sexta-feira, 31 de maio de 2019

Love Story


Quando tinha dezassete anos acabadinhos de fazer submeti-me a provas de admissão profissional. As provas escritas não ofereciam dificuldade e o maior susto veio-me do exame de matemática quando o garoto da frente se virou de súbito e me surripiou a prova. À porta, num antecedente de nervos, tínhamo-nos entretido a gastar conversa, eu reconhecendo a constante nulidade na disciplina, e ele na firmeza convicta do seu valor e  a prometer desviar-se para me deixar copiar, coisa que não fez. Em vista do inesperado volte face, caiu-me o coração aos pés. Obrigada a uma mudez petrificada, julguei que ia ser expulsa do exame, que o professor tinha visto, que aquele estouvado esmagava de uma penada o sonho da minha curta vida. Antevi o desgosto de minha mãe. Terei mudado de cor, toda tremeliques e de olhos esparvecidos. Mas, com igual presteza, a prova foi devolvida. Portanto, fui admitida a prova oral. Um suplício. Mas, bem o sabia, não havia dispensas.
Ora, na prova de História o professor – o mesmo que vigiara o exame de matemática – perguntou-me a dada altura, olhos sérios por detrás das grades dos óculos, quando foi implantada a república. Respondi apenas, cinco de Outubro. Ele e eu a querermos saber de que ano. Mas, se ele sabia – e sabia –, eu não fazia ideia. Então o senhor, assim meio trocista, comentou que a juventude se desligava das datas importantes e fundamentais, mas sabia de modernices que não tinham qualquer interesse. E eu muito séria e outra vez a pensar, vou chumbar, vou chumbar, o meu pai dá-me uma sova e manda-me para a costura. E, em simultâneo, a interrogar-me, mas de que modernices estará ele a falar, talvez seja do uso da mini saia ou assim. Então, o professor precisou: se eu lhe perguntar qual o título desse filme  desmiolado que está em cartaz, sabe. E desfechou, vocês sabem todos o mesmo. E eu que só tinha visto dois filmes na vida, “O leão de Tebas” e “Tintim e o mistério das laranjas azuis”, pensei que aquele senhor estava a anos luz da minha condição. Porque eu não sabia em que rua ficava o cinema, ou o nome que tinha.  Portanto, sem lhe desvendar a extensão da minha ignorância, confessei a culpa,  desconhecia o nome do filme. E ele incrédulo, não sabe?! Eu, que não. Mas sabe o nome dos actores, a história, e já o viu. E eu a negar, sem ideia de nada, excepto, vou chumbar, vou chumbar. Mas o senhor – director da escola – queria instruir-me e, em simultâneo, pregar-me um sermão. Que o filme se chamava Love Story e os personagens eram Ryan O’Neil e Ali MacGraw e que era uma coisa nojenta e aberrante e cenas na neve de um por cima do outro, porcas pois claro, e não sei quê que eram só maus exemplos, que não deixara as filhas ver. E para finalizar, a tirar e pôr os óculos, num impasse, o que hei-de fazer consigo que nem sabe da história antiga nem da moderna, não sabe nada, a menina anda no mundo mas não se situa. E eu desimportada de não me situar, numa aflição acutângula, chumba-me de certeza. Mas no interior de mim, uma vozinha, então como é que ele sabe tantas cenas do filme se diz que não viu ...
E uma noite destas aparece-me o Título, “Love Story”. Decido, vou ver o filme. É tempo de saber o que tanto chocou o meu director.  


