quinta-feira, 30 de abril de 2020

Trinta de Abril


Ora bem. Hoje armei-me de máscara cirúrgica, passei uma fita no cabelo, calcei sapato de salto e fiz-me ao super. Antes de sair treinei a máscara ao espelho e pareceu-me razoável, dado que todas me dificultam a respiração. Chegada ao parque de estacionamento, a parva da fita começou a deslizar. Puxei-a para a frente, pus a máscara e fui buscar o carrinho de compras. Habituada a haver pouca gente, nem olhei para a entrada. Quando me viro, oh, céus, havia fila. Lá fui para o fim, cheia de inveja da colega que estava em primeiro lugar e nem me reconheceu. Estava eu muito bem lá atrás de tudo – muito bem é como quem diz, estive sempre a resmungar porque saíam muitas pessoas e não entrava ninguém, e patati patatá. Às tantas, vou pela fita e está no chão. Atirei-a para o saco das compras e acabei-lhe com a rebeldia (bem digo que não seguro nada). Ora eu que ando sempre com um elástico a fazer de pulseira – posso precisar de atar o cabelo – desta vez não me lembrei. E é claro que as minhas malas não têm nada excepto carteiras, chaves, um saco suplente dos que se enrolam e dão um jeitão. Portanto, entremeei resmunguice com pôr o cabelo atrás das orelhas que é aquela coisa fácil para pessoas com orelhas superiores, as minhas já estavam ocupadas com a porcaria do elástico da máscara. Sai um senhor que faz natação comigo, pessoa da minha idade. Aproxima-se e olha. Volta a olhar. Mas cruza-me sem um aceno (tal não é o efeito da máscara). E nem foi pôr os víveres no carro. Veio postar-se a conversar com o fulano que estava atrás de mim – provavelmente a dois metros. Não me virei, mas creio que esteve a tentar descobrir quem eu era. Como avançámos e entrámos, não sei se chegou lá (não me apeteceu virar-me e, ué, olhe que sou eu).
E maçãs e peras? Um bocadinho melhor. Mas pouco. Certo, já não fico a ver apenas o interior da máscara, entre franja comprida e a subida ligeira do artefacto, há uma nesga por onde espreito. Melhorou.
Entretanto, vem uma mascarada na minha direcção. Eu, já vi estes olhos e eles conhecem-me, ai quem é, ai quem não é.  A desconhecida familiar, olhos a rir, pois é, a gente assim deixa de se conhecer. Eu, é pá, desculpa, eu sabia que te conhecia. E tal. Seguimos.
Garanto: jamais olhei com tanta atenção para os olhos de toda a gente. Yai.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Vinte e Nove de Abril


Estamos à beira de a situação mudar de Estado de Emergência para Estado de Calamidade. Entre as duas aprazíveis designações, venha o diabo e escolha (vistas por si, uma calamidade é pior que uma emergência). Muito desejo que a calamidade seja mais esperançável, ainda que o termo não rime com esperança. Ânimo, sempre é uma melhoria.  Amanhã saberemos, com certeza, os estabelecimentos que abrem e as condições de frequência; o que continua com restrições e que deve ser tudo; o que é proíbido; e onde beneficiaremos,  efectivamente, de algumas benesses. Ao que nós chegámos, chamarmos benesse ao vulgar do anterior quotidiano. Tché (txé?).
Uma coisa é certa, o contacto social vai ser de máscara. E já eu estou a pensar nisso porque não tenho corpo de segurar coisas. Na cabeça, como é sabido, os óculos não se seguram; tanto que gosto de ver aquele gesto feminino de segurar o cabelo com os óculos e nada. Na cintura, as saias e as calças descem-me, tenho que andar quase sempre atada de  cinto e o camandro; há-de ser por isso que saias com alças ou elásticos me dão jeito e gosto de suspensórios. Se uso collants, é a mesma jigajoga, tenho de segurá-los com uma peça de roupa que visto para o efeito (são-me avessos os malvados dos collants). Ora a máscara, não sei se acontece à outra gente (ainda não perguntei), mas, mal me inclino, sobe e tapa-me os olhos. Como só a uso no super, assim que penso em ver melhor uma pera ou uma maçã, zás, lá vem ela. E depois os avisos, se não leva luvas não pode tocar na cara; e não levo luvas. Portanto, tenha ou não apanhado as peras ou o que seja, sou obrigada a pôr-me direita e ela volta ao lugar. Depois, quando ninguém está por ali – vou na hora de menos movimento e as pessoas evitam-se umas às outras – faço uma escolha a priori, muito direita a focar-me na fruta, e lanço-me a buscá-la mais ou menos ao calhas (feita ceguinha). Na impossibilidade de evitar a atracção da máscara pelos meus olhos, amanhã vou experimentar outro tipo, há a hipótese  de ser defeito dela, não é? Oxalá. Amanhã uso o modelo cirúrgico.  E lá vou eu toda vamp para a sala de operações que é o super. Se me sucede o mesmo, para a próxima vou de óculos, sempre seguram. Tenho que vencer a máscara, dê lá por onde der.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Vinte e Oito de Abril


As séries inglesas conquistam-me. Talvez seja gosto sem causa. Detesto o clima, não sou versátil na língua e a única vez que estive em Inglaterra vi o aeroporto, uma igreja e pouco mais. Mas não consigo evitar, gosto de filmes e séries ingleses. Portanto, aconselho After Life, série que parece que já não é nova, mas foi para mim. Estive quase a desistir no fim do primeiro episódio. O assunto pareceu-me dramático, um homem muito apaixonado e a quem a mulher morre com cancro, está deprimido quase em grau dez (para aí 9.8). Gasta quase todo o tempo no portátil, atarraxado aos vídeos da mulher que os deixou sequenciados como percebi ao longo dos episódios, e faz a vida negra a toda a gente com que se cruza. Pensei, bolas, já estou para aqui perdida na emergência do vírus e ponho-me a ver este fulano, não sei se é boa ideia. Miguel Esteves Cardoso, quando escrevia sobre o temperamento português, afirmava que a gente de outros povos se está triste, vai ao bar e bebe uns copos, ouve música alegre, espairece. Mas a vocação nacional em modo de tristeza é ir ao fundo, ouvir música triste, fechar-se em casa e recusar saídas.  Resolvi apostar na mesma.
Não vou contar mais, merece alguma novidade. Tem muito palavrão, mas ditos em inglês fazem menos mossa; mete droga (fechei os olhos nessas partes); uma prostituta interessante; um emprego do mais rocambolesco e com alguns casos um bocado nojentos. Mas o personagem principal convence. É em simultâneo sarcástico e mau e tem um sorriso e umas tiradas  angelicais, de boa pessoa. A sério, é diversificada. Interessa aos adoradores de animais porque tem uma cadela; aos tétricos que gostam de cemitérios porque grande parte da conversa é num banquinho do cemitério; aos velhos porque há uma casa de repouso e mais a memória frágil de quem lá mora; aos drogados, porque também são assunto; e aos psiquiatras que ficam aqui um bocadinho mal vistos mas têm o seu quê. Ah, e outra coisa que aprecio, é gente normalíssima, podia encontra-los a todos numa paragem de autocarro ou apenas a andar rua fora.
Recomendo. Parece que ser de um tal Ricky Gervais serve de garantia.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Vinte Sete de Abril


