Houve
tempo em que fazia propósitos para o novo ano. Por mais simples, cumpria-os,
digamos, nos dois primeiros meses. Depois, bom, depois a vida levava-me na sua
voragem e não tinha tempo para. Esquecia-os sem remorso ou culpa. Mudavam a
amplitude, eram passado, coisa feita e que quase não deixa marca. Não fora a
memória de me ter proposto a eles, e nem um assomo restaria. Mas ainda sorrio de
mim para mim, se os recordo. No ano passado, ocorreu-me que uma boa ideia seria
terminar as histórias que começo e vou deixando pelo caminho. Mas só pensei
nisso. Porque já nem sei ir ao lugar em que as deixei e também não me apetecia
revivê-las. Se acaso as encontrasse, teria de reentrar na pele de então. Depois,
ia apetecer-me reescrevê-las porque a gente nunca se reencontra completamente. E
por aí.
Hoje,
não tenho sequer a desculpa do tempo voraz. Mau grado o ininterrupto dos meses,
dias e noites esticam a sua incomensurabilidade, e, salvo uma ou outra
excepção, exaure-me tanta hora parada no relógio. Por outro lado, o mundo em
geral interessa-me pouco como raio de acção, não tenho maneira de agir sobre o
geral senão agindo sobre o particular que me cerca. Somos a gota de água, não o
rio; mas fazemos parte dele, é indubitável. E não me apetece andar aqui a fazer de
candidata a miss mundo - fica mal nesta provecta idade - e a dizer coisas como, o que mais desejo é a
paz no mundo; o fim da fome; o fim das sevícias que os homens infligem uns aos
outros, a animalidade em transgressão adiposa; como diz a canção “a paz, o pão,
educação, saúde…” Pergunto, mas quem é que não deseja isto tudo para todos,
quem é que não quereria este paraíso terreal. Pode haver uma minoria que o não
deseje, mas estamos de acordo, a maioria não se importava nada que acontecesse.
Acontecesse, reparem bem. Ora, o que acontece não é da nossa responsabilidade,
simplesmente acontece; sucede; chega-nos de supetão ou brandamente, mas chega
sem mexermos uma palha para. E tenho para mim que só nas imediações grande
parte de nós tem efeitos práticos.
Portanto,
fico-me pelos arredores de mim, aqueles até onde possa chegar. E seja o que
Deus quiser. Se eu Lhe puder dar uma mãozinha, estou ao dispor.
E
que a vontade não me falte para o evidentemente.
Posto
isto, que o ano de 2022 vos sorria. E deixem de lado as previsões
catastróficas. O que tiver de ser, será. Nada de antecipações desastrosas. Logo
se vê. Para já, o meu brinde de incentivo em alvores do novo ano: A nós. E a todos que
gostam de nós. Tchim-Tchim.