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domingo, 13 de julho de 2025

Flores no Caminho

 

        Alguns jovens são assim, livres e desprendidos. Procuram fora a concretização de sonhos que o país, ou talvez a concretude de vizinhos e conhecidos, lhes impede sem que saibam do impedimento. A educação traça fronteiras falsas, mas difíceis de arrasar. Portanto, derrubam muros em modo silencioso e de ausência: partem.

        Conheci-a muito pequena. Na praia amedrontava da mansidão das ondas, pézitos a recuar, os dentinhos de leite num receio. A torto e a direito temia tsunamis que só a TV lhe dera a conhecer.

        Cresceu simples e direita, embelezou. Cultivou passageiros e nebulosos namorados. Trabalhou afincada por um tecto de pertença. Não realizou todos os sonhos, que muitos terá ainda em espera. A vida guarda-lhe em secreto canudo metade da bandeira, há ainda tanto por desvelar. Quanto espinho e alegria estão por vir!

        Hoje tem um tecto de abrigo, aconchego a que chama seu; comprou um gato de pelo fofo e olho azul; encontrou companheira que lhe serve no pé como os namorados nunca conseguiram.

        Mantém o porte simples e flutuante de anjo que se não prende aos emaranhados comuns. Está contente de si e da opção que, bem o sabe, é condição. Passa por mim na rua e é leve e solta; nela, até a sombra tem recorte angelical.

        Mãos dadas, ambas enfrentam o mundo sem reserva. Ganharam o lugar. Não ignoram que ajudam a estilhaçar o cinzentismo monocórdico das expectativas. Tão pouco desconhecem as dificuldades que o falso mundo igualitário lhes reserva. Mas quando passam, paira entre elas simbiose tão natural e perfeita, um amor tão entretecido de quotidiano, que ficamos gratos só por olhar. E oxalá nada as desanime na procura.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Desconcerto

 

        Havia as inesperadas noites em que o sonho mostrava outra de si. Quem sabe não era ela. Mas apostava que sim, sentia-se a ocupar espaço. Não o espaço de quem pega uma cadeira e se senta à mesa com hábito de talheres; ou de quem entra no super e passa despercebido até para as meninas da caixa que despacham clientes com sorriso mecânico. O sonho apresentava-se como filme desligado de paisagem, o grande plano dava-o a ela - o sonho era ela sem que ela fosse. Desconhecia-se nele e contudo sabia-se personagem principal, talvez mesmo a única. Era sonho paralelo ao paradigma: sem moléstia ou pesadelo que lhe chegasse, feito intenso presente. Acordava mansamente, imersa em bem aventuranças. Sorria para consigo do que a mente, sem a grade da razão, lhe oferecia. Pouco afecta às letras, a televisão fora sua mestra nas lides do amor. De resto, de pouco lhe serviu o aprendido, os anos foram passando sobre o namorico que não cumpriu a promessa de buscá-la e lhe abalara para lugar estrangeiro, uma reviravolta de letras no nome entretanto esquecido. E ela foi ficando. Primeiro ficou para tia e ajudou a criar a sobrinhada. De quando em vez, abria a arca e cismava para o enxoval, “dá-me vontade de rasgar isto tudo”. Mas a mão avançava a aperfeiçoar dobras e, como que distraída, deslizava dedos sobre íntimas cambraias. Acordada do breve devaneio, a mão tombava a resoluta porta da arca retirando da vista adereços adquiridos por força de braços.

        E sob o peso dos dias e a candura das manhãs que pressagiam possibilidades, sem se dar conta, passou de tia a solteirona. Sentiu-se. Custou-lhe. Solteirona não é uma palavra, é um palavrão que magoa, um pontiagudo de pedra que se atira de língua e bate de chofre na dignidade de qualquer mulher. Mas reconhecia não haver homens no seu horizonte; e nem ela, afeita a trabalhos e crianças, rotulada como já estava, era o horizonte de algum. Qual burro que foge à canga, levou que tempos a aceitar a condição. Não se aproximou da igreja nem remoeu ciumeiras criando boatos e coscuvilhice; também não se pôs a procurar homem e vinha-lhe uma bílis rancorosa se alguém ousava a oferta. O que então se evidenciou foi a postura, passava mais direita que antes, como quem reivindica lugar. E no estendal da roupa surgiram repentinas camisas e pijamas bordados, lençóis e atoalhados mimosos, roupas suaves e em tons pastel. Finezas que pediam outras cordas, dizia a inveja. Anos e anos de arca, as dobras que a água não alisara a delatá-los. Pôs tudo a uso e jogou fora as naftalinas.

        Dobrados os cinquenta, era dona de sua casa, tinha boa saúde e algumas amigas seguras. Em nada lembrava as solteironas azedas de que falam os romances que não lera. Uma mulher bem resolvida, diziam todos. Mas “todos” é uma exterioridade e ninguém é o seu exterior. Ela vestia-se para si? Pois sim, vestia. Mas o apreço masculino, se comandado pelo amor, é impagável. E ela sabia: não o tinha. No sonho-filme, a mente fazia o seu papel. Não havia enredo nem história. Não havia aparência ou imagem. Havia só a sua boca subindo no rosto de um homem, percorrendo lábio a lábio, ternamente, a pele ora áspera ora suave. Um homem sem identidade que - isso também sabia - cheirava a homem, como as mulheres cheiram a mulher. Ignorava-lhe a duração. Podia ser uma escalada vagarosa e feliz, um poro a poro depurado, ou apenas um flash de si mesma noutra dimensão. Acordava grata pela descoberta de si, reconhecida à beleza do sonho.

domingo, 26 de janeiro de 2025

Desconcerto

 