Hoje fui arejar as meninges. Atrasei-me e já não era cedinho. Pelo que encontrei uma colega que se apressou a mudar de passeio um bocadinho antes de cruzarmos e eu, inconveniente, a perguntar-lhe pelos filhos que conheci tão bem, e ela a responder-me a três quartos (só um quarto virado a mim), certa contrariedade que se notava nos cabelos todos a virar, e o fracasso da voz a  fingir que não. E fui andando. Talvez eu seja mesmo inconsciente, perigosa, me faça ao vírus. Mas é que me apeteceu emperrar aquela fuga mal disfarçada.  
Depois reparei na mania das papoilas. Mania, pois. Uma extensão de campo tão verde, tantas irmãs por lá a flamejar e embirram nascer nas frinchas do alcatrão, sujeitas a que uma roda distraída as deixe espalmadíssimas que nem planta de herbário.  Ó ervas indómitas, que até parecem gente.
Por excesso de maquinaria e terraplanagem, não pus um pé na minha rua que não é minha. Alterei a rota. Boa! E passei por três pinheiros mansos de copa acolhedora. Reconheço que o pinheiro bravo é um bocado esgalgueirado e, como alguém da minha infância dizia quando falava de desproporção, é trangalhadanças (que palavra). Mas o pinheiro manso é todo redondezas maternas e sugestão, anda cá, experimenta-me. Transportaram-me à infância, quando, mãos dadas, saía com meu tio. Ele para minha avó, vamos ali, eu tomo conta dela. Minha avó, não a leves para cima dos pinheiros. E ele a piscar-me o olho e a assobiar baixinho, está bem, mãe; e a descansá-la, é só uma voltinha. Mas eu andava devagar e ele depressa se cansava de passos pequenos e me subia às cavalitas. Então, corria comigo pelo meio dos pinheiros a fazer de cavalo e a relinchar, parava bruscamente e eu que seguia de braços caídos e sempre a rir e falar, na espontaneidade do desequilíbrio deitava-lhe as mãos à cara e tapava-lhe os olhos. E ele, tira as mãos dos olhos do tio, assim não vejo e nunca mais chegamos ao esconderijo. Eu não sabia o que era um esconderijo, mas ficou-me a ideia de ser alguma coisa secreta e em cima de uma árvore. Meu tio adorava livros, perdia-se a ler e minha avó tirava-lhos da frente na hora das refeições. Já não sei precisar o que fazia de determinada árvore, previamente escolhida, um esconderijo. Só ele saberá como o construía. Sei que deixava lá alguns livros e que só nós dois sabíamos que existia. Foi a primeira pessoa a confiar-me um segredo.  E lembro-me de subir os pinheiros comigo às cavalitas e de estarmos os dois lá em cima onde breve me aborrecia porque ele ensimesmava na leitura e não respondia às perguntas que me nasciam, e tinha vontade de xixi, e queria descer.  E meu tio, ó miga tu és muito chata, assim não te posso trazer ao nosso esconderijo. E quando voltávamos, eu, imperturbável e incisiva, defendia o nosso segredo.
E foi isto. Aquele trio de pinheiros acordou lembranças antigas, os pés fazendo caminho.

domingo, 26 de abril de 2020

Vinte Seis de Abril


Nos últimos dois meses o youtube fez-se companhia de muita gente. Nunca o usei tanto. Já me deu conversa interessante, possibilitou ver gente que me é cara, uns por este  motivo, outros por aquele. E ainda me oferece filmes. Sou um bocadinho esquisita com os filmes e ele, Youtube, ainda não acertou completamente no meu gosto. Lá chegaremos. Entretanto, há filmes que não passam dos primeiros cinco minutos; os que aguentam quase meia hora finda a qual os ponho na rua amaldiçoando o tempo perdido; outros chegam mesmo aos sessenta minutos e aí estou possessa comigo por ter perdido uma hora inteira.
Mas hoje vi um filme completo.  Cheguei ao fim, the end. Proeza. Escolhi-o pelo título, “O violinista que veio do mar”, e só no início reparei que tem duas actrizes de que gosto bastante, Maggie Smith e Judy Dench. É um filme fácil, tem uma personagem muita autêntica e com alguma comicidade  e é servido pela beleza bucólica da paisagem e a solidão de duas irmãs, velhas senhoras que recolhem um náufrago. É também um filme sobre a velhice e sobre a vida numa aldeia e os contrastes com a cidade.  
Estou em vias de me  reconciliar com as ofertas do Youtube.

sábado, 25 de abril de 2020

Vinte Cinco de Abril


Há 46 anos os problemas rodeavam-me, mas a juventude tudo supria. Alheia à política do regime, não esperava aquela madrugada, nem o dia inteiro e limpo tão ansiado por Sophia e vários outros. Ao invés, o dia caiu vertical sobre a minha inépcia ignorante. Completo e inteiramente novo.
A rádio que ligava desde o acordar não me contou coisa alguma, tão apostada estava em divulgar marchas militares. Na escola, menina obediente, fui sentar-me na carteira que me pertencia mas ninguém apareceu, nem colegas, nem professores. Julguei, claro, que o primeiro professor nos dera feriado e continuei a esperar pelo segundo, senhor da minha preferência, e que nunca faltava. E foi aí que me informaram, depois de bocas abertas em O, como é que inda não sabes, Ó, que tinha havido uma revolução em Lisboa. Ó.
Nos dias seguintes, só novidades: MFA, sigla a que não descortinava significado; comícios; regresso de presos políticos, que nem eu sabia que existiam; o V de vitória que toda a gente acenava como um cumprimento e não se parecia com nenhum gesto conhecido; Mário Soares e Álvaro Cunhal de braço erguido e a fazerem uns gestos de que  até duvidei por me parecerem violentos. E muito mais, uma pessoa não se torna democrata sem mais nem menos. Porque, embora seja fácil a quem não é nada passar a ser alguma coisa, tive de aprender o léxico. Aprendemos todos.
Creio que a Liberdade se me plantou na alma e foi crescendo por si, sem que eu interferisse. Não frequentei comícios, pouco me importavam os revezes da política, não me prendi especialmente a um político e menos ainda a um partido. Mas estremeço à voz do Zeca a cantar a Grândola, à figura querida de Salgueiro Maia, à alegria da multidão no Convento do Carmo e a Francisco Sousa Tavares genuinamente satisfeito com a novidade que anunciava ao megafone. Tanto, mas tanto que me deram esses homens e a massa de gente que lutou na sombra e não conheci. Não fiz a revolução, desconhecia tudo dela, ninguém me elucidara o olhar. Mas que prazer foi ensiná-la em casa e na profissão. Na verdade, profissionalmente, nada mais tentei do que passar o testemunho do seu valor fundamental: a Liberdade.
E oxalá a semente nunca se perca.


