A
morte corre em cada um a seu modo. Há os que definham em silêncio como o Lingrinhas. Pensam
não se sabe o quê, desorientam na falta do astro que os ilumina, falta-lhes o
apetite e a vontade de continuar, afundam. Os que falam e remoem lembranças do
morto, como o Mãozinha que não parava de segredar, lembras-te daquela vez. Os
que chamam a morte dos seus, qual Gaitinhas que tinha a dita de um avô
musical na memória e assim o revivia, não destrinçando se chorava por si ou
pelo Amora; os que se espantam por a morte levar outro primeiro, como o Feloso,
jungido pelo arfar impressionante e que não aguentava subidas, nós a transportá-lo
a pares, cadeirinha tecida a poder de mãos e braços sempre prontos para a sua
leveza congestionada. Os que, fleumáticos, assistem de fora e atiram palpites
e soluções sem préstimo, como o Engenhocas, se o Paz de alma tivesse regado
mais cedo ainda lhe acudia, se não tivessem deixado a cancela aberta, se não
houvesse libelinhas, se. Os que se
activam em tarefas inúteis que lhes surgem em urgência de vida e morte. Maria
arrasou o jardim, cortou todas as flores e não deixou rebento com viço. Embebida em desgosto, montou-o
na sala de estudo e só à noitinha abriu portas.
Carteiras, bancos, livros, jogo da glória, tinham sumido. Havia um jardim
florido e, à cabeça, a caixinha branca onde o nosso Amora dormia sossegado, tão
lindo como sempre, mas sem o moreno que
Maria apreciava a abrir-lhe os braços, anda cá minha bolachinha torrada.
Havia Octávio, o nosso Paz de alma, desimportado da vida, a olhar sem ver,
olhos tão esquisitos que assustaram Esparguete, achas que ele ficou maluco. E, quem
sabe, Octávio se recriminava por nada ter ouvido, por talvez a cancela aberta,
por. Ou revia a ternura nocturna do Amora sentado nos seus joelhos unidos onde
nascia um cavalinho fogoso, os joelhos em nervosa corrida muar, corpo
distendido e feliz que até parecia ter nascido para fazer cavalinho a crianças.
E o garoto cavalgando entrecortado de riso, até que o Paz de alma parava a
corrida e, como quem estica rédeas, aííí, óóóó!!!, depunha no chão o
cavaleiro contristado que, esquecido da sua condição, esticava os braços para o
colo e fazia beicinho, mais, mais. Octávio sorria e, sem lhe obedecer, beliscava
de manso a bochechinha do Amora e, o cavalo correu muito, está cansado, olha
bem o que andámos, temos de dormir. Lá atrás, em remate justo e de carácter,
o bando sério dos crescidos encostava na parede. Unidos como tijolos em muro, faziam-se fortes
uns aos outros, lágrimas são entretém de crianças e mulheres. E o espanto
que nos veio do Mau agoiro a olhar o Amora na sua caminha branca e que desatou
em soluços de inusitada fundura, o resto do muro primeiro arremelgado e depois a
avançar esquecido do bloco, animando-o à vez, palmadinhas nas costas, enquanto em mim e
Esparguete, um feixe de simpatia se impunha a contragosto. Mau agoiro com a
pose em farrapos, criança grande enrodilhada no desgosto e limpando as lágrimas
às costas da mão, peito no sobe e desce soluçante, a repetir maquinal, morreu mesmo,
morreu mesmo. No centro, a cozinheira em relevo enlutado e sem touca, as mãos
gordas no regaço agarradas a uma bóia chamada terço e finalizando cada mistério
com um suspiro das entranhas e ladainha específica, ai o meu rico menino que
nunca mais o vejo, a que respondia a curiosidade confrangidas das mulheres do
povoado e as nossas fiéis costureiras, desembrulhando lenços lacrimosos. A morte do
Amora desvelou-nos a face ignorada da cozinheira, uma mulher desgostosa e
amorável suprindo a costumeira imagem de força e desdém.
sábado, 30 de novembro de 2019
quarta-feira, 27 de novembro de 2019
Carrossel
Na
Casa da Boa Semente, nome próprio do que toda a gente conhecia como Lar dos
Rapazes, a morte entrou e desarrumou, pôs tudo de pernas para o ar, ninguém se
lembrou de escalas e amontoámo-nos pelos cantos em grupos pesarosos e
tristonhos, sem saber o que fazer. Maria entrou em casa de pálpebras inchadas e
olhos vermelhos de choro, reuniu-nos na sala de estudo e contou que alguém
deixara aberta a cancela da horta e a curiosidade do Amora tinha-o levado até
ao tanque. Talvez ele se tivesse debruçado para apanhar uma das libelinhas
coloridas que o sobrevoavam constantes. Não se ouviu barulho, não houve um grito. Octávio cavava
ao fundo e só viu o corpo da criança
quando veio regueira acima destapar a saída da água. Neste ponto,
Maria puxou do lenço amarrotado, limpou
os olhos, assoou-se e assegurou, o Amora
está no céu, os inocentes vão todos para o céu.
Mas eu via a laranjeira e o limoeiro assistindo impotentes, tão próximos dele que se afogava ali à frente
e sem poderem estender um braço, dar-lhe uma mão. Via a oliveira tão perto que
as azeitonas lhe caíam dentro do tanque, sem conseguir mover sequer uma folha
perante o espanto amedrontado do garoto que se morria sem dar conta de já estar
nele a morte. O Amora a abrir e fechar a boca como um peixe e não era peixe, a
estender a mãozinha pequena sem apoio e as libelinhas mais próximas a levantar
voo com suas asas de rede multicor. O Amora que se perdeu no mar de água.
E depois as duas mãos quietas, a água à
vontade e as libelinhas zanzando como se tudo igual.
Entretanto,
Maria incumbiu a cozinheira de nos guardar, veio junto do Lingrinhas,
pegou-o pela mão e saiu com ele. Só ela,
Octávio e o Lingrinhas trataram dos preparativos. A morte exige o seu momento,
requer a nossa atenção. A vida de Amora também requeria atenção e era vida.
Revivi tempos de curiosidade mórbida, achas que engoliu muita água; de certeza
tem a barriga inchada; deve estar de boca aberta, não é; e agora onde é que o
metem, os caixões são tão grandes e ele é tão pequenino.
