sábado, 30 de maio de 2020

Fazer Anos


Sempre que fazes anos há uma exultação em fundo triste, acordéon que atapeta de alegrias a desalentada plangência de violinos a vincar o fim do décor. Aquecemo-nos em gargalhadas e ditos, lembranças e memórias risíveis a que então não encontrámos graça, quotidianos nadas  que, em companhia, resplendem. Em companhia e por sofrimento. Juntamo-nos as três e a cor da vida altera, em escasso tempo vivemos rosa, azul de céu, amarelo soalheiro. A junção de forças gera uma alegria centrífuga de que os outros são satélite. O nosso riso escapa pela janela aberta, rola rua abaixo, galga para lá do portão que já não fecha, atravessa a estrada e entranha nas paredes de casas fronteiras; há um resto de nós em lugares onde só a voz chega, que nunca pisámos e nos são estranhos. Um fundo de boa disposição plana acima de conversas e barulho. Li na “Carta a um menino que não nasceu” de Oriana Fallacci, que o sofrimento propicia sinceros e alegres sorrisos. Condiz.    Lá fora, a noite preencheu os interstícios de laranjeiras insomnes que avultam hirtas e rotundas, quase barriga com barriga, e a que estragamos o sono.  Juntarmo-nos segrega uma névoa sobre o mal que nos é próximo, que está no meio de nós, mudo, sombrio, pronto a agarrar-nos. E os pequenos bichos da terra emudecem, respeitam o som que lhes não pertence e, perplexos, adiam o reinado que a noite promulgou. E é como se gargalhadas e ditos nos isolem do pior que sabemos. Mas, no burburinho feliz, cada uma   se interroga, “até quando”. E tu que nem sonhas e nem sabes, tu desanuviado nos oitenta e sete, orgulhoso, sou o mais velho da terra. E rematas triunfante, os outros já bateram a bota. Estás contente e sais a espaços do teu mundo de silêncio. Que sabes de nós?! Tu, sempre de costas para sofrimento alheio que te desarranje a vida. Tens trabalho restrito, manter-te vivo. E, contudo, laborioso. De facto, só agora fazes os anos.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Reencontro


Tinha já a insuspeita cor do verão e a luz era tão clara que adoecia nos olhos. Uma ou outra criança sem alarde e o som ritmado de ondinhas folgazãs em desmaios enviesados como quem apronta uma partida, correndo numa direcção e a inflectir, de súbito, noutra. O leve som da água batendo palmas de espuma, contente de haver verão num dia de primavera. Eu, franzida para o azul esplêndido do céu; baixando as pestanas, a esfumar, a linha do horizonte. À direita, num virar de cabeça, a rigidez tímida e nebulosa da serra, pedindo desculpa de assim despida, nua, pele áspera, mazelas aqui e ali por entre o verde que se adivinha além névoa. A serra de sereno perfil, mistério de alma cândida guardando as águas.  Lá atrás, um caminho de calor nas dunas floridas de amarelo e rosa-lilás e a ausência dos cardos azulados e marítimos que, em Agosto, se erguem belos e terríveis e convidam, vem!, beleza trágica e intocada de sangue e espinhos, um indescritível pavor de calcanhar que a mente adivinha. Erguendo um pouco a cabeça, abraço com os olhos a transparência anilada, paixão dos meus sentidos, fundo desejo da alma. Sou desta praia como de nenhuma, lugar onde volto a ser criança. Braços abertos, riso de água cheio de gotas, rodeia-me, quanto tardaste.    

