quarta-feira, 22 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

         E logo uma viagem embebida em saudade na linha de Cascais a que chamo linha do Estoril e, no presente, só acontece por ter de ser, em nome de uma amizade outra e antiga. Entro no comboio com a sensação de que maculo o passado. Sei que a sacralidade se evolou: não sinto a ansiedade antiga que me precipitava o coração mal punha o pé na gare do Cais do Sodré e me deixava embasbacada no destino, olhos parvos virados ao mar, pensando que ela o via todos os dias lá de cima e que, porventura, uma vez ou outra, frequentasse o comboio. É assim o amor, quer pisar onde pisam os pés de quem gostamos, ter o gosto de olhar o que vêem os olhos do outro, imaginando o que sentiu ou sente quando abre a janela ou apenas corre a mão de habitual delicadeza no étamine simples que conheci nas janelas e tão adequado ao despojamento próprio. Quanto eu gostei e gosto dessa filha do Douro e de Poiares da Régua que como tantos dedicaram a vida ao vinho do Porto que inda provei por bondade sua. Depois saía do impasse comovido e começava a subir até ao destino. Na escadaria até à porta principal, o meu coração entontecido transbordava. Tocava a campainha, entrava e aguardava na sala de visitas o suave roçagar da roupa, já que os passos eram silentes. Ela entrava e trazia consigo o odor a lavanda. Em sua homenagem (alguns lhe ofereci), mora no meu quarto um Ach Brito que gosto de aspirar. É um bocadinho da minha força diária.

        Desta vez, rodeada por bandos de garotos destinados à praia e turistas que rumavam a Cascais e Belém, toda eu era olhares ao relógio do telemóvel. Não sei porquê, mas deparar com o forte onde permaneceram os presos políticos e admirar os longes do Bugio, emociona-me. Nada na beleza daquele mar me afecta tanto como a imensa solidão do farol e mais as histórias que deve guardar, ou a prisão onde vi a firmeza delicada de Sophia segurando uma flor, enquanto nascia a liberdade dos presos políticos nesse imortal Abril de setenta e quatro. Vou contando as estações e, por fim, saio, subo até à paragem de novo autocarro e entro grata à boa vontade do motorista que já partia.

        À medida que nos afastamos, surgem moradias desarrumadas e rotundas novas e espaçosas. De quando em vez, um aglomerado de casas antigas, ruas estreitas, velhos amarelentos nas portas de café, o ar pesado de barbas por fazer e mulheres guardadas não sei onde, a contrastar com o panorama do primeiro autocarro, turistas leves e felizes embora um pouco desorientados na balbúrdia, a patine de Lisboa antiga percorrida por solta garridice juvenil em roupas claras ou alegremente coloridas, pernas e braços ao léu, chapéus e bonés a salvar alguns turistas pouco habituados ao calor do sul europeu. Uma chusma de automóveis estacionados causa os malabarismos do trânsito e, de onde em onde, na vez das rotundas desafogadas, um edifício com pergaminhos e história, imagino que lar possível de grandes senhores de antanho. No subúrbio, os ossos do autocarro chocalham a amargura sofrida em anos e anos de trabalho e maus tratos. É outro país. Passei Tires e, por mais olhares, não descortinei a prisão. Enfim, chego e cumpro a visita que me propus.

        O tempo corre a maratona quando conversamos com quem vive intramuros e tudo pergunta do mundo conhecido. Saio para o transporte, mas a tecnologia barra-me a saída. Corro abaixo e acima a queixar-me que estou presa e que e que… a porteira, velha e coxa, acompanha-me de comando na mão a resmungar, “mas eles vieram arranjar o portão hoje mesmo”; e vai descendo e carregando no botão do comando. A meio do percurso, o portão começa a deslocar-se e corro desentraitada até à paragem gritando obrigados enquanto atravesso a estrada. E o autocarro já lá, no seu posto. A bondade dos dois motoristas de autocarro é directamente proporcional à velhice e achaques dos mesmos. São dois bons homens guiando viaturas em mau estado. Também este motorista esperou por mim. Se não fora a simpatia de ambos teria perdido o comboio para casa.

