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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Inscrição

 

        Penso voltar, criar uma aberta, chegar a este porto de salvação e escrever. Mas só penso. Sei do assoberbamento e de quase não ser possível quando te tenho por perto. De soslaio, não vá eu embaraçar-te, reparo na juventude que te mora nas mãos longas e brancas ajudando-me na cozinha como ninguém. Moves-te familiar, faca sobre a tábua de corte, hábito que, cada vez mais, noto que te embebe. A teu lado, desvaneço por dentro no receio da tua perturbação e bendigo todos os momentos em que te quis sem saber de ti. Desejei-te com o inteiro de mim, prolongadamente. Propus-te a um parceiro avesso a mais noites sem dormir, e biberões, e fraldas, e doenças incógnitas. Por esses meses de insistência perseverante, olho-te sempre como se foras apenas meu – que não és, bem o sei; consegues mesmo a proeza de ter a mal disfarçada preferência paterna.

        Jamais me pareceu que gostasses de crianças e desta vez descubro-te na atenção aos sobrinhos, no saber como vesti-los e servir a refeição; no teu modo inteligente e sagaz de jogar cartas com o minorca, seis anos verborreicos que se te grudam como cola e calmamente refreias, ensinando regras sem impor - propões com humor, continuamente puxas por meninges infantis que, é indubitável, te admiram. Observo o jogo (eu que nem consigo conhecer as cartas) e vem-me a tua infância de infindáveis jogatanas com os primos; eram partidas cordatas, transpirando concentração. Hoje, dois adultos e duas crianças mantêm o estilo – fora os apartes educativos da tia e teus. A garota mais velha, de quando em vez, põe os dedos entre os teus caracóis sempre despenteados, um gesto terno que podia ser meu e a que dá gosto assistir. Sim, o minorca tem razão, ganhaste nova família. Mesmo. Vejo-vos e oiço da cozinha, e noto que não se esforçam por utilizar termos básicos, antes explicam as novas palavras que usam e repetem-nas várias vezes durante o jogo. Pergunto-me se faria semelhante. Se, em presença do minorca, não me limitava a simplificar a linguagem. Na verdade sou bem menos didáctica. Passa-me pela cabeça a ideia de que não fui grande educadora; e não devo ter sido. Mas a verdade é que, olhando-te agora, ninguém o diria. Grande parte foi trabalho teu sobre a genética. É verdade que manténs os  defeitos, mas aperfeiçoaste as qualidades. Parabéns, meu doce filho. Tanto amor e não consigo proteger-te. E, como o poeta, temo que tropeces numa gota de água. 

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Eternas Alegrias

 

        É verdade que envelheço como toda a gente: lembro melhor factos antigos (do meu tempo) que recentes. Mas a velhice da mente comporta nuances de ternura, apontamentos que nos comovem hoje na lembrança do que ontem foi e gera em nós perplexidade e incerteza: pessoas de antanho que não passaram, não nos morreram, talvez tenham, agilmente, saltado sobre a morte e pairem suspensos. Ou será apenas questão mais simples, como não soubemos da sua morte física, continuam vivos no nosso espírito. Tão vivos como os deixámos quando a vida assim exigiu.

        Vem este paleio a propósito da leitura que vou fazendo da Conta Corrente de Vergílio Ferreira. Leio o diário vagarosamente, como convém. Vergílio é mordaz, perpassa-lhe amiúde uma ironia fina e muito sua, mas, sobretudo, dá que pensar. Aprecio o escritor desde Aparição, o primeiro livro que li e julgo que por imposição escolar. Abençoada seja! Depois fui comprando outras obras aqui e ali, cada vez mais animada. Nunca a sua escrita me desanimou. Talvez as teorias existencialistas o tenham influenciado, mas o que encontro nele que me incentiva é o modo como escreve e imagina a dilaceração que se pressente nos personagens e suponho que sentia na vida – apesar de Vergílio sempre admitir a existência em si de dois seres distintos: o escritor e si mesmo. Em qualquer obra sua há o traço forte da realidade pensada, omnipresente, o vinco fundo da incompletude humana com todas as suas questões. Mais que resolvê-las o romance aponta-as no pleno de humanidade às vezes dolorosa, outras repugnante, outras quase terna na exposição de carências e estados que nos fazem o ser.

        Pois, mas o que me leva a postar sobre os diários é ter ontem encontrado, no ano de 1977, dia 10 de Agosto (suponho, tem várias entradas), um encontro em Galamares com os Serpa Branco que conhecera em Évora. E eu tão contente! Contente e orgulhosa. Foi como se o escritor dissesse que veio jantar a minha casa e gostou. Sabíamos tão pouco dos professores, nós. De Serpa Branco apenas corria que viera de Lisboa, era vegetariano e marido da professora mais querida do liceu, Beatriz Caroço. Galamares era-nos incógnita. Mas Vergílio escreve acerca da casa, “Em frente a serra de Sintra. Nítida, verdejante ao sol. De vez em quando, passavam nuvens em correria. Vindas do mar. A casa fica no meio de um pequeno jardim com uma pelouse de relva verde, aparada rente. Luz suave, e a cor, e uma flutuação aérea de tudo.” E quedei-me a imaginar o bem que o meu professor de psicologia ficava nessa casa por certo recatada e onde os filhos espraiavam (havia pelo menos um, Manuel Serpa Branco que testou a vocação religiosa numas férias exilando-se na Cartuxa). Desconheço Galamares, mas fiquei gostando do nome que já conhecia e me era tão indiferente como o trigo para a raposa do principezinho que Serpa Branco nos deu a conhecer.

        Que conforto saber que Serpa Branco e Vergílio foram amigos! Quase me senti íntima dos dois. E que sortilégio foi Évora na vida do escritor! Ali leccionou ao longo de catorze anos. Ali casou e voltou vezes sem conta em visita a amigos que fizera e foi deixando de encontrar, a cidade que conhecia a transformar-se. Não o conheci, não foi meu professor, mas Serpa Branco passou por mim e ficou. Ensinou-me a ensinar embora não tenha sido professor de didáctica. E, na hora certa, teve para mim as palavras, os gestos e as acções certas. Por mim, fica em Galamares até à eternidade que me pertence: não morre.



quinta-feira, 5 de junho de 2025

B-MAD

 

        Numa tarde desta primavera atípica - era a véspera do dia dos museus -, resolvi visitar o MAD (Museu de Art Déco). Não entendo a razão de tanta demora quando sei que me agradam os ingredientes deste tipo de arte. Mas pronto, lá fui até ao Calvário depois de uma prévia olhadela ao google maps que tem a virtude de indicar o percurso consoante o meio de transporte; pelo que sou muito grata à dita ferramenta.

        Ao invés do que me sucede quase sempre – lá diria Aristóteles que o necessário é o que acontece sempre ou quase sempre -, cheguei, sem premeditação, uns dez minutos antes da última visita guiada. Comprei o bilhete e já está. Por ser a única portuguesa, a guia dissertou em inglês. No problem, era inglês para iniciados como eu, com a vantagem de perguntar em português se não entendesse. A garota era jovem e principiante, estava um tanto nervosa. Mas portou-se lindamente, foi simpática e sabia a lição. No final, os falantes da língua inglesa deram-lhe parabéns pela boa pronúncia e o mais. No meu caso, agradeci o facto de ter respondido – em português - às várias questões que me suscitou a visita (sou um bocadinho chata).

