quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Memórias de Bolso

 

        O tempo correu e, por razões de trabalho e estudo, rareei na costureira, o guarda roupa limitado a calças de ganga e compridas blusas em tricot, a grossura do fio dependendo das estações. No verão, dava-me ao luxo de mandar fazer umas blusinhas airosas e frescas. Foi num desses dias encalmados que, enquanto me sorria e dava passagem, logo nos cumprimentos, deixou cair uma lágrima solitária que ficou a escorrer-lhe rugas abaixo. E de imediato, a menina desculpe, mas é que desde que morreu a minha filha estou assim, choro por tudo e nada; e agora gostei de a ver, e olhe, lembrei-me dela, sei lá, parecia-me ela ao postigo da porta…. e, num gesto rápido, como que arrependida da fraqueza, puxou da brancura de um lenço com barrinha preta e enxugou o rosto. O que nos faz a saudade! Nunca fui parecida com Inês, mas saiu-me espontâneo, Eu conheci a sua Inês. E ela numa admiração, de onde? Pois se ela quase não saía de casa… - e toda se suspendeu na expectativa de alguém que, não sendo da vizinhança, lhe conhecera a filha. Ela andava no Centro Social com a prima, aprendiam a bordar crivo e eu era garota de escola e ia aprender ponto-pé-de-flor. – esclareci. Sorriu, o que ela gostava de lá andar! Entrava em casa, mãezinha se visse a professora, sabe tantos pontos como não imagina; e contava de tudo: o que ali diziam e quem eram as outras raparigas, onde moravam. Mas foi só uma semana, o tempo que o pai esteve fora em trabalho.

        E fizemos de conta que não sabíamos o que acontecera depois. Mas eu insisti, cantava tão bem a sua Inês! Minha mãe também cantava bem, mas a Inês cantava ainda melhor; todos os dias lhe pedíamos que cantasse alguma coisa. A senhora deu-me um sorriso grato os olhos brilhando lágrimas, é verdade, cantava muito bem. – puxou de novo o lencinho e enxugou os olhos – As meninas da costura faziam o mesmo. Olhe, até o namorado lhe pedia que cantasse para ele. O namorado de que eu não soubera. Quando lho disse ela esclareceu, era aqui quase vizinho, muito bom rapaz que ele é, estavam bem um para o outro – e ficou-se a meditar. - Quando a minha Inês adoeceu já eram noivos de casamento marcado - e eu tonta, a partilhar da sua comoção. Refez-se um pouco e continuou, a voz a faltar-lhe de quando em vez - A minha Inês já tinha até escolhido o vestido e o véu no Tito Cunha; dizia-me, mãezinha vimos as duas comprá-lo que já juntámos dinheiro para ele….- fez uma pausa muito longa e quando conseguiu, acrescentou, - eu é que fui comprá-lo, a menina nem sabe o que me custou entrar naquela loja sozinha, para comprar o vestido de noiva de que ela gostava. A minha filha estava a morrer mas queria vestir o vestido viva - mais uma pausa de lágrimas – Eu e as enfermeiras, aquele pessoal todo do hospital que a conhecia, ajudou e esteve presente na cerimónia. O noivo levou-lhe o ramo e foi assim que casaram. Estava magrita e pálida, mas ainda assim tão bonita, a minha filha. Mas fizemos-lhe a vontade, não queria morrer solteira, queria ter o nome dele no dela, já que mais não podiam.

        E eu que podia fazer perante isto? Face ao dito e ao subentendido?! Nada senão esperar que o desgosto voltasse ao silêncio de hábito, se remetesse ao recôndito de mãe tão profundamente sofrida. Quando já guardava o lenço no bolso, rematou, a menina não é daqui, não sabe estas coisas, mas olhe, o rapaz tanto a visitou no cemitério que acabou casado com uma rapariga que, no mesmo dia, perdeu o namorado num acidente e ali o visitava também. Gosto dele como de um filho e ela andou aqui na costura muitos anos - encolheu os ombros conformados -, a vida tem sempre de continuar.

