quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Sem Título

 

        A vida por vezes oferece-nos um rebuçado. Que vale tanto mais quanto menos o esperamos. Um destes dias encontrei na padaria uma antiga aluna. Tenho-a visto ao longo dos anos. Conheço alguma família e soube do curso, do primeiro emprego na terra e depois um salto para Lisboa. Encontrámo-nos de longe em longe no comboio, cada uma lendo o seu livro; esta moda de lugares marcados impediu sempre que nos sentássemos juntas. Mas o seu sorriso mantém a mesma simpatia. No momento, ela bebia um café e eu comprava pão. À minha estranheza por vê-la ali respondeu, consegui mudar-me para esta câmara, agora vivo e trabalho aqui. Dei-lhe os parabéns, disse o de sempre: que bom, está perto de casa, acabaram as viagens diárias de comboio. E rematei com a verdade, gostei muito de a ter como aluna. Perguntei-lhe pela mãe, senhora que eu conhecia vagamente e enviei um abraço acrescentando que ela provavelmente não me conhece. Agradeceu sorridente, ai conhece, conhece, eu falei muito na professora e fiz questão que ela soubesse quem é. Achei um pouco estranho, mas não adiantei. E ela tomou balanço e quando eu já apertava o saco do pão acrescentou ao sorriso, a professora foi muito importante para mim. Respondi, lembro-me muito bem de si, sabe? Mas ela tornou, é que a professora nem faz ideia de quanto foi importante para mim...eu estava a fazer filosofia de 12º porque a nota de matemática fora baixa e não deu para entrar no curso que queria, mas, no final do primeiro teste consigo fiquei desanimada com a classificação que era ainda mais baixa que a de matemática. Pensei que com a filosofia também não ia conseguir. Contudo, no final do teste, lembro-me como se fosse hoje, a professora escreveu, “Vai conseguir melhor. Acredite!”. A professora não faz ideia e nem sabe quanto me ajudou. Nesse ano e noutros - e concluindo o último gole de café -,  na vida. Apeteceu-me abraçá-la.

        Devia ter-lhe mostrado quanto me agradou aquela súbita confissão, mas pus-me a debitar balelas verdadeiras, não me lembro do que escrevi, mas ainda bem que a filosofia lhe serviu. Ela, se serviu professora, tive óptimas notas, entrei no curso que desejava.

        Fiz o caminho de regresso pensando no facto aparentemente sem qualquer importância de ter deixado um comentário num teste. E fez-se presente outra turma a quem quase interessavam mais os meus comentários finais que a classificação. Por onde andarão esses adolescentes que hoje são quarentões. Algum lembrará os meus recados a vermelho no final da prova?! Que de mim será memória?! 

    Nada sabemos do que deixamos nos outros.


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Nuno Markl

 

        É muito fácil simpatizar com Nuno Markl. Gosto do Markl. Como diriam os meus filhos, “o Markl é boa onda”, querendo significar pessoa bem formada, portadora de ingenuidade própria que dá o tom e o faz mais genuíno. Aviso: não o conheço senão da Mixórdia de Temáticas que, embora seja de tempos idos, me dispõe; também ouvi um ou outro diálogo da Comercial em rádio alheio; nunca escutei “O homem que mordeu o cão”; não assisti a nenhum dos espectáculos ao vivo em que participou. Ainda assim, digo que é fácil estimar o Markl e “ver” que é um bom profissional (se não for, olhem, falhou-me a intuição). Um bocado ao acaso – modo em que vejo TV – vi-o claramente visto, numa entrevista; disseram-me que no programa “Alta definição”. A entrevista já ia a meio, mas agradeço o facto de contar a sua experiência sem lamechices e também sem esconder o drama. Viver com dois AVC é obra. Markl cumpre o calendário na íntegra: medicação, fisioterapia, tudo que lhe vai sendo prescrito. Está ciente de que o tempo de recuperação é variável, sempre lento, pode nunca recuperar totalmente. E vai somando cada pequena vitória – a recuperação do AVC é o seu Everest pessoal.

