quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Um Mar de Sargaços

 

        Na minha aldeia que não chega a sê-lo - é um lugar -, segmento balizado na beira da Nacional por duas placas, existem algumas singularidades das que caracterizam lugarejos breves e tão sem importância que nem constam dos mapas. Teve um nome antigo que poucos conhecem: era feminino e aludia à natureza do solo - inda hoje não consigo entender se aquela designação da Nacional, que lhe assinala princípio e fim, é masculina ou feminina. Quem a terá inventado?! Preferia esse nome que lhe delatava a natureza do solo e tinha género. O actual, definitivo e andrógino, pende para o masculino.

        Pois neste lugar de abundante pobreza, tudo foi difícil; não chegava a electricidade e a água vinha dos poços e era emprestada ou vendida a terceiros – nem todos tinham a benesse de poço próprio e a situação mais comum era a da partilha, o poço era aberto pelo esforço dos homens interessados em ter água sua e situava-se no limite dos terrenos, metade para cá metade para lá. Que me lembre, a partilha da água era pacífica. É verdade que abundavam brigas de taberna e sovas nas mulheres com maridos de mau vinho ou pior carácter. Em compensação, muito ali aportava e havia indulgência geral para casos escabrosos: homens com duas e três mulheres, todos cohabitando a mesma casa em preclara harmonia, sem gritos ou ciúme que se notasse; irmãos que viviam maritalmente como coisa natural; gigantes descalços e brutos de feição, com alma de infância que as crianças não reconheciam fugindo deles a sete pés; mulheres asseadas e trabalhadoras, cheias de filhos, cada um de seu pai, mas que conservavam o marido primeiro que todos conheciam por "corno manso", um senhor bem apessoado que não trabalhava ao campo, usava gravata e fora adoptado pelos autóctones; amantes de só de noite e muito sui géneris por serem ambos livres e muito se esconderem com pontinhas de rabo à vista; senhores importantes que ali depunham as suas meninas que os nativos mal tinham ensejo de espreitar porque viviam na clausura de  casas-castelo, uma formosura de sebe-soldado a defendê-las. Tinham estatuto e modo de vida acima da populaça, não se misturavam e saíam de automóvel apenas com os protectores. Eram supremamente admiradas pela condição de saberem prender a si gente graúda.Os filhos dessas relações frequentavam a escola de todos e eram admirados por qualquer: vestiam bem, comiam lanches invejados até ao anátema do sonho, usavam material escolar diferente e muito mais bonito e tinham todo ar citadino que nos faltava. Enfastiados, bebiam sumos de laranja em frasco,  que levávamos ao limite da inveja.

        É evidente que, como em lugares semelhantes, havia e inda há algum vocabulário próprio e de uso corrente a acompanhar costumes e hábitos: Limitamos o termo “aventar” a “deitar fora”; não se diz “vou a casa de”... mas: “vou à da/do”; e dizemos, “estou desasada” querendo referir-nos a um cansaço extremo provocado por trabalho extenuante. 

    Também eu, se partes, quando partes, fico “desasada” no sentido mais estrito e não usado por cá: levas contigo as minhas asas, fico na terra, focinho rente ao chão, olhos de cão mal morto. Contudo, o amor tem de ser leve ao outro, não posso e nem quero deixar-te perceber o peso da tua ausência. Podia utilizar termo mais bonito, mas somos de onde somos, "desasada" é a a forma que me pertence. E que a vida te não pese e sejas feliz.

domingo, 2 de agosto de 2026

O Copo Meio Cheio

 

        Hoje prometo festejar-te. Vieste. Por mim. Não interessa que seja um dia de trabalho e tenhas reuniões umas atrás das outras. Por mim te levantas cedo e almoças em minutos. Sei que esses minutos de descanso existem por um motivo: ganhares tempo ao fim do dia. E prometo dar-te do que preferes: vou cuidar que o vinho esteja bem gelado e o petisco saia a preceito.