terça-feira, 28 de maio de 2019

Sempre Novo sob o Sol


A primeira vez que fui a Braga gostei de tudo, a começar na viagem carris afora. O comboio é um dos meus fetiches,  faz parte de sonhos nocturnos e diurnos. Que também já me trouxe pesadelos suficientes, aquela coisa de automóveis que encrencam no meio da passagem de nível, o impiedoso monstro a aproximar-se em estridência silvada e eu aflita de morro não morro. Mas levou-me a lugares sem conta e deu-se ao incómodo de parar deixando na gare deserta do meu sítio, e só para mim, amigas muito queridas. Enfim, cresci perto de uma via férrea e um dos  nossos pontos de diversão era, maltrapilhos e descalços, correr para o comboio e acenar aos passageiros de que apenas entrevíamos as cabeças e julgávamos pessoas muito ricas, para aí príncipes ou assim, que nem viravam o pescoço e nós em adeuses espalhafatosos, mobilizando a genica de mãos e braços. Portanto, onde é que eu ia, ah, sim, a chegar a Braga. Pois agradaram-me as ruas, os solares, as muitas igrejas com a Sé incluída, uma festa qualquer com gente a mais para mim e cabeçudos para todos os gostos.
 Pois isto tudo para dizer que voltei a Braga. Nova visita relâmpago. Desta vez sem cabeçudos, mas os comerciantes em versão medieval. E sim senhora, os homens de vestido não ficam mal de todo, embora se sintam muito livres lá em baixo o que não sei se é bom sintoma. À frente. As mulheres e jovens, lindas de morrer, indumentária caprichada. Ralha meu pai em solene invectiva, a gente, se é para pedir, pede sempre muito. Pois as bracarenses não fizeram por menos, vestiram-se de patrícias romanas, imperatrizes e o mais de alto relevo. No desfile das escolas encontrei mesmo um grupinho de escravos vestidos de saca, golpes desenhados no rosto, olhos pisados a poder de sombra roxa e negra, mas comandados por senhoras professoras todas nove horas, patrícias dos pés à cabeça. E digo-vos, havia ali mulheres bastante bonitas e romanas qb:). Ah Bracara Augusta! És mulher até ao tutano.
Como na vez anterior, deparei com festejos inesperados mas escusei o périplo das igrejas e dos solares. A bem dizer instalei-me num hotel onde o mal educado e façanhudo D. Afonso Henriques me espreitava o matutino e solitário pequeno almoço, todo fardadinho para lutar, que nem o escudo lhe faltava. Ora uma pessoa não vem nestes preparos para a sala de refeições. Mas resolvi desculpar o dislate e susto matinal. Se a real majestade tivesse alguma educação não tinha lutado contra a mãe que o educou e lhe deu aio tão bom, tão bom, que foi o que se viu e ainda por cima veio a morrer entalado na porta do Castelo de S. Jorge, dizia no livro da terceira classe se não me engano. Além do mais, bem sabemos que toda a medalha tem seu reverso e portanto, se o nosso primeiro rei fosse rapaz obediente, hoje seríamos Espanha ou, quem sabe, moirama pura. E eu, agora que já me habituei a isto, gosto de ser portuguesa. Oh! Mas os claustros do hotel, pejados de amores perfeitos, tão lindos. E a fina flor era ali que ia ao desjejum, quem sabe se com medo de D. Afonso.
Isto para dizer que fugi da multidão e fui a Tibães.  

sábado, 25 de maio de 2019

Dias de Poesia


A dificuldade da escrita. Quando não corre nos dedos e se enreda na nascente. Caprichosa, flui na indiferença e emperra nas funduras do gosto.
Parecia fácil escrever sobre o II Colóquio Internacional no centenário de Sophia. Afinal, tinha apontamentos, frases, linhas de pensamento, comparações.  Ali confluíram estudiosos, analistas do fascinante mundo grego, políticos louvadores empolando  a influência de Francisco Sousa Tavares, poetas, gente que se dedica a estudá-la em pormenor e sapiência, talvez até com o amor e dedicação que tanto faltam neste nosso mundo tecido a instantâneos. Li tudo que apontei. Mas, se antes me pareceram louváveis pensamentos, agora eram meras frases. Com sentido, sim, mas frases, discursos passageiros e quase escolares, coisa académica. Por entre as linhas de pensamento alheio, os excertos de poemas citados eram as indubitáveis e fulgurantes linhas dos meus apontamentos. A recentrar-me.
O bom poema é una e inteira beleza a que o comentário apõe uma perspectiva, como que a dobrá-lo por via do esclarecimento. Mas a poesia aguenta e não se verga, a poesia, que é oral mesmo quando se lê com os olhos, música em palavras ditas, tem essa dignidade evidente que Eugénio cantava, “estás de pé na orla dos meus versos”. É assim que sei Sophia, de pé. De pé na orla do mar, gozando os momentos que não viveu. De pé, em todos os seus versos-cânticos. De pé, na inteireza do desejo perseguido e que formulou na última entrevista (2001) “gostaria que se realizasse a justiça social”. Uma Mulher. Poeta.
“Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa”
(Coral, 1950)
Obrigada, Sophia.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Dias de Poesia