sexta-feira, 24 de abril de 2020

Vinte e quatro de Abril


No dia em que o presidente dos USA ultrapassou o meu inconcebível, juro de pés juntos, aquela cabeça só tem caca de galinha. E raro vi resposta mais adequada e consensual que a do médico que foi presidente do Conselho de Ética. Nem vou falar da emenda tão semelhante ao soneto. Não gasto mais palavras com aquele ser.
Prefiro falar do 25 de Abril. Ou seja, das comemorações. Dizer que aqueles discursos pomposos dos senhores que mandam rodeados dos que já mandaram e mais de outras figuras consideradas importantes, pouco dizem ao resto dos portugueses. Se querem comemorar - com máscara ou sem ela -, façam-no. É cerimónia deles e para eles. Ao país, e sobretudo ao povo que tanto se alegrou com o fim da ditadura, não acrescentam. São quem são.
O povo, esse, há-de estar a ouvir e acompanhar - os mais velhos com certa comoção que lhes embarga a voz - a Grândola Vila Morena, tão bem cantada por um monte de portugueses confinados. Isso é que sim. Ou pelo Zeca. Ou a lembrar Salgueiro Maia sempre tão esquecido nas andanças politiqueiras.
Veremos.


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Vinte e três de Abril


Vou falar-te das manhãs em que saio de casa e a névoa se levanta sobre o mundo. Primeiro, o sol desfoca. Depois, de pouco em pouco, o ar materializa-se, aqui e ali vogam bocadinhos de nuvem ainda desligados.  Leves, quase transparentes.  Desloco-me sem ruído, atenta à concentração da natureza que, em minutos, junta  milhões de gotículas. Numa cerca de ovelhas, a impavidez animal retoiça alheia à exalação sagrada das gotas; um cordeiro bale sobre a finura nervosa das patas. À medida que o nevoeiro se firma, a realidade esbate contornos adoecidos lutam por subsistir, as ovelhas antes nítidas são agora novelo oblongo que dilui em novelo maior. Lá à frente, espessura de nuvem. O vapor desmaiando em gotas que se abraçam, não me aguento. Por todo o lado o fumo branco colou nas coisas e no olhar, pestanas húmidas, certa frescura molhada no rosto. Avanço, avanço sempre,  “não sou digna da tua morada...”.
Talvez o mundo não haja. Talvez sejamos apenas eu e a névoa em pertença litúrgica. Numa fissura do alcatrão, duas papoilas-bailarinas erguem-se em fina haste e o recorte da frágil saia sobrepõe. Efémeras e inodoras. Lindas, dirás tu.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

Vinte e Dois de Abril


Utilidade é termo que não tem glamour, soa a uso prático, coisa sem poesia, a  recordar aspiradores, vassouras, desentupidores de canos, martelos e mais uma série de objectos, alguns barulhentos. Fazem-nos falta essas utilidades que, ainda nem bem  morreram,  já nós encontrámos substitutos. Pois eu tenho saudade a ser útil, insignificância que me caracteriza e nem distingo se inata ou adquirida. A utilidade é nome que também me pertence e não se satisfaz em campo próprio.  E hoje foi assim uma manhã de ser útil. Confeccionei um prato a contento, com direito a sobremesa e tudo. Depois, um pombo-correio fez o takeaway.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Vinte e Um de Abril


A questão dos refugiados e migrantes infectados com covid-19 amarfanha, desola e é impossível evitar certo odor de má consciência. Bem podem ministros e secretários vir dizer que “estão a ser tratados como qualquer cidadão português”, coisa que nem entendo, um sistema de saúde democrático, e mais em caso de infecção por covid, tem mesmo é que tratar todos da mesma forma. E tais declarações parecem-me preconceituosas. Desnecessárias. A obrigação dos Serviços de Saúde também é zelar pelos que trabalham no país.
Talvez a necessidade de tais afirmações venha de trás, das condições que lhes foram dadas e em que vivem por cá; da higiene que falta; do dinheiro que escasseia e obriga a poupanças indevidas; de serem invisíveis para nós e mais se unirem entre si. Talvez, digo eu, de, afinal, na saúde, não serem tratados como qualquer cidadão português.
Somos um povo muito condoído. Mas só às vezes.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Vinte de Abril


Hoje comecei a ouvir o programa de sábado, dia dezoito de Abril: “A Força das coisas” que presta  homenagem a Luís Sepúlveda. Digo comecei porque me noto vezeira em ouvir e ler tudo a prestações. Eu que lia por atacado e devorava livros, leio cada vez mais devagar e tardo a terminá-los, não tenho pressa. A última página, em  casos de preferência extrema (que quase não me acontece), até desejo que não chegue. Mas, genericamente, o fim deixou de me importar. Lamento que assim seja. Tenho saudade à sofreguidão que me possuía por ter um livro por desvendar, ao interesse com que vivia as aventuras e desventuras dos personagens, a seguir viagem a seu lado, pés doídos ou encantados do caminho e alma cheia de mundo. Desligadíssima. Já não sou essa. Mas gostaria de lá voltar. Os filmes, via-os de cabo a rabo sem pestanejar e podia sofrer uma invasão que não daria por ela. Saliento que, nas salas de cinema, um bom filme ainda me isola e sou eu, um eu que é espírito, não pensa em pernas ou braços e nem tenho certeza se o corpo não me imigra. Portanto, é um pulsar de mim e dos actores. Pois nos filmes caseiros também é quase tudo a prestações. Conseguindo uma chama de interesse, abandono-os a um terço, vejo-os como se sejam uma série, em duas, três, quatro vezes. Mas isso nem é tão mau. Se pressinto que há por ali impasse ou que morrem as pessoas por quem torço – é que nem precisam de morrer, basta que pense nisso –, abandono. É claro que, por tais razões, há vários filmes e até séries que deixei a meio. Podem chamar-lhe mania estúpida, é mesmo uma mania estúpida. O pior nem é que não chegue a conhecer a trama por inteiro e tal. Preocupa-me é não conseguir mesmo vê-los. Sou incapaz. Aconteceu-me isto com a série de que toda a gente falava, “A casa de papel”. Tornou-se insuportável desde que me convenci que determinado garoto, já nem sei quem, ia morrer.
Bom. Mas eu vinha também contar de Luís Sepúlveda, ainda na adolescência, fechado numa biblioteca  a ler (roubou a chave, fez uma cópia e ficou lá a ler). Ele e os livros. Felicíssimo. E disso lhe ficou uma memória inesquecível.  Talvez fosse uma biblioteca bonita. Ou não. O que é seguro: tinha muitos e variados livros. Na minha infância a biblioteca era o carro itinerante da Gulbenkian que vinha mensalmente e só deixava levar seis livros. Os volumes eram todos muito usados e sobretudo havia livros de aventuras: Os cinco, Os sete, Um Guilherme que era levado da breca, Umas garotas de um colégio de Santa Clara. E alguns romances.  O senhor que conduzia e também emprestava os livros fartava-se de mim por mexer em todos os volumes e nunca mais ir embora. Todos dizíamos, a biblioteca já chegou. Ou, olha já lá está a biblioteca parada. Ou ainda, o homem da biblioteca diz que hoje só fica meia hora. Enfim, eu julgava que a biblioteca era aquele carro com prateleiras e livros. Podia ser pior.