        Prometo não lanchar de avental e usar um vestido que achas bonito. Prometo que chego a beber um nadinha de vinho que adultero para um brinde enquanto tu, em ritual de desaprovação, franzes o rosto sorridente.

        Mais tarde, prometo uns doces e uma sangria de champanhe para as tias e não te forçar a estar presente. E prometo o que nem é de prometer: gostar sempre de ti e ser grata à vida e ao Deus que te trouxe até mim. Porque és um dos meus doces enlevos, filho. Ter-te hoje por perto, significa.


quarta-feira, 22 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

         E logo uma viagem embebida em saudade na linha de Cascais a que chamo linha do Estoril e, no presente, só acontece por ter de ser, em nome de uma amizade outra e antiga. Entro no comboio com a sensação de que maculo o passado. Sei que a sacralidade se evolou: não sinto a ansiedade antiga que me precipitava o coração mal punha o pé na gare do Cais do Sodré e me deixava embasbacada no destino, olhos parvos virados ao mar, pensando que ela o via todos os dias lá de cima e que, porventura, uma vez ou outra, frequentasse o comboio. É assim o amor, quer pisar onde pisam os pés de quem gostamos, ter o gosto de olhar o que vêem os olhos do outro, imaginando o que sentiu ou sente quando abre a janela ou apenas corre a mão de habitual delicadeza no étamine simples que conheci nas janelas e tão adequado ao despojamento próprio. Quanto eu gostei e gosto dessa filha do Douro e de Poiares da Régua que como tantos dedicaram a vida ao vinho do Porto que inda provei por bondade sua. Depois saía do impasse comovido e começava a subir até ao destino. Na escadaria até à porta principal, o meu coração entontecido transbordava. Tocava a campainha, entrava e aguardava na sala de visitas o suave roçagar da roupa, já que os passos eram silentes. Ela entrava e trazia consigo o odor a lavanda. Em sua homenagem (alguns lhe ofereci), mora no meu quarto um Ach Brito que gosto de aspirar. É um bocadinho da minha força diária.

        Desta vez, rodeada por bandos de garotos destinados à praia e turistas que rumavam a Cascais e Belém, toda eu era olhares ao relógio do telemóvel. Não sei porquê, mas deparar com o forte onde permaneceram os presos políticos e admirar os longes do Bugio, emociona-me. Nada na beleza daquele mar me afecta tanto como a imensa solidão do farol e mais as histórias que deve guardar, ou a prisão onde vi a firmeza delicada de Sophia segurando uma flor, enquanto nascia a liberdade dos presos políticos nesse imortal Abril de setenta e quatro. Vou contando as estações e, por fim, saio, subo até à paragem de novo autocarro e entro grata à boa vontade do motorista que já partia.

        À medida que nos afastamos, surgem moradias desarrumadas e rotundas novas e espaçosas. De quando em vez, um aglomerado de casas antigas, ruas estreitas, velhos amarelentos nas portas de café, o ar pesado de barbas por fazer e mulheres guardadas não sei onde, a contrastar com o panorama do primeiro autocarro, turistas leves e felizes embora um pouco desorientados na balbúrdia, a patine de Lisboa antiga percorrida por solta garridice juvenil em roupas claras ou alegremente coloridas, pernas e braços ao léu, chapéus e bonés a salvar alguns turistas pouco habituados ao calor do sul europeu. Uma chusma de automóveis estacionados causa os malabarismos do trânsito e, de onde em onde, na vez das rotundas desafogadas, um edifício com pergaminhos e história, imagino que lar possível de grandes senhores de antanho. No subúrbio, os ossos do autocarro chocalham a amargura sofrida em anos e anos de trabalho e maus tratos. É outro país. Passei Tires e, por mais olhares, não descortinei a prisão. Enfim, chego e cumpro a visita que me propus.