        Pois é, o museu pertence à Bacalhoa que é como quem diz a Joe Berardo, e, no final da visita, houve prova de vinhos que recusei por tal néctar não ser do agrado das papilas gustativas que me pertencem. Pensam vocês que não entro no mundo do paladar divino e talvez seja verdade, de vinho desgosto e ambrósia não sei o que seja. Mudando de assunto: estou aqui a pensar, desconheço se os seis euros do bilhete incluíam a prova ou seria um extra. De qualquer modo, não provei nem comprei a bebida. Mas saí do Calvário completamente ressuscitada; não as pernas, não a mente, inteirinha, da ponta dos cabelos à ponta dos pés, ténis e tudo.

        Amei aqueles objectos delicados, originais e de desusado requinte. Candeeiros e lustres, os primeiros convidando intimidades penumbrosas e ciciantes em seus vidrinhos coloridos; os segundos, num apelo ao glamour intemporal da belle époque, afectivos polvos em abraço de beleza esfuziante, modelados em cristal e brilho. Perpassei, milimétrica, a elegância das peças de louça. Linda, a mostra-o jarra de Bordalo Pinheiro refinado e de chapéu alto, aligeirou o popular e surge de fraque, usa laço e talvez monóculo, faz-se citadino cingindo a si a bengala de castão dourado; e a sua obra não desmerece. Ali brilha um Picasso feito vaso, vários Laliques com sua ternura delicada e contundente a entranhar-se, imorredoura, na sensibilidade de quem os repara. 

        O MAD é uma viagem ao pormenor e pareceu-me muito feminino. Ou tão só uma homenagem à Mulher como nos sugere a amostra na entrada. Uma parte existe dedicada às bailarinas. Nela, as estatuetas das ditas senhoras abundam. E é admirar-lhes a elegância do gesto, a breve curva das mãos, o arco tenso do tronco, a pose de dedos, a leve asa de pés. Olhando-as, bibelots pequenos e frágeis, é impossível não as aliar ao artista que lhes deu o ser, de certeza com amor. Só é possível criar coisa tão fiel ao original, se esse trabalho reproduz o acto amoroso entre criador e criação. E ainda: existe uma sala dedicada à mulher, talvez seja um quarto ou o quarto de vestir, já não recordo. E é infinitamente feminina, tão bonita que apetece. Ainda que saibamos não ter hoje habitações onde caiba tal gineceu (talvez o mesmo que Virgínia Woolf referia como “um espaço que seja seu”), é agradável e até saudável saber que alguém o teve assim, repleto de pormenores delicados. Ou muito semelhante. Digo eu, proletária convicta a quem beleza das coisas atrai como a luz à borboleta. É que não haja dúvida, isto foi movimento de gente endinheirada, para aí uma burguesia que precisava gastar o que tinha e apostou no glamour estiloso. Parece que o movimento nasceu em França (bem se vê pelo nome, não é?), logo universalizado pelo interesse que suscitou. Explodiu, qual grito triunfal, entre os anos vinte e trinta do século passado. Está pois a fazer cem anos.

        Bom. Para finalizar: eu não diria que que o MAD é inteiro em Art Déco. Antes afirmo, daquilo que conheço, que mistura Art Déco com Arte Nova. O mobiliário não é todo de linhas direitas. Há várias peças (pareceram-me em abundância) que são pródigas em enfeites florais e também nas curvas tão sugestivas da Arte Nova. A Guia não o citou e pode nem ser verdade o que digo, amparo-me ao senso comum. Mas, seja um único, ou dois estilos, a conjugação resulta: é autêntica pérola. O próprio espaço, uma casa fidalga de dois pisos, cujo primeiro proprietário foi o conde de Abrantes, sofreu remodelações e passou por várias mãos; contudo, guardou a traça inicial e mantém originários pormenores, arquitectónicos e de natureza doméstica. Mas tudo isto e muito mais vos dirá o/a guia. E já basta para abrir o apetite.

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Beatitude

  Beatitude é o termo certo para o meu dia. Porque eu e a praia. A sós. Sem outro som que o das ondas (os pensamentos  evolvem sem um ai que os denuncie). E  um livro, um guarda-sol nas lonas, uma mochila a cair de velha, a cadeira que há tanto ano me acompanha, o meu chapéu variável. Horas maravilhosas.  Da areia macia  ao azul do firmamento. Da água que já mudou a tonalidade e é fria, mas de que retiro o sabor vivificante do contraste no corpo quente. E os mergulhos que me desanuviam e inscrevem a sensação de pertença a um meio que não é o meu. Dia tão de maravilha que, na volta, dei por mim cantando no carro. Anos em que o não fiz sei lá porquê, cantar é tão bom como rir. Também percebi que a falta do canto me fez esquecer excertos da letra de canções que supunha escritas em mim. Canções de juventude, escritas aos bocadinhos num caderno, minhas irmãs a colaborar, Bea, está a dar, e lá desengalgava para o caderno com lápis ao lado. Agora tudo se simplificou, basta ir à net.

Talvez seja semelhante à sensação que tem a Gracinha quando passeia em Matosinhos e a que chama felicidade. Beatitude é em mim sentir que a alma se espalhou pelo corpo inteiro e tudo é vivo bem estar. O mesmo terá sentido o apóstolo ao desejar permanecer, "Façamos aqui três tendas". Beatitude é, ainda agora que estou a escrevê-las, me parecer que vivi horas impossíveis de suportar. Que o bom tem essa extraordinária propriedade: é insuportável delícia.

E é isto. 

domingo, 21 de julho de 2024

Encantamentos

  Estava no mesmo lugar, tão calma e linda como ela só. Repito-me, mas em cada vez é a vez primeira no amor que lhe dedico. Não é entusiasmo, nem um agrado simples, é razão que aviva o meu ser mortal. Penso nela em todas as estações, lembro-a saudosamente em dias não; no estio,  anseio a leveza dos seus abraços molhados e marco no calendário os dias da semana em que a visito. Se me chega a insónia, apetece-me a simbiose única que mantemos e me alisa os refegos da alma dissipando nebulosas, nódoas negras e o mais. Como se já não bastassem os nós que vamos dando e nos enredam a vida, os anos trazem de presente mazelas que nos recordam o encurtar desmedido dos limites. Porém, na sua presença tudo mingua e se retrai a ínfima proporção. 

Contemplá-la do alto da escadaria é pura maravilha. Vejo-a e sou feliz por antecipação. Esperam-me horas e horas de prazer, por acaso - ou não -,  bastante monótono. Apanhar sol e ler - ir à água - apanhar sol e ler - ir à água. O que eu sonho com este repete, repete, repete. É um facto: trazer companhia tem prerrogativas e serve de interrupção. Mas a identidade do gosto cumpre a sequência.

Este ano a espera foi tão longa que nem olhei as árvores costumeiras, não notei as que morreram e mesmo mortas persistem na vigília, olham sem ver a fita de alcatrão, alentejana de gema no "sempre em frente" do caminho. Reparei nas cegonhitas novas e desabrochadas, armadas em donas da casa, olhando a mutação do mundo em quieta placidez. Para trás deixaram os dias de bico laranja em vê escancarado  e o novelinho que mal se enxergava a sustentá-lo, uma diligência de asas a rodeá-las em voos de cuidado. 

