O Outono não me chega por calendário. Inicia quando a frialdade nocturna o faz presente. Quando procuro aquecedores ou apenas os ligo. Quando a gata se enrosca mais e troca a rua pelo interior da casa. Quando os ossos mo lembram e os casacos, leves ou de aconchego, se me entregam como uma segunda pele. Não aprecio o Outono e tampouco o Inverno, mas são em mim como na natureza, um tempo de recolhimento necessário, caracol dentro da casca. Rareio contactos presenciais com amigos, evito saídas nocturnas e aqueço-me no sol que amarela as tardes, notando-o cada vez mais doente; em cada dia se despede num prenúncio de “amanhã vou estar pior”. Esta frialdade de amanheceres e crepúsculos atordoa-me a alma, entristece-me o ser. É como se o astro se demore em longa despedida até ao inverno, quando tarde aparece e, a qualquer hora, o frio atalha por onde pode.
Nestes tempos instáveis em que o calor humano rareia nos senhores do mundo, o sol é um inocente que se repete sem maldade. Pontual, surge-nos muito semelhante às sequências do ano anterior. Porém, a indesmentível violência dos homens efectiva-se contra o seu semelhante, aquele que lhe é igual em direitos e deveres, e que, logicamente, merece igual trato. O facto de o homem não seguir a sua natureza (ou segui-la demasiado à risca) sempre me impressionou. Desde quem mata por um punhado de terra a quem mata por ganância, sede de poder capaz de desrespeitar tudo e todos. Ante a riqueza material e a do espírito, optam pela matéria que fatalmente abandonam quando a morte ou a desgraça os toma. Tratam do que é exterior. Dirão muitos, “tratam do ter e não do ser”. Por enquanto somos a única espécie portadora de razão, os que podem escolher entre fazer o bem, o mal e tudo que permanece entre eles. Mas quem, a todo o custo, persegue o poder, hoje como no passado, vale-se de embuste, alcança-o a qualquer preço. Vendem a alma ao diabo, dizem. Vendem-se, digo.
O poder é afrodisíaco, doença que não tive. Mas, se a economia é o único interesse, se em busca dela os outros são pisados e retalhados como tecido a metro, se ética e moral são banidas, não sei o que nos resta além de lutar por ambas ao serviço da dignidade que estar no mundo representa. Resistir. Em prol dos ideais e dos mais fracos, esses outros que são cada dia em maior número.
Parece uma lição de moral? Pois. Parece. É o que consigo: pensamentos de desgosto pelo mundo, numa tarde de sol a ficar doente.