domingo, 30 de agosto de 2026

Memórias de bolso

 

        Contudo, depois de muito instada, minha mãe afirmou conhecer-lhe os pais, dizia-me que ela fora menina como eu, facto que me custava a engolir, tinha a certeza absoluta de que nunca ela fora uma criança enfezada e perguntadeira, antes pensava nela como uma espécie de capuchinho vermelho, criatura amorável e semelhante à das historinhas que me contavam.

        Perante aquela inesperada ausência, na primeira semana pensei consternada, “está doente”, julgava que as doenças caíam em cima dos mortais com a rapidez do raio, eram um acaso infeliz, agora estou bem, agora já não estou. Contudo, tive de me render à evidência, passado o meio da segunda semana, e após mais de dez dias de ansiedade e desilusão, convenci-me: não voltaria. Então, abri cerrada inquisição dirigida às jovens que bordavam com ela. Ninguém sabia (ninguém me quis dizer?!). 

        Passava mais de um ano quando, a propósito do seu nome, lembrei a inclemência daquela falta nunca explicada. Chateei tanto minha jovem prima que ela, talvez incentivada  pelo intervalo temporal, capitulou desenrolando o segredo: a garota fora proibida pelo pai que era homem de temer, batia na mulher e na filha e não as deixava pôr pé fora de portas: quase ninguém as via, só ele  comprava e dispunha em casa; ora ambas tinham transgredido enquanto ele trabalhava longe e apenas regressava ao fim de semana. E que eu não abrisse o bico. Se o monstro viesse sequer a desconfiar do que sabíamos dele, vingava-se nelas.

            Minha prima sempre pendeu para o trágico pelo que gravou em mim algumas imagens que me violentaram a imaginação e nunca esquecerei, pintava-me quadros bem negros acerca da nossa condição de mulheres e do que me esperava e ela já conhecia, mas, no tocante a Inês, não duvidei: revi o semblante da jovem, bailava-lhe nos olhos a alegria de frequentar a sessão de bordados; reparara ainda que a despedida no fim de semana divergia, era reticente. Se alguém inquiria, vens na Segunda(?), o rosto anuviava e ela era dúbia e entristecida, não lhe vinha o sorriso diário dos "até amanhã". Mas num ápice voltava ao seu ser de alegria comedida e eu assumia tudo por conta de brincadeira comum. Era frequente haver entre elas segredinhos e risos que nos intrigavam - não entendíamos nem víamos razão para tanto secretismo e tomávamos como fazendo parte de serem mais velhas, uma vez que as nossas perguntas ficavam no ar ou apenas provocavam mais risos contidos que nos reduziam à condição de infância ignorante e nos calavam a boca enquanto a mente  remoía. Portanto, mal o segredo me foi desvendado, condoí até às lágrimas e lamentei de alta voz não ter tido conhecimento no tempo certo. Via-a interpôr-se entre pai e mãe e não me impedi de pintar a sua sorte com nódoas negras por todo o lado e muita lágrima de desgosto e dor. Imaginava-lhe os braços tentando proteger-se dos golpes que, quem sabe, se dirigiam à mãe, a principal responsável pelo dislate. A minha experiência de vida não ajudava ao quadro: as crianças frequentavam a rua, a casa servia para refeições, trabalhos de casa e sono nocturno. Uma criança confinada ao lar estaria doente. Pensei no quanto gostaria de acompanhá-la em cativeiro (nunca me veio o pensamento de que a minha presença podia não ser desejada e não ajudar; de resto, que faria ela com a miniatura que eu era?!), mas minha peremptória prima cortou cerce: não saía de casa, nem aceitava visitas; para mais, morava “nos foros de cima”; ora eu desconhecia tal paradeiro.

         Quando expus a questão a minha mãe ela apenas murmurou, “Os homens dessa família têm todos mau feitio; coitadinha da Inês e da mãe”. E senti naquela afirmação uma tristeza funda, como se uma parte de minha mãe lhes pertencesse também; era como se dissesse, "não há maneira de alguém lhes valer". Senti-me embater num impossível que não era a morte. Desconhecia que vivemos rodeados de impossíveis e o caminho se faz a construir possibilidades não infalíveis. Não me lembro do que pensei por haver uma família com gente tão malvada, mas desconhecia-os a todos e, como é natural da mente infantil, fui esquecendo o desgosto e também Inês. Aprendido o ponto-pé-de-flor, tive autorização materna para abandonar os bordados e dediquei-me a interesse que as carrinhas da Gulbenkian propiciavam, bem como à “Fagulha”, revista que uma professora condescendente me dava a ler.