Ouvir falar de poesia a quem sabe mais que nós é maravilha, gesto de mestre desvelando pedacinhos de mistério.  Encanto que alguns estragam com qualificativos vocabulares estranhos, em manejo de intrusos bisturis que se entretêm a retalhar o que é inteiro. Indiciam supérfluos fogos fátuos, mas, quem sabe, têm a sua acuidade.
Movida a intenções, rumei ao II Colóquio Internacional sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, para mim, apenas Sophia. Sophia e Eugénio de Andrade foram as grandes descobertas da minha vida. Antes deles, a poesia era a dos livros de leitura, nem boa nem má. Era. Para todo o sempre da memória moramos juntos, como Pessoa e o seu Menino Jesus.  Pertenço-lhes só porque sim, em extensa intuição amorosa de todas as letras. A sua poesia atingiu-me e trouxe-me, de seguida, outros poetas.
Foi um colóquio de qualidade, nomes sonantes da política à mistura. Que também por lá a inteireza de Sophia lutou e se desiludiu. Mas é agradável saber que a gente da Polis lê Sophia, a conhece. Não sei se os senhores ministros e ex ministros têm consciência que a convivialidade com a poeta lhes aporta ainda mais responsabilidade. Mas esse é problema deles.
O meu problema foi Adília Lopes. Conhecia Adília das palavras aqui e ali. Gostava delas sem mergulhos de luz, mas reconhecendo na poeta a afinidade despida de artifício que me seduz na vida, uma atenção ao quotidiano e à banalidade humana. Não estava preparada para uma mulher de massa densa que se levanta e, como criança tímida que mostra o rodado da saia e quer agradar, diz, Bom Dia. Nada me preparara para o seu quase pedido de desculpas por ir ler uma coisa pequenina. Como se nos estivesse a machucar ou pisar um pé. E leu a coisa mais simples e bonita, a sua história com a poeta. De como a conheceu e ela lhe acompanha a vida. Não o disse, mas escreve muito de encontro e contra Sophia, pega nos seus poemas e reverte-os ao seu sentido. Afirmou que a lê quando não lhe apetece escrever e, reconheceu, continua a motivá-la. Depois retirou-se e não mais se viu.
(cont) 

domingo, 19 de maio de 2019

Bom Dia, Tolentino



        Bom dia, Sempre. Bom dia para os dias em que te não vou ver ou ouvir falar de ti. Bom dia ao fim dos meus recados que não te atingem e nunca lerás. Bom Dia!
Pois eu, ao invés do hábito, cheguei cedo à tua igreja. Mas cedo – e tão cedo que cheguei – era tarde para a saudade dos teus paroquianos. Qual curso, qual carapuça. Estavam  todos. Um mar de gente em completa invasão e que só não trepou pelas colunas: coro, corredores, altar...tudo abarrotava.
Resolvi-me a ficar de pé, apertada entre cotovelos e discrições de um católico que em vão tentava não me tocar (quase cómico). Mas, como é vezeiro na minha terra, “foi sol de pouca dura”, que o corpo não me sustenta as intenções. Acabei por ouvir-te sentada no chão, beirando a aparelhagem, num corredor periférico, a fita girando em círculos.
Não falaste de saudade e brevemente agradeceste a atenção geral, o interesse, a amizade. És o mesmo, mas outro. Engordaste. E falaste do que fazes. Como se aquela não tivesse sido a tua capela e fosses visita a dar conta da sua função no Estado do Vaticano.
Contaste dos livros e da sua história, do privilégio e responsabilidade de tomares conta de seis milhões de livros dos quais  cerca de oitenta mil são manuscritos. Disseste que guardas também a numismática e lá se encontra uma moedita que um português desconhecido deixou  de esmola nos princípios de sermos país, a par de potentes moedas de ouro, oferta de grandes reis. Proclamaste nossa essa biblioteca a perder de vista, cinquenta quilómetros de estantes que tanto impressionaram Francisco. É ponto assente para ti, pertence a todos os crentes. Desculpa, mas essa é uma verdade que julgo muito relativa.
Era o teu convite, o teu, “sigam-me” isento do “deixar tudo”, que a amizade não requer. É na extensa rua dos livros e das palavras que ora te encontraremos. Não há outro caminho. Pertences onde estás e depois de estares não voltas à vida do padre simples que sempre serás. És bispo.
Comove-me até às lágrimas a tua ausência delas, o teu seguir em frente, a aceitação do novo desafio, a compreensão exacta do necessário no momento certo que foi este. De certo modo, Tolentino, mais que o reencontro estavas a despedir-te do rebanho, um mundo onde me senti penetra mas sempre grata. Acredito que não tenha sido fácil. É lindo o caminho e o que importa não é chegar.
Faz de conta que sou também do teu rebanho. Bora ir por aí.

