Esta
semana, sem vontade expressa, vi o mar. Na margem, um misto de água salgada e
doce. Ao longe, a mole solitária preenchendo a iludida infinitude do meu olhar
circunscrito ao ângulo que abarco da sua grandeza. Sento-me em nostalgia, a
reviver viagens felizes.
Há
quem afirme que somos felizes sem a consciência de sê-lo, suponho que seja a
concepção de uma felicidade infantil, que não se pensa a si mesma. Nesse tempo
de juventude, eu sabia que era feliz. Sabia de cor a curva da ansiedade, que
acelerava no comer dos quilómetros. E havia um caminho a subir que me compunha o
coração e o trazia à boca. Um caminho de nunca mais, que só na memória respira
e se expande. Olho a água do Monte Estoril. Ritmada. Ergue-se em alvura de
espuma sobre as pedras. Recua. Volta de novo. Será a mesma? Talvez as mesmas
gotas que ela olhou – tanto gostava do mar! –venham em grupo rebentar na praia.
Talvez a amurada do paredão guarde as batidas descompassadas quando me
encostava esvaída e a sossegar o músculo, antes de iniciar a subida. Talvez os desejos
dela passeiem em eflúvios, levados de um lado a outro na humidade da brisa. Talvez
nas noites mais longas os seus dedos em fuso continuem a avivar as teclas
e haja praia fora a agilidade sonora da música. Talvez os olhos que usava
comigo e eram só meus ainda me reparem. Talvez tudo isso. Mas a minha é alma
translúcida e nevoenta, não informa; a minha inteligência é inferior à dos
prisioneiros da caverna, não oiço o piano, não lhe sinto o olhar, nem me dou
conta dos seus desejos. E o que nos liga salva-se do nada absoluto por ser inegável que ainda existo.