        O tempo corre a maratona quando conversamos com quem vive intramuros e tudo pergunta do mundo conhecido. Saio para o transporte, mas a tecnologia barra-me a saída. Corro abaixo e acima a queixar-me que estou presa e que e que… a porteira, velha e coxa, acompanha-me de comando na mão a resmungar, “mas eles vieram arranjar o portão hoje mesmo”; e vai descendo e carregando no botão do comando. A meio do percurso, o portão começa a deslocar-se e corro desentraitada até à paragem gritando obrigados enquanto atravesso a estrada. E o autocarro já lá, no seu posto. A bondade dos dois motoristas de autocarro é directamente proporcional à velhice e achaques dos mesmos. São dois bons homens guiando viaturas em mau estado. Também este motorista esperou por mim. Se não fora a simpatia de ambos teria perdido o comboio para casa.

        No regresso, continuamos a chocalhar. Quão diversos são estes passageiros. Quase todos negros. Verifico a presença de gente nova, sobretudo raparigas. São lindas, quase todas de cabelo natural e apanhado (o dia está quente) aqueles olhos grandes e negros com a expressão que me parece sempre a do bambi dos desenhos animados: têm qualquer coisa de líquido, digo que relampejam ternura dos trópicos. Estas garotas não são alegres e barulhentas como os garotos da praia, mas terão a mesma idade. Todas vestem calça de ganga azul clara ou branca, cintura alta de vespa (vespíssima, diria Pessoa), esguias de não destoar de qualquer modelo de passerelle. Seguem sérias e sem conversa. Não parecem ir de passeio. Talvez se destinem ao turno das dezasseis à meia noite. Ali, toda a gente parece ganhar o pão com a força dos braços e não em trabalhos “limpos” como diziam os mais antigos que eu. Talvez sirvam à mesa, sejam cozinheiras e ajudantes de cozinha, façam o serviço doméstico em algumas casas, vão buscar os meninos de boas famílias à escola.

        Sentadas defronte, duas loiras postiças falam de unhas de gel, uma delas mostra as mãos acabadas de retocar, talvez para convencer a parceira que tem o verniz em decadência, duas ou três unhas descascadas por inteiro. Saem ambas de braço dado, facto tão bonito quanto em desuso. Vi-as dobrar uma esquina, decerto em busca de destino comum.

        No comboio de regresso, a viagem de pé fazia-nos olhar (e invejar) quem vinha da praia e conseguira sentar-se. Os sentados dormiam a sono solto, pendendo a um lado e a outro, eu temendo pela cabecita suada da criança que tombava dos braços da mãe, ela mesma em crise de sonolência. O poder do ar condicionado, perante a multidão invasora e estoirando de calor, era nulo. E nós de estátua, à mistura com cadeiras de praia, chapéus de sol, colchões enrolados e esteiras, crianças quase submersas mas ainda assim agarradas a sacos de baldes e pá, mochilas de campismo, canas de pesca e sei lá que mais. Enfim, um mar de gente e de artigos de praia e mar que não nos davam espaço para cair e que, com grande esforço e muito empurrão simultâneo ao consciencioso, “com licença, com licença, é para sair, com licença”, se apertava a dar passagem aos felizes contemplados.

        Promessa: não repetir a viagem em tal horário.

domingo, 19 de julho de 2026

Esta Lisboa que Amo

 

        Ir a Lisboa faz-me bem à alma. Desencrava-me, vejo gente, entro em lojas, corro de um lado a outro porque tenho poucas horas para muita função. E apesar disso, gosto.

        Viajando de carro, vou pensando pelo caminho no que esqueço em outras horas. O quotidiano encarreira para o comezinho, espapaça-nos o tempo em mesquinhices tão necessárias como “aborrecentes”, para citar uma das filhas de Lobo Antunes na sua contundente linguagem de infância. Portanto, em viagem ganho espaço mental: penso nos meus amigos, no quanto os gosto e no desejo de visitá-los; e penso nesses que nunca vejo e de quem tenho inexplicáveis saudades, quem sabe me esqueceram e nem merecem o pensamento; nesta pausa, erguem-se as coisas que gostaria de fazer e sei impossíveis, as que ainda posso fazer acontecer, etc. 

