A voz é única e acompanha-nos desde os primeiros vagidos. Nossa, é sempre mais dos outros - que não a ouvem como nós mesmos. Sendo factor identitário, ela basta para sermos reconhecidos. Falamos e cantamos, zangamo-nos e a ira pode fazê-la subir e cortar mais que adaga, mas também sabemos ciciar terna ou apaixonadamente. Expressa-nos.
Nascemos sem as palavras, signos que vamos aprendendo na relação com os outros. Podemos ser mais ou menos teatrais e eloquentes na expressão de emoções e dos incontáveis sentidos e inflexões que as percorrem. Porém, não existe melhor veículo para o pensamento se dirigir ao outro, a voz permite a relação interpessoal. Pois é, a escrita também estabelece relações entre os homens, aí estão os milhões de livros a prová-lo. Mas o pensamento escrito permite e vive de ambiguidades, salvo os livros técnicos e de aprendizagem, todos os outros usam as palavras para suportarem sonhos e situações imaginárias a que o leitor dá a sua quota parte nunca sabendo exactamente o pretendido pelo autor, já que não pode perguntar-lhe. A "viva voz" desfaz equívocos, se assim o desejarem os falantes.
Pensar que só a técnica nos fez ouvir a forma como soamos aos outros! E que durante muitos séculos os homens nasceram e morreram ignorando o som da própria voz no exterior. Basta ver a estranheza do próprio falante ouvindo-se, “esta voz é a minha?!”. O diapasão que é o corpo, impõe-lhe tonalidade secreta e só por cada um conhecida; avaliando por mim, julgo-a mais atractiva.
Perante o discurso do outro pensamos, “como cantará?”. Mas só o saberemos se ele, por acaso ou decisão, o faça na nossa presença. Há vozes insinuantes mas extremamente desafinadas, vozes que alinham sem dificuldade no canto e se tornam nele o que não adivinhávamos em conversa. A voz, sobretudo se cantada, é mistério que se desvela. Um deleite ou uma desilusão. Sendo cristalino deleite, não acaba de se desvelar, é sempre descoberta e embalo sob o qual correm horas subterrâneas.
É esse estar fora do tempo que nos cala enquanto a maestrina ensaia – sobra-nos a atenção de ouvir aquela pureza de cristal tinindo, ora nos sopranos, ora nos contraltos; aqui nos tenores, ali nos graves. Eu supunha ir cantar por gosto e afinal o encanto é ouvi-la e absorver a vibração daquele entusiasmo jovem e contagiante. Digan lo que digan, a juventude reluz no mundo e, neste Outono amplamente esquizóide, apetece como um fruto. Talvez seja termo quase pessoano, veio-me à memória "apetece como um barco tem qualquer coisa de gomo", poema tão bonito e que já quase tinha esquecido.