terça-feira, 14 de maio de 2019

É sempre a primeira vez...


A vida acontece desde o chão à claridade azul sobre as copas das árvores e, no compasso das horas, o dia desenvolveu uma força luminosa e quente que atinge os sentidos. Mergulho na paz solitária do caminho. Revendo. Notando. Saudando. O tamanho da saudade adquire dimensão e faz-se presente quilómetro a quilómetro. Aqui, a fábrica ainda deserta, longe da tortura de suor dos camiões que aguardam descarga; ali, enfeitando o horizonte, a imóvel vigia materna das cegonhitas novas; mais à frente, de onde em onde, uma árvore crucificada, esqueleto de beleza negra que sobressai nos redondos de sol. As árvores morrem de pé. Morrem como viveram, sem queixa ou gemido. Mortas, não dão sombra, nem frutos, nem flores. E ainda assim, podendo, estão no seu lugar.  
Ao longo da estrada, muitas são as árvores que desfilam pelo olhar. Vivas, cheias de viço, frutos ainda em formação. A força que a natureza põe em viver é impressionante. Reparo naquela árvore velha, toda cinza e rugas, três braços toscos e secos. Contudo, qual ternura súbita que irrompe em alguém rígido e azedo, na base de cada um dos braços surge uma onda de folhinhas verdes.  As árvores são lição vegetal. Saúdo-as desde a raiz que lhes desconheço. Contudo, este caminho verde é um estádio para o objectivo: o mar.
Entram-me alegria e surpresa tão fundas à vista de praia navegável que não há-de ser maior o prazer num encontro de enamorados.  O coração detém-se frente àquela imensidão de azul intenso, olhos gratos pela mansidão da água que a discreta serra guarda. E o mundo é nítido até ao horizonte, o ritmo das ondas a quebrar o silêncio. Concedo, não há vez em que a olhe e não pense e quase sinta a sua frescura leve a rodear-me inteira na plenitude amorosa que não se explica e só quem ama a água conhece. Quem me dera ser alga, ou um bivalve qualquer, um peixe do cardume que sem susto me rodeou e continuou o rumo. Mas sou outra coisa. E afogo a saudade de águas que tão bem conheço um inúmero de primeiras vezes. Viva!


domingo, 12 de maio de 2019

Olá Tolentino


Desculpa a demora, mas distraí. Foi talvez da primavera sui generis que este ano se vai desenrolando. Não por faltar ao curso, que ao pobre todas as migalhas apetecem e, como  a raposa  esperava as quintas feiras para comer galinhas, assim eu aguardo as segundas para duas horas de agrado e alimento. Miguel Torga bem sabia, a vida é feita de nadas.
“Memórias de Adriano”, obra de Marguerite Yourcenar, é um dos livros da minha vida. Emprestaram-mo aos vinte anos. Hoje, repetindo a leitura, concordo, as memórias de alguém à beira da morte não são leitura adequada para a juventude. Mas desde logo o preferi. Por ser contado; pela erudição e compreensão que revela; por mostrar um ser profundamente humano e sabedor: Adriano, Imperador de Roma que viveu entre os anos 97 e 138; também por Antínoo, amor e mágoa tão rasgadamente presentes em Adriano. O meu encontro com Marguerite, ali, nas páginas do livro, prevalece. De novo me faz presente um homem inteiro e admirável, sem pieguice mas de sentimentos fortes, vontade férrea mas capaz de erros e fraquezas, com uma visão de mundo que lhe orienta a acção. Adriano é um modelo do humano e gostamos de nos rever em gente exemplar, afinal,  tão igual a nós mesmos.
Coube ao Padre António dilucidar a obra. Do exposto, aprendi que este livro é dos últimos da autora e foi construído durante vinte anos. Ao longo desse tempo a autora fez e refez a obra, destruiu-a e começou tudo de novo. Valeu a pena, abençoada a teia que produziu tal tecido.
Talvez Marguerite tenha visto a necessidade de um estadista europeu com o perfil de Adriano, um unificador comungando do ideal grego de  beleza e harmonia, alguém que unisse a Europa do pós guerra como Adriano uniu o império romano harmonizando os retalhos de vários povos, mas sobretudo dos gregos a quem admirava e dos romanos. O certo é que este imperador romano que viveu cem anos depois de Cristo mantém uma actualidade ímpar. Os homens são sempre os mesmos. Cada vez mais os mesmos.
O livro é uma lição de vida que se distribui por amplos vectores. Porém, a tudo prefiro as páginas que Marguerite, pela voz de Adriano, dedica a Antínoo e ao amor entre ambos. Porque, na ordem do sentimento,  tudo que houve antes e depois é banalidade. Como também disse o orador, “No mundo, o divino encontra-se no amor”.
                                                                                                                                    

