Alguns jovens são assim, livres e desprendidos. Procuram fora a concretização de sonhos que o país, ou talvez a concretude de vizinhos e conhecidos, lhes impede sem que saibam do impedimento. A educação traça fronteiras falsas, mas difíceis de arrasar. Portanto, derrubam muros em modo silencioso e de ausência: partem.
Conheci-a muito pequena. Na praia amedrontava da mansidão das ondas, pézitos a recuar, os dentinhos de leite num receio. A torto e a direito temia tsunamis que só a TV lhe dera a conhecer.
Cresceu simples e direita, embelezou. Cultivou passageiros e nebulosos namorados. Trabalhou afincada por um tecto de pertença. Não realizou todos os sonhos, que muitos terá ainda em espera. A vida guarda-lhe em secreto canudo metade da bandeira, há ainda tanto por desvelar. Quanto espinho e alegria estão por vir!
Hoje tem um tecto de abrigo, aconchego a que chama seu; comprou um gato de pelo fofo e olho azul; encontrou companheira que lhe serve no pé como os namorados nunca conseguiram.
Mantém o porte simples e flutuante de anjo que se não prende aos emaranhados comuns. Está contente de si e da opção que, bem o sabe, é condição. Passa por mim na rua e é leve e solta; nela, até a sombra tem recorte angelical.
Mãos dadas, ambas enfrentam o mundo sem reserva. Ganharam o lugar. Não ignoram que ajudam a estilhaçar o cinzentismo monocórdico das expectativas. Tão pouco desconhecem as dificuldades que o falso mundo igualitário lhes reserva. Mas quando passam, paira entre elas simbiose tão natural e perfeita, um amor tão entretecido de quotidiano, que ficamos gratos só por olhar. E oxalá nada as desanime na procura.