sábado, 30 de dezembro de 2023

E Que Venha 2024

 

Mais 365 dias que atravessámos. 365 dias que se foram. Ontem, nas minhas voltinhas pela net, li num blogue uma reflexão sobre o que o ano teve de aborrecido e o que trouxe de bom à autora. Sintetizando, parece que padecemos todos do mesmo: sofremos mal a falta de dinheiro, os electrodomésticos que se estragam sem perguntar se podemos adquirir um modelo novo cuja vida será mais curta que a do anterior, as parvoíces das casas que racham e estalam sem razão, torneiras que pingam ininterruptas e pedem arranjo, copos que nos escapam das mãos e se fazem em fanicos tão pequenos que seis meses depois ainda descobrimos esquinas debaixo do frigorífico ou dos armários, as crianças que são amorosas só às vezes e teimam em exigir atenção quando o corpo nos pede descanso, os adultos tanta vez a fazer mais dano que a criançada, as ervas do jardim crescendo mais que nos desenhos animados, o orgulho viçoso a exibir-se esgalgado entre medrosos projectos de flor, a solidão que se instala quando bem quer e nos tolda o ser que nuns é mal da alma e noutros do corpo todo, o reconhecimento da harmonia que vemos nos outros e nos falta. Resumindo, e sem querer entrar em mais detalhe, um quotidiano difícil e trabalhoso a que não vemos fim seja qual seja a versão do ano vindouro que, afinal, é só um dia depois e é impossível acreditar que seja assim tão diverso.

Na segunda parte do texto a heroína não  esqueceu as benesses recebidas. Concluí que, se nos desastres me assemelho, os meus momentos airosos foram bem diferentes. Tal como ela, assinalo as horas de praia; foram boas, mas escassas na circunstância deste verão aziago. O meu aniversário foi um bom momento num dia quente de verão - todos reunidos e contentes, meu pai pela primeira vez de lágrima no olho, “parabéns filha”, e meu filho estreando-se a filmar os quatro manos e o avô. Houve ainda dois passeios em família que, sem serem especialíssimos, foram bonzinhos – conhecer outras gentes e lugares, dispor os olhos à beleza, é privilégio a que sou grata em qualquer circunstância.

Depois a menina do blogue refere filmes e espectáculos que considerou uma espécie de oásis no seu quotidiano. Ora eu vi pouquíssimos filmes no cinema e nenhum me mereceu referência. Lembro-me de ter apreciado uma ou outra série alemã ou inglesa que passaram na rtp2 e vi na rtp play.  O espectáculo que mais gostei – gosto sempre – mereceu mesmo um texto: o Concerto de Ano Novo da Gulbenkian a que, por azares da vida e do verão, este ano não assisti. Também arejei frequentando alguns cursos: vi pessoas, ouvi gente que sabe do que fala e em linguagem acessível, cirandei por lojas de roupa barata, bebi meias-de-leite que pareciam cappuccinos (viva!), andei à vontade pela rua da Prata. Vi apenas uma exposição de pintura e escultura na Gulbenkian. Fui feliz em cada visita dos filhos. Pasmo da diferença entre eles e do amor o mesmo que lhes tenho. Se há tempo livre e a casa volta a pertencer-me, também passo bons momentos a sós; e sempre que escrevo e estou atenta à mente de que os dedos tentam dar conta, habito um limbo sem outro tempo que o da escrita. E parece-me ser isto uma felicidade de que não dou conta.

Desejo que 2024 seja mais ameno. Para mim e para os que sofrem agruras de guerra e doenças sem remédio ou cura. Para os mais, e mesmo que não vejam filmes extraordinários, nem frequentem espectáculos (divinais ou não), que sejam si mesmos e aprendam a convivência entre os homens e com o mundo natural. 

Que o amor nos salve.  

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Menino Jesus

 

Não faças beicinho que eu anotei: o calendário de Natal passou umas por outras; não te tirei das caixas senão em vésperas (já nem sabia onde estavas, apesar do adizer “meninos Jesus”); escrevi uma miséria de postais e os que prometi entre Natal e Ano Novo, ainda não nasceram e estou em crer que serão nada até ao próximo ano. Do pinheirinho sintéctico, que o filho fez o favor de enfeitar, até já tinha desistido. Acontecia a noite apanhar-me desprevenidamente arruinada e nem o portátil me ressuscitava. Diga-se em abono da verdade, que o corpo inteiro suspirava pela posição horizontal. Um exagero.

