domingo, 20 de janeiro de 2019

Um Deus Benevolente


Dou duas voltas à chave, miro de soslaio as janelas e volto costas. E ela está onde deve, vestida de eterno negro polido, numa elegância de cada vez mais estreita até onde os olhos podem. Foi num passeio de domingo à tarde que  a conheci. Meus pais, banho tomado e roupa do dia, falavam em surdina um com o outro e, por mais que esticasse o ouvido, nada me soava. Nesse tempo,  a surdez ainda não era problema meu, era problema deles. E no entanto, até ao primeiro emprego, minha mãe dizia em dar de ombros que queria displicente, ora, o que ela não pode é ser telefonista, e depois, há muito trabalho que não precisa de ouvidos. Por mim, sentia-me bem nesse limbo de silêncio que supunha igual para todos, via as pessoas a mexer a boca e imitava-as. Convencia-me de que tinha de o fazer, era o que observava. Do mundo auditivo chegavam-me vibrações e, sobretudo, ruídos amortecidos que hoje sei fortes e furavam a deficiência. Também os gritos destemperados de minha mãe a oprimir-me um braço mal eu, desagradada daquele desvario enfático, afastava o rosto do seu.
Nessa tarde, quando minha mãe veio com a capa e ma acertou no corpo enquanto meu pai trazia a motorizada até à porta, toda me sorri à perspectiva de um passeio. E cumpriu-se o habitual. Minha mãe ensanduichou-me entre os dois, cuidou de me assentar cada pé sobre um cromado, mãos apertadas no cinto de meu pai. Depois, apurou-se no assento, esticou os braços até ao casaco dele e enfiou as mãos. E lá fomos. Três magos sentados em cadeia. Meu pai era escudo opaco e eu a maior entusiasta da trepidação. Além disso, cabiam-me breves soslaios à esquerda e à direita, o cabelo a rodar inteiro para o lado inverso do pescoço enquanto minha mãe aprumava a postura de invólucro.
Gostei dela desde o alerta de cheiro diferente a sobrevoar a pestilência de gasóleo, a bicicleta aos solavancos nas pedras e buracos, nós aos saltos no assento. Meu pai parou a mota e desfaz-se o aperto. Descemos de frente para um campo verde com árvores de fruto. Perto de nós, um pessegueiro pendia de ramos vergados, carrêgo esfalfado de mãe com muito filho. E enquanto meus pais mediam com o olhar e depois a pé firme todas as direcções do campo, eu fiquei-me na sua beira catando pedrinhas soltas, medindo com a palma a fundura dos buracos, entretida na inveja dos lagos que o inverno ali faria, imaginando a impossível arte de contorná-los a pedra fina.








quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


Não sei o que passeei nem por onde, excertos da conversa adesivados no écran gigante do pensamento.  A memória ensombra-lhe a casa e por isso sai manhãzinha e entra já noite.  Lá dentro, contraria o esquema, muda os circuitos, “trago qualquer coisa já feita e nem entro na cozinha”. Sozinha. Dois quartos vazios. Mas sobe a escada do sótão,  “não posso pensar em dormir cá em baixo”. Caminho antigo é terra queimada, receando o frente a frente com a crueldade dos objectos e o mundo de pantanas, “ainda não pensei em arranjar o quarto”.  Ergui os olhos em silêncio para o janelico que a abriga e veio-me à ideia a dolorosa incredulidade de César, “Também tu, Brutus”. Não lhe sei o nome, mas ousar certificá-la das palavras imperiais, dar-lhe a companhia de tanta mulher, cada uma caminhando como pode. Avisá-la do que não preciso, que bem o sente, apontar-lhe a natureza castigadora da trama social: à medida que desces no orçamento e diminuis na condição mais se te encurta o caminho e a chance; séculos de sujeição feminina a agravar a pena; e cada uma pode menos, sempre menos, até à dependência mais abjecta. A vontade de dar-te exemplos. Desta e daquela que conseguiram. Mas de que valem exemplos a meio de uma bravata de problemas de toda a ordem, de que serve apontar um caminho que não é o teu e portanto sem cópia.
A porta de entrada empenou, há flores mortas em canteiros sedentos, a um canto, o tanque da roupa descama por falta de uso. Uma nuance de verde lismoso invade o quintal onde nenhuma roupa ondeia, a corda balançando na aragem. És tu e os cães. E o silêncio a fazer muro. Tanta gente e ninguém. É assim mesmo.
Quantas vezes o desejaste, diz. Quantas vezes desejaste um casebre que fosse teu, qualquer espaço de pertença onde pudesses descansar, quantas vezes nas horas compridas das noites demoradas desanimaste no inventário familiar. Eles, como tu, são  à justa para o lugar que conseguiram. Em vidas de clausura, espaço livre é quimera. Convence-te, não cabes. 
Que te não magoe o agudo rebordo de tanta pedra solta. Porque a meia dúzia de meses vai arrastar-se por anos. Fora de ti, o homem engordou. E apesar das vigílias ao balcão, começou a cuidar-se.  E se te rodeia e voltas a recebê-lo. E se, apesar das súplicas insistentes à vista de todos, “por favor faz o que te peço, por favor!”, és impreterível, não o queres a teu lado. E se o aceitas pelo meio, podes vir, mas travei a fundo na vida marital. E se.
Eu te saúdo, Maria.


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


A persistência da vida é notável. Ainda que possamos não reparar, ela avisa, emite sinais de alerta que são braços acenando em enérgica oscilação, hei, hei, hei. É preciso atentar, pelo menos algumas vezes, ou não saberemos lê-los. Que para tudo se quer treino. Uma história começa dentro de nós como qualquer doença. Invisível, vai minando sem que demos conta. E, a certo ponto, exige: escreve-me. Nesse momento, a memória puxa-a inteira. É como se tenha juntado por ti todas as contas  e te falte apenas enfiá-las para formar colar ou bracelete, que é como quem diz, história.
Talvez seja pretensão supor que memória e acaso me destinam a escrita, mas o certo é que ontem resolvi, a uma hora improvável, passear a pé. Passava junto à antiga moradia do casal e rememorava o caso quando o automóvel parou e ela saiu. Impensada, soltei um, estava mesmo a pensar em si - e a precisar o pensamento –, se estaria curada da gripe. Ao “a pensar em si” os olhos dela endureceram, mas a referência à gripe suavizou-a. Os alertas que levantamos se a vida nos maltrata. O orgulho ergue-se dos escombros e endireita-nos os ombros, olhos de desafio animoso. 
E houve riso e conversa, imprescindíveis assuntos triviais, esboços minimalistas do regresso à normalidade.  Falámos de roupa barata, de gostos e características pessoais, dos filhos e das dificuldades do mercado de trabalho. Sorridentes.
Mudou a cor do cabelo e readquiriu dinamismo, o corpo pertence-lhe de novo. Arvorou a sua prioridade, “tenho que dar ao mais novo o que dei ao mais velho: um curso”. Viera na hora de almoço para alimentar o cão. Despedimo-nos.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


Foi esta amálgama que me acudiu quando a encontrei na farmácia, prostrada pela gripe e recusando auxílio. A essa altura, já ele passava sozinho; ela, em eclipse. E quem o conhecia melhor que eu
- Gasta os dias a beber encostado ao balcão do café e ela a tomar conta do negócio.  Também dá pena, o homem. Ninguém o convence da separação, vive com ela na boca,  a minha mulher isto, a minha mulher aquilo. A minha mulher.
O que as palavras nos importam. Tanto. Com elas arranjamos realidade  a contento, do possessivo à substância da posse, “a minha mulher”.  O álcool ilude e dá colo a outras fantasias,  ajuda a segurá-las.
Pouco depois, o acidente de viação leva-lhe o automóvel e, autómato escanzelado, desloca-se a pé,  olhos fitos na ressurreição do álcool. O  desejo severo da bebida marca-lhe a pressa dos pés. Boca seca, sentidos em gume, apontados e exclusivos. Que nenhum amor pode mais que vício com raiz.
– A casa não a casa, mas um deserto gelado, sem o lastro de cozinha activa.  O incómodo do teu cheiro que encaracola pelas frestas se entreabro gaveta que foi tua. Os móveis irritadiços, uma catrefa de ângulos agudos que me raspam na pele, plantação de nódoas negras que só na manhã seguinte nascem pelas esquinas do corpo. A mobília a olhar-me fechada em rancor, sem um rangido de aprovação.  
E ela com os filhos. Num espaço que não lhe pertence, caixas sobre caixas. E a escrita do negócio, facturas, encomendas, dívidas por saldar, meses que vencem numa piscadela de olho. E a faculdade e o aluguer do quarto. E.