        Acordava em sobressalto, o cabelo ralo colado na testa, todo o corpo empenhado no esforço de clarear ideias e expulsar o sonho. Sem êxito, tentava situar-se. Nesses instantes permanecia incógnita de si mesma. Desconhecia quem era, em que quarto dormia, quem estava consigo. Tacteava as laterais e sentia a cama estreita. Era um facto, dormia sozinha. Chegava-lhe a noção de haver, talvez próxima, uma fonte de luz. Armada de cuidado e vagar temeroso estendia a mão para lá dos bordos da cama, dedos flutuando no ar em busca de solidez. E encontrava a madeira esquinada, lisa, rebordo saliente. Tentava adivinhar um candeeiro, um interruptor, enquanto a mente lhe trazia o copo da dentadura da avó que os seus olhos evitavam, a náusea a subir-lhe à boca. Temia a ponta dos dedos a tocar - tombar? - o vidro do copo ou mesmo o asco de mergulhá-los e sentir a flutuação da dentadura. Teria dentadura? Passava a língua pelos dentes a investigar enquanto avaliava a bizarria da situação: não se lembrava de si e tinha tão presente aquele copo malfadado, apenas entrevisto num soslaio, e que temia com todas as forças sempre que a avó doente. “Dá um beijinho à avó”. e ela a aproximar o rosto vago na vontade imensa de afastá-lo; na indiferença que caracterizava a relação, beijar carecia de sentido, era indesejado faz de conta. Entretanto, os seus dedos, quais aranhas, desciam no fio eléctrico, palpavam e premiam o interruptor atrofiando memórias. A luz azulada espalhava-se pelo quarto e a realidade, impositiva, fazia-se presente. O candeeiro árabe entrava-lhe nos sentidos; ele e mais quem dela se lembrara em viagem exótica. Detinha-se a apreciar os desenhos de luz e sombra na parede e o recato suave de íntima luminosidade colada a todas as coisas. Olhava o espaço que sabia de cor e antes não recordava. E reconhecia a dimensão própria do mundo onírico, espaço e tempo de cada um obnibulados. Em sintonia com António Gedeão: “Que bom é dormir”. Ia mesmo mais além: nada é melhor que dormir. De seguida corrigia-se, nada é melhor que dormir desde que os pesadelos não nos dobrem em dois, não façam de nós gato-sapato, não nos lancem na angústia da impotência. Os pesadelos revertem para o reconhecimento da impotência humana e da subsequente angústia de viver.

        Havia outras vezes. Vezes de sonhos perdidos de si. Vezes de estar em terra estranha e ser pessoa sem carteira ou documento. Vezes de si sozinha por entre as gentes como todos imaginamos que fosse o deambular de Cesário Verde por Lisboa. Não como Cesário, claro. Ele vivia a solidão de ser poeta e desigual; ela a solidão de estar perdida, fisicamente longe dos seus e sem cartão que dissesse “esta sou eu”; sem um número de telemóvel a que se ater; sem outra possibilidade de regresso que abordar qualquer desconhecido(a) e mendigar a viagem. Ela observando os rostos que a cruzavam apressados, este não; este não; esta não. Ela temendo não haver a quem confessar o desconcerto, imaginando sabe Deus o quê que nunca soube o que era porque acordava.

(cont.)

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

                 Minha mãe quis saber o que me passara pela cabeça para fazer tal avaria. Respondi contristada com a obra, pensava que vocês iam gostar; e depois a franja nunca mais ficava certa e fui cortando para acertar, de um lado, do outro, até que desisti porque já se via a testa quase toda.  A mãe zangou-se um bocadão e explicou-me por que não devia repetir a façanha. Tive de pedir desculpa. Cabisbaixa e arrependida do mal feito, lá fui. Desculpas aceites, ela sorriu e animou, deixa, logo cresce, não fiques triste. E avisou, não voltes a experimentar.

Hoje, eu e a garotinha da franja assassinada, somos boas amigas e também de muitos anos. E a amizade que tinha pela minha amiga mais velha não esmoreceu. Se passo em sua casa só para a ver e saber de como leva as maleitas da idade, logo me enche de presentes. Sabendo do meu gosto, guarda-me os dióspiros, dispõe-me flores em vaso e dá-mas já floridas, oferece-me anualmente os marmelos para a marmelada caseira. É um coração de ouro a que não sei como agradecer. Toca-me o seu desvelo, porque envelhecemos feitos criança que precisa de ternura e sou profundamente grata aos seus gestos protectores.

As filhas são umas sortudas.  Mas ela também. A mais velha emigrou há muito ano para o Reino Unido; por lá casou e gerou descendência. A dada altura, teve cancro. A mãe, mal soube, não perguntou nada, não foi ouvir este ou aquele que já tinha voado. Arranjou-se e foi para o aeroporto, comprou um bilhete e meteu-se num avião pela primeira vez. Não sabia uma palavra de inglês, desconhecia aeroportos e de bilhetes de avião. Mas chegou lá. E só voltou quando a filha restabeleceu da cirurgia. O amor maternal pode muito. Mas o amor dela era desesperado; tinha o desespero da lonjura e da doença, o desespero da filha sozinha num país diferente. Nada a impediria de ir. Em contrapartida, certa vez em que a filha me mostrava as peónias do quintal (era um ramo lindo), reparei que a jarra de peónias estava sobre uma mesinha e acompanhava uma foto de bom tamanho: a mãe jovem, sorrindo eterna na moldura. Uma rapariga graciosa, igual à que existe na minha memória e talvez ela nem tenha conhecido.

Que beleza e sorte temos, se nos é dado deparar com gestos de amor profundo.

                                                                FIM

 

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

Mau grado os avisos de minha mãe “tens de bater à porta, a casa não é tua”, continuava a entrar como um pé de vento, sem bater, puxando o atilho ligado ao trinco. Por tal desmando, observei pela primeira vez um homem nu. A surpresa atrapalhada de quem se banhava na cozinha e quedou de olhos arregalados, deu-me asas para a volta. Minha mãe numa estranheza, “não estavam em casa?”. E eu aldrabando - a verdade chamava a zanga materna -, tinham o postigo fechado, não devem estar em casa. E sentei-me a pensar em tamanha atrapalhação a que não via causa e a constatar mentalmente quanto aquele apêndice de nada crescia nos homens. Fiquei bastante contente por ser diferente deles.

Certo é que aprendi de uma vez a bater antes de franquear a porta. Para o que também serviu a minha vizinha, no seu meio sorriso habitual, ter contado a verdade a minha mãe.  

