quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Sem Bola de Cristal

 

Houve tempo em que fazia propósitos para o novo ano. Por mais simples, cumpria-os, digamos, nos dois primeiros meses. Depois, bom, depois a vida levava-me na sua voragem e não tinha tempo para. Esquecia-os sem remorso ou culpa. Mudavam a amplitude, eram passado, coisa feita e que quase não deixa marca. Não fora a memória de me ter proposto a eles, e nem um assomo restaria. Mas ainda sorrio de mim para mim, se os recordo. No ano passado, ocorreu-me que uma boa ideia seria terminar as histórias que começo e vou deixando pelo caminho. Mas só pensei nisso. Porque já nem sei ir ao lugar em que as deixei e também não me apetecia revivê-las. Se acaso as encontrasse, teria de reentrar na pele de então. Depois, ia apetecer-me reescrevê-las porque a gente nunca se reencontra completamente. E por aí.

Hoje, não tenho sequer a desculpa do tempo voraz. Mau grado o ininterrupto dos meses, dias e noites esticam a sua incomensurabilidade, e, salvo uma ou outra excepção, exaure-me tanta hora parada no relógio. Por outro lado, o mundo em geral interessa-me pouco como raio de acção, não tenho maneira de agir sobre o geral senão agindo sobre o particular que me cerca. Somos a gota de água, não o rio; mas fazemos parte dele, é indubitável.  E não me apetece andar aqui a fazer de candidata a miss mundo - fica mal nesta provecta idade -  e a dizer coisas como, o que mais desejo é a paz no mundo; o fim da fome; o fim das sevícias que os homens infligem uns aos outros, a animalidade em transgressão adiposa; como diz a canção “a paz, o pão, educação, saúde…” Pergunto, mas quem é que não deseja isto tudo para todos, quem é que não quereria este paraíso terreal. Pode haver uma minoria que o não deseje, mas estamos de acordo, a maioria não se importava nada que acontecesse. Acontecesse, reparem bem. Ora, o que acontece não é da nossa responsabilidade, simplesmente acontece; sucede; chega-nos de supetão ou brandamente, mas chega sem mexermos uma palha para. E tenho para mim que só nas imediações grande parte de nós tem efeitos práticos.

Portanto, fico-me pelos arredores de mim, aqueles até onde possa chegar. E seja o que Deus quiser. Se eu Lhe puder dar uma mãozinha, estou ao dispor.

E que a vontade não me falte para o evidentemente.

Posto isto, que o ano de 2022 vos sorria. E deixem de lado as previsões catastróficas. O que tiver de ser, será. Nada de antecipações desastrosas. Logo se vê. Para já, o meu brinde de incentivo em alvores do novo ano: A nós. E a todos que gostam de nós. Tchim-Tchim.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Notas do Sem Fim

 

Pronto. Desceu-me – finalmente – a adrenalina. A casa está mais ou menos no lugar de sempre e perdeu a estranheza que a percorria de alto a baixo quando, desaparecidos os lugares fixos, arrumar era mudar de sítio. Havia sempre gente ou objectos inabituais a procurar um encaixe, querendo, melhor ou pior, passar a pertencer. E depois, não só a casa se sente estranha. Nós mesmos zanzamos nela. Parece-nos outra, a que impa brilhos e odores. A exibir-se, ela que é toda recato e discrição. E há risos e alegria que extravasa; e conversas cruzadas, os decibéis em conta quilómetros, subindo o escândalo liso e branco de paredes boquiabertas, oh!. Hoje, de tarde, a casa recompôs-se e voltou ao mutismo habitual, recuperou os lugares um a um, as paredes relaxaram, libertas de cheiros culinários e gente. E cada divisão repousa em seu ser, julgo eu que contente.

Mas em mim enquistou uma melancolia fina, entrou-me um friozinho de alma quando acenei o último adeus e nos apertei no abraço final. Agora é tudo longe e separado. Madrid ou Lisboa, que importa. Ilumina-me a tua ternura cuidadosa. Guardo-a para os dias de cinza e pó, horas de vento bravio que tudo varre, momentos de gólgota que urge atravessar. Como contas de colar e muito mais que elas, conservo a meiguice repetida do teu indicador a rir na minha bochecha; a mão que me pousas no ombro se encostas à minha a tua cabeça; as tuas ironias ternas, implicâncias felizes acertando nos meus sonos irrisórios; o jeito casual se acaso referes o voluntariado em que te empenhas; as dicas carinhosas sobre filmes; a forma como pronuncias, mãe, e de que tenho uma formidável e ingente saudade que nunca te confessarei para não estragar. Sempre nos habituamos ao depois do Natal.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Meu Menino Jesus

  