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Quinta Feira de Ascensão


Tem dias em que o covid me inspira.  Não ele, mas as decorrências.  Além disso, não esqueço a promessa que fiz aqui de ir dando notícias em croniquetas do arco da velha.
Como escrevi em algum lugar (blog),  a primeira pessoa que encontrei no passeio matinal (cruzámo-nos, cada uma de seu lado da estrada) foi "uma rapariga da minha idade”, conheço-a dos bancos da escola primária.  Pois a "rapariga" regressava a casa e trazia na mão ramo mui gracioso que me acordou para a data, hoje é  quinta feira da Ascensão, dia da espiga. Desde essa ascensão milagrosa que Nossa Senhora tomou o gosto e vai daí de vez em quando desce à Terra e ascende. Não há-de ser mau. O que é que a espiga tem a ver com Nossa senhora a ascender ao céu, não sei, apesar de ser católica romana e apostólica, de minha mãe ter sempre um raminho benzido no domingo de ramos e que meu pai, um incréu do piorio, pendurava de amuleto nas searas. Mas hão-de estar relacionadas, talvez. E é que também passei pelas espigas, mas só passei. Coitadinhas das espigas.
De caminho, revi uma das velhotas que se sentava num recanto junto aos eucaliptos a conversar. Pois ela tem quase oitenta anos e está proíbida de sair. Queixou-se-me: quer conversar, há mais de quatro meses que não sai de casa e está fartinha do telefone, já nem o pode ver. Atravessei a estrada para poder ouvi-la. E ela contente, a passar a mão pelo desalinho dos caracóis que lhe caíam no rosto, dedos procurando a lassidão do gancho. E olhava-me dolorosa, ofendida com as amigas que passavam sem parar para uma  converseta, com as vizinhas que todas se afastam mal ela as chama e começa a falar, e que assim não pode ser, de tão longe, mesmo que falem, não as ouve. E tornava, então diga-me lá, já oiço mal e botam-se naquela lonjura para quê? Disse-me a minha filha que o bicho só precisa de dois metros, para que é aquilo. E ia-se chegando. Começámos para aí a uns seis metros e terminámos quase a par. Talvez tenha pensado que fiz como as vizinhas. Mas não.
 Dia de compras. Chegada ao super, pus a máscara e o parvo do elástico rebentou. Bonito serviço. Já inflectia para casa quando me lembrei que na mala jaz o artefacto que alguém me deu. De modos que fui toda florida  comprar os géneros; de resto, é a mesma aflição.
De regresso e já sem máscara, vi as garotas da Secundária trajando verão. Tão bonitinhas. Ficam horas ao espelho a experimentar isto e mais aquilo. E não sabem - nunca saberão senão se envelheçam, e talvez nem lhes aproveite -  que têm uma graça natural, um mover de cabeça mais perfeito que a rotação da Terra, os cabelos mais lindos que todos os anúncios de champô, o andar sobrenatural de antes dos vinte. As garotas da Secundária vazam ternura nos caminhos. E tudo sem nos olharem, entretidas consigo mesmas.


quarta-feira, 20 de maio de 2020

Carrossel


Sentia-me de tal forma um intruso que gastava parte do dia rodando pelo pátio deserto a pontapear pedras e identificar os pássaros que conhecia pelo canto, pintassilgos, verdilhões, pardais, tentilhões, rolas, melros. Entendia a impaciência de madame Claudine, mas desolava-me a acrimónia enfastiada que me dedicava. Para não causar estrilho, fugia-lhe das vistas e, em presença, emudecia. Penalizado observava Monsieur Le Directeur que lhe sofria as azedas irritações de que eu era causa involuntária. Por vezes, enquanto deambulava sem rumo fixo, pensava em Eugénia. Em boa verdade, nunca a parente de tia Emília me fora de grande auxílio. Primeiro aparecera em nossa casa, corpo avultando negrumes, toda cochichos e lamentos pelo finado. Depois, talvez em memória da prima e não por apego de afecto, Eugénia procurava dar-me um tecto e desaparecia. Feito e refeito, não havia que duvidar ou ter esperanças. No meu infortúnio, pensava sem inveja na vida boa que ora teria.  Imaginava-a passeando por terras de França, país que eu continuava a desconhecer. A nova  Eugénia aguçava-me a curiosidade. Empoleirava-se em sapatos de salto, dera ordem de despejo à verruga, emagrecera e colorira. Não me era difícil colocá-la à beira de uma praia sacudindo a areia dos sapatos enquanto Fofuras se banhava magnânimo, um Apolo nadador. De tanto lhe observar as mãos paradas no volante, era capaz de apostar que Fofuras  nadava, corria e dançava com elegância. Seria um ás nesses e noutros campos. Tinha mãos finas, nem um calo a estragar-lhes o desenho. No meu mundo de mulheres, Octávio não ensombrava Fofuras, havia no último uma qualidade de requinte que me maravilhava e encostava Octávio às cordas juntamente com as botas de borracha, os calos das mãos e o mutismo. Nem Monsieur Le Directeur que passava o tempo agarrado ao telefone para me encontrar poiso, conseguia ultrapassar a minha idealização do companheiro de Eugénia.
Encerrado o colégio, Madame encomendava ao restaurante da aldeia as refeições. Eram apenas uns dias de intervalo até às desejadas férias. Nesse ano, os dias estenderam-se por semanas e, a dada altura, por entre os cumprimentos da praxe  e a encomenda, a cozinheira quis saber se Madame estava de boa saúde. E Madame, esqueceu a sua condição e desabafou. Não sei como nem porque não, mas, no dia seguinte, o padeiro da aldeia, cara enfarinhada e boina na mão, apresentou-se a falar com Monsieur Le Directeur. Que, durante férias, precisava de um ajudante na padaria, tinha mais trabalho e menos gente no activo. Era pouca a paga, mas comia e dormia. E que tomava conta de mim. Se quiséssemos… Fui chamado. Quando me inteirei do assunto, assenti. De pães não sabia senão comê-los, não conhecia o trabalhado, mas era uma solução, deixava de ser estorvo. Agarrei-a tal qual e combinámos que, depois de  almoço, seguia para casa do padeiro que é como quem diz, para o quartito minúsculo anexo à padaria.


