Pronto.
Desceu-me – finalmente – a adrenalina. A casa está mais ou menos no lugar de
sempre e perdeu a estranheza que a percorria de alto a baixo quando, desaparecidos os lugares fixos, arrumar era mudar de sítio.
Havia sempre gente ou objectos inabituais a procurar um encaixe, querendo, melhor
ou pior, passar a pertencer. E depois, não só a casa se sente estranha. Nós
mesmos zanzamos nela. Parece-nos outra, a que impa brilhos e odores. A
exibir-se, ela que é toda recato e discrição. E há risos e alegria que extravasa; e conversas cruzadas, os decibéis em
conta quilómetros, subindo o escândalo liso e branco de paredes boquiabertas,
oh!. Hoje, de tarde, a casa recompôs-se e voltou ao mutismo habitual,
recuperou os lugares um a um, as paredes relaxaram, libertas de cheiros culinários e gente. E cada divisão repousa em seu ser, julgo eu que contente.
Mas em mim enquistou uma melancolia fina, entrou-me um friozinho de alma quando acenei o último adeus e nos apertei no abraço final. Agora é tudo longe e separado. Madrid ou Lisboa, que importa. Ilumina-me a tua ternura cuidadosa. Guardo-a para os dias de cinza e pó, horas de vento bravio que tudo varre, momentos de gólgota que urge atravessar. Como contas de colar e muito mais que elas, conservo a meiguice repetida do teu indicador a rir na minha bochecha; a mão que me pousas no ombro se encostas à minha a tua cabeça; as tuas ironias ternas, implicâncias felizes acertando nos meus sonos irrisórios; o jeito casual se acaso referes o voluntariado em que te empenhas; as dicas carinhosas sobre filmes; a forma como pronuncias, mãe, e de que tenho uma formidável e ingente saudade que nunca te confessarei para não estragar. Sempre nos habituamos ao depois do Natal.
Na vastidão do mundo, Lisboa ou Madrid é aqui já ao virar da esquina. Macário de "O homem que matou o diabo" não foi de Viseu a Paris a pé? Claro que tinha trinta anos.
ResponderEliminarDeve ser um filho muito querido com a sua ternura cuidadosa, a bem de ver, todos são queridos e todos são diferentes - já falámos disso - conquanto que nem todos expressem igual. Mas alguns são mesmo especiais.
E conseguiu pôr a casa a sentir... e nós a ela!
Para os pais, todos os filhos são especiais. Mas há filhos que são pessoas especialmente boas e generosas. E, se ao menos um desses nos calhou...
ResponderEliminarAo virar da esquina... que interessa a vastidão do mundo se não haja por lá o que nos chame e tenha voz.
Mas é que as casas sentem-nos, Joaquim. E reagem aos nossos humores. São uma companhia, além de outras coisas.
Boa tarde:).
Olá Bea, passei para lhe desejar um feliz e iluminado 2022.
ResponderEliminarBeijo, muita saúde, para si e para os seus.
Obrigada, Teresa. E também para si e família. Muita coisa boa a acontecer em 2022.
ResponderEliminarFico contente por se ter lembrado desta vereda virtual.
Um beijinho
Muito boa a descrição dos sentimentos da casa. E concordo, a casa também sente, também emana energia.
ResponderEliminarPor essas e por outras, eu sempre quis ficar perto da minha mãe. Vivo a 1km dela. Do que depender de mim, não troco por nada.
Beijocas Feliz ano!
Também vivo a cerca de um quilómetro de minha mãe. Visito-a quando me apetece, mas o que em mim dela existe vai muito para além da imagem física, creio que seja mesmo um laço daqueles a que só a morte das duas põe fim e, portanto, somos companhia sempre. Ou, quem sabe, continuamos juntas na terra que nos guarda depois de tudo, mesmo que não seja a mesma terra a abraçar-nos o corpo. Acredito em amores assim:). Acho mesmo preferível.
ResponderEliminarUm abraço, Cláudia. Bom ano 2022. Que consiga fazer muitas coisas das que deseja e alcance pelo menos alguns dos objectivos que se propõe. E que a vida ou o acaso não lhe traga surpresas muito desagradáveis e, ao invés, a encha de coisas boas e vontade de viver. A vida, mesmo com seus desastres, é bonita.
As ternuras rebobinadas não têm o mesmo sabor, mas ainda bem que conseguimos esse recordar e que muitas vezes nos acalente. Bom 2022 com muitas ternuras reais e virtuais.Grande abraço!
ResponderEliminarObrigada, prosa. Não será o mesmo sabor, mas é um sabor único: é quando pensamos nelas que o sentido se ajusta e as cinta. Acontece comigo. As coisas boas que vivemos, se pensadas, tornam-se mais nítidas. Pensá-las é conferir valor, reconhecer.
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