Entretanto, os nossos pais compraram terrenos contíguos e bravios que desmatavam aos fins de semana. Meus pais arrancavam e eu carregava estevas,  mato e demais arbustos para um montão a que pegavam fogo e vigiavam; muita vez me deixaram por casa com a mana e chegavam já a lua subia no céu. Ao tanque da roupa, em tarde de sábado ou nos domingos, ouvia-lhes os projectos – as duas sonhando abrir um poço e ter um laranjal erguido a pulso, um tanque de rega perto da casa a haver. Era um sonho bonito, esperança futura tecida com fadiga e sons de enxada.  Eu sonhava distinto. Por esse tempo, escrevia ingénuas cartas a Salazar pedindo uma bolsa de estudo – ainda que não soubesse o que era, repetiam-me a condicionante: se queria estudar, havia que tê-la. Fez-se definitiva a evidência - habitávamos mundos distintos. A minha amiga transitara para o planeta de minha mãe e eu vagava num limbo, poeira cósmica ainda sem lugar. Aquela que eu encontrara desde sempre, existia num fundo muito fundo; casamento, maternidade e problemas de mulher casada tinham-me posto entre parêntesis.

       Numa tarde em que ficara de vigia às duas garotas, daí a um nadinha de chegarem cansados e suados "da fazenda", horas extraordinárias depois de um dia de trabalho, a minha amiga entrou com a filha pela mão e logo o meu lugar um foco; podendo, eu desaparecia. Meio a rir para minha mãe, ela pediu: olha bem a minha filha, não lhe notas nada? E nem um soslaio para o lado onde eu minguava quanto podia. Enquanto minha mãe esquadrinhava o rosto da criança, enchi-me de apetites de invisibilidade, de haver uma magia de história encantada que me fizesse desaparecer. Mas o tempo desapiedado e a encolher ombros, seguia a passo de caracol. Não houve milagre nem varinha de condão, só a voz de minha mãe: é a franja. Ai coitadinha da menina, quem é que lhe fez isto? E foi quando ela, meio desencantada, desatou o saco,  foi a tua Bea – aí olhou para mim –; cheguei a casa e disse ao marido, tu não achas a menina esquisita hoje? E ficámos os dois a atentar nela; quando descobrimos, perguntei e ela anunciou que a Bea a cortou porque o cabelo já lhe entrava nos olhos; mas já viste bem este trabalho, deixou-ma quase sem franja. Agarrou a mão da filha e saiu.

domingo, 19 de novembro de 2023

Senhora Minha

 

                 Os bebés devem ter chegado na ordem certa e não tenho memória de sofrer de ciumeira por ter em casa uma irmã que os vizinhos espreitavam.  Passados meses, chegou a vez da minha vizinha e eu, tal como eles, corri a ver a criança. Sabia ser uma menina e verifiquei que a minha amiga estava contente e "babosa" com a criatura, mas cheia de mil cuidados levou-me até ela. Mirei e remirei a bebé e não encontrei causa para tanto interesse. Era uma carequinha de penugem loira e olhos claros que, na minha vaidade e orgulhoso entendimento, tinha menos graça que a morenita de olho e cabelo negro que me sorria no berço lá de casa. Entretanto, o lar da minha amiga sofrera enorme reviravolta. Não me parecia a mesma casa de tudo no lugar certo, folhos abertos a golpe de ferro de brasas e mobília de brilhos. Além disso, as duas mães levavam o tempo a puxar da mama ou no tanque lavando fraldas. Durante a lavagem, conversavam sobre leite materno e davam-se receitas para o aumentarem, assunto que, de tão incompreensível, me desinteressava. Recordo que mastigavam bacalhau cru e bebiam muita água por via de ser salgado. Por certo, o "fiel amigo" era a receita caseira menos dispendiosa. O maior dano, sofri-o em casa da minha amiga. Havia fraldas por todo o lado e todas as cadeiras estavam ocupadas com artigos da rainha do lar; tempo para mim era sonho puro: a bebé chorava bastante e o rosto da mãe afiançava noites mal dormidas. Em tal ambiente, fomo-nos distanciando. No final do verão, entrei para a escola e apeguei-me à professora com a força de raiz aprumada. A mestra, dama paciente e voz doce, maravilhava-nos por ter marido. Era um senhor jovem e de gravata, que nos surgia ao volante de um carro preto. Espreitávamos ao descaro a despedida dos dois. Não tínhamos tv, não conhecíamos cinema, os nossos pais não se beijavam assim e nem de outro modo. Descobrir o beijo na boca foi uma das grandes novidades que a professora nos trouxe. Foram aqueles dois seres amoráveis e amorosos, os nossos actores particulares. Era um simples tocar de lábios muito terno e cheiinho de contempladores - o senhor já sorria ligeiramente antes do beijo. A novidade foi rastilho universal, assistíamos encantados à anomalia prazenteira que cumpriam religiosamente. Muitos anos depois, soube que eram recém-casados.  

Quando a minha amiga recuperou de ser mãe e retomou o trabalho no campo, já às nossas vidas faltava a proximidade que eu cultivara com desvelo. Não sei o destino da máquina de bordar, mas a filha dela não teve bibes com a história da carochinha bordada em despiques de agulha e agruras de pano. Entretanto, as duas garotas cresciam: aprenderam a falar e a andar e era frequente brincarem juntas. Por vezes, tomava conta delas um bocadinho e logo me fartava, tal a atenção que exigiam; a filha da minha amiga era birrenta e, se chorava, abria um túnel de berraria e língua em concha, deduzindo eu ser sinal de mázura. E ficava grata por minha irmãzita ser menos expansiva nas suas cóleras: de tão mansas, e por comparação com a guincharia irada da outra, mais pareciam rastos de queixume.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Lili

 

Lembro-te ainda jovem:  alta,  cabelo negro e fino, ligeiramente ondulado, compleição sólida de carnes a que distraída inadvertência chamava sensualidade, termo que apenas iludia o prenúncio de excesso de peso. Recordo a pele branca e cetinosa, encanto do meu então moreno escuro, e os dedos de fuso ressuscitando dextras agulhas.  “Tia Lili”, nome exíguo bailando indeciso na densidade da tua figura, sugestão de ternuras em ti inexistentes.  Chegavas de um lugar de nome esquisito, a que se acedia de comboio e que todos desconheciam. Era o tempo de ninguém conhecer o significado de viajar, ter férias, ir a uma consulta médica, o mundo das análises clínicas, incógnito por inteiro.