        Muitos anos mais tarde, já ela, felizmente, viúva, quase nos tornámos vizinhas. Reencontrámo-nos na retrosaria. Toda ela em negro, era uma velhinha tão amável e sorridente como não se imagina. E detinha a mesma voz maviosa. Conheceu-me, convidou-me para sua casa, contou-me dos filhos vivos, dos netos, de todos serem excepcionalmente bons e atentos com ela. Convidou-me para um chá. Hoje, de certeza, repousa junto da filha. O genro que foi no papel, criou parcialmente dois filhos e finou-se com a mesma doença de Inês. Como usava dizer a senhora X, a vida tem sempre de continuar, é requisito da espécie - digo eu.

domingo, 13 de setembro de 2026

Memórias de Bolso

 

        Naquele pleno de ausências, cada banquinho marcando o lugar de uma aprendiz, a máquina de costura antiga, de roda e correia às voltas com ela se os pés na grade lhe impunham o impulso devido, era o único aparato; e a senhora Z, franzina, rosto miudinho e afável surgindo de dentro do lenço, fazia corpo com ela. Se por algum motivo se erguia e abandonava a cadeira, a máquina exibia uma nudez inquieta e desfigurada que ela apaziguava ao sentar-se. Se a máquina fosse mulher, eu diria que o acto de sentar-se a vestia.

        Para lá da porta interior, sempre fechada e sem ruídos audíveis, crescia o mistério. Se alguém por lá cirandava, era silencioso; de modo que me dei à liberdade de imaginar na cozinha, sentado a uma mesa baixa, um homem ríspido e carrancudo, voz de trovão e a que só faltava o chicote para completar o impo de ferocidade; e via sem ter visto, a raiva com que desapertava o cinto e batia nos filhos e na mulher que os estremecia, a voz a perder-se num fio de ternura se os nomeava, o meu joão, o meu josé, e firme nesse amor atirava-se a protegê-los, braços abraçando a dor e o corpo deles que apenas por ela se calavam ao progenitor carrasco.

        Imaginei que havia um jardim nas traseiras. Livres de escadas e prédios, todos os pobres tinham um jardim em qualquer lugar. Havendo casa e nela mão de fêmea, a pobreza era florida. Podia ser entremeado com as couves, existir na bordinha do canteiro das nabiças, junto ao poço de picota, ao redor da casa, na frente, atrás, dos lados. Onde pudesse ser. Ou apenas havia um conjunto de latas velhas que o merceeeiro atirava fora e elas repescavam para plantar malvas que ressequiam de calor, brincos de princesa que resguardavam do sol com guarda chuvas sem préstimo, cabos bicudos talhados em tábua moldada a canivete para melhor espetarem na terra e eles cumprindo missão, desasados por falta de varetas. Se não havia casa de pobre sem flores, era certo que a senhora Z cultivava com muito amor esse jardim que a filha plantara, ambas tinham acompanhado os sucessos das flores, mondado as ervas daninhas, abacelado algumas doações da vizinhança que vinha enquanto o facínora estava fora em trabalho, e uns dias depois tinham envasavam ou punham na terra. E decerto Inês por ali se perdia, sonhando futuros que não lhe chegaram. Ou falando com elas, afagando uma corola aqui e ali, levantando uma haste pendida, ordenando a beleza com as mãos que tão bem recordo. Juventude tão solitária teria de expandir-se por algum lugar, qualquer coisa a que chamasse sua. Julgo que ela e as flores que não vi gozavam entre si dos pequenos segredos que existem entre quem se gosta e quase nem precisam ser ditos. A juventude quando é sã, é pródiga no bem querer, e Inês sê-lo-ia mais pela circunstância. É sabido que flores cuidadas com amor crescem melhor e mais bonitas. E o mesmo sucede a qualquer animal, o amor satisfeito dá-lhes vigor e alegria. Portanto, é quase certo que, se acaso tinha ordem para sair, a senhora Z depenava o jardim e ia  oferecer à filha braçadas das suas flores preferidas. Aquele espaço tornara-se sagrado, estava imbuído da presença de Inês. Hoje também penso que o pai o reparava com saudade (talvez remorso). Nenhuma maldade compromete a totalidade do ser humano. 

        Imaginava tudo isto e não conseguia coragem para contar que tinha conhecido a jovem, que ela me encantara a meninice, que fora quase como uma visão, tão curto o tempo em que o puro cristal da sua voz atravessou as nossas vidas. Mas queria muito dizer, era como um desabafo-dívida. De cada vez que a visitava pensava que talvez ela abordasse de algum modo o tema da filha, surgisse uma oportunidade. Esperava que me contasse do desgosto que a roía e lhe minguava a figura, maldissesse a morte ou a má sorte que a perseguia. Mas a senhora Z falava de botões, colchetes, feitios de saias e blusas, das meninas que ensinava a costurar e das conversas que tinha com elas. E o mais, calava.

