domingo, 29 de outubro de 2023

Senhora Minha

             E já deu para entender que cresci um nadinha sob a sua asa. A primeira vez que dei pela sua ausência na casa paterna, fiz beicinho e acabei chorando o desgosto  no ombro de minha mãe. A falta sentida magoava-me o pensamento e nem consegui hipóteses que minorassem o desgosto. Com a doçura costumada, minha mãe deu fim aos soluços, vem à noitinha na carreira, foi aprender a bordar. Bordar - pensei - era serviço importante. E mais importante se tornou quando ela chegou num entusiasmo, podia fazer isto e aquilo com a máquina da costura que também bordava. Então enchi-a de curiosidade, és capaz de fazer uma folha? Ela assentia; e uma flor? E ela que sim;  e um burro? E ela dando fim ao estendal inquisidor: faço o que tu quiseres, mas primeiro tenho de aprender e comprar uma máquina daquelas. Comecei a desconfiar da aprendizagem.  Então, um dia inteiro longe de mim e ainda não sabia fazer nada?! Pareceu-me mal e fui para casa emburrada. Desinteressei-me dos bordados e só nos sábados e domingos voltávamos ao de antes.  Decerto num  desses dias conheci minimamente aquela a quem ela chamava "a minha patroa" ao que a mãe repontava, patroa, patroa! Não te paga um tostão, fazes o que ela manda, e ela é que arrecada; bela patroa, não haja dúvida. E ela, mas dança tão bem, mãe. Dança como nunca vi alguém dançar. E logo representei a senhora, muito vaporosa,  ensinando as aprendizes por entre passos de dança. Ora, não era bem assim. 

   Profissional de rua, vivia no hábito de dar conta de tudo. Portanto, fitei arregalada a minha vizinha que descera da camioneta da tarde. É claro que dobrei a esquina a todo o vapor. Fui dar com ela em casa, limpando os olhos ao lencinho de assoar e a fungar disfarçadamente. Perguntei porque chorava, e ela que só estava constipada e por isso tinha saído mais cedo. Não me convenceu e fui dar parte a minha mãe. Dessa vez foi a pressa materna a contornar a esquina, eu espreitando à porta e sem autorização de pôr o pé na rua. Afinal, soube por portas travessas - conversas adultas no tanque de lavar -,  a garota chorava "com a força dos nervos". A patroa e o subentendido patrão brigavam um com o outro a qualquer hora e por todo o motivo. Atiravam-se panelas e o que viesse à mão, chamavam-se todos os nomes feios que sabiam e acusavam-se mutuamente de terem amantes, coisa que nunca se apurou ser verdade para nenhuma das partes; diziam as más línguas que eram bastante desengraçados e ninguém os quereria. Parece que se entendiam e eram um, apenas dançando. E que esse lado belicista do matrimónio não era segredo para ninguém, excepto as aprendizes que vinham dos campos, ignorantes do imbróglio. Tal como brigavam e se odiavam com todas as forças no dia a dia, assim se acertavam nas noites de sábado e parte dos serões de domingo. Se ensejavam levantar-se, o mundo parava na Sociedade da terra. E, ainda mal pisavam a pista, já deslizavam leves como penas. Sei hoje que arrecadavam todos os prémios e eram famosos em qualquer modalidade, paso dobles, tangos, valsas, rumbas e etcetera: ao som da música, eram um só num só desejo: dançar.

           E eu, de birra, desertara dela; portanto, não vira o seu rostinho de chegar a casa senão no agrado de estreante; não soube sequer que calava o que via para não perturbar os progenitores. Para minha aflição, minha mãe demorou. Regressada, disse-me que precisava falar com os pais que ainda tinham pela frente mais umas horas de trabalho. E não adiantou. 

        Resultou de tudo isto que não voltou à mestra e algum tempo depois, como por milagre, a máquina de bordar apareceu em sua casa. 

(cont.)

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Senhora Minha

 Hoje sou sua amiga e da filha mais velha. Um dia, tomando chá as três, ela contou que me ouviu o primeiro choro (nasci em casa) e que sempre fui mimada por seus pais - foi a minha época de querubim; sobram-me nesgas em clarão, sóis fosforescendo na neblina dos anos. 