Bem sei que vives à beira do meu quarto. Imagino que gostes mais desta época em que podes olhar para tudo apesar de não te mexeres do berço azul – sim, fui eu mesma que to arranjei, chegaste de oferta, bochechudo e nutrido, mas sem cama. Bom, “olhar para tudo” é força de expressão, deitado, o mais que vês é o tecto e rostos debruçados para ti. E são tão poucos; talvez só a mim conheças e ensaies comigo a exclusividade que, palavra, me agrada superior e pecaminosamente. Pois, para que te escrevo, se estás sempre aqui, ao alcance da mão. Podia falar contigo. Será para deixar marca. Ou me tolhem as pernitas rechonchudas, os refeguinhos nos braços, a fixidez de artifício raso na cal dos olhos sem vislumbre de vaso sanguíneo. Ou vou encontrando desculpas para escrever-te só por gostar de ti, calcorreando um caminho de arabescos, com espírito de Heidi nas montanhas, que é como quem diz, em pulinhos contentes. É assim mesmo, nas palavras me procuro, gasto o tempo a desbravar mato em demanda de mim e curtos são os momentos em que um perpassar de sombra fugidia me acontece.  Chama-lhe o que queiras, mero desejo, devaneio de solidão, arte de sobrevivência. Mas, no recato de um embrulho, refugiado dentro de caixa segura e com dístico “Meninos Jesus”, ainda te julgo atento a mim. Ai julgo, julgo. Pura necessidade, coisa tão humana que talvez nem a entendas embora sejas Deus, ou sobretudo por esse patamar tão fora de nível.

Descansa, não vim pedir-Te coisa alguma. Vim apenas fazer-te vénia. Agradecer. Ter a família em minha casa é, em cada ano que passa, bênção aprazada. Não estará longe o tempo em que não vou ser capaz de tanto e cada um ruma a seu destino. O núcleo actual vai partir-se em três, cada um com suas prerrogativas. A vida é mudança. Porém, deixa que te conte esta minha pequena vaidade, todos lembrarão – por isto ou aquilo – o tempo de Natal conjunto.

Até hoje, propicias a melhor noite do ano. E isso não tem preço. E dás-me ideias para prendas. Este ano foste supimpa, as manas até se esqueceram de abrir o resto dos presentes que lhes dei. Não nego, fiquei ardendo de satisfação e até um bocadinho orgulhosa. Bem hajas. Mesmo.

Desculpa se não consegui satisfazer todos os amigos como recomendas anualmente. Mas sabes que tentei.

Do que me diz respeito, agradeço-te a meia dúzia de livros tentadores, é prenda que amplamente me satisfaz. E é claro que voltei a receber chás e canecas de chá em abundância. Já posso usar uma por semana. Como sobram algumas, tenho certa esperança de conseguir uma para cada dia do mês. Tu que achas, conseguirei?! Depois pensamos na logística, né?

E agora vou mirar-te o branco dos olhos. Pode que estejas a sorrir-me brandamente. Pronto, para o caso de precisares ou te fazer jeito – o amor dos homens nunca te é demais -, olha,  gosto muito de ti.

 

segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Quando o natal se aproxima penso mais nos sem abrigo que vejo dormindo tapados com cartões e jornais no banco marmóreo e corrido do túnel do metro que vai desembocar no Centro Comercial Vasco da Gama. Não que sejam mais ou menos infelizes que outros espalhados Lisboa fora e que pernoitam em vãos de porta na Baixa, nos degraus da estação dos Restauradores, e em tanto lugar. Mas aquele túnel é frígido, percorre-o uma corrente de ar gelada que desanima e abotoa qualquer ser.  É inconcebível que alguém consiga adormecer sobre o gelo de lápide de tais bancos. Mas observei durante vários minutos um adormecido e não deu por mim. Dormia quieto, tranquilo, igual à maioria das pessoas em sua cama: posição fetal, as mãos sob a face, um cartão debaixo do corpo e embrulhado num casaco comprido e sujo, pejado de folhas de jornal abertas. Debaixo destes preparos havia uma vida a respirar, um suposto descanso que eu devia, ao menos, respeitar. E escrevi eu que “igual à maioria das pessoas em sua cama”. Mas igual como? Igual no ar de interior de frigorífico; ou no facto de não se poder virar e, mesmo adormecido, se obrigar a manter a posição; ou igual na fofura do colchão, na privacidade que o tempo de sono nos demanda. Com que sonham estes homens e mulheres, que os acorda para mais um dia, além do entorpecente frio. E como se chega aqui. E pára.

