Tenho
assim noites. Brancas. Longas. Inexplicáveis. Na véspera não bebi café, tentei dormir dentro do horário, não me aborreci mais que noutros dias. Acontece.
Neste anómalo suceder, sobra-me o tempo para as pequenas coisas que me permito: ler, passear pelas janelas adormecidas de blogues que frequento, ver um
filme. Entre as três e as quatro, intervalo para um pequeno-almoço extemporâneo
e demorado, regado a café que me sustente o dia. Regresso ao quarto revigorada
e pronta para continuar as actividades mais silenciosas que conheço, urge que os
outros não me sofram as insónias.
Foi
numa dessas noites que resolvi continuar um filme que tinha começado a ver e me
parecera digno de interesse. Bem sei, transformo filmes em séries, vejo-os fragmentados.
Em boa hora encontrei na Netflix “Munique à beira da guerra”. Prende-nos o
desempenho dos actores, alemães e ingleses, e creio que o filme –
baseado num livro – se desenrola à volta do seu brilho e autenticidade. O medo,
a indecisão, o desconforto que vai no olhar do jovem actor inglês (George
Mackay) é totalmente aproveitado pelo realizador (Christian Schwochow). E este
é apenas um exemplo. Podia esmiuçar de forma idêntica o amigo alemão (Jannis
Niewohner). Sem esquecer Jeremy Irons, que desenha um primeiro ministro soberbo
e, dizem os entendidos, muito semelhante ao próprio Chamberlain himself.
Acredito. Tem o pedigree de actor inglês de gabarito, a fazer lembrar Richard Burton no perfeccionismo do desempenho e
na dicção tão british. Dois Senhores. Uns lordes.
O
mais curioso é que sabemos todos o desfecho daquele acordo assinado em Munique
e o filme consegue manter-nos, do princípio ao fim, em estado de ansiedade.
Porque, dentro do acordo que faz hoje parte da História, há outra história e é
a essa que nos prende, de forma inexorável, a realização.
Aprecio
fitas que, de uma maneira ou outra, salientam a amizade. A pequena grande história, que a História não
conta e talvez só o livro invente, aborda a amizade masculina, menos vezes
retratada que a feminina. E creio que o realizador deu às duas histórias a
dimensão e interpenetração justas. Só não sei, é mesmo verdade que não tenho
resposta para isto, se a proposta que nos deixa sobre a actuação de Chamberlain
é a mais próxima da verdade. Robert Harris, o escritor do livro, é inglês. Será
dele a hipótese? Teria de ler a obra.
Mas, depois deste filme que aconselho, não me apetece o livro.