(Cont.)

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Última Hora

 Informo os meus (poucos) leitores que por questões de saúde pessoal vou interromper durante uma semana (será sufivciente?) a actividade neste blogue.

Até lá

Fiquem bem e que um anjo benévolo vos guarde 

domingo, 30 de agosto de 2026

Memórias de bolso

 

        Contudo, depois de muito instada, minha mãe afirmou conhecer-lhe os pais, dizia-me que ela fora menina como eu, facto que me custava a engolir, tinha a certeza absoluta de que nunca ela fora uma criança enfezada e perguntadeira, antes pensava nela como uma espécie de capuchinho vermelho, criatura amorável e semelhante à das historinhas que me contavam.

        Perante aquela inesperada ausência, na primeira semana pensei consternada, “está doente”, julgava que as doenças caíam em cima dos mortais com a rapidez do raio, eram um acaso infeliz, agora estou bem, agora já não estou. Contudo, tive de me render à evidência, passado o meio da segunda semana, e após mais de dez dias de ansiedade e desilusão, convenci-me: não voltaria. Então, abri cerrada inquisição dirigida às jovens que bordavam com ela. Ninguém sabia (ninguém me quis dizer?!). 

        Passava mais de um ano quando, a propósito do seu nome, lembrei a inclemência daquela falta nunca explicada. Chateei tanto minha jovem prima que ela, talvez incentivada  pelo intervalo temporal, capitulou desenrolando o segredo: a garota fora proibida pelo pai que era homem de temer, batia na mulher e na filha e não as deixava pôr pé fora de portas: quase ninguém as via, só ele  comprava e dispunha em casa; ora ambas tinham transgredido enquanto ele trabalhava longe e apenas regressava ao fim de semana. E que eu não abrisse o bico. Se o monstro viesse sequer a desconfiar do que sabíamos dele, vingava-se nelas.

            Minha prima sempre pendeu para o trágico pelo que gravou em mim algumas imagens que me violentaram a imaginação e nunca esquecerei, pintava-me quadros bem negros acerca da nossa condição de mulheres e do que me esperava e ela já conhecia, mas, no tocante a Inês, não duvidei: revi o semblante da jovem, bailava-lhe nos olhos a alegria de frequentar a sessão de bordados; reparara ainda que a despedida no fim de semana divergia, era reticente. Se alguém inquiria, vens na Segunda(?), o rosto anuviava e ela era dúbia e entristecida, não lhe vinha o sorriso diário dos "até amanhã". Mas num ápice voltava ao seu ser de alegria comedida e eu assumia tudo por conta de brincadeira comum. Era frequente haver entre elas segredinhos e risos que nos intrigavam - não entendíamos nem víamos razão para tanto secretismo e tomávamos como fazendo parte de serem mais velhas, uma vez que as nossas perguntas ficavam no ar ou apenas provocavam mais risos contidos que nos reduziam à condição de infância ignorante e nos calavam a boca enquanto a mente  remoía. Portanto, mal o segredo me foi desvendado, condoí até às lágrimas e lamentei de alta voz não ter tido conhecimento no tempo certo. Via-a interpôr-se entre pai e mãe e não me impedi de pintar a sua sorte com nódoas negras por todo o lado e muita lágrima de desgosto e dor. Imaginava-lhe os braços tentando proteger-se dos golpes que, quem sabe, se dirigiam à mãe, a principal responsável pelo dislate. A minha experiência de vida não ajudava ao quadro: as crianças frequentavam a rua, a casa servia para refeições, trabalhos de casa e sono nocturno. Uma criança confinada ao lar estaria doente. Pensei no quanto gostaria de acompanhá-la em cativeiro (nunca me veio o pensamento de que a minha presença podia não ser desejada e não ajudar; de resto, que faria ela com a miniatura que eu era?!), mas minha peremptória prima cortou cerce: não saía de casa, nem aceitava visitas; para mais, morava “nos foros de cima”; ora eu desconhecia tal paradeiro.