 Neste Natal perpassou-nos um espírito diverso. Houve risos? Houve. Alegria da família junta? Sim. Bem de saúde? Mais ou menos. Bolos, vinhos e doces à vontade? também, mas sem exageros. E um brinde feito pelo neto mais velho, a quem nos faltou este ano. Gostei da atitude. E penso que meus pais, e em especial o avô, se orgulharam dele. Contudo, não os senti. Mal me sentei à mesa da consoada e pouco  estive à lareira, onde os nossos mortos, sei lá porquê, gostam de estar. Li “La psychanalyse du feu” de fio a pavio, - uma amiga querida fez o favor de mo oferecer -, mas juro que não encontrei resposta em tanta página. No entanto, admito que me tenha passado. Advogo que meu avô, minha mãe e meu pai gostavam muito de “lume de chão”. Talvez por tal motivo se cheguem ao brasido.

E enquanto nós éramos mais ou menos felizes tu que fazias, Menino? Entretinhas-te a nascer de novo; ou apagavas as velas de aniversário que espero sejam só quatro, cada uma com um número. Ou nem com ajuda de todos os anjos do céu – na terra também os há - tu conseguias apagá-las; ainda incendiavas as nuvens e olha que já temos desgraças que cheguem na Terra, não precisamos que um céu esbraseado nos caia em cima.

Pois é, deixei passar um tempinho sobre o teu aniversário para não me acusares de desmancha prazeres. Mas tenho de te dizer muito sinceramente que me foges à compreensão. Afinal que pai és tu, hoje?! Que sempre me pareceste um pai estranho, isso é verdade. Quantos inocentes deixaste condenar pelos que se dizem teus representantes? Quantos foram, vá. Quantas guerras e mortandades à sombra do Teu nome?! São os homens, bem sei. Tudo são erros e desmandos humanos. Tudo é ambição e desnorte. Os homens estão a falhar a si próprios. A corrupção é de tal ordem e o sangue corre tão espesso que o mal do mundo me parece insolúvel. Mas quantas vezes os nossos antepassados pensaram o mesmo?!

Ora, julgo eu, um bom pai não cruza os braços e fica, soberano, assistindo todas as perversões a que os filhos se dão. Tu toma tento, ouviste? E não me venhas pôr tremores de terra à porta, sff.

Obrigadíssima


quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Fora de Contexto

 

Acredito piamente que a Isabel consiga mais, mas talvez menos que a Carmen: não é jovem e, excepto se tiver conhecimentos nos media, apesar de ser sábia e uma conversadora extraordinária e muito fluente, nada tímida, cheinha de histórias que não enfadam e antes põem bem dispostos os ouvintes - entretém qualquer público - precisaria outro género de divulgação. Contudo, admito que ela o possua e eu não saiba, há muitos anos que não contactamos. Além disso, e apesar do sotaque e de amizades selectas, possui fluência verbal e imaginação de escritora. É professora de português e Inglês, idolatrada por alunos e ex-alunos de todas as idades (compram de certeza o livro ainda que possam não o ler). Ontem reconheceu que contava muitas histórias nas aulas, funcionavam como isco da matéria. Ainda acrescentou que, na Academia Sénior dá inglês ao som dos Beatles e cantam todos antes ou durante a aula propriamente dita. E sei que os vários tipos de aluno a preferem, fui sua colega no ensino nocturno e diurno.

O livro foi apresentado por um amigo também escritor e advogado e que desconheço. Disse o que é normal dizer-se. A representante da Academia, que provavelmente tratou de toda a apresentação e trabalho de bastidores, teceu elogios às aulas, à pessoa, ao livro que lhe foi dado ler antes da divulgação pública. Isabel foi familiar sem excessos. Tinha o neto mais velho (já com bigode farto e certo ar de rapaz-homem) a vender os livros; e o marido pontuava na primeira fila. Emendou sempre o eu que lhe saía espontâneo para um nós bastante enfático, e cingiu-se à matéria do livro contando que versa sobre a sua criação serrana e a importância das pedras, amor que procura transmitir aos netos quando por lá passeia com eles; acrescentou que ali estão plasmados os seus princípios até à juventude.

