quarta-feira, 30 de maio de 2018

Esboroar


Diz o povo, “A idade tudo traz”.  Mas também leva. A maioria das pessoas adquire esta certeza quando assiste ao envelhecimento natural dos pais. Que só parece natural enquanto a imagem deles não  desvirtua.  Depois dos oitenta – e o depois não tem conta certa -, os velhos vão criando distância do arquétipo e nasce nos filhos o desencontro. A natureza tem tudo programado, à medida que deteriora os pais, instala nos filhos a modalidade de amor piedoso ou, dito de outra forma, uma atenção paciente e cuidadora. É o tempo em que a relação filial se torna outra. Na forma conhecida, desaparece. O amor piedoso é muito cheio de desgosto e aceitação dolorosa. Mas de tudo se ganha hábito.
 Meu pai entrou nesse estádio sem regresso em que o mundo de interesses afunila: o aniversário pouco o interessa; já não prefere o bolo preferido; reunir a família não o alegra. A fidelidade guarda-a para o filho e as laranjeiras. O resto, esvai. Anima-o a continuidade do nome. E a terra. 
Somos sempre os mesmos. Cada vez mais os mesmos.

domingo, 27 de maio de 2018

Reparo


Conheceu-a pausada, erguida em  movimentos lentos, a carne sem um átomo de nervosice. Gostava de ser presente na ausência e carregava-se de flores e pequenas surpresas. Que permanecem pela casa. São vozes que lhe pertencem, afirmativas. Mas hoje, por detrás da porta, não o linguajar entremeado no terno borbulho de regato a que o riso ganhou hábito. Ao abrir, bateu-lhe o alarme redondo dos olhos; cabelos que antes caíam junto à face em obediência  contrita de secador, tresmalhados,  ondeando eléctricas rebeldias; as mãos ao longo do corpo, inquietas de vazio, dedos numa indecisão, para que sirvo, onde agarro. E ela sem palavra, a secura baça na polpa dos lábios encortiçados de inércia, duvidosa de palavras, se calhar já não sei falar, que é das consoantes e das vogais, os ditongos onde param; a severidade militar  de duas rugas paralelas com casa edificada nos cantos da boca a enfaixarem o silêncio. Olhos fugitivos, sem préstimo para visão útil, abertos, o mesmo que fechados. E os ombros. Os ombros lapidares, contando, contando. Superam todo o aparelho fonador, os ombros. Foi na curva que descreviam que lhe entendeu o desgosto e a chegou a si. Entraram. Sentaram-se frente a frente. As lágrimas, as abençoadas lágrimas que não chora senão pela postura. Encurva e estreita o tronco, descai os ombros, a opulência do peito a subsumir no côncavo que lhe nasce; e os dedos vêm abraçar-se uns nos outros e como que morrem no regaço. Sabe-lhe a biqueira dos sapatos a aproximar em ângulo agudo como se os pés também eles cerceados de confidências. Bichinho de conta, desgostos multiplicam velhice. Os ossos a fraquejar, isto é demais não aguento; o sono impotente, quero entrar mas não consigo; a alma em desânimo, não sei para onde olhe, o que é que aconteceu às cores. E o completo da figura uma súplica. Que é erro estender mãos. É preciso deixar actuar tempo e amizade. Mimá-la. Como se nada fosse e ela tenha vindo por um chá e um bolo. Só plantada no trivial a sofrida estranheza sobe à boca e encontra tradução.
Saiu era noite. Pés sem  acutângulos de biqueira. Figura menos côncava, as ondas do cabelo a descansarem do alvoroço da electricidade estática.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Vamos a Eles...