Se eu fosse um Jesus de todos os homens dava-lhes sonhos de verdade, fazia-lhes mais leves e bonitas as noites. E depois, quem sabe se, na posse da esperança e criando oportunidades, não se reassumiam. Era uma vitória sobre os cobertores e as sopas nocturnos.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Pé Ante Pé

 

Perpassas no silêncio que só o toque das agulhas quebra, o mundo parado lá fora. Perpassas sem passar. Continuamos. Contíguos. Ou afundas e és eu. Alteados de sonho e ignorantes da linguagem do tempo, demos as mãos. Dou conta do teu ser exaurido e exangue, as mãos húmidas do teu suor; e, levemente, te deito em pousio, aninho-te na terra cansada a que pertenço e sou. Aconchego-te a raiz com as minhas mãos de terra, rodeio-a de pó concavo, preparo-te para a água.  Talvez te recupere um pouco no trabalho de mãos que tem outros destinos e vou deixar por aí. Talvez permaneças em mãos alheias, dedos florescendo.  E espero - espero sempre - que em ti se cumpra a dádiva e em ti ocorra a redenção. E a terra que sou vai distender e ser suave e quieta como pertence.

O Chão do Natal

 

         Em garota, nos serões de inverno, costumava ficar sentada à mesa, olhando fixamente a pressa de agulhas de minha mãe que, chegada à luz do candeeiro de petróleo, tricotava para mim ou minha irmã. Abismava na pressa frontal com que as malhas passavam de uma agulha a outra e, milagre dos milagres, ia crescendo uma peça na sua parte inferior. Por certo, ali haveria passe de mágica, pois se apenas mudava as malhas de uma para outra agulha, como é que lhe nasciam e cresciam mangas, costas, frentes. Mas, perante o surdir destemido do trabalho, calava as dúvidas. Ora, certa noite de maior pressa, minha mãe deixou escapar que atrasara o tricot e não conseguiria terminar o casaquito antes do Natal. No dia seguinte, enquanto moirejava longe, pensei em fazer surpresa e dar-lhe uma ajuda. Trouxe a obra para o meu colo, passei a lã pelo pescoço, enrolei o fio da direita num dedo como lhe via fazer e dispus-me a mudar as malhas de agulha. Foi o busílis. As malhas fugiam-me, faziam finca-pé e resistiam à mudança de agulha como os portugueses aos castelhanos. Quando, enfim, consegui mudar uma, entendi a dimensão da minha ignorância e percebi que à facilidade de minha mãe correspondia, em grau elevado, a minha inabilidade. Portanto, o meu desejo de ajuda cingiu-se a mudar de lugar duas malhas e a recolocá-las, desanimada da tarefa. Não me lembro se deixei ou não cair malhas. Sei que arrumei tudo no lugar e passei a dar maior valor à função e que, finalmente, criei coragem e inquiri de minha mãe como podia crescer o tricot apenas com a mudança de malhas de uma agulha a outra. Minha mãe sorriu docemente e, abrandando o ritmo, explicou como tecia e ia consumindo a lã que dobávamos as duas em novelo. E tudo fez sentido. Nunca lhe contei dos meus vãos propósitos de ajuda. Suponho ter herdado o gosto pelo tricot e lamento não me ter interessado por ele quando mo podia ensinar. Foi coisa que não me ocorreu. Penso nisto enquanto teço, talvez com a destreza que antes lhe pertenceu, sorrindo de mim e da minha ignorância, tal como se assistisse um filme. À medida que se prolonga, o passado vai-se tornando cada vez mais o filme que protagonizámos ou em que fomos figura secundária.

         Ontem encontrei um ex-aluno que me reconheceu (reconhece-me sempre). Disse-me, “gosto muito de si”. Assim mesmo. Babei a olhá-lo nos olhos gratamente; perguntei pela filha que tem 18 anos; lembrei, agora que já não existe leitor para tal, a cassete dos Dire Straits que tocava enquanto lhe dava boleia e trouxe à liça o entusiasmo dele com o grupo. Abraçámo-nos e desejámo-nos bom natal. Não lhe disse que o encontro por vezes aos esses pela rua, desamparado e só; não lhe contei da infinita pena e desolação que me dá vê-lo e saber que só a mãe o recebe. Meu pai, que eu acompanhava, elidiu. Éramos só nós a fazer parar o tempo, unidos na sintonia antiga que recuperamos em cada encontro.

Talvez o passado não seja apenas um filme.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Chegou-me ontem uma prenda que, pensava eu, era de Natal. Mas o remetente, muito sui generis, dizia: esta é a prenda do teu natal, não é a prenda de Natal.  Coisa mais bonita de se escrever. Portanto, tenho no horizonte novo presente. Algures, a dado passo do caminho, as nossas prendas cruzaram-se, já que coincidiram na chegada ao destino. E quem é que sabe se não pararam a cumprimentar-se antes de seguir viagem. Sou pelo sim.