Digo que a Isabel foi realmente a personagem principal do evento e tomou conta da conversa-monólogo. Mas como ela é sempre ela, e sempre professora, achei engraçado que, durante a sessão de autógrafos, foi ralhando com os alunos seniores que andam a faltar às suas aulas. Sei muitas das suas histórias de vida e assisti em directo a algumas. Espero o novo livro. Por ser o que deseja e no que trabalha neste momento. Oxalá a vida lhe permita a construção.

Realizou mais um sonho – ouvi-a vezes sem conta dizer que, quando se reformasse, havia de escrever um livro com os episódios mais relevantes e quanto eles lhe mudaram a vida e o pensamento. Digo: Conseguiu! Do que a autora explanou – e explanou por onde quis -  deixo apenas uma ideia: tudo tem de ser feito com paixão. Ou fica insonso - digo eu.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Fora de Contexto

 

Ontem desmarquei-me do Natal e fui de alma e corpo para a apresentação do livro de ex-colega de trabalho. Não sou, nem nunca fui sua amiga. É uma colega que veio “da Linha”, com um sotaque todo “tia de  Cascais“ – ontem soube que é da Serra da Estrela onde ainda tem casa. Casou com um outro colega com quem trabalhei a vida toda, até nos reformarmos antecipadamente – ele  antes de mim. Têm uma queijaria famosa na terra e fora dela. Vendem queijo fresco por todo o país. Neste momento, pelo menos dois dos filhos entraram a todo o vapor no negócio que parece correr bem.

O livro é, segundo a autora disse ontem - ainda não li uma linha -, a sua autobiografia. Já tem garantida a edição de um segundo volume onde continua a saga e que conta propriamente o que viveu e aprendeu e ensinou na minha terra, lugar para onde se deslocou já casada e com quatro filhos, quando, para satisfazer um sonho da dupla, deixaram o conforto da dita “casa da linha”, compraram uma quinta no Alentejo e se viram de repente a braços com ela, sem entenderem um boi de agricultura e numa casa velha e decrépita, falha de esgotos e electricidade. Tinham telefone (que ela pronuncia tefóne), mas sem portas interiores. Isto é absoluta verdade, foram meus alunos três dos seus seis filhos e as suas descrições eram hilariantes. Claro que, do que dois deles me confidenciaram, nada transpira aqui ou noutro lugar. Não por ser segredo absoluto, que não é; mas confidências são confidências. E ponto. Qualquer deles foi, em seu tempo, dos meus alunos dilectos. O Francisco conseguiu mesmo que me deixasse fotografar com a turma para uma revista escolar de que já nem lembro o nome. Era o garoto menos estudioso e mais culto da turma; também o mais genial e bem disposto que conheci na vida; atrasava com regularidade à primeira hora e tinha sempre uma desculpa convincente a que só algumas vezes anuí.

E gostei da apresentação  - detesto apresentações de livros e é movida por qualquer sentimento alheio à obra que compareço em algumas. Mas faço questão de comparecer em todas as que se fazem aqui na terra e de que tenho conhecimento, para divulgar talento e obra de um conterrâneo. Por saber que aquele é o seu momento de glória. Salvo Carmen Garcia, nenhum vai além da primeira ou segunda edição e, na maioria, a tiragem de exemplares nem a primeira edição esgota. Mas há em qualquer livro o exercício aturado da palavra e muito tempo dispendido em torno desses símbolos gráficos. Portanto, estou lá no momento de cada um dizer, “já está, consegui”. E aplaudo.

(cont.)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Cristais

 