O mundo nos seus particulares nunca me interessou em demasia, coisa que, bem o sei, é mais defeito que virtude. Digamos que lhe ouvia e oiço o rumor sem nele me demorar. Por natureza do meu desinteresse, bisbilhotice e notícia coscuvilheira continuam a escorregar-me. Se por acaso as escuto, não entranham. Mas há muito que exclamo telejornais e pasmo em artigos de jornais e revistas, sensações que assemelho à repelência com que, no pós morte, abria uma galinha. Afogueada  - e afogada - pelo escaldante vapor onde o  bicho exibia a sua indecorosa nudez, imersa no cheiro de penas molhadas e a boiar, golpeava o amarelo da pele e introduzia a mão dentro do animal – a galinha ainda estava quente e enojava-me à farta. Depois, puxava-lhe os interiores que fediam e deitavam fumo (deve andar tudo à bambalhona cá dentro que dá-se um puxãozinho e desagarra na boa). Pois o mundo da notícia está também assim: com os interiores ao léu, fedendo e deitando fumo que também fede. Execrável por inteiro.
Ora nos galináceos os interiores não são para vista. Enquanto bichos com vida e inquietação. Será que os nossos jornalistas morreram sem dar por isso?!  Estão com a tripa de fora, à rédea solta e a tresandar por tudo quanto é sítio, mas julgam-se vivos...E Portugal vai rodando cada vez mais devagar, empestado de fezes, doente da moléstia. Ai a falta que nos faz enterrar tudo bem fundo e limpar a aura, que é como quem diz, o ar. Como é que isto pode ser, não sei. Mas ó santos deuses que não me apetece nada ser envenenada pela pestilência. Se os portugueses que ainda resistem acordarem numa acção concertada contra tanta malvadez, alinho. Contra media e demais arautos facciosos, alinho nem que seja numa revolta da Maria da Fonte. “Vamos a eles que não são poucos mas são cobardes”

terça-feira, 22 de maio de 2018

Da Natureza do Silêncio


Sou contra a opressão dos silêncios fechados,  raiz de mágoa ou ódio, consoante a natureza de quem os sofre e usa. Sou pela palavra que arredonda, falha de esquinados embates que laceram. Porém, fala-se e escreve-se demais sobre o que de menos importa. Hoje, as palavras perdem-se por arredores e veredas, alheias à utilidade explicativa, à tradução da humanidade, ao sentimento que enobrece. Fúteis, perdem a densidade outorgada por razão e sentimento. Mas aparecem. Fogos fátuos do efémero, despidos da universalidade redentora e do encontro, abandalham o discurso.
No século XVIII Kant viu a beleza como referencial do encontro entre os homens. Diz o filósofo que pela contemplação e consideração do que é belo e executado por eles mesmos, os homens se encontram uns aos outros. Unidos por via da estética, encontro emotivo que ocorre na profundeza da contemplação. E é isto tão bonito e verdadeiro que não esquece.  
Mas hoje o silêncio afectivo devém mundo quase deserto. Esse bem estar de entendimento que une duas pessoas à totalidade, rareia. Campeia a satisfação individual ou a pares que não irradia senão de um a outro e tanta vez se consome a si mesma, isenta de difusão. No entanto, a beleza da obra de arte permanece. Foram criados novos museus, aumenta o número de turistas por país, cresce anualmente o número de visitas em galerias e museus. Nunca o belo foi tão badalado e visto. E a queixa não pode ser “o muito que falta ver”. Porque, arte e leitura não dependem tanto da quantidade quanto da qualidade com duplo sentido, do sujeito e do objecto. Interessa o modo de olhar,  o como de ver ou ler. Dados que apontam o sujeito. Não há tempo para a contemplação? Mas esta é a geração que tem mais tempo livre, gasta horas a olhar um écran, seja de TV ou computador. Viaja pouco? Os nossos anteriores viajavam ainda menos e viviam sem acesso virtual a museus e obras de arte.
Falta a gratidão por quem nos legou tanta beleza em estado puro; por quem foi bafejado pela centelha divina da arte e se prontificou a ser canal; pela vida que temos e nos permite transcender o quotidiano e contemplar tais maravilhas. Por estarmos vivos e podermos partilhar o mundo.
É tudo só por fora e de exterior. Olhamos, mas não vemos. 