sábado, 11 de maio de 2019

Ponto Final


Há sempre o  regresso ao lugar de pertença. Chegámos e logo a novidade de outro ar, o rio omnipresente e uma religiosidade medieva e  pontiaguda a elidir quotidianos e hábito. E, se casos houve em que o mundo conhecido se agitava telemóvel fora, outros, mais recatados e secretos, não despegaram por completo da mente, a nova brisa a descolá-los até meio, permanecendo de pé preso em infrutífera oscilação de braços. À medida que os dias corriam desalmados, o infatigável das horas sedimentava-nos a posição. Tudo, das lajes do chão à simpatia dos Amarantinos,  debruava a verdade, és visita.
Para trás ficou a hospitalidade risonha da Catarina, a delícia dos seus bolinhos, o pequeno almoço mirando o rio. E um passeio lá em baixo, junto à água, bucolismo verde na ponte pequena. Depois, a subida escolhendo o íngreme e a clorofila de caminhos  feitos a pouco degrau.
Ou a hora da visita de honra, em casa de S. Gonçalo. Agradecer-lhe o interesse que mostrou pelas gentes da beira Tâmega; a visão de desenvolvimento que presidiu à construção da  ponte velha e a plenitude pela beleza sacra de atravessá-la, passos devotos e recolhidos; o clima que se pôs a gosto em estadia aprazível. A incrédula efígie do santo abrindo a bondade de um meio sorriso. Vassalo das suas sandálias, um fresco molho de cravos vermelhos ditava orvalhos de fé. O frade num incentivo, não pedes nada, minha filha.  Suponho que enchentes de pedidos e olhos suplicantes cheguem a cansar-te. Para que nascemos, Gonçalo. Talvez só para viver. Não viemos talhados para nada, fizemos caminho: estradas largas e menos largas, pedaços de vereda, sendas estreitas abertas a catana, subidas difíceis com quedas súbitas e à reboleta, muito pó, arranhão e nódoa negra. Pedir-te o quê, não fugimos ao que somos. Ladeias o altar da igreja que foi pertença do teu mosteiro e tem raíz na Idade Média. De um lado, a efígie; do outro, o túmulo. No recato penumbroso que te guarda os restos, onde certamente te rezam, espreita o frio respeitoso dos mortos.  Bem melhor te conheço e encontro, em corpo e espírito,  no ar que se respira, nas arcadas da ponte,  margens do rio e lajes do chão. 
Foi um prazer, Gonçalo. Até Sempre