Lembrámos isto e aquilo e recordei-lhe o pai que bem cedo se foi desta vida. Gostava quase tanto dele como de meu avô. Conhecia-lhe a fadiga arrastada no regresso do trabalho. E ainda a silhueta lhe desaparecia na esquina e já eu, se minha mãe não me segurava, corria desarvorada até à sua porta traseira. Por vezes,  chegava-lhe à cozinha e ainda ele de enxada ao ombro e cesto da merenda na mão. Fazia-me sempre boa cara, e mais parecia que não nos víamos há séculos, o "Olha a Bea" enquanto eu lhe abraçava as pernas, era tão ou mais acolhedor que os beijos que não me dava. Pousava a cesta no seu canto e, quando ia deixar a enxada na barraca, já me carregava no colo. Depois, sentava-me à chaminé onde o jantar aprontava, deitava a mão ao saco da merenda e retirava as sobras do pão. Eu puxava um garfo da gaveta da banquinha, ele espetava-o no pão e fazia-lhe lugar junto às brasas.  Enquanto o pão ia torrando, perguntava, queres à rica ou à pobre? À rica, respondia com sorriso delambido. Ele sorria bonacheirão e barrava o pão torrado só de um lado. Empenhado na função, sublinhava  com pesar, escolheste mal outra vez, os ricos barram o pão só de um lado. E passava-me a torrada como que esquecido de mim, atiçava o lume com a tenás, ou levantava-se a esvaziar o saco do almoço e chegava mesmo a sair em busca de mais lenha. Depois, olhava de esguelha o meu desânimo - ainda estou por saber a razão deste desânimo diário, ele convencia-me sempre que daquela vez é que era a sério, teria de comer a torrada barrada só de um lado. Mas, face ao meu semblante triste e torrada intocada,  logo ele decidia, mas eu quero à pobre, vamos lá untá-la dos dois lados.  Depois do acepipe generosamente  completo, içava-me do banquinho pequeno e sentava-me numa das pernas - o banquito fora serventia dos filhos mas, com eles crescidos, não autorizava que saísse da chaminé,  é o banco da Bea. E ficávamos os dois a alternar bocadinhos de torrada que ele cortava a canivete. 

            Quando contei isto, subiu-nos uma saudade espessa, aquele homem morreu bem novo e houve lancinante padecer antes da misericordiosa morte. Então, sofri o primeiro nunca mais de um afecto. 

Ela recobrou do alheamento, sacudiu a tristeza e desfez o momento com outra história. Certa vez, era eu bebé, minha mãe tinha de sair e pediu-lhe que cuidasse de mim. E ela logo que sim, alvoroçada com a imitação de ama, orgulhosa da confiança. 

A princípio, tudo pacífico, eu sorria-lhe sossegada. Mas minha mãe demorou. E, ou por fome, ou por estar molhada, ou apenas por ter deixado de ver o rosto materno, desatei num berreiro sem fim. Ela abanou o berço, pegou-me no colo, ninou as canções que ouvia a minha mãe. Sem resultado, eu berrava cada vez mais. Afligiu, que diria minha mãe quando chegasse?! Então ocorreu-lhe que poderia estar na hora da mamada. E, na inocência dos seus treze anos, decidiu resolver o caso. Abriu a blusa e puxou o mamilo como conseguiu.  E muito se defraudou do esforço ao ver-me a estrebuchar, ela agarrando o peito que mal avultava e eu a repugná-lo fortemente e sem ao menos lhe tocar. E pronto, desatámos à gargalhada (ela, como minha mãe, apenas sorri). A filha admirada, ó mãe! Nunca me contou isso. E continuámos na risota.

(cont.)


terça-feira, 24 de outubro de 2023

Senhora Minha

         Conheço-a desde sempre. Lembro-a talvez desde os seus espigados dezassete anos e não sei de quem melhor case pessoa e nome. Não a vou denunciar, ignoro se apreciava ver-se aqui retratada. Foi minha vizinha directa desde que nasci até aos meus famélicos onze anos, quando meus pais construíram casa.  E tenho dela memórias vagas e comentários de mãe desconcertada, esta rapariga não pára de crescer. Ou num acinte de orgulho sussurrado a minha mãe e a que eu apurava o ouvido, mas já se notam os marmelitos.

        Falha dos obscuros mistérios da língua eu corria a observá-la. Encontrava-a quase sempre sentada num banquinho baixo a passajar, remendar ou, o que mais me agradava, de pé frente à mesa da casa de jantar, talhando aventais com um giz, mistério alienígena que, nas suas mãos certeiras, seguia tecido abaixo deixando um rasto branco e que, se eu avançava a mão,  não que tu estragas sem querer e faz-me falta. Espreitava-a sentada. Concentrava-me se ela estava de pé, olhos de raio x a percorrê-la. Mas, por mais que olhasse e estivesse atenta, não descobria  sinais de marmelos no seu corpo esguio. Mais nova que minha mãe, mas muito sua amiga, ela estranhava-me de tão quieta, queres alguma coisa, Bea. estás tão caladinha... Eu negava com a cabeça e palpava-lhe os bolsos em  busca dos marmelitos, ela julgando que buscasse rebuçados. Na terra que lhe pertencia, bem ao fundo, havia vários marmeleiros e eu conhecia o fruto e temia os ramos. O mundo da infância repelia a vara de marmeleiro quase na mesma medida do amor que consagrava à marmelada caseira que as mães arriscavam (o açúcar era  caro) se acaso alguém lhes dava uns marmelos ou possuíam a árvore. Acresce que os pais contavam histórias sobre sovas com vara de marmeleiro. E preveniam-nos acerca do desconhecido mundo da escola, habitado por professoras que as usavam para disciplinar alunos inssurrectos. Grandes pedagogos, os nossos pais.