A imagem mais antiga e completa que guardo é talvez a prova de um vestido de nylon muito rodado, o branco de neve pintalgado de  bolinhas vermelho sangue – minha mãe tinha bom gosto - e tu, num desfastio de obrigação e dever, rosto sério e sem pingo de ternura, a rodopiar alfinetes em bainha, enquanto eu, vaidosa e tola, rodava o nylon e te impacientava o gesto. E minha mãe a travar-me mansamente, mão no ombro, está quietinha, rodas a saia depois. Tia por afinidade, tinhas aprendido costura e, penso que, contrariada, me fizeste, no início do casamento, uma ou outra peça de roupa. Depois, bom, depois veio um bebé dos que dão trabalhos dobrados e muita aflição, um rebento  daqueles que, por motivos de saúde, levam os pais a desistir de mais filhos. Abandonaste a costura, não fizeste amizades no lugar, detestavas por igual sogra e demais família emprestada. Jamais saías de tua casa, nunca convidaste alguém fora da tua família de sangue. Os teus familiares chegavam manhãzinha e partiam embrulhados em noite e apitos de comboio. Conheci-os a ajudar em tua casa, na vida de muito trabalho que te coube. Anoitecidos de cansaço, seguiam para a terra de nome esquisito e que quase não visitavas; de que, provavelmente, eras saudosa.  Tinhas um gosto particular por fotonovelas. A vida inteira das fotonovelas te passou pelas mãos. Contudo, não eras mulher de partilhas, nunca se soube o que lhes fazia depois de lidas nem como as adquirias, imagino que o marido as comprava, não saías do gineceu. Com o meu tio, que já perdera uma noiva para a tuberculose, fizeste par indissolúvel e benquisto, só interrompido por morte. Diz quem viveu meia dúzia de anos em tua casa e, por desábito, vos achava admiráveis, que jamais assistiu a uma discussão, um levantar de voz, uma palavra em gume. E salvaguarda ternura e carinho visíveis, bem comum aos dois.

(Cont.)

domingo, 7 de agosto de 2022

A manhã perlada e Ana Luísa Amaral

 

Encantam-me as manhãs perladas. São pequeníssimas gotas suspensas que refrescam o ar e o rosto de quem passa. Ia eu ao pão pela fresca, mergulhada no silêncio da manhã deserta e sem sol, eis senão quando, deparo com duas vizinhas mais ou menos acocoradas, cada uma de seu lado da rua. Uma caiava com zelo o muro baixo do quintal enquanto a outra, vassourinha anã em punho, varria reclamando dos serviços camarários que nem ali abordavam. Mas, prioritariamente, praguejava contra todos os veículos motorizados que lhe rasavam a porta: porque é só pó e o degrau da entrada não pára limpo; porque as flores nem medram; porque  a rua não tem descanso. A primeira, avançando na caiança, alimentava a conversa a poder de “ah, pois é” e “é mesmo”. Atenta a pormenores e requebros do muro, e talvez habituada à queixosa, ia largando inóquos de marcar presença.  Dei-lhes a salvação e deixei-as a terminar trabalho. Aposto que nunca vão saber quem é Ana Luísa Amaral. Que pena! Entre nós (eu e elas), Ana Luísa Amaral é a grande diferença. Ana Luísa Amaral de quem sei alguma poesia, que ouvia se me apetecia a conversa de “o som que os versos fazem ao abrir” e me entrava na alma sem precisar pedir. No programa, maravilhava-me o seu saber e afabilidade, a forma tão única de ver o mundo, afirmativa e sem narcisismo. Ana Luísa que sempre imaginei poder ser uma boa amiga. Que vivia algures no norte português, dava aulas na universidade do Porto e tinha uma cadela Emily Dickinson, uma filha muito amada de nome Rita e conversava atraente e sugestiva. Era de certeza uma boa e querida professora. Morreu-me.  Descansa, Poeta.

 

Um adeus triste

Porque no pesadelo e de repente

 o futuro rasgou-se, as cortinas soltaram-se.

 Na profecia só ficaste tu.

 

 E a tua falta mais que a tua

 ausência em pequeno mosaico

 se fechou. Entendo agora como uma cadeira

 pode ser só esta cadeira porque

 é tua.

Ana Luísa Amaral

terça-feira, 8 de março de 2022

Dia da Mulher

 

Todos os dias são das mulheres.  Se elas não existissem, o mundo era bastante menos. Um planeta sem homens não é sedutor, mas cabe na imaginação; no entanto, não se concebe a Terra sem mulheres. Os homens não bordam a vida como elas, não se esmeram em pontos que são cadeia e abraçam de coração; não sabem desfazer, um após outro, os pequenos nós do quotidiano; o masculino não enfeita. Depois de tanta luta e de sermos todas sufragistas, estamos – ainda - longe do lado a lado.  A tradição é muralha. Somos a tentadora, a serpente, a faladora inveterada, a que faz birra, a que nenhum homem entende e todos precisam. Seremos tudo isso. E quanto mais que se ignora.

 Bem hajam todas as mulheres: as que nos foram e são exemplo e as que nos seguem e acompanham. E todas as inomeadas,  aquelas que ninguém lembra senão como vida  multifunções.

sábado, 12 de fevereiro de 2022

A Casa Amarela

 

É uma casa alegre de mulheres tristes. Mais que alegre, a casa de dois pisos é receptiva, clara, tons pastel nos lugares certos. Aqui e ali, um pormenor de bom gosto, talvez influência da mais jovem. Por cantos e recantos, dispostas com arte, flores naturais e artificiais alindam e acompanham. Abundam fotos de família e amigos com pátina de tempo e mérito. Apesar da delicadeza semeada, da conjugação repousante das cores, dos pequenos ardis decorativos, há pela casa rasgados sulcos de saudade arados no chão da memória. O interior deste gineceu particular guarda a história de uma família, caminho  quase a completar-se, círculo que se fecha. Ao primeiro olhar, o défice: falta vivacidade, perfume juvenil. A casa é serena, sem sombra de desarrumação. Talvez nem conheça passos de infância, saltinhos, pulos, bater de palmas, birras em agudos que desapetecem,  ridículos de ternura adulta opada de diminutivos. A casa chora para si a incógnita ausência de um brinquedo atrás da porta, por cima das mesas, no patamar da escada. E as paredes, ridentes e perfeitas, continuam virgens de inocências garotas, não existe sinal de risco de lápis ou dedadas infantis. Mas como pode uma casa ser alegre, sendo triste quem a habita e a percorre, quem lhe alisa os refegos quotidianos. A claridade das paredes guarda infiltrados segredos e anseios, lágrimas e rogos, revoltas e acasos de má sorte. Que casa sobrevive em alegria à mágoa que lhe corrói os interiores.