        No regresso, continuamos a chocalhar. Quão diversos são estes passageiros. Quase todos negros. Verifico a presença de gente nova, sobretudo raparigas. São lindas, quase todas de cabelo natural e apanhado (o dia está quente) aqueles olhos grandes e negros com a expressão que me parece sempre a do bambi dos desenhos animados: têm qualquer coisa de líquido, digo que relampejam ternura dos trópicos. Estas garotas não são alegres e barulhentas como os garotos da praia, mas terão a mesma idade. Todas vestem calça de ganga azul clara ou branca, cintura alta de vespa (vespíssima, diria Pessoa), esguias de não destoar de qualquer modelo de passerelle. Seguem sérias e sem conversa. Não parecem ir de passeio. Talvez se destinem ao turno das dezasseis à meia noite. Ali, toda a gente parece ganhar o pão com a força dos braços e não em trabalhos “limpos” como diziam os mais antigos que eu. Talvez sirvam à mesa, sejam cozinheiras e ajudantes de cozinha, façam o serviço doméstico em algumas casas, vão buscar os meninos de boas famílias à escola.

        Sentadas defronte, duas loiras postiças falam de unhas de gel, uma delas mostra as mãos acabadas de retocar, talvez para convencer a parceira que tem o verniz em decadência, duas ou três unhas descascadas por inteiro. Saem ambas de braço dado, facto tão bonito quanto em desuso. Vi-as dobrar uma esquina, decerto em busca de destino comum.

        No comboio de regresso, a viagem de pé fazia-nos olhar (e invejar) quem vinha da praia e conseguira sentar-se. Os sentados dormiam a sono solto, pendendo a um lado e a outro, eu temendo pela cabecita suada da criança que tombava dos braços da mãe, ela mesma em crise de sonolência. O poder do ar condicionado, perante a multidão invasora e estoirando de calor, era nulo. E nós de estátua, à mistura com cadeiras de praia, chapéus de sol, colchões enrolados e esteiras, crianças quase submersas mas ainda assim agarradas a sacos de baldes e pá, mochilas de campismo, canas de pesca e sei lá que mais. Enfim, um mar de gente e de artigos de praia e mar que não nos davam espaço para cair e que, com grande esforço e muito empurrão simultâneo ao consciencioso, “com licença, com licença, é para sair, com licença”, se apertava a dar passagem aos felizes contemplados.

        Promessa: não repetir a viagem em tal horário.

domingo, 19 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

        Ir a Lisboa faz-me bem à alma. Desencrava-me, vejo gente, entro em lojas, corro de um lado a outro porque tenho poucas horas para muita função. E apesar disso, gosto.

        Viajando de carro, vou pensando pelo caminho no que esqueço em outras horas. O quotidiano encarreira para o comezinho, espapaça-nos o tempo em mesquinhices tão necessárias como “aborrecentes”, para citar uma das filhas de Lobo Antunes na sua contundente linguagem de infância. Portanto, em viagem ganho espaço mental: penso nos meus amigos, no quanto os gosto e no desejo de visitá-los; e penso nesses que nunca vejo e de quem tenho inexplicáveis saudades, quem sabe me esqueceram e nem merecem o pensamento; nesta pausa, erguem-se as coisas que gostaria de fazer e sei impossíveis, as que ainda posso fazer acontecer, etc. 

        Se vou de comboio - acontece menos vezes mas prefiro, leio um livro ou medito levemente na companhia -,  escolho sempre um dos dois bancos virados um ao outro e com mesa a meio. Não que precise da mesa, apenas fico de frente para duas pessoas e com outra ao lado. As “pessoas de idade” têm a vantagem de não serem notadas e poderem observar, facto hoje muito facilitado pelo uso de tablets e telemóveis. Os meus vizinhos estão mergulhados na sua pequena bolha. É raríssimo encontrar alguém com quem se possa entabular uma conversa, mas é vulgar ouvir as conversas mais ou menos longas dos meus vizinhos de viagem ao telemóvel – será porque aproveitam o tempo e súbita lhes surge a necessidade de ouvir uma certa voz (invejo-os). Quando os lugares não eram marcados, entrava atrelada a uma colega ou alguém conhecido e conversávamos a viagem toda. Hoje, viajar de comboio assemelha-se ao ovo Kinder, traz uma surpresa. Não acho mau. Gosto de surpresas (boas).