            As cegonhas da beira de estrada medem-me o tempo. Sei por elas se adiantei ou atrasei viagem. Perdi a avioneta da cura e a praia só mosquinhas e outros bichos microscópicos que conseguem fugir-lhe e chateiam pele e paciência fazendo teias em tudo que encontram, até na pala do boné ou no laço do chapéu; e mesmo nas nossas pestanas se o consentirmos ou adormecermos.  São pragas que a força dos químicos afugenta dos arrozais e tomatais e mais culturas em ais (provavelmente). Rainhas contra vontade, ordenam o que não pertence. E, heureusement, perdi os buracos no alcatrão, a estrada apetece. No meio do verde, um alto pinheiro morto, carregado de pinhas. Tão alto e tão morto. Talvez a morte também escolha as árvores. Imagino-a céptica e sinuosa, a mirá-lo, a sentir-lhe o orgulho de líder na altura impávida e frutificada. E ela vingativa,  indicador esquálido e determinante, este.

Porém, a morte das árvores é cada vez mais determinada pelos humanos. E há demasiada morte a fugir à contingência natural. A morte criminosa. Sofrida por árvores e homens, falha do respeito pela vida, doação inexcedível. Não lhe existe critério válido. Posta ao serviço dos vendilhões do Templo-Terra.


sábado, 11 de maio de 2024

No Museu

  Depois de uma semana horribilis, um prémio. Digo que uma tarde no  museu sabe bem. Sabe sempre bem rever o Museu Gulbenkian. Uma vez por ano cumprimentamo-nos cortesmente, que o laço não dá para mais. É um silêncio de luxo e luxuoso. De luxo porque numa cidade grande, cheia de gente apressada, quase toda abotoando a pressa de estar indo a lugar imprescindível, é, além de exigência natural, uma necessidade: enfim, um sítio silencioso, pacífico e com pouca gente (entendo bem o facto de uma certa criança que desconheço e muito cito, o ter declarado "aborrecente"). Luxuoso porque todas as salas são revestidas a mármore. Cal?! É quase uma obscenidade pensá-la ali ao vivo, que nos retratos está bastante bem tirada.  Mas é que nem tinta, nas paredes há mármore e mais a sua claridade (do que minha exclamativa tia, se a visse, contaria em casa, "tão clarinho! uma pedra fina de verdade, brilha que nem espelho". E digo eu agora, o chão compõe-se de  lajes que igualam as paredes.  Ou, talvez para não cansar os olhos da clientela, também pisamos madeira envernizada que não me pareceu aquilo a que se chama, vá-se lá saber porquê, "chão flutuante", até hoje não dei por ninguém feito nenúfar. Mas pode ser que haja. Efectivamente.

Paguei nove euros por uma hora de silêncio vogando ao sabor do percurso e a reparar em pinturas, tapetes, mosaicos, loiças, peças de mobiliário e mais que não recordo. Vale a pena. A Fundação deve ter empobrecido, coitada. Ou, como acontece mundo fora, fizeram maus negócios e agora as benesses que tínhamos, foram praticamente retiradas. Antes, entrava na primeira sala do CAM e embasbacava logo ali: não pagava; podia, sempre que me apetecesse,  revê-la. Depois, esperei que tempos pela retraite porque pagaria meio bilhete, e o desconto foi de 30% (os 50%, já tinham ido à vida). Agora dão-me 10% como qualquer FNAC ou Bertrand, ou talvez ainda outras livrarias. Conclusão, a fundação está pobre. Mas, por agora, isso não interessa nada porque cirandei por lá com o mesmo gosto. E portanto vi claramente visto o rei Filipe IV, nosso terceiro a quem recambiámos a de Mântua numa delicadeza ao sexo feminino, porque o Miguel morreu de morte macaca: defenestrado, imagine-se. Estive pois reparando em pormenor o excesso de brocados e transparências rendadas que ataviavam Sua Alteza. E do que li sobre, imaginem o que me ficou: a pintura foi feita um bocado à pressa, num estúdio improvisado, porque o rei, que se encontrava a combater a revolta da Catalunha, queria por força enviar a sua pessoa em tintas e trabalho de pincel a  uma missa que se celebrava em Madrid. Lembrou-me logo S. João Bosco (sou apensa a santos e igrejas) que, estando a dar uma aula, e tendo de se ausentar, disse aos alunos "tenho de sair, mas o meu chapéu fica aqui, vejam lá o que fazem". E eles que amavam o santo -  santos são pessoas muito amoráveis -, obedeceram. 

Graças em grande parte à revolta na Catalunha, tivemos a nossa primeira revolução (1640); a missa ganhou um retrato decerto exposto em pedestal;  e o rei, que não era propriamente um adónis, preferiu essa pintura a qualquer outra das várias que Velasquez executou de sua alteza real (não ficou mais bonito que nas restantes). Sobre o tipo de pincelada, as cores, a importância do fundo, o destaque dado aos objectos de poder e demais enredos desses, pouco sei. 

Conto o resto noutro dia, ok?

quarta-feira, 20 de março de 2024

Primavera

 

É oficial: chegou a Primavera, está anunciado em todo o sítio. Só os mais velhos, e ainda assim isolados, e ainda assim sem hábitos de tv ou jornais, só esses pobres não saberão, talvez,  que hoje chegou a Primavera. Nada de 21 de Março, ela chega a vinte e já está (parece que devido ao ano bissexto, mas eu cá não sei).  E há a natureza a refrescar-nos a vista, e a vida que renasce (e também termina, que isto de ciclos é engrenagem imparável) e há os pássaros cantores a inaugurá-la em trinados. E há.

Mas quero lembrar, sobre todas as possíveis, a primavera da vida. Essa. A que antanho já vivemos. Vem isto a propósito de me ter encontrado nas traseiras de um avião com uma Tuna de Lisboa, que tinha viajado a mostrar os dotes canoros ao estrangeiro. E não venham dizer que a juventude já não é o que era, que os jovens isto e mais aquilo, e que no nosso tempo é que sim. Porque só não era o que é, por questão temporal. Há no espírito juvenil qualquer coisa de perene e indefectível que nos deleita. Vivem como seres banhados de eternidade, num optimismo comum, porque o futuro é ainda e só possibilidade e portanto pode sempre ser alterado. Além do mais,  viver é urgente.  E não entendo o que mais gosto neles, se da gota de loucura, se das potenciadoras possibilidades que ainda não são e daí a leveza, se por em geral serem optimistas globais e irradiantes.

Estávamos, portanto, na dita cauda do aparelho, lugar bastante desaconselhável porque, como repisaram com bom humor, “cheira muito a acendalha”. E entre acabidarmos as capas e mais os instrumentos na bagageira – era uma tuna só de rapazes – e sentarem-se, foi aquela balbúrdia bem disposta e risonha que não difere das nossas, tão idas no tempo como inesquecíveis. E depois pronto, o comandante apresentou-se, a tripulação fez o seu número de chacha: ensinou a pôr coletes que estão não sei onde e máscaras que ficam suspensas se carregarmos num botão, havendo até o apelo à solidariedade para com a vizinhança caso seja aselha com o material. Tudo isto em impossíveis segundos, contando com o sair do avião que se despenha. Uma espécie de curso de paraquedismo sem paraquedas nem treino. É compreensível que a atenção se disperse.