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Harmonia


A insónia magoa o corpo, empresta-lhe dores e pruridos que agigantam nas horas mortas e amortizam ao bálsamo dos primeiros pássaros. Sabe-se e não se sabe o caminho do dia, mas a insidiosa claridade inicia a osmose, mansidão que infiltra na porosidade nocturna. A luz desafia os portais de esperança. Desabotoa o silêncio. Arrasa buracos cavados na ausência. O sono que não disse “presente”. Por onde terá andado o maroto, a mente a chamá-lo aos gritos, e dele apenas o vislumbre, um vulto. A mente incrédula, braços cheios de dedos que clamam interpelam a sombra que esvai e se afasta  a tirar o pai da forca. Ela em interrogativa consternação, será?!
Entretanto, sem luta, graciosa e quase terna, a natureza desembrulha o ritmo perpétuo. O céu, ainda estrelado, acinzenta. Cá em baixo, o alcatrão  dorme alargado no desamparo do último sono. Vigia-o a brancura embaciada de casas empasteladas em silêncio, zonas penumbrosas a desfazer quais bolas de sabão. Iluminado por lâmpada progressiva o firmamento toma cor, estrelas envergonhadas empalidecem murchas de sono. Quero a minha caminha, murmuram céu afora numa ladainha que só intuímos dado que anos e anos até chegar aos nossos ouvidos; e não aos nossos, mas dos vindouros; eles abismados, vincos na testa, as estrelas estão a queixar-se. E não, as estrelas que vêem sem uma queixa, misses selectas e imóveis na passarelle, brilho escorreito. E, quem sabe, os nossos netos para elas, mau, mau, então falam ou não falam. E elas mudas. Que às duas ou às três estão para durar e também muito lhes tarda a voz na viagem. Mas hoje, aqui, o mundo suspende até ao primeiro motor. Que ao ronco inaugural a estrada contrai, o alcatrão perfila célula a célula e, num sussurro de asas em serpentino dinamismo de ventoinha, os pássaros correm a alimentar a prole. E enquanto na árvore dura um meio silêncio atarefado, a pressa dos pneus rompe caminho e abre o vai-vem do dia.


domingo, 13 de maio de 2018

Do que não se Explica


Há dias, li no blogue de Miss Smile as coisas de que gosta. Faz-me sorrir ler os gostos dos outros e reconheço que partilho alguns. Umas semanas atrasadas, amei ler os gostos de Lobo Antunes postos em crónica, tintim por tintim.  Por regra, ali está o melhor de cada um, escrito com as melhores palavras. Que cuidamos especialmente dos objectos do gosto, cada palavra os toca de mansinho, amorudos dedos de seda a desembrulhá-los. Como dizia Eugénio de Andrade,  tememos que tropecem numa gota de água e deitamo-nos a construir biombos de letras só para que não lhes corra o vento e nem um átomo de poeira os aflija. Porque são os nossos gostos. Precisamos deles como de pão para a boca e  a satisfação de um ou outro oleia-nos a vida.
A bloguer começa por afirmar que gosta mais dos filhos que da vida, o que, na maioria das mães, é verdade insofismável. Se necessário, dariam a vida pelos rebentos. Suponho que muitos pais teriam igual gesto, apesar da tradição atribuir à mulher-mãe tal desprendimento altruísta. Felizmente, é raro a vida exigir essa prova que contraria impulsos básicos. Antes propõe pequenas cedências diárias e obriga a tornear – e também a deixar cair - opções que possam inibir o desenvolvimento ou apenas o bem estar da gente mais nova. Morre-se sempre um pouco e variadas vezes em prol dos filhos.  Pequenas mortes que trazem vida não entristecem, existem naturalmente. Como existe a certeza de que a reciprocidade do sentimento roda concatenado mas a intensidade diversa, nunca o amor dos filhos tem a dimensão do dos pais. Porque não pode ter. Mas isto eles só compreendem mais tarde, quando por sua vez tenham filhos. Nessa altura saberão que, em amor, importa mais o que se dá.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Do que aparece