        Ignoramos a imagem legada aos outros, sobretudo aqueles em quem nunca reparamos: porque não são da nossa idade ou porque são, por terem outra condição e outros problemas ou os mesmos, porque cruzamos com inúmeras pessoas todos os dias da nossa vida fremente. Acredito ser nesses outros em que não pensamos, nesses que nos vêem um dia e outro sem que deles demos conta, que podemos deixar imagens mais próximas do eu que somos e, tanta vez, nós mesmos ignoramos. Não sei se me ajudou a viver melhor, mas, ao invés do que parecia, acredito que também Inês é presença na minha vida e me construiu, está dentro de mim como tijolo em parede. Guardo ainda a imagem do bordado a crescer enquanto nos embalava na canção que preferíamos e de que me ficou um pedaço da letra, “conta a lenda que um certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar”. Garota de escola, não sabia o que eram ninfas; e nem precisava saber.

(cont.)

domingo, 23 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Sem que ela o soubesse, havia entre nós um elo secreto. Bastava ouvir-lhe a voz e já pensava em minha mãe, alguma coisa de mavioso e comum lhes passeava pelas cordas vocais. Acertavam-se ainda na inata percentagem de delicadeza e bondade. O rosto da senhora costureira, amarrotado de rugas, tinha o toque de papel de seda. Vestia de negro cerrado (lenço e tudo) desde que a única filha lhe morrera de cancro.

        Conheci a filha antes da mãe. Jovem de beleza delicada, olhos de Audrey Hepburn e mãos de fada (aprendia a bordar), encantava-nos vê-la debruçada sobre o pano, a agulha indo e vindo na sua mão pequena, a outra atida ao bastidor, simétricas na elegância de dedos e unhas ovaladas; ainda sei a forma como cortava as linhas do bordado, usando tesoura pequena de bicos revirados e que eu julguei anómala até ouvir a explicação. E petrificava a mirá-la em vez de tentar o ponto pé-de-flor que me aborrecia de morte e antes admirando o crivo que lhe nascia em cadência segura, num diálogo entrosado entre mão e pano, auxiliados por agulha, linha, tesoura e bastidor; recordo-lhe o rosto inclinado e levemente penumbroso, a ondulação ligeira do cabelo moreno sempre presa do lado esquerdo com um laço de fita. Além da beleza, a garota tinha certo ar seráfico e parecia-me tê-la visto num santinho da caixa de minha mãe; ainda não me existia Audrey Hepburn, que, nesse âmbito, dava dois-zero a Santa Maria Goretti.

        Tudo se concentrou nas sessões de bordado que juntavam várias raparigas e aconteciam durante a tarde; ora as gaiatas da escola, terminadas as aulas, juntavam-se ao grupo e tentavam pontos fáceis no que então se chamava de “Centro Social”. Saindo a porta, eu desatava a correr com o objectivo de a ouvir cantar. Minha mãe raro cantava fora da igreja e voz como a dela, mas cantando pagão, jamais ouvira. Se puxar pela memória não recordo mulheres cantando; tampouco raparigas; lembro-me de rapazes que assobiavam modinhas simples e de alguns homens tocando em gaita de beiços. 

         Para minha mágoa, e contrariando o meu desejo, existiam tardes em que chegava e já o canto terminara. Entristecia. Nos dias em que a sorte se plantava do meu lado, depois de muito instada pelas demais jovens (tímida, a garota), ouvi-la era o cume da perfeição. Sempre debruçada para o trabalho de mãos, levemente ruborizada, siderava-nos o encanto daquela voz abençoada. Envolvidas pela melodia sentíamo-nos elevadas a um mundo melhor, mergulhadas em sonho e mansidão, aspectos a que o nosso quotidiano era estranho. Uma vez li que um ateu se tornou contrito católico depois de entrar casualmente numa igreja e ter visto uma garota rezando. Ora creio que todas as que escutavam tão belo canto sentiam o impulso de um mundo de beleza; a voz de Inês era chave que abria em cada uma de nós portas ignotas, desde sempre presentes. Inês não era bem da minha terra, dizíamos que vinha “dos foros de cima” e não me parece que alguma vez tenhamos “chegado à fala”. Nós éramos a revoada de crianças que, em alarido, invadia a aula de bordados; elas eram raparigas, por vezes imersas em inesperado segredar, sorrindo cúmplices não sabíamos de quê, o que sobremaneira nos irritava um bocadinho – podiam estar a rir de nós. Inês como que pairava acima desse secretismo cúmplice e feminino que lhe invejava a pele de porcelana fina e a figura estilizada que desprendia pureza e fragilidade. Criança desvairada, decerto lhe senti a diferença já que me parecia uma rapariga inventada, aparecera de repente, encantara-nos, e um dia, sem explicação, desapareceu.