Ontem lanchei nessa casa de alegria só por fora. Bebi um chá que me soube a não sei quê. Julgo que a diferença no sabor lhe vinha de ser feito também para mim. E há muita alegria em noventa e muitos anos descerem a escada e mergulharem na cozinha no preparo de um chá. Desvaneci. Pareceu-me que as duas mulheres suspenderam desgostos e maleitas, éramos apenas três mulheres sem história em volta de um chá. Foi um tempo de nada, mas foi. Vou guardar a bênção de ter sido.

sábado, 29 de janeiro de 2022

Atar e Desatar

 

Intrigava-me aquela mulher. Encontrava-a amiúde. Triste, cara fechada, despida do bom dia/boa tarde costumeiro. Ao volante, conseguia superar-me  no olhar fixo e recto, rodeado por compridos acrescentos de esmorecimento carrancudo que a avelhantavam. Fomo-nos cruzando assim, sem um cumprimento, o meu sorriso a desistir no esboço. Mercê destas aleivosias, decretei-a mal humorada por natureza, um daqueles seres concebidos em dia aziago, ou que, nascendo em noite de lua nova, e após ineficazes horas de sofrimento materno, são tirados a ferros do limbo amniótico e andam pela vida em tétrica escuridão a desejar úteros perdidos. A sua figura retira luz ao dia e, mal assomam a um lugar, logo o tornam sombrio. Pertence-lhes o que alguns espíritos chamam de aura negativa e lembram assombrações de alma penada. O fulcro da minha intriga ancorava no olhar. A garota – rondaria os trinta – tinha olhos mortos. Aliás, parecia toda morta e automática.

Foi então que ouvi na peixaria os soluços da peninha popular, “coitada, o marido morreu-lhe nos braços, casada há ano e meio, um bebé de dois meses, a casinha nova, davam-se tão bem…” E nem foi necessário inquirir motivo, “foi coração, um ataque fulminante”. E todos os gestos desirmanados me fizeram sentido, as carrancas, a zanga com o mundo, a evidência da morte no olhar. Dediquei a minha compreensão póstuma à sua desesperança, creio até que, do mais fundo de mim, lhe desejei – e assim o pedi ao bom Deus - o reencontro com a alegria de viver.

Passaram anos, deixámos de nos encontrar. Mas a bebé cresceu e já frequenta o que antes era a escola primária e agora não sei bem como se chama. Para o vulgo, é a filha da Hortense. Conheço-a da escola que me fica próxima, e observo que é garota inteligente e simpática. Para minha surpresa, um dia entrei na loja dos chineses e a mãe estava atrás do balcão. Parece outra: rejuvenescida, sorriso aberto e pronto, o mais jovial que possam imaginar; e usa de simpatia e atenção que me fazem repetir as idas ao chinês. No momento em que a descobri (não me conhece), espreitava uma prendinha que encomendara e lhe chegara pelo correio. Para a filha. Desembrulhava com cuidado para não desmanchar a surpresa da miúda e estava felicíssima com a materialização da ideia. Num golpe de olhos ao interior da embalagem verificou os pertences e, sonhadora, murmurava no refazer do embrulho,  vai ser uma alegria, há que tempos cobiça uma coisa destas. E uma cliente, Ó Hortense, então ela faz anos? E ela em amoroso cuidado com o presente, ajeitando-o com materna sabedoria por baixo do balcão, ora essa, as prendas sem data marcada são as melhores. E, olhos plenos de riso satisfeito, não me diga que não sabia isto.  Vá mas é comprar aí umas coisinhas para os seus meninos.

Não sei se a cliente acatou o conselho. Eu saí de bem com a vida.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Era uma vez...

 

E tudo foi simples e se fez próximo nesse mundo feminino e palavroso, as vozes em crescendo. Pena a mesa angular que impedia visão comum. E é certo, o vinho instala espírito festivo. Alma e corpo distenderam com  a sangria, as conversas avivaram, os nós residuais de súbito deslaçados. As aias, voltando atrás no tempo, serviam-se mutuamente como quem está em companhia de tu cá, tu lá. E brindavam. Aos brindes faltaram apenas os versinhos antigos que faziam os avós, “vou beber este copinho com muita alegria, viva a nossa professora e mais toda a companhia”.  Mas os avós das quadras, que é deles. Hoje, elas são as avós. E talvez não façam saúdes rimadas e populares. Mas brindam. E a princesa ergueu o copo e fez tchim-tchim. Linda e alegre na sua serenidade comovida por via da festinha.

A degustação foi sem mistério e a contento. Pode mesmo dizer-se que acrescentou o espírito que as animava.  E depois, é de praxe, num almoço de mulheres, sobremesas são necessidade: o bolo húmido de chocolate, uma tarte que podia ser de leite ou limão, a sericaia, um bolo de natas. E talvez antes, durante, ou depois da doçaria, a hora grata.  O álacre ramo de flores que a princesa-professora recebeu de suas aias, as palavras bonitas que o coração ditou na hora e sem ensaio. E a professora comovida, uma irremissível e púdica lágrima logo disfarçada por dedos cúmplices; a lágrima a teimar, deixem-me escorrer, por que me cortam o caminho. E a professora a recolhê-la mudamente, os dedos falando por si, não, não; as emoções  não podem desaguar ao ralenti, somos os moderadores. E talvez que uma aia maravilhada, embevecida por entrever um coração numa lágrima que quer esconder-se e assim  se faz mais pura, relíquia que se guarda e reluz na memória.

E não foi de deitar fora a hora dos licores: de poejo e bolota. Tinham a ver, somos Alentejo, caramba. O de poejo, esmerado em sabor e álcool, agradou largamente. O de bolota, quase insalubre (como o fruto) e apenas doce. Sem explicação plausível, apesar da disparidade, os licores desceram festivos.

Da torrente de conversas e sugestões, ficou a promessa de repetição  – quiçá na primavera de 2022 –; uma reportagem fotográfica que, salvo a foto de grupo e uma ou outra a pedido, não foi notada senão quando a doce autora no-la fez presente; e a lembrança de era uma vez um almoço, guardada no cofre pessoal e identitário da memória.

Um Bem Haja a todas as participantes.

 Obrigada, Querida Professora.

Era uma vez...