Encerrei trabalhos de escadote que foi empoleirar-me no banco da cozinha a repetir o estribilho de sempre, já sou velha para estas coisas.  E, calculem, achei o meu menino Jesus de pé partido. Capaz de ser desinquieto e ter escorregado da manjedoira. Desta vez, para obviar quedas, deitei-lhe aos pés uma ovelha que andava por aí perdida e é quase maior que ele. Dou serventia à pobre ovelha que não entendo como apareceu em minha casa assim nédia e desencardida, que não a comprei nem me lembro de ter sido oferecida. Quem é que me ia dar uma ovelha, e logo maior que o doce Menino. Já fui espreitar os dois. E, se o Menino pouco liga à ovelha, ela está nas suas sete quintas. Repousa-lhe por perto com tal fervor e fidelidade que nem uma erupção vulcânica será capaz de a fazer abandonar o poiso.

O dia foi curto para o que havia a urdir. Portanto, quando já noite aqui me vim sentar, procurei a Heidi  gozando o prazer de não bulir mais. Pois foi. Só que adormeci por um bocadinho. Não fez grande mossa ao desenrolar do filme. E soube bem.

Em casa já é  natal. E dado que os olhos se me fecham, nada a acrescentar.

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

         O natal anda-me espalhado por mesas, camas, chão. Há laços onde menos os espero; prendas arrumadas e prontas que tenho dificuldade em lembrar como assinalei; embrulhos ainda abertos porque incompletos e um ou dois projectos que conto ver hoje terminados e vão deixar tudo – ou quase – no lugar certo. Dado que o vigor parece abandonar-me nestas alturas, já tratei de me embebedar de café com leite. E melhorei.

         É provável que tenha esquecido algumas pessoas a quem envio Boas Festas. Mas já seguiram e decidi não pensar mais nisso. Quer dizer, vou abrir uma excepção, estou a lembrar-me que esqueci uma amiga daquelas que nunca responde, mas dá um toque nas vésperas de Natal. Portanto, vou arrepiar caminho e ainda lhe escrevo umas linhas. Depois fecho para balanço e, por escrito, não estou para ninguém.

         Hoje foi dia de envio para as minhas amizades mais chegadas. Vai-me nos embrulhos uma ternura indelével que elas não notam e nem eu digo, mas segue junto. E, como já frisei, as prendinhas são um nada do que quereria dar-lhes, parca amostra do meu desvelo. Gostaria de enviar presentes que arrancassem ohs e ahs de satisfação infantil e que as levasse a rememorar gostosa incredulidade no desembrulhar das embalagens. Ainda assim, guardo a esperança de surpreendê-las um nadinha. Fazê-las felizes ao minuto.

         Estou a abandonar o tricot em demasia, mas que querem, ontem  parei as agulhas para ver Oliver Twist que, palavra, nunca tinha visto. Gosto de filmes com gente boa. Mesmo tendo que gramar com pestes do pior a fazer contraponto. E aquele Oliver era um actor e tanto. Logo à tardinha, havendo um nico de tempo, sou capaz de ver a Heidi. Os meus conhecimentos sobre a garota datam dos saudosos vinte anos, quando ia ver um ou outro episódio a um café. Dizia uma amiga que inda conservo, “estes desenhos animados dão saúde”. Quem sabe, era por isso que fez tanta força para que eu os visse. O viço que tinha, então, a nossa amizade.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Dia dos deveres. Eu, zero; deveres, meia dúzia. Deram-me uma abada, isso é que foi. Restou o tempo de escrevinhar meia folha de papel e fui correndo aos correios. Ufa! Já tenho prendas a fazer caminho.

Há ainda cartas e cartões por escrever e fazer. Vou a meio do tricot (mais de meio). Faltam-me várias compras; ainda há arrumações em espera. E se eu hibernasse?! Ora. Hibernava,  mas não era a mesma coisa. Será melhor se me limite a dormir.

Dia seguinte, que foi hoje:  pela manhã dei corda aos sapatos e andei nas compras. De prendas. E foi aquele entrar, passar revista, comprar ou não comprar e sair de lojas. E logo, voltar a entrar e repetir a dose. Pelo meio, achando que podia valer a pena, fazia um estágio nos provadores. E enfiei todos os gorros que vi. É claro que já não saio lá muito contente de um provador. Passou-me o tempo daquelas indecisões acontecidas porque tudo nos serve e fica bem. Este problema, garanto, eclipsou. É mais o inverso. Bom, não andei a experimentar para mim, mas em mim. Foram quatro horas bastante intensas. Mas cheguei ao carro toda contentinha e cheia de sacos.