Durante a viagem nada ouvi de saliente. Mas, à saída, os passageiros que compartilharam assento com eles sorriam bem dispostos.  É evidente que havendo maioria de portugueses, soaram as palmas para o comandante na aterragem. Mas os garotos fizeram a sua própria festa gritando exclamativos, assim é que é, João Fernando! Ou, João Fernando és o maior! ou ainda, viva o João Fernando! Está visto que o comandante João Fernando (nome fictício), todo ele solar, lhes agradeceu à saída. Porém, o melhor estava para  vir. Saí com eles e reparei que estavam já a combinar encontros para o dia seguinte. Tudo nas calmas. Eis senão quando, ao virar um corredor quase esbarrámos numa série de garotas espanholas que estavam junto da recepção de bagagens já cheias de sacos, uma senhora de meia idade a orientá-las, talvez professora ou funcionária. Elas formavam um semicírculo mal feito por via de tanta mala. Então, os meus companheiros de viagem, sem uma palavra, pararam em frente delas, puxaram dos instrumentos e formaram rapidamente um semicírculo feito a compasso de hábito e à distância de uns três metros. E tocaram e cantaram “A mulher gorda” às sorridentes meninas; parei também encantada com eles e a zeladora das privilegiadas abriu  para mim um sorriso de compreensão enquanto as suas protegidas se entreolhavam surpresas e sorridentes, num êxtase inesperado, rendidas à gentileza dos nossos rapazes (estou orgulhosa deles). Quando terminaram a canção, elas ficaram meio segundo sem saber como agradecer, mas logo uma avançou para eles, secundada por todas as outras. E era vê-las de braços no ar, pulando em direcção  aos lusitanos num ensurdecedor e ritmado, eh, eh, eh, eh, eh que encantou toda a gente e a eles mais. Eu e a zeladora, quedas e emudecidas, sorríamos ainda uma à outra. Ninguém disse palavra. Elas voltaram até às malas e eles guardaram o material e foram à sua vida. Ó maravilhosa Primavera!

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Senhora Minha

  Pouco me entretive a vê-la bordar e cedo aborreci aquele mundo: queria levantar a patilha da máquina quando não devia, ou pedia para ser eu a pôr o pé no pedal supondo - ó pobreza de espírito - que a máquina trabalhava sozinha e os pés ao pousar no pedal iniciavam o movimento. Por outro lado, desorientava-me tanto o frenesim da linha no carrinho que rodava continuamente, como a fria determinação da agulha que espetava no tecido esticado num implacável som de vingança. Saía para minha casa receando os malefícios da agulha e revendo a proximidade atenta das mãos dela que esticavam e ajeitavam o tecido junto à desalmada perfuradora. 

Talvez para ajudar no pagamento da máquina, cujo milagre se chamava prestações mensais, minha mãe decidiu  que me faria um bibe branco onde ela ia bordar a história da carochinha. Fiz um autêntico arraial. Não estava em mim de contente. Na altura, ela, muito paciente, mostrou-me a revista com os desenhos da história: lembro vagamente as antenas e sapatos da carochinha, as orelhas e bigodes de João Ratão, a igreja com uma cruz e as lágrimas saltitantes da carochinha-noiva, horrorizada perante o caldeirão aberto e fumarento. A história dava a volta completa ao bibe e dela constavam pormenores que o tempo levou.  Sobrou-me a vaidade de usá-lo e a confusão de ser tão rodado que parte do conto se perdia nos canudos do tecido. Relevo a sua arte no bordado e a boa e paciente recepção com que aturava as minhas repetidas inconveniências, ainda fizeste só isso?, hoje não fizeste nada, quando é que tu acabas. 

Entretanto, não sei como, ela arranjou um namorado. Eu não conhecia nenhum namorado e chaguei a paciência dela e de minha mãe sobre o espécime. Quando o rapaz tornou o caso mais sério e foi a sua casa, tive basta decepção, era um homem igualinho aos outros. Breve concluí que também eu precisava de encontrar um namorado. E já que tinha de ser um homem podia ser o rapaz que visitava outra vizinha e me pegava ao colo sorridente. A partir dessa altura a minha amiga crescida tinha um namorado; e eu outro. Nos domingos à tarde ela empapoilava: penteava-se com esmero, punha pó de arroz.  Eu surripiava-lhe o pente e dava um jeito na franja, já que ela nem me deixava tocar na caixinha do pó de arroz. E ficávamos as duas esperando os nossos namorados que não tardavam. Eu ia até à beira da estrada e gritava-lhe se o dela aparecia. Se o meu surgia primeiro, dizia a minha mãe, vem ali o meu namorado e desatava numa corrida, saltando o valado que separava os terrenos, a fim de chegar antes dele a casa da vizinha. Apesar da explicação que me chegou, e a que fiz orelhas moucas, fui proibida de incomodar a vizinha e de chamar namorado ao rapaz. Quanto ao namoro da minha amiga, a ordem era não me intrometer, minha mãe sabia zelar pela intimidade dos dois. 

         No que me pareceu pouco tempo, mas pode ter sido um ano ou dois, ela anunciou o casamento e convidou-me para "menina das alianças". Não fazia ideia do que fosse, mas achei extraordinário. Foi boda de pobre, caseira e sem esplendor. Mas a visão da minha amiga vestida de noiva foi uma das maravilhas da minha infância. Curiosamente, nada recordo do momento das alianças. Mas não esqueço - tenho uma foto  - que calcei luvas pela primeira vez e, na tal fotografia, tenho as mãos bem na minha frente, qual cãozinho amestrado que se põe de pé. 

(cont.)

domingo, 29 de outubro de 2023

Senhora Minha

             E já deu para entender que cresci um nadinha sob a sua asa. A primeira vez que dei pela sua ausência na casa paterna, fiz beicinho e acabei chorando o desgosto  no ombro de minha mãe. A falta sentida magoava-me o pensamento e nem consegui hipóteses que minorassem o desgosto. Com a doçura costumada, minha mãe deu fim aos soluços, vem à noitinha na carreira, foi aprender a bordar. Bordar - pensei - era serviço importante. E mais importante se tornou quando ela chegou num entusiasmo, podia fazer isto e aquilo com a máquina da costura que também bordava. Então enchi-a de curiosidade, és capaz de fazer uma folha? Ela assentia; e uma flor? E ela que sim;  e um burro? E ela dando fim ao estendal inquisidor: faço o que tu quiseres, mas primeiro tenho de aprender e comprar uma máquina daquelas. Comecei a desconfiar da aprendizagem.  Então, um dia inteiro longe de mim e ainda não sabia fazer nada?! Pareceu-me mal e fui para casa emburrada. Desinteressei-me dos bordados e só nos sábados e domingos voltávamos ao de antes.  Decerto num  desses dias conheci minimamente aquela a quem ela chamava "a minha patroa" ao que a mãe repontava, patroa, patroa! Não te paga um tostão, fazes o que ela manda, e ela é que arrecada; bela patroa, não haja dúvida. E ela, mas dança tão bem, mãe. Dança como nunca vi alguém dançar. E logo representei a senhora, muito vaporosa,  ensinando as aprendizes por entre passos de dança. Ora, não era bem assim. 