 

Era uma vez um almoço.  E, como em todas as histórias, havia nele uma  princesa e suas aias. Seguindo o curso dos contos e as leis dos homens, umas lhe seriam mais próximas que outras, mas a todas queria bem. Algumas sabiam-lhe um ou outro gosto, juntavam-se-lhe em amenos passeios nas áleas do jardim, gostavam de a ouvir discorrer. Amavam o seu pensamento claro, os projectos, o enraizado amor à vida. Mas, sobretudo,  apreciavam a forma discreta e sempre elegante de dizer sabendo ouvir, a atenção que lhe merecia cada uma das companheiras.  Que as princesas de verdade treinam a escuta, faz-lhes parte da conversação.

Registe-se que o quotidiano da nossa princesa e seu séquito de aias seguiu a norma, cedo lhes veio o consabido tempo da separação. O castelo ficou para trás, cada uma escolheu ou foi escolhida por caminhos e trilhos que correu até ao fim ou arrepiou. E, em diverso passo, todas verificaram que pouco o homem escolhe e só as preferências do coração resistem à fugacidade. Quando resistem. Se. Ficou-lhes a memória. O único elemento que permanece e não pode ser sonegado é o ter sido. Hoje, serão outras de si mesmas. Mas jamais perdem quem foram. Os meandros do castelo que agora lhes surgem envoltos em pobreza acanhada, já fizeram parte do seu mundo de sonhos e pequenas raivas, animaram tropelias e amizades esfumadas e que, à época, se julgavam eternas. Era ali que a princesa moderna pisava e fazia mundo, sapatinho de salto e saia justa, impecáveis vestidos com gravata,  esbelta miss em invejada meia de vidro. Se o passado as visitava, as aias pensativas, por onde andará. E logo,  oxalá seja feliz. Cada uma relembrando seu episódio. Que a discreta princesa cuidava por suas aias. E em todas, qual perfume que não dorme,  morava o seu jeitinho exemplar.

Foi talvez desta base de gratidão e amizade respeitosa que a ideia brotou. Será porque a princesa regressada. Ou por amarmos o imutável de cada um e nela vibrar intacto, pedra de toque com o passado. Terá acontecido por força de reencontro com aia mais atenta. Pois que seja. A ela/elas devemos o almoço de era uma vez. 

Soavam as treze quando se juntaram num misto de confiança e estranheza, cada uma em busca de rosto que antes lhe foi próximo, desvendando detalhes que a  idade mascara, certa forma de olhar, o tom de voz, a linha do nariz ou da fronte, o riso. E a discreta princesa contente, revendo-se nelas; tão jovens  as de antes; e agora mulheres no outono da vida. Outras. De certeza, outras. Mas não completamente.

(cont.)

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Luzes de Natal

 

O serviço de correios já me trouxe a prendinha da minha amiga A, amiga de alto gabarito, um A+. Foi a primeira e está no meu quarto sobre a cómoda, entretida a emitir sugestivos desafios a que faço orelhas moucas. Diz ela a toda a largura do papel de embrulho, espreita só, não precisas abrir tudo. Sei que é um livro e de que autor, só não sei o título e faço questão de continuar a não saber para que haja algum suspense no desembrulhar. Mas é claro que a verdadeira surpresa está em lê-lo e é esse um dos motivos por que gosto de receber livros, são prendas com expoente, eu elevo-as ao quadrado. Isto apesar de não ter lido vários que comprei na Feira do Livro e alguns que recebi no aniversário. Se o maldito vírus passe de lado, vai ser um inverno erudito.

A tem gosto e modos delicados, voz profunda e canta muito bem. Faz parte de um grupo coral e, por vezes, vai buscar o livro das músicas e põe-se a desfolhá-lo trauteando uma aqui e outra ali, enquanto eu vou enfiando esses momentos no colar de recordações comuns. Há horas em que as boas recordações valem em dobro, acodem-nos. Gosto de sua casa por tudo, mas não aprecio o inverno na casa.  É uma moradia luminosa, arejada e, muito importante, tem bom ambiente. As flores gostam tanto do ar que ali se respira quanto eu. Crescem e encantam. Ofereço-lhe umas coisinhas minorcas e quando regresso estão irreconhecíveis, prosperaram no encanto do lugar e vivem ali a contento, sorrindo confiantes, braços abertos. Às vezes entra-me certa inveja da simplicidade floral. Flor não pensa e vive de luz, terra e água.

 

sábado, 5 de dezembro de 2020

Os Últimos Serão os Primeiros

 

Por vezes julgo que este meu exercício da banalidade, do comezinho desfrutável, é apenas caminho de fuga a incómodas verdades que o mundo exibe, às suas feridas e pústulas assanhadas e insanáveis. Provável mecanismo de defesa ou só mania de carácter. O certo é que, enquanto outros exaltam isto e aquilo, croniqueiam sobre este ou aquele descalabro, se insurgem – justamente, diga-se – contra determinado espírito que grassa, um ou outro figurão que é apenas uma triste figura, eu estou nisto. Enquanto o perigo da direita mais asquerosa se vai exibindo aplaudido pelos exponenciais descontentes do sistema, enquanto isso, finco-me num quotidiano insosso e remendo-me cerzindo vagares a ponto certo, no tecido cada vez mais esfiapado que nos veste. Desentendo-me do vírus que nos manieta, de máscara e álcool-gel, dos avisos médicos e da vacinação, da Tv em geral. Alieno tudo se passeio manhãzinha, o frio a bater-me no rosto e o nariz em humidade ressentida. Tanto assunto importante, questões de vida e morte, e, sei lá porquê, o pensamento fixa-se naquela mulher que cosia. Dias inteiros de magreza virada à costura, dedos longos e mágicos alinhavando informes bocados de tecido que os pontos nomeavam. Era assim que lhe nasciam mangas e rodas de saia, cabeções e cintos, bolsos e casas de botão. Eu maravilhava na arte sacra de casar quadrados e listas, enviesar godés, passar alinhavos num pregueado de fita métrica.  Sentada num banquinho baixo, vestia negro rigoroso, luto eterno pela filha morta aos dezanove, flor tão rara como não vi outra e como cantava bem "conta a lenda que certo mouro à noitinha ia namorar com as ninfas do rio Douro ao luar...". Bela e doce, a garota era amada e estimada por todos. Até ao namoro fixo, os rapazes  casadoiros disputavam-lhe a atenção e qualquer mãe a desejava na família. Era do conhecimento comum, por gritos e serrabulho masculinos, que dentro de casa amparava as penas maternas, oferecia o corpo como defesa e acarinhava contra as porradas da besta que mandava e desmandava a seu bel prazer. O pai era um casmurro que nem os bons dias dava e a quem a mulher falava e servia docemente, sem queixa ou lamento. Casados os filhos homens, ficaram as duas à mercê da tempestade, e o que se soube sobreveio dos desacatos a que o animal se entregava.

