Paro no super para levar o pão de D. Elvira e, quem sabe, converso
com alguém, dou uso à voz que tanto me custou aprender. Que na companhia de
seguros é tudo profissão e cada um em sua secretária, eu numa e um garoto
novíssimo na outra. Dois planetas, cada um em sua órbita, pois claro. E nem sei que assunto podemos ter em comum, ele nos tempos
mortos vidrado no telemóvel e em chats de conversa e redes sociais e eu a
olhar para as moscas que nem sequer aqui entram, graças a Deus é um bom
gabinete, todo climatizado para impressionar a clientela. E “graças a Deus” é
forma de dizer, que foi a mira do lucro que nos deu conforto e modernice. Mas
olha, foi bom o senhor Almiro reformar-se e daqui a pouco já conto.
Vou levar umas peças de fruta e talvez uma alface e um frango
assado e, no imediato, descanso de refeições. Voltando ao assunto - isto
enquanto escolho umas pêras do oeste para embebedar lá em casa -, a verdade é que
só me senti sozinha depois da inesperada carta do Nuno. Um envelope gordo, transporte de três fotos: ele e a mota nova, muito mais bonita e potente que a
anterior; ele e uma miúda de olhos
claros num abraço, a meio de um jardim ou coisa que o valha; e os dois
sentados na claridade alegre de uma sala, no verso as únicas palavras da
carta, “a nossa casa”. Sem
remetente. Quando agradeci por sms verifiquei que, “não entregue”. Investiguei.
O número não existia. duvidosa de mim, repeti a operação vezes sem conta, de dia, de noite, à
tardinha, ao amanhecer. E sempre o mesmo recado estapafúrdio, o número para o
qual ligou não existe. E eu surda e cega, a apurar o aparelho auditivo o telemóvel em alta voz, mas não existe como, no mês passado
existia, existiu sempre, desde que me lembro de telemóveis que existe. Mas
depois caí em mim, engoli o desgosto afrontoso e emudeci com mais pontaria. E
tu, perdeste a língua, que cara é essa, parece que todos te devem e ninguém te
paga. Mas para quê dizer-te se tu logo, estamos tão bem as duas sozinhas,
Deus sabe sempre o que faz. E é talvez verdade, estávamos bem as duas, tu na
lida da casa e eu a ganhar dinheiro. Deus sabe o que faz, olaré. E havia as
missas de domingo e os dias santos de guarda, coisa que me lembrava logo a GNR mais
suas polainas prepotentes; e o senhor padre a conversar tomando-nos as mãos
como se nos sentíssemos os amigos que nunca fomos, eu a escondê-las nos bolsos
para que os olhos dele à procura no fundo dos braços e só a
dobra do bolso, toma que já almoçaste. E os vizinhos que vinham por conselhos e
pedidos de recados que a cidade não é logo ali, menina isto, menina aquilo; e o
meu rosto no espelho, tão sério como o da garota, palavra que tão
desinteressante como o dela mesmo não a conhecendo ainda, e talvez nem tivesse
nascido, mas já os meus olhos afeiçoavam idêntica reticência; e o que é que se
passa com as noites que de repente deram em crescer e não param de durar. E
enquanto tudo isto, tu a minguares dentro de mim, a ficares mais pequena, a
seres toda inteirinha dentro de uma caixa de fósforos. Por mais que te
estique de cabeça, ficaste mãe de pouco lugar. Inútil dizer-to. Sofrias. E logo te farias desentendida, qual caixa de fósforos qual carapuça. E terminavas, estamos
tão bem assim.
Desculpa, mas são quase as nove e meia, tenho o trabalho em espera. É só guardar as mercearias e já me vou à função.
Desculpa, mas são quase as nove e meia, tenho o trabalho em espera. É só guardar as mercearias e já me vou à função.