         Quando expus a questão a minha mãe ela apenas murmurou, “Os homens dessa família têm todos mau feitio; coitadinha da Inês e da mãe”. E senti naquela afirmação uma tristeza funda, como se uma parte de minha mãe lhes pertencesse também; era como se dissesse, "não há maneira de alguém lhes valer". Senti-me embater num impossível que não era a morte. Desconhecia que vivemos rodeados de impossíveis e o caminho se faz a construir possibilidades não infalíveis. Não me lembro do que pensei por haver uma família com gente tão malvada, mas desconhecia-os a todos e, como é natural da mente infantil, fui esquecendo o desgosto e também Inês. Aprendido o ponto-pé-de-flor, tive autorização materna para abandonar os bordados e dediquei-me a interesse que as carrinhas da Gulbenkian propiciavam, bem como à “Fagulha”, revista que uma professora condescendente me dava a ler.

        Ignoramos a imagem legada aos outros, sobretudo aqueles em quem nunca reparamos: porque não são da nossa idade ou porque são, por terem outra condição e outros problemas ou os mesmos, porque cruzamos com inúmeras pessoas todos os dias da nossa vida fremente. Acredito ser nesses outros em que não pensamos, nesses que nos vêem um dia e outro sem que deles demos conta, que podemos deixar imagens mais próximas do eu que somos e, tanta vez, nós mesmos ignoramos. Não sei se me ajudou a viver melhor, mas, ao invés do que parecia, acredito que também Inês é presença na minha vida e me construiu, está dentro de mim como tijolo em parede. Guardo ainda a imagem do bordado a crescer enquanto nos embalava na canção que preferíamos e de que me ficou um pedaço da letra, “conta a lenda que um certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar”. Garota de escola, não sabia o que eram ninfas; e nem precisava saber.

(cont.)

domingo, 23 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Sem que ela o soubesse, havia entre nós um elo secreto. Bastava ouvir-lhe a voz e já pensava em minha mãe, alguma coisa de mavioso e comum lhes passeava pelas cordas vocais. Acertavam-se ainda na inata percentagem de delicadeza e bondade. O rosto da senhora costureira, amarrotado de rugas, tinha o toque de papel de seda. Vestia de negro cerrado (lenço e tudo) desde que a única filha lhe morrera de cancro.

        Conheci a filha antes da mãe. Jovem de beleza delicada, olhos de Audrey Hepburn e mãos de fada (aprendia a bordar), encantava-nos vê-la debruçada sobre o pano, a agulha indo e vindo na sua mão pequena, a outra atida ao bastidor, simétricas na elegância de dedos e unhas ovaladas; ainda sei a forma como cortava as linhas do bordado, usando tesoura pequena de bicos revirados e que eu julguei anómala até ouvir a explicação. E petrificava a mirá-la em vez de tentar o ponto pé-de-flor que me aborrecia de morte e antes admirando o crivo que lhe nascia em cadência segura, num diálogo entrosado entre mão e pano, auxiliados por agulha, linha, tesoura e bastidor; recordo-lhe o rosto inclinado e levemente penumbroso, a ondulação ligeira do cabelo moreno sempre presa do lado esquerdo com um laço de fita. Além da beleza, a garota tinha certo ar seráfico e parecia-me tê-la visto num santinho da caixa de minha mãe; ainda não me existia Audrey Hepburn, que, nesse âmbito, dava dois-zero a Santa Maria Goretti.

        Tudo se concentrou nas sessões de bordado que juntavam várias raparigas e aconteciam durante a tarde; ora as gaiatas da escola, terminadas as aulas, juntavam-se ao grupo e tentavam pontos fáceis no que então se chamava de “Centro Social”. Saindo a porta, eu desatava a correr com o objectivo de a ouvir cantar. Minha mãe raro cantava fora da igreja e voz como a dela, mas cantando pagão, jamais ouvira. Se puxar pela memória não recordo mulheres cantando; tampouco raparigas; lembro-me de rapazes que assobiavam modinhas simples e de alguns homens tocando em gaita de beiços. 