Vejo-a muita vez assim, a memória traz-ma a coser, dobrada  à desgraça de vestir a sua menina morta e casada in extremis com um namorado desfeito. E enquanto a agulha atravessa o tecido maquinal, confidencia, comprei o vestido de noiva que tínhamos visto as duas no Tito Cunha, tanto que ela o sonhava e nunca se viu com ele vestido. E as duas lágrimas presas no virar das pestanas descem até aos óculos que retira, a menina desculpe estas lembranças tristes, não tem nada com isso, mas para que é isto bom.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

A Miss

 

O exercício da escuta pode ser fascinante. Não a escuta profissional onde se pescam fios e nós e se desenovelam pontas num emaranhado onde o próprio tantas vezes não sabe navegar. Falo da escuta amigável, esse inefável desembrulhar bombons de incógnito recheio, o olhar antecipando na boca a doçura apetecida. A minha conversa com a miss foi esse tactear de duas vontades, um uníssono entre botão e casa, água mansa que a sua eterna delicadeza fez contínua e plausível. Quanto tempo sem exercitar a escuta presencial. Tanto. Elidida, esqueço que existe, o mundo cingido a dias de cintura apertada em quotidiano  de fivela. E, se num intervalo dos furos ainda insiste em queixa  sussurrada, e eu?, está já a desistir, à beira da mudez.

Posto que o reencontro nos fez bem, logo aprazámos para a quinzena seguinte outro chá, um passeio…Mas, passada uma semana não resisti a um dia de sol e liguei a convidar. Ela agradeceu e aceitou um passeio ao ar livre. Levei-a de carro por caminhos de que a minha bicicleta tem saudade e, depois de o parar numa berma soalheira, internámos no pinhal.

Corri aqueles trilhos em garota, à revelia de minha avó que não me queria no meio dos galfarros. Para que conste, chamava galfarros aos garotos da vizinhança, género masculino que não se ensaiava nada de roubar fruta pelos quintais e levar sovas de cinto. Contudo, nunca eles me “desencabecinaram” e antes me contavam coisas engraçadas e mostravam um mundo que eu desconhecia. Foi assim que vi corujas, mochos e raposas furtivas. Com eles aprendi a pisar bufas de lobo e faziam gala a descobrir as maiores e dar-mas a pisar para rirem a bandeiras despregadas com o som cavo e o pó que soltavam sob os nossos pés. Em troca, eu contava-lhes histórias que lia e ouvia. Aprendi muito com os galfarros e chorava desaustinada com os seus gritos lancinantes se eram sovados sem piedade por pais impacientes ou mães cansadas e  inundadas de queixas, roubou aqui, tirou além, não faz os trabalhos de casa, anda feito moinante, etc.

Caminhamos atentas, a desviar-nos de raízes salientes. Já não há o pinhal de mato fechado onde me arranhei e piquei. Agora é um caminho leofilizado de pinheiro aqui, pinheiro ali, que se deixa ver de fio a pavio e nos espreita sem perigo. Que a miss não queria perigos, ia pelo ar do campo, a liberdade do ar sem fronteiras, tão grata a nós duas. Entre outras coisas, contou-me que vai ampliar a casa onde vive e que devia ter seguido arquitectura pois gosta de fazer projectos de recuperação de edifícios. Falou dos que recuperou noutro lugar, durante o casamento. E da recuperação que já tem em curso na minha terra. Uma entusiasta de oitenta anos. E, enquanto ela conversava a desfiar sonhos que vai tornando realidade, eu pensava no inconsciente desejo de permanecer. A minha professora não tem filhos e quase não tem família, mas vai permanecer nos edifícios recuperados. É a sua forma de ficar.

Apanhei urze e rebentos de carvalho anão e, como as crianças que fomos, as duas trouxemos um raminho de flores silvestres. Da próxima vez, vou levar um sacho e saco plástico e trazer alguns matos que namorei. Pode que peguem. 

 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A Miss

 

As pernas. Longas, sem um pêlo, alabastradas em meia de vidro. Não que eu ligasse muito a pernas, não recordo as da professora de Português, nem as da mestra de História e tão pouco as da professora de Física. Mas as dela ficaram-me na mente, mais perfeitas que as de Cyd Charisse. Calçava sapatinho de salto e usava vestidos que lhe caíam como sopa no mel e tinham gravata acoplada. Em meu entender, cheios de estilo. Aquelas pernas passeavam-se entre as nossas carteiras e tinham a particularidade de, à medida dos passos, darem uns estalidos fracos que as denunciavam. Suponho hoje que seriam produzidos na junção de perna e pé, mas, na altura, considerava-os característica extraordinária e única no mundo, fenómeno que mais enaltecia a possuidora.

Acontece que no meu tempo de colégio imperava a sensatez e o bom comportamento. Ora uma menina sensata não se virava para trás durante as aulas. Portanto, aqueles sons orientavam-nos  a geografia  da professora quando saía da sua mesa com pezinhos de lã. Sentada bem à frente, eu esperava o momento em que as pernas passavam a meu lado e, se sucedia, invejava doridamente aquela pele de pêssego sem vinco de meia e onde os poros, limpos de qualquer pilosidade, se faziam visíveis. Tenho da miss de Inglês as melhores recordações, mas o mais saliente são as pernas.

Tenha o leitor paciência na leitura destes pormenores, mas é que reencontrei a miss. Que já não é miss. Passadas umas boas dezenas de anos em que casou e enviuvou, está de novo na minha terra.  É senhora que beira os oitenta e parece ter menos dez ou quinze anos. Portanto, fiz-me encontrada com ela. No meio de tanto aluno em lugares vários, esqueceu até as minhas birras nas aulas, mas reagiu ao nome, “ah, uma moreninha de rosto pequenino”. E é claro que achei o máximo. Chamou-me moreninha em vez de preta, como hábito na minha terra quando preto era só um nome para o moreno mais escuro, “olhá preta; tão, preta, tás boa”. Portanto, ser moreninha é subir vários degraus de uma assentada. Viva a miss.