Contra
seu hábito, a cozinheira isolou-se em silêncio espartano, apenas entrecortado
por lágrima teimosa a que juntava o lamento, ai o meu rico menino. Depois, o sentido prático prevaleceu. Avaliou-nos por alto e entendeu que não
precisávamos de guarda, não havia ânimo para travessura ou maldade. E
desandou. Pelo que ouvimos, parecia esconjurar
a dor entrechocando tachos, panelas e tampas. Mas, daí a um bocado, cheirava à
sopa do jantar. A mulher fazia o que tinha de ser feito, precisávamos de alimento. Pensei no Lingrinhas, magrinho e branquelas, duas
falripas loiras sempre penduradas sobre os olhos descorados. O encanto
vinha-lhe da ternura e cuidado que dedicava ao irmão. Sentados na mesma mesa,
dava-lhe a comida à boca, obrigava-o a beber água e, no final das refeições, em
desvelo materno, limpava-lhe boca e mãos, os crescidos em troça invejosa, “olha a mãezinha”. O Amora era
doido pelo irmão, obedecia-lhe como a um Deus e só adormecia de mão na mão.
Lembrei-me das noites sem tia Emília, dos dias compridos sem a voz dela a
chamar-me, do cheiro da nossa cozinha. E tive pena do Lingrinhas.
terça-feira, 26 de novembro de 2019
Carrossel
Pela
tarde, nas horas de modorra suada, continuava,
a pedido de uns e outros, a contar as minhas andanças no bairro da Venezuela.
Por essa altura já tinha desistido da verdade e enveredava temerário pelo mundo
da fantasia que agradava sobejamente a todos nós. O bairro da Venezuela tornou-se
um país e o pequeno pinhal que o circundava a sul e oeste, uma floresta densa
onde tudo acontecia. Havia noites de luar em que os lobisomens saíam a passear
nas ruas desertas do povoado e, até clarear, se faziam donos de tudo, e livre-nos Deus de
alguém ser apanhado por algum, era capaz de virar bicho ou se transformar
também em lobisomem e ficar feio como a noite. Além disso, todos o sabiam, os
lobisomens buscavam mulheres bonitas e, se alguma arriscasse pôr o nariz fora
de portas, era arrebatada para nunca mais, tornava-se um ser da floresta. Noutros
dias, os piratas davam-me conta do juízo e havia tesouros escondidos em cavernas
indistintas, com chave de Ali babá para franquear a entrada a corredores das
mil e uma noites e onde tudo era possível. Enquanto inventava, suspendia a realidade. Esquecia
as maçãs e a mentira corajosa de Esparguete que tanto me embevecia como moía o
juízo. O meu poeta-de-lava era o campeão dos assobios, das ideias mirabolantes,
dos planos sem fim à vista; não era um escalador de muros, as alturas
afligiam-no, tinha tonturas, tremiam-lhe as pernas e a vista embaciava.
Foi
numa dessas horas de a minha voz a ressoar em histórias de um lugar a fingir,
que a porta se abriu num repente e o Mãozinha, muito pálido, disparou, o Amora
morreu. Afogou-se no tanque de rega. E houve um silêncio do tamanho do mundo.
Um silêncio varado de dor espantada. Sem voz ou ruído. Ninguém se mexeu, não
houve cadeiras a arrastar. Era o silêncio do nosso coração a desmanchar de
tristeza e da nossa mente a assimilar o incrível. O Amora era o menino de
todos. O Amora não morria, tinha só três anos.
segunda-feira, 25 de novembro de 2019
Carrossel
Assustado,
vi o sorriso atravessadiço, a troça no arrepanhar da boca, maldade porosa espalhada pelo corpo. Sem abrandar o garrote das mãos mofou, dois pascôncios a fazerem-se
espertinhos, hem. E depois, a abanar-nos como folhas, silvou em fúria que a escuridão
protegia, aqui quem manda sou eu, ouviram. Ninguém rouba sem a minha ordem e
todos me trazem o que roubam. Pensam que não dei pelos segredinhos, que não
percebi que tramavam alguma, seus burros sem cabresto. Eu esgazeava em tremedeira incontida, apavorado com o ímpeto
colérico de Mau agoiro, o crescido mais bruto e desalmado do Lar, de quem nunca
sequer me aproximara. Debruçou-se sobre nós, sentia-lhe o hálito quente a vitoriar, agora nem as provam e o ladrão vai roubar para mim sempre que
me apeteçam. E, com uma ponta de curiosidade, quem é que as roubou? Estarreci. No silêncio do meu terror todo
tremeliques, vi e ouvi Esparguete a acusar-se, fui eu. E depois a completar a obra, desqualificando-me, ele
é um novato, só ajudou a escondê-las. Num repente inesperado, Mau agoiro
largou-nos, puxou a mão atrás e atirou-lhe
um murro que o estatelou. E já a afastar-se, bico calado ou levam os dois, e ai
de ti se tornas a roubar à tua conta.
Mal o vi pelas costas corri a ajudar Esparguete a levantar-se. Agarrava o nariz
choramingando de dor, aquela besta partiu-me a cana do nariz de certeza, olha para o
sangue. Foi quando reparei que alguma coisa lhe pingava por entre os dedos.
Levei-o até à luz e assustou-me a desgraça de sangueira que escorria.
Lembrei-me dos cuidados de tia Emília e aconselhei, põe a cabeça para trás que
eu guio-te, temos que ir contar à Maria. E ele, está bem, mas eu é que falo,
senão ainda levo uma surra que nunca mais me endireito.
À
vista do sangue e do inchaço, Maria pouco atentou na mentira de Esparguete:
andávamos em volta da casa e, na pouca luz,
tinha tropeçado e caído de borco e o nariz despedira em cima de uma
pedra. Durante oito dias o meu amigo foi retirado das escalas de trabalho e
Maria mantinha-o dentro de casa e perto de si para evitar maior mal. Eu tinha
autorização para visitá-lo uma vez por dia visto que pernoitava sozinho no
quarto adjacente ao de Maria, “o quarto das visitas” que só era usado pelos
doentes; nunca houve visita que ali
dormisse.
