E já deu para entender que cresci um nadinha sob a sua asa. A primeira vez que dei pela sua ausência na casa paterna, fiz beicinho e acabei chorando o desgosto no ombro de minha mãe. A falta sentida magoava-me o pensamento e nem consegui hipóteses que minorassem o desgosto. Com a doçura costumada, minha mãe deu fim aos soluços, vem à noitinha na carreira, foi aprender a bordar. Bordar - pensei - era serviço importante. E mais importante se tornou quando ela chegou num entusiasmo, podia fazer isto e aquilo com a máquina da costura que também bordava. Então enchi-a de curiosidade, és capaz de fazer uma folha? Ela assentia; e uma flor? E ela que sim; e um burro? E ela dando fim ao estendal inquisidor: faço o que tu quiseres, mas primeiro tenho de aprender e comprar uma máquina daquelas. Comecei a desconfiar da aprendizagem. Então, um dia inteiro longe de mim e ainda não sabia fazer nada?! Pareceu-me mal e fui para casa emburrada. Desinteressei-me dos bordados e só nos sábados e domingos voltávamos ao de antes. Decerto num desses dias conheci minimamente aquela a quem ela chamava "a minha patroa" ao que a mãe repontava, patroa, patroa! Não te paga um tostão, fazes o que ela manda, e ela é que arrecada; bela patroa, não haja dúvida. E ela, mas dança tão bem, mãe. Dança como nunca vi alguém dançar. E logo representei a senhora, muito vaporosa, ensinando as aprendizes por entre passos de dança. Ora, não era bem assim.
Profissional de rua, vivia no hábito de dar conta de tudo. Portanto, fitei arregalada a minha vizinha que descera da camioneta da tarde. É claro que dobrei a esquina a todo o vapor. Fui dar com ela em casa, limpando os olhos ao lencinho de assoar e a fungar disfarçadamente. Perguntei porque chorava, e ela que só estava constipada e por isso tinha saído mais cedo. Não me convenceu e fui dar parte a minha mãe. Dessa vez foi a pressa materna a contornar a esquina, eu espreitando à porta e sem autorização de pôr o pé na rua. Afinal, soube por portas travessas - conversas adultas no tanque de lavar -, a garota chorava "com a força dos nervos". A patroa e o subentendido patrão brigavam um com o outro a qualquer hora e por todo o motivo. Atiravam-se panelas e o que viesse à mão, chamavam-se todos os nomes feios que sabiam e acusavam-se mutuamente de terem amantes, coisa que nunca se apurou ser verdade para nenhuma das partes; diziam as más línguas que eram bastante desengraçados e ninguém os quereria. Parece que se entendiam e eram um, apenas dançando. E que esse lado belicista do matrimónio não era segredo para ninguém, excepto as aprendizes que vinham dos campos, ignorantes do imbróglio. Tal como brigavam e se odiavam com todas as forças no dia a dia, assim se acertavam nas noites de sábado e parte dos serões de domingo. Se ensejavam levantar-se, o mundo parava na Sociedade da terra. E, ainda mal pisavam a pista, já deslizavam leves como penas. Sei hoje que arrecadavam todos os prémios e eram famosos em qualquer modalidade, paso dobles, tangos, valsas, rumbas e etcetera: ao som da música, eram um só num só desejo: dançar.
E eu, de birra, desertara dela; portanto, não vira o seu rostinho de chegar a casa senão no agrado de estreante; não soube sequer que calava o que via para não perturbar os progenitores. Para minha aflição, minha mãe demorou. Regressada, disse-me que precisava falar com os pais que ainda tinham pela frente mais umas horas de trabalho. E não adiantou.
Resultou de tudo isto que não voltou à mestra e algum tempo depois, como por milagre, a máquina de bordar apareceu em sua casa.
(cont.)