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Reconhecidos Prazeres


As confeitarias onde alegremente peregrinámos, um dia uma, um dia outra,  na prova de doces conventuais. Que dormíamos sobre  bolos e pasteleiros. Descíamos matinais e logo alcoviteiros vãos de escada nos serviam doçuras de bolo quente.  E nós contando degraus e a fazer uso do contraditório português, cheira a bolo fresco. Em baixo, servida ao balcão, a simpatia da nossa hospedeira, uma nascente de ternura apaziguada a brincar-lhe no sorriso juvenil. O rio na moldura de parede a parede, mundo de água que não pára de correr. E ela plácida, vozinha suave e sem tragédia, “nos invernos em que o Tâmega sobe mais somos os primeiros a ficar alagados, a água chega a ter um metro de altura”.  Há pessoas assim, são boas desde tudo, diz-se na minha terra, “de uma ponta à outra, dos dedinhos do pé à raiz dos cabelos”. Creio que a Catarina pertence a esse grupo; mas é verdade que não tive tempo para avaliar, cinjo-me a impressões. Que os deuses a protejam e lhe dêem um anjo da guarda cumpridor.
     E depois o restaurante que escolhemos e onde fizemos certamente um chinfrim dos antigos, os comensais de hábito a deitarem rabos de olho esparvecido a quatro maduras tão dadas a saúdes e balbúrdia bem disposta. Mas lá nos foram aturando. Que abancámos do primeiro ao último dia.  Chegávamos encasacadas e invernosas e daí a pouco era primavera ou verão e ficávamos em corpo, as cadeiras num sufoco ajoujado, juro que não posso mais. E calma aí, não eram apenas eflúvios do vinho verde, era coisa também do fogão de lenha todo dádiva, sou vosso, o brasido à espreita a convidar o ambiente. E nós a beirá-lo. E à saúde de quem está; e de quem não, mas gosta de nós.
Reconheço, saí de Amarante com a noção exacta do meu valor na cozinha. Julgava-me cozinheira de “razoavelmente bem”. E assenta-me apenas o advérbio de modo. Isto porque degustei pratos que cozinho e cujo sabor era espectacularmente melhor. Ora bem. Acresce que não fui caso único. Um dos elementos do grupo chegou ao cúmulo de afirmar - peremptoriamente, diga-se - que já amesendou em muito lugar e jamais com tal gosto. Por outro lado,  não acredito na versão, “é do fogão a lenha”....hum....soa-me a desculpa de fábula. Um fogão a lenha pode ajudar, mas devíamos ter dado os parabéns à cozinheira. Merece.
E depois disto? Bom....depois disto, só mesmo os gelados Portugal que saboreámos instaladas na esplanada do Café S. Gonçalo e sob as vistas disfarçadas de Teixeira de Pascoaes, que bem o reparámos; discrição de bronze, o hábito sentava-o na mesa do fundo . E dali nos espreitava. Quereria um cone de doce de ovos, ou seria antes um praliné com figo. Vá-se lá saber, escritores e poetas são mentes insondáveis.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Museu Amadeo Souza-Cardoso


Do Museu de Amarante, e para além de Amadeo e mais pintores, maravilha-nos o edifício, antigo convento dominicano. Em dias penumbrosos, ressoam passos leves nos claros corredores dos claustros e sente-se na largura dos degraus, a rodear os passos, o roço suave do burel das capas e o linho espesso da túnica  beijando-os de raspão. Nos dois claustros que cercam uma fonte ou apenas a largura de quadrado livre, estão os monges em recreio, contentes do ar e do sol, pássaros a beber-lhes quase à mão. E o silêncio que se distribui pelas arcadas, pensamentos que se não ouvem e por vezes, tantas vezes, são silício trazido do mundo. Que a clausura não é total e nem lhes inibe a veia caritativa e social.
   Pena que não possamos fotografar, trazer uma pobre réplica do que vimos e gostámos,  acto que nos é permitido em tanto lado, mas raro acontece em museus portugueses. Um museu de província sem a profusão de obras em grandes dimensões mas, fora de dúvida, espaço condigno de nomes como António Carneiro, António Cândido e, sobretudo, Amadeo Souza-Cardoso a quem é dedicado. Parabéns, Amarante!
Amadeo na sua modernidade pictórica, estuando juventude e audácia em cada traço, cor e poro. O Amadeo pintor moderno, desafiador e imortal, lábio cheio, laivos de supremacia ao fundo do olhar que não chega a ser insolente. Na pose nonchalant ou aprumada do corpo reluz, triste ironia,  a força de ser moço que se conhece e reconhece; e ressalta-lhe da figura a aura de eternidade imbatível, própria de jovem formoso e sadio, que tem de seu e faz o que gosta. Custa crer que a pneumónica o levou num ápice.  E contudo prefiro-o no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian acompanhado pelo Pessoa pitosga que emerge das quadrículas do chão feito Pierrot em vermelho, negro e amarelos. E o poeta sentado e  circunspecto, casaco preto, camisa branca e laço escuro em fundo que avermelha, um escriba tímido todo em cerimónias (está de chapéu e tudo), quase a fazer boquinhas de nervo, certo jeito de “não quero incomodar”. E está ali, ensimesmado e quase terno. Só o génio de Almada podia pintá-lo assim. Que boa companhia para Amadeo.
Mas o museu de Amarante dá-nos mais autores que, na arte do retrato a carvão, pastel ou óleo - e até em escultura - não desmerecem. E neles aprendemos que certas senhoras do Norte eram formosas excessivas, lindas de morrer; pronto, estão também uns senhores que não serão maus de todo. Daquela gente vária, cujas obras por ali se dispõem a uso de sentidos e mente, há a que pertence ou nasceu em Amarante. Lugar tão a gosto é acicate; e beleza olhos adentro é forçoso que dê frutos de apetite.