   Profissional de rua, vivia no hábito de dar conta de tudo. Portanto, fitei arregalada a minha vizinha que descera da camioneta da tarde. É claro que dobrei a esquina a todo o vapor. Fui dar com ela em casa, limpando os olhos ao lencinho de assoar e a fungar disfarçadamente. Perguntei porque chorava, e ela que só estava constipada e por isso tinha saído mais cedo. Não me convenceu e fui dar parte a minha mãe. Dessa vez foi a pressa materna a contornar a esquina, eu espreitando à porta e sem autorização de pôr o pé na rua. Afinal, soube por portas travessas - conversas adultas no tanque de lavar -,  a garota chorava "com a força dos nervos". A patroa e o subentendido patrão brigavam um com o outro a qualquer hora e por todo o motivo. Atiravam-se panelas e o que viesse à mão, chamavam-se todos os nomes feios que sabiam e acusavam-se mutuamente de terem amantes, coisa que nunca se apurou ser verdade para nenhuma das partes; diziam as más línguas que eram bastante desengraçados e ninguém os quereria. Parece que se entendiam e eram um, apenas dançando. E que esse lado belicista do matrimónio não era segredo para ninguém, excepto as aprendizes que vinham dos campos, ignorantes do imbróglio. Tal como brigavam e se odiavam com todas as forças no dia a dia, assim se acertavam nas noites de sábado e parte dos serões de domingo. Se ensejavam levantar-se, o mundo parava na Sociedade da terra. E, ainda mal pisavam a pista, já deslizavam leves como penas. Sei hoje que arrecadavam todos os prémios e eram famosos em qualquer modalidade, paso dobles, tangos, valsas, rumbas e etcetera: ao som da música, eram um só num só desejo: dançar.

           E eu, de birra, desertara dela; portanto, não vira o seu rostinho de chegar a casa senão no agrado de estreante; não soube sequer que calava o que via para não perturbar os progenitores. Para minha aflição, minha mãe demorou. Regressada, disse-me que precisava falar com os pais que ainda tinham pela frente mais umas horas de trabalho. E não adiantou. 

        Resultou de tudo isto que não voltou à mestra e algum tempo depois, como por milagre, a máquina de bordar apareceu em sua casa. 

(cont.)

quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Sugestão

  O outono ama ser precoce. Chega nas folhas que amarelecem, na aragem que desceu um tom, nos dias que encurtam a olhos vistos. Lento e inexorável, vai assentando. Já olhei a inútil tristura das calças sem sentir calor (pobreza dos que as não largam seja verão ou inverno) e começa a apetecer-me a ideia do tricot e dos programas de rádio. Mas não estou cheia de praia. Recuso a imagem de mar outoniço, não quero mudança na água nem que as gaivotas se assenhoreiem do areal e sobrevoem os banhistas, a posse gritada no vento. Quero ainda as águas calmas de ondas sussurantes e o intenso prazer da pele. A liberdade. E o azul, o profundo azul, o azul em cambiantes de céu e mar, esse mar por que morro ano inteiro e me ressuscita em cada verão. O verão que é de tudo e tão pouco meu, mas que, o quanto me pertença, é no mar que o viverei.

Cumpridos os protocolos a que a estação obriga, e mais aqueles que me estafam mas gosto, a praia foi ficando para trás. Portanto, passado o período de azáfama, decidi dar-lhe/me uma semana (na verdade apenas quatro dias). Grande ideia. Aproveitei os calores excessivos (isso mesmo) e fui, diária e contente, até à praia. Uma alegria. Bastava pensar que, desde a manhã ao quase noite, estava por minha conta, emigrava para o elemento que me faz sentir viva; e, a esta certeza, logo o bem-estar me alagava. Fui beneficiada por um conjunto de factores: tempo formidável (na praia corria uma brisa e estava muito menos calor que no coração amodorrado  do meu Alentejo), água na temperatura certa, livros para ler, e companhia umas vezes sim e outras não. E mais a presença de uma sereia que se baralha nas questões da lateralidade e portanto tive de ir buscá-la ao caminho - já seguia desarvorada e tonta no sentido oposto. Mas como valeu a pena. Fica-nos na memória esse dia de banhos e conversa.

Que despautério, como é que o outono se atreve a chegar tão cedo, as cegonhas ainda nem abandonaram os ninhos. Vazios, eles entortam como se a solidão lhes pese e esguedelham em desânimo que se nota da estrada. O reconhecimento desse vazio absorvente mergulha-me em melancolia e sinto que é chegado o tempo de guardar dentro de mim o caminho da praia. Ora, nada disto aconteceu ainda.

Este ano, a mente traz-me a vozinha breve de uma menina graciosa, um patinho posto em fato de banho de folhos. E trauteava, sozinha e em solilóquio compenetrado, um pedaço de cantiga (talvez ensinança de avó), "o mar enrola na areia, ninguém sabe o que ele diz...o mar enrola na areia, ninguém sabe o que ele diz...". Que doçura!

sábado, 22 de abril de 2023

Vogando na Brisa

 

Os anos sucedem-se em aparente linha de continuidade. Já chegaram as prolíficas cegonhas e preencheram todos os ninhos. Imóveis na manhã, guardam o horizonte, sapato de salto, meia laranja a dar no olho, vestido branco. Talvez tenha passado por elas na hora do serviço doméstico. Descansa-me a alma saber que voltaram. De repente, assalta-me o receio do costume, será que o nosso lugar (nosso, da família) ainda lá está, que está vago, que não mudaram as premissas de estacionamento. O tuga duvida sempre dos seus direitos em terra alheia, tão avezado está a que lhos retirem sem mais. Avanço, desdobro a curva. E descontraio. O lugar e a sombra fechada do pinheiro esperam-nos. Cumprimentamo-nos sem efusões, que isto de abandonar o veículo a uma sombra requer delicadeza no salamaleque. Invariável, suponho que os olhos da casa em frente já me conhecem e remoem, lá vem ela de novo, não há um deslarga-me que lhe dê sumiço. Faço de conta que não dou por tal, pego na tralha, firmo o chapéu, troco os óculos, fecho o carro e deixo-o de atalaia, nada de dormir em serviço; ele que não se esqueça de ser máquina. E vou reconhecendo o caminho pedestre que por estes tempos se vai alindando para o verão – aqui pintam paredes; além aparam sebes; ali limpam piscinas; acolá plantam flores ou varrem folhas velhas. Nos trabalhos de exterior imperam os homens, são apenas rapazes, alguns estrangeiros, alguns autóctones; há garotos (desconfio que só para mim são garotos) em cima dos telhados e jactos de água correndo paredes abaixo. Dentro das casas abundam janelas escancaradas e tapetes lagartando ao sol das varandas. Um corrupio de mulheres sacode, lava, limpa. Os proprietários virão em breve, talvez no fim de semana, para gozar da casa limpa e cuidada, do jardim bem tratado, da piscina em espelho. Sinalizando a azáfama, carrinhas de empresas de limpeza rivalizam pelas portas. São várias. Oiço o rugido abafado de aspiradores e o palrar das mulheres. Tomo o sentido da praia e atravesso relva bem tratada, varandas envidraçadas e com toalhas a secar, gente debruçada sobre notícias de jornal, e,  no súbito silêncio ensolarado, imagino risos de criança  a saltitar alegrias. Curvo para o passadiço e não me chega senão o leve invasivo das ondas  na areia perguntando afirmativas, posso entrar. Não avisto a praia, ainda é tudo sonho. Pergunto-me da cor da água, da qualidade da areia, pergunto. Subo os alguns  degraus e, lá em cima, faço o de sempre: paro em contemplação. Alívio. É já a minha praia. E todas as vezes são aquela. É neste embevecimento que entendo melhor os rituais religiosos: ausenta-se o tempo horário, palpito na duração do presente, participante directa do que me ultrapassa. O eu dilui-se nesse enleio e, em simultâneo, devém  mais agudo o apaziguamento: entra-me um espírito benfazejo que arrasa as desimportâncias de cume na vida ordinária. É um tu a tu de bem querer. Sem normas. Esta certeza pasmosa e tuteada é a toalha onde me deito. O resto é bem pouco. Ele são as horas de sol e eu inteira a sorvê-lo como quem acabou de atravessar o deserto sem cantil; são as pequenas atenções da areia cariciosa nos meus pés e tornozelos, as ondas de abril a festejá-los em impúdica frescura; são as efémeras marcas que deixo na areia e, na maré baixa, fazem a história das minhas andanças, quem sabe a água, na primeira vez, precise ainda dos meus pés e prolongue os sinais; é a serra deitada lá ao fundo, limpidez erguida em nítido recorte de curvas. A serra que é concepção de mulher langorosa, monumento da natureza, toda em terra e árvores e rocha. Acredito que, apesar de plangentes escalavrados e feridas expostas, cujos não saram e só aumentam, isenta de rancor, ela recomeça anualmente o ciclo da vida. Bendita seja.