A
meio do rosto miúdo, adiantava-se aquela batata que foi ficando negra, depois
arroxeou, e chegou a esverdear antes de, aos poucos, ir voltando a ser um
nariz. Os outros espreitavam-no à vez e corriam exclamativos, chiiiii, tá a
ficar roxo, roxo, roxo; se calhar fica assim para sempre. A comentários desta
natureza as minhas entranhas mirravam de receio e eu confrangia de remorso e
gratidão. Bem sabia a quem era destinado aquele soco. Ao invés, Mau agoiro
passava sem olhar e procedia como se não nos
conhecesse. Mas eu tinha pesadelos com Esparguete a subir o muro, sonhava que
caía e se partia todo, que lhe davam um tiro, que morria. Acordado, fazia votos para que as maçãs
fossem muitas e Mau agoiro não quisesse outras; que uma estivesse envenenada
como a de Branca de neve e ele morresse; que as comesse num repente e lhe desse
uma caganeira tão grande que ficasse sem forças, deixasse de andar e mal falasse. Mas a vida só por acaso se faz
com os desejos dos homens e nenhum dos meus anseios se materializou.
sábado, 23 de novembro de 2019
Carrossel
A hora do jantar tardava em demasia. Quando por fim se fez
tempo, já no refeitório, tudo nos aborrecia. A sopa demorou a ser servida e
vinha demasiado quente, as conversas dos companheiros de mesa desproviam de
interesse, e nem tugimos ao boato que
passou, mesa a mesa, sobre um possível piquenique antes do início das aulas. Tudo irrisório. Desatentos dos mais, Esparguete
e eu ansiávamos pelas maçãs que nos
esperavam debaixo da hortênsia. Quando Maria entrou no refeitório para nos
falar como todas as noites, os rapazes calados, exultámos em íntimo segredo.
Nessa noite, nada entendi do que disse, não sei quem se portou melhor ou pior,
que tarefas extra tinham de ser feitas, ou se estava escalado para o dia
seguinte. Mal terminou, mandou-nos
recrear durante meia hora antes de subirmos à camarata. Dentro de mim o coração
segredava contente, falta-pouco, falta-pouco, falta-pouco. Fingindo casualidade,
e como tanto nos acontecia, dispersámos os dois para o pátio da cozinha. Junto
à hortênsia baixei-me e, às apalpadelas, procurei as maçãs. Avancei o braço,
recuei, aproximei-me do centro da flor, afastei-me, rodei o braço em círculo
largo. Nada. A minha mão não tocou um único fruto. A hortência, muda de todo, como se não fosse nada com ela. Troquei de lugar com
Esparguete que ficara de plantão na esquina. Infrutífero. Debaixo da hortênsia
não havia sequer uma maçã. Parecia-nos impossível. Revi todos os meus passos,
ninguém me seguira. Roubaram-nos, silvou Esparguete, quem será o desgraçado,
dou-lhe uma coça se descubro. Raivoso, deu um pontapé na planta, merda de hortênsia. Sem palavra, mergulhei num desalento mais negro
que o desamparo de lua nova que nos envolvia. Voltámos para casa cabisbaixos,
Esparguete remordendo vinganças e esperas acrescentadas de faço assim e faço
assado. Em mim acendiam-se súbitos os arranhões. A dor tomava-me por fora e por dentro, que
não há como a inutilidade do gesto para nos amarfanhar a alma. Pensava onde
falhara. Antevia o que Esparguete, por empenho de raiva descoroçoada, ainda não vislumbrara. A alcunha de Esparguete
era-lhe insuficiente, devia chamar-se poeta-de-lava, eternizava em ternuras
ínfimas por todas as coisas e ardia por qualquer palheta. Enquanto ele
desaforava, eu matutava. Alguém me tinha visto a esconder as maçãs.
Descoroçoados, zanzámos em passo lento, corpo pesado de tristura. De súbito uma garra reteve-nos, laçou-nos pelos braços.
Descoroçoados, zanzámos em passo lento, corpo pesado de tristura. De súbito uma garra reteve-nos, laçou-nos pelos braços.
sexta-feira, 22 de novembro de 2019
Carrossel
Anoiteceu
em lentidão pasmosa, cada um nas suas funções, imaginando as maçãs vivaças a gozar
o contentamento da sombra fresca da hortênsia e sugerindo por todas as riscas a
arredondar, podíamos ficar aqui para sempre. Entretanto, Esparguete seguiu do
estudo para a carpintaria onde o esperava uma cadeira mínima que lixava com afinco
até que a superfície fosse seda. E ela a virar-se, ajeitando-se aos dedos
pequenos, a ajudá-lo guiando-lhe a mão; uma cadeirinha de nada fazendo-se mimalha e a puxar por borbulhas, bocadinhos de rugosidade, pruridos quase invisíveis, olha aqui, e aqui. E Esparguete, dedos esforçados na lixa, estás
só a armar, põe-te quieta que já lá vou. Terminado o alisamento seria pintada de
vermelho ou azul e, mais tarde, o expert
do pincel, um dos rapazes crescidos, acrescentava as flores de mobília
alentejana que tinha aprendido na cidade, em casa encartada. Por tal feito,
dava por “o senhor”, operário especializado a expensas da igreja. Esparguete
pensava muitas vezes nas crianças que iam sentar-se nessas cadeiras, crianças
pequeninas, talvez como o Amora, um menino que chegara à casa tão pequeno; ainda
mal dava os primeiros passos quando o haviam encontrado debaixo de uma ponte com o
irmão. O Amora não tinha cadeira florida, sentava-se onde calhava e gastava
horas a chorar, desejando o irmão por perto. Mas o irmão tinha outros
trabalhos, na casa dos rapazes era mesmo assim. O Amora era a mascote da casa e
de todos os rapazes. Todos gostavam dele e das azeitonas dos olhos, da pele de
bebé e das bochechinhas tanta vez sujas, das pernitas que agora pareciam
eléctricas, corriam tudo e por todo o lugar. Mesmo os crescidos não disfarçavam
a predilecção e, por vezes, pegavam-lhe ao colo ou punham-no às cavalitas e
passeavam-no no pátio. E ele ria, ria.
Na
casa, as funções vinham acopladas a uma coleira
de horas e as presenças ficavam registadas pelo chefe de cada secção nomeado
por Maria de entre os mais velhos: higiene, refeições, tempo livre, estudo, prática
religiosa, carpintaria, agricultura, arranjos da rua. Visto desta perspectiva,
tudo era trabalho, dever. Depois de entregar a cesta na cozinha, cabia ao
hortelão do dia o pôr das mesas no refeitório. E por lá me quedei a gastar
tempo cuidadoso, entre o inox de copos, talheres, pratos. Na queda de um utensílio que ficasse a
retinir no lajedo do refeitório, a cozinheira disparava até à portinhola que dava para a copa, desinteressante
lugar de lava-loiças, escorredouros e ardilosos panos de loiça, sebentos de uso e
que enrolávamos nas mãos e atirávamos uns aos outros com quanta força tínhamos
mal a chefe da cozinha se distraía. Esse quadrado aberto na parede, entre a
cozinha e a copa, dava-lhe acesso ao panorama geral do refeitório. Por ali
passavam, além das terrinas de sopa, o
seu tronco ligeiramente inclinado para a frente, mãos de dedos sapudos fincados
na madeira do anteparo e a cabeça metida na touca branca sempre salpicada de
cozinhados. Nas ocasiões em que a moldura sem dourados resplendia com as suas
carnes, apostrofava, que é lá isso, olhem as amolgadelas na loiça, seus filhos
da mãe. Ou criticava os da loiça, molengões, ponham as mãos dentro de água que
ela não morde. Lavem como deve ser ou começam tudo do princípio. E
muita vez nos fez começar de novo. Não se brincava com a cozinheira. Era a Bomba Atómica.
