segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Vida Contada

 

Voltar onde se foi feliz é tentação a que cedo com frequência. A mesma praia; os mesmos amigos; a mesma sala de cinema; os mesmos programas de rádio. Há um ror de anos, considerava-me moderna, arejada, aberta à sedução da novidade. Hoje, verifico o meu conservadorismo. É provável que tenha cristalizado o amor à terra e suas maravilhas; a preservação das amizades mais fundas; os meus amores mais intrínsecos e olorosos por quem me deixaria esquartejar, se necessário; e a minha impossível nuvem de sonho, liberdade que não há, mas quem/o que seríamos sem sonhos.

Portanto, a Gulbenkian. Lugar de pequenas maravilhas onde mais nos sentimos unidos ao mundo. A beleza ata-nos ao universo, puxa pelo melhor de cada homem. E quanto lamento que, neste país, o belo apareça tão elitista. Que o ensino nas escolas a não fomente a partir de um programa inteligente e sensível.  Que crianças e jovens não tenham a chance de a contemplar nas suas vertentes, ou dela beneficiem apenas e se, em sorte, lhes cabe professor que a preserve. É liminar, não se opta pelo desconhecido. Pode acontecer, mas o princípio aristotélico mantém-se, o que não acontece nem sempre nem quase sempre é excepção. Ora, o espírito de um povo não se forma nem modifica com excepções.  A cultura através da arte amplia o espírito: produz abertura e aceitação, flexibilidade mental e capacidade crítica. É minha convicção que, mais do que a filosofia para crianças, uma educação que preserve a beleza e a harmonia, que eduque o espírito para a necessidade do belo descerrando-o e trazendo-o à rua de todos os homens, fará mais pelo espírito crítico e dará melhores resultados. Claro que é apenas convicção, mera hipótese pedagógica.

Na Gulbenkian, sou sem passado nem futuro, uma espécie de reunião dos tempos, a fragmentação elidida pela harmonia. Apesar da malvadez da máscara, puro inferno no calor deste outono; apesar do meu cansaço que resolveu assentar arraiais naquele fim de dia e me espapaçar no conforto do lugar; apesar de ter fechado os olhos por uns bocadinhos e me virem frases desgarradas que não sei mesmo onde se formavam que nem parecia que vinham de mim, mas era no meu ser que se manifestavam. E portanto não houve qualquer epifania, mas tão só uma olímpica estranheza.  Ainda estou para saber por que raio só me vinham frases e qual a razão de as ter olvidado por completo (não recordo uma para exemplo). Ora, em meu entender, os enigmas pessoais não são de resolver, fazem parte dos mistérios de cada um. Acontecem. Deixemo-los pois entregues a si mesmos.

Mau grado as vicissitudes do regresso, trouxe comigo a esperança de poder repetir. Luz bruxuleando ao fundo do túnel. A espreitar-me. Que beleza.

13 comentários:

  1. Também tenho saudades de lá ir. Mas sou como a Bea apenas pela metade, gosto tanto de ir aos sítios amados como de descobrir novos. Mas nos sítios amados sinto paz, como se me reencontrasse comigo e com a minha própria história. Espero que a sua saúde esteja a recuperar. Boa semana.
    ~CC~

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  2. A Gulbenkian é um lugar onde nos sentimos bem. Onde há sempre coisas novas a descobrir. Onde o jardim tem sempre o recanto que nos agrada.
    Quanto ao que diz sobre a educação só posso estar de acordo: "uma educação que preserve a beleza e a harmonia, que eduque o espírito para a necessidade do belo descerrando-o e trazendo-o à rua de todos os homens, fará mais pelo espírito crítico e dará melhores resultados." Pena que se esteja a falhar neste aspecto e em tantos outros. Que gosto ler o que escreve.
    Cuide-se bem.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  3. Adoro ir a sítios onde já fui feliz, mas sinceramente, não consigo associar um sítio a felicidade. Ou então nunca a senti a esse ponto. Bem visto e fiquei a pensar.
    Mas gosto de ir a restaurantes onde já fui e gostei. Mas também gosto da novidade. E tenho essa máxima:
    Pelo menos uma vez ao ano, vou a um sítio onde nunca fui.

    Beijocas

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  4. Retrata um excelente momento de reflexão e muitos caminhos para uma aprendizagem completa. A capacidade de observar, a sensibilidade para a beleza é realmente um deles. A recetividade para o novo e, ainda, a capacidade de desconhecer para podermos abarcar também os nossos mistérios são mais fatores para uma educação integrar. Gostei da sensibilidade das suas palavras. Um abraço!