(cont.)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Pronto, podem dizer que, no princípio, as telenovelas eram de qualidade superior, que com elas se deu a renovada descoberta do Brasil, que os actores eram soberbos, que os textos bem interpretados criavam o suspense necessário, que a novidade conquista por si mesma, etc. Tudo verdades indesmentíveis, o etecetera incluído. Mas é que me parece que do lado do espectador também houve mudança. Que olhar é o nosso sobre a TV?! Pois é, julgo que reina o futebol e seus conjuntos de andarilhos, entre jogos, comentadores, telejornais longuíssimos que, é claro, também abordam o futebol, mais os canais clubísticos que não vejo nem de raspão, mas é possível adivinhar o assunto. Sou das pessoas menos adequadas para comentar os temas televisivos, cujos, efectivamente, não vejo. Os canais de notícias – onde há telejornais a todo o momento – repetem novidades, entrevistas e vídeos vezes sem conta. E eu que até sofro de alergia a telejornais e ando a leste de quase tudo excepto guerras, fogos, refugiados, futebol e os tristes manda-chuvas do mundo, dou por mim a pensar que já sei coisas demais e que é provável que quem papa as notícias como galinha a milho, não saiba muito mais. Ou sim, mas de pouco serve. É evidente que falo do comum mortal e não de profissionais da notícia. Quase parece que incentivo ao desconhecimento, mas existe – posso enganar-me – excesso de informação sempre a mesma e que não induz à acção. É a banalidade de tudo e não apenas do mal, embora este se revista das mais nefandas consequências. O apelo à carneirada permanece e é bem sucedido

        Em contraponto, lembro uma senhora costureira que conheci e me chamava de menina Bea, deferência que, à época, era a única a utilizar. Conversávamos bastante enquanto me costurava mangas e alinhavava cós de saias. Chegada na minha acelera, ela abria a porta e punha as mãos na cabeça, ai menina Bea que me esqueci que era este sábado e não tenho as suas coisas em prova. Eu nem sempre sorria, mas voltava a montar o meu cavalo a gasóleo (ou seria gasolina?), andava mais uns quilómetros e visitava minha mãe em sua silenciosa morada. À volta, ainda ela ia a meio, mas preferia esperar. E “metíamos conversa” enquanto ela, sentada na cadeira da máquina de costura, dedal no dedo, ia alinhavando bocados de pano uns aos outros e eu escolhia um dos banquinhos baixos das aprendizas. Mulher mais infeliz não conheci. E tinha do mundo e dos outros a melhor opinião. Jamais a ouvi queixar-se de alguém. Para a sua alma cândida todos eram boa gente e em tudo via algo bom. A propósito da televisão que não tinha, calhou uma tarde de sábado dizer-me enquanto os pontos me enformavam a roupa, Olhe menina Bea, eu gosto muito da televisão. Nunca vejo, mas às vezes vou aqui ao lado a casa do meu filho Manuel dar um recado ou saber se está tudo bem com eles e estão a dar anúncios. Que coisa tão bonita! Fico encantada a vê-los, as pessoas falam tão bem e são tão agradáveis, aquilo é mesmo bonito….nunca vi uma telenovela nem um filme, mas deve ser bom ter uma coisa assim em casa e poder uma pessoa sentar-se descansada a olhar para as histórias que contam. Falta-me tempo, a minha nora até me chama para ir ver uma noite de teatro, mas não posso. 

        Tudo lhe saía em voz melodiosa e serena mas o “não posso” ouvi-o tão dolorido e cheio de impossíveis que me comoveu. Talvez ela não o soubesse, mas era-me fácil imaginar a carga que a amarrecava. Difícil era, conhecendo-lhe a vida, compreendermos o brilho interessado do olhar e a genuína alegria da sua alma simples no deslumbre do quotidiano alheio.