A uma miss oferece-se chá. E conversa. A minha professora de Inglês revelou-se loquaz, simpática e, como é natural, não recordávamos os mesmos pormenores do tempo de colégio. Contou-me que casou depois dos quarenta com uma pessoa que a viu nascer e por brincadeira dizia que casava com ela quando fosse grande. Que não houve filhos. Falámos de viagens, da sua paixão pelo United Kingdom, de ter viajado mundo fora quase sempre a sós e em transportes públicos. De ela e o marido serem filhos únicos e lhe restarem dois primos. A solidão apareceu-lhe como estrela cadente. Que logo acrescentou, “ não vivo de saudade”. E eu que sou uma saudosista desgraçada e alentejana por inteiro, não se vive de saudade, mas vive-se também com saudade. Olhou-me em estranheza, não, eu não vivo com saudade, a saudade não me leva a lugar nenhum. Sou o resultado de tudo o que vivi, mas o que vivi é passado e está morto, foi.

Confesso, não esperava um assentar de pedra tão prosaico.

(cont.)

 

 

 

domingo, 8 de março de 2020

8 de Março


Que dirias se soubesses que há hoje um Dia da Mulher. Que dirias tu, escrava de nós todos, mesmo dos que te pagavam com amor desmedido e egoísta. Que dirias. Não é pessimismo. Julgo que não. A morte, em certas vidas, é lastro de encerramento definitivo, o desfecho mais leve. E a certeza de que não voltas a repetir-te. Não sei quem destina o quê e se algum destino existe na errância que é a vida humana. Mas a impossibilidade de repetição consola-me. A tua unicidade assegura que não se repete a circunstância. Contudo, facto que não é indolor, há mulheres agredidas todos os dias, mortas, espezinhadas em vida e após a morte, como se alguém queira apagá-las da face da terra ou reduzi-las à mediocridade invertebrada. Muitas são agredidas e mortas em crime passional, nada está mais próximo do amor que o seu reverso, e, se as emoções entram ao barulho, o homem, aqui entendido como sujeito masculino, campeia na animalidade.
Depois há as assimetrias caseiras: no trabalho doméstico e na profissão; nas responsabilidades educativas e afectivas para com os filhos; na orientação da vida comum e na gestão do círculo familiar; no apoio aos mais velhos; na economia do agregado.
Pergunto-me se em vez de um Dia da Mulher não seria preferível uma formação contínua e obrigatória dos homens. Não me parece saudável a forma como abordamos o assunto.
É só.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Cai o Pano


Os enfeites natalícios emprestam à casa um ar de festa. São as luzes, as bagas vermelhas do azevinho, os brilhos refulgentes onde a árvore pontua, as mesas que condizem em toalhas e outros adereços, o presépio se existe. Tudo para que seja uma noite acolhedora e em família. A casa fica tão linda que, trabalho feito, apetece passear de um lado a outro. Mas cada coisa tem o seu tempo. Nos Reis, o azevinho definha, perdida a luxúria verde que parecia enraizada nas folhas que nos repelem agulha a agulha;  e a sedução elegante das bagas carrega agora o vermelho entristecido de mortalha precoce. A casa virou costas ao Natal, está saudosa, quer o aconchego de objectos triviais, fartou-se de brilhos.
Então as mulheres armam-se de paciência e escadote, sobem e descem, apeiam laços, desmancham árvore e presépio, tiram luzes e brinquedos, lavam as toalhas e os panos de cozinha, engomam de novo os cortinados a uso, voltam a subir e descer, acondicionam todos os pertences de natal em caixas etiquetadas – árvore de natal, presépio, laços e fitas, panos de cozinha, etc -;  carregam-nas para o sótão, fecham num armário, põem na prateleira de cima da despensa, escondem debaixo de camas, sabe-se lá até onde vai a imaginação na falta de espaço de um T1 ou T2.
E, fora a fúria de agulha dos azevinhos moribundos, os enfeites de natal agradecem as mãos que os tocam e amorosamente os embrulham e deitam no lugar como quem ajeita a dobra de lençol ao filho. E adormecem por mais um ano. Mataram a saudade de viver.  Reviram as crianças a crescer, os avós que vão envelhecendo, os ocupados pais das crianças, sem tempo para cuidar do tempo. Ou notaram a falta de alguém. Alguém que não pertence mais a esta família, ou  alguém que,  apesar da pertença sentida, partiu definitivo. Há famílias com gente nova, bebés, namorados, amigos que são ou serão namorados; laços humanos que se desmancham e refazem. Nas caixas arrumadas passeia certa melancolia, um frio de futuro incógnito que interpela as mulheres, até quando serei eu a desembrulhá-los. Mas a essa incerteza de 358 dias, ou motivado por ela, junta-se o desejo. O desejo simples de vivê-los e saber como são.

Nota: e se não for um trabalho de mulheres...bem haja quem o fez.

domingo, 28 de julho de 2019


Não sei vê-la com olhos conhecidos. Para o conseguir tenho de obliterar quem é e quem sou, mirá-la como desconhecida. Então, noto-lhe a cabeça alva, uma chusma de cabelos brancos em ondas suaves, olhos que se afundam em rugas, as mãos que aos poucos tomam jeito de garra deformada. E a fazer cama, a mansidão que se desprende da voz suave e dos gestos que arredondam sem ângulos. E ainda eu não sendo eu, afirmo, é uma velhinha simpática. Mas acontece que eu sou eu a maior parte do tempo e, portanto, ela não é apenas a velhinha simpática que impressiona a retina da outra de mim. Ela é a mulher sem idade que tem voz muito semelhante à de minha mãe; que vi casar jovem e cheia de ilusões; analfabeta que se lamenta, os filhos queriam ensinar-me e eu nunca dei jeito, não tinha tempo; de quem o marido dizia, sou mais novo, tomo conta dela quando for velha, mas partiu antes, ela a cuidá-lo durante anos; aguentou a vizinhança de sogra malévola que nunca a quis e tudo suportou a sós consigo, driblando boladas assassinas da bruxa má. Hoje tem o amor de filhos e netos e continua-se em pequenos gestos e favores. As pernas negam-se ao caminho e encurtam-lhe as voltas. Mas trata da casa e dos animais domésticos, atravessa a rua e bebe o seu cafezinho diário. E promete a si mesma, se eu voltar alguma vez a esta vida, vou para a escola, aprendo a ler.