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Um Fait Divers


E tentámos. E re-tentámos. Empurrava-a, havia um momento em que parecia estar a conseguir, equilibrávamos forças. Mas, num repente, a balança desmanchava, ela vinha para trás em todo o peso que eu inábil não sustentava e… chão. Minha tia, senhora enxuta de carnes, fazia coro comigo, entrecortando por entre gargalhadas, não sou capaz de subir isto, a gente nunca mais sai daqui. E perdíamo-nos de riso. E eu, agora é que é, vamos ter juízo. Agora não nos rimos tia, que é para correr bem. Se eu não rir, tenho força de certeza. Vá! Um, dois, três: forçaaaa! Várias vezes. E nada. Repetíamos a fase de equilíbrio periclitante e depois o peso dela vencia-me e voltávamos à estaca zero. Entretanto, solicitei ajuda, é pá, tens que dar aqui uma ajuda senão nem chegamos a entrar no táxi. E ríamos desalmadas. O noivo veio, ocupou o lugar de guindaste e num segundo a pôs dentro do táxi. Entrei de seguida, as duas rindo parvamente. Fechou-nos a porta e regressou à sua festa descansado.
Primeiro, comentámos a nossa triste figura e rimos ainda mais. Tentei distrair o riso e comecei a olhar o exterior. Noite e luzes, algumas casas iluminadas. Digo para a minha companheira, não sei para que estou a olhar, não conheço nada, pouco vejo e não faço ideia do lugar em que estamos. E Logo ela, ai, e se o homem nos rouba? Deve ter percebido que somos estrangeiras; e se pensa que somos ricas e nos quiser roubar, o que é que a gente faz. E eu a acordar de repente, ó tia, trouxe carteira? A pochette só tem lenços de papel. E minha tia assustada com outro assunto, ai Bea não estou a gostar da cara dele, o homem está farto de olhar para a gente pelo espelho retrovisor. Ó tia, com a palhaçada que fizemos, se não olhasse é que era admiração.  E para que é que o senhor nos quer, não me diz; ricas!, nem carteiras temos;  o que me preocupa é pagar o táxi. Mas minha tia fincava-se na desgraça, antevia o roubo das nossas pessoas, ele leva a gente aí para um descampado e não conhecemos nada; com este escuro, sabemos  lá se estamos  a caminho de casa.
Entre os medos de minha tia e os meus receios pecuniários fui alinhavando umas frases sobre ir lá acima – lembrava-me de upstairs e downstairs – e trazer a carteira para fazer o pagamento (nem me ocorreu que a moeda era diferente). Mas, facto incrível, não parávamos de rir. Aqui me penitencio, ia desenhando com pormenor as cenas que minha tia imaginava e levava-a a rir em dobro, no que eu acompanhava. A dada altura, o condutor, que me parecia inofensiva pessoa e bastante profissional, emitiu um jocoso, “big party, hem”?  Achei ligeiramente estranho, mas acenei que sim a limpar as lágrimas. A desconfiança de minha tia, que é que ele disse? Eu, fez um comentário sobre a festa. E ela com mente de filme negro, vais ver que ele já sabe que não há mais  ninguém em casa; e se vem atrás de nós para roubar tudo, que é que a gente faz. E eu, Tiiiiaaaa!
Na hora de descer  já éramos as antigas de nós. Mal iniciei a conversa que tinha estudado sobre o pagamento, ele que não, o pub pagava. Sorriu, desejou-nos boa noite, inverteu a marcha e apontou-nos a porta de casa.
Resumindo: no dia seguinte, pedimos ao noivo para nos desculpar perante o condutor. Que figura, o senhor havia de pensar que éramos duas portuguesas chaladas. Mal vistas por pessoa que decerto nunca mais veríamos, isso é que não. Resposta, não se preocupem, falei com ele antes de vos trazer, expliquei-lhe tudo. E eu, feita a palerma que sou, ai que querido, e que lhe disseste. Disse-lhe que vocês estavam as duas bêbadas e já nem conseguiam subir para o táxi. Que vos levasse a casa e reparasse se entravam na porta certa.
FIM

