Não esqueço a manhã morna e oblíqua em que Jaime desaguou na aldeia. Pesaroso e sem mundo. Aterrado. Vivendo como em filme, personagem e espectador. Desde a violência de lâmina
que o chocou inda a madrugada cabeceava, “o jovem tem de regressar a casa, sua
mãe faleceu”, até à sugestão murmurada nos degraus do comboio, desce, desce,
desce, a plataforma e o rosto do pai a fazerem-se próximos. Desde então, o
mundo parecia-lhe cenário desarrazoado, exibição
sem chamamento. Notava até certa desfaçatez no dia que clareava, uma ironia
desdobrada em luz, fazendo contraponto à sua escuridão. Ao sol, casas desordenadas
branquejavam aqui e ali; nos campos, o feno acamado em paralelepípedo num jeito
de prenda abandonada e sem laço; um tractor pressuroso a deslocar-se numa nuvem
de poeira e ruído; galinhas em passinhos ocos, ziguezagueando o apetite
desconfiado por capoeiras inóspitas, ou em monturos que espiolhavam como quem procura
ouro em mina; e galos de passada larga, despedindo soberba em ademanes de
patrão; cães que a fome adentrava pelos quintais, cheirando restos, virando
latas e desfazendo-se em ladridos de atenção aos movimentos da rua e animais da
casa. Que coisa essa de os sentidos continuarem funções e o mundo ignorar a
estranheza da inaudita morte que o abismava. E ele crescido, casaco e gravata, ombreando
com o pai, atento a tudo, esforçando-se por não pensar no precipício e na vida
desarrumada, a evitar o pranto porque um homem não chora, bastava ver a
tristeza seca e impenetrável do progenitor. E ambos recebiam abraços e palavras
de conforto deste e daquele, e louvores gratos de tanta mulher a quem a mãe
acudira, uma santa que Deus chamou por ser tão boa. Mas ele não lamentava a
santa, talvez nem a conhecesse bem. Com e sem lágrimas chorava a mãe que só ele
tinha. Nos grandes desgostos, os homens
não aguentam subterfúgios e as lágrimas, todos o sabem, amarfanham propósitos.
Ora Jaime era apenas um garoto em
disfarce de rapaz, um menino magoado, trespassado pela evidência da orfandade,
incrédulo do nunca mais que a morte escrevera no ser que mais amava. A falta materna fazia-lhe incerto o mundo, tremia-lhe
o chão e o desgosto escorria.
Nos
dias que se seguiram às cerimónias, quando a casa tentava recompor-se de humores
e cheiros, das flores, de tanto rosto e tanto passo, de rezas, crendices e
promessas, do diz que diz murmurado por respeito a quem Deus já lá tinha, Jaime
colhia ânimo fixando-se nas coisas. Amparava-se ao quotidiano, enchia-se de sons
e ruídos, a tudo dava atenção. Postava-se
frente ao espelho perscrutando o rosto como quem espera sinal de bexigas,
sarampo, uma febre tifóide. Mas, fora a
palidez e certo lastro triste, era o mesmo rosto de antes. De outras vezes, perdia-se a olhar objectos
que a mãe preferira; pegava, voltava-os na mão e repunha-os no lugar.
Cada homem molda a tristeza como sabe e pode. Há os que se iludem e, assoberbados na dor, negam a realidade; noutros, os
sentidos depuram e como que se vão sofrendo nas coisas apercebidas e nelas exorcizam a
mágoa. A natureza de Jaime incluía-o nos últimos e, à medida que os dias
corriam, a juventude insistia, estás vivo. Expedita, Celestina empurrava-o para
os estudos e desdizia da solidão, vá ver os amigos da cidade, torne aos livros
e à escola, era o que sua mãe mais queria. O pai, sempre por fora e sem a mãe para
uni-los, pouco se deixava ver. Que andava pelas vinhas, dizia. Cada um disfarçando a tragédia a seu modo. À vista um do outro,
tentavam minimizar o próprio sofrimento, contrariavam a apatia, fingiam. Fingir era necessidade. Por vezes, um acto de misericórdia.
Muito bom texto, a sério, sem palavras.
ResponderEliminarE a típica "crença" que homem não chora..
Beijocas
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EliminarBoa noite, Cláudia:).
ResponderEliminarNão pode ser verdade isso do texto. Custou-me escrevê-lo, sou mais fluente em "coisas" à flor da pele. Páginas que se arrancam a ferros não podem ser boas.
Cada ser humano molda a tristeza a seu jeito e encara a saudade com o que tiver à mão! Parabéns por mais um belo momento de leitura e escrita! Bj
ResponderEliminarA sua(e parcialmente minha) afirmação diz os efeitos da morte completa, Gracinha. Devia dedicar-se à escrita:), apesar da fotografia ser em si uma mais valia. A saudade...esse sentimento que se vai medindo na progressão da distância, que só o tempo torna vivível, mas não se evola. Quando alguém nos morre há apenas o absurdo da falta, a beira do precipício. Depois começa a aprendizagem de viver sem e vamos plantando as árvores da saudade na beira do caminho
EliminarBom dia, Gracinha.
A more do pai de um dos meus amigos.
ResponderEliminarO corpo a ser velado, a necessidade de o tirar dali.
O funeral, as carpideiras, a casa desarrumada e a mãe inconsolável.
E depois a vida que seguiu para todos.
Vestida de preto.
A vida tem muita cor, não é mesmo, Pedro? Há o preto. Também. Não é eterno. Vamos aprendendo a colori-la por sectores, construindo - quase sem darmos por isso, mas também muito acordados para o assunto - um arco íris pessoal, sem alternâncias. Estão sempre lá todas as cores, nós é que, por exigência circunstancial ou por nós mesmos, atendemos mais a uma(s) que a outras. A vida humana é, em si mesma, um arco-íris.
ResponderEliminarBom Dia, Pedro.
Com que dureza e beleza a morte é descrita e o que ela faz a quem fica. Magnifica prosa poética. Abraço!
ResponderEliminarOs teus olhos, são sempre os teus olhos, está neles tudo que escreves, prosa.
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