domingo, 5 de maio de 2019

Beirando o Tâmega


Em Amarante gozámos uma varanda sobre o Tâmega em contemplação do seu passo esgalgado, armado em pressas e alheio a brandos alvores matinais e ocasos langorosos. Da preguiça de chamativas cadeiras, apoiadas na mesinha de flores,  observámos o sulco de pequenos barcos a contrariar a corrente, remos inchando de esforço. E a ciranda infatigável da penugem dos plátanos irritando mucosas, ora próxima, ora afastada de arbustos e árvores que sobrevivem aquáticos a meio do leito, ilhotas verdes a desenhar veredas de água, parcial eclipse da navegação. E, quem sabe, num desses ocasos dos barquitos, uma sereia lodosa emerge um dia, braços estendidos e diletantes a desviar um, ajudando-se com a rede dos cabelos. E as gentes desprevenidas olhando o outro lado, vai aparecer, vai aparecer. Mas o marinheiro de água doce tudo esqueceu, inúteis remos na mão. Ulisses do Tâmega, não conhece caminho, preso nos enredos feiticeiros da mulher-peixe. Em terra, afadigam-se bombeiros, draga-se o rio, mergulhadores agitam os escaninhos da água, movem pedras, acordam peixes. Enfim, encontram o barco sem remos, longos fios a percorrê-lo em teia. Os bombeiros sem entender, isto é obra de aranhiços da água que também os há...mas o corpo...mas o corpo...Lá longe, sob o leito do rio, no insuspeito reino das sereias há festa, tocam harpas e bebe-se o vinho da alegria. Quem sabe...
Mas não se vive apenas de rio. Na ponte de S. Gonçalo passaram carroças de trabalho e gente de armas, misturada de suor e sujidade com esterco animal; caleches e carros finos, quiçá uma mão enluvada a afastar a brevidade de uma cortina na saudade da cúpula, do rio, do largo conhecido... alívios de tafetás, roçagar de seda e impaciências de leque na chegada com atraso, a parelha trotando alegrias sobre as lajes conhecidas.
Passar a ponte é chegar a casa. De que lado para onde, não interessa; é sempre chegar a casa. Foi assim connosco. Ao encontro de um lugar luminoso e arejado que foi nosso por inteiro nos dias em que foi. E, quem sabe, estaremos lá ainda, debruçadas no varandim.