quinta-feira, 14 de maio de 2020

Um Fait Divers

Da cerimónia numa igrejinha florida com as cores do ramo da noiva, as peripécias pertenceram  à filha do casal que atrasou o enlace para aí uns dois anos e se passeava na carpete vermelha, a perder os sapatos minúsculos, tão linda e loira como a mãe, vestidinho branco, casaco e lacinhos em dois tons violeta a copiar o matiz das flores. A noiva estava gloriosa, simples maravilha no seu vestido que esperara anos pela ocasião.
Há quem diga que o almoço foi um portento, mas, para portuguesas de gema como nós, não valeu nada. Pouco aproveitámos, “matámos a fome”. Sabendo-nos gulosas, a noiva recomendara os bolos, mnhã, mnhã, mnhã. Expectativa gorada. Eram doses individuais de cheese cake que até me pareceram coisa instantânea que se vende em supermercado. Na lembrança das nossas mesas de doces, aquela nica que os ingleses raparam contentes, soava-nos a anedota. A compensar, houve discursos e brindes que nunca mais acabavam, dos pais, dos padrinhos, das damas de honor, das  amigas dela, dos amigos dele, dos amigos dos dois. Dali seguimos para o pub alugado para o efeito e onde assisti incrédula a um espectáculo de extraordinário desempenho e sincronia dançante por parte dos ingleses em geral, velhos, novos e de meia idade. Pela mostra, deduzi que se juntariam em festas e que dançavam sempre as mesmas músicas, havia ali muito treino. Jamais esquecerei os saltos altos das mulheres e a desenvoltura que as animou horas a fio. Mais parecia estarmos naqueles filmes indianos em que há uma multidão dançante que faz rodas e liga e desliga e volta a rodar e dar as mãos. Gostei de vê-los, mas era peixe fora de água e fartei-me de observar. As efusões festivas deixam-me sem jeito, por mim, o casamento estava acabado. Auscultei minha tia que se aborrecia a meu lado, queixando-se de uma perna.  Queríamos ir dormir para uma casa que não sabíamos onde era. Abordei o noivo. E ele, que a noite ainda estava no princípio e tal e tal. Estaríamos com ar especialmente enjoado porque nos olhou e anuiu, querem ir já? E eu que nunca me lembro que há táxis, se nos levares; a gente nem sabe onde é. Ele, não preciso ir. Soou-me um alarme cá dentro, vamos a pé? Dás-nos a chave e vamos a pé? Ai a gente vai-se perder de certeza. E ele a rir, dou-vos a chave, mas são mais de seis quilómetros, pensam que estão onde? E eu, sei lá, não fazemos ideia nenhuma. Ele divertido, não se preocupem vou falar com o motorista do táxi que está de serviço ao pub. 
Apenas nos filmes tinha visto um táxi inglês, mas sempre julgara que fosse modelo de outra época. Só que os ingleses fazem gala em manter a dita - em algumas que são bastantes coisas. Um soslaio e adorámos o táxi. E, ou porque o noivo estava contente, ou por qualquer outra razão não etílica, estávamos também todas sorridentes, talvez pensando na proximidade daquela cama que nos esperava. O noivo abriu-nos a porta do táxi e foi indicar o endereço ao motorista. Minha tia rindo para os degraus do automóvel, ai com esta dor na perna não sou capaz de subir este degrau tão alto. E a tentar, ai Bea eu não consigo, é que nem pensar. E eu que faço sempre tudo fácil, não é capaz o quê, eu empurro, tia; vá, um, dois, três: forçaaaa!