domingo, 19 de abril de 2020

Dezanove de Abril


O domingo fez cara feia, carregou-se de vento e nuvens que adensaram. E puxa-se um agasalho, vai-se por espessura de meias, fecham-se portas à intromissão de sua excelência a corrente de ar. Agora, por entre anunciadas negridões, rompe uma claridade, um até amanhã de sol que se esconde e dissimula, à semelhança de gente que nos mira por detrás das fitas da porta, ilusão de quem vê  e não quer ser visto.
Ligaste já o dia passava do meio. Conversámos sobre nada, que o covid nos deixa sem outras notícias que ele e recusamos o tema. Mas as pessoas são deveras surpreendentes. E talvez a surpresa até tenha propiciado certa ondulação ao meu domingo. Muito senhora do teu nariz, conseguiste surpreender-me 
 - Passei a quaresma toda em penitência, não comi um bolo, uma coisa doce sequer.
Julguei ter ouvido mal, não te sabia religiosa, negaste-te a batizar os filhos, nada de catequeses, igrejas. Das pessoas que foram educadas por religiosas é as única que conheço que detesta a religião católica em bloco e chegas a ser impiedosa nas tuas afirmações, como se haja em ti irada queixa de fundo punhal. Portanto, frisei 
- Disseste penitência ou dieta?
E tu
 - Penitência.
E eu meio gaga,
- Mas então…então tu que ainda criticas a professora primária que nos pedia sacrifícios no mês de Maio…
E tu logo, prontíssima,
- Isso era outra coisa - e num ápice, como quem faz um pleno indesmentível e cala todos os ses - e olha que me custou bastante mantê-la com a quarentena. Fizemos as duas, eu e a S.
E ouvi-me
 - Parabéns!
 Incapaz de lhes retirar a estranheza (aos parabéns). Eu a lembrar o filósofo e as críticas à igreja católica, aos sacrifícios de jejum e abstinência  (que te irritam) contrapondo que são cumpridos para servir o sujeito e não a Deus, é o homem que deles retira benefício; que, no fundo, o seu intento é sempre e apenas terreno e humano.

sábado, 18 de abril de 2020

Dezoito de Abril


A paisagem mudou.  Não existe nas ruas de antes o ruído de conversas e o rodado de automóveis é tão esporádico como no tempo em que, nos intervalos de passarem, brincávamos às casinhas no meio da estrada.  Desapareceram os mil sons buliçosos no fundo das horas. Entre olhares que se cruzam assegurando distância, e o antes de descansarem parados à conversa a perguntar por isto ou aquilo, há um mundo de permeio. Sem permeio. Saíu-se de um para cair no outro. Abruptamente. Entretanto, o covid virou assunto, em tudo fermentou. Os desejos de boa saúde; os infindos vídeos que se enviam para cá e para lá; os conselhos que se partilham mil vezes porque as pessoas estão tomadas de uma loucura benévola que as faz clicar e já não sabem o que enviaram a quem; e repetem; e voltam a repetir. O que me lembra certo colega que, cansado de receber os vídeos que ele próprio tinha enviado, alertava todos os contactos “atenção, não me mandem mais de x, y, z que receberam de mim (recebi um).
 Mas, tal como o covid não elimina outras doenças que se mantêm, quiçá a matar mais, serviços de saúde alocados a sua majestade o vírus e o receio dos doentes em frequentar centros de saúde e hospitais dão o seu contributo; assim permanecem subjacentes queixas de amores não correspondidos, desgostos entre correspondências amorosas com canais entupidos, perseverança nos impossíveis. Não se foge à vida. Mesmo confinadas, as crianças continuam a fazer birras, brincar, sorrir e protestar; os velhos acomodam-se cada vez mais ao sofá e à tv; e o resto da população activa vai fazendo pela vida dentro do casulo. Uns trabalham, outros retomam hobbies abandonados, viajam pela net, livros, filmes e séries. Nunca houve tanta gaveta arrumada, tanta organização no roupeiro. O ponto é que a ordem talvez não seja meta humana, não esta ordem anti natural e sufocante.
Pensava eu com vagar em tudo isto, soa o telefone. Não reconheço a voz. Identificas-te. À minha alegria surpresa respondes, fibroma pulmonar, doença difícil, poucos anos de vida. E ao meu quase silêncio afirmas-te mais confinado que os outros, preparas a reclusão final; dizes com sorrisos na voz que agora não tens dores, usas pouco o oxigénio, te passeias dentro de casa e ajudas nas tarefas domésticas.
E eu que antes pensava…

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Dezassete de Abril


Era uma vez a Feira do Livro de todos os anos. Na tarde de sol e nuvens, os jacarandás espreitavam o movimento, encanto de braços dançarinos segurando pinceladas violeta, nuvens lilás em desmaio etéreo num chão de procissão. Pés contritos faziam-se leves, enquanto uma ou outra flor presa na mochila, escondida no saco de livros, emoldurada em nicho de cabelos. E, numa vibração, o cheiro bom da primavera.
Eu tinha visto o nome e a localização dos autores que estavam na Feira. E Luís Sepúlveda estava. Gostava dele. Tinha lido dois livros. Levei o mais leve. Fiquei na fila a olhá-lo. Parecia-se com qualquer pessoa, foi simpático, sorriu. Além do nome, perguntou-me o que fazia e depois sorriu melhor. Gostei de estar ali, senti-o próximo e bem humorado. Deu-me o autógrafo pedido. Atrás de mim, uma colega  embeveceu com o autógrafo que lhe coube. Mesmo ao lado da assinatura, o desenho de um gatinho.  Era uma colega nova, bonita e, orgulhosa de si mesma, mostrou a todos a dedicatória especial, única.  Olhei a minha, mostrei-a a quem estava mais próximo e, em pensamento, maldisse a minha figura sem arrojo, bolas, sou menos acentuada, que chatice; mas bem me podia ter esboçado assim um gatinho, tanto que eu gostava. Adequava com o livro, “História de Uma gaivota e do gato que a ensinou a voar”. Fiquei, pois, com um desgosto pequenino que passou rápido. E quando um colega, por que não vais lá, pedes-lhe também  um gato e arrumas o assunto, eu desliguei. Ia lá agora uma segunda vez, é que nem pensar.
Guardei o livro numa estante. Entretanto, descobri que um dos meus filhos tinha livro igual. Quando me pediram livros infanto -juvenis para S. Tomé encontrei um exemplar e enviei-o. Tinha um autografado e para o meu infante aquele já não tinha utilidade.
Só que me enganei. Enviei o meu exemplar. Felizmente, a pessoa que ia levá-lo para tão longe, ao ver o autógrafo retirou-o e devolveu-mo. E, maravilha das maravilhas, não é que abro a página do autógrafo e a primeira coisa que vejo é o gato?! Ali, em ponto grande, a envolver dedicatória e assinatura.
Querido, querido Luís Sepúlveda! 