    Numa destas visitas, e já na capital, meti-me num autocarro julgando-o a via de maior prontidão. Grande lorpa! O transporte devia estar em início de viagem e deu voltas e mais voltas (apesar do google maps me dar o percurso, o autocarro chegou e atirei-me lá para dentro sem consulta prévia, olhei apenas ao destino). E só não apreciei mais a paisagem por ter hora marcada no dito destino e ver os minutos “correndo correndo sem nunca parar/caminho do rio em busca do mar” (parafraseando versos de um livro de leitura da antiga primária, acerca da água; creio). Mesmo dentro da pressa, deu para ver edifícios que devem ser soberbos, alguns dos quais não faço ideia do que sejam porque não consegui ler as inscrições que ladeavam a porta principal; mas passei por um miradouro cheio de gente e de onde Lisboa aparecia linda, vestida de telhados e folhos de brancura bordada a gosto, mais aqui e mais ali; Entrevi a entrada do Jardim Botânico e ignoro se sabia da sua existência; reparei num polo universitário mesmo ao lado e de que não fazia ideia; o Príncipe Real que nem sabia onde ficava (ainda não devo saber) e estava muito cheio de gente nova e acalorada; alguns edifícios retocados e luzindo a sua época - ignoro se apenas no exterior; outros quase em queda livre, facto que me penalizou em extremo. E os semáforos apostados no vermelho e que, se por um lado me permitiam tempo extra para os olhos, por outro, atrasavam-me ainda mais.

      (cont.)

domingo, 12 de julho de 2026

Pirilampos na Noite Escura

 

        Apazigua-nos, é dever cumprido deslocarmo-nos a lugares onde alguém discorre sobre gente das letras que admiramos. Vale em dobro se se evolou a presença física do homenageado e só na obra está presente. Que ao leitor apenas a obra interessa; a relação entre ele e o escritor é o livro. Segui a regra: vivi uma relação feliz com Lobo Antunes por mais de quarenta anos; guardo de todas as obras a boa lembrança de encontrar alguém que entende a dor, que sabe da amálgama de que somos feitos e a entende sem julgar. Guardo alguns episódios comuns que ele esqueceu e em mim foram importantes: o que marca o leitor, não tem de deixar vinco no escritor - no leitor a relação é de um para um; no escritor de um para inúmeros. Portanto, compareci numa das sessões de poesia a que José Anjos preside anualmente no Âmbito Cultural do El Corte Inglês. Receava não poder comparecer, a selecção da assistência, cada vez mais apertada, impediu-me a frequência de várias conferências e cursos no presente ano. Quis a boa sorte que, ora, estivesse presente.

        Durante a sessão ouvi ler crónicas que conheço e tenho em casa; versos de fados; poemas breves e mais longos, alguns com a verve satírica que lhe vivia na mente; entrevistas sérias e contundentes ou quase em carne viva. A meu lado uma jovem senhora bebia tudo de enfiada, o corpo inclinado para a frente; não me olhou uma única vez, não contemplou a ampla assistência; mãos no colo apertando uma malinha jovem, esguia, cabelo liso, fino e castanho a bater nos ombros, tez pálida, boca pequena e delgada que se não descerrou. Uma Nossa Senhora dos tempos modernos. Seria uma leitora voraz do autor, tanto parecia beber as palavras que escreveu. Desejei que não lhe esteja a fazer falta vê-lo, ou que apenas queira vê-lo ali, no que escreveu. Mais que ouvir o conhecido, foi ela a comover-me. Contudo, não foi sentimento geral. Quando algum público se compenetrou do “em que consistia a homenagem”, foi saindo. Há factos que me fogem ao entendimento. O que esperavam?! Uma reencarnação? Os irmãos que restam e nem sei quem sejam? A mulher se a tinha? Pelos vistos não lhes bastava a apresentação que foi fiel ao próprio Lobo Antunes “ a melhor biografia de um escritor são os seus livros”.

        E lembrei-te no confinamento a que te obrigou a doença, a cama de onde saíste para a morte, uma visita ou duas por semana. E isto durante mais de cinco anos. Vizinhas que nunca te visitaram e lá estavam no funeral, amigos impressionáveis que não puseram pé em tua casa, querendo ignorar a alegria que sentias quando e se o fizessem; família que ia ver-te uma vez no ano ou nem sequer isso, primas que nunca pisaram o teu chão. Parentes que vieram para assistir ao transporte do teu corpo sem vida. Vieram a quê?! Talvez a seres filha única e herdada. Não escreveste nada, apenas viveste. Não casaste. Não tiveste filhos. Escolheste por tutor um amigo de infância.