         Para minha mágoa, e contrariando o meu desejo, existiam tardes em que chegava e já o canto terminara. Entristecia. Nos dias em que a sorte se plantava do meu lado, depois de muito instada pelas demais jovens (tímida, a garota), ouvi-la era o cume da perfeição. Sempre debruçada para o trabalho de mãos, levemente ruborizada, siderava-nos o encanto daquela voz abençoada. Envolvidas pela melodia sentíamo-nos elevadas a um mundo melhor, mergulhadas em sonho e mansidão, aspectos a que o nosso quotidiano era estranho. Uma vez li que um ateu se tornou contrito católico depois de entrar casualmente numa igreja e ter visto uma garota rezando. Ora creio que todas as que escutavam tão belo canto sentiam o impulso de um mundo de beleza; a voz de Inês era chave que abria em cada uma de nós portas ignotas, desde sempre presentes. Inês não era bem da minha terra, dizíamos que vinha “dos foros de cima” e não me parece que alguma vez tenhamos “chegado à fala”. Nós éramos a revoada de crianças que, em alarido, invadia a aula de bordados; elas eram raparigas, por vezes imersas em inesperado segredar, sorrindo cúmplices não sabíamos de quê, o que sobremaneira nos irritava um bocadinho – podiam estar a rir de nós. Inês como que pairava acima desse secretismo cúmplice e feminino que lhe invejava a pele de porcelana fina e a figura estilizada que desprendia pureza e fragilidade. Criança desvairada, decerto lhe senti a diferença já que me parecia uma rapariga inventada, aparecera de repente, encantara-nos, e um dia, sem explicação, desapareceu.

(cont.)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        Pronto, podem dizer que, no princípio, as telenovelas eram de qualidade superior, que com elas se deu a renovada descoberta do Brasil, que os actores eram soberbos, que os textos bem interpretados criavam o suspense necessário, que a novidade conquista por si mesma, etc. Tudo verdades indesmentíveis, o etecetera incluído. Mas é que me parece que do lado do espectador também houve mudança. Que olhar é o nosso sobre a TV?! Pois é, julgo que reina o futebol e seus conjuntos de andarilhos, entre jogos, comentadores, telejornais longuíssimos que, é claro, também abordam o futebol, mais os canais clubísticos que não vejo nem de raspão, mas é possível adivinhar o assunto. Sou das pessoas menos adequadas para comentar os temas televisivos, cujos, efectivamente, não vejo. Os canais de notícias – onde há telejornais a todo o momento – repetem novidades, entrevistas e vídeos vezes sem conta. E eu que até sofro de alergia a telejornais e ando a leste de quase tudo excepto guerras, fogos, refugiados, futebol e os tristes manda-chuvas do mundo, dou por mim a pensar que já sei coisas demais e que é provável que quem papa as notícias como galinha a milho, não saiba muito mais. Ou sim, mas de pouco serve. É evidente que falo do comum mortal e não de profissionais da notícia. Quase parece que incentivo ao desconhecimento, mas existe – posso enganar-me – excesso de informação sempre a mesma e que não induz à acção. É a banalidade de tudo e não apenas do mal, embora este se revista das mais nefandas consequências. O apelo à carneirada permanece e é bem sucedido

        Em contraponto, lembro uma senhora costureira que conheci e me chamava de menina Bea, deferência que, à época, era a única a utilizar. Conversávamos bastante enquanto me costurava mangas e alinhavava cós de saias. Chegada na minha acelera, ela abria a porta e punha as mãos na cabeça, ai menina Bea que me esqueci que era este sábado e não tenho as suas coisas em prova. Eu nem sempre sorria, mas voltava a montar o meu cavalo a gasóleo (ou seria gasolina?), andava mais uns quilómetros e visitava minha mãe em sua silenciosa morada. À volta, ainda ela ia a meio, mas preferia esperar. E “metíamos conversa” enquanto ela, sentada na cadeira da máquina de costura, dedal no dedo, ia alinhavando bocados de pano uns aos outros e eu escolhia um dos banquinhos baixos das aprendizas. Mulher mais infeliz não conheci. E tinha do mundo e dos outros a melhor opinião. Jamais a ouvi queixar-se de alguém. Para a sua alma cândida todos eram boa gente e em tudo via algo bom. A propósito da televisão que não tinha, calhou uma tarde de sábado dizer-me enquanto os pontos me enformavam a roupa, Olhe menina Bea, eu gosto muito da televisão. Nunca vejo, mas às vezes vou aqui ao lado a casa do meu filho Manuel dar um recado ou saber se está tudo bem com eles e estão a dar anúncios. Que coisa tão bonita! Fico encantada a vê-los, as pessoas falam tão bem e são tão agradáveis, aquilo é mesmo bonito….nunca vi uma telenovela nem um filme, mas deve ser bom ter uma coisa assim em casa e poder uma pessoa sentar-se descansada a olhar para as histórias que contam. Falta-me tempo, a minha nora até me chama para ir ver uma noite de teatro, mas não posso. 

        Tudo lhe saía em voz melodiosa e serena mas o “não posso” ouvi-o tão dolorido e cheio de impossíveis que me comoveu. Talvez ela não o soubesse, mas era-me fácil imaginar a carga que a amarrecava. Difícil era, conhecendo-lhe a vida, compreendermos o brilho interessado do olhar e a genuína alegria da sua alma simples no deslumbre do quotidiano alheio.