Creio que me retiraram do anonimato onde dorme grande parte dos professores que todos tivemos. No meu mundo particular são duas estrelinhas. Uma convidou-me para o casamento; a gordinha sorridente não fez convites, casou brevemente e a sós com quem é hoje marido. Admiro-a. É batalhadora e pacífica em alguns momentos, mas sabe fazer valer os seus direitos. Tem um filho universitário que vi crescer, lembro-o bebé numa alcofa e logo, logo, a gatinhar na manta que abri na sala para ele. É um bom aluno, orgulho dos pais e meu. Sinto - e já lho disse - que é quase como se fora minha filha: conheço-lhe problemas e alegrias, e vou acompanhando com mais escuta e assentimento que palavras. O cancro levou-lhe a única irmã, o pai também ainda há pouco se foi, a mãe é pessoa difícil e sozinha. A minha menina, é assim que a penso, já se submeteu a duas cirurgias, está à beira da terceira e não vai ser fácil, tem problemas sérios. De tempos a tempos conversa comigo, mas raro aborda saúde e doença próprias, sou eu quem pergunta e pede resposta. Um dia destes foi abaixo e entrou pela psicologia dentro. Deram-lhe baixa e ficou em casa, facto que não comoveu a mãe, nem a convenceu a ela. Melhorou, regressou ao emprego e afirma convicta que não se dá com psicólogos. Os três são uma família a sério. A santíssima trindade vem sempre almoçar comigo em vésperas de Natal - escolhem o dia livre do pai e avisam antes. São horas que apreciamos longamente. Eles gostam de conversar e sempre lhes apetece tudo o que almoçam. O meu prazer a vê-los comer é genuíno e um pouco vaidoso. Depois e durante, lembram o tempo - diferente - em que ambos foram meus alunos. Trazem notícias da amiga (continuam unha e carne) e de antigos colegas que encontram ao sabor do acaso. Mas a essência, a infinita glória, é a certeza que temos uma na outra. Há verdades assim, cristalinas.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Cristais

 

É uma miúda gordinha. Olhando-a, supõe-se que o tenha sido desde sempre. Aluna mediana, por vontade própria não foi além do 11º ano. Nunca chumbou/ficou retida. Conheci-a quando frequentava o 11º ano. Era uma falsa dócil, sorridente e determinada. Tinha uma amiga do peito que se mantém e que acompanhou nas aventuras do teatro, ainda que se autoexcluísse desde o início. Viviam ambas longe, mas chegavam à cidade no mesmo autocarro, uma guardando lugar à outra, como era hábito de todos os garotos que nele viajavam. Nunca ouvi queixas dos que se levantavam às cinco, seis e sete da manhã e a maioria dos professores ignorava o facto, poucos liam o verso da folha da caderneta de turma. Não é uma crítica. Ou é.  Assumo a pertença ao grupo de leitores preguiçosos. Mas o teatro traz um conhecimento outro a todos os participantes. O modo como nos conhecíamos num projecto criado desde a raiz, que brotava com o tema, seguia para a situação e logo para as palavras com que a queríamos dizer. Líamos em conjunto e era um entusiasmo passar aos que depois se aventuravam a decorá-las assumindo-as como suas, enquanto alguns ficavam a olhar e opinar sobre isto e aquilo. Tudo extra-aula. Ela, a gordinha simpática, esteve sempre lá. Chegavam cedíssimo à escola e partiam tarde; os autocarros camarários tinham muito a fazer e o horário era o que era. Mas foram sempre esses alunos quem mais participou em actividades voluntárias e extra-aula; eram os mais respeitosos; porém, em quase todos germinava a determinação que os da cidade não tinham. Se convictos, afrontavam a própria direcção da escola. Faziam cenários em hora aprazada dos fins de semana, o papel estendido no chão da minha sala vazia e os dotados a mostrarem o que valiam; ou ensaiavam a peça que a semana, de turmas, horários e anos diferenciados não permitia. Durante a semana fazíamos ensaios por fracção, de acordo com a disponibilidade escolar e de explicações. Mas aquelas duas garotas davam um jeito. Convenciam os mais renitentes e ajudavam no que podiam.

Uma vez, talvez por um ensaio, talvez por qualquer outra ajuda, acabei a dar-lhes almoço. Azar! Nesse dia não tinha nada em casa e julgo que nos limitámos a fritar batatas e estrelar ovos, ou coisa semelhante. Mas combinámos sei lá quê enquanto almoçávamos. Adiantámos. Eram tão entusiastas que repetidamente me deram empurrões mentais e nem eu desconfiava das conversas que tinham tido na direcção, nem quanto as negativas que recebiam se transformavam em força radical. Só há uns dois ou três anos a minha gordinha querida se descoseu. Combinaram não me contar e cumpriram. Fiquei a admirá-las ainda mais. Não esqueço que a minha gordinha sorridente, para ficar a ajudar, abdicava do transporte e pernoitava em casa da amiga. Radiantes ambas, contando sobre os ses dos progenitores e a perspectiva de uma noite inteira para elas.