        É isto a vida. Também.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Requiem

 

        Pouco sabia de ti antes da doença. Foi o teu olhar meio perdido que me fez aproximar. Pedi o teu número, liguei. Aceitaste um chá. Encontrámo-nos algumas vezes. E depois sumiste. Não insisti, era a tua vida, tinhas os teus amigos de sempre. Passou talvez um ano e alguém me falou de ti, que entraras num processo de consulta atrás de consulta sem diagnóstico preciso. Ainda assim limitei-me a alguns sms a que respondias sem outra proximidade. Enviei-te um sms de Natal e respondeste com o nome da doença -PSP, filhos e sobrinhos (dois foram teus alunos) rapidamente procuraram na net, todos desconhecíamos o que fosse. Visitei-te no pós Natal e passei a fazê-lo semanalmente. Assisti às perdas de equilíbrio, às quedas, ao partir de alguns ossos, às nódoas negras. Mas nesse tempo ainda te deslocavas pela casa. Breve passaste ao andarilho e logo acamaste numa dificuldade progressiva de tudo, que desembocou na incapacidade: deixaste o telemóvel, a escrita, a leitura, a TV; tudo se foi tornando impossível: falar, deglutir, mexeres-te na cama sem cair. E sempre consciente da degradação. Tiveste uma cuidadora ímpar e com a força suficiente para te carregar em peso quando necessário. No último ano, a degradação era tão forte que as visitas me faziam sofrer antecipada e posteriormente. Por vezes adiava um dia ou dois, atardava-me cobardemente juntando coragem para ser bem disposta e te fazer rir; no íntimo, sabia que ia ver-te pior, em cada semana perdias alguma capacidade. Na passada semana desejei que morresses, te libertasses dessa amarra que te tolhia dos pés à cabeça. Tempos houve em que o suicídio te parecia a melhor solução, discutimos muito tema, esse foi um deles. Mas nada podias, perderas toda a autonomia. 

        Morreste por erro médico. Diz o ditado que Deus escreve direito por linhas tortas: foi o momento da libertação. Voaste.

sábado, 4 de julho de 2026

A Leveza da Vida

 

        Cheguei de férias e pensei postar sobre esse tempo que é inteiro lazer. Esqueço a casa e suas represálias, o portátil faz retiro espiritual e o tlm cinge-se ao uso mínimo, que é como quem diz, só para filhos. Saiu um post diferente. Parece-me que o motivo é má consciência – tanta guerra inútil, mas que mata, derruba casas, destrói vidas e haveres. Tanto mal reunido na mente dos homens com poder, esses que deviam ser exemplo; e a voracidade do fogo a ajudar, comendo hectares de vida. Dói abrir a TV e assistir a tanta chama enraivecida, verificar ao minuto a violência progressiva desta máquina de destruição natural durante estes dias de sobreaquecimento. Portanto, não apetece contar de quartos limpos, varandas arejadas e viradas ao verde bem tratado onde quase ninguém passa e eu em leitura remansosa com paisagem ao fundo; e quase me envergonha descansar os olhos na horta cuidada e prolífica, antecipando o mar e uma praia em tudo semelhantes ao que considero minha pertença não exclusiva, excepto na tepidez da água que nos abraça íntima, gesto que repetimos a gosto.

        É verdade que não existem cardos do mar azulando pelas dunas, nem aquelas espantosas flores brancas que parecem açucenas e me sideram em cada vez que as contemplo enraizadas na areia, digo com os meus botões que quase flutuam por entre os grãos, sem água doce que lhes valha. Acredito que sejam tão lindas como as flores do deserto. Abismo nestas maravilhas improváveis da minha praia. Que ora nem vejo por ter encontrado caminho mais fácil e que não danifica a duna.

        Mas também é certo que me antecipo à multidão turística, e nas horas de calor intenso descanso no quarto e volto mais tarde para a encontrar igual, salvo a água mais longe ou mais perto, segundo o que a maré determina. É um lugar como tantos: vive da animação turística em época balnear. Tem bairros senhoriais que são casas de praia e ficam na sua maioria fechadas durante parte do ano. Uma pena! As ruas, a fachada e a pintura são iguais e com barras: brancas com barra azul, azul com barra branca, amarelas com barra branca e o inverso. Existe um passeio junto à linha da costa bordado pelo verde das árvores e onde passa o que suponho seja um riacho atravessado por várias pontes pequenas. Mais à frente, um enorme quadrado de água por certo marítima, surpreende. Apetece andar de bicicleta; neste lugar encontrei jovens e menos jovens pedalando.