        Este menino grande trabalhava em excesso e tocava muitos burros; “comia só porcarias”(disse ele); dormia pouco devido ao número de actividades em que se metia e a ser o tal bom profissional bem preparado; e “não sabia dizer não” aos pedidos. Nos últimos tempos, se acaso se encontrava com alguém fora de pressas, perguntava-se a quem estaria a falhar naquela hora. O rapaz vivia em stress. Espero que tenha aprendido a dizer sim ao que o corpo pede – farto de pedir e não ser atendido, esse que vive com ele colapsou pelo lado mais evidente. A canção de Variações não inventa, o corpo é que paga. Não precisa dizer que não, basta-lhe dizer sim, como se vê. É que o corpo não lhe pregou um raspanete, sovou-o sem dó e fez greve de um dos lados. Sorte, os danos não atingiram a mente. Ao longo do programa Nuno riu, gracejou, disse que o seu objectivo agora é servir de exemplo e acompanhar os que como ele sofreram e sofrem as consequências de um AVC com danos colaterais; acrescentou que, talvez daqui a um ano faça um espectáculo bem humorado a contar a totalidade da sua experiência. Li naquele “talvez” o irremissível assimilado: a vida pode apagar-se num repente. Ouvi-o dizer que repetia chavões, frases mais que batidas, mas verdadeiras: o importante é o amor e a amizade. E, caso curioso, dentro do amor está, além das pessoas que ama e lhe retribuem amor e amizade (as que lhe valem nesta fase), está, dizia eu, o amor a fazer rádio.

        Gente como o Markl não é vaidosa, não se acha importante, trabalha por gosto. O jovem disse mesmo que se perguntava muita vez se deixaria de si alguma coisa em alguém, ou tudo se perdia destituído de grandeza no corre-corre da vida.

        Quem nos dera muitos como tu, Markl! Apesar de algumas maldades parvas, recebes diariamente inúmeros incentivos de quem gosta de te ouvir na rádio e aproveitou o balanço para te dizer porquê - foi preciso haver a doença para entenderes que a tua presença e voz fazem falta no país e que o humor “muito Markl” ajuda quem o ouve, as tuas conversas são o alka-seltzer no indigesto dos dias.

Nota que não tem a ver: Hoje nem vinte pessoas assistiram às comemorações do dia em que a República Portuguesa faz anos. Claro que houve convidados, mas refiro-me a todos os que chegam sem convite e este ano não chegaram. Não interessa se os portugueses estão zangados, com quem. O aniversário da república portuguesa é um lado positivo do País. Que é isso de não irem apagar as velas?!

Viva a Res pública!




quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Música de Todos os Dias

 

        A música é arte antiga. Merece respeito. Música criada com palavras; ou só ela, flutuando numa sala desde os grandes espaços ao recôndito de um escaninho. Música assim não conhecíamos.

        Sabíamos músicas da natureza – do leve desprender de uma folha ao murmúrio da água correndo nas regadeiras; ninguém aflorara sequer as ondas mansas da praia estival ou o bravio e exasperado mar que o inverno constrói. Sentíamos a brisa num sussurro a brincar-nos nos cabelos e o uivo do vento que nos levava de vencida, braços abertos, “olha eu a andar para a frente e a ir para trás”. Doía-nos haver gente que não pode ouvir e apenas sente da música a vibração. Desses sabíamos, havia dois gémeos surdos-mudos a morar lá em cima.

        Da infância guardámos a música dos guizos e das patas das mulas puxando lestas carroças, a voz das mães jovens cantando a seus meninos, as estridências da primeira vez num comboio que nos soavam musicais sem que o fossem. Habituámos o ouvido ao leve restolhar dos gatos sobre as folhas quebradiças da figueira, sabíamos o silvo do ar na roda da frente da bicicleta, esperávamos o assobio que nos unia em brincadeiras de quem nasce para o trabalho e antecipa, pelos irmãos mais velhos, a estreiteza do tempo de brincar. Ainda que não seja dito, todos lembramos o som do caldeiro a tocar a água na escuridão do poço, sabemos da torção de enchê-lo e da subida a pulso, a música nascendo da água baldeada que teimava em voltar a si e caía num eco trinado de pureza integral. No fundo da alma de cada um dos gaiatos de rua, mora o som vibrátil da membrana interna das canas que os mais hábeis deixavam exposta para o efeito, “toca lá”; e todos tocávamos apurando o sopro e o lábio inferior até que a membrana rompia e cessava a música. Essa era a nossa gaita de beiços.