                   Por outro lado, eu intuía que os sussurros eram os pequenos tabus dos adultos e que, como alertava minha mãe, se alguém segreda é porque não quer que se saiba. E não insisti no assunto, a infância  é fértil em novidades e mistérios.

(cont.)


segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Tolentino

         Pois é, sem o teu conhecimento, ou sequer consentimento, converso contigo. Tem vezes que te escuto falando e me parece ser comigo que falas. Não bem comigo, para mim.  Que o teu Vaticano pode parecer perto, mas não tenhas ilusões, fica-me longíssimo. De modos que moramos muito longe um do outro e duvido que nos vejamos mais perto do que já nos vimos, tu na ribalta e eu no público. Cada um no seu lugar: é dos livros e da vida. Pergunto-me se ainda seria capaz de ir a correr ver-te como já fui (e em circunstância bem adversa).  E concluo que já não. Em primeiro lugar porque o corpo se me vai negando à corrida; em segundo porque me sinto sempre um bocadinho perdida no meio de tanta pessoa, o que costumo chamar de uma floresta de gente e eu lá no meio sem caminho. É seguro que não passas despercebido e te rodeia a fé dos homens, mesmo dos que não a têm - um cardeal é nome de importância. E tu escreves livros e  crónicas. E fazes mais ou menos o de toda a gente que tem talento e se torna conhecido: vais publicando os teus pensamentos e convicções. Talvez, por te lermos tornes melhor o mundo de algumas pessoas; que o outro, o grande mundo, descamba e fenece à vista de todos, mesmo dos alienados umbigos que o empurram para o abismo e dos ignorantes despreocupados (serão?! Tu que achas?). Já sabes que te leio desde um certo programa. Sou assim, de manias. Pendo para autores que me prendem à leitura. Pouco me interessa como são fisicamente, que idade têm (Rentes de Carvalho é um velhinho lúcido e agreste como só os transmontanos sabem ser e tenho pela sua escrita um amor entranhado. É teso, ele), o que lêem, se casam ou descasam.  Mas em ti, repara, interessam-me as tuas mãos, alguns gestos que repetes e acho únicos, o prisma por onde olhas a realidade e os teus olhos de atenção compreensiva (é invulgar ter olhos desta natureza). Eu que não tenho conta no facebook, olha, sou tua seguidora. Já sabes, não concordo com tudo que dizes e, por vezes, fico a remorder, contraponho as tuas opiniões com exemplos, nego o que pensas com outros exemplos. Coisas.

        Ora, bem sei que nasceste em Dezembro. Tinha de ser, dá-te um ar mais católico. Mas apetece-me dar-te os parabéns hoje. Porque sim e porque comecei a ficar eu. Ok, é uma forma estranha, pois se nem me lês. Não interessa. Em Dezembro hei-de andar em busca do espírito do Natal e não dá jeito. E, sei lá eu, um postal não chegava hoje ao teu Vaticano. Além do mais, tenho vindo a habitar o lado negro da lua que é, como tu sabes (não sei se sabes mesmo, mesmo, mas quero crer que sim), uma vontade de dormir e não acordar. Só dormir - sem passado nem futuro. Mas fica ciente, hoje bebi um café com leite dos meus e fui nadar. Atirei-me da borda da piscina como quem mergulha a um poço. E, aparte o chapanço, fez-me bem a tudo. 

Portanto, tenho de aproveitar a madrugada do meu ser para dizer-te: PARABÉNS. E que o Deus que te guia faça o seu trabalho, e os teus pequenos e eternos deuses te façam companhia. Mereces.