        Se vou de comboio - acontece menos vezes mas prefiro, leio um livro ou medito levemente na companhia -,  escolho sempre um dos dois bancos virados um ao outro e com mesa a meio. Não que precise da mesa, apenas fico de frente para duas pessoas e com outra ao lado. As “pessoas de idade” têm a vantagem de não serem notadas e poderem observar, facto hoje muito facilitado pelo uso de tablets e telemóveis. Os meus vizinhos estão mergulhados na sua pequena bolha. É raríssimo encontrar alguém com quem se possa entabular uma conversa, mas é vulgar ouvir as conversas mais ou menos longas dos meus vizinhos de viagem ao telemóvel – será porque aproveitam o tempo e súbita lhes surge a necessidade de ouvir uma certa voz (invejo-os). Quando os lugares não eram marcados, entrava atrelada a uma colega ou alguém conhecido e conversávamos a viagem toda. Hoje, viajar de comboio assemelha-se ao ovo Kinder, traz uma surpresa. Não acho mau. Gosto de surpresas (boas).

    Numa destas visitas, e já na capital, meti-me num autocarro julgando-o a via de maior prontidão. Grande lorpa! O transporte devia estar em início de viagem e deu voltas e mais voltas (apesar do google maps me dar o percurso, o autocarro chegou e atirei-me lá para dentro sem consulta prévia, olhei apenas ao destino). E só não apreciei mais a paisagem por ter hora marcada no dito destino e ver os minutos “correndo correndo sem nunca parar/caminho do rio em busca do mar” (parafraseando versos de um livro de leitura da antiga primária, acerca da água; creio). Mesmo dentro da pressa, deu para ver edifícios que devem ser soberbos, alguns dos quais não faço ideia do que sejam porque não consegui ler as inscrições que ladeavam a porta principal; mas passei por um miradouro cheio de gente e de onde Lisboa aparecia linda, vestida de telhados e folhos de brancura bordada a gosto, mais aqui e mais ali; Entrevi a entrada do Jardim Botânico e ignoro se sabia da sua existência; reparei num polo universitário mesmo ao lado e de que não fazia ideia; o Príncipe Real que nem sabia onde ficava (ainda não devo saber) e estava muito cheio de gente nova e acalorada; alguns edifícios retocados e luzindo a sua época - ignoro se apenas no exterior; outros quase em queda livre, facto que me penalizou em extremo. E os semáforos apostados no vermelho e que, se por um lado me permitiam tempo extra para os olhos, por outro, atrasavam-me ainda mais.

      (cont.)

domingo, 12 de julho de 2026

Pirilampos na Noite Escura

 

        Apazigua-nos, é dever cumprido deslocarmo-nos a lugares onde alguém discorre sobre gente das letras que admiramos. Vale em dobro se se evolou a presença física do homenageado e só na obra está presente. Que ao leitor apenas a obra interessa; a relação entre ele e o escritor é o livro. Segui a regra: vivi uma relação feliz com Lobo Antunes por mais de quarenta anos; guardo de todas as obras a boa lembrança de encontrar alguém que entende a dor, que sabe da amálgama de que somos feitos e a entende sem julgar. Guardo alguns episódios comuns que ele esqueceu e em mim foram importantes: o que marca o leitor, não tem de deixar vinco no escritor - no leitor a relação é de um para um; no escritor de um para inúmeros. Portanto, compareci numa das sessões de poesia a que José Anjos preside anualmente no Âmbito Cultural do El Corte Inglês. Receava não poder comparecer, a selecção da assistência, cada vez mais apertada, impediu-me a frequência de várias conferências e cursos no presente ano. Quis a boa sorte que, ora, estivesse presente.

