O tempo correu e, por razões de trabalho e estudo, rareei na costureira, o guarda roupa limitado a calças de ganga e compridas blusas em tricot, a grossura do fio dependendo das estações. No verão, dava-me ao luxo de mandar fazer umas blusinhas airosas e frescas. Foi num desses dias encalmados que, enquanto me sorria e dava passagem, logo nos cumprimentos, deixou cair uma lágrima solitária que ficou a escorrer-lhe rugas abaixo. E de imediato, a menina desculpe, mas é que desde que morreu a minha filha estou assim, choro por tudo e nada; e agora gostei de a ver, e olhe, lembrei-me dela, sei lá, parecia-me ela ao postigo da porta…. e, num gesto rápido, como que arrependida da fraqueza, puxou da brancura de um lenço com barrinha preta e enxugou o rosto. O que nos faz a saudade! Nunca fui parecida com Inês, mas saiu-me espontâneo, Eu conheci a sua Inês. E ela numa admiração, de onde? Pois se ela quase não saía de casa… - e toda se suspendeu na expectativa de alguém que, não sendo da vizinhança, lhe conhecera a filha. Ela andava no Centro Social com a prima, aprendiam a bordar crivo e eu era garota de escola e ia aprender ponto-pé-de-flor. – esclareci. Sorriu, o que ela gostava de lá andar! Entrava em casa, mãezinha se visse a professora, sabe tantos pontos como não imagina; e contava de tudo: o que ali diziam e quem eram as outras raparigas, onde moravam. Mas foi só uma semana, o tempo que o pai esteve fora em trabalho.
E fizemos de conta que não sabíamos o que acontecera depois. Mas eu insisti, cantava tão bem a sua Inês! Minha mãe também cantava bem, mas a Inês cantava ainda melhor; todos os dias lhe pedíamos que cantasse alguma coisa. A senhora deu-me um sorriso grato os olhos brilhando lágrimas, é verdade, cantava muito bem. – puxou de novo o lencinho e enxugou os olhos – As meninas da costura faziam o mesmo. Olhe, até o namorado lhe pedia que cantasse para ele. O namorado de que eu não soubera. Quando lho disse ela esclareceu, era aqui quase vizinho, muito bom rapaz que ele é, estavam bem um para o outro – e ficou-se a meditar. - Quando a minha Inês adoeceu já eram noivos de casamento marcado - e eu tonta, a partilhar da sua comoção. Refez-se um pouco e continuou, a voz a faltar-lhe de quando em vez - A minha Inês já tinha até escolhido o vestido e o véu no Tito Cunha; dizia-me, mãezinha vimos as duas comprá-lo que já juntámos dinheiro para ele….- fez uma pausa muito longa e quando conseguiu, acrescentou, - eu é que fui comprá-lo, a menina nem sabe o que me custou entrar naquela loja sozinha, para comprar o vestido de noiva de que ela gostava. A minha filha estava a morrer mas queria vestir o vestido viva - mais uma pausa de lágrimas – Eu e as enfermeiras, aquele pessoal todo do hospital que a conhecia, ajudou e esteve presente na cerimónia. O noivo levou-lhe o ramo e foi assim que casaram. Estava magrita e pálida, mas ainda assim tão bonita, a minha filha. Mas fizemos-lhe a vontade, não queria morrer solteira, queria ter o nome dele no dela, já que mais não podiam.
E eu que podia fazer perante isto? Face ao dito e ao subentendido?! Nada senão esperar que o desgosto voltasse ao silêncio de hábito, se remetesse ao recôndito de mãe tão profundamente sofrida. Quando já guardava o lenço no bolso, rematou, a menina não é daqui, não sabe estas coisas, mas olhe, o rapaz tanto a visitou no cemitério que acabou casado com uma rapariga que, no mesmo dia, perdeu o namorado num acidente e ali o visitava também. Gosto dele como de um filho e ela andou aqui na costura muitos anos - encolheu os ombros conformados -, a vida tem sempre de continuar.
Muitos anos mais tarde, já ela, felizmente, viúva, quase nos tornámos vizinhas. Reencontrámo-nos na retrosaria. Toda ela em negro, era uma velhinha tão amável e sorridente como não se imagina. E detinha a mesma voz maviosa. Conheceu-me, convidou-me para sua casa, contou-me dos filhos vivos, dos netos, de todos serem excepcionalmente bons e atentos com ela. Convidou-me para um chá. Hoje, de certeza, repousa junto da filha. O genro que foi no papel, criou parcialmente dois filhos e finou-se com a mesma doença de Inês. Como usava dizer a senhora X, a vida tem sempre de continuar, é requisito da espécie - digo eu.