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
Carrossel
Quando
finalmente cheguei ao cimo e avistei lá à frente as costas curvadas de Octávio,
deixei os frutos desabar em bloco e em três tempos escorreguei e os apanhei de
novo tratando de escondê-los em sítio combinado. entretanto, sempre de olho em Octávio, Esparguete desunhava a
correr para a sala de estudo, a mola das pernas a baixá-lo ao mínimo sinal de perigo. Ainda mal tinha acabado de esconder a fruta
e apertar a camisa soprando sobre os arranhões e já ele me acenava.
Aproximei-me. Olhou-me agastado, estás surdo ou quê, eu a chamar-te, a
chamar-te, e tu nada. Ajuda-me aqui com a padiola de esterco, vamos deitá-la
naquela cova que quero plantar o pessegueiro que está abacelado acolá. E no
içar da padiola que me retesava braços e
prendia pés e pernas ao chão, o excesso de peso a castigar-me também por via da
diferença de altura, acrescentou, trouxeram-no as mulheres da costura. E eu
ideia nenhuma nos pêssegos, eu apenas a sentir o ardor de esfoladelas e
arranhões e antecipando o sabor das
maçãs e a nossa alegria a mastigá-las. Não me ocorreu a sorte que tivera, as
crianças pensam no que acontece, não no que poderia ter acontecido. Para deitar
tudo a perder bastava despontar uma carroça no caminho de terra enquanto subia
o valado, soltar-se um cão da quinta, o quinteiro andar por ali, Octávio
virar-se no repente de eu a subir ou descer o muro; ou aproximar-se de
Esparguete quando ele, conveniente, fingira que não o ouvia. Ao invés, revia-me
todo no feito e a vitória dava-me nova roupagem, vestia-me de invencível. Dei
ao esquecimento todos os revezes e impava de contente por ter consumado o furto.
Antevia-me até em novas e mais elaboradas façanhas. Fartos e famosos dentro da
casa, seríamos mais temidos que o grupo dos crescidos. Todos nos obedeciam e procuravam
agradar-nos. Estes e outros pensamentos
alegres e pouco virtuosos ocupavam-me enquanto ajudava a plantar e regar, a
semear novas leiras de legumes e, por fim, a encher o saco da cozinha que servia à sopa do dia seguinte. Octávio mandou-me
ir na frente com os legumes enquanto ele ajeitava a horta para o sono.
Embrulhado no seu mutismo, ficava a despedir-se de cada courela de batatas,
olhos desvelados leira a leira, talvez uma promessa para o dia seguinte na
monda destas ervas, fundura naquela caldeira, ajuda de canas no feijão de
subir. Octávio que editava em Maria o seu amor pela terra. E enquanto anoitecia
e ele se concentrava em despedidas à
amada, fui pelas maçãs e acamei-as sob uma catrefa de espinafres. Depois,
passei a cancela que Octávio fechava a cadeado, dei a volta pela cozinha como
previsto e, antes de entrar, escondi-as sob as ramadas da poderosa hortênsia azul que encostava o viço no muro e por ali crescia em roda livre.
terça-feira, 19 de novembro de 2019
Carrossel
Entretanto,
de uma macieira a outra, pisava quase em bicos de pés, fazia-me leve, o rasto um perigo que apaguei
no caminho para a estrada de terra.
Atentava no aviso de Esparguete, se te descobrem acaba-se tudo, fazem
queixa e somos castigados, deixamos a escola e passamos para o trabalho da
quinta que é uma andada; olha, prendem-nos cá dentro. E, se eu era incerto sobre o
querer, sabia o que não queria: ficar confinado à casa dos rapazes. Crescera na
liberdade da rua e nas voltas ao bairro, trazia o cheiro de pinheiros e eucaliptos
infiltrado no sangue e afogava o calor no correr quase parado da ribeira. E, se com a escola tinha acedido ao mundo das letras, a rua foi a
minha primeira mestra. Rua era tempo livre, lugar de prática e novidade.
Pensamentos desta natureza carburavam-me em nervos e reticências e animavam-me
a prosseguir com método. Método incapaz de inibir as mãos suadas e trementes estorvando a apanha dos frutos
que me escapavam e, contrariado, me apressava a retomar, revivendo tia Emília a
segredar marota, “mãos de aranha”. Qualquer brisa na
folhagem me soava a rumor de passos e estremecia de pavor. Então, desconfiava por cima de um ombro e do outro
enquanto deitava as maçãs na fralda da camisa que fingia de saco. No caminho
abandonado ao calor, só as cigarras. Da quinta, nem um ai. Desengalguei até ao
muro, mas lembrando avisos voltei atrás a apagar vestígios. Depois, fiz da
camisa um saco e enfiei as maçãs dentro dela. O problema surgiu quando tentei
subir o valado com a mão esquerda segurando a carga e a direita a escalar. Mau
grado o meu treino na barreira do bairro da Venezuela, avançava penosamente. De
quando em vez, ouvia uma maçã resvalar do saco improvisado e rolar valado
abaixo. E eu sem coragem de voltar sobre os passos para apanhá-las. A dada
altura pareceu-me que uns passos vindos dos lados das macieiras. Parei suspenso a
meio do muro, coração a galope e apurei o ouvido temendo virar-me e resvalar
até ao chão. O som de passos foi-se perdendo. Respirei. Talvez fosse apenas rumor de
vento. Reuni as últimas forças e fui calcando as saliências com cuidado a apoiar-me
nelas e a experimentar a firmeza para me içar ao passo seguinte ajudado pelo
braço que esticava até ao próximo arbusto. Tudo me doía e o suor solto pelo corpo
incomodava-me, sentia-o escorrer ao lado dos olhos e enviesar até ao nariz, as
maçãs a pesarem no braço esquerdo quase dormente do esforço, enquanto a barriga
media na pele as asperezas do muro.