Nestas horas de compras, com cartões meus e ao dispor, sou grata a quem me quis empregada, “um curso, precisa de um curso”, e envidou esforços para tal. Foram várias vontades a erguer-se em ponte para que eu atravessasse sobre o rio caudaloso da pobreza. Chama-se mérito? E eles, eles que me aguentaram com a força dos braços como pilares e abrindo mão de si, uniram dedos e fizeram o chão onde pisei. Não saberei nunca se gostam da obra, mas o resultado é do conjunto, isso é certo.

E porque estou um nadinha cansada, desejo que fiquem bem e um anjo vos vele o sono. Vou ver se descanso com um filme de Natal, desejando que seja sem legendas.

domingo, 12 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Pronto. Já cortei a fita e abri oficialmente a época dos enfeites. Abri. E pouco mais. É Natal em minha casa.  Sobrou para uma tarde. Isto se descontar os arranjos, talvez armados no dia 23, ou o azevinho ainda me sai tristonho.  Assim em jeito de confidência, sempre vos digo que me resolvi a uma malandrice: bebi um café com leite. Ou jamais ganharia ânimo para o pontapé de saída. E correu bem. Não caí do escadote e não hesitei na bancada da cozinha. Pronto, não caí e nem estive perto, tenho muita prática a galgar o lava loiça.

Entretanto, descobri que os livros para oferta estão todos. Viva! E fiz a centésima lista de prendas em falta. Mas como é que  pode ser, já comprei uma data delas (data, data) e a última lista é maior que a primeira. Bom, avante. E enchi-me de ternura a reler os cartões antigos, enviados daqui e dali. Gente que já partiu; gente que não partiu mas não sei onde anda; gente a quem muito devo e nem sei se vive;  peiam-me pruridos de incomodar a família e perturbá-la se acaso  já o eterno os guarda. E a todos lembro como eram. O carinho que me dedicaram  não tem moeda de troca. E nas palavras escritas, leio não apenas as que lá estão, mas todas as que não dizem e são ou foram verdade entre nós. E do mais fundo de mim as agradeço.

Posto isto, o segundo menino Jesus também já picou o ponto e repousa calmamente na sua almofadinha de veludo escarlate.  Falta-me o do pezinho partido. Demora mais a chegar, naturalmente. É que nem a manjedoura. Pergunto-me se estará de visita à terra natal e, por via das dúvidas, carregou com a camita. Que, a ser assim, e coxo como está agora, não chega a tempo da festa.

 Nada de sobressaltos. Aguardemos.

Melíflua

 

Há gente como ela. Que se move para ajudar os filhos da má sorte, não por altruísmo ou verdadeira amizade, mas porque o mal dos outros lhe  empresta vigor. É uma fome que a move e atrai para a desgraça, debitando conselhos que ninguém quer e nem pediu, servidos com o molho de exemplos práticos que os certificam.

Estava eu na farmácia, sentada no banquinho dos velhos que enfileiram para o balcão, quando ela entrou. Espreitou com olho crítico o interior. Inquisitiva, observou cada elemento da fila e percorreu os clientes no balcão.  Uns segundos e já ela avançava justificando, não tiro a vez a ninguém, sou atrás daquele senhor lá fora. E veio sentar-se na outra ponta do banco a remexer dentro da mala. Quase de seguida, lhe ouvimos, então, comadre, já soube que estão todos infectados; olha o azar. Do outro lado, resposta curta. E ela contrariada, não estão? Ora essa, pois se está tudo cheio que agora nem podem sair de casa… e a comadre não se acanhe, o que precise, eu compro. Novo silêncio de escuta e a voz a perder entusiasmo, é só o mais novo… e está isolado... E após duas ou três interjeições, desligou meio enxofrada de dedos.  Desgostosa da novidade, deixou escapar o solilóquio, afinal é só um. Já a correr o fecho da mala de mão, notando alguns pares de olhos a fixá-la, suavizou contrafeita, ainda bem, não é.

 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Hoje ganhei coragem e revirei duas caixas com adereços de Natal. Devia pô-los a arejar, mas a cor do céu esmoreceu-me.  Também cortei em rectangulos as folhas de um bloco para tintas a óleo. Já desisti de me entender, não sei pintar a óleo, não tenho óleos e ainda menos quem me ensine. Mas pronto, já não me falta tudo; descobri não um, mas dois blocos. Em compensação, não encontrei os lápis habituais nem o bloco de ano passado. Coisas. Note-se que, na conjuntura actual - eu mesma e mais os meus lapsos e esquecimentos -,   recuso buscas insanas. Não sei, não acho? Governo-me com o que há. Os objectos sabem ser muito castradores, não lhes podemos dar confiança. Não há como provar-lhes que passamos bem sem eles. Ora essa.

