quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Era uma vez...

 

E tudo foi simples e se fez próximo nesse mundo feminino e palavroso, as vozes em crescendo. Pena a mesa angular que impedia visão comum. E é certo, o vinho instala espírito festivo. Alma e corpo distenderam com  a sangria, as conversas avivaram, os nós residuais de súbito deslaçados. As aias, voltando atrás no tempo, serviam-se mutuamente como quem está em companhia de tu cá, tu lá. E brindavam. Aos brindes faltaram apenas os versinhos antigos que faziam os avós, “vou beber este copinho com muita alegria, viva a nossa professora e mais toda a companhia”.  Mas os avós das quadras, que é deles. Hoje, elas são as avós. E talvez não façam saúdes rimadas e populares. Mas brindam. E a princesa ergueu o copo e fez tchim-tchim. Linda e alegre na sua serenidade comovida por via da festinha.

A degustação foi sem mistério e a contento. Pode mesmo dizer-se que acrescentou o espírito que as animava.  E depois, é de praxe, num almoço de mulheres, sobremesas são necessidade: o bolo húmido de chocolate, uma tarte que podia ser de leite ou limão, a sericaia, um bolo de natas. E talvez antes, durante, ou depois da doçaria, a hora grata.  O álacre ramo de flores que a princesa-professora recebeu de suas aias, as palavras bonitas que o coração ditou na hora e sem ensaio. E a professora comovida, uma irremissível e púdica lágrima logo disfarçada por dedos cúmplices; a lágrima a teimar, deixem-me escorrer, por que me cortam o caminho. E a professora a recolhê-la mudamente, os dedos falando por si, não, não; as emoções  não podem desaguar ao ralenti, somos os moderadores. E talvez que uma aia maravilhada, embevecida por entrever um coração numa lágrima que quer esconder-se e assim  se faz mais pura, relíquia que se guarda e reluz na memória.

E não foi de deitar fora a hora dos licores: de poejo e bolota. Tinham a ver, somos Alentejo, caramba. O de poejo, esmerado em sabor e álcool, agradou largamente. O de bolota, quase insalubre (como o fruto) e apenas doce. Sem explicação plausível, apesar da disparidade, os licores desceram festivos.

Da torrente de conversas e sugestões, ficou a promessa de repetição  – quiçá na primavera de 2022 –; uma reportagem fotográfica que, salvo a foto de grupo e uma ou outra a pedido, não foi notada senão quando a doce autora no-la fez presente; e a lembrança de era uma vez um almoço, guardada no cofre pessoal e identitário da memória.

Um Bem Haja a todas as participantes.

 Obrigada, Querida Professora.

10 comentários:

  1. No outono da vida (ou fim de verão como eufemisticamente prefiro dizer) as amizades que perduram são significantes e tendem a rarear. Empregos terminados, colegas afastados, ficam os contactos por necessidade e escassos amigos no verdadeiro sentido da palavra, porque os das redes sociais não contam para o rol. Com professores o caso muda de figura para pior; zero, não existem, ou porque a maioria já se finou ou porque os laços terminaram no fim do ano letivo.
    Por isso, o almoço homenagem promovido pelas aias à decana professora merece aplausos e à distância também brindo com esse licor de poejo à vossa confraternização.
    Bom dia Bea.

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    1. Tem toda a razão, Joaquim. O brinde está feito e aceite.
      Bom dia.

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  2. Sendo o texto escrito por uma portuguesa e com ação no Alentejo custou-me perceber a personagem das aias: quem são?
    Abraço amigo.
    Juvenal Nunes

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    1. Pois....como pode depreender-se do obrigada final (julgava eu), as aias são as antigas alunas da professora.

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  3. Estou como o autor do comentário acima, fiquei confusa com as aias.
    Mas de resto, cativou-me ali o licor de bolota, que gosto muito :P

    Beijocas

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    1. ha,ah, ah....então, Cláudia, aquilo é só uma doçura pegada, não sabe a nada. Não posso com o gosto e até o cheiro do poejo por isso...
      Bolota também não aprecio. Acho-as bonitas, isso sim.

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  4. Era uma vez...e serão muitas mais.
    Quando a vontade é grande, tudo se conjuga.
    Bom dia, Bea.

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  5. É pelo menos uma boa vontade. E sim, acredito que haja mais, Magui.
    Bom dia.

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  6. Que momento tão bom e tão festivo, Bea. E bem merecido, de certeza. Que maravilha. E que de sabores alentejanos. Apetece brindar também. Que haja a repetição. Estas coisas são para viver mais vezes.
    Tchim-tchim para o momento e para as participantes do momento.

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  7. Que bonito e enternecedor quadro, este do almoço da princesa e das suas aias. Também brindo a esse reencontro e que se repita muitas vezes.BFS.

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