(cont.)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Alegria

 

Ontem foi um dia muito cheio. De movimento. De trabalho. De alegria.  Escolho dar notícia da alegria: em viagem no Intercidades ouvi de repente “Olha a minha professora de…” E desta vez, ainda que só ouvisse a voz vinda lá de trás da carruagem, pensei que era comigo. Pronto, às vezes não penso isso. Uma vez num consultório chamaram a doutora x – que era eu – e pensei um tanto surpresa pela coincidência, “Olha, há uma médica com o meu nome e é uma das pessoas que está nesta sala”; e nem sequer levantei os olhos. À segunda vez, pensei se a doutora x não estaria na casa de banho ou assim, dado não ter ouvido ninguém a levantar-se. E continuei na minha (talvez estivesse a ler). Quando a funcionária saiu do guichê e parou na minha frente, julguei que viesse recolher dados, preencher papelada, mas ela sublinhou: doutora x o doutor y (isto está a ficar cheio de variáveis) está à sua espera no gabinete. E eu a levantar-me à pressa, arrumando a tralha que devia ser o tal livro, e admiradíssima, a doutora sou eu?!! Ok, ok, ok. E lá fui para o respectivo. Bom, já entrei em devaneio.  

Voltando à causa da minha alegria de ontem: Ia sentadinha no meu lugar, muda e queda lendo o princípio do segundo livro da Carmen, o que tem organização de Isabel Alçada, quando um brasileiro no banco ao lado me perguntou se o comboio ia para Setúbal. Informei-o que ia para o Alentejo e que fora sorte ter perguntado antes do Pinhal Novo, estação onde poderia descer e apanhar o comboio certo. O brasileiro respondeu qualquer coisa que me fez rir. E foi nesse momento que ouvi o “Olha a minha professora de…” Não reconheci a voz nem vi ninguém, mas tinha de ser comigo. É que, se chamam pelo meu nome, penso ser para outra pessoa; mas se disserem “a minha professora de”, penso logo que sou eu. Isto bem analisado devia dar bom assunto. Mas não estou para isso, quero escrever alegria.

Entretanto, o revisor acercou-se do brasileiro para o informar melhor. Mas, em vez de olhar para ele, ficou a sorrir-me dizendo com laivos de orgulhosa e terna perspicácia, “conheci-lhe a voz e o riso, e olhe que nem a vi.” É claro que também o reconheci apesar de duas décadas sem nos sabermos. Foi um momento mágico, os nossos olhos contentes do encontro. Há laços que parecem ténues, mas não desgrudam. E não foram assim tão ténues, três horas lectivas semanais durante dois anos escolares atam-nos uns aos outros. Eu não lhe disse que engordara e estava careca; ele não me disse que o meu corpo também mudara, que as rugas se instalaram e o cabelo embranqueceu. Tais constatações não nos importam.

Para terminar o dia  - em dezembro os dias encurtam -, fui dar uma aula, a última deste ano civil. Julgo que correu bem. Uma aluna disse-me que sou a professora que veste mais fora da caixa, e deixou-me a pensar se as outras profs vão de saia-casaco ou assim. Outra confidenciou-me a sós, “eu quase chorei com os poemas”. Os poemas lidos eram poemas de Natal. Não escolhi poemas tristes ou que falem da morte. Perguntei apenas, mas gostou deles? E ela, “gostei muito”.  

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Em Espiral

 

Não sei onde param os meus três Meninos de Natal. Descansemos (a minha alma e eu), ainda há várias caixas por abrir, nada de suspense. E se no interior do sigiloso cartão houvesse outras coisas?! Jogos, peças de lego e outras bugigangas. Se em vez dos laços e fitas me surgisse uma espiral de serpentinas, por exemplo. Hummm….Diria o meu professor de Antiga cheio de propriedade enfática, “ Se, se, se. Se a minha avó tivesse rodas era uma bicicleta.” E eu que nunca entendi bem o que era uma faculdade apesar de frequentar aquela tal, arregalava os olhos um bocadinho ofendida com a injúria à avó desconhecida, enquanto o resto do people sorria largamente, fazendo aquele ar de compreensão experimentada que me faltava e não chegou a nascer-me. Verdade, cultivo o humor mais básico. Devia ter razão o meu professor, os ses não interessam. Os ses não são reais. Os ses são hipóteses palermas.