Pois a verdade é que essa espécie de papel destinado a tinta a óleo não é muito salutar como cartão de boas festas. Não é, mas não existe outro (fujo à verdade, bem entendido).  É mole, dobra-se sobre si e encaracola feito lesma destrambelhada, e o meu pincel diz que bla, bla bla, mas não lhe faço caso. Resumindo, está tudo uma burrada em ponto pequeno. Paciência.

Bom, para facilitar o espírito natalício, nada como ouvir canções de natal. Foi agradável, as agulhas de tricot, habituadas a conversa e mais conversa, arrebitaram as orelhas, que é lá isso, missa cantada? Peço desculpa por elas,  estão velhas e não sabem modernices de coros da estranja a cantar para nós a qualquer hora que se deseje. Depois de ouvir os arcanjos, cumpre-me informar que me ficou a apetecer algo. Portanto, algo, foi ver um filme de Natal. Mas era dobrado em brasileiro e se nos desenhos animados gosto das suas vozinhas, nos filmes com gente dentro, desafinam. Entretanto, lembrei Shirley Temple que foi garota muito mais tempo que eu ou qualquer mulher. Ainda é garota a Shirley Temple. Apeteceu-me revê-la. Lancei-me pois num dos seus filmes. E banzei com as traduções. Nem é questão de concordâncias ou assim. Passo a contar. O meu inglês não dá para os gastos, mas ainda assim não necessito estar sempre de olho no écran. Basicamente, o filme trata do amor entre pai e filha, o pai militar e ela num colégio por via da guerra que chama o soldado. Entretanto, o pai morre. E quando a professora preferida  vai dar  a notícia à garota (aí levantei a cabeça para olhar o écran, era importante) li a legenda, “você é uma puta”. Fiquei parva a soletrar julgando meu o engano. Mas não. Está lá.

Dado que no you tube também mostrava O Pequeno Lorde e não o recordo, decidi apreciar um niquinho do filme. Ah, pois é, mas a qualidade da tradução mantém-se. A afirmação, “O Dick ainda não chegou”  está traduzida por “A pila ainda não chegou”. Ai, valha-me Deus. Tenho esperança que as crianças não vejam isto, que só gostem daqueles filmes animados com bonecos horríveis e menos horríveis, que achem a Shirley Temple uma coisa que não lhes serve para nada. Mas, mesmo sem crianças, a quem é que a gente se queixa deste despautério, deste assassinato a frio da nossa língua e à disposição de qualquer. Deve ser coisa automática, só pode. Mas por que razão temos nós que aguentar tanta ofensa por escrito. E por que razão está acessível e é conservado num media. Palavra que não entendo.

Fiquei escandalizada e sem apetite ao Natal.

 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O chão do Natal

 

         Logo ao segundo dia, falho o calendário de Natal. Ora bolas. Mas quem ia prever que a parva da vacina assim me tolhia. Bem quis colaborar com a quadra. Ainda andei a esgravelhar no sótão em demanda dos lápis e das folhas que não se deixaram ver. Portanto, este ano vai ser o bom e o bonito, só tenho folhas para pintura a óleo – não que tenha óleos ou saiba pintar – e guache. Mas pronto, trouxe tudo para baixo e ainda cortei três cartões. E foi tudo. De resto, a dar-me ânimo, chegou, com toque de campainha (o meu carteiro é mesmo um querido), a primeira prenda de Natal😊. Primeira, quer dizer, já me tinham dado um pano de cozinha, mas não conto utensílios que me lembram trabalho e me parece sempre serem dados à dona de casa que sou mas não sou. Pois foi imediato, comecei logo a leitura. Esta encomenda veio de uma amiga que bem conhece o meu amor a viagens e que, sensatamente, me enviou as viagens de Miguel Cadilhe (já tinha lido várias porque reúne as crónicas que escrevia para a Visão). É uma leitura fácil e que não farta mesmo se repetida, nem se incomoda com a lentidão do meu eu doente. Ideal para o efeito. Portanto, já li quase metade do livro. A prenda está meio comida. É claro que liguei à minha amiga. E, como sempre, não atendeu. Enviei carta em versão triplicada de sms. Voltei a olhar os cartões e as tintas. Pensei que era a minha vez de enviar o pacote que já tenho feito  para ela e a que falta apenas uma carta a sério e o cartão. Mas ela precisa de uma carta bem disposta (tem aquela mania parva da angústia) e não estava para aí virada. Adiei. E li mais um bocadinho.

         Portanto. Na sala, sobre os sofás, estão há que tempos, engomados e prontos, os enfeites de Natal. Acho que vão continuar meio mortos porque ainda não me apetecem escadotes. Isto de apetites a um escadote não é fácil de conseguir. A ver vamos.