(cont.)

domingo, 16 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        No molho desatado de acasos e destino, tenho de convir que me calharam factos memoráveis. Pormenores que arrumei nos desvãos da alma mas nem por isso esqueci. E cada um deles merecia ser contado tal a diacronia que os levou a permanecer. Contudo, se acaso me assaltam a memória, não deixo de compará-los com factores hodiernos; sem a busca de similitudes que talvez sejam causa da lembrança. Ou nada disto. O certo é que me chegam à memória quando deveriam estar como balde e esfregona: arrumados e invisíveis aos olhos (neste caso, da alma). Porém a memória é quem é. E gratia plena por sê-lo.

        Quando, por exigência profissional, eu calcorreava este e aquele lugar, a senhora Z recebeu-me de braços abertos em sua casa; cedeu-me o quarto melhor – o seu - e passou a dormir na sala. E este favor não foi pago nunca, apesar da mensalidade que lhe era devida. Ora esta mulher tinha uma família grande e dois dos filhos e mais os netos coabitavam com o casal. A casa era uma fonte de gente. Era o tempo de a TV ter hora de abertura ao fim da tarde e fecho com a bandeira nacional e hino, já não recordo a que horas uma e o outro. Acontece que, apesar do barulho, a senhora Z considerava a TV como única companhia fiel; acendia-a durante a tarde, horas antes do início da programação. E era vê-la a rodar (ou calcar) o botão, com o ar satisfeito de quem procura a porta de amiga especial. No écran surgia o símbolo RTP rodeado de figuras mais ou menos geométricas que variavam entre a penumbra cinzenta, o branco e o negro. E havia música até começar a emissão. Dava-lhe alento, dizia. Não era uma mulher sorridente, o que denunciava abundância de escolhos que, curiosamente, se desvaneciam na presença da TV. Não que escutasse a música ou pudesse sequer fazê-lo – havia vozes que altercavam, o mais das vezes, aos berros – forma de os irmãos falarem uns com os outros. No meio disto, as crianças choravam ou brigavam por este ou aquele objecto, ela irritava-se aos gritos, decibéis em crescendo, as cortinas que faziam a separação dos quartos, acediam à guerra e, como soi dizer-se no meu lugar de origem, “andavam num badanal”. Ninguém ouvia a TV ou ligava a notícias, a TV era mundo independente, fazia o que queria sem que alguém mudasse canais ou acusasse a heresia de lhe baixar o som, facto que deixava a matriarca fora de si. Era um sufoco. Como se alguém tentasse esganá-la, vociferava, Vocês querem matar-me? Deixem o aparelho, só quem mexe nisso sou eu, ouviram? – e rodava o botão para a posição inicial ou, por pirraça, levantava o som. O gesto era tão enfático que eu esperava o dia em que a peça lhe ficasse na mão, o que nunca sucedeu.

        Chegadas ao cume do possível e perante a voz e comando, as altercações baixavam de tom, um ou outro membro desaparecia atrás da cortina que ficava a oscilar de raiva, e a discussão que já prometia pancada, perdia interesse. Quanto à TV, asseguro: era rainha incontestada, apenas emudecida após o hino nacional e quando o che...che….che….de final de emissão se fazia notar.

        Neste quotidiano sem falhas, fazia-se um intervalo de silêncio para ouvir a telenovela “Gabriela cravo e canela” interpretada pela sensualíssima Sónia Braga que não se poupava a momentos de erotismo caricioso onde o romantismo escondido dos tugas se espanejava surpreso. Ignoro se a telenovela melhorou a vida sexual portuguesa, mas que conseguiu silêncios profundos, conseguiu. Em casa da senhora Z, não foram poucas as brigas entre cunhados, irmãos, primos, avós e etc, que sanaram ao som da música da anunciada telenovela. Eu assistia siderada a esta paisagem humana e mais me parecia uma espécie de fenómeno da anunciação à Virgem – era o templo e o tempo do respeito absoluto.

        Foi no ano em que frequentei o propedêutico, as aulas mediadas pela televisão. É claro que não pedi para assistir a emissão naquela TV de companhia. Comprei um mini televisor que via no quarto com bateria. Zelei pelo bem comum.

(Cont.)


domingo, 9 de agosto de 2026

Cronologia dos Domingos

 

        O domingo nem sempre foi este marasmo aversivo. Na infância, o domingo era o melhor dia; o reverso da medalha veio vindo com os anos, teve fases como a lua, antes de se deter no eterno presente, mesquinho de tão vulgar e anódino. Nada acontece ao domingo.

