Contudo, depois de muito instada, minha mãe afirmou conhecer-lhe os pais, dizia-me que ela fora menina como eu, facto que me custava a engolir, tinha a certeza absoluta de que nunca ela fora uma criança enfezada e perguntadeira, antes pensava nela como uma espécie de capuchinho vermelho, criatura amorável e semelhante à das historinhas que me contavam.
Perante aquela inesperada ausência, na primeira semana pensei consternada, “está doente”, julgava que as doenças caíam em cima dos mortais com a rapidez do raio, eram um acaso infeliz, agora estou bem, agora já não estou. Contudo, tive de me render à evidência, passado o meio da segunda semana, e após mais de dez dias de ansiedade e desilusão, convenci-me: não voltaria. Então, abri cerrada inquisição dirigida às jovens que bordavam com ela. Ninguém sabia (ninguém me quis dizer?!).
Passava mais de um ano quando, a propósito do seu nome, lembrei a inclemência daquela falta nunca explicada. Chateei tanto minha jovem prima que ela, talvez incentivada pelo intervalo temporal, capitulou desenrolando o segredo: a garota fora proibida pelo pai que era homem de temer, batia na mulher e na filha e não as deixava pôr pé fora de portas: quase ninguém as via, só ele comprava e dispunha em casa; ora ambas tinham transgredido enquanto ele trabalhava longe e apenas regressava ao fim de semana. E que eu não abrisse o bico. Se o monstro viesse sequer a desconfiar do que sabíamos dele, vingava-se nelas.
Minha prima sempre pendeu para o trágico pelo que gravou em mim algumas imagens que me violentaram a imaginação e nunca esquecerei, pintava-me quadros bem negros acerca da nossa condição de mulheres e do que me esperava e ela já conhecia, mas, no tocante a Inês, não duvidei: revi o semblante da jovem, bailava-lhe nos olhos a alegria de frequentar a sessão de bordados; reparara ainda que a despedida no fim de semana divergia, era reticente. Se alguém inquiria, vens na Segunda(?), o rosto anuviava e ela era dúbia e entristecida, não lhe vinha o sorriso diário dos "até amanhã". Mas num ápice voltava ao seu ser de alegria comedida e eu assumia tudo por conta de brincadeira comum. Era frequente haver entre elas segredinhos e risos que nos intrigavam - não entendíamos nem víamos razão para tanto secretismo e tomávamos como fazendo parte de serem mais velhas, uma vez que as nossas perguntas ficavam no ar ou apenas provocavam mais risos contidos que nos reduziam à condição de infância ignorante e nos calavam a boca enquanto a mente remoía. Portanto, mal o segredo me foi desvendado, condoí até às lágrimas e lamentei de alta voz não ter tido conhecimento no tempo certo. Via-a interpôr-se entre pai e mãe e não me impedi de pintar a sua sorte com nódoas negras por todo o lado e muita lágrima de desgosto e dor. Imaginava-lhe os braços tentando proteger-se dos golpes que, quem sabe, se dirigiam à mãe, a principal responsável pelo dislate. A minha experiência de vida não ajudava ao quadro: as crianças frequentavam a rua, a casa servia para refeições, trabalhos de casa e sono nocturno. Uma criança confinada ao lar estaria doente. Pensei no quanto gostaria de acompanhá-la em cativeiro (nunca me veio o pensamento de que a minha presença podia não ser desejada e não ajudar; de resto, que faria ela com a miniatura que eu era?!), mas minha peremptória prima cortou cerce: não saía de casa, nem aceitava visitas; para mais, morava “nos foros de cima”; ora eu desconhecia tal paradeiro.
Quando expus a questão a minha mãe ela apenas murmurou, “Os homens dessa família têm todos mau feitio; coitadinha da Inês e da mãe”. E senti naquela afirmação uma tristeza funda, como se uma parte de minha mãe lhes pertencesse também; era como se dissesse, "não há maneira de alguém lhes valer". Senti-me embater num impossível que não era a morte. Desconhecia que vivemos rodeados de impossíveis e o caminho se faz a construir possibilidades não infalíveis. Não me lembro do que pensei por haver uma família com gente tão malvada, mas desconhecia-os a todos e, como é natural da mente infantil, fui esquecendo o desgosto e também Inês. Aprendido o ponto-pé-de-flor, tive autorização materna para abandonar os bordados e dediquei-me a interesse que as carrinhas da Gulbenkian propiciavam, bem como à “Fagulha”, revista que uma professora condescendente me dava a ler.
Ignoramos a imagem legada aos outros, sobretudo aqueles em quem nunca reparamos: porque não são da nossa idade ou porque são, por terem outra condição e outros problemas ou os mesmos, porque cruzamos com inúmeras pessoas todos os dias da nossa vida fremente. Acredito ser nesses outros em que não pensamos, nesses que nos vêem um dia e outro sem que deles demos conta, que podemos deixar imagens mais próximas do eu que somos e, tanta vez, nós mesmos ignoramos. Não sei se me ajudou a viver melhor, mas, ao invés do que parecia, acredito que também Inês é presença na minha vida e me construiu, está dentro de mim como tijolo em parede. Guardo ainda a imagem do bordado a crescer enquanto nos embalava na canção que preferíamos e de que me ficou um pedaço da letra, “conta a lenda que um certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar”. Garota de escola, não sabia o que eram ninfas; e nem precisava saber.
(cont.)