        Inda sei a música dos grilos e a respiração nocturna das laranjeiras. Outros saberão das modinhas que assobiavam, do conforto alegre de um lume de chão e dos estalos da lenha musicando toda a cozinha; do trinco da porta e da volta da chave, música que a todos descansava de ladrões (o que roubariam, penso hoje).

        Imagino que minha mãe me cantasse muita vez; recordo-me de estar sentada nos joelhos de um capitão cujo nome esqueci e a cantar para ele. Ignoro-lhe a figura, mas são memórias de genuína ternura. Se minha mãe me levava a sua casa, a mulher mandava chamá-lo ao quartel e ele ia ver-me. Teria sido um bom pai aquele capitão e julgo que a minha presença faladora e cantadeira lhe dava grande prazer. Não sei quais os seus humores noutros momentos, sei que quando nós dois nos juntávamos ele era feliz e eu também.

        O rádio do meu avô acompanhou-me na saúde e na doença, levei-o comigo para todo o lugar. E continuei cantando pela vida para a tornar mais animada e bonita. Ou seria homenagem ao ensinado por minha mãe, embora não a iguale no dom. Que pensarão hoje os meus amigos de então acerca da música e do que cantávamos empoleirados no valado de minha casa?! Alguns já partiram em modo definitivo. Outros terão suas moléstias, estes descasaram, enviuvaram ou apenas foram e são sozinhos, ignorando talvez que todos o somos, que não os imagino com grandes filosofices. Levava-os a ouvir música clássica, hoje um gosto meu?! Mas eu mesma a frequento cada ano menos... Fiz outras amizades, com incentivos musicais próprios. Canto pouca vez e só em alguns momentos me lembro da música, agora ao alcance de um clic. 

        Prezo cada vez mais o silêncio que me tem vindo a seduzir; e os pequenos sons - quando uma amiga ri e eleva a sua voz determinada fazendo-me reconhecê-la; se outra trauteia em surdina uma canção; se a gata mia ternamente. E quando os filhos chegam e dizem como quem vem dali perto, “tão mãe”, há um rio que canta na voz deles. Ou na minha alma, que é a mesmíssima coisa.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Memórias de Bolso

 

        O tempo correu e, por razões de trabalho e estudo, rareei na costureira, o guarda roupa limitado a calças de ganga e compridas blusas em tricot, a grossura do fio dependendo das estações. No verão, dava-me ao luxo de mandar fazer umas blusinhas airosas e frescas. Foi num desses dias encalmados que, enquanto me sorria e dava passagem, logo nos cumprimentos, deixou cair uma lágrima solitária que ficou a escorrer-lhe rugas abaixo. E de imediato, a menina desculpe, mas é que desde que morreu a minha filha estou assim, choro por tudo e nada; e agora gostei de a ver, e olhe, lembrei-me dela, sei lá, parecia-me ela ao postigo da porta…. e, num gesto rápido, como que arrependida da fraqueza, puxou da brancura de um lenço com barrinha preta e enxugou o rosto. O que nos faz a saudade! Nunca fui parecida com Inês, mas saiu-me espontâneo, Eu conheci a sua Inês. E ela numa admiração, de onde? Pois se ela quase não saía de casa… - e toda se suspendeu na expectativa de alguém que, não sendo da vizinhança, lhe conhecera a filha. Ela andava no Centro Social com a prima, aprendiam a bordar crivo e eu era garota de escola e ia aprender ponto-pé-de-flor. – esclareci. Sorriu, o que ela gostava de lá andar! Entrava em casa, mãezinha se visse a professora, sabe tantos pontos como não imagina; e contava de tudo: o que ali diziam e quem eram as outras raparigas, onde moravam. Mas foi só uma semana, o tempo que o pai esteve fora em trabalho.

