quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Sombra Chinesa

 

Não esqueço a manhã morna e oblíqua em que Jaime desaguou na aldeia.  Pesaroso e sem mundo. Aterrado.  Vivendo como em filme,  personagem e espectador. Desde a violência de lâmina que o chocou inda a madrugada cabeceava, “o jovem tem de regressar a casa, sua mãe faleceu”, até à sugestão murmurada nos degraus do comboio, desce, desce, desce, a plataforma e o rosto do pai a fazerem-se próximos. Desde então, o mundo parecia-lhe cenário desarrazoado,  exibição sem chamamento. Notava até certa desfaçatez no dia que clareava, uma ironia desdobrada em luz, fazendo contraponto à sua escuridão. Ao sol, casas desordenadas branquejavam aqui e ali; nos campos, o feno acamado em paralelepípedo num jeito de prenda abandonada e sem laço; um tractor pressuroso a deslocar-se numa nuvem de poeira e ruído; galinhas em passinhos ocos, ziguezagueando o apetite desconfiado por capoeiras inóspitas, ou em monturos que espiolhavam como quem procura ouro em mina; e galos de passada larga, despedindo soberba em ademanes de patrão; cães que a fome adentrava pelos quintais, cheirando restos, virando latas e desfazendo-se em ladridos de atenção aos movimentos da rua e animais da casa. Que coisa essa de os sentidos continuarem funções e o mundo ignorar a estranheza da inaudita morte que o abismava. E ele crescido, casaco e gravata, ombreando com o pai, atento a tudo, esforçando-se por não pensar no precipício e na vida desarrumada, a evitar o pranto porque um homem não chora, bastava ver a tristeza seca e impenetrável do progenitor. E ambos recebiam abraços e palavras de conforto deste e daquele, e louvores gratos de tanta mulher a quem a mãe acudira, uma santa que Deus chamou por ser tão boa. Mas ele não lamentava a santa, talvez nem a conhecesse bem. Com e sem lágrimas chorava a mãe que só ele tinha.  Nos grandes desgostos, os homens não aguentam subterfúgios e as lágrimas, todos o sabem, amarfanham propósitos. Ora Jaime era  apenas um garoto em disfarce de rapaz, um menino magoado, trespassado pela evidência da orfandade, incrédulo do nunca mais que a morte escrevera no ser que mais amava. A falta  materna fazia-lhe incerto o mundo, tremia-lhe o chão e o desgosto escorria.

Nos dias que se seguiram às cerimónias, quando a casa tentava recompor-se de humores e cheiros, das flores, de tanto rosto e tanto passo, de rezas, crendices e promessas, do diz que diz murmurado por respeito a quem Deus já lá tinha, Jaime colhia ânimo fixando-se nas coisas. Amparava-se ao quotidiano, enchia-se de sons e ruídos, a tudo  dava atenção. Postava-se frente ao espelho perscrutando o rosto como quem espera sinal de bexigas, sarampo, uma febre tifóide.  Mas, fora a palidez e certo lastro triste, era o mesmo rosto de antes.  De outras vezes, perdia-se a olhar objectos que a mãe preferira; pegava, voltava-os na mão e repunha-os no lugar.  

Cada homem molda a tristeza como sabe e pode. Há os que se iludem e, assoberbados na dor, negam a realidade; noutros, os sentidos depuram e como que se vão sofrendo nas coisas apercebidas e nelas exorcizam a mágoa. A natureza de Jaime incluía-o nos últimos e, à medida que os dias corriam, a juventude insistia, estás vivo. Expedita, Celestina empurrava-o para os estudos e desdizia da solidão, vá ver os amigos da cidade, torne aos livros e à escola, era o que sua mãe mais queria. O pai, sempre por fora e sem a mãe para uni-los, pouco se deixava ver. Que andava pelas vinhas, dizia. Cada um disfarçando  a tragédia a seu modo. À vista um do outro, tentavam minimizar o próprio sofrimento, contrariavam a apatia, fingiam. Fingir era necessidade. Por vezes, um acto de misericórdia.

10 comentários:

  1. Muito bom texto, a sério, sem palavras.
    E a típica "crença" que homem não chora..

    Beijocas

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  2. Boa noite, Cláudia:).
    Não pode ser verdade isso do texto. Custou-me escrevê-lo, sou mais fluente em "coisas" à flor da pele. Páginas que se arrancam a ferros não podem ser boas.

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  3. Cada ser humano molda a tristeza a seu jeito e encara a saudade com o que tiver à mão! Parabéns por mais um belo momento de leitura e escrita! Bj

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    1. A sua(e parcialmente minha) afirmação diz os efeitos da morte completa, Gracinha. Devia dedicar-se à escrita:), apesar da fotografia ser em si uma mais valia. A saudade...esse sentimento que se vai medindo na progressão da distância, que só o tempo torna vivível, mas não se evola. Quando alguém nos morre há apenas o absurdo da falta, a beira do precipício. Depois começa a aprendizagem de viver sem e vamos plantando as árvores da saudade na beira do caminho
      Bom dia, Gracinha.

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  4. A more do pai de um dos meus amigos.
    O corpo a ser velado, a necessidade de o tirar dali.
    O funeral, as carpideiras, a casa desarrumada e a mãe inconsolável.
    E depois a vida que seguiu para todos.
    Vestida de preto.

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  5. A vida tem muita cor, não é mesmo, Pedro? Há o preto. Também. Não é eterno. Vamos aprendendo a colori-la por sectores, construindo - quase sem darmos por isso, mas também muito acordados para o assunto - um arco íris pessoal, sem alternâncias. Estão sempre lá todas as cores, nós é que, por exigência circunstancial ou por nós mesmos, atendemos mais a uma(s) que a outras. A vida humana é, em si mesma, um arco-íris.
    Bom Dia, Pedro.

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  6. Com que dureza e beleza a morte é descrita e o que ela faz a quem fica. Magnifica prosa poética. Abraço!

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  7. Os teus olhos, são sempre os teus olhos, está neles tudo que escreves, prosa.

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