segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Vidas a Descoberto

 

Ontem estava uma caixa de livros – bem arrumados e ordenados – à beira do contentor do lixo. Não fui eu a vê-la, mas alguém que a supôs vazia e pensou guardá-la, tinha bom tamanho. Mas continha livros. Quando soube, pedi que ma trouxessem (ninguém a queria e pesava). Quando a abri, mau grado saber-lhe o destino, senti-me como quem entra em casa alheia sem pedir licença, em violação de privacidade. Porque é uma forma de, à revelia do sujeito envolvido, o mesmo se dar ao conhecimento e à exposição. Desconheço-lhes a proveniência, a relação que tinham com os proprietários, mas, pelo conteúdo, a maioria parece ter sido pertença masculina. Repartem-se pelo que suponho serem desenvolvimentos sobre o nazismo, conhecimento da vida e política africana e russa, divulgação de personalidades com nomes estranhos e de que nunca ouvi falar. Ainda não verifiquei que tipo de literatura contêm e se são apenas informativos ou se apresentam ideologicamente formatados. Um ou outro têm assinatura em diagonal, a lembrar a minha própria no dicionário de português, cujo se perpetua em casa de meu pai e a que os meus irmãos, assim como quem não quer nada, apuseram a sua. Não pude evitar um sorriso quando encontrei uma folha de ordenado, em tudo semelhante às que também recebi, mas lavrada numa empresa de que nunca tive notícia. É datada de Julho e não consegue ler-se o ano. Por entre aqueles livros que me parecem de aprofundamento de conhecimentos, e de outros que são sobretudo de natureza política, há três ou quatro romances que não sei situar mas me parecem sem valor, e um livro de Max du Veuzit que na infância li sem compreender o que lia e pensando que a autora era um homem. De modos que ainda hoje não sei se será boa ou má escrita, mas já aprendi que é mulher e escreveu sob pseudónimo, talvez para conseguir vingar.  É bem provável que nessa época julgasse a escrita de romances apanágio dos homens; Na minha mente, Corín Tellado também pertencia ao género masculino. Avante.

São livros antigos, de folhas amarelecidas. Talvez – mera conjectura - pertença de casal que já não existe ou foi para um lar. Que a mulher lia menos e o conteúdo era bastante mais leve; e que o leitor mais regular decuplicava o número de obras e era muito objectivo nas preferências. No conjunto, existe um único livro de autor(es) português, chama-se “Cultura Portuguesa” e é de Hernani Cidade e Carlos Selvagem, dois homens de valor que lutaram pela liberdade em tempos difíceis. Imagino que houvesse também obras de escritores nacionais. No desmanchar da casa, talvez os filhos - ou quem se entregou à actividade - tenham arrecadado os livros que lhe interessavam e alguns tivessem raiz nacional. Mas, guardado entre as páginas de árido livro, um pequeno tesouro: uma folha. Espessa e ovalada, toda em tom de vermelho escuro. Linda e intacta. Imagino-a a marcar a leitura, a mão a retirá-la ou a poisá-la entre páginas  cuidadosas; ou, quem sabe, um aéreo dedo deslizando na nervura central. Decerto, um marcador de boa memória. 

E, no interior de um romance de Zola, em caligrafia feminina,  encontrei versos: a folha está rasgada, mas foram escritos no próprio livro em Lisboa 2/2/6… Os versinhos, quadras muito simples, estão organizados por números romanos e detêm alguns erros. São ingénuos versos de amor, um amor antigo que mistura Deus e o Menino Jesus com o sentimento de união, muito ao modo de quem foi jovem nos anos cinquenta e sessenta.

Ainda não desvendei toda a caixa, mas já escolhi algumas obras. Hei-de continuar a folheá-las com o respeito que lhes devo e mais a quem pertenceram. Por certo vou encontrar outros sinais da humanidade que os habitou desde a compra. E aqui darei conta:)

Sejam felizes

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Às vezes o Amor

 

"Agora, mesmo no seu silêncio se apercebia o gáudio sôfrego de um cão que acha o seu dono e de novo fareja e rebusca pelos cantos familiares. Quina deixava-o proceder, fingindo não notar que ele tinha fome e que o seu rosto quase imberbe parecia ter sofrido amolgaduras e estava esverdeado de fadiga. Via-o sorrateiramente espreitar num armário, aproveitando a sombra para palpar os restos que,  em velhos pratos de barro, se tinham coberto de um bolor azul e cor de prata, delicado como uma borla de pó de arroz. Ela chamou-o, e Custódio, voltando-se, apresentou a expressão exageradamente inocente de quem disfarça uma culpa; um fio acobreado de doce de cereja corria-lhe devagar, pelo queixo. Quina puxou mais o lenço sobre a boca, e tossiu, cheia de riso. Ali estava aquele rapaz, tolo, belo, fiel e egoísta, não mais responsável do que um sarmento de videira que, esquecido de si, contudo cheio de veemência, vive. Aqueles olhos opacos, que pareciam trespassar todas as coisas sem porém lhes tocar,  como os amava! Os seus cabelos, a que os movimentos imprimiam um constante balanceio de seda desfiada e que mesmo na imobilidade eram possuídos de vibração, esgotante e perene vibração, como os amava! E a sua voz, aquele balbucio indiscreto, vago, tão humano, que soava sempre um pouco como uma surpresa angustiada, um pedido de auxílio, como ela a amava!"

