Guardei-te.
Em saudade e doçura. Pés para a frente e cabeça para trás, olhos difíceis a mirar-te
a definição horizontal de espelho luminoso. No desejo de conservar-te assim
todo um inverno, de seres em mim cálida e suave, debruada por terno recorte de
serra em fundo. Aos poucos, o dia dobrava-se sob oblíquos raios de sol e a
poalha dourada e outoniça enchia o ar. No céu sem nuvem, uma gaivota deslaçada e
sem pressa. E no fofo da areia, em saltinhos de mau jeito, como quem teme vidros
ou picadela de cardo marinho, quatro corvos passeantes. Lá em baixo, as vagas
cresciam e vincavam soberanias. Diziam brusca e estrondosamente que o mar se
fechara em si e, em longos braços de espuma, varriam a praia deixando lençóis
rendados que entrelaçavam em ressaltos
de água e areia. Longe do mundo, eu lia Tchekov e lagartava, o sol fazendo
caminhos na pele.
Ia escrever que me soa mais a poema que a prosa, mas em último momento emendo a mão e digo que bela pintura!
ResponderEliminarJoaquim
EliminarObrigada pela imagem.
Se fosse poeta, pode crer que escreveria anualmente um ou dois poemas: o do primeiro encontro e o do último. Eu e este mar criámos um elo indestrutível. Ainda que ele não me ligue meia, imagino o contrário e mantenho acesa a nossa relação de proximidade; eis por que as palavras me fervem de insuficiência se dele quero dizer; e direi sempre menos do que o inesgotável que em mim se manifesta e não julgo que me pertença em exclusivo, mas seja indubitável portal comunitário entre mim e os outros.
Bom dia:)
Belo momento, Bea. Que seja o 'ritual' de muito mais dias. A última frase, por exemplo, tem a luz do sol.
ResponderEliminarMaria
Eliminaros rituais são-nos tão necessários como o ar que respiramos. Há uma simbiose entre nós e eles que vai muito além do mero acontecimento. São mais sentidos que pensados, não é mesmo. A relação é emotiva e toda outra. Mas não me cabe aqui analisá-la.
Julgo eu que, para lá de contratempos e afazeres, das quezílias e pequenas tempestades invisíveis, está a Natureza. O mesmo sol a banhar-nos, a mesma luz clara e tão portuguesa, os sentimentos que nutrimos e nos assemelham, as estações e suas mudanças que acompanhamos de vontade ou sem ela. Embora não consagre muito tempo à leitura, vivo rodeada de livros e de sonho, factores que amenizam, esclarecem e relativizam os dias.
Obrigada, Maria. Que os seus desejos se cumpram.
Um dia Bom para si.
Belíssima marinha, bea. :)
ResponderEliminarO amor é assim, bonito e puro por natureza. O resto é outra coisa. Sobra.
EliminarBom dia, Luísa.
E que lindo ritual este, diria eu.
ResponderEliminarPertence-me - ou eu lhe pertenço - há muitos anos, Pedro. A única diferença é que agora, a despedida se faz acompanhar da dúvida, será um adeus para sempre?! Quem sabe, se não voltarei também a buscar as muitas horas que não vivi ao pé do mar.
ResponderEliminarBom dia.
Belo ritual =D
ResponderEliminarBeijocas
Um beijinho, Cláudia.
ResponderEliminarBela escrita do olhar e do sentir!
ResponderEliminarLindo esse teu ritual! que o repitas muitas e muitas vezes!
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