domingo, 17 de novembro de 2019
Carrossel
Num
cerimonial a dois, jurámos pela vida, solenemente circunspectos, que jamais
alguém teria conhecimento da proeza. E
no dia seguinte, mentalmente mapeado sobre as macieiras da quinta mais próxima,
arriscámos. Mal ouvi o sinal e Octávio se virou a desentupir e afundar uma
regueira, os pés como sapos felizes, calça arregaçada e enxada às costas, trepei
sem dificuldade e deixei-me escorregar do outro lado até aterrar na vala rente
à estrada. As solas dos sapatos aguentaram a travagem súbita que repercutiu tíbias acima e chegou aos joelhos. Pus-me de pé e olhei em volta. A paisagem não diferia muito da
terra pobre que circundava o bairro da Venezuela. Sob o sol, lá estava a estrada
de barro poeirento que atravessei com o coração à boca após espreitadela
cuidadosa; convinha-me paisagem solitária. Seguindo indicações, acompanhei a curva
da estrada e avancei uns metros para a esquerda. Ali estavam as macieiras
impantes de frutos que luziam ao sol em descarado convite à salivação. Eram cinco
ou seis árvores de maçãs vermelhas e riscadinhas, mais tentadoras que as do
jardim do éden. Fazia calor e, à minha atrapalhação suada juntava-se o medo de
falhar. Aproximei-me devagar. O roubo não me parecia coisa de monta, eram umas
maçãs a menos em árvores pejadas e que a ninguém fariam diferença. O que me
aperreava e alterava a respiração era certo amor próprio, queria dar conta do
recado e já antevia o nosso contentamento a trincá-las. Mas o medo de falhar e
a possibilidade de ser descoberto a qualquer momento secava-me a boca e estonteava
no desábito das batidas desvairadas do coração que intentava rebentar-me o
peito. Devia correr e tratar do assunto num ápice, mas a passada abrandava na
estranheza do suor sem comportas que escorria costas abaixo, espalhando visco
na palma das mãos e testa. Foram minutos de mortal aflição, uma agonia no
campo de macieiras. A esmagadora hipótese
de sermos retirados da escola e a zunida que se instalara nos ouvidos sustinham-me
os intentos. No impasse, passaram-me em flash os
nossos planos, os treinos, as horas compridas de fome nocturna,
Esparguete a arriscar-se lá dentro e desejoso que eu aparecesse no muro. Empurrado
por estas lembranças sacudi medos e lancei-me às maçãs seguindo o conselho de
distribuir o furto por todas as árvores “para não se notar”, sapiência de
Esparguete.
sábado, 16 de novembro de 2019
Crónica de Inverno
Era
uma vez eu num sábado friorento a fazer de sexta feira porque na sexta foi um
dia que não há; portanto, só um dia sem
história, coisa quase nenhuma. E pois,
sim, hoje houve café duplo e estou pronta para o trabalho que isto de baralhar a
correnteza dos dias, paga-se. Tudo se paga. E, às vezes, como diz Frei Bento Domingues, inferno e céu vivem-se aqui, na terra que nos trouxe e
há-de guardar, não se sabe o para quê que tanto osso descarnado e poeirento; mas
pode que ao som da trombeta divina reencarnemos e sejamos, finalmente,
infinitos. Pensamento tão estranho e atrofiante pelos desenvolvimentos que
implica, que o melhor é ficarmos assim. Ou perdemos a esperança completa e isso
é que não pode ser. A misericórdia de Deus é infinita. A Deus nada é
impossível. Ponto final. Parágrafo.
E, por ser diletante sistémica, volto ao
assunto. Quero crer que não seja bem assim de inferno e céu serem inteiros neste
planeta, há gente tão infeliz e sem culpas que há-de haver qualquer coisa boa à sua
espera. Julgo eu, a bater e a esfolar-me nos moinhos da injustiça. Avante.
Pois.
Digo
portanto que Lisboa é linda assim friorenta e transida de aragem em gume fino. Hoje
há-de ser um dia de sol, onde ontem foi manhã
de inverno. Que o calendário anda como eu, baralha e dá. E ontem deu inverno. Podem
dizer que era apenas saudade. Ok, aceito. Mas gostei do metro atravancado de
gente engordada por cachecóis multicores, gorros e casacos. As botas
apresentaram-se ao serviço em todos os possíveis modelos – e para isso não há
como as mulheres e sua disparidade de gastos, gostos e tiques. E, calculem, no meio do frio
surgiu aquela menina esculpida com o cuidado que Deus põe às vezes nas mulheres,
decotada, mangas de cava, uma blusinha de lã tapando a traseira dos jeans, o
que era até pecado, mas enfim. Verão aceso por entre flanelas e casacões. Mochila
às costas e nem um pelinho a arrepiar a naturalidade dos braços. E é isto certeza,
que me ficaram a meio palmo do nariz e lhes respirei a nítida juventude. Em
hora de ponta é assim mesmo, quase pele com pele.
Entro
no Intercidades e parece que vou para Istambul. Sei, Lisboa não é Paris e Constantinopla
não é Istambul. Tudo mudou. Mas sou assim, que fazer. O desejo de boa viagem
pelo intercomunicador cimenta certezas
de viagem longínqua, Expresso do Oriente, ou outro expresso que exista e o
cinema me não lembra agora. Posso ir parar à Rússia e daqui a umas horas a paisagem
esfria e neva. Tudo branco, árvores ajoujadas, ramos em queixa sofrida, pernadas
a esgarnar, não me aguento com o peso, socorro. E o comboio serpentina rápido e
arrefece só por fora, a neve fazendo cama no tecto e parapeitos de janela a embaciar. Acordo súbita
para o aviso no intercomunicador. E no lugar de cidades estranhas, a minha
cidade sem glamour. Digo, adeus até ao meu regresso, a Istambul ou S.
Petersburgo. Desço ao quase silêncio do lugar e atravesso ruas que o frio desertou, um sol adoecido e todo concentrado
em ser luz. Os meus passos toc, toc, toc.
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
Carrossel
Durante
o Verão, à vez e por calendário, todos ajudávamos na horta. A horta existia
separada do pátio de casa por um portão com cancela manual e do resto do mundo
por valado alto mas não intransponível e por certo menos empinado que a
ribanceira de separação entre a rua da Venezuela e o campo de pinheiros e tojo.
Ora a suma preocupação de Octávio concentrava-se na preservação das cenouras, ervilhas e outros legumes,
atractivos ímanes para a fome dos ajudantes. O Paz de Alma salvaguardava o
nosso alimento quente, parca refeição para gente que cresce. Impedia-nos na
courela o que nos servia de aconchego no prato. E nós de uns a outros,
encrespados e a invectivá-lo sem pejo, unhas de fome, cegueta, nem uma cenoura crua
deixa comer.