“A Sibila” Editora Relógio d’Água, 35ª edição págs. 210 e 211

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Um Quase Nada

 

Fora eu mulher metódica e a escrita seria diária. Escrevia com sol ou chuva, ventasse ou surgisse no firmamento um sol dolente e morno a espanejar-se. Escrevia qual poeta, como quem toma remédio para a dor, em obrigação que é prazer. Escrevia. Mas acontece que tenho dentro um dever mais fundo a sobrepor, uma espécie de aguilhão que me constrange o dorso bovino e teimoso e me encarreira em horários comezinhos de governanta, obrigando a escrita ao tempo livre. Entretanto, releio e registo a evolução, passei de sopeira a governanta; julgo que seja termo adequado já que o vocábulo me veio aos dedos sem pensar. Digam o que digam, sempre é uma subida. E haveria brinde se as subidas me interessassem, o que, receio bem, não seja o caso. A ascensão social não me está nos genes. Paciência. Que a outra, pelo menos que eu tenha conhecimento, só uma Maria Santíssima conseguiu. Já me resignei à humanidade, tenho mesmo de seguir o caminho inverso e ir para a terra. Se isso a que se chama alma for imutável (subindo ou não) já é grande sorte. A chance -  que por vezes esqueço - é ter nascido humana. Humana e normal (quero dizer, em tudo semelhante a outros humanos).

Acresce ao meu contar  intermitente, o pontual e instante  desejo de destom que me esvoaça entre pausas. Nessas horas, e esta é uma delas, fustigam-me    avulsos e dispersos pensamentos, espécie daqueles artigos de mercearia antiga que não dizem uns com os outros, uma barra de sabão, um quarto de banha, cinco tostões de amendoins. É o prazer de apontar e o pensamento usa os dedos que tem. Portanto, por exemplo em noites de concerto, sinto-me acompanhada, a música rompe e estamos ali sem depois. Estamos. É isso. Estaremos sempre, mesmo se e quando já não estivermos.

 No Metro, reparei o parzinho do banco ao lado. Sem telemóvel, embebiam em namoro clássico. Que bonito assistir. Não se beijavam lascivos, nem mesmo arrebatados. Mas a linguagem desvanecida do olhar dizia do encantamento, tão igual em ambos. No colo dela, postas em unido repouso, as mãos entrelaçavam abandonadas uma na outra. Mas, em conversa banal, os olhos eram únicos. Que factores fazem hoje tão esquivo o namoro e banalizam o amor. É certo que não me passeio por matas e jardins, mas será que ainda os namorados por ali se perdem. Não sei. Passo na Baixa e encontro apenas pessoas apressadas e friorentas. A maioria dos jovens são turistas e também a eles o amor desapetece. Conversam entre si como casais de cinquenta e mais anos, pacatos e amigáveis, e nem ligeiro odor de magia amorosa. Subo ao andar de cima de um estabelecimento conhecido. Junto à janela da mesa onde me sentei de outras vezes, um par jovem inventa ternuras, ele pousa-lhe a mochila e ajuda no despir do casaco que dobra na cadeira ao lado; depois, senta-se e encontra a mão que avança sobre a mesa e, feita ave que busca poiso, se entrança na dele. São eterna juventude, falam baixo e observam o exterior à luz clara da tarde, o candeeiro da rua emoldurado na janela. Enquanto isso, inteiriçado de frio e em pouca roupa, senta-se junto a mim um rapaz magro, rosto afilado, olhos de azeitona preta. O ambiente aquecido e o odor de café fazem da sala –  bonita e antiga – uma zona de conforto não ruidoso. Regozijo pelo garoto que se sentou e arruma a mala de muito uso a seus pés. Contudo, incomoda-me o ar displicente e de comiseração irónica da funcionária quando, vindo à mesa, ele hesita e pede  um solitário chá. Olho em volta, todas as mesas compostas: bolos, sandes, torradas, cafés. Chega-me uma vontade imensa de vingar a humilhação e encher-lhe a mesa de iguarias. Talvez envergonhasse o garoto. Ou não.