Na minha aldeia que não chega a sê-lo - é um lugar -, segmento balizado na beira da Nacional por duas placas, existem algumas singularidades das que caracterizam lugarejos breves e tão sem importância que nem constam dos mapas. Teve um nome antigo que poucos conhecem: era feminino e aludia à natureza do solo - inda hoje não consigo entender se aquela designação da Nacional, que lhe assinala princípio e fim, é masculina ou feminina. Quem a terá inventado?! Preferia esse nome que lhe delatava a natureza do solo e tinha género. O actual, definitivo e andrógino, pende para o masculino.
Pois neste lugar de abundante pobreza, tudo foi difícil; não chegava a electricidade e a água vinha dos poços e era emprestada ou vendida a terceiros – nem todos tinham a benesse de poço próprio e a situação mais comum era a da partilha, o poço era aberto pelo esforço dos homens interessados em ter água sua e situava-se no limite dos terrenos, metade para cá metade para lá. Que me lembre, a partilha da água era pacífica. É verdade que abundavam brigas de taberna e sovas nas mulheres com maridos de mau vinho ou pior carácter. Em compensação, muito ali aportava e havia indulgência geral para casos escabrosos: homens com duas e três mulheres, todos cohabitando a mesma casa em preclara harmonia, sem gritos ou ciúme que se notasse; irmãos que viviam maritalmente como coisa natural; gigantes descalços e brutos de feição, com alma de infância que as crianças não reconheciam fugindo deles a sete pés; mulheres asseadas e trabalhadoras, cheias de filhos, cada um de seu pai, mas que conservavam o marido primeiro que todos conheciam por "corno manso", um senhor bem apessoado que não trabalhava ao campo, usava gravata e fora adoptado pelos autóctones; amantes de só de noite e muito sui géneris por serem ambos livres e muito se esconderem com pontinhas de rabo à vista; senhores importantes que ali depunham as suas meninas que os nativos mal tinham ensejo de espreitar porque viviam na clausura de casas-castelo, uma formosura de sebe-soldado a defendê-las. Tinham estatuto e modo de vida acima da populaça, não se misturavam e saíam de automóvel apenas com os protectores. Eram supremamente admiradas pela condição de saberem prender a si gente graúda.Os filhos dessas relações frequentavam a escola de todos e eram admirados por qualquer: vestiam bem, comiam lanches invejados até ao anátema do sonho, usavam material escolar diferente e muito mais bonito e tinham todo ar citadino que nos faltava. Enfastiados, bebiam sumos de laranja em frasco, que levávamos ao limite da inveja.
É evidente que, como em lugares semelhantes, havia e inda há algum vocabulário próprio e de uso corrente a acompanhar costumes e hábitos: Limitamos o termo “aventar” a “deitar fora”; não se diz “vou a casa de”... mas: “vou à da/do”; e dizemos, “estou desasada” querendo referir-nos a um cansaço extremo provocado por trabalho extenuante.
Também eu, se partes, quando partes, fico “desasada” no sentido mais estrito e não usado por cá: levas contigo as minhas asas, fico na terra, focinho rente ao chão, olhos de cão mal morto. Contudo, o amor tem de ser leve ao outro, não posso e nem quero deixar-te perceber o peso da tua ausência. Podia utilizar termo mais bonito, mas somos de onde somos, "desasada" é a a forma que me pertence. E que a vida te não pese e sejas feliz.