Naquele pleno de ausências, cada banquinho marcando o lugar de uma aprendiz, a máquina de costura antiga, de roda e correia às voltas com ela se os pés na grade lhe impunham o impulso devido, era o único aparato; e a senhora Z, franzina, rosto miudinho e afável surgindo de dentro do lenço, fazia corpo com ela. Se por algum motivo se erguia e abandonava a cadeira, a máquina exibia uma nudez inquieta e desfigurada que ela apaziguava ao sentar-se. Se a máquina fosse mulher, eu diria que o acto de sentar-se a vestia.
Para lá da porta interior, sempre fechada e sem ruídos audíveis, crescia o mistério. Se alguém por lá cirandava, era silencioso; de modo que me dei à liberdade de imaginar na cozinha, sentado a uma mesa baixa, um homem ríspido e carrancudo, voz de trovão e a que só faltava o chicote para completar o impo de ferocidade; e via sem ter visto, a raiva com que desapertava o cinto e batia nos filhos e na mulher que os estremecia, a voz a perder-se num fio de ternura se os nomeava, o meu joão, o meu josé, e firme nesse amor atirava-se a protegê-los, braços abraçando a dor e o corpo deles que apenas por ela se calavam ao progenitor carrasco.
Imaginei que havia um jardim nas traseiras. Livres de escadas e prédios, todos os pobres tinham um jardim em qualquer lugar. Havendo casa e nela mão de fêmea, a pobreza era florida. Podia ser entremeado com as couves, existir na bordinha do canteiro das nabiças, junto ao poço de picota, ao redor da casa, na frente, atrás, dos lados. Onde pudesse ser. Ou apenas havia um conjunto de latas velhas que o merceeeiro atirava fora e elas repescavam para plantar malvas que ressequiam de calor, brincos de princesa que resguardavam do sol com guarda chuvas sem préstimo, cabos bicudos talhados em tábua moldada a canivete para melhor espetarem na terra e eles cumprindo missão, desasados por falta de varetas. Se não havia casa de pobre sem flores, era certo que a senhora Z cultivava com muito amor esse jardim que a filha plantara, ambas tinham acompanhado os sucessos das flores, mondado as ervas daninhas, abacelado algumas doações da vizinhança que vinha enquanto o facínora estava fora em trabalho, e uns dias depois tinham envasavam ou punham na terra. E decerto Inês por ali se perdia, sonhando futuros que não lhe chegaram. Ou falando com elas, afagando uma corola aqui e ali, levantando uma haste pendida, ordenando a beleza com as mãos que tão bem recordo. Juventude tão solitária teria de expandir-se por algum lugar, qualquer coisa a que chamasse sua. Julgo que ela e as flores que não vi gozavam entre si dos pequenos segredos que existem entre quem se gosta e quase nem precisam ser ditos. A juventude quando é sã, é pródiga no bem querer, e Inês sê-lo-ia mais pela circunstância. É sabido que flores cuidadas com amor crescem melhor e mais bonitas. E o mesmo sucede a qualquer animal, o amor satisfeito dá-lhes vigor e alegria. Portanto, é quase certo que, se acaso tinha ordem para sair, a senhora Z depenava o jardim e ia oferecer à filha braçadas das suas flores preferidas. Aquele espaço tornara-se sagrado, estava imbuído da presença de Inês. Hoje também penso que o pai o reparava com saudade (talvez remorso). Nenhuma maldade compromete a totalidade do ser humano.
Imaginava tudo isto e não conseguia coragem para contar que tinha conhecido a jovem, que ela me encantara a meninice, que fora quase como uma visão, tão curto o tempo em que o puro cristal da sua voz atravessou as nossas vidas. Mas queria muito dizer, era como um desabafo-dívida. De cada vez que a visitava pensava que talvez ela abordasse de algum modo o tema da filha, surgisse uma oportunidade. Esperava que me contasse do desgosto que a roía e lhe minguava a figura, maldissesse a morte ou a má sorte que a perseguia. Mas a senhora Z falava de botões, colchetes, feitios de saias e blusas, das meninas que ensinava a costurar e das conversas que tinha com elas. E o mais, calava.
(Cont.)