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  5. Voltar ao lugar onde se foi feliz já me foi desilusão, porque as águas do mesmo rio nunca são as mesmas, porque eu próprio mudei.
    Tudo muda, mudam-se acima de tudo as vontades, umas mais lentamente outras nem tanto.
    Depois, há tanto lugar para conhecer... mas não é disso que estamos a falar.
    Olhe, este fim de semana fui a Beja, terra que desconhecia. Inicialmente achei-a feia, deprimente, uma tristeza.
    No domingo de manhã fui visitar o museu regional rainha D.Leonor e o castelo e quando saí de lá, vi a cidade com outros olhos. Como tudo mudou tão rápido não sei, mas sem dúvida que fui eu, com os novos conhecimentos que a cultura me proporcionou.
    Já a Gulbenkian raramente me falha.

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  6. Talvez eu devesse ter dito que os meus encantamentos antigos não esvanecem. O que não significa recusar a novidade. Mas que a pauto pelo vagar e submeto a seriação, é verdade. Muita novidade junta sempre me confrange, o "tudo novo" desagrada-me. Felizmente, suponho eu, não há isso de "tudo novo". Alguma coisa há-de ser conhecido, permanecer, nem que seja o sujeito que conhece e a sua forma de conhecer.
    CC
    a minha saúde está finalmente no que me parece uma recta; a palerma tem andado aos ziguezagues.
    Graça
    a Gulbenkian é lugar bonito e prazeroso de Lisboa. Dou graças por cada vez que ali piso. E lembra-me sempre três homens a quem muito devemos - sobretudo ao primeiro - e que contribuíram para a sua criação e identidade: Calouste Gulbenkian e os arquitectos Gonçalo Ribeiro Teles e António Viana Barreto responsáveis pelo éden que rodeia o edifício e de que todos podemos desfrutar.
    Cláudia
    quando escrevo feliz quero apenas dizer que me sinto bem, me é agradável. A felicidade não sei bem o que seja, talvez apenas a efémera plenitude que nos invade de longe em longe, esquiva senhora sempre em fuga. Mas talvez nos seja mais propício o continuar desejando. O homem é um ser desejante, não é um ser feliz. Julgo eu, sem certezas absolutas.
    Raquel
    o gosto também se educa. O homem não é apenas um empreendedor. Lamento profundamente que as matérias escolares que sublinham a nossa humanidade e a educam sejam descuradas, relegadas para uma opção que não chega a acontecer. Estou a lembrar-me quando há mais de dez anos as aulas de teatro surgiram fazendo parte do currículo como disciplina de opção, já não recordo de que anos. E, como eram opção juntamente com disciplinas de exame - as chamadas disciplinas sérias, com manual e programa rígido, claro que foram preteridas e deram-se mais horas às outras. Acho uma maldade de quem fez os programas e pensou as disciplinas. Uma forma pouco honesta de poderem afirmar, afinal até teriam aulas de teatro, mas nem escolheram. Quem mais perdeu foram os alunos. Doeu, tínhamos até uma pessoa formada na área. Enfim.
    Joaquim
    Há lugares a que nunca mais tornarei. Voluntariamente. Tenho deles e de mim neles a melhor memória. E não aguento peregrinar sem a companhia de quem me levou ou ali encontrei. E também existem os que me desiludiram, me pareceram sem a graça que antes os nimbou (será a história do rio cujas águas mudam sem cessar). Mas há os lugares seguros, os que nunca/quase nunca desiludem, água a que volto sedenta.
    Pouco conheço de Beja, entrei noite alta e saí era manhãzinha. Ficou-me a ideia de uma cidade tristonha, mas não a conheço.
    Boa semana a todos

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  7. Há muitos anos que por lá não passo mas sinto a mesma magia em Serralves onde arte e tranquilidade se enchem de memórias!
    Boa semana Bea

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    1. Serralves é outra coisa. São pertenças diferentes, mas têm um quê.
      Boa semana, Gracinha.

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  8. Voltar à Gulbenkian faz sempre bem à alma.

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  9. Fui uma única vez à Gulbenkian e foi num período muito enriquecedor da minha vida, com amizades que ainda hoje mantenho.
    Boa semana, Bea

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  10. Boas recordações lhe deixou, não é mesmo, Magui?

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  11. A Gulbenkian é sempre um lugar precioso onde apetece regressar. Pelos jardins, pela cultura, pelo passado e pelo presente e até pelo futuro. Ansiosa pelo que virá do novo projecto que se anuncia. Bom fim de semana.

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