Lembra-me muito certo poema que retive, ignoro se ipsis verbis, “Não sei viver, nunca soube viver/ sou um relógio que pára de quando em quando/ falta-me o ritmo, a continuidade(…)”. Talvez sejamos todos, mas uns mais que outros, esse relógio avariado que ora trabalha, ora não; ora cavalga rápido, ora se imobiliza sem motivo visível, para arrancar de novo também sem razão. Podia desculpar-me com o mundo e o descalabro a que assistimos; com o estado depauperado de Portugal e dos que no país tudo pagam e pouco recebem; com a educação que tanto falha nos seus princípios cada vez mais complexos e de menor exigência - a haver futuro, a factura vai pesar, já pesa; com a miséria que verificamos na saúde e são os mesmos que trabalham a vivê-la, que os restantes encontram outros meios que não o Serviço Nacional de Saúde; com tanto empréstimo que, de alguma forma, terá de ser pago pelos de sempre e, por regra, enriquece também uns certos mesmos.
Preocupa-me, em democracia, o regresso da nomenclatura que denuncia a realidade social de ricos e pobres – os ricos amontoam na sua classe, enquanto os pobres se dividem entre os muito pobres, os miseráveis sem casa, alguns com um quartinho alugado e que não têm dinheiro que lhes aguente o mês inteiro. Depois vêm todos os empregados nisto e naquilo, os pequenos agricultores e outros; são a imensa maioria: com dobrado esforço, contenção e certa dose de empréstimos conseguem sobreviver e ir cumprindo a fracção das dívidas. Se um acaso os lança no desemprego, o passivo acumula e descem um degrau ou tornam-se dependentes da boa vontade de familiares, em regra os pais reformados e que lhes abrem portas ou a bolsa, ficando pais e filhos na corda bamba. Muitos, sobretudo casais jovens, após o dia quinze vivem da ajuda dos progenitores; pertencem à célebre geração mil euros. E são muitíssimos. Por último, dentro da classe dos pobres quase remediados, está a chamada classe média baixa que tem uma incomensurável distância da classe média alta; tão incomensurável que a classe média alta se inclui já no grupo dos ricos, é outra coisa. A classe média baixa não depende dos progenitores para se aguentar até final do mês desde que use de alguma contenção; em geral não se endivida senão por aquisição de casa própria ou compra de veículo e não cai em incumprimento nas prestações da dívida. A classe média baixa é hoje o que deveria ser a classe mais rasa de uma democracia, a pobreza miserável não é própria deste regime político e nem da dignidade humana que tanto se apregoa. Mas existe.
Não sou da notícia, irritam-me tantos comentadores na política e ainda mais no futebol. Desgostam-me as guerras por capricho, a devastação como caminho do poder, o desrespeito pela dignidade de cada homem, as “amizades” políticas exclusivamente por interesse.
Por cá, tornámo-nos democratas da palavra. Como se, por magia, ela se transforme em acção. Mais de cinquenta anos de democracia e estamos nisto.
Desculpem, não era deste assunto que vinha falar. Faltam-me soluções para tamanha doença e nem sequer é tema do meu agrado. Deu-me para aqui.