Ontem estava uma caixa de livros – bem arrumados e ordenados – à beira do contentor do lixo. Não fui eu a vê-la, mas alguém que a supôs vazia e pensou guardá-la, tinha bom tamanho. Mas continha livros. Quando soube, pedi que ma trouxessem (ninguém a queria e pesava). Quando a abri, mau grado saber-lhe o destino, senti-me como quem entra em casa alheia sem pedir licença, em violação de privacidade. Porque é uma forma de, à revelia do sujeito envolvido, o mesmo se dar ao conhecimento e à exposição. Desconheço-lhes a proveniência, a relação que tinham com os proprietários, mas, pelo conteúdo, a maioria parece ter sido pertença masculina. Repartem-se pelo que suponho serem desenvolvimentos sobre o nazismo, conhecimento da vida e política africana e russa, divulgação de personalidades com nomes estranhos e de que nunca ouvi falar. Ainda não verifiquei que tipo de literatura contêm e se são apenas informativos ou se apresentam ideologicamente formatados. Um ou outro têm assinatura em diagonal, a lembrar a minha própria no dicionário de português, cujo se perpetua em casa de meu pai e a que os meus irmãos, assim como quem não quer nada, apuseram a sua. Não pude evitar um sorriso quando encontrei uma folha de ordenado, em tudo semelhante às que também recebi, mas lavrada numa empresa de que nunca tive notícia. É datada de Julho e não consegue ler-se o ano. Por entre aqueles livros que me parecem de aprofundamento de conhecimentos, e de outros que são sobretudo de natureza política, há três ou quatro romances que não sei situar mas me parecem sem valor, e um livro de Max du Veuzit que na infância li sem compreender o que lia e pensando que a autora era um homem. De modos que ainda hoje não sei se será boa ou má escrita, mas já aprendi que é mulher e escreveu sob pseudónimo, talvez para conseguir vingar. É bem provável que nessa época julgasse a escrita de romances apanágio dos homens; Na minha mente, Corín Tellado também pertencia ao género masculino. Avante.
São livros antigos, de folhas amarelecidas. Talvez – mera conjectura - pertença de casal que já não existe ou foi para um lar. Que a mulher lia menos e o conteúdo era bastante mais leve; e que o leitor mais regular decuplicava o número de obras e era muito objectivo nas preferências. No conjunto, existe um único livro de autor(es) português, chama-se “Cultura Portuguesa” e é de Hernani Cidade e Carlos Selvagem, dois homens de valor que lutaram pela liberdade em tempos difíceis. Imagino que houvesse também obras de escritores nacionais. No desmanchar da casa, talvez os filhos - ou quem se entregou à actividade - tenham arrecadado os livros que lhe interessavam e alguns tivessem raiz nacional. Mas, guardado entre as páginas de árido livro, um pequeno tesouro: uma folha. Espessa e ovalada, toda em tom de vermelho escuro. Linda e intacta. Imagino-a a marcar a leitura, a mão a retirá-la ou a poisá-la entre páginas cuidadosas; ou, quem sabe, um aéreo dedo deslizando na nervura central. Decerto, um marcador de boa memória.
E, no interior de um romance de Zola, em caligrafia feminina, encontrei versos: a
folha está rasgada, mas foram escritos no próprio livro em Lisboa 2/2/6… Os versinhos,
quadras muito simples, estão organizados por números romanos e detêm alguns
erros. São ingénuos versos de amor, um amor antigo que mistura Deus e o Menino
Jesus com o sentimento de união, muito ao modo de quem foi jovem nos anos
cinquenta e sessenta.
Ainda
não desvendei toda a caixa, mas já escolhi algumas obras. Hei-de continuar a
folheá-las com o respeito que lhes devo e mais a quem pertenceram. Por certo
vou encontrar outros sinais da humanidade que os habitou desde a compra. E aqui
darei conta:)
Sejam
felizes