        Talvez por ser madrugadora, em qualquer hotel, entro na sala de pequeno almoço no primeiro quarto de hora de abertura. Ali, os ingredientes apresentavam extensa variedade, possibilitando pequenos-almoços de natureza diversa: do muito frugal ao mais pesado, com bife, feijões, ovos com bacon e sem, ovos estrelados na hora, etc, etc. Havia pouca gente, quase toda portuguesa, e demorava-me a olhar os comensais ocupados a encher pratos sobre pratos e a digeri-los com afã digno de nota. Havia neles um isolamento de tudo, eram eles e o alimento; não levantavam os olhos dos pratos e, pressurosos, devoravam-lhes o conteúdo como se disso lhes dependesse a vida (em parte dependia). Eram tão velhos como eu, alguns um bocadinho mais. O que leva alguém a alimentar-se com tamanha sofreguidão?! Não é nada poética a imagem mais nítida que me ficou das férias, mas gravou-se-me aquela pressa na mastigação e o vaivém de pratos que os funcionários iam retirando e eles repondo. Encerrado o expediente, levantavam-se prestes e abandonavam o que me convenço hoje ser o seu santuário. Isto porque, logo que a sala de almoço abria portas, era vê-los, formiguinhas afadigadas. E eu que me considero pessoa de “boa boca” e não debico, pergunto-me como e onde encontravam o apetite para almoçar. Era refeição em que não os seguia, estava acompanhada e o restaurante repleto. Quem sabe comiam apenas uma saladinha e estou eu aqui numa de má língua...

domingo, 28 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

         Hoje somos diferentes: Gozamos períodos de férias, quase não há as tabernas de antigamente e o mundo português encheu-se de cafés - é de bom tom haver uma taberna de degustação cuja não é sequer parente afastada das tais alumiadas a petromax, com as pipas à vista e um cheiro a vinho tinto que se incrustava nas paredes e revolvia o estômago, de mistura com a saturação de suores múltiplos e de vários dias, que o banho era graça de dia santo. Hoje, tomam-se os banhos que cada um entenda, escolhemos a bebida, petiscamos ou fazemos refeições completas. A vida quotidiana mudou. As mulheres e alguns homens sentem-se gratos às máquinas que lhes poupam trabalho, saem a sós se assim o entenderem, ganham a sua subsistência, caminho de cada um para ser dono de si. Que bom podermos escolher o que desejamos para o almoço ou o jantar. Que gosto ter profissão que assegure cuidados que antes nem havia. E que supremacia se, profissionalmente, fizermos o que gostamos.

        A escolaridade obrigatória foi prolongada, portanto, a dependência dos pais existe até mais tarde, a juventude começa cedo a sair à noite e prolonga manhãs na cama quando as noites esticaram ao extremo. Aos fins-de-semana e noites de festa, distribuídos democraticamente entre os dois sexos, os cômas alcoólicos tornam-se corriqueiros em hospitais e centros de saúde. E apesar dos preservativos e da pílula do dia seguinte, continuam a surgir mães adolescentes. São em menor número e, na maioria dos casos, os motivos da gravidez diferem dos antigos. A solução também pode diferir, o aborto foi legalizado. Não há dúvida que as mulheres são quem mais beneficiou do regime democrático. Contudo, a morte por violência doméstica continua a aumentar. Pergunto-me se o álcool anda metido nas brigas entre pares; se será por ausência de barreiras no respeito que é devido ao outro seja ele quem for; se são mentes frágeis que se deixam contagiar por filmes e redes sociais; se há muita energia que não se liberta por uso excessivo de telemóveis e outras conexões nas quais se gastam horas e horas; depois falta paciência para os da casa e o disparate sai agressivo à menor contrariedade.

        O que mais se verifica é que, antigamente, no tempo das tabernas, o mal era quase sempre de raiz exterior: a miséria, a falta de instrução, a falta de cuidados de saúde… a taberna era o limbo dos homens e o castigo de muita mulher. Hoje o mal vem de dentro, é individual e comum de muitos. Somos mais instruídos, mas nem por isso melhor formados; temos excesso de informação e raro sabemos distingui-la ou sequer pô-la de lado. Todos sabemos ler, mas interpretar continua a ser função de alguns.

        E eu que vinha para contar do mar e das férias, dou por mim neste atoleiro tão questionante como questionável. Fica para uma próxima.

