Ele há dias em que a vida parece apostada em nos arredar os planos ou, pelo menos, se diverte a complicá-los. Manhãzinha, nada o faria prever. Era uma sexta feira quente e bastante apetecível, depois de um café com leite moreno; mais um dia em que pensei “era bom dar uma volta a pé”, mas não o fiz. Lembrei outros anos, dias de avental atrapalhado por bolo e lanche com meu pai e a nossa satisfação contemplando a sua, em mais um ano a acrescentar. Não me demorei nos inevitáveis da morte, a vida chamava-me aos gritos: as flores que necessitavam alimento, as compras de fim de semana, as pequenas coisas que apontara fazer antes de partir. No super, as duas caixas abertas tinham filas sem fim. Fui pedir a uma das meninas se não podiam abrir outra caixa. E ela, falta de pessoal, férias, atestados, ta, ta, ta...Esperei já a olhar o relógio e a encarnar o meu papel de resmungona com uma cliente próxima que andava a encher o carrinho. Já a depositar o carro de compras, passa açodada a senhora dos desabafos, que ia ao carro buscar os óculos de leitura: pedira o livro de reclamações e logo abriram outra caixa. Serviu a lição: da próxima vez faço o pedido, em caso de igual resposta, engreno o dito livro.
Sozinha em casa devido a um acaso inesperado, entre arrumos de compras e apanhar a roupa já enxuta, fiz o lanche e acomodei-o na mala arranjada de véspera. Verifiquei que me esquecera de várias tarefas e que ficariam em espera; há mais marés que marinheiros. Comecei o almoço, teria de estar em Lisboa antes das catorze e trinta se queria ver o filho; com os novos limites de velocidade a duração da viagem ultrapassa os sessenta minutos. E queria muito. Eram as doze e dez, o telemóvel dá sinal de sms. Fui ler. Era o motivo das minhas preocupações do momento, a razão por que corro para o telemóvel mal entra um sms. Fazia um pedido, uma das tarefas esquecidas. E vocês o que fariam se uma pessoa muito doente vos pedisse alguma coisa?! Satisfaziam o pedido certo? Foi o que fiz.
Regresso a casa. Era quase o quarto para as treze. Ainda tinha de grelhar a carne, aquecer a sopa e almoçar, esqueci o arroz de ervilhas. Saí antes das treze e cinco. Vesti uma blusa que não engomei, de certeza tinha outras mas foi a primeira que vi, não me lembro se mudei a saia, mas sei ter-me esquecido de mudar os ténis. Não me penteei. Paciência. E no caminho descansei mais ou menos, aproveitando as abertas dos limites de velocidade que são poucas e ignorando alguns sinais limitativos. Enfim. A segunda circular tinha já umas filas razoáveis mas ia evoluindo (as pessoas são como os caracóis, mal vem o sol desatam a sair de casa).
Sempre a controlar o tempo, viro para a alameda que me interessava. Um desvio obrigatório e uns pinos mais à frente. Desorientei. O perigo de ser desorientada é a falta de juízo que se instala, fico de imediato do lado da desrazão, bloqueio. Portanto, virei de acordo com o sentido, mas pensei que contornando a rotunda mais à frente e vindo no sentido contrário, saía depois dos pinos e continuava alameda fora. Só que não. Fiquei quase na mesma. Olhei o relógio e os pinos e verifiquei o pouco tempo de que dispunha e que eles não obstruíam completamente a via, dava para passar um veículo. Eis como penso se e quando me desoriento: não somo dois e dois. Não reparei que a via não tinha trânsito algum, não pensei que a zona devia estar interdita nos dois sentidos e ter mais pinos lá à frente a demarcá-la. Portanto, numa de animal pouco inteligente, passei no tal espaço e fiquei para lá dos pinos. Só que, ali plantado, estava um guarda ou segurança, não sei bem. Devia ser um guarda, vi apenas (também me afecta a vista) uma camisa azul de manga curta e um colete dos utilizados nos acidentes.
(cont.)