Dezasseis de Abril


Por vezes, acordo antes das rolas arrulhando nas alturas do arvoredo. Acordo antes de, em bicos de pés, a mansa claridade abotoar  o vestido da noite. Desperto e ainda ela se desmantela sobre o mundo, jaz inerte em inocências de sono inquebrável, tão rente a todas as coisas como puzzle desmanchado sobre a mesa. E aí, meu amor, nessa hora sem lugar, sou a alma do universo, a medida onde cabes, a exacta certeza de dizer-te com palavras que não há.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quinze de Abril


Não frequento as vídeo conferências escolares nem estou em teletrabalho, mas gasto as tardes com o portátil a tiracolo. Uso-o para ouvir conversas e música. E enquanto assim, ocupo as mãos com isto e mais aquilo por que me chateia estar apenas a ouvir,  parece-me perda de tempo. O que vim a descobrir de obras incompletas – sou assim em tudo – não lembra ao diabo. É que mais um mês de quarentena não me vai chegar par terminar tanta coisa. Mas pronto, talvez termine mais um casaco (atinando com as reviravoltas do ponto) e dê utilidade a quatro meadas de linha que fariam um camisolão bem lindo se a mão esquerda se aguentar com a meia hora de tricot diário.
Não parece, mas o parágrafo acima pretende explicar a razão por que me tenho dedicado às séries policiais. Acontece que o trabalho manual não é propriamente a minha onda. E apesar de o seccionar em meias horas e me dar ao luxo de intervalos maiores que o tempo de manufactura, apesar disso, digo-vos, aporta-me dor de cabeça. E desanuvio a ver um episódio de uma série policial. Distraio. A dor de cabeça não deve gostar do género e abandona-me de imediato, o que mais me convence a perseverar no tema. Gostei da série islandesa, “Os crimes de valhalla”; depois de uma inglesa, “Hinterland”; depois “Deadwind”. Entretanto vi a primeira season de, “The sinner”. E pareceu-me bem. Bom, mas a segunda season, não me deu descanso nenhum; é que não há coisa mais abstrusa, tudo que é mau ali desagua. Não recomendo.
Eu que prefiro filmes. E logo os filmes não cabem num intervalo dos trabalhos manuais. Problemas que o covid me traz.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Catorze de Abril


Oiço que a vida não mais será a mesma depois do covid 19. Que a economia isto e aquilo. Que muda tudo. Mas muda tudo como? Hoje ouvi sugerir que a distância entre as pessoas – quer dizer a proximidade – mudou radicalmente e vamos manter-nos a metros uns dos outros.  Faço desde já  a minha declaração de interesses, cumpro e aguento uns tempos. Mas não me parece que ser pessoa se realize sem contactos e proximidade (e não estou a falar da família restrita). A ser assim, manter o distanciamento e cada um para seu lado, nada de ajuntamentos, declaro, é mundo onde não me interessa viver. Portanto, que venha o covid19; o 20; ou o 25.  


segunda-feira, 13 de abril de 2020

Treze de Abril


Portugal é um país interessante. E não apenas para turistas, também para os portugueses. O covid19 fechou-os em casa. Por indicação do governo? Não, porque eles entenderam, antes da Direcção Geral de Saúde , do primeiro Ministro e do Presidente da República, que a coisa era grave. E o mesmo se passou com o uso de máscaras que até foi recomendado pela OMS e só hoje a pespineta da ministra veio dizer que sim, afinal é melhor o uso de máscara em recintos fechados.  É certo, ninguém esperava esta crise sanitária (à económica já criámos hábito) nova e a estrear, somos globalmente principiantes, governo e cidadãos em geral. Mas é que os cidadãos têm-se portado melhor e mostram-se até mais assisados e prevenidos que o governo (apesar das hossanas a António Costa e de o senhor não ter estado mal de todo). Eu queria com muita força falar o melhor possível daquelas duas mulheres que nos chagam a paciência desde o início. Mas, mesmo dando o desconto de principiantes, com imensa pena, não as julgo mais especiais que a pobreza retórica do ministro da educação. Falta qualquer coisa e não inspiram grande confiança. Avante. António Costa afirma que os generais não se mudam na hora do combate. E pode ter razão.
Mário Centeno, questionado por Miguel Sousa Tavares, fechou-se em copas. Que não era o momento. E não sabemos se fica ou não no governo. Como a maioria dos portugueses, considero-o pessoa inteligente e capaz, pilar fundamental do governo e um entendido nos assuntos da pasta que é sua. Avalio que, muitos portugueses sentem, como eu, ter uma espécie de dívida para com ele. Compreendemos que esteja cansado de apagar fogos e deseje cargo bem pago, com responsabilidades e menos stressante. Como ser governador do Banco de Portugal, por exemplo. E libertava-nos do actual dirigente. Mas agora, senhor ministro, com o covid e mais uma crise toda nova? Faça-nos o favor. Não é homem nem é nada, se abandona o barco neste momento – ou mesmo daqui a três meses. Já tivemos um invertebrado. E pode crer: não  comparo. Tudo o que pedimos é um bocadinho de respeito por este povo. E olhe que ele o merece. Porque, haja o que houver, senhor ministro, faça o senhor as contas que fizer, esta como outras crises, somos nós a pagar a maior parte. E vai doer na pele. Porte-se à altura, sff. 
Obrigada.

domingo, 12 de abril de 2020

Doze de Abril - Domingo de Páscoa


Por vezes, os amigos surpreendem-nos.  Apresentam-se súbitos e inesperados. Dizem, olá estou aqui, penso em ti, não te esqueço. Mesmo que o não digam factualmente e letra a letra.  Neste isolamento em que mergulhámos há sinais que fazem falta e nos mudam a paisagem;  sabermos que gostam de nós é, por vezes, coisa distante e insuficiente. Precisamos que se salientem do tecido, sobressaiam, nos acenem. E esperamos faltar neles de forma idêntica, que amizade sem reciprocidade não existe. No amor, sim, podemos amar quem nos não ama. A amorzade, como afirma Lobo Antunes que alguém lhe disse (não recordo quem), joga-se e acontece no mano a mano. E essa é a sua inaudita e comovente beleza.
Devo muito aos meus amigos. A uns mais que a outros. E serei eterna devedora daqueles que mais me gostam. É que não há como retribuir um sentimento senão com outro de igual calibre e temo não estar à altura. O resto é folclore.
Mas hoje, domingo de Páscoa do covid e não nosso, alguns amigos lembraram-se de mim e eu deles. São poucos, mas na verdade preenchem as minhas lacunas, retribuem o meu inquieto sentir se adoecem, a mágoa se estão tristes, alegram-me as suas alegrias e vivo neles tanta coisa que não me existe e não sei.
Hoje, cada um me tocou a seu modo, com a delicadeza que lhe é própria.
Obrigada.