Lisboa vista da ponte é cidade envolta em mistério. Estática beleza na luz clara. Ainda assim, misteriosa. Mulher que se alindou a preceito, dispõe-se ao viajante. Nada mais. Mostra-se. Sem acinte ou presunção. No seu interior, mora o que não se sabe. Espreitada assim, é outra Lisboa.  No momento de cruzar o rio, ainda a realidade não incomoda e se doura de sonho. Nada de largos de Camões ou Rossio; nada de cafés Nicola ou Martinho da Arcada; nem o Arco da Rua Augusta, os Prazeres ou o Castelo.  Nada de nada. Lisboa é aquela margem que se vai fazendo próxima a mais de cem quilómetros hora, que existe “semeada entre colinas” e vive suspirosa de olhos que a atenção torna benfazejos. Um todo que é ela e arredores. Unidade bela  e estranha. Não lhe existem as ruas, os edifícios, os monumentos, os automóveis, as gentes. Em frente, perfila-se o ignoto mundo de uma cidade outra. Lá, onde tudo pode acontecer. Onde não há sonhos de gente a sobrevoar as casas como anjos da guarda, mas subsistem nuvens ralas, brevidade de fiapos sem coragem de chuva, a espessura das gotas a dispersar numa voz fininha, rendo-me. Ali, é um dia de quadro, só tintas e cor. Inerte. Mudo. Deserto. Talvez o rodado dos pneus a silvar no tabuleiro carregue pressa desnecessária. Na outra margem, estaremos sós. Irremediáveis e sós.
E eis  que surge o de sempre, Segunda Circular, Aeroporto, Parque das Nações, Sacavém. E Lisboa já sem transcendência, em tamanho natural e comezinho, ruas, árvores, pontes, estradas a abarrotar, gente de ir a muitos lugares. A exuberante solidão em que Lisboa  se revolve.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Apontamento


Neste mundo de bloguers e blogs, em alguma hora sai um post sobre livros e sua importância. Pelo menos uma ou duas vezes no ano, vêm ao rol.  E não há quem duvide, os livros importam. Este ano, no Dia Mundial do Livro fui ouvir dois escritores de romance histórico. E, claro, logo veio um aborrecido de serviço, micro em punho e câmara de filmar, a perguntar-me o que era para mim um livro. E eu longe de anuir. Mas não pude deixar de ouvir a resposta de alguém próximo (o chato não desconvencia facilmente). Talvez levada por uma quase obrigação de honrar o lugar onde estávamos, a pessoa dissertou sobre as variadíssimas utilidades do livro sem responder ao que lhe foi perguntado (o que é para si um livro). Como gostamos de mostrar o que sabemos! Neste caso, como noutros, o acento na erudição fez perder o essencial. Somos uns burocratas da mente. Será erro de educação, não quero crer que congénito.
Nesse dia, telejornais, programas da tarde e da manhã, na TV e na Rádio, falaram de livros. Várias pessoas afirmaram que um livro é um amigo. Ora bolas. Mas esta gente não distingue um livro de um amigo?! Ou sou eu que estou maluca e um livro é mesmo um  amigo.  Talvez me faltem parafusos, é verdade. É que para mim um livro nunca foi, e duvido muito que venha a ser, um amigo. Os meus amigos são gente de carne e osso. Que ri, chora, diz coisas bonitas e também corriqueiras, tem família que não é minha e vive com ela e os seus problemas. Qualquer amigo meu é uma pessoa normalíssima, mas por essa relação de peso, é para mim um ser único e original, ninguém lhe chega aos calcanhares ainda que muito tente. Sei em cada um até onde posso confiar.
Ora um livro não é um amigo (e se gosto de ler e me sinto mal sem um livro por perto). Tenho livros que jamais darei. Uns porque são livros extraordinários e outros porque são bons sem serem extraordinários e me dão o espírito do(a) autor(a), cujo se me torna simpático. Mas é que nem o melhor livro chega sequer aos pés do meu pior amigo. E jamais eu trocaria a leitura de um livro por algum tempo de amizade. São valores não permutáveis, regiões demarcadas mas diversas que me repugna pôr no mesmo prato.
Portanto, não ofendam nem os amigos, nem os livros. Deixemos que o livro permaneça como objecto estimável e imprescindível. Provavelmente penso assim porque também não me lembro de livro que me tenha sido bússula, de frases escritas que tenha seguido, de máximas retidas para aplicação prática. Devo-lhes muito e muita hora bem passada, mas  amigos meus não enfileiram em amorfa estante.
Aí está: mais um post sobre o livro. E não respondi eu ao fulano do micro.