sábado, 12 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


O tempo dá sentido ao que fazemos. Ou o curso da vida individual segue o da História e só é entendível – pelo menos para os outros – ao retardador. Nessa medida, só meses mais tarde, quando o diz que diz da notícia foi suplantado  por folclore mais galhardo e caíu no esquecimento, notei que deixara de a encontrar. A nossa relação não ia além da cortesia no cumprimento diário, mas cruzávamo-nos de quando em quando. Perguntei a D. Juvénia, senhora simpática e discreta, caixa na  mercearia da esquina. E ela a abrir a registadora, moedas organizadas por compartimento e as minhas escorrendo-lhe por entre os dedos e a tinir sobre as outras, a senhora não sabe, separaram-se; ele está uma miséria, os médicos dão-lhe seis meses de vida e ainda assim não larga a bebida. Pescou os meus cêntimos e trouxe-os à minha mão aberta. Depois, encolheu ombros fatalistas e não acrescentou. Saí, esbugalhada das ideias. Alcoólico e em fim de vida. Mas como?! Passava diariamente para o emprego, trabalhavam juntos...conhecia-o de garoto servindo bicas no Ideal. Por vezes, equilibrando chávenas e pires, olhos em mulher de figura caprichada, “posso dizer-lhe que está muito bonita?”. E era jovem, assertivo, riso bem disposto. Calculei a causa do desencanto presenciado no super. Calculei. Que ninguém senão quem vive o pesadelo pode saber do mal que o vício provoca.
De quantos anos precisaste para chegar ao fundo. Quanto vómito tiveste que  lavar. Noite após noite, a falta de pontaria na sanita, trabalho sobrante e teu. Os filhos acordados fora de horas, contra tua vontade – não mandas, tu - levantados em peso da cama, endorminhados e medrosos, apenas porque sim. O mais velho a preencher cheques inúteis e a tiritar de medo e frio, as letras a escaparem-se da mão que custava a acordar. Está bêbado, mas vocifera ordens. E tem força e maldade que nem sabes de onde pode vir, mas está presente. E aterroriza a  oferecer pancada de mão aberta. Noites em que o traziam a casa, sujo de terra, rosto a sangrar, o ritual de lavares e despires e deitares um corpo morto, boneco desarticulado e de dizeres ininteligíveis; madrugadas em que o delírio o fazia virar tudo do avesso, que um bicho aqui, que percevejos a roerem-lhe os dedos dos pés, que as paredes caíam sobre ele, que as vozes não o deixavam dormir. E as horas longas da espera nocturna, será que consegue chegar a casa, ai se tem um acidente, queira Deus que não se mate nem desgrace alguém. As longas, longas  horas de esperar por um estranho de que o coração se desliga. Que te enoja. Abisma-te o próprio abismo.
Suor de álcool é podridão, bafo é esterco humano. A casa, empestada; o quarto, irrespirável. Mas dormias a seu lado, davas-lhe as costas contando horas até que a madrugada piedosa te fechava os olhos.  E não contas as vezes que te envergonhou e desrespeitou em público, as que em privado te possuíu contra vontade, ao rés da violência, como rameira de beira de estrada. Dominava-te, prendia-te os braços com um riso mau, viscoso e avinhado, atravessadiço. Quantos anos  te custou compreender que este homem matou o que restava do outro e não há a que te agarres. Oh, o desejo de nenhum homem por perto, como o sentiste. E a dificuldade em aceitar a morte do sonho.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