Com as devidas cautelas (um cardeal é um cardeal) segue junto o meu abraço e um beijo na bochecha (se quiseres adiar isto tudo para dia 15 de dezembro, estás à vontade).


sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Informações a Meu Pai

  Na noite em que de corpo e mente me morreste, não dormi apesar de ter dobrado a medicação. Claro que pensei em algo estranho e coloquei mesmo essa hipótese. Mas, eu que não assistira minha mãe na morte, tinha  requerido à enfermeira que me avisasse do fim e ligasse a qualquer hora, noite ou dia - elas conhecem os sinais da morte. Queria fazer, por ti e contigo, a passagem que me tornaste impossível com a mãe. No meio de tal agitação interior e sem o combinado aviso no telemóvel, decidi esperar pela hora - das 8 às 9 - da ligação habitual. Na natação, esbracejei o mais que pude - sem qualidade, só em gasto de energia. E recebi a notícia. 

Tinha acompanhado sem quebra e ao longo de um mês certo,  o teu calvário contínuo. Vi-te dia-a-dia. Primeiro cheia de esperança e depois, a definhar gradualmente,  sem um carinho que não o nosso em meia hora diária. Braços e mãos repletos de negras, agulhas espetadas nos dois membros, sangue misturado nos tubos. E nunca me deixaram ver o estado dos genitais onde contraíras uma infecção supostamente por arranque da algália e, por isso, diziam, te amarravam. Talvez fosse verdade. Incómoda e confrangedora verdade que eu aliviava em 30 minutos, resguardando-te os movimentos das mãos só então libertas.

  Tu e a mãe falaram pela última vez comigo. Inexplicável acontecimento. O certo é que o vosso último momento de lucidez aconteceu na minha presença; qualquer dos dois, havia dias que não dava palavra e, logo após, manteve o estado. Nenhum me disse algo de extraordinário, não houve pedidos de última hora: tu queixavas-te da forma como eras tratado e disseste "só quem passa por isto como eu, percebe o que custa, nunca houve nada que me custasse tanto"; e, "se eu soubesse tinha-me matado antes, agora vou ficar para aqui a sofrer semanas, quem sabe se meses"; depois perguntaste preocupado, "já pagaste?".  Pensavas que virias comigo, tu que não conseguias sequer virar-te na cama, e disseste esperançoso, "trouxeste o carro?" Descansei-te:  sim, estava tudo pago, eu tinha levado o carro como sempre. E olha, penso exactamente como tu, morreste sem voltar  a tua casa, à tua cama, à paz do teu quarto. Talvez vivesses menos, mas garanto-te: se soubera o que e como aconteceria a passagem, ficavas em tua casa, sem a profusão de agulhas espetadas à trouxe-mouxe, amarrado dia e noite, falho de amparo e cuidados além dos que a medicina obriga. Que aos velhos muito velhos não se dá atenção, antes se pensa nos que entram com 50 e mais anos e sobretudo se a doença não os incapacita como a ti. Em casa morrias mais cedo e não terias o benefício do oxigénio?  É verdade. Porém, à medicina que só prolonga o sofrimento não chamo medicina. Outros que lhe chamem o que quiserem. Mas já cumpriste o calvário. E foi o que foi.

Talvez tenha sido mero acaso. Mas, na última visita, quando já nem a nossa mão apertavas e havia no céu uma lua cheia e acinzentada, parei o carro e repeti o Cristo na cruz, " mãe, leva-o; por favor, leva-o o mais rápido possível". Pouco lhe pedi até hoje, dos meus erros e irresponsabilidades, ela como eu, sabemos que me pertence dar conta. Dizem que morreste na vigésima quinta hora. Não sei, acho mesmo que, ao invés da minha vontade, morreste só. E antes. Mas, às dez da manhã, tratados os pormenores, e quando enfim me deixaram ver-te, já tu feito o senhor que um dia me acenou de um carro e eu armada na palerma que sou, "quem será aquele senhor, deve  conhecer-me, riu-se para mim", digo-te que  o rigor mortis ia em estado avançado. De todo o modo, gosto de pensar que a mãe me atendeu e te puxou para si naquele jeitinho doce que lhe era tão próprio como respirar. Ao teu corpo juntámos o que resta da mulher que amaste tão mal, mas amaste como sabias. E um ramo do teu outro amor: as laranjeiras. E a certeza de que, a seu tempo, nós vos seguiremos.

Ontem demos "a cura para o bichaço", como usavas  dizer em relação às laranjeiras. E começámos a esvaziar a tua secretária. Pai, tu guardaste tudo, verba entrada e saída, desde o tempo em que tiveste lugar e dinheiro para haver secretária. Todas as facturas e requerimentos. Tudo. O que emprestaste e o que negaste emprestar. Enfim, o teu diário em cifrões. Andamos a vasculhar a tua vida desde 1966. As horas que gastámos a esvaziar uma gaveta! E o tanto que falta.

     Fica a certeza: nas asas do  pensamento estamos juntos.

O meu bem haja a ambos

          Vossa filha Sempre