 

terça-feira, 18 de abril de 2023

Vogando na Brisa

 

Possivelmente, nunca entenderei o que me liga à praia. Não às praias em geral, a uma. Nasci num meio pobre em água e jamais me foi dado o luxo do desperdício. O mar foi durante anos palavra sem correspondência directa:  “muita água salgada”, diziam-me. E o que me impressionava era o “salgada” e quem fizera a avaria de a salgar. Senhora de profunda crença, minha mãe respondia doce e lacónica, foi Deus. Eu insistia no porquê. E forçava, Deus estragou a água, não é? Do salgado sabia apenas a fortuita resmunguice de meu pai no seu feudo de protesto, o comer está salgado, não há mais nada? Portanto, imaginava alguidares muito grandes cheios de água  e a mão de  Deus a chover sal lá para dentro. E era isto o mar. Escusam de estar a pensar que eu sei lá o quê, porque nunca tinha visto barragens, ribeiras e muito menos um rio. O maior volume de água que conhecia era um fundo de poço espreitado mal a vez, quando, por insistência reiterada, minha mãe me pegava ao colo e ambas espreitávamos aquele obscuro mistério de silêncio e breu, avencas de um verde fosforescente a adejar poço abaixo.  Entretanto, meu pai introduziu-lhe um dado novo: os peixes.  E, inadvertido, deu significado a tanto sal – os das guelras só tinham  vida na água salgada. Ora pois. Estava explicado, não era uma maldade nem diversão pacóvia do Deus, ele salvava os peixes. Meu pai, um aguerrido ateu, garantia que morreriam fora da água do mar.  É claro que perguntei sobre a causa da morte, mas com frequência atirava-me assertivo “porque sim” que me embatia na curiosidade e desanimava o âmago. Foi bastante mais tarde que  a disciplina de zoologia  me esclareceu estas dúvidas existenciais.

Vem isto a propósito de, por mor destes dias de sede, ter feito a primeira incursão praística do ano. Saí antevendo campos verdes pintalgados de roxo e mais cores, como acontece quando a primavera se antecipa. Nesta época, o Alentejo está de apetite, e até as folhas novas de sobreiros e azinheiras lhes emprestam um brilho viçoso, noto-lhes certo ar rejuvenescido e mais penteado. É como se a primavera os componha, maternal.

Nada disto aconteceu. Os campos arremedam um fim de verão, amarelando por entre árvores desgrenhadas, numa secura de pasto que confrange. E há vacas pachorrentas com suas crias, imagino que recolhendo sobras de verde, pequenas hastes que despontam, cardos imberbes e matos recém-nascidos, virgens de toda a dureza. As vacas de quem estudámos a pança ou bandulho e o fenómeno da ruminação que a nós só cabe de mente (às vezes, demente). Decerto o período de ruminação delas também encurtou.

Não foi um bom prenúncio, observar o tão ardente desgosto da terra. Talvez fosse isso que me abrandou os ímpetos e o pé no acelerador; bom, foram também os incontáveis buracos no alcatrão que evitei aos esses pela via pública desde antes da Carrasqueira e mais seu cais palafítico. O carro respondia-me atónito às mudanças de direcção e só não de boca aberta porque as modernices me trancam dentro dele. Mas sempre que tinha de ultrapassar a minha faixa pespegava-se feito palerma a invectivar-me, que tomasse a direcção e tal e tal. Parvoíces de máquina. Uma pessoa a tratar-lhe da saúde  e ele feito mal agradecido. Ora esta. E, meio ofendido, estranhava-me, não bebeste, isto é o quê. Mas como é que eu lhe explicava, é que nem tinha tempo para tal. Deixei-o pensar o que quisesse e segui muito atenta à via. Usava os meus óculos de feira, que por acaso me ficam muito melhor que os graduados e fui obrigada  a trocá-los, pois claro. Mas isto são pormenores que não interessam nada.

(cont.)

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

O Bem e o Mal

 

De quando em vez, resolvo dar uma sacudidela nesta minha vida de alentejana pasmada. Num desses estremeços, lembrei-me de espreitar – de novo - os cursos do Corte Inglês. E é que me inscrevi e, pela primeira vez, fui seleccionada. Duplamente. Para um curso e uma conferência. O curso foge um tanto à área que prefiro, mas a conferência “O Bem e o Mal” foi tiro no porta aviões.

O conferencista era Miguel Real. Dele sabia apenas ser formado em filosofia e que escrevia livros. De acordo com a informação constante na breve biografia, o meu saber era muito restrito. Não li nada deste professor, não sabia a idade e julgava até que fosse jovem (jovem para mim é alguém à volta dos 40 anos; abaixo, estão crianças mais ou menos crescidas). Mas gosto de surpresas; portanto, não li a dita biografia e mantive a imagem, acrescentando-lhe mesmo um bocadinho de prosápia vaidosa.

Como sou nova nestas andanças do Corte Inglês - em boa verdade só lhe conheço as salas de cinema - cheguei a horas.  Chovia e o professor atrasou. Uma senhora capa de revista -  espécie feminina competentíssima, das que nunca desmancha o sorriso face a um cliente ainda que ele lhe peça a lua - dava o  aviso quando, ah, o professor já aí vem. E ficámos a apreciar aquela sorridente transpiração de elegância a fazer sala junto ao micro.  