Ora! Vendo bem, há hipóteses irrealizáveis sim senhor. Que não podem ser, impossíveis. Por certo prevendo lesões no ego, aconselhava Aristóteles que, a serem postas hipóteses, elas teriam de ser possíveis. A impossibilidade é aquilo que na minha terra se traduz por, “não dá fajaca”. Contudo, suponho que todas as descobertas, da hiperbólica à nano-micro (não sei se existe tal unidade de medida, se a inventei agora - ai, ai, dois ses na mesma afirmação), iniciam com um se, uma dúvida, um desejo de que, de uma certa relação ainda não experimentada resulte algo novo ou apenas diverso. A avó dele, tendo rodas, era uma bicicleta? Fiquei com pena da senhora, coitada. Ali, numa aula, mais de cinquenta mânfios a ouvirem que lhe bastariam duas rodas e pumba, mudava-se em bicicleta. Ainda hoje tenho dúvidas sobre a árvore genealógica do meu professor. Bom, ele parecia humano em toda a linha e aprumava um sorriso lento quando entrava, gloriosa e inocente, certa garota que, era inegável,  lhe dizia qualquer coisa ao âmago. Revi-o há alguns anos, continua a parecer humano, proferiu mesmo palavras naturais, muito idênticas às de toda a gente. Porém, não me convenceu, preservo os ses. E a certeza que não basta pôr duas rodas numa pessoa para a mudar em bicicleta.

E tudo isto para dizer que hoje reservei um tempo especial para dispor a casa e a mim de molde a recebermos o Natal, a família, os amigos, e quem mais queira vir e venha por bem. Mas quis o acaso que o usasse inteirinho numa inesperada lição de tricot. Ele há coisas...

 

domingo, 10 de dezembro de 2023

Ao Natural

A força de viver da natureza continua imperturbável. Se dela nos esquecemos, assola-nos e pode submergir-nos. Falo da natureza domesticável e não de terramotos, efusões de vulcão ou assim. Falo das ervitas e do musgo de que se revestem os campos e bordam a toda a volta os meus mosaicos da rua; falo da impertinência e proliferação de espécies que nascem em qualquer canto; falo da satisfação herbácea e clorofílica a que o meu cão, que Deus tem, dava um basta de deserto – nada nascia no seu perímetro de acção.

A minha veia natalícia desasou com o aspecto abandonado do quintal. Portanto, quando dei por mim, em vez do proposto retirar de conteúdos daquelas duas ou três caixas, atacou-me uma filoxera, peguei na tesoura de podar e zás! Pus termo àquela malva descomunal que retirava força às não me lembro o nome, flores pequenas e de cor variegada, em forma de campainha e  esmagadoramente olorosas - o odor palpita pelo quarto quando, em inícios de primavera, colho algumas. Pois essas mesmas, este ano quase não conseguiram nascer (parva da malva e da dona dela). Devo-lhes cuidado redobrado, já que, ao longo dos anos, e sem que eu mova um dedo, têm brotado como cogumelos; quando dou por mim, estou a contemplar-lhes a vontade de viver. Em bom português, sou a única culpada da sua asfixia, que a malva, até ver, não lhe conheço alma pensante. Pobres flores (só me estou a lembrar de petúnias mas são outro nome; pode que ainda me venha).

Mas não se pense que me faltou vontade de Natal. Nada. Era já noite cerrada, quer dizer umas dezoito e picos, quando me fui a uma das caixas. E para não bisar a pausa, passei a ferro um monte de franzidos encarquilhados, sinos e laços a competir em número e cor. Detesto – e nem costumo -  engomar, mas deu-me algum prazer desfazer vincos e assistir activamente ao reaparecer de padrões estafados, mas que a minha alma de infância conserva e a que encontra beleza. Em minha casa antiga, era eu filha única, o breve do Natal eram mesmo os meus sapatos em cima do moxo pequeno, meu assento particular, feito e oferecido por meu avô. Não conheci mais chaminé que a do candeeiro a petróleo, mas todo o amor em que imergia, os braços e as mãos que sempre me acolhiam são sem tempo ou preço e valiam tudo que  o balsâmico calor da lenha a queimar nunca me dará. Mas tive em profusão. É farol que, em dias e noites de névoa, quando mal se vê nos longes, afirma o de sempre, “estou aqui. Contigo”.


sábado, 9 de dezembro de 2023

Embirrâncias

 

Sei muito bem porque me lembra hoje aquele colega do liceu que afirmava convicto, “eu, se fosse professor, logo no primeiro dia apresentava-me à turma e dizia, como nesta hora sou eu que mando, podem sair, dou  feriado”. Segui-o no completo. Logo à primeira, dei feriado ao calendário de natal. Suponho que os artigos dentro das caixas estejam piursos; e eu ralada.