        Durante a sessão ouvi ler crónicas que conheço e tenho em casa; versos de fados; poemas breves e mais longos, alguns com a verve satírica que lhe vivia na mente; entrevistas sérias e contundentes ou quase em carne viva. A meu lado uma jovem senhora bebia tudo de enfiada, o corpo inclinado para a frente; não me olhou uma única vez, não contemplou a ampla assistência; mãos no colo apertando uma malinha jovem, esguia, cabelo liso, fino e castanho a bater nos ombros, tez pálida, boca pequena e delgada que se não descerrou. Uma Nossa Senhora dos tempos modernos. Seria uma leitora voraz do autor, tanto parecia beber as palavras que escreveu. Desejei que não lhe esteja a fazer falta vê-lo, ou que apenas queira vê-lo ali, no que escreveu. Mais que ouvir o conhecido, foi ela a comover-me. Contudo, não foi sentimento geral. Quando algum público se compenetrou do “em que consistia a homenagem”, foi saindo. Há factos que me fogem ao entendimento. O que esperavam?! Uma reencarnação? Os irmãos que restam e nem sei quem sejam? A mulher se a tinha? Pelos vistos não lhes bastava a apresentação que foi fiel ao próprio Lobo Antunes “ a melhor biografia de um escritor são os seus livros”.

        E lembrei-te no confinamento a que te obrigou a doença, a cama de onde saíste para a morte, uma visita ou duas por semana. E isto durante mais de cinco anos. Vizinhas que nunca te visitaram e lá estavam no funeral, amigos impressionáveis que não puseram pé em tua casa, querendo ignorar a alegria que sentias quando e se o fizessem; família que ia ver-te uma vez no ano ou nem sequer isso, primas que nunca pisaram o teu chão. Parentes que vieram para assistir ao transporte do teu corpo sem vida. Vieram a quê?! Talvez a seres filha única e herdada. Não escreveste nada, apenas viveste. Não casaste. Não tiveste filhos. Escolheste por tutor um amigo de infância.

        É isto a vida. Também.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Requiem

 

        Pouco sabia de ti antes da doença. Foi o teu olhar meio perdido que me fez aproximar. Pedi o teu número, liguei. Aceitaste um chá. Encontrámo-nos algumas vezes. E depois sumiste. Não insisti, era a tua vida, tinhas os teus amigos de sempre. Passou talvez um ano e alguém me falou de ti, que entraras num processo de consulta atrás de consulta sem diagnóstico preciso. Ainda assim limitei-me a alguns sms a que respondias sem outra proximidade. Enviei-te um sms de Natal e respondeste com o nome da doença -PSP, filhos e sobrinhos (dois foram teus alunos) rapidamente procuraram na net, todos desconhecíamos o que fosse. Visitei-te no pós Natal e passei a fazê-lo semanalmente. Assisti às perdas de equilíbrio, às quedas, ao partir de alguns ossos, às nódoas negras. Mas nesse tempo ainda te deslocavas pela casa. Breve passaste ao andarilho e logo acamaste numa dificuldade progressiva de tudo, que desembocou na incapacidade: deixaste o telemóvel, a escrita, a leitura, a TV; tudo se foi tornando impossível: falar, deglutir, mexeres-te na cama sem cair. E sempre consciente da degradação. Tiveste uma cuidadora ímpar e com a força suficiente para te carregar em peso quando necessário. No último ano, a degradação era tão forte que as visitas me faziam sofrer antecipada e posteriormente. Por vezes adiava um dia ou dois, atardava-me cobardemente juntando coragem para ser bem disposta e te fazer rir; no íntimo, sabia que ia ver-te pior, em cada semana perdias alguma capacidade. Na passada semana desejei que morresses, te libertasses dessa amarra que te tolhia dos pés à cabeça. Tempos houve em que o suicídio te parecia a melhor solução, discutimos muito tema, esse foi um deles. Mas nada podias, perderas toda a autonomia. 