sábado, 11 de abril de 2020

Onze de Abril


O sábado de aleluia era um dia só necessário porque dava jeito, a Páscoa em família exigia preparação. Cristo morto, a religião enchia-se de roxos silêncios e aquietava a azáfama de lava pés e vias sacras. Este ano, graças ao covid, ficámos com um dia a que não sabíamos que fazer. Sou avessa a que os dias me baralhem, eu é que gosto de os baralhar, portanto, ocupei-me a dobar uma meada de linha branca que alguém simpático me enviou, pensando que para a semana recomeço a toalha de Natal. E vai daí, deu-me para pensar na Miss Pequena enquanto andava à volta com a linha, a meada segura entre duas cadeiras. Vejam vocês bem isto, se é pensamento para um sábado de aleluia. Pois, mas este sábado também não valeu nada e deve ter sido por isso que pensei na Miss Pequena.
Então que é isso, não é nada da pequena miss sunshine, nem dessas coisas parvamente alarmantes de exibirem crianças em concursos de beleza como se fossem mulheres. Nada disso. A Miss Pequena – dei-me ao trabalho de verificar – não consta do google e, num ano, foi da minha terra, imagine-se. Presumo hoje, pelo título, que seria um concurso regional, coisa mais pacata que a Miss Portugal. Mas por aqui deu brado como se fosse a Miss Mundo. E, daí a uma ou duas semanas, todas as garotas, incluindo eu que era uma franzinela cabeluda, imitavam o penteado da Miss Pequena, jovem desconhecida do meu mundo mas com o rosto escarrapachado numa revista que não sei se era a Flama. Para copiar o penteado, que se dizia ser à Madalena Iglésias e também à colegial, serviu perfeitamente. Um malogro. Tenho de reconhecer que a pilosidade do meu couro cabeludo, nunca foi muito dada à obediência. Para começar, fazer risca ao lado em cabelo comprido já me punha em desarmonia. Depois, bem tentei separar uma mecha e ajeitá-la  atrás da orelha como a da miss - estou em crer que o problema também seria da orelha. O certo é que, tanto no modelo  como nas outras garotas que estudavam comigo, o cabelo permanecia em vírgula comprida, mesmo como eu sonhava. Mas o meu nem com a artimanha de uns ganchos escondidos se segurava. Além disso, o restante cabelo, que deveria cair certo sobre a mecha arrumada, enchia-me o rosto e era como se aquele bocado preso nem existisse; é que nem se notava.
Toda a gente conseguiu copiar o penteado da Miss Pequena menos eu. Mas também é verdade que as mulheres que conheço seguram os óculos na cabeça e ainda hoje não sou capaz. E olhem, em vez de propostas edificantes só me assaltaram estas desabilidades. Sorry.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Dez de Abril


Digam o que disserem, morrer crucificado é de certeza muito doloroso. Que a paixão de Cristo é isso, o sofrimento intolerável. Antes, Cristo foi açoitado, carregou a cruz até ao calvário e consta que, ele que antes era louvado e bendito, foi escarnecido e cuspido pela multidão. E depois, crucificado. Mas que pai é este que, como o filho bem reconheceu, o abandonou no Gólgota.  Um Deus que tudo pode e que, em vez de poder, arma para o único filho o futuro que ninguém deseja. Por amor aos homens. Não poderíamos nós os homens ter o mesmo apreço por ambos, se não houvera tal desumanidade?! o filho é tão eterno quanto o pai, portanto, morre mas não morre. Quando era garota pensava, será que ele morreu e sofreu tanto por serem muitíssimos os homens. Mas, se me punha a fazer contas aos séculos cheios de gente pelo mundo todo, já me parecia aquele sofrimento pouca coisa. Entretanto, compreendi que todas as religiões têm os seus mistérios, e embrulhei a metafísica até um dia.
A Páscoa é festa religiosa que não me move especialmente. Entendo-a como despedida de Cristo. Páscoa é separação, ruptura, distância. Mas a igreja fala noutras coisas, em homem novo, recomeço, salvação. Acontece que a subida aos céus é o términus definitivo da vida humana. E o Cristo de que gosto é esse, o que brincou na rua e conversou com os doutores do templo. É com ele que me entendo.  

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Nove de Abril


Bom. Bem. É como quem diz, detesto fazer arrumações. Aquela coisa de limpar gavetas, forrar de novo, mudar de lugar, deitar fora. Irritam-me as mudanças e mais o tempo que levo a arrumar. Mas, como já aqui contei, tomei-me de cuidados com o varredor da minha rua. E agora não posso comprar-lhe nem um alfinete. Portanto, resolvi dar volta às gavetas dos filhos que são uns queridos de uns desleixados e guardam o que já não serve. Mas é proibido supor que engordaram, tudo menos isso, os meus filhos vão ser esbeltos toda a vida. Também é proibido sugerir, olha que já se vê muito bem o couro cabeludo. Portanto, calvo nenhum será. A luta contra a mudança não tem idade. Voltando ao assunto:  quando e se me visitam, têm as peças bem à vista - sobre a cama ou assim; sai o aviso, dá uma olhada e vê se ainda queres guardar. Mas esquecem. E as peças fazem a viagem de volta.  Pois foi hoje. Fiz de conta que é sexta e, depois de um café com leite moreníssimo, lancei mãos à tarefa. O saco, muito ancho, jaz prontíssimo. Seja quando for, segue. E não chateio mais os infantes.
Depois lembrei-me da Páscoa, aproveitei o balanço e guardei as malhas mais quentes; as flanelas mais encorpadas; as meias grossas, collants térmicos e calças de lã;  os gorros e chapéus de inverno (reservei um para chuva e dois bonés amarelos); os cachecóis. E trouxe para a frente aquelas camisas floridas, as blusinhas leves e de manga comprida, as gangas, um ou dois vestidos, algumas saias. E é um gosto. Nos cabides dançam agora bolas, quadrados, flores, riscas.   
Tive o cuidado de não bulir com tudo que no ano passado me estava justo. E deu-se o achamento de dois xailes. Mas dos suspensórios nem pó. Será que, numa de finalmente ganhar propósitos, os levei para o contentor da Humana?! Mau Maria.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Oito de Abril