As mulheres gostam de falar e são atreitas a confidências, diz-se. Entre amigas, comungam segredos e minudências que a maioria dos homens inveja e teme por recear prejuízos ao pedestal a que se ergue ou intimidade que a delate.  Porque, é sabido, o conversedo é feminino.  Ora, se é verdade que as mulheres gostam de conversar, não o é menos que são os homens quem mais conversa, têm mais tempo livre. A meia hora das mulheres dura mais ou menos trinta minutos porque há o a seguir que tem de ser feito; a dos homens pode durar uma manhã ou uma tarde, depende de quem encontram, o a seguir pode ser noutro dia.

Para falar desta mulher tenho de sair da farmácia e  ir mais atrás. Ir ao dia em que a encontrei perdida no supermercado. Ainda que ninguém se perca num supermercado de província.

Talvez tenha sido o vagar das pernas e o corpo desligado a chamarem-me. Que logo fui atingida por redonda tristeza no olhar. Não me viu. Duvido que tenha visto alguém, parecia nem saber ao que estava. Meti por outro corredor, dei a volta. E ela parada na outra ponta, uma mão maquinal hesitando a prateleira e a descer de novo. Lembrei épocas em que legumes e géneros me passavam e concentrar-me neles me recentrava. Pensei em qualquer súbito desgosto, coisa de chofre a desnorteá-la. Dei uns passos na sua direcção, mas evoluiu sonâmbula, impressivo alien no meio do povo. O sofrimento é coisa íntima, difícil de soletrar e mais se vê do que é dito. Ainda que dizê-lo nos melhore, o merecimento de ouvi-lo não cabe a qualquer.  Recuei.  Eu era qualquer.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


Há histórias longas e de muita volta, romances  cheios de peripécias, resmas de discussões e parlapiés. E eu que gosto disso tudo, que os leio com gosto, sou muito sem assunto. Por vezes, apetece-me escrever e nem sei sobre quê. É claro que há bloguers a quem nunca o tema escasseia, em qualquer bocadinho de tempo erguem partículas de realidade que nascem e evoluem ao ritmo de leitura dos olhos. E sim senhor, como eu gostava de ser assim. Mas não me acontece.
Os meus temas sou eu, os poucos familiares que me visitam ou eu visito, uma ou outra pessoa com quem me cruzo no dia-a-dia e a memória guarda. E não aprecio desaguar nas minhas águas tristes. Basta-me a poalha de melancolia que sacudo mal e me põe de Maria arrependida de quando em vez. Pois um destes dias, estava eu na farmácia cheia de gente quando ela entrou. Diga-se em abono da verdade, é uma ela bonita, figura airosa,  sem um átomo de gordura a aparar-lhe o esqueleto. Conheço-a vai para trinta anos. Na juventude, brilhava de viço, cabelo de noite escura costas abaixo e grandes olhos negros. Naquele fim de tarde, pareceu-me febril, olhos mortiços, pálida, boca sem cor. Abordei-a. Que vinha de horas no Centro de Saúde, acabava de ser consultada e ali estava pelos medicamentos. Tinha gripe. Ofereci-me para a acompanhar,  lhe fazer um chá, qualquer coisa...virou-me aqueles olhos desmedidos, a voz a afugentar uma nuance de espanto, não é preciso, obrigada, estou habituada a tratar de mim. E acrescentou a constatação, nunca tive ajudas. A voz saiu-lhe amorfa, sem réstea de autocomiseração, como  quem põe uma nota sobre o balcão para saldar a despesa. Não insisti. Se tivesse desatado num pranto, é provável que a esquecesse em seguida. Assim, jamais a esqueço.  Gritou sem voz haver.