A música é arte antiga. Merece respeito. Música criada com palavras; ou só ela, flutuando numa sala desde os grandes espaços ao recôndito de um escaninho. Música assim não conhecíamos.
Sabíamos músicas da natureza – do leve desprender de uma folha ao murmúrio da água correndo nas regadeiras; ninguém aflorara sequer as ondas mansas da praia estival ou o bravio e exasperado mar que o inverno constrói. Sentíamos a brisa num sussurro a brincar-nos nos cabelos e o uivo do vento que nos levava de vencida, braços abertos, “olha eu a andar para a frente e a ir para trás”. Doía-nos haver gente que não pode ouvir e apenas sente da música a vibração. Desses sabíamos, havia dois gémeos surdos-mudos a morar lá em cima.
Da infância guardámos a música dos guizos e das patas das mulas puxando lestas carroças, a voz das mães jovens cantando a seus meninos, as estridências da primeira vez num comboio que nos soavam musicais sem que o fossem. Habituámos o ouvido ao leve restolhar dos gatos sobre as folhas quebradiças da figueira, sabíamos o silvo do ar na roda da frente da bicicleta, esperávamos o assobio que nos unia em brincadeiras de quem nasce para o trabalho e antecipa, pelos irmãos mais velhos, a estreiteza do tempo de brincar. Ainda que não seja dito, todos lembramos o som do caldeiro a tocar a água na escuridão do poço, sabemos da torção de enchê-lo e da subida a pulso, a música nascendo da água baldeada que teimava em voltar a si e caía num eco trinado de pureza integral. No fundo da alma de cada um dos gaiatos de rua, mora o som vibrátil da membrana interna das canas que os mais hábeis deixavam exposta para o efeito, “toca lá”; e todos tocávamos apurando o sopro e o lábio inferior até que a membrana rompia e cessava a música. Essa era a nossa gaita de beiços.
Inda sei a música dos grilos e a respiração nocturna das laranjeiras. Outros saberão das modinhas que assobiavam, do conforto alegre de um lume de chão e dos estalos da lenha musicando toda a cozinha; do trinco da porta e da volta da chave, música que a todos descansava de ladrões (o que roubariam, penso hoje).
Imagino que minha mãe me cantasse muita vez; recordo-me de estar sentada nos joelhos de um capitão cujo nome esqueci e a cantar para ele. Ignoro-lhe a figura, mas são memórias de genuína ternura. Se minha mãe me levava a sua casa, a mulher mandava chamá-lo ao quartel e ele ia ver-me. Teria sido um bom pai aquele capitão e julgo que a minha presença faladora e cantadeira lhe dava grande prazer. Não sei quais os seus humores noutros momentos, sei que quando nós dois nos juntávamos ele era feliz e eu também.
O rádio do meu avô acompanhou-me na saúde e na doença, levei-o comigo para todo o lugar. E continuei cantando pela vida para a tornar mais animada e bonita. Ou seria homenagem ao ensinado por minha mãe, embora não a iguale no dom. Que pensarão hoje os meus amigos de então acerca da música e do que cantávamos empoleirados no valado de minha casa?! Alguns já partiram em modo definitivo. Outros terão suas moléstias, estes descasaram, enviuvaram ou apenas foram e são sozinhos, ignorando talvez que todos o somos, que não os imagino com grandes filosofices. Levava-os a ouvir música clássica, hoje um gosto meu?! Mas eu mesma a frequento cada ano menos... Fiz outras amizades, com incentivos musicais próprios. Canto pouca vez e só em alguns momentos me lembro da música, agora ao alcance de um clic.
Prezo cada mais o silêncio que me tem vindo a seduzir; e os pequenos sons - quando uma amiga ri e eleva a sua voz determinada fazendo-me reconhecê-la; se outra trauteia em surdina uma canção; se a gata mia ternamente. E quando os filhos chegam e dizem como quem vem dali perto, “tão mãe”, há um rio que canta na voz deles. Ou na minha alma, que é a mesmíssima coisa.