        Minha mãe preparava o domingo de véspera. Banhava-nos com cuidado todo próprio, um de cada vez, a ternura subjacente à necessidade. Ao domingo dormíamos um pouquinho mais e a mãe desmanchava e refazia-nos as tranças e armava no cucuruto do mais novo/a um caracol que enrolava com o dedo e a ajuda de água e pente. Não tenho memória de ajudá-la e julgo que enquanto ajeitava o almoço ou tratava do asseio pessoal eu devia ler ou fazer trabalhos escolares. Nada sei das manhãs de meu pai e nem recordo uma vez em que tomássemos juntos o pequeno almoço. Aos domingos éramos nós e a mãe que nos enviava na frente para não haver atraso à missa. Mas ela entrava quase a meio e nós, desatentas, virávamo-nos para trás uma vez e outra, vigiando o caminho. Em mim, a função só iniciava se ela estava presente. E tanta vez lhe soube da presença pelo trinado límpido e puro da voz a prolongar os cânticos. Diziam-me os mais velhos que fora uma rapariga alegre, a quem as camaradas pediam que cantasse enquanto trabalhavam os campos. Ignoro se meu pai lhe gostaria da voz e apenas uma vez a ouvi cantar em casa. Depois, havia outro motivo para gostar de domingos, o almoço era sempre um pouco diferente, o que agradava a todos, meu pai já ressuscitado de onde quer que estivesse. Algumas tardes visitávamos com a mãe os avós maternos e era para nós uma alegria fazer três quilómetros a pé, minha mãe carregando sempre o mais novo/a. Passávamos por um pinhal para encurtar caminho e esse trecho era o mais apetecido. Além dos pinheiros penumbrosos que me lembravam os contos que lhe ouvia, onde aconteciam coisas extraordinárias em que eu acreditava piamente ainda que minha mãe fosse avisando que era só história que alguém inventara,  havia flores silvestres de beleza frágil e colorida e muita bicharada que me levava a saltos e gritos palermas: ele eram porcos espinho lentíssimos atravessando o caminho, cobras que resmalhavam soturnas a centímetros das minhas pernas, lagartos inertes na soalheira, guardando no sangue frio o calor que lhes faltava e que fugiam a sete pés mal nos pressentiam, eu saltando para trás que nem gazela assustada e a palavra mágica num berro, "Mãããeeee!"; ela sorrindo, "tonta! Eles fogem com medo de ti, andas aos saltos por todo o lado". Mas esta verdade não satisfazia os tremeliques das pernas nem o baque do meu coração amedrontado. Uma vez ou outra cruzava-nos um homem que nos saudava pedalando pela mesma vereda e fugindo às areias imensas da estrada de carroças que no inverno era uma poça só e de que nos desviávamos em cuidados de não escorregar, minha mãe dando-nos a mão à vez, a fim de a água não nos empapar o calçado.

        A adolescência, mais tumultuosa, desmanchou-me o ritmo inicial dos domingos e iniciou-me em correrias múltiplas. Contudo, tentei imitar minha mãe na sequência das funções. Às tardes visitávamos meu avô uma vez ou outra. Quando me entrou a juventude fiz os meus domingos e ainda os desejava apesar do trabalho que me exigiam a fim de aplanar a semana que não seria fácil sem eles. Abençoava-os, mas terá sido por aí o primeiro desencanto, ainda leve, um tamanho de futuro sem fim à vista.

        O casamento e os filhos, por sua própria natureza e não apenas, foram tragando a alegria dos domingos. E quando dei por tal, o domingo era o dia da semana de que menos gostava e aquele em que mais me cansava. Sem saídas e com bastante trabalho a pesar-me, comecei a abominá-lo. Ao invés da maioria, amava a segunda-feira, desejava o emprego e as horas que nele gastava. Dava-me prazer, relaxava-me falar com os colegas, ou apenas encontrá-los e observá-los na lufa-lufa quotidiana. Exceptuando os últimos anos, a profissão animava-me grandemente.

