de domingo”?! Ou será que a acção só começou quando o barulho a exigir actuação do governo foi ensurdecedor?!

        E que não aconteça como em anteriores catástrofes, li que ainda hoje há gente que espera reembolso. Vamos ajudar! Um dia os ventos, ou os fogos, ou o que seja, estarão na nossa zona, que este país está pelas pontas e qualquer desgraça o derruba. Que pelo menos o espírito de entreajuda popular e o respeito por quem só perdeu não nos falte nunca. O resto há-de vir. Nem que seja arrastado.