Hoje, provavelmente, acordei meia adoecida, só pode. É que amanheci decidida a aprender a trabalhar com a nova máquina de costura. Nova, é como quem diz, comprei-a – é minha mesmo minha - há uns bons quatro ou cinco anos, se não mais. Digamos que, durante este tempo, lhe dediquei respeito integral: nem da caixa saiu. Podia ter defeito, estar avariada? Podia, a garantia estava finadíssima. Se eu pensava nisso? Nada. Sou do mais optimista no que respeita a maquinaria, creio a pés juntos e jurados que máquinas novas em toda a altura estão aptas ao trabalho. Tal qual. Portanto, gastei um bom par de horas a decifrar peças e estranhezas do objecto, olhos ora no manual, ora na máquina própria ela. Somando mais meia hora para aprender a encher a bobine com a precisão devida (meia hora, muita linha e imprecação), e outra meia para acertar com o enfiar correcto da linha, acrescentando 15 minutos para encher panos velhos de ziguezague e ponto corrido, perfiz a bonita conta de três horas e mais um tanto. Arre, que é burra mesmo (razão tinha o prof de matemática). Perco eu a manhã desvendando segredos de uma máquina, para depois coser o descosido em menos de dez minutos. Está visto que a “queda” para a costura me comeu os ânimos natalícios e nem um olhar lancei às ditas caixas. Estão aqui bem perto? Ora, quero lá saber.  

 

No início era o Verbo...

 

         O querer dos homens é até certo ponto previsível. É assim que, em dia incerto de Dezembro, me toma a febre dos enfeites natalícios. São dormentes de ano inteiro e quase à minha beira, sem a benesse de ponta de saudade humana, motivo para julgá-los contristados. Dou-me mesmo ao desplante de os sobrecarregar com caixas de outra natureza: roupa fora de estação, pormenores que fazem falta e depois não encontro nas gavetas habituais por estarem a pesar sobre eles onde, desmemoriada da pressa com que os enfiei na fila de adereços natalícios, jazem mortificados pela incúria que me pertence (tudo almeja arrumação de gaveta). E sobre este assunto muito haveria a dizer porque já comprei caixas em forma de gaveta, mas não consegui – até hoje – convencê-los de tal afinidade.

         Mais por dever que vontade expressa, trouxe algumas caixas que enfileirei lado a lado pensando no amanhã - hoje - para lhes dar a ver a luz do dia que, por acaso, acordou mortiço e mais anestesiado e mono que doente em bloco cirúrgico. Contudo, e só por desfastio, destapei uma ou duas caixas. E vi bolas de brilho recobertas por laços sem graça, amachucados de saudade. Acudiu-me uma pontada de remorso, estão ali entre 340 e 350 dias. É obra. Aguentam o aperto promíscuo e permanecem inertes e desmaiados até que as minhas mãos decidam dar-lhes a vida para que nasceram. Verdade, há vidas mais breves, insectos e flores que duram um dia apenas. Nós, humanos, duramos o que durarmos, mas fomos dados à morte desde o nascimento. Ocorreu-me que não posso mesmo descuidar objectos que apenas existem no natal. Talvez os laços que prendo no alto dos cortinados, em breve deixem de estar; talvez as cortininhas da copa e o folho da cozinha os acompanhem, haverá um dia em que o escadote me seja interdito. Mas, antes que tudo fique mudo e quedo, antes que as minhas mãos lhes faltem, hei-de desalinhavá-los de caixas, dar-lhes um toque de graça. Grande parte foi-me oferecida e assim me  rodeio de quem me gosta. Alguns já partiram, a outros a vida impossibilita visitas, mas nesta data estão comigo e espalham-se pela casa. Numa das caixas abertas espreitavam abas franzidas dos saquinhos que minha irmã confeccionou no primeiro Natal em minha casa. A minha querida S. batendo palmas e a pôr o dedinho para a mãe fazer o laço, e depois a mãe a içá-la para poder distribuí-los no interior do parapeito da janela. Não esqueço o seu encantamento com o efeito final, nem as vezes que parou a mirá-los enquanto a infância lhe durou, o orgulhoso “fomos nós que fizemos e demos à tia”. S. cresceu, fez-se uma adulta simples e linda e tenho um orgulho imenso no seu sorriso capaz de aquecer o coração mais empedernido (o avô tinha por ela um carinho especial). É certo que dos dois anos que tinha então, nada recorda; mas é com mesmo gosto que vou hoje - e sempre que o Natal e a vida mo permitam -, ajeitá-los na janela da copa, tentando repetir o seu gesto iniciático.