O
plano de Esparguete assentava na minha habilidade gatil a subir muros e passava
por desoprimir a apertada vigilância de Octávio. Desencontrámos horas de estudo
e trabalhos da horta. E nem um soslaio aos legumes. A ideia era ele sair da sala de estudo sob
qualquer pretexto e eu escapulir muro acima. Na minha ausência, ele substituía-me.
Nas férias de verão a sala de estudo era usada como sala de leitura e recreio
pouco vigiado, desculpa para Maria ter a certeza que não andávamos à torrina.
Após o almoço e durante duas horas podíamos ler, conversar ou dormitar, cabeça
apoiada nos braços. Altura e magreza eram semelhantes, e conhecíamos a
dificuldade de Octávio para identificar alguém a mais de dois metros de
distância. Treinámos durante horas um assobio em canto de pássaro que, à vista
da minha inépcia, Esparguete resolveu por conta própria: saía da sala de estudo
com uma desculpa e emitia o sinal mal ganhasse a rua. Se eu caminhasse para a
barreira, o caminho estava livre e ele corria até ao meu lugar. Se
não...escondia-se e esperava.
Cheios
de cautelas, experimentámos a troca e a escalada do muro por duas vezes. Nessas
experiências avancei medroso mas também ufano por dispor da minha veia de símio
exercitada em lianas e barreiras, sentia orgulho por subir com desenfado uma
parede que outros não ousavam. O contacto visual com o mundo exterior de valas
e valados separando pequenas courelas, não me desviou a atenção para as ajudas
de braços e pernas no terreno: anotei os arbustos mais resistentes e as saliências
onde amparar os pés.
terça-feira, 12 de novembro de 2019
Carrossel
Por
vezes a fome rabiava e Esparguete
brandia o período escolar festejando almoços onde contínuas benévolas lhe
enchiam o prato e ele comia o que fosse, enquanto os meninos de suas mães
franziam o nariz se acaso tinham de almoçar na escola. Por mim, lembrava as curvas
malgas de sopa da cantina, fumegando sobre a mesa. Revia a pressa de nos
sentarmos em bancos corridos, cotovelo com cotovelo, o mergulho da colher e o sabor
da sopa quente a escaldar-nos a língua.
A paciência de tia Domingas arrefecia ímpetos rodando em volta da enorme
mesa rectangular, a invariável terrina de latão encostada ao
quadriculado do avental e exalando afogueados vapores, o caldo num virote de concha que lhe amenizava
os calores húmidos. Entretanto, por entre sussurros, tinidos de colher na
loiça e cotoveladas, a velhota atentava em malgas a que já se via fundo, queres
mais. Se a encontravam, as mães num incentivo grato, faça-os comer tia Domingas, ao
menos tiram a barriga de misérias. E tia Domingas agradecia mentalmente às senhoras
da Obra das Mães que traziam sacas de batatas, quilos e quilos de arroz,
feijão, massa, que ela misturava com as couves e as nabiças que o seu homem
plantava sem descanso para alimento daquela gente. Tia Domingas que ouvi algumas
vezes, mal punha olhos nas damas de porcelana saindo aprimoradas do carro com chaufeur, salto agulha a enterrar e mão enluvada segurando no encanto de malinhas de mão que todas as garotas cobiçavam, lá vêm as finórias olhar
para a miséria e largar sentenças. Tia Domingas tinha pela Obra das Mães um sentimento misto e, se agradecia as benesses, abominava as ladies caridosas a quem se baixava falsamente, que depois fazia como entendia, sim, minha senhora; com certeza, minha senhora; tem razão, minha senhora. E ia pensando para consigo, só sabes mandar; devias vir para aqui aprender, sujar as mãos a migar o caldo verde ou enfarruscar-te a fazer um lume esperto para cozer os feijões.
Cedo
percebi – e nisso Esparguete era incessante – que o período escolar correspondia
a maior liberdade para os rapazes. Saíam ainda a manhã tenteava e palmilhavam mais de um
quilómetro até à paragem de autocarro que os levava à escola na cidade. Pela
tarde, faziam o caminho inverso. E é claro que sabiam o gosto de todos os
frutos das imediações e nas sacolas dos livros havia sempre uma ou duas peças rapinadas para a noite. De
vez em quando, os incautos eram vítimas de cólicas nocturnas derivadas à ingestão de fruta verde. Mais grave era o
desarranjo de vómitos e diarreia que se prolongava por dias no caso de fruta ou
legumes que não podiam ser consumidos por terem sido curados, azar em que
incorria a ignorância geral. O furto generalizado e contínuo gerava entre eles
o espírito de entreajuda. Distâncias pontualmente dissolvidas, crescidos ou meninos de bibe, passavam
mensagem de uns a outros se havia agricultor a curar o pedaço, cão de quinta a
passear sem corrente, ou lugar que podiam atacar em rédea solta.
Mas
eu viera de outro mundo. Portanto, o meu mentor achou por bem treinar-me no
rapinanço ainda em tempo de férias. Ou, quem sabe, a fome ordenava sem
delongas.
sábado, 9 de novembro de 2019
É tudo Vida
Estive
num almoço surpresa. Foi uma refeição de aniversário e a surpresa era apenas
para a aniversariante, os dez convivas em linha com a proposta. Tudo terminado, afirmo que cumprimos
o propósito: houve genuína e alegre surpresa na amiga que fazia anos, ficou
bastante agradada; além disso, a sua magreza fez-me suspeitar que precisava
deste abraço múltiplo, assim um calor redondo e sem fugas que lhe deu a ilusão
de companhia. Um lado bonito no dia cinzento.
Tudo
o mais pertence à espécie de coisas que me acontecem. Primeiro investiguei o
restaurante e ficava à beirinha da Praia Grande, numa região que para o meu
parco saber automóvel é no estrangeiro. Portanto, nem pensar em levar o carro.
A mana, mais expedita por várias razões, assumiu a função. E lá fomos, GPS em
punho. Chovia quanto bastava e nós a subir a serra, uma estreita fita de estrada,
curva e contracurva, e a fila de carros sem vontade, rrrrr...rrrrr..... Ainda
mal habituados ao abrandar da chuva, engole-nos uma nuvem de algodão em rama. Isolados
do mundo. Quem é que sabe se D. Sebastião não começa por Sintra, quem é que
garante que o cavalo branco não vem a trotar atrás de nós. A estrada ainda
estreita. Piso molhado. Motores num desconforto de deixem-nos em paz, por que
razão nos obrigam. A senhora do GPS - de certeza no conforto do sofá e em casa aquecida
- perorando avisos, a trezentos metros
vire à esquerda, na rotunda vire à segunda saída. E mais coisas de igual teor.