        E fizemos de conta que não sabíamos o que acontecera depois. Mas eu insisti, cantava tão bem a sua Inês! Minha mãe também cantava bem, mas a Inês cantava ainda melhor; todos os dias lhe pedíamos que cantasse alguma coisa. A senhora deu-me um sorriso grato os olhos brilhando lágrimas, é verdade, cantava muito bem. – puxou de novo o lencinho e enxugou os olhos – As meninas da costura faziam o mesmo. Olhe, até o namorado lhe pedia que cantasse para ele. O namorado de que eu não soubera. Quando lho disse ela esclareceu, era aqui quase vizinho, muito bom rapaz que ele é, estavam bem um para o outro – e ficou-se a meditar. - Quando a minha Inês adoeceu já eram noivos de casamento marcado - e eu tonta, a partilhar da sua comoção. Refez-se um pouco e continuou, a voz a faltar-lhe de quando em vez - A minha Inês já tinha até escolhido o vestido e o véu no Tito Cunha; dizia-me, mãezinha vimos as duas comprá-lo que já juntámos dinheiro para ele….- fez uma pausa muito longa e quando conseguiu, acrescentou, - eu é que fui comprá-lo, a menina nem sabe o que me custou entrar naquela loja sozinha, para comprar o vestido de noiva de que ela gostava. A minha filha estava a morrer mas queria vestir o vestido viva - mais uma pausa de lágrimas – Eu e as enfermeiras, aquele pessoal todo do hospital que a conhecia, ajudou e esteve presente na cerimónia. O noivo levou-lhe o ramo e foi assim que casaram. Estava magrita e pálida, mas ainda assim tão bonita, a minha filha. Mas fizemos-lhe a vontade, não queria morrer solteira, queria ter o nome dele no dela, já que mais não podiam.

        E eu que podia fazer perante isto? Face ao dito e ao subentendido?! Nada senão esperar que o desgosto voltasse ao silêncio de hábito, se remetesse ao recôndito de mãe tão profundamente sofrida. Quando já guardava o lenço no bolso, rematou, a menina não é daqui, não sabe estas coisas, mas olhe, o rapaz tanto a visitou no cemitério que acabou casado com uma rapariga que, no mesmo dia, perdeu o namorado num acidente e ali o visitava também. Gosto dele como de um filho e ela andou aqui na costura muitos anos - encolheu os ombros conformados -, a vida tem sempre de continuar.

        Muitos anos mais tarde, já ela, felizmente, viúva, quase nos tornámos vizinhas. Reencontrámo-nos na retrosaria. Toda ela em negro, era uma velhinha tão amável e sorridente como não se imagina. E detinha a mesma voz maviosa. Conheceu-me, convidou-me para sua casa, contou-me dos filhos vivos, dos netos, de todos serem excepcionalmente bons e atentos com ela. Convidou-me para um chá. Hoje, de certeza, repousa junto da filha. O genro que foi no papel, criou parcialmente dois filhos e finou-se com a mesma doença de Inês. Como usava dizer a senhora X, a vida tem sempre de continuar, é requisito da espécie - digo eu.

domingo, 13 de setembro de 2026

Memórias de Bolso

 

        Naquele pleno de ausências, cada banquinho marcando o lugar de uma aprendiz, a máquina de costura antiga, de roda e correia às voltas com ela se os pés na grade lhe impunham o impulso devido, era o único aparato; e a senhora Z, franzina, rosto miudinho e afável surgindo de dentro do lenço, fazia corpo com ela. Se por algum motivo se erguia e abandonava a cadeira, a máquina exibia uma nudez inquieta e desfigurada que ela apaziguava ao sentar-se. Se a máquina fosse mulher, eu diria que o acto de sentar-se a vestia.

        Para lá da porta interior, sempre fechada e sem ruídos audíveis, crescia o mistério. Se alguém por lá cirandava, era silencioso; de modo que me dei à liberdade de imaginar na cozinha, sentado a uma mesa baixa, um homem ríspido e carrancudo, voz de trovão e a que só faltava o chicote para completar o impo de ferocidade; e via sem ter visto, a raiva com que desapertava o cinto e batia nos filhos e na mulher que os estremecia, a voz a perder-se num fio de ternura se os nomeava, o meu joão, o meu josé, e firme nesse amor atirava-se a protegê-los, braços abraçando a dor e o corpo deles que apenas por ela se calavam ao progenitor carrasco.