 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Desconforto

 

Aviso à navegação: hoje acordei cedinho, provavelmente por estar a subir uma escada difícil, em caracol e a que faltavam degraus. Os que existiam eram móveis – esticavam e encolhiam a seu bel prazer. Como em todos os pesadelos, tinha de subi-los, embora sem sombra de agrado; olhar os movimentos da escada já me impressionava. Portanto, desatei a abrir portas atrás de portas no rés do chão (acho que era estudante e ia fazer um exame ou assim, qualquer coisa com hora marcada) mas, para meu espanto, atrás de cada porta decorria um ensaio de teatro e todos me olhavam como se estivesse a interromper momentos mágicos; eu fechava a porta, sentia-me importuna e desiludia antevendo a subida da escada (que coisa!) e receava cada porta por abrir. A cena repetiu-se invariável, até que uma aluna me informou que a minha classe estava no primeiro andar. Foi simpática e levou-me até à escada que, perversa, aumentara a velocidade no movimento inesperado dos degraus e na distância que tinham os buracos negros entre eles. Compreendemos ambas que quanto mais eu demorasse maior seria a distância a saltar. Então aproveitei a maré e, sem aviso, saltei para o primeiro degrau que logo, logo, encolheria; mas já eu tinha pela frente uma distância considerável até ao próximo degrau. Calculei a exigência do salto e lancei-me no momento exacto em que o meu degrau desaparecia. Consegui. Do patamar, ela aplaudiu e fez-me sinal de retorno à aula de teatro. Olhei para cima e tive perfeita noção da dificuldade daquele mecanismo inexorável, que trabalhava contra mim num ciclo de velocidade progressiva que seria incapaz de aguentar. Portanto, acordei. E foi o melhor que fiz.

Dado estar numa de lamentações pueris, quem quiser passe à frente, que este post é mesmo desimportante. Vale-me ser estado passageiro.

Acontece que nos momentos em que deveria sentar-me num banquito e esperar que passe, por vezes, me apetece escrita desditosa. Então desembrulho o meu rol de queixas e quero lá saber do optimismo. Vou decerto recuperar o espírito natalício, nem que seja a fingir. Tenho - puro acaso -, uma prenda comprada, este ano não fiz sequer a lista. A amiga (creio que tanta desdita nos aproximou) vai-se consumindo dia a dia em doença irrevogável. Mas continua a ligar-me, sinto-lhe o esforço de comunicação e a solidão que a vai revestindo à medida que o poder de comunicar falha. Muitas vezes liga por engano, treme-lhe o dedo nas teclas, vê mal e não acerta. Se a visito, uma das minhas funções é clicar na tecla de atender e pôr-lhe o telemóvel ao ouvido. Desconfio que o tutor esteja demasiado afectado pela situação, parece-me que deprime à medida que ela piora; esta semana faltou-lhe, tem problemas com o automóvel, disse (não acredito). Um tutor que é amigo de infância porque não há familiar que se chegue, teve de ser um amigo a aceitar a tutoria. É casado, tem filhos já autónomos e de bom viver. Mas vive longe e, perante o progresso da doença, parece claudicar (por vezes encontro-o lá). Ela depende muito dele, dedica-se a quem mais a acompanha e tem nele a possibilidade de rememorar tempos em que se reconhece, ainda era ela. Parece-me natural. Linguagem a que não pertenci e não sei. Conheci-a à beira da doença, ainda íntegra e com outros interesses, ligada a outras pessoas com quem fazia grupo. Pouco sei da infância, juventude e até da maturidade. Falo-lhe de música - que não ouve por lhe dar dor de cabeça -, de livros, leio-lhe uma página ou duas em que faz questão (diz que prefere ouvir-me ler ou contar) e paro logo que lhe noto desconforto. Quero dar-lhe um áudio-livro de presente, mas não sei se poderá ouvi-lo. E é isto.

Desculpem a queixinha. Talvez este desabafo me destranque e amanhã inicie o Calendário de Natal. Quem sabe…