Fui obrigada a concluir que o meu imaginário figurativo é um asno da pior espécie. O que nos apareceu foi um senhor velhote, três caracóis e meio arrelampados, como quem se perdeu na dispersão do vento e esteve vai não vai para voar. Um todo frágil que a voz não desmentiu e o fazia simpático. E depois aconteceu a magia que só alguns professores sabem criar, encantou. Encantou escrevendo no quadro que não prestava, esquemas que também não eram grande coisa. Mas encantou. E sou a melhor pessoa para escrevê-lo e não é a vaidade a comandar-me. O professor analisava o Mal ao longo da vida da filosofia ocidental e nada do que disse foi novo para mim ( a questão do Bem, para minha desgraça, já tinha sido esmiuçada em sessão anterior).  Levou-nos por caminhos que conheço, extirpando escolhos intectualóides. Mostrou-os mais límpidos do que os aprendi, consciente que dissertava para um universo não necessariamente familiarizado com as teorias. Era quase terno olhar os seus esquemas naquele quadro de nefasto minimalismo, tão desprotegidos que, por si mesmos, não eram quase nada. À vista disto, insinuava-se-me o impulso de ajudá-lo,  ir lá apagar-lhe o quadro, por exemplo. O bonito, o verdadeiramente belo, era o que sentíamos estar por detrás do que dizia e deixava entrever. Tinha algumas folhas de apontamentos que consultava uma vez por outra, como quem já não confia em absoluto na memória (quanto o entendo) e até se perdia um pouco nelas e delas. Nesses momentos, voltava-me a vontade de ajudar e ir lá procurar por ele. Mas foi de mestre a forma como encadeou as várias noções de Mal e o que nelas pôs de sua lavra. Ouvi-lo era sentir que havia no discurso dois tecidos. Uma trama primeira, forte e bem urdida, que não entrevíamos senão uma vez ou outra, por entre o que, na nossa frente, ia bordando.

E é claro que quando Miguel Real disse que ficava por ali pois devia estar perto da hora de terminar, já passavam trinta e cinco minutos. O tempo cavalgara veloz, sem que alguém desse por ele. No meu caso, esqueci completamente que sou um ser temporal, e ali ficaria longamente. Acamparia de vontade. Por certo me sentia como na situação das escrituras, quando, vivendo o indizível prazer do momento, um discípulo sugere a Cristo, "Façamos aqui três tendas..."

Aparte ligeiramente pateta (bisbilhotice): mais ou menos na minha frente estava uma figura conhecida ladeada, possivelmente, por mulher ou namorada. Lembrou-me um filme que vi, talvez “Amigos improváveis”, e em que pontuava um tetraplégico cujas orelhas – se não erro – eram a sua única fonte de prazer. Pois não é que a senhora esteve que tempos a manobrar com mestria a orelha da dita figura conhecida, que toda se derretia.  Digo-vos que baixei os olhos para o caderno, sentia-me a violar a intimidade do casal.

sábado, 19 de março de 2022

Meu Pai

 

Meu pai sofre de amor cativo pelas nossas laranjeiras. Desde sempre. Lembro-me do acidente em que partiu os ossos da bacia, da cama de tábuas em que permaneceu durante quarenta dias, da casa cheia de homens, uma vozearia a ecoar e garrafas de cerveja preta e branca que deixavam à beira da cama quase timidamente, boné na mão mal entravam. E lembro-me de, esgotada a quarentena, ter rumado ao hospital para a radiografia que daria razão ao médico ou a minha mãe. Partiu deitado naquela espécie de padiola, o amigo a desmanchar os bancos do carro para que coubesse. E sei que voltaram à tardinha, ele já sentado e minha mãe serena. E nunca esquecerei que saiu do carro e rumou ao laranjal que adolescia, a camisa branca alvejando por entre o vulto redondo e escurecido das árvores. Pernas ainda trôpegas de tamanha inacção, correu-as a todas como namorado, a respirar-lhes o perfume, feito apaixonado saudoso. E, enquanto elas maturavam, muita coisa mudou. A vida deu suas voltas. Crescemos.

Quando a doença voltou a fazer das suas, já sem minha mãe a cuidá-lo, foi obrigado a aceitar o hospital. Na hora da visita perguntava-me, as laranjeiras?, eu respondia, estão bonitas, este ano têm muita flor, a gente não as deixa passar sede. E quando regressou, na mesma hora deitou mãos à obra e começou a mimá-las.  Vê-lo com a enxada junto ao tronco de cada uma era de tal ternura e saber que comovia. Lembrava mãe que ajeita os lençóis ao filho antes de adormecer. Parecia até gostar mais delas que de nós.

Mais tarde, quando os netos recém nascidos, pegava-os no colo, embrulhava-os na samarra e ia apresentá-los às árvores. Mãos desajeitadas mas cuidadosas, mostrava-lhes o seu palácio vegetal; e os garotos, olhos de repolho em tanto embrulho, que pensariam. Quanto a ele, impava de orgulho: no rebento e no palácio.

Envelheceu. Custa-lhe andar, erguer os braços, falta-lhe a força. Mas vai ainda à visita diária. Cumpre o ritual. Tenho para mim que sempre lhes contou segredos invioláveis e a que somos estranhas. Gosta de arrancar uma laranja, descascá-la e comê-la logo ali. Sabemos onde pára, as cascas delatam-no. As ervas são altas e, onde passa, vai desenhando caminhos. Entre ele e as laranjeiras há uma relação de fidelidade e pertença mais impoluta que em casamento de amor crescente. Meu pai é ele e as laranjeiras.

Portanto, nada como estar à beira delas a celebrar o Dia do Pai. Não há melhor cenário.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Pé Ante Pé

 

Perpassas no silêncio que só o toque das agulhas quebra, o mundo parado lá fora. Perpassas sem passar. Continuamos. Contíguos. Ou afundas e és eu. Alteados de sonho e ignorantes da linguagem do tempo, demos as mãos. Dou conta do teu ser exaurido e exangue, as mãos húmidas do teu suor; e, levemente, te deito em pousio, aninho-te na terra cansada a que pertenço e sou. Aconchego-te a raiz com as minhas mãos de terra, rodeio-a de pó concavo, preparo-te para a água.  Talvez te recupere um pouco no trabalho de mãos que tem outros destinos e vou deixar por aí. Talvez permaneças em mãos alheias, dedos florescendo.  E espero - espero sempre - que em ti se cumpra a dádiva e em ti ocorra a redenção. E a terra que sou vai distender e ser suave e quieta como pertence.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Pé ante Pé

 

Se haja regresso da morte, se, promete que não me segues. Promete que não serás sombra nem luz, que não cristalizas na espera dos meus passos e não farás sobre eles o teu caminho. Promete que no impossível me dás a mão e ficamos lado a lado. 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Pé Ante Pé

 

Chuva.  Água que entranha e a terra recebe em agonia, boca seca, lábios gretados. Oh, sede infinita que te persegue, fado triste de seres deserto, o sol um fogo que tudo assola. E torra.  E desmaia. Pudesse eu, e carregava-te no colo até inexpugnável fonte limpa. Ali te daria de beber, te aspergia o rosto, te reclinava, modesta e mansa, em sombra fresca de aroma bravio. E para  te adormecer havia de modular em doçura lenta, dolente e tão prosaico, um cantar alentejano.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Era uma vez...

 

E tudo foi simples e se fez próximo nesse mundo feminino e palavroso, as vozes em crescendo. Pena a mesa angular que impedia visão comum. E é certo, o vinho instala espírito festivo. Alma e corpo distenderam com  a sangria, as conversas avivaram, os nós residuais de súbito deslaçados. As aias, voltando atrás no tempo, serviam-se mutuamente como quem está em companhia de tu cá, tu lá. E brindavam. Aos brindes faltaram apenas os versinhos antigos que faziam os avós, “vou beber este copinho com muita alegria, viva a nossa professora e mais toda a companhia”.  Mas os avós das quadras, que é deles. Hoje, elas são as avós. E talvez não façam saúdes rimadas e populares. Mas brindam. E a princesa ergueu o copo e fez tchim-tchim. Linda e alegre na sua serenidade comovida por via da festinha.