 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

O Natal. Ah, o Natal da nossa infância. Chegava já os frios transiam e dava sinal no ramo de pinheiro armado fora do nosso alcance, onde o merceeiro suspendia, com cordel de embrulho, os pequenos chocolates do nosso encanto: peixinhos que oscilavam as escamas desenhadas na prata; rebuçados com recheio liquido e aparato farfalhudo no papel; pequenas tabletes da Regina, os nossos dedos imaginando o relevo sob a prata amarela e vermelha e a que os garotos garantiam queda certa (nunca aconteceu); um maço de cigarros de chocolate; um saquinho de rebuçados de meio tostão ou paladares; e uma prolífica quantidade de tabletes de cinco tostões, delgadas como dedos e de recheio execrável.  Na nossa ilha de pobreza,  não sabíamos de lugares com outros doces, de ruas feéricas, de gente enluvada e toda conforto a passear por elas, de pastelarias com toda a espécie de doçaria e pessoas que a adquiriam calmamente, sem um bater de pestana.

Nada nestes natais me faz saudosa deles. Não foram bons tempos. Mas a saudade é sentimento que isola os factores que  deseja. Natal era o amor de minha mãe pelos filhos e a sua tentativa de agradá-los fazendo mais doce o dia. E era tamanha a ternura que nenhum de nós o esquece e perpetua a tradição em sua casa. Ora vem isto a propósito de um programa de rádio, “A páginas tantas” (parece que não tem a ver, mas tem). Com grande pena da minha parte, o programa termina no final de Dezembro. Gosto da junção das três a falar de livros. Apesar das picuinhices birrentas de Rita Ferro a fugir para o lado de menina bem; das vezes que Patrícia Reis diz “amor” e “ó amor” referindo-se às duas colegas; da prontidão sem tréguas da Inês, investindo com a lança feminismo. Mas fazem o trabalho de casa, são fluentes e desinibidas e cada uma tem vida e sensibilidade próprias. E verifico mais uma vez que só sabemos falar do que se passa connosco (eu incluída), no nosso meio. Pois aquele trio denota alguma alergia ao natal. Por exemplo, são contra os presentes. Dizem elas que o ónus do trabalho recai sobre a mulher (Inês, claro), que só dão livros (Patrícia), mas sabem que os recebedores (a maioria) está já a pensar a quem irá dá-los. E fico a matutar, habitaremos o meu planeta? No meu planeta todas as prendas são bem vindas. Todas. E, por essa razão, não matamos a cabeça a pensar no que dar. Vamos comprar com muita alegria uma coisa que julgamos – temos quase a certeza – que agrada. No meu planeta, não há gente que já tem tudo e os outros cumulam de prendas. Também não concordo em dar livros a quem não os lê; quando muito, que se ofereça um livro e mais alguma coisa que a pessoa prefira mesmo, goste. Os presentes só os damos porque gostamos da outra pessoa, temos, também, de respeitar as suas preferências; ou não resulta. Do que tenho a certeza é que a maioria dos portugueses me faz companhia. E que o barco das três senhoras tem menos gente que o meu. Sendo também verdade que quem viaja no meu barco ouve pouco os programas de rádio sobre livros. E portanto, talvez elas tenham razão, falam para os seus ouvintes. Ali, sou apenas ave rara, coisa que não pertence. Gosto de comprar e oferecer presentes. Amo de paixão. Sei que os apreciam, usam, gostam, agradecem. E nunca será uma estopada. O Natal é a festa onde o meu coração se espraia.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Pé ante Pé

 

Se haja regresso da morte, se, promete que não me segues. Promete que não serás sombra nem luz, que não cristalizas na espera dos meus passos e não farás sobre eles o teu caminho. Promete que no impossível me dás a mão e ficamos lado a lado. 

Higiene Dentária

 

No cinema actual, muitas conversas ocorrem enquanto os protagonistas escovam os dentes. Bem sei que o cinema imita a vida, que é sintoma de quotidiano (os filmes antigos não tinham destas madurezas), mas que raio se conversa de escova na boca é coisa que não entendo; já me deitei a experimentar e não é discurso que se apresente, é que, se tal sucede, realmente, a uma pessoa, adia-se a conversa por uns minutos. A gente tira por segundos a escova e diz qualquer coisa como, um momento, estou a acabar de lavar os dentes. Mas eles não, eles vêm até onde está a outra pessoa, escovando sempre e mantendo o diálogo; ou vão dialogando enquanto se olham no espelho, a escova sempre a fazer o seu trabalho. A agravante é que dou em reparar que aquela gente não deve usar pasta dentífrica, vão mexendo, viram e reviram a escova dentro da boca e nada de pasta, nem um fio branco lhes espreita ou escorre. De saliente, só os altos da escova na bochecha, para cá, para lá. Pronto, é verdade que às vezes param só para dar a entender que a outra pessoa tocou com as suas palavras um ponto nevrálgico, pôs dedo em ferida. E fica aquele alto na bochecha, a mão parada no cabo da escova. Hão-de reparar, eles bochecham, bochecham, e sai só água. Oa isto dá que pensar. Será que ensinei mal os meus filhos, que aprendi errada a lição de escovar os dentes e sou só eu a olhar o espelho e achar-me apalhaçada, boca de bolhas e brancura de sabão em debrum. 