É que não se sentia nela um pingo de cuidado pelos viajantes em dia tão mau.
Avisava como quem joga o jogo da glória. E nós peões. Mas pronto, cumpriu. Nada
incomodada com a chuva que nos esperava à saída da névoa, levou-nos à Praia Grande.
O parque automóvel cheio. Voltámos atrás e estacionámos. Abreviando: mesmo com
sombrinha e impermeável, molhámo-nos. Perdi o vaporoso da sainha plissada no peso de chuva e, em cada passo desejei que
as botinhas de tecido se aguentassem ao balanço.
Depois
desta odisseia soubemos no restaurante que estávamos quarenta minutos
adiantadas. Aguardámos. E, à medida que os convivas iam chegando, ia-me estendendo
para as ondas incansáveis. As amigas conheciam-se entre si, falavam umas com as
outras, mostravam fotos de filhos e netos, recordavam viagens e professores,
minha irmã abarbatada à lateral por historietas sem fim à vista. E eu sozinha
com as ondas, mas que raio estou aqui a fazer. E depois, a calcar o desconsolo,
os pratos eram para anorécticos, coisa que, com excepção da aniversariante,
ninguém parecia. Valeu-nos que uma das amigas fez um bolo – bastante bom,
diga-se – e portanto não sobrou nada. Cereja no topo: a refeição saiu mesmo
bastante cara. Nada que não esperássemos.
Ah,
e para voltarmos? Pois não sei, mas receámos ir parar ao Porto. Saímos ao
anoitecer e cumprimos tudo, mas tudo, o que a senhora ordenou. E é verdade que
chegámos a casa. Mas ainda não consegui entender por que razão não nos enviou
para a ponte – uma das duas pontes chegava-nos. Nada. Não as vimos. Não
passámos por nenhuma delas. Em noite escura e chuvosa, que maravilhosa sensação
é estar perdido na auto estrada. Um mimo.
Pensava
eu que a surpresa ia toda para a aniversariante.
quarta-feira, 6 de novembro de 2019
Sophia e Eu
Não
fui menina de livros de histórias. As minhas histórias chamavam-se contos e os
contos eram contados, havia sempre duas ou três crianças a ouvi-los e
apareciam-nos carregados de paciência, cheiros e voz. Havia neles paragens
súbitas do contador. Suspendiam-nos o coração e dávamos a mão uns aos
outros de olhos arregalados pelo arrastar de palavras nevoentas e terríveis,
lembrando cadeias em lajes de pedra que um qualquer monstro ou fantasma movia, aproximando-se cada vez mais. E nós ansiosos, sem
destrinçarmos se da heroína se de nós mesmos. Mas também havia vestidos cor de
luar e mantos de céu estrelado a vestir princesas de boquinha de morango e pele
alva, beleza tão acérrima que clareava os dias mais cinzentos. Os contos do
Touro azul, do Príncipe lagarto, da Gata borralheira, encantavam-me por
inteiro. Talvez na minha meninice Sophia ainda não tivesse inventado A menina
do Mar, O rapaz de bronze, ou mesmo A fada Oriana. Talvez os filhos ainda não
tivessem adoecido. Ou fosse ainda aquela rapariga toda poesia em corpo e alma.
Um
dia, tinha eu quase dezoito, o professor de psicologia leu-nos um excerto
do livro A Menina do Mar. Começou do início, “Era uma casa branca nas dunas...”.
Maravilhei. Pena que não lesse mais. Esperei dois anos e, no mês do primeiro
ordenado, comprei A Menina do Mar e terminei a leitura. Que fui lendo a todos
os meus alunos. Por episódios. Um ano atrás de outro. É facto comprovado, as
histórias unem mesmo as pessoas.
Ler
Sophia é como o amor, repete-se vezes sem conta e é sempre um começo e uma
alegria segura. A maravilha das palavras certas, exactas, e a magia que
desprendem. Por minutos, todos sonhávamos com o fundo do mar cheio de anémonas
e algas. Enternecíamos com a menina pequenina que tinha cabelos roxos e era a
bailarina do rei dos mares e por isso passeava na terra dentro de um pequeno
balde que o rapaz transportava. Quantas crianças Sophia fez sonhar, a quantas
desenvolveu a imaginação. E há-de continuar.
E
como eu tinha uns vinte e mais anos, mas era tão palerma como sou hoje, nem me
lembrei de pensar que, quem sabe, a poeta tinha escrito outras histórias. Portanto,
os meus alunos paravam na Menina do Mar. Não foi há muitos anos que comprei A
Fada Oriana e O rapaz de Bronze ou Um Conto de Natal.
Não
sei dizer como nem quando descobri que Sophia era poeta. Não me lembro onde li
um poema seu pela primeira vez. Mas há-de ter sido depois dos vinte. O que me
impede de a situar poeticamente é a noção de que sempre estivemos unidas, eu só
não o sabia; ela pensou os meus pensamentos e disse-os com as suas palavras
luminosas. Leio-a e estou lá. Sou eu ali. Mais que em qualquer foto. E não o
digo sentindo-me igual. Nada. Sou tão outra do que ela foi. E gosto de ser essa coisa outra que sou. Mas
se calho a ler um poema seu, lá está a minha alma tão bem ataviada de palavras.
Quando li a arte poética não a entendi apenas a ela. Entendi-me.
Depois...bem,
depois passei a copiar-lhe um verso ou outro no quadro. Os meus alunos adolesceram,
tinham dezasseis, dezassete anos. Entusiasmou alguns. Foram lê-la. E, quem
sabe, também se acharam nos seus versos.
E
é isto que Sophia vai continuar a fazer, encantar.
terça-feira, 5 de novembro de 2019
Carrossel
E enquanto Esparguete me elucidava acerca do
mundo e ilustrava os pequenos estratagemas da sobrevivência infantil, no mesmo
período em que as minhas histórias eram novidade no Lar dos Rapazes, tu
debutavas em puberdade, o corpo a mudar onde lhe apetecia. Dois pequenos
inchaços onde antes mamilos tão rasos que se palpavam as costelas; o sexo a
desabrochar e tu inquieta, sem termo de comparação, serei só eu; examinavas
desconfiada um ou outro pêlo alourado nas axilas e de que adiaras a descoberta,
mas isto serve para quê. E o teu rosto criança, cabelo de pente sujeito a fita
de laço. Mas os vestidos num aperto, casas de botão esgarçadas, fechos que
inseriam lacunas em dedos inábeis e lamentosos, perdemos o jeito. Tua mamã num sorriso, estás a ficar mulherzinha, temos de
comprar roupa nova. E, logo logo, o primeiro soutien, leveza de nuvem que a
princípio te esquecias de vestir, a empregada, agora com tanto rosto, cheia de
unhas roídas e debruadas por meia lua de sujidade, depósito de cozinhados e
terra de legumes, a lembrar, não veste aquilo. E parecia-te que um aceno de
troça no altar do peito dela. Que ela não troçava, surpreendeste-a algumas vezes em admiração, tomando pulso às tuas peças finas, a mão áspera adejando leve, asa com receio
de pesar. Ao sentir-se observada, logo, desculpe, menina; estava só a ver.