domingo, 6 de maio de 2018

Dia da Mãe

06 de Maio de 2018




“Por que as mães vão-se embora/ Mãe não tem limite, é tempo sem hora/ luz que não se apaga quando sopra o vento...”.  Li este anúncio de tragédia cósmica  para aí aos quinze anos ao folhear o livro de português de um explicando.  Aos quinze, a gente lê e julga que o poeta escreveu para nós, acredita que não há acasos e mesmo as coincidências trazem destino. Lá do seu Brasil, e sem consciência de mim, Carlos Drummond de Andrade descrevia-me a pergunta de forma tão veraz e em tão  avassaladora estupefacção que não mais a esqueci.
Anos e anos volvidos, o poeta e a obra mantêm-se actuais. Sou eu que desactualizo. Diária. De hora em hora. Minuto a minuto. Pasmo com a data, “Dia da Mãe”, as palavras de D. Natália a dançarem-me à volta, “à medida que o fim se aproxima, mais nos falta quem nos quis bem”. A sabedoria que tem D. Natália!
Que, pensando bem, era em tudo preferível que eu em cima de uma cadeira, chorosa e toda tremeliques, a mente um écran sem filme, muda de todo, a boca incapaz de aflorar uma vogal. Inútil é o eu de ser mim frente à lisura de um bloco de pedra, saudade que floresce e é para nada.
Se hoje me visses, reconhecias-me?! Tenho quase o dobro da tua idade e, excepto o sofrimento, tudo em mim é mais e mais tempo. Sobra. Excede. Nem tu ficaste, nem eu fui com as aves. Mas o amor que te tenho é ainda o mesmo da moldura. Sempre.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Memória Prévia


Primeiro vêm do fundo da gaveta biquinis exasperantes a que falta sempre um bocado; depois, procuro na memória o esconderijo das toalhas de praia e, confiante, abro roupeiros, estico o pescoço, subo escadotes. E as toalhas riem de mim que subo e desço, crente na magia que as tomou de assalto e que saltita de roupeiro em roupeiro a entornar vinagre sobre a minha paciência. À décima vez, exibem o seu estar de coisa em ingénua estridência de cor. “Enfiamos o biquini, pomos toalha ao ombro e lá vamos nós”. Nada. Neste percurso, toalhas de praia desaparecidas são aventura breve, coisa de chegar ao fim da rua. Em seguida, vem a odisseia: procurar protectores solares, lenços de papel e outros acessórios de praístas encartados. Procuro em primeira mão nos lugares mais óbvios, caixa das toalhas, gaveta de fatos de banho...e passo ao exótico, junto do saco de comida do cão, em caixas asmáticas e de etiqueta duvidosa, “diversos”. Depois, salto à parte de sótão não aproveitada onde pó e desarrumação ordenam mais que o povo em Grândola vila morena. E nada! Desisto. Dou ordem de saída. Vamos pelas mochilas, livros, jogos. Cada um busca o seu material sabendo que é só com isso que conta. É possível que o garoto leve os boxers secos perto das sandes, a água junto dos bolos, mas nada o perturba enquanto esbraceja de leve com os fechos e sua peçonha de entalanço. No fundo da mochila, o baralho de cartas convive democraticamente:  o ás de copas está enrolado sobre si mesmo, uma ou duas cartas de paus têm os cantos encarquilhados e os ouros resvalam sobre os futuros gelados que a carteira sempre aberta vai libertando. Ele, superior a pormenores, atira com ela para a boca aberta do porta bagagens, agarra num livro e senta-se no carro a ler. E o mundo pode cair.  
Nada fará voltar estes tempos. Mas, como diria Beauvoir, “Já foi bom tê-los vivido”.