        Morreste por erro médico. Diz o ditado que Deus escreve direito por linhas tortas: foi o momento da libertação. Voaste.

sábado, 4 de julho de 2026

A Leveza da Vida

 

        Cheguei de férias e pensei postar sobre esse tempo que é inteiro lazer. Esqueço a casa e suas represálias, o portátil faz retiro espiritual e o tlm cinge-se ao uso mínimo, que é como quem diz, só para filhos. Saiu um post diferente. Parece-me que o motivo é má consciência – tanta guerra inútil, mas que mata, derruba casas, destrói vidas e haveres. Tanto mal reunido na mente dos homens com poder, esses que deviam ser exemplo; e a voracidade do fogo a ajudar, comendo hectares de vida. Dói abrir a TV e assistir a tanta chama enraivecida, verificar ao minuto a violência progressiva desta máquina de destruição natural durante estes dias de sobreaquecimento. Portanto, não apetece contar de quartos limpos, varandas arejadas e viradas ao verde bem tratado onde quase ninguém passa e eu em leitura remansosa com paisagem ao fundo; e quase me envergonha descansar os olhos na horta cuidada e prolífica, antecipando o mar e uma praia em tudo semelhantes ao que considero minha pertença não exclusiva, excepto na tepidez da água que nos abraça íntima, gesto que repetimos a gosto.

        É verdade que não existem cardos do mar azulando pelas dunas, nem aquelas espantosas flores brancas que parecem açucenas e me sideram em cada vez que as contemplo enraizadas na areia, digo com os meus botões que quase flutuam por entre os grãos, sem água doce que lhes valha. Acredito que sejam tão lindas como as flores do deserto. Abismo nestas maravilhas improváveis da minha praia. Que ora nem vejo por ter encontrado caminho mais fácil e que não danifica a duna.

        Mas também é certo que me antecipo à multidão turística, e nas horas de calor intenso descanso no quarto e volto mais tarde para a encontrar igual, salvo a água mais longe ou mais perto, segundo o que a maré determina. É um lugar como tantos: vive da animação turística em época balnear. Tem bairros senhoriais que são casas de praia e ficam na sua maioria fechadas durante parte do ano. Uma pena! As ruas, a fachada e a pintura são iguais e com barras: brancas com barra azul, azul com barra branca, amarelas com barra branca e o inverso. Existe um passeio junto à linha da costa bordado pelo verde das árvores e onde passa o que suponho seja um riacho atravessado por várias pontes pequenas. Mais à frente, um enorme quadrado de água por certo marítima, surpreende. Apetece andar de bicicleta; neste lugar encontrei jovens e menos jovens pedalando.

        Talvez por ser madrugadora, em qualquer hotel, entro na sala de pequeno almoço no primeiro quarto de hora de abertura. Ali, os ingredientes apresentavam extensa variedade, possibilitando pequenos-almoços de natureza diversa: do muito frugal ao mais pesado, com bife, feijões, ovos com bacon e sem, ovos estrelados na hora, etc, etc. Havia pouca gente, quase toda portuguesa, e demorava-me a olhar os comensais ocupados a encher pratos sobre pratos e a digeri-los com afã digno de nota. Havia neles um isolamento de tudo, eram eles e o alimento; não levantavam os olhos dos pratos e, pressurosos, devoravam-lhes o conteúdo como se disso lhes dependesse a vida (em parte dependia). Eram tão velhos como eu, alguns um bocadinho mais. O que leva alguém a alimentar-se com tamanha sofreguidão?! Não é nada poética a imagem mais nítida que me ficou das férias, mas gravou-se-me aquela pressa na mastigação e o vaivém de pratos que os funcionários iam retirando e eles repondo. Encerrado o expediente, levantavam-se prestes e abandonavam o que me convenço hoje ser o seu santuário. Isto porque, logo que a sala de almoço abria portas, era vê-los, formiguinhas afadigadas. E eu que me considero pessoa de “boa boca” e não debico, pergunto-me como e onde encontravam o apetite para almoçar. Era refeição em que não os seguia, estava acompanhada e o restaurante repleto. Quem sabe comiam apenas uma saladinha e estou eu aqui numa de má língua...