domingo, 31 de maio de 2026

O Tempo que nos Falta

 

        Ele há dias em que a vida parece apostada em nos arredar os planos ou, pelo menos, se diverte a complicá-los. Manhãzinha, nada o faria prever. Era uma sexta feira quente e bastante apetecível, depois de um café com leite moreno; mais um dia em que pensei “era bom dar uma volta a pé”, mas não o fiz. Lembrei outros anos, dias de avental atrapalhado por bolo e lanche com meu pai e a nossa satisfação contemplando a sua, em mais um ano a acrescentar. Não me demorei nos inevitáveis da morte, a vida chamava-me aos gritos: as flores que necessitavam alimento, as compras de fim de semana, as pequenas coisas que apontara fazer antes de partir. No super, as duas caixas abertas tinham filas sem fim. Fui pedir a uma das meninas se não podiam abrir outra caixa. E ela, falta de pessoal, férias, atestados, ta, ta, ta...Esperei já a olhar o relógio e a encarnar o meu papel de resmungona com uma cliente próxima que andava a encher o carrinho. Já a depositar o carro de compras, passa açodada a senhora dos desabafos, que ia ao carro buscar os óculos de leitura: pedira o livro de reclamações e logo abriram outra caixa. Serviu a lição: da próxima vez faço o pedido, em caso de igual resposta, engreno o dito livro.

        Sozinha em casa devido a um acaso inesperado, entre arrumos de compras e apanhar a roupa já enxuta, fiz o lanche e acomodei-o na mala arranjada de véspera. Verifiquei que me esquecera de várias tarefas e que ficariam em espera; há mais marés que marinheiros. Comecei o almoço, teria de estar em Lisboa antes das catorze e trinta se queria ver o filho; com os novos limites de velocidade a duração da viagem ultrapassa os sessenta minutos. E queria muito. Eram as doze e dez, o telemóvel dá sinal de sms. Fui ler. Era o motivo das minhas preocupações do momento, a razão por que corro para o telemóvel mal entra um sms. Fazia um pedido, uma das tarefas esquecidas. E vocês o que fariam se uma pessoa muito doente vos pedisse alguma coisa?! Satisfaziam o pedido certo? Foi o que fiz.

        Regresso a casa. Era quase o quarto para as treze. Ainda tinha de grelhar a carne, aquecer a sopa e almoçar, esqueci o arroz de ervilhas. Saí antes das treze e cinco. Vesti uma blusa que não engomei, de certeza tinha outras mas foi a primeira que vi, não me lembro se mudei a saia, mas sei ter-me esquecido de mudar os ténis. Não me penteei. Paciência. E no caminho descansei mais ou menos, aproveitando as abertas dos limites de velocidade que são poucas e ignorando alguns sinais limitativos. Enfim. A segunda circular tinha já umas filas razoáveis mas ia evoluindo (as pessoas são como os caracóis, mal vem o sol desatam a sair de casa).

        Sempre a controlar o tempo, viro para a alameda que me interessava. Um desvio obrigatório e uns pinos mais à frente. Desorientei. O perigo de ser desorientada é a falta de juízo que se instala, fico de imediato do lado da desrazão, bloqueio. Portanto, virei de acordo com o sentido, mas pensei que contornando a rotunda mais à frente e vindo no sentido contrário, saía depois dos pinos e continuava alameda fora. Só que não. Fiquei quase na mesma. Olhei o relógio e os pinos e verifiquei o pouco tempo de que dispunha e que eles não obstruíam completamente a via, dava para passar um veículo. Eis como penso se e quando me desoriento: não somo dois e dois. Não reparei que a via não tinha trânsito algum, não pensei que a zona devia estar interdita nos dois sentidos e ter mais pinos lá à frente a demarcá-la. Portanto, numa de animal pouco inteligente, passei no tal espaço e fiquei para lá dos pinos. Só que, ali plantado, estava um guarda ou segurança, não sei bem. Devia ser um guarda, vi apenas (também me afecta a vista) uma camisa azul de manga curta e um colete dos utilizados nos acidentes.

