Penso voltar, criar uma aberta, chegar a este porto de salvação e escrever. Mas só penso. Sei do assoberbamento e de quase não ser possível quando te tenho por perto. De soslaio, não vá eu embaraçar-te, reparo na juventude que te mora nas mãos longas e brancas ajudando-me na cozinha como ninguém. Moves-te familiar, faca sobre a tábua de corte, hábito que, cada vez mais, noto que te embebe. A teu lado, desvaneço por dentro no receio da tua perturbação e bendigo todos os momentos em que te quis sem saber de ti. Desejei-te com o inteiro de mim, prolongadamente. Propus-te a um parceiro avesso a mais noites sem dormir, e biberões, e fraldas, e doenças incógnitas. Por esses meses de insistência perseverante, olho-te sempre como se foras apenas meu – que não és, bem o sei; consegues mesmo a proeza de ter a mal disfarçada preferência paterna.
Jamais me pareceu que gostasses de crianças e desta vez descubro-te na atenção aos sobrinhos, no saber como vesti-los e servir a refeição; no teu modo inteligente e sagaz de jogar cartas com o minorca, seis anos verborreicos que se te grudam como cola e calmamente refreias, ensinando regras sem impor - propões com humor, continuamente puxas por meninges infantis que, é indubitável, te admiram. Observo o jogo (eu que nem consigo conhecer as cartas) e vem-me a tua infância de infindáveis jogatanas com os primos; eram partidas cordatas, transpirando concentração. Hoje, dois adultos e duas crianças mantêm o estilo – fora os apartes educativos da tia e teus. A garota mais velha, de quando em vez, põe os dedos entre os teus caracóis sempre despenteados, um gesto terno que podia ser meu e a que dá gosto assistir. Sim, o minorca tem razão, ganhaste nova família. Mesmo. Vejo-vos e oiço da cozinha, e noto que não se esforçam por utilizar termos básicos, antes explicam as novas palavras que usam e repetem-nas várias vezes durante o jogo. Pergunto-me se faria semelhante. Se, em presença do minorca, não me limitava a simplificar a linguagem. Na verdade sou bem menos didáctica. Passa-me pela cabeça a ideia de que não fui grande educadora; e não devo ter sido. Mas a verdade é que, olhando-te agora, ninguém o diria. Grande parte foi trabalho teu sobre a genética. É verdade que manténs os defeitos, mas aperfeiçoaste as qualidades. Parabéns, meu doce filho. Tanto amor e não consigo proteger-te. E, como o poeta, temo que tropeces numa gota de água.