        Imaginei que havia um jardim nas traseiras. Livres de escadas e prédios, todos os pobres tinham um jardim em qualquer lugar. Havendo casa e nela mão de fêmea, a pobreza era florida. Podia ser entremeado com as couves, existir na bordinha do canteiro das nabiças, junto ao poço de picota, ao redor da casa, na frente, atrás, dos lados. Onde pudesse ser. Ou apenas havia um conjunto de latas velhas que o merceeeiro atirava fora e elas repescavam para plantar malvas que ressequiam de calor, brincos de princesa que resguardavam do sol com guarda chuvas sem préstimo, cabos bicudos talhados em tábua moldada a canivete para melhor espetarem na terra e eles cumprindo missão, desasados por falta de varetas. Se não havia casa de pobre sem flores, era certo que a senhora Z cultivava com muito amor esse jardim que a filha plantara, ambas tinham acompanhado os sucessos das flores, mondado as ervas daninhas, abacelado algumas doações da vizinhança que vinha enquanto o facínora estava fora em trabalho, e uns dias depois tinham envasavam ou punham na terra. E decerto Inês por ali se perdia, sonhando futuros que não lhe chegaram. Ou falando com elas, afagando uma corola aqui e ali, levantando uma haste pendida, ordenando a beleza com as mãos que tão bem recordo. Juventude tão solitária teria de expandir-se por algum lugar, qualquer coisa a que chamasse sua. Julgo que ela e as flores que não vi gozavam entre si dos pequenos segredos que existem entre quem se gosta e quase nem precisam ser ditos. A juventude quando é sã, é pródiga no bem querer, e Inês sê-lo-ia mais pela circunstância. É sabido que flores cuidadas com amor crescem melhor e mais bonitas. E o mesmo sucede a qualquer animal, o amor satisfeito dá-lhes vigor e alegria. Portanto, é quase certo que, se acaso tinha ordem para sair, a senhora Z depenava o jardim e ia  oferecer à filha braçadas das suas flores preferidas. Aquele espaço tornara-se sagrado, estava imbuído da presença de Inês. Hoje também penso que o pai o reparava com saudade (talvez remorso). Nenhuma maldade compromete a totalidade do ser humano. 

        Imaginava tudo isto e não conseguia coragem para contar que tinha conhecido a jovem, que ela me encantara a meninice, que fora quase como uma visão, tão curto o tempo em que o puro cristal da sua voz atravessou as nossas vidas. Mas queria muito dizer, era como um desabafo-dívida. De cada vez que a visitava pensava que talvez ela abordasse de algum modo o tema da filha, surgisse uma oportunidade. Esperava que me contasse do desgosto que a roía e lhe minguava a figura, maldissesse a morte ou a má sorte que a perseguia. Mas a senhora Z falava de botões, colchetes, feitios de saias e blusas, das meninas que ensinava a costurar e das conversas que tinha com elas. E o mais, calava.

(Cont.)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Última Hora

 Informo os meus (poucos) leitores que por questões de saúde pessoal vou interromper durante uma semana (será sufivciente?) a actividade neste blogue.

Até lá

Fiquem bem e que um anjo benévolo vos guarde 

domingo, 30 de agosto de 2026

Memórias de bolso

 

        Contudo, depois de muito instada, minha mãe afirmou conhecer-lhe os pais, dizia-me que ela fora menina como eu, facto que me custava a engolir, tinha a certeza absoluta de que nunca ela fora uma criança enfezada e perguntadeira, antes pensava nela como uma espécie de capuchinho vermelho, criatura amorável e semelhante à das historinhas que me contavam.

        Perante aquela inesperada ausência, na primeira semana pensei consternada, “está doente”, julgava que as doenças caíam em cima dos mortais com a rapidez do raio, eram um acaso infeliz, agora estou bem, agora já não estou. Contudo, tive de me render à evidência, passado o meio da segunda semana, e após mais de dez dias de ansiedade e desilusão, convenci-me: não voltaria. Então, abri cerrada inquisição dirigida às jovens que bordavam com ela. Ninguém sabia (ninguém me quis dizer?!). 

        Passava mais de um ano quando, a propósito do seu nome, lembrei a inclemência daquela falta nunca explicada. Chateei tanto minha jovem prima que ela, talvez incentivada  pelo intervalo temporal, capitulou desenrolando o segredo: a garota fora proibida pelo pai que era homem de temer, batia na mulher e na filha e não as deixava pôr pé fora de portas: quase ninguém as via, só ele  comprava e dispunha em casa; ora ambas tinham transgredido enquanto ele trabalhava longe e apenas regressava ao fim de semana. E que eu não abrisse o bico. Se o monstro viesse sequer a desconfiar do que sabíamos dele, vingava-se nelas.