(cont.)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        As opções de vida acerca de haver ou não filhos merecem respeito. Entendo quem, por opção, não queira tê-los, tenho amigos que escolheram essa via e suponho que sejam tão felizes quanto um homem e uma mulher que se gostam podem sê-lo. Mas também lamento os que desejam descendência, têm um jeito todo especial para crianças e, por qualquer razão física ou de outra natureza não conseguem chegar ao porto. E casos existem em que se entra em litígio porque um diz sim e outro diz não. É certo que, por amor ao outro, por vezes um dos elementos cede. Mas não pode ficar contente com a cedência. Afinal, um dos seus sonhos é negado pela pessoa que se desejava colaborasse na sua realização. E não é um sonho qualquer - não é aquela viagem especial, o veículo xpto, a subida profissional, a casa ideada. Um filho é o desejo de colaborar, em geral com muito prazer à mistura, no milagre de um novo ser humano, pensando que só miraculosamente duas pessoas que se gostam (ou não, mas gostando é tudo qualitativamente diverso e melhor), depois de um acto de união sexual participam nesse milagre de dar vida. Lamento as cedências quando são coacção - o desacordo sobre o nascimento de um filho pode desfazer a vida conjunta e cada um procura o que deseja com outra pessoa. Mas há casos em que um dos elementos resolve o dilema deixando prevalecer o desejo do outro. A consciência de uma decisão de comum acordo, o sim ou o nada de bebés, é factor de união, mas, no segundo caso, a falta de igualdade entre os dois elementos – aceitemos que um vence e outro é vencido -, pese embora o constituir uma opção, não consigo discernir até que ponto essa é uma união saudável. Que pode ser, talvez haja factores de substituição e a mágoa vá desaparecendo. Enfim.

        Por variadas razões tardei em casar e ter filhos, não me julgava talhada para tais trabalhos. Mas, como a grande maioria das mães, mal nasceu o primeiro, aprofundei o sentimento amoroso. Foi isso. Tenho filhos adultos e independentes em toda a linha. Não me julgo uma mãe chata: não telefono senão por motivo inadiável, sei da vida deles o que querem contar e tento respeitar os seus gostos e carácter. Nunca lhes espiolhei o telemóvel nem o portátil, visitam-me se lhes apetece e quando.

    Ora, nas arrumações que já conhecem, uma das preciosidades que descobri (guardada por mim, claro), foi uma carta de Natal de um dos meus filhos. Pela letra ainda muito redondinha e escolar (não está datada e nem assinada) suponho que andaria entre a antiga 4ª classe e o 5º ano. Não vou reproduzi-la, sei que ele não gosta que mostre o que me escrevia. Uma folha de caderno e a sua letrinha redonda enchendo-a de ponta a ponta. Mas não resisto a um parágrafo menos íntimo e ainda assim tão de maravilha. E lógico, em tema a que a lógica escapa. Escreve ele:


Sei que se costuma dizer que o amor de mãe é inexplicável e inimaginável, mas nunca nada disseram sobre o amor de filho. Não sei como é o amor de uma mãe, nem nunca vou saber, mas duvido que seja maior que o de um filho. Sim, eu sei como é, mas não consigo explicá-lo. Porém sei que é forte, que o sinto todos os dias (…)


    Esta folhinha de caderno deu sentido ao tudo que fiz – desejo que nunca saibam até onde, perderia valor


domingo, 17 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        Fui professora da turma durante os três anos do ensino secundário; no 12º ano ensinei-lhes psicologia, disciplina que detestou e tive mesmo alguma dificuldade para levá-lo a bom porto; resmungava com os temas e fazia fincapé, em filosofia é que se sentia bem. No final do ano, à pergunta da praxe: “e a seguir, o que pensa fazer?” Respondeu-me seguro: vou para Filosofia. Caiu-me tudo, ele não estudava, nem detinha na escrita o rigor que um estudante de filosofia tem de cultivar, não o imaginava a ler e compreender as obras dos filósofos. E nem sequer tinha boas notas na disciplina, era aluno entre o dez e o doze, classificações que não aguentaria na universidade. Disse-lhe tudo isto e muito mais. Mas manteve, era a disciplina de que mais gostava. Fizemos uma aposta (apostei muito com alunos e à conta disso conseguimos que alguns galgassem a barreira do exame) – garanti-lhe que nem sequer concluía o primeiro ano; ele garantiu que tirava o curso completo. Como previsto, abandonou o primeiro ano a meio. Emigrou para a Escócia. Certa manhã de frio inverno, encontrei-o num comboio, o emprego escocês era sazonal. Disse-me sorrindo, “por agora perdi a aposta, mas ninguém sabe se um dia não me apetece voltar ao curso”. Libertei-o da dívida e desejei-lhe sorte na Escócia. Sei, como ele sabe, que não voltará ao curso.