Ná, não me convencem.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Sombra Chinesa

 

                Quando corpo e mente entranharam o irremediável e a morte lhe foi real, Jaime desapareceu da aldeia por via de não perder os estudos, assim o apregoou Celestina. Grato pela dedicação da mulher e a pedido de Veridiana, Formosinho conservou-a no serviço doméstico. Que ele, bem se via, não dava para as coisas da casa; respeitador e bom patrão como não há, dizia ela a procurar salvar-se da má língua.   Ora, língua afiada em meio pequeno é coisa natural, mal que não cura. E logo, logo, surgiu o burburinho: que era mulher casada em casa de homem sozinho; que o marido tinha de pôr mão naquilo e nada; que quem sabe ele gostava do que, pela certa, lhe entrava em casa por portas travessas; que há muito corno manso; que coitadinho do Jaime; e havia até língua suja que aventava a anterioridade da relação, tudo vinha de há muito e a doença de Veridiana viera a calhar, o diabo tem sempre sorte. E mais. Havendo hipótese de costurar defeito, num ai os homens esquecem qualidades e vida provada. Mas, tal como nascem, se levantam e voam de uma boca a outra, assim, na ausência de provas a engordá-los, e por força da inteireza do tractorista, os boatos estiolaram. Celestina fazia o seu trabalho e raro via o patrão; o marido, mesmo fazendo cara feia ao diz que diz, não pôs prego nem estopa no assunto e, à parte ter-se travado de razões com o Dionísio da Brazilízia e lhe ter enfiado uns murros no focinho que foram aviso para os mais, era homem de respeito e pouca fala. Para mais, , dizia-se à boca pequena que só ele podia ter encomendado as duas comadres calhandreiras e maldizentes ao cabo da guarda. Não era segredo  que caçavam juntos, os cães à ilharga e arma pronta; à vista de todos atravessavam matos e planícies,  lebres e perdizes penduradas na cinta.  Embora ninguém os visse de amizade noutros lugares, a aldeia regozijou  com o castigo das linguarudas, para mais, sentindo-se cada um livre da acusação. Era tácito, havia ali a mão do tractorista. Chamadas ao posto da GNR, o carro dos cadastrados a buscá-las, ninguém soube o que aconteceu lá dentro. Passados dias, regressaram envergonhadas e mansas como cordeiros, não se sabe se arrependidas. O certo é que, por longo tempo, a viola ficou no saco e não houve boatos.   Formosinho, esse, talvez nem tenha dado conta do falatório. Ninguém soube onde o homem guardou os apetites, mas, perdida a mulher, jamais o viram de olhos cobiçosos para o outro sexo.  Na falta de quem o chamava por nome próprio, virou-se às vinhas, apostado em fazê-las crescer. O filho, entregara-o ao zelo materno e sentia-se estranho a cuidá-lo, para mais que já era rapaz e estudava longe. Mas as vinhas eram suas de nascença, corria-lhes a seiva  de mistura com suor e cada cepa era uma vitória . E depois, fora projecto seu e de Veridiana, era mister honrá-lo e dar-lhe seguimento. Lembrava-a debruçada sobre os bacelos novos, receosa de que não pegassem; as primeiras uvas e o cacho que comera logo ali sem atender ao pó do caminho, o trejeito entre o medo e desagrado, não prestam, e ele, sorriso confiante e a dar uma trinca, ainda não estão maduras; a  alegria de ambos na vindima a estrear, e o pisoteio das uvas no tanque, ela de saia regaçada e pernas contentes e tintas, uma cinta colorida até perto do joelho, as pontas da saia pejadas de respingo. Emudecia de ternura à vista das pernas dela  tão diversas por entre as masculinas, cabeludas e musculadas; e o seu orgulho na força de viver da mulher, no íntegro entusiasmo que era viço a percorrê-la. Enchia-se de uma saudade que lhe remexia as vísceras e era garrote a desarranjar-lhe os interiores se recordava o jeito morno de ajudá-la a deitar, aconchegando a roupa  ao corpo que sempre o surpreendia nos lampejos do amor. A fortuna que era tê-la a seu lado. Pensativo, revivia a solenidade da primeira garrafa de vinho a destacar na alvura da toalha, a mesa em festa.