(cont.)

domingo, 16 de agosto de 2026

Memórias de Bolso

 

        No molho desatado de acasos e destino, tenho de convir que me calharam factos memoráveis. Pormenores que arrumei nos desvãos da alma mas nem por isso esqueci. E cada um deles merecia ser contado tal a diacronia que os levou a permanecer. Contudo, se acaso me assaltam a memória, não deixo de compará-los com factores hodiernos; sem a busca de similitudes que talvez sejam causa da lembrança. Ou nada disto. O certo é que me chegam à memória quando deveriam estar como balde e esfregona: arrumados e invisíveis aos olhos (neste caso, da alma). Porém a memória é quem é. E gratia plena por sê-lo.

        Quando, por exigência profissional, eu calcorreava este e aquele lugar, a senhora Z recebeu-me de braços abertos em sua casa; cedeu-me o quarto melhor – o seu - e passou a dormir na sala. E este favor não foi pago nunca, apesar da mensalidade que lhe era devida. Ora esta mulher tinha uma família grande e dois dos filhos e mais os netos coabitavam com o casal. A casa era uma fonte de gente. Era o tempo de a TV ter hora de abertura ao fim da tarde e fecho com a bandeira nacional e hino, já não recordo a que horas uma e o outro. Acontece que, apesar do barulho, a senhora Z considerava a TV como única companhia fiel; acendia-a durante a tarde, horas antes do início da programação. E era vê-la a rodar (ou calcar) o botão, com o ar satisfeito de quem procura a porta de amiga especial. No écran surgia o símbolo RTP rodeado de figuras mais ou menos geométricas que variavam entre a penumbra cinzenta, o branco e o negro. E havia música até começar a emissão. Dava-lhe alento, dizia. Não era uma mulher sorridente, o que denunciava abundância de escolhos que, curiosamente, se desvaneciam na presença da TV. Não que escutasse a música ou pudesse sequer fazê-lo – havia vozes que altercavam, o mais das vezes, aos berros – forma de os irmãos falarem uns com os outros. No meio disto, as crianças choravam ou brigavam por este ou aquele objecto, ela irritava-se aos gritos, decibéis em crescendo, as cortinas que faziam a separação dos quartos, acediam à guerra e, como soi dizer-se no meu lugar de origem, “andavam num badanal”. Ninguém ouvia a TV ou ligava a notícias, a TV era mundo independente, fazia o que queria sem que alguém mudasse canais ou acusasse a heresia de lhe baixar o som, facto que deixava a matriarca fora de si. Era um sufoco. Como se alguém tentasse esganá-la, vociferava, Vocês querem matar-me? Deixem o aparelho, só quem mexe nisso sou eu, ouviram? – e rodava o botão para a posição inicial ou, por pirraça, levantava o som. O gesto era tão enfático que eu esperava o dia em que a peça lhe ficasse na mão, o que nunca sucedeu.

        Chegadas ao cume do possível e perante a voz e comando, as altercações baixavam de tom, um ou outro membro desaparecia atrás da cortina que ficava a oscilar de raiva, e a discussão que já prometia pancada, perdia interesse. Quanto à TV, asseguro: era rainha incontestada, apenas emudecida após o hino nacional e quando o che...che….che….de final de emissão se fazia notar.

        Neste quotidiano sem falhas, fazia-se um intervalo de silêncio para ouvir a telenovela “Gabriela cravo e canela” interpretada pela sensualíssima Sónia Braga que não se poupava a momentos de erotismo caricioso onde o romantismo escondido dos tugas se espanejava surpreso. Ignoro se a telenovela melhorou a vida sexual portuguesa, mas que conseguiu silêncios profundos, conseguiu. Em casa da senhora Z, não foram poucas as brigas entre cunhados, irmãos, primos, avós e etc, que sanaram ao som da música da anunciada telenovela. Eu assistia siderada a esta paisagem humana e mais me parecia uma espécie de fenómeno da anunciação à Virgem – era o templo e o tempo do respeito absoluto.

        Foi no ano em que frequentei o propedêutico, as aulas mediadas pela televisão. É claro que não pedi para assistir a emissão naquela TV de companhia. Comprei um mini televisor que via no quarto com bateria. Zelei pelo bem comum.

(Cont.)