        Sucede que um dos tesouros que encontrei no escritório é um escrito seu. Fez-me sorrir. Está inteirinho naquela curta folha de papel retirada de um bloco e rabiscada com a sua letra incerta, eivada de infância. Guardei-o também por gostar do garoto; para além de tudo, persiste-me a desarmante ingenuidade que o habitava.

Professora, eu perdi a minha mala, não a encontro em casa e já a procurei em n sítios e não acho. O típico aha! :)

Peço desculpa, mas não encontro o teste, se quiser faço-lhe um novo. Deixo aqui o meu e-mail.

...hotmail.com

Beijinho e boas férias e até para o ano!! :))”

Prontifica-se a fazer novo teste, mas despede-se desejando boas férias e “até para o ano”.

Que um anjo benévolo e persistente o vele, onde quer que pare. O papelito pertence-me, sinal de uma relação que foi, e está além do dizer.

sábado, 16 de maio de 2026

A Luz do Mundo

 

        Pronto, é verdade que fiquei agarrada às palavras desde que aprendi a juntar as letras. Os livros e os filmes acompanham-me os tempos livres, são peças de que sinto falta. No lugar onde vivo não existe um cinema e contento-me com as fitas exibidas nas plataformas. Não é a mesma coisa, mas ver no portátil é muito melhor que não as ver. Enquanto professora, pugnei pelos livros – mais tarde, também por filmes –. Tive momentos de leitura diária de livros escolhidos por mim e que, sobretudo na primária, encantavam os ouvintes sempre contrariados quando interrompia a leitura; e tempos houve, já na secundária, em que cada aluno escolhia um filme para comentar. Se a matéria era propícia, acompanhava com  um filme. Não me lembrei de perguntar se gostavam dessas variações, mas delas faziam relatórios, por vezes subordinados a questões.

        Acabamos sempre a influenciar alguém com as preferências próprias. É nisso que espero. Este ano, na Academia Senior, uma avó de gémeos  confessou-me emocionada que cada garoto lhe tinha oferecido um livro dos recomendados. Foi um passo, mas à pergunta, “e já os leu?”, respondeu negativamente. Mas a oferta diz que a avó falou neles. Não sei como se cria em alguém o interesse pela leitura, mas vou tentando. O exemplo vivo, por vezes, pega. Mas nem sempre é bom sinal. Senão vejamos.

        Tive em tempos por aluno um garoto inquieto e magrinho, débeis anéis aloirados, olho entre o castanho e o verde. Durante o primeiro e segundo ciclo fora colega de um dos meus filhos e conhecia-o dos aniversários. Um galito metediço e brigão que tínhamos de vigiar. Por ser o mais miúdo da turma, ganhou desde logo uma alcunha meio terna que nunca desdenhou e até aproveitou quando criou o mail. No décimo ano notava-lhe algumas observações interessantes (era participativo), embora quase nunca usasse cadernos. Havia gente com igual hábito, o que me preocupava; negociámos, entretanto, um dossier com determinado número de itens comuns de todos e que contaria na avaliação (demos-lhe mesmo um peso). Ele chegava sobre a hora, um caderno dobrado em óculo, pedia uma caneta e rabiscava o que lhe parecia de interesse (ele e os outros). Não era grande aluno, mas, talvez por nos conhecermos há anos - conheci-o com pouco mais de meio metro -, procurava e conseguia nota positiva e afirmava gostar da disciplina.

(cont.)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

A luz do Mundo

 

        Comecei as arrumações de primavera. Está visto que podem pensar muito razoavelmente, “e eu com isso?”. Pois. Nada com isso. Nem sequer para darem a necessária mãozinha (adiante, Beatriz, não te ponhas com conversa de chacha). 