Um
senhor, o teu papá. Bem posto, manhãs cheirando a loção de barba e colónia
francesa, fato e gravata, a pasta do escritório, óculos escuros em dias
soalheiros, o automóvel na garagem. E entre ele distinto e o sujeito que, em
urgência, comia de afogadilho a empregada, um mundo de distância. A mamã contente
com a serviçal, gabando-a por entre chávenas de chá e éclairs, a amigas de baton e
rouge, todas permanente de bigoudis aprimorados à Ava Gardner, nunca vai a casa
e está sempre pronta ao trabalho. E perante aprovações de baton a afunilar,
enaltecia, a farda sempre a preceito, é
de confiança e tem bom feitio. Enfim, moldou-se à casa. E em remate de mestre,
e a mão que tem para a cozinha. Fazia uma pausa e deixava as mentes engalanadas
de caracóis imaginando acepipes e depois, como quem pede saúde para um filho,
desejava, Deus ma conserve que não me lembro de criada tão cumpridora. Tua mamã
que, sentada na cama, pedia de mãos atrás,
Álvaro, aperte aqui por favor. E o papá calçando os sapatos ou a
mirar-se ao espelho enquanto fazia o nó da gravata, um momento, querida. E
vinha até à cama, agarrava as duas pontas do soutien e unia os colchetes, um
hábito igual a calçar meias ou usar botões de punho. A intimidade que os
pequenos gestos não tinham.
domingo, 3 de novembro de 2019
Insólitos
Era
a apresentação de um livro e mal conhecia a escriba. Mas, em terra de poucas
leituras, toda a escrita merece sinal. É
luz que atravessa a espessura de nuvens entrevadas,
coragem que, por casualidade ou destino, se abeira apenas de jovens e velhos. Os primeiros cruzam em alegre desafio
memórias alheias e sonhos pessoais, enquanto os mais velhos burilam rugas e
tendinites da alma sobre o presente fugaz. Em todos, o desejo de permanecer.
Por
aqui, escrever um livro, nem pela raridade é acontecimento. Um punhado de
amigos e conhecidos dispostos a fazer grupo na biblioteca municipal – apoio ao
nível da edição – e a vereadora e a responsável pelo lugar a receberem-nos, acompanhadas
da jovem autora. E os pais babados. A garota foi fluente, simples e clara. Apresentou-se
e apresentou motivos. Desenhou a própria
infância e convenceu-nos de que, mesmo sem nome, a obra refaz a alma da nossa
terra.
E
não sei a razão mas reparei nas duas cestas repletas de livros. Uma mescla
variada. Ofertas da biblioteca. Ali, sobre o balcão. Passei-os a pente fino, um
a um, dedos de respeito e cobiça. Perguntei quantos ofereciam a cada pessoa.
Foram perdulários, os que quiser, temos mais para substituir o que levar. Baseada
no nome dos autores, escolhi dezasseis: Thomas Hardy, Erich Maria Remarque,
Tcheckhov, Thomas Mann, Leon Tolstoi, Jack London, Rimbaud, Reiner Maria Rilke,
Konrad Lorenz, Kafka, António Machado. Alguns
são edições de bolso, mas, nos casos da poesia reparei que têm versão original
e tradução.
Havia
dois dias que os livros estavam disponíveis para oferta e fui a primeira mão
interessada. Em contentamento mútuo os deitei a meus pés no auditório logo ao
lado, enquanto Downton Abbey, mundo de aristocratas e servidores, desfilava no
grande écran, dez ou quinze pessoas a assistir.
Vou repassar na biblioteca:).
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
Carrossel
Outras
vezes, queria saber dos medronhos. Dos dias de milagre soalheiro em que a professora com desplante, hoje vamos
ao campo. No bairro da Venezuela tudo era campo. Mas a mestra tinha noção
própria do espaço. Passear no campo consistia em atravessar a estrada junto à
escola e internarmos no pinhal da frente. Que a ele interessavam apenas os
medronhos. Eu descrevia o arbusto, a folha do medronheiro, as bagas verdes, as
bagas maduras. E, por mais que repisasse que a professora nos proibia os frutos
e só provara um às escondidas, ainda verde e bem amargo, divertia-o a ideia de
que podíamos ficar bêbados comendo os medronhos madurinhos e a fermentar.
Deleitava-se a imitar o andar ébrio e, jocoso, voz entaramelada,
fazia uma vénia, minha senhora, fui aos medronhos. Mas
o que me acabrunhava era o pedido quase diário, olhos de prazer antecipado,
conta lá a ribeira e os banhos. Não entendia a febre de liberdade a
espicaçá-lo, a vidrá-lo no que me pertencera e deixava de ser apenas meu. E ele
ignorava a tristeza de quem conta tesouros perdidos, a dificuldade em falar
sobre a minha Antárctida afundada. A mágoa que um sofria era glória no outro e, mesmo sem o entendimento cabal de simbiose tão primária, já a minha tristeza se
deixava trespassar pela ânsia dele e se insinuava uma espécie de dor prazeirosa
em satisfazer-lhe o sonho. Que também ele vivia o prazer dúbio, mescla de
júbilo e revolta. E assim nos fomos ligando, atados por palavras, unha com
carne.
No
Alentejo desencantado da nossa infância, qual massa de bolo em forno quente, as minhas histórias cresciam dentro de
Esparguete. Não demorou a propalar as
novidades e a puxar-me para contá-las, conta lá aquela da tia Emília e dos
casamentos, a da professora ao telefone, a da corrida de ouriços cacheiros. Emudecido pelo meu passado exposto em claridade, embatucava. Parecia-me invasão,
marca de pés desconhecidos em terra exclusiva. Mas ele não desistia. Puxava-me
ao barulho e, mão no meu ombro, acicatava a coragem, conta tu que
tens mais jeito. E eu revivia as glórias de ser feliz sem saber que era,
os ouvintes calados, a serem eu sendo eles, gozando o prazer funcional da
imaginação. E a alcunha foi colando naturalmente, eu era o contador.
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