sábado, 4 de maio de 2019

Lenda e Narrativa


Não sabemos a razão de algumas certezas. Déscartes dizia-as intuitivas e simples. Ora julgo que serão simples na medida de serem certezas e não por abundância  da simplicidade. Mas, outrossim, são intuitivas. Arreigam em nós, evidentes e claras, mercê do mundo que nos circunda e fora de inatismos ideais. Mas o bloco intuitivo é sempre curto, mera barra de sabão em vez de estrado de mesa. Assim, eu estava segura da chuva a acompanhar-nos até ao destino em grossuras de corda, desde as imediações do Porto, mas desconhecia a desmesura de frio na estação de serviço, o farnel a revirar de vento, guardanapos armados em fugitivas pombas brancas. E era uma vez um copo de sumo, enquanto, num repelão, a surpresa dos poros aguçava pêlos distraídos. E nós nos escafandros de inverno a dar pressa a maxilares. As intuições humanas são isto, uma incompletude. Que não convence.
 Com excepção da minha pessoa a impar de certezas climáticas, a esperança de viagem sem chuva só cessou à vista das ditas cordas de lágrimas celestes caindo fragorosas em compactas nuvens de gotas que  rescendiam do asfalto.  Deus Nosso Senhor recebeu-nos assim, em lágrimas. Pensámos que de alegria por nos apresentar ao vivo e a cores a S. Gonçalo eremita e frade de muito milagre de era antiga e moderna. E, ora bem, casamenteiro das velhas (não vem na Wickipedia, mas é verdade verdadinha). Não sei em que idade concreta da velhice ele começa o ofício, mas é de crer que estejamos todas no tempo certo de dar que fazer ao Santo. Embora conste que o Bom Padre não queira nada com emparceirados (bem ou mal, não lhe interessa, passa à frente), dois elementos reúnem as condições e, portanto, mesmo sem mão não sei onde, ou explícito de viva voz, o Santo não lhes vai faltar. Não tarda nada que anunciem companhia. Essa é que é essa. Mas não se julgue que foi por isso que fomos a vê-lo, que nem sequer sabíamos das potencialidades santíssimas. Porém, agora, está no papo. Pisámos terreno sagrado e o venerável que não se ponha com coisas, não há desculpas.
Tão útil e tão bela a tua ponte sobre o Tâmega! É linda, Gonçalo, e aporta a Amarante a aura maravilhosa de “era uma vez”. Faz-me bem pensar-te assim a inventá-la e, quem sabe, a pisá-la dando graças aos homens e a Deus. Mas  é uma injustiça que não seja apenas pedonal. Vá lá, faz o milagre, toca o coração dos homens e dá às pedras os pés que as merecem.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Prévios de uma viagem


Quase tudo do que nos apetece é vivido por antecipação, em jogo propedêutico do imaginário. Fazer planos abre portas ao odor de satisfação remanescente da conjectura. O mesmo não se diz da execução. A prática gera ângulos inesperados onde havia abraços circulares, nascem imperativos suspeitos e de má índole a toldar a sequência pensada, plantam-se menires em caminhos antes desimpedidos. Os imponderáveis do agir estendem-se caminho fora e não se conformam ao mapeado. Em suma, o agir é rebelde. Contudo, a rebeldia da acção não eclipsa o projecto. Antes tendemos para ele a desejo e apetite ou por dever e condição, murados em cautelas de acaso. Pontualmente, a desilusão suplanta o espanto da divergência. Ou não.
E assim connosco. Esperava-te em casa, lençóis engomados, jantar pronto antevendo a tua opinião sobre um prato que desconhecias. Entretanto, como canta o Rui, “faltaste ao prometido”, não ligaste.  Por ínvios caminhos te perderas, longe do jantar e de mim. Chovia. Apanhei-te noite cerrada, vencida a bravata de limpa-pára-brisas e incógnitos buracos de estrada surgidos a relâmpago de faróis, desleixada ignorância de governantes. Vestias o ar de cordeirinho arrependido, armado de guarda-chuva e bagagem. E eu sabia que não era mise en scène. O regresso foi entre risos e lembranças, pretexto de só nós duas que nos olvidou o motivo. À beirinha da liberdade, que importa um percalço de viagem, o jantar tardio, o atraso na deita. Nada suplanta a limpidez de um passeio entre amigas.
No outro dia, madrugámos sem atraso e, picnic  na cesta e casa ajeitada, rumámos de mala e bagagem ao encontro da outra metade. Juntas. Enfins ordenados e arrumados. Partida, largada, fugida.
Uma alegria de não haver outro relógio que a nossa decisão. E frio. Um solito tímido por entre nuvens, ainda zonzo de chuva, a clarear ideias numa indecisão de vou, não vou, “hoje apareço; hoje faço-me presente; ai tão entorpecido que estou, quem sabe mais um bocadinho deitado num colchão de nuvens negras me faria bem...” E nós relevando manigâncias de sol, Viva a Liberdade! E quem nos dera passar na ponte Salgueiro Maia a cantar a gaivota que voava voava.  E nós como ela, em modo de alma voadora.