A degustação foi sem mistério e a contento. Pode mesmo dizer-se que acrescentou o espírito que as animava.  E depois, é de praxe, num almoço de mulheres, sobremesas são necessidade: o bolo húmido de chocolate, uma tarte que podia ser de leite ou limão, a sericaia, um bolo de natas. E talvez antes, durante, ou depois da doçaria, a hora grata.  O álacre ramo de flores que a princesa-professora recebeu de suas aias, as palavras bonitas que o coração ditou na hora e sem ensaio. E a professora comovida, uma irremissível e púdica lágrima logo disfarçada por dedos cúmplices; a lágrima a teimar, deixem-me escorrer, por que me cortam o caminho. E a professora a recolhê-la mudamente, os dedos falando por si, não, não; as emoções  não podem desaguar ao ralenti, somos os moderadores. E talvez que uma aia maravilhada, embevecida por entrever um coração numa lágrima que quer esconder-se e assim  se faz mais pura, relíquia que se guarda e reluz na memória.

E não foi de deitar fora a hora dos licores: de poejo e bolota. Tinham a ver, somos Alentejo, caramba. O de poejo, esmerado em sabor e álcool, agradou largamente. O de bolota, quase insalubre (como o fruto) e apenas doce. Sem explicação plausível, apesar da disparidade, os licores desceram festivos.

Da torrente de conversas e sugestões, ficou a promessa de repetição  – quiçá na primavera de 2022 –; uma reportagem fotográfica que, salvo a foto de grupo e uma ou outra a pedido, não foi notada senão quando a doce autora no-la fez presente; e a lembrança de era uma vez um almoço, guardada no cofre pessoal e identitário da memória.

Um Bem Haja a todas as participantes.

 Obrigada, Querida Professora.

Era uma vez...

 

Era uma vez um almoço.  E, como em todas as histórias, havia nele uma  princesa e suas aias. Seguindo o curso dos contos e as leis dos homens, umas lhe seriam mais próximas que outras, mas a todas queria bem. Algumas sabiam-lhe um ou outro gosto, juntavam-se-lhe em amenos passeios nas áleas do jardim, gostavam de a ouvir discorrer. Amavam o seu pensamento claro, os projectos, o enraizado amor à vida. Mas, sobretudo,  apreciavam a forma discreta e sempre elegante de dizer sabendo ouvir, a atenção que lhe merecia cada uma das companheiras.  Que as princesas de verdade treinam a escuta, faz-lhes parte da conversação.

Registe-se que o quotidiano da nossa princesa e seu séquito de aias seguiu a norma, cedo lhes veio o consabido tempo da separação. O castelo ficou para trás, cada uma escolheu ou foi escolhida por caminhos e trilhos que correu até ao fim ou arrepiou. E, em diverso passo, todas verificaram que pouco o homem escolhe e só as preferências do coração resistem à fugacidade. Quando resistem. Se. Ficou-lhes a memória. O único elemento que permanece e não pode ser sonegado é o ter sido. Hoje, serão outras de si mesmas. Mas jamais perdem quem foram. Os meandros do castelo que agora lhes surgem envoltos em pobreza acanhada, já fizeram parte do seu mundo de sonhos e pequenas raivas, animaram tropelias e amizades esfumadas e que, à época, se julgavam eternas. Era ali que a princesa moderna pisava e fazia mundo, sapatinho de salto e saia justa, impecáveis vestidos com gravata,  esbelta miss em invejada meia de vidro. Se o passado as visitava, as aias pensativas, por onde andará. E logo,  oxalá seja feliz. Cada uma relembrando seu episódio. Que a discreta princesa cuidava por suas aias. E em todas, qual perfume que não dorme,  morava o seu jeitinho exemplar.

Foi talvez desta base de gratidão e amizade respeitosa que a ideia brotou. Será porque a princesa regressada. Ou por amarmos o imutável de cada um e nela vibrar intacto, pedra de toque com o passado. Terá acontecido por força de reencontro com aia mais atenta. Pois que seja. A ela/elas devemos o almoço de era uma vez. 

Soavam as treze quando se juntaram num misto de confiança e estranheza, cada uma em busca de rosto que antes lhe foi próximo, desvendando detalhes que a  idade mascara, certa forma de olhar, o tom de voz, a linha do nariz ou da fronte, o riso. E a discreta princesa contente, revendo-se nelas; tão jovens  as de antes; e agora mulheres no outono da vida. Outras. De certeza, outras. Mas não completamente.

(cont.)

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Vida Contada

 

Voltar onde se foi feliz é tentação a que cedo com frequência. A mesma praia; os mesmos amigos; a mesma sala de cinema; os mesmos programas de rádio. Há um ror de anos, considerava-me moderna, arejada, aberta à sedução da novidade. Hoje, verifico o meu conservadorismo. É provável que tenha cristalizado o amor à terra e suas maravilhas; a preservação das amizades mais fundas; os meus amores mais intrínsecos e olorosos por quem me deixaria esquartejar, se necessário; e a minha impossível nuvem de sonho, liberdade que não há, mas quem/o que seríamos sem sonhos.

Portanto, a Gulbenkian. Lugar de pequenas maravilhas onde mais nos sentimos unidos ao mundo. A beleza ata-nos ao universo, puxa pelo melhor de cada homem. E quanto lamento que, neste país, o belo apareça tão elitista. Que o ensino nas escolas a não fomente a partir de um programa inteligente e sensível.  Que crianças e jovens não tenham a chance de a contemplar nas suas vertentes, ou dela beneficiem apenas e se, em sorte, lhes cabe professor que a preserve. É liminar, não se opta pelo desconhecido. Pode acontecer, mas o princípio aristotélico mantém-se, o que não acontece nem sempre nem quase sempre é excepção. Ora, o espírito de um povo não se forma nem modifica com excepções.  A cultura através da arte amplia o espírito: produz abertura e aceitação, flexibilidade mental e capacidade crítica. É minha convicção que, mais do que a filosofia para crianças, uma educação que preserve a beleza e a harmonia, que eduque o espírito para a necessidade do belo descerrando-o e trazendo-o à rua de todos os homens, fará mais pelo espírito crítico e dará melhores resultados. Claro que é apenas convicção, mera hipótese pedagógica.

Na Gulbenkian, sou sem passado nem futuro, uma espécie de reunião dos tempos, a fragmentação elidida pela harmonia. Apesar da malvadez da máscara, puro inferno no calor deste outono; apesar do meu cansaço que resolveu assentar arraiais naquele fim de dia e me espapaçar no conforto do lugar; apesar de ter fechado os olhos por uns bocadinhos e me virem frases desgarradas que não sei mesmo onde se formavam que nem parecia que vinham de mim, mas era no meu ser que se manifestavam. E portanto não houve qualquer epifania, mas tão só uma olímpica estranheza.  Ainda estou para saber por que raio só me vinham frases e qual a razão de as ter olvidado por completo (não recordo uma para exemplo). Ora, em meu entender, os enigmas pessoais não são de resolver, fazem parte dos mistérios de cada um. Acontecem. Deixemo-los pois entregues a si mesmos.

Mau grado as vicissitudes do regresso, trouxe comigo a esperança de poder repetir. Luz bruxuleando ao fundo do túnel. A espreitar-me. Que beleza.