        Talvez por ter começado pelo escritório, os achados foram extraordinários. Embora reconheça ter sido parcialmente desalojada - a secretária, comprada com verba de solteira, sofreu ocupação total e prescindo de arrumar gavetas que me não pertencem. Por outro lado, a estante, prateleiras repletas de livros bem como a parte central dos arrumos que ficam abaixo, são de minha lavra. Há anos que não desalojava todo o conteúdo das curtas prateleiras que duas portas de madeira protegem (alienei as laterais). Ali guardei sentimentos e emoções, razões mais que suficientes para a minha demora na organização. Passo a explicar: ignoro o momento preciso de encontrá-las, mas saliento três inexplicáveis cartas (envelope e folha), completamente virgens, atadas com um laço em tecido de quadrículas verdes e bege onde perpassa um fio dourado (é uma fita mesmo bonitinha) que não ousei desatar porque sou uma inábil em laços e está tão perfeito que não pode ser meu, as pontas recortadas abraçando com exacta suavidade os sobrescritos e acordando-me para o tempo de primaveras distantes, fitas desse quilate a atar o rabo de cavalo - aquisição que implicava a funcionária recortá-las desse modo e a pedido. Portanto, a fita virá desse tempo, mas que mão feminina as terá enlaçado?! E que uso queria eu dar àqueles envelopes encorpados e de bom papel, com uma folha de carta que não é de carta, mas é por si só uma beleza de folha enrugada e recortada, veios esverdeados a alindar o conjunto, e que nem apetece manchar com palavras. Terá sido esse o meu pensamento?! É verdade que gosto bastante de papel e tenho memória de entrar na antiga Papelaria Fernandes e o comprar só porque sim. Primeiro escolhia-o num álbum de mostras e comprava duas ou três folhas. Pode ter sido o caso. Se houve destinatário pensado… não chegaram a partir. Nada vulgares, talvez as tenha comprado para escrever em datas específicas: festas de aniversário, nascimentos… cheiram um bocadinho a mofo, mas continuam lindos invólucros docemente envolvidos por laço de fita. Em delicadeza de dedos e inscrições de ternura, tentativas  de não importunar aquela íntima limpidez, voltei a guardá-las. 

        As coisas que encontramos. Que guardámos a mando do coração. Mas essas alinho amanhã. Ou.

domingo, 10 de maio de 2026

Agradáveis Contingências

 

        Neste preciso momento penso nos posts que li versando o tema do gosto. Não o bom ou mau gosto, mas aquilo que cada um aprecia na vida. Lembro-me que, ao lê-los, e li vários, avaliava ser boa matéria para eu mesma postar. Mas nunca me debrucei sobre os vectores do meu agrado, aquilo que a minha sensibilidade prefere, me torna melhor, me dá prazer e me pacifica. Esclareço que nenhuma dessas preferências resolve os meus problemas ou sequer me encaminha para a resolução. O que sinto em relação a elas é a criação de um espaço outro onde os ditos nós da corda da vida não têm entrada. Hão-de regressar. Mas esses momentos elidem-nos. Portanto, vou deitar-me a pensar sobre essa espécie de analgésico que me faz efeito nas dores de viver, os meus balões de oxigénio. Ou, se se quiser, de forma mais litúrgica, é o tempo do sagrado.

        Confesso que gosto das primeiras chuvas, do perfume de algumas flores, da visão dos malmequeres que também podem ser margaridas (silvestres ou não), dos campos alentejanos na primavera, de beber água se tenho sede, de mergulhar em águas marítimas, o sol a aquecer-me o corpo. Mas são momentos tão breves que duram o tempo de um sorriso grato, são simpatia emergente mas quebradiça. Nenhum deles chega a ser respiração. Porém, se me apresento num bom dia de praia, com um livro, vários banhos de sol e mar, olhares a contento sobre serra e água, a poesia a roçar-me a pele aquecida, os pés beirando ondas que os lambem de leve, então sim, estou real e mentalmente longe de tudo. Só ou acompanhada, pouco importa. Sou sempre eu e o mar, eu e o sol, eu e quem chamo e é em pensamento só meu. E nesse estar só me sinto mais unida ao universo, mais parte dele, mais elo de uma cadeia sem fim. Descrito este gosto, dou-me conta de que todas as minhas preferências têm idênticas características: exigem tempo - são vagarosas e demoradas -, pedem silêncios que, tanta vez, só o imaginário constrói a fim de poder pensar. Dou-me conta da maravilha que é pensar, da liberdade mental sempre ao dispor e que permite o estar e não estar, ou estar na totalidade – uma entrega física e mental que não sendo perfeita dá de si o máximo.

