Ora
bem. Hoje armei-me de máscara cirúrgica, passei uma fita no cabelo, calcei sapato
de salto e fiz-me ao super. Antes de sair treinei a máscara ao espelho e
pareceu-me razoável, dado que todas me dificultam a respiração. Chegada ao
parque de estacionamento, a parva da fita começou a deslizar. Puxei-a para a
frente, pus a máscara e fui buscar o carrinho de compras. Habituada a haver
pouca gente, nem olhei para a entrada. Quando me viro, oh, céus, havia fila. Lá
fui para o fim, cheia de inveja da colega que estava em primeiro lugar e nem me
reconheceu. Estava eu muito bem lá atrás de tudo – muito bem é como quem diz,
estive sempre a resmungar porque saíam muitas pessoas e não entrava ninguém, e
patati patatá. Às tantas, vou pela fita e está no chão. Atirei-a para o saco
das compras e acabei-lhe com a rebeldia (bem digo que não seguro nada). Ora eu
que ando sempre com um elástico a fazer de pulseira – posso precisar de atar o
cabelo – desta vez não me lembrei. E é claro que as minhas malas não têm nada
excepto carteiras, chaves, um saco suplente dos que se enrolam e dão um jeitão. Portanto, entremeei resmunguice com pôr o cabelo atrás das orelhas que é
aquela coisa fácil para pessoas com orelhas superiores, as minhas já estavam
ocupadas com a porcaria do elástico da máscara. Sai um senhor que faz natação
comigo, pessoa da minha idade. Aproxima-se e olha. Volta a olhar. Mas cruza-me
sem um aceno (tal não é o efeito da máscara). E nem foi pôr os víveres no
carro. Veio postar-se a conversar com o fulano que estava atrás de mim –
provavelmente a dois metros. Não me virei, mas creio que esteve a tentar
descobrir quem eu era. Como avançámos e entrámos, não sei se chegou lá (não me
apeteceu virar-me e, ué, olhe que sou eu).
E
maçãs e peras? Um bocadinho melhor. Mas pouco. Certo, já não fico a ver apenas o
interior da máscara, entre franja comprida e a subida ligeira do artefacto, há
uma nesga por onde espreito. Melhorou.
Entretanto,
vem uma mascarada na minha direcção. Eu, já vi estes olhos e eles conhecem-me,
ai quem é, ai quem não é. A desconhecida
familiar, olhos a rir, pois é, a gente assim deixa de se conhecer.
Eu, é pá, desculpa, eu sabia que te conhecia. E tal. Seguimos.
Garanto:
jamais olhei com tanta atenção para os olhos de toda a gente. Yai.