Gosto de vestidos. Sempre gostei, até porque minha mãe não me vestia de saia e blusinha – tanto que eu gostava de ter uma sainha. Quando a pedidos instantes transigiu numa saia e a vesti, ela bichanava lastimosa e abanando a cabeça. Que não entendia a minha cintura, mesmo com elásticos, não segurava a saia: escorregava, a frente virava para as costas, os bolsos que eram à frente ficavam de lado ou nas costas, descia por mim abaixo, pisava-a e bla, bla, bla. Não a condeno, ainda hoje tudo me escorrega na vida e não me parece que seja problema de cintura. Avante. Bom, isto para contar que me lembrei do primeiro vestido que tive depois da adolescência, um orgulho que perdurou anos e anos. Agrado superlativo. Vi-o na montra de uma loja. Entrei. Uma garota alta, loura, olhos azuis acinzentados, vestia um igual mas em amarelo e mirava-se ao espelho sob olhos maternais babados de orgulho. Invejei-a, mas não pelo que pensam. E ela sem gostar. Depois de muito cicio, que gente bem não fala alto, a menina trocou-se e saíram sem compras. Entretanto, eu cirandava por ali sem que os empregados se dignassem perguntar o que fosse. Faltavam-me olhos azuis acinzentados, ser loura, alta e, mais que isso, ter a classe enfastiada daquela garota que mal me olhara. Foi mais ou menos isto que me disseram os olhos do empregado quando me aproximei. Perguntei o preço do vestido que estava na montra e ele respondeu-me a despachar, como quem diz, desanda que não é para os teus dentes. E os de trás do balcão sorrindo coniventes. Portanto, fui observá-lo da rua.
O vestido era realmente caro para a minha bolsa de estudo mensal, custava mais de metade do que recebia. Sem êxito, fiz contas e mais contas às minhas despesas. Mas era tão bonito. Para encurtar: resolvi comprá-lo e durante um mês não fui a casa de fim de semana e zero de aquisições. Mas comprei-o. De vez em quando, abria o roupeiro e palpava o tecido ou ficava a virá-lo na cruzeta. E espantava-me comigo, que audácia, como é que eu conseguira um vestido tão bonito.
Tenho uma foto com ele. Não é especial. Mas, só hoje o noto, é talvez parecido com os vestidos com que minha mãe me vestia: nylon, gregas, tom rosado e um lacinho atrás. Talvez sejamos sempre os mesmos.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Sete de Abril


Uma coisa que não entendo nos media é aquela espécie de subreptício aroma vingativo quando divulgam o número de mortos e infectados nos EUA e no UK. Há uma espécie de censura  infiltrada, ao estilo de, bem avisámos, mas andaram a brincar com o fogo e agora olha, queimaram-se.  Ok, bem sei que os seus manda-chuva agiram mal, que foram eleitos e a maioria votou neles, que pelo menos um deles é mal formado e pouco informado; do outro sei que assimilou boa informação e sobre a probidade de carácter ainda não me manifesto. Como primeiro ministro de um país desejo-lhe rápidas melhoras, faz falta na guerra contra o covid19 e já tem a sua conta. É inevitável, de cada vez que oiço ou leio tais números, a minha alma gemebunda  iguala-se ao rosto do papa Francisco, pesam-lhe. Tanta gente que morre. Velhos que trabalharam a vida inteira e deram o seu contributo à polis. Mereciam fim mais suave e natural. Malvado vírus.
E depois ainda sabemos dos espertalhaços destituídos de princípios que roubam material destinado a hospitais para venderem em regime de mercado negro.  Não nos basta uma União Europeia desunida, ainda vêm estes salafrários de meia tigela fazer dinheiro com a desgraça alheia, espevitá-la. Não haver quem os apanhasse e lhes desse uma valente sova. Há gente que não merece ser pessoa.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Seis de Abril


Afinal, a Senhora das Candeias não engana. O inverno aí está, tão fora de tempo como necessário à terra a que pertenço e sou. O que outrora me entristeceu, é hoje som de harmonia. Chove. Não a morracinha tola, nem o arremedo vão. É mesmo um dia de chuva dos antigos. Oxalá haja mais e as barragens encham, e o vírus siga na enxurrada (não acredito).
Temos um ano – na melhor das hipóteses - para tentar fugir ao covid 19. Sinceramente, espero que abrande, trezentos e sessenta e cinco dias é muito tempo para manter a fuga a um ser invisível e de contágio extremo. E não o digo por ter medo. A morte não me amedronta e o que pedi à vida já tive. Tudo que venha é acréscimo que não desdenho, mas não vivo alapada. Podem dizer-me que é só uma a vida. E é. Mesmo que outra exista, nada tem a ver connosco como ora somos.  
É verdade, podíamos ter feito melhor em quase tudo. Fomos causa de alguns desgostos, mas sem premeditação (ou será que os cozinhámos para ferir, magoar, fazer sofrer); não fomos, em quase nada, até ao limite de nós. Não cumprimos o vaticínio do poeta “põe o máximo de ti no mínimo que fazes”.
Mas as pessoas são só isso, pessoas. Gente que dê o seu máximo desde as acções mais mínimas, acaba santa e, de certeza, morre nos alvores da juventude, que nenhum organismo humano aguenta a perseverança em tal grau de esforço. O que a gente comum faz, dia a dia, um dia de cada vez, é aguentar-se à humanidade que a constitui. Sem outro delírio que tentar vivê-la sem bulir com a liberdade ou magoar terceiros.
Parece fácil. Mas só parece.

domingo, 5 de abril de 2020

Deus Caminha sobre as Águas





Apaga-me os olhos: inda posso ver-te,
tranca-me os ouvidos: inda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os braços, e posso apertar-te com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá,
e se me deitares fogo ao cérebro hei-de continuar a trazer-te no sangue.

Rainer Maria RilKe , Livro de Horas,  livro II Peregrinação

sábado, 4 de abril de 2020

Quatro de Abril


Pois hoje foi um dia que se chama sábado, mas nem parece e até julgo que devíamos inventar nova nomenclatura para os fins de semana que se tornaram, afinal, um tédio ilimitado e sem convergência.
Mas como deixei pendente um assunto de ontem, é o que há. Porque mais uma vez estive à espera da chuva que vinha pelas onze e ainda não chegou. Sem querer ofendê-la, que pelo tamanho da necessidade tenho de cultivar as boas relações, é uma desmiolada com atrasos tão fenomenais que até já suspeito de alzheimer. Mas também pode que a meteorologia acredite que o desejo faz chover.
Pois do que vinha falar, dado o não assunto do dia, era mais ou menos isto, resolvi fazer exercícios de pilates. Em casa. Pela net. O assunto não me mereceu grande pesquisa, escolhi o primeiro vídeo que apareceu, pilates adequa-se à idade e não exige perícia. E, à parte ter tombado uma incauta jarrita de flores que se apressou a dar ordem de soltura ao conteúdo, de modo que o meu lírio roxo todo se tolheu e escalhambrou no susto, que é isto, onde é que eu estou, e outras questões puramente florais; dizia eu que, depois de proceder à compostura da jarra (incluíu apanhar a água), de o lírio novamente sobranceiro, por ali estive com a falta de equilíbrio habitual, verdadeiramente embatucada pelo comprimento de braços e pernas, que só não esticam quando quero chegar à segunda prateleira dos armários da cozinha. É claro que tinha uma professora linda e paciente a comandar, mas a minha lateralidade é aquela coisa e ainda bem que ela não me via. No entanto, prometo-lhe (a ela), desde já, que vamos treinar mais. As duas. E não me hei-de enganar (tanto). Mas devo ter gostado que achei o período de exercícios muito curto.
Saúde da boa, tenham cuidado e protejam-se.
E pronto, é isto. Só para ser diferente, hoje fiz greve à TV. E o covid ficou mais impreciso. 