            Minha prima sempre pendeu para o trágico pelo que gravou em mim algumas imagens que me violentaram a imaginação e nunca esquecerei, pintava-me quadros bem negros acerca da nossa condição de mulheres e do que me esperava e ela já conhecia, mas, no tocante a Inês, não duvidei: revi o semblante da jovem, bailava-lhe nos olhos a alegria de frequentar a sessão de bordados; reparara ainda que a despedida no fim de semana divergia, era reticente. Se alguém inquiria, vens na Segunda(?), o rosto anuviava e ela era dúbia e entristecida, não lhe vinha o sorriso diário dos "até amanhã". Mas num ápice voltava ao seu ser de alegria comedida e eu assumia tudo por conta de brincadeira comum. Era frequente haver entre elas segredinhos e risos que nos intrigavam - não entendíamos nem víamos razão para tanto secretismo e tomávamos como fazendo parte de serem mais velhas, uma vez que as nossas perguntas ficavam no ar ou apenas provocavam mais risos contidos que nos reduziam à condição de infância ignorante e nos calavam a boca enquanto a mente  remoía. Portanto, mal o segredo me foi desvendado, condoí até às lágrimas e lamentei de alta voz não ter tido conhecimento no tempo certo. Via-a interpôr-se entre pai e mãe e não me impedi de pintar a sua sorte com nódoas negras por todo o lado e muita lágrima de desgosto e dor. Imaginava-lhe os braços tentando proteger-se dos golpes que, quem sabe, se dirigiam à mãe, a principal responsável pelo dislate. A minha experiência de vida não ajudava ao quadro: as crianças frequentavam a rua, a casa servia para refeições, trabalhos de casa e sono nocturno. Uma criança confinada ao lar estaria doente. Pensei no quanto gostaria de acompanhá-la em cativeiro (nunca me veio o pensamento de que a minha presença podia não ser desejada e não ajudar; de resto, que faria ela com a miniatura que eu era?!), mas minha peremptória prima cortou cerce: não saía de casa, nem aceitava visitas; para mais, morava “nos foros de cima”; ora eu desconhecia tal paradeiro.

         Quando expus a questão a minha mãe ela apenas murmurou, “Os homens dessa família têm todos mau feitio; coitadinha da Inês e da mãe”. E senti naquela afirmação uma tristeza funda, como se uma parte de minha mãe lhes pertencesse também; era como se dissesse, "não há maneira de alguém lhes valer". Senti-me embater num impossível que não era a morte. Desconhecia que vivemos rodeados de impossíveis e o caminho se faz a construir possibilidades não infalíveis. Não me lembro do que pensei por haver uma família com gente tão malvada, mas desconhecia-os a todos e, como é natural da mente infantil, fui esquecendo o desgosto e também Inês. Aprendido o ponto-pé-de-flor, tive autorização materna para abandonar os bordados e dediquei-me a interesse que as carrinhas da Gulbenkian propiciavam, bem como à “Fagulha”, revista que uma professora condescendente me dava a ler.

        Ignoramos a imagem legada aos outros, sobretudo aqueles em quem nunca reparamos: porque não são da nossa idade ou porque são, por terem outra condição e outros problemas ou os mesmos, porque cruzamos com inúmeras pessoas todos os dias da nossa vida fremente. Acredito ser nesses outros em que não pensamos, nesses que nos vêem um dia e outro sem que deles demos conta, que podemos deixar imagens mais próximas do eu que somos e, tanta vez, nós mesmos ignoramos. Não sei se me ajudou a viver melhor, mas, ao invés do que parecia, acredito que também Inês é presença na minha vida e me construiu, está dentro de mim como tijolo em parede. Guardo ainda a imagem do bordado a crescer enquanto nos embalava na canção que preferíamos e de que me ficou um pedaço da letra, “conta a lenda que um certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar”. Garota de escola, não sabia o que eram ninfas; e nem precisava saber.

(cont.)