        Divirtam-se.


quinta-feira, 25 de junho de 2026

Necessário e Suficiente

 

        O povo de que nasci não conhecia férias, nesse tempo não havia pausas. Entristece-me saber isto e mais que sabê-lo, ter assistido a essas vidas de trabalho que, sobretudo nas mulheres, era por demais intenso. A pausa, a existir, denominava-se mudança de uma função a outra. Alguns homens também entravam neste rol; chegavam a casa, comiam uma bucha e iam semear e vigiar o crescimento do plantio e, se necessário, regavam a horta que ajudava a sustentar a família. A horta era o lugar sagrado onde à força dos braços juntavam a fé cega na terra; iam buscá-la não se sabe onde, que ela, pobre e esfarelada, parecia ingrata aos que a não conhecessem, não a eles que lhe sentiam a miséria dos nutrientes e a vontade de germinação. Desconheciam o termo resiliência, mas tentavam sempre, puxavam por ela com carinho e velavam o canteiro de nabiça ou a couve tronchuda quase com o mesmo empenho com que ensinavam os filhos pequenos a dar os primeiros passos. Era admirável vê-los debruçados sobre a terra, aqui um montinho de hortelã, ali um rego de cenouras, uma correnteza de cebolo e outra de alhos; além, salsa e coentro a vicejar. E punham canas no feijão de trepar e sacudiam caracóis e outra bicheza, as galinhas de olho no verde hortícola e enxotadas na tardinha quando enfim o galinheiro se abria à liberdade breve de ciscar no lusco-fusco. Passava-se isto um nadinha antes de engolfarem no poleiro onde, por misericórdia divina, se equilibravam até o dia clarear e  haver os gritos de um galo esparvoado; mal soava o clarinete do macho sobranceiro, surgiam estremunhadas e prestes, pata aqui, pata acolá, sacudindo o sono, carraça pegadiça que se escondera nas asas. 

        Contudo, a maioria masculina, suada e suja, barba a sombrear empoeirados vincos do rosto, negava-se ao lar e parava na taberna em busca de alegrias avinhadas que caíam mal na carteira e não poucas vezes eram rastilho traiçoeiro em família. Ser taberneiro era um posto: atrás do balcão, o taberneiro sentia-se alguém, aviava copos de cinco e de dez, uma aguardente ou outra em copinhos pequenos e ia limpando com um trapo descolorido de tão surrado, os círculos arroxeados do fundo dos copos. Torneiras de água corrente não havia. Atrás do taberneiro, ao lado das pipas de vinho, um alguidar cheio de água que manhãzinha era limpa e à noite tinha a cor do vinho tinto, era serventia da casa. Havia muito menos higiene, lavar os copos era "passar por água". Os mais inveterados iam ficando e só desencostavam do balcão renitente à invectiva do taberneiro, “ já não avio mais nada, tudo p’ra casa, já passa das dez, passa aí a Guarda e ainda levo com uma multa”.  E havia quem, para desanuviar, jogasse o chinquilho e o dominó entre rodadas pagas à vez. Com a TV ninguém sonhava; lá bem no alto, o som do rádio abafava na algazarra. Fazia-se um silêncio de respeito para ouvir Amália, o conjunto Maria Albertina e a acordeonista Eugénia Lima, que se apanhavam já a meio por via da desatenção geral e mercê de alguém que conseguia destrinçá-los e gritava, “deixem ouvir, porra!”.  E então ia-se fazendo um silêncio geral e só faltava que os homens tirassem o boné como à passagem dos funerais. Em vez disso ouvia-se uma voz ou outra a traduzir a unanimidade, "é uma artista!". Ou, "sim senhor, isto é que é cantar/tocar!". E mal cessava a função retomavam o chinquilho, colocava-se outra pedra no jogo do dominó, pedia-se ou escorropichava-se a bebida. Era um mundo de homens onde o mulherio não tinha cabimento . Havendo novidade séria, as mulheres enviavam os filhos e esperavam fora que os seus homens viessem para lhes dar a má nova - morrera a mãe, o pai, um irmão, sabe Deus quem; um filho fora hospitalizado; a filha fugira de casa com o namorico; regressara o filho emigrante; a mulher morrera num repente, de um ar que passou por ela; o filho mais novo, gatinhara e fora encontrado a boiar na presa de regar a horta. Era quase sempre fatídico sinal um homem ser retirado às pressas desse mundo macho. Com as devidas diferenças, a taberna figurava  na miséria portuguesa o que os clubes ingleses representavam na classe superior: um apharteid masculino.

                                      (cont.)