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Três de Abril


Não vamos ter Páscoa. Quer dizer, vamos mas não vamos.  Vá lá, que podemos rodar pelo concelho. Coube-me um muito disperso, se pensar em ir de bicicleta de uma ponta à outra é melhor fazer a viagem em três dias, razão por que a cancelei. Sem dramatismo exacerbado, é bom lembrar que, para vários milhares - demasiados -, já não há coisa alguma. Para muitos mais, há luto. Para outros muitos, os infectados, há o receio e os cuidados redobrados e a família ou quem seja a cuidá-los. E eu que sei do que falo, digo-vos que sentir a exclusão e o receio que o mundo tem de nós, não é fácil. O nosso lado frágil espreita à menor frincha. Portanto, alegria. Sortudos de nós, ainda cá estamos. Comparados com quem morreu ou está infectado, mesmo velhos e caquéticos, estamos belíssimos. E é daqui que temos de partir. Ponto final parágrafo.
Hoje é um dia bom, vê-se logo que. E fui dar uma voltita – que às sextas, já se sabe, acordo cedo. E tudo me parece melhor, embora só encontre os senhores das máquinas e mais as manilhas que já estão no seu lugar (que nome, santo Deus; obrigada, Joaquim, é que nã m’arrecordava). A mais, só havia umas poças de água, coisa de nada que me fez andar aos saltinhos. E é claro que aproveitei os meus vinte minutos de sol. De boné a condizer com o astro e nos moldes anteriores. Mais umas sessões e estou a dois tons, perna branca e braço moreno.
Mas voltemos à Páscoa. Sem família. Sem aquele almoço lauto e barulhento que se prolonga e prolonga. Sem os meus doces e sempre presentes filhos (isto sim, que é falta). No desejo instante de que, para o ano, renovemos o ritual. Esta vez é excepção, não mais que isso. E pensar positivo: temos menos trabalho; economizamos; podemos fazer apenas os doces de que nós gostamos, sem atender outras preferências. Mas talvez, sei lá, vestir uma roupinha diferente, passar um eye liner, um brilho até; é a primeira Páscoa em que temos vagar (vou ali ver no meu borda d’água electrónico se está chover, e já cá volto). Pronto: o meu borda diz que o tempo vai estar óptimo, há sol com umas nuvenzinhas de nada, a máxima anda pelos 23º e a mínima já não me recordo mas tem dois algarismos. Portanto, minha gente, que ao menos a primavera não nos falhe. E, caso chova, não me culpem. A tão longo prazo a previsão vale o que vale. Em minha defesa, lembrem-se, só consultei.
Posto isto, tinha mais um conselho a dar, mas é bem capaz de ocupar mais uns parágrafos. Fica para amanhã. Passem bem. Com muita saúde:)
NOTA: pessoal, vai chover na Páscoa:))). Bem me parecia, a Senhora das Candeias avisou; além disso o povo diz "Carnaval em casa Páscoa na rua". E o Carnaval foi na rua. Portanto, ora essa, mais vale que chova para que nem a Senhora e nem o povo, sofram correcção:).

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Dois de Abril


Pode ser por ter feito compras e conversado com a menina da caixa (respeitando distâncias), por haver sol e a temperatura ter subido, por me parecer que em Itália  a esperança bruxuleia, já que os números da desgraça começam, lentamente, a diminuir. O certo é que a paisagem me parece menos escura. E é que já todos sabíamos, a quarentena vai estender-se. Nem arrisco até quando.
 Itália deu – a mim e a quantos a visitaram - bons momentos. Itália faz-nos ser contemplativos e a oferta é nota dez. Mas não se fica pelas artes. Tem, por todo o lugar, variados e saborosos gelados;  e há a vivacidade italiana que nós invejamos e que é fome de viver declarada; e a gastronomia que, só ali, sabe a Itália; um encanto próprio pulsa no ar decadente e romântico de ruas e ruelas; e o que noutros países é decrepitude, ali, é beleza. Torcemos todos para que os italianos vençam a batalha. E parece que se vê luz ao fundo do túnel. Haja Deus!
Mesmo aqui ao lado, a Espanha sofre na travessia do seu inferno. Diariamente, nos assusta o número de óbitos; os médicos repetem o quadro italiano. Estão tão esgotados como os italianos que vimos e recomendam tanto como eles que nos preparemos. Falta-lhes equipamento. Mas são nossos vizinhos, temos rios em comum, lugares que foram portugueses e são espanhóis, muita história contada a meias, guerras, tratados, casamentos reais. Há gente que, nas zonas fronteiriças, ia ao outro lado almoçar ou jantar, fazer compras, ou apenas passear; os nossos vizinhos enchem-nos as praias - pelo menos a que frequento – em número igual ou superior ao dos portugueses. E encontram-se a braços com os estragos do covid 19. E são eles. Com a sua arte, as suas avenidas e ruas, o seu linguajar de burburinho, a alegria de  castanholas, sapateado, touradas, mulheres salerosas. É público que têm médicos infectados e a trabalhar. Que é da solidariedade. Da entreajuda de vizinhança.
Fica tudo no papel, é blá blá blá…

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Um de Abril


Hoje virei-me também para a leitura. Não exclusivamente, só aumentei a dose. Voltei atrás em Céline, “Viagem ao Fim da Noite”. Gosto da escrita. Tudo no livro - até onde li - são desastres sobre desastres. Desastres humanos, quero dizer. Mas o conteúdo depende da forma  e este molde desapaixonado e de pendor trocista, num acastelar de ambientes e pessoas à beira da exaustão, agrada-me. É como se o escritor diga, isto é romance, e agora segurem-se que vou procurar o lado negro da realidade e botá-lo aqui por junto. E, garanto, resulta. A prosa é de qualidade, talvez o grande motivo. Diverte-me ler tanta desgraça acontecendo à mesma pessoa sem que ela morra. Pereça. Estique o pernil.
É certo, voltei atrás por gosto. E porque incorri na asneira de levar o livro para a praia e ele se esbarrigou no completo de si por mor da areia, um bocado para aqui, outro para ali, e aquele para acolá; não contando as folhas mais independentes que desataram a esvoaçar como pássaro que experimenta as asas. De modos que ainda a sinto, grão a grão, pegadinha na cola do interior da lombada. E quando fecho o livro oiço-o a mastigar a areia, desagradado. Talvez pelo esforço de conservar as folhas no lugar, o que li na praia não entranhou, era lembrança vaga.  Já está em dia. E, felizmente, há ainda muito em espera.
É claro que, no intervalo, avancei umas carreiras na blusinha da folha  (está boazinha e recomenda-se), vi um episódio da série policial que sigo (oxalá não termine tão depressa), revoluteei pelos blogs que frequento, dobei a lã atrasada e cirandei pelo projecto de jantar. Depois fui ler pela segunda vez a entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Fernando Gil que não tive a dita de conhecer mas era o professor mais temido do departamento de filosofia. Acontece que gosto da entrevista. Dá-me prazer a forma clara como o senhor distingue a verdade plausível da verdade demonstrativa (e outras pintas que põe nos is). Sabe bem assistir ao discorrer de uma mente esclarecida. Retive ainda a expressão de Paul Éluard e que assenta tão bem nesta primavera de covid 19, “O duro desejo de durar”. Tão, mas tão verdade.