        Bom. A leitura também preenche vazios, me leva ao continente de autores que me retêm a atenção, me requerem a mente passeando pelas frases sempre a imaginar o descrito. Nunca saberei o que aprendi com as leituras não escolares. Ao invés da maioria dos leitores, parece-me sempre o mesmo: não aprendo nada. Mas sei com segurança que me esqueço de mim para seguir a vida de personagens que outros desenharam para prazer próprio e de gente como eu. E dizer que isto me basta é insuficiente porque o exacto é afirmar que a leitura me afasta de tudo, eu e as palavras bastamo-nos umas às outras. Talvez seja uma paixão fria como dizia do ensino António Gedeão. Discordo. Em mim, ensinar é uma paixão a quente, entusiasmante, dá-me vida, não é apenas um contacto mental, há qualquer coisa de físico numa aula, os olhares, os sorrisos, a tristeza. Ensinar é também aprender o outro e aprendermo-nos nele. Como costumava usar um professor meu, “Em tudo, o que importa é a relação.”.

        Depois desta arenga está a parecer-me que ficaram preferências por citar. Talvez inaugure um novo item:).



domingo, 3 de maio de 2026

Flores & Suspensórios

 

        É primavera e no muro do quintal há um mar de flores: ele é a buganvília vermelha que transborda, as roseiras de trepar que enlaçam o gradeado do muro e me lembram a doce avó Luísa a trazer-me duas podas minúsculas, “plante-as uma de cada lado do portão e vai ver”. E eu vejo. Vejo-a a ela, trigueira e enrugada, olhos de ternura compreensiva a mirar-me por detrás da grossura das lentes. E espero que também ela possa vê-las; se acaso não for possível, e se não houvera outras coisas a ligar-nos - que as há -, as rosinhas pequeninas, amontoando umas sobre as outras num contentamento rosa vivo, não me deixariam esquecê-la. A querida avó Luísa que não era e era minha avó e se faz presente em cada primavera: visita-me. E depois há as rosas Pierre de Ronsard, disseram-me que rosas antigas; não sou grande fã de rosas mas estas são belas. Bem próximas, as rosas vermelho sangue, grandes como punhos, esmeradas no recorte, perfeitas, atraem o olhar de quem passa a rasá-las. Altiva, a roseira vermelho sangue suplanta as outras e abre-se ao etéreo; não tem uma quebra, é seta apontada ao azul e rodeia-se de espinhos aguerridos, prontos a batalhas imaginárias - tão perto está das mãos de quem passa e nem uma a tocou. Tenho certa má vontade contra ser tão cheio de si, há alguma incongruência em ser flor e dominadora. As flores são doces, delicadas, bonitas no seu ser de pétalas diversas; apreciamos nelas a textura de cetim, a forma como curvam, a cor impossível que as tintas desejam imitar, o odor suave ou mais penetrante. Atordoa-nos a delicadeza presente nas flores de suculentas e cactos, perguntamo-nos como pode um cacto espinhudo originar flores de seda.

        Terá sido por isto que hoje, note-se, HOJE, experimentei os suspensórios, elemento muito a meu gosto no antigamente de mim, agora já de barba branca. São tão de idade que o metal de alargar e encurtar os elásticos enferrujou e deixou marcas – pois é, tive de alargá-los um nadinha. Mas, ó senhores... o que eu gostei de voltar a eles! Lembro uma ou duas fotos em que estão comigo, tenho um saco plástico aberto na mão, estou rodeada de alunos pequenos a mastigar e beber sumo (era a recolectora de lixo) e todos nós numa alegria plena que vibrava nas roupas claras, nos rostos redondos, nos olhos de surpresa boa, nos cabelos ao vento em redondezas da Torre de Belém.

        Como é que após umas cinco décadas, o elástico inda funciona?! E as mãozinhas que prendem nas calças nem sequer se soltaram como receei – sei lá, imaginei que já não tinham força e se escapavam ao menor esforço, feitas marotas. Mas não. Fixaram-se no lugar e dali não saíram. Tão queridinhas! Só porque ainda me querem bem – nem outra razão haveria para se conservarem tanto tempo, é que estão muito mais em forma que eu -, olho-as com amor (acho que é amor), carinho e mais que isso. Se fosse poeta glosava uma ode aos meus suspensórios que pegam nas calças com quatro mãozinhas travessas. Estão ali, todos deslaçados, cada elástico virado para seu lado num desalento compreensível. Mas já garanti, não voltam para a gaveta, amanhã regressam à faina e só por esse motivo os deixei atracados às calças. Não parecem convencidos, mas vai ser verdade.

        Olha, em vez do dia da mãe foi o dia dos meus supensórios. E depois?!