Vejo-a
azular ao longe, por entre arbustos ramudos. Uma extensão de água. Podia ser
lago. Mas é ela. Distingo-a pelos matizes de azul. A nada me cheira excepto ao
ar condicionado sobre um quê de novo que ainda paira no interior do automóvel
ajudado por ambientador que me destoa. E o rádio. Que saudade das viagens de mim comigo mergulhada em silêncio
que apazigua. Um silêncio falso, cortado pelo motor, bom lugar para chamar
gente que acode e fica por ali a acompanhar. Entretanto, vou guiando a olhar a
paisagem, contente de mim e do que me parece a liberdade dos pinheiros sob o
riso ainda suave do sol. O caminho que leva à praia espreguiça-se na claridade que
galga e o mundo oferece-se morno e sem mistérios.
Atento
na realidade com olhos que não são os do volante. Reparo nos pinheiros, um tudo
nada empertigados, estar de árvore que o verão ainda não descontraiu. E o sol
armado em cusco, a enfiar-se pelos interstícios da terra. O sol apenas claro e
em brasa, nada de sorrisos cordiais.
Enfim,
a praia. Não me pertence, mas, qual canto de sereia, ali se agita a mesma força
viva: marulhar é o impulso ritmado e originário das ondas que vira feitiço e não se cansa
de chamar.