        Continuo a abominar os domingos embora já não me deixem extenuada. São dias calmos e isolados, mais isolados que os restantes. Mas vejo filmes, leio livros, tenho o tempo que faltou sempre a minha mãe. Devo ser uma sortuda, mas é que não dou por isso. Pobre e mal agradecida:)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Um Mar de Sargaços

 

        Na minha aldeia que não chega a sê-lo - é um lugar -, segmento balizado na beira da Nacional por duas placas, existem algumas singularidades das que caracterizam lugarejos breves e tão sem importância que nem constam dos mapas. Teve um nome antigo que poucos conhecem: era feminino e aludia à natureza do solo - inda hoje não consigo entender se aquela designação da Nacional, que lhe assinala princípio e fim, é masculina ou feminina. Quem a terá inventado?! Preferia esse nome que lhe delatava a natureza do solo e tinha género. O actual, definitivo e andrógino, pende para o masculino.

        Pois neste lugar de abundante pobreza, tudo foi difícil; não chegava a electricidade e a água vinha dos poços e era emprestada ou vendida a terceiros – nem todos tinham a benesse de poço próprio e a situação mais comum era a da partilha, o poço era aberto pelo esforço dos homens interessados em ter água sua e situava-se no limite dos terrenos, metade para cá metade para lá. Que me lembre, a partilha da água era pacífica. É verdade que abundavam brigas de taberna e sovas nas mulheres com maridos de mau vinho ou pior carácter. Em compensação, muito ali aportava e havia indulgência geral para casos escabrosos: homens com duas e três mulheres, todos cohabitando a mesma casa em preclara harmonia, sem gritos ou ciúme que se notasse; irmãos que viviam maritalmente como coisa natural; gigantes descalços e brutos de feição, com alma de infância que as crianças não reconheciam fugindo deles a sete pés; mulheres asseadas e trabalhadoras, cheias de filhos, cada um de seu pai, mas que conservavam o marido primeiro que todos conheciam por "corno manso", um senhor bem apessoado que não trabalhava ao campo, usava gravata e fora adoptado pelos autóctones; amantes de só de noite e muito sui géneris por serem ambos livres e muito se esconderem com pontinhas de rabo à vista; senhores importantes que ali depunham as suas meninas que os nativos mal tinham ensejo de espreitar porque viviam na clausura de  casas-castelo, uma formosura de sebe-soldado a defendê-las. Tinham estatuto e modo de vida acima da populaça, não se misturavam e saíam de automóvel apenas com os protectores. Eram supremamente admiradas pela condição de saberem prender a si gente graúda.Os filhos dessas relações frequentavam a escola de todos e eram admirados por qualquer: vestiam bem, comiam lanches invejados até ao anátema do sonho, usavam material escolar diferente e muito mais bonito e tinham todo ar citadino que nos faltava. Enfastiados, bebiam sumos de laranja em frasco,  que levávamos ao limite da inveja.

        É evidente que, como em lugares semelhantes, havia e inda há algum vocabulário próprio e de uso corrente a acompanhar costumes e hábitos: Limitamos o termo “aventar” a “deitar fora”; não se diz “vou a casa de”... mas: “vou à da/do”; e dizemos, “estou desasada” querendo referir-nos a um cansaço extremo provocado por trabalho extenuante. 

    Também eu, se partes, quando partes, fico “desasada” no sentido mais estrito e não usado por cá: levas contigo as minhas asas, fico na terra, focinho rente ao chão, olhos de cão mal morto. Contudo, o amor tem de ser leve ao outro, não posso e nem quero deixar-te perceber o peso da tua ausência. Podia utilizar termo mais bonito, mas somos de onde somos, "desasada" é a a forma que me pertence. E que a vida te não pese e sejas feliz.

domingo, 2 de agosto de 2026

O Copo Meio Cheio

 

        Hoje prometo festejar-te. Vieste. Por mim. Não interessa que seja um dia de trabalho e tenhas reuniões umas atrás das outras. Por mim te levantas cedo e almoças em minutos. Sei que esses minutos de descanso existem por um motivo: ganhares tempo ao fim do dia. E prometo dar-te do que preferes: vou cuidar que o vinho esteja bem gelado e o petisco saia a preceito.

        Prometo não lanchar de avental e usar um vestido que achas bonito. Prometo que chego a beber um nadinha de vinho que adultero para um brinde enquanto tu, em ritual de desaprovação, franzes o rosto sorridente.

        Mais tarde, prometo uns doces e uma sangria de champanhe para as tias e não te forçar a estar presente. E prometo o que nem é de prometer: gostar sempre de ti e ser grata à vida e ao Deus que te trouxe até mim. Porque és um dos meus doces enlevos, filho. Ter-te hoje por perto, significa.