quarta-feira, 13 de maio de 2020

Contra a Corrente


O confinamento começou por ser um auto sequestro e acabou em imposição estatal. Como toda a imposição, não foi um mar de facilidades. É certo, cada um esteve em sua casa em tele trabalho ou sem obrigações de maior, próximo – em princípio – de quem mais lhe é querido. E havia  aqueles inda bastantes  que não confinaram. Era necessário que alguns continuassem no seu posto. A comandar, o pessoal de saúde que convivia e assistia os infectados. Mas também todos os outros que nos permitiram estar em casa rodeados de conforto. E não faltam por aí programas de rádio e Tv, bloguers e faceboquianos, mensageiros de what’app e outras redes, a desembrulhar e exibir as múltiplas funções descansadas e positivas do confinamento. Advogam que foi tempo reflexivo, que fez certa limpeza nas relações e manteve as realmente próximas, que permitiu limpezas em casa, que deu a pais e filhos mais tempo para estarem e se compreenderem uns aos outros, que deu tempo para cumprir e voltar aos hobbies, que aproximou os casais no repartir de tarefas, e até, vejam bem, melhorou o planeta. Lendo e ouvindo, quase parece hiato necessário, trouxe-nos o tempo que a todos faltava para; e, caso a caso, teve a sua performance. Tudo se fez, afinal, da melhor maneira. Rendeu. Portanto.
Entretanto, nada tendo a ver, preocupa-me que o buraco na camada de ozono tenha fechado. Fechou?! Então não era dano irreversível, coisa que, como os outros buracos, só alarga e com a agravante de ser impossível remendá-lo? Pois, parece que não. Li que fechou. Não constava na última radiografia, mas a cura é alheia a qualquer esforço humano. Resumo: o planeta sabe recuperar-se, coisa que nunca aprenderemos. Ah, pois, o covid-19 e a pandemia e o confinamento. E a minha tristeza por não lhe encontrar piada ou mérito mesmo que indirecto. A minha casa está tão arrumada ou desarrumada como sempre; e, se limpasse alguém dos meus afectos era capaz de ficar deserta, portanto, Deus os conserve que são tão poucos. Vivo exactamente da mesma forma que antes mas sem as partes boas: fiquei longe do que e de quem gosto, deixei de esperar pelos dias; no meu horário, noite é a parte boa, tem um tempo que passa sem dar por ele. É indubitável, dormir tem sortilégio próprio.
Lamento contradizer as vozes gerais mas livros, filmes, séries e mesmo as minhas flores são coisas demasiado menores, não chegam a uma alegria pequena; já me fartei de bolos (embora os mantenha); detesto arrumações e não tenho pachorra para mudanças, pago para não mexer no lugar das coisas em casa. Diz Filomena Molder que as casas são uma chatice, começam a envelhecer desde a construção, exigem-nos, requerem a nossa atenção constante; ou caem de podres.
Olho em frente e andam a inventar normas para limitar a frequência nas praias. E eu tanta vez sozinhita um dia inteiro, sei de antemão que as normas e regras me prejudicam e repugnam, praia é lugar de liberdade. Ou seja, voltar a antes não é possível; o presente não é aliciante; e o futuro, visto daqui, do alto do tempo de calamidade e com o covid em fundo, não vale um chavo.


terça-feira, 12 de maio de 2020

Um Fait Divers


Faltava meia hora para o casório. O noivo dava pressa a todos, enquanto ajudava meu pai com um fraque que nunca o tinha visto mais gordo e uns sapatos de verniz brilhante. Meu pai sentado na cama em peúgas, já de rosa na lapela e ainda a resmungar, sapato na mão. Fixo no adorno de fivela, depreciava num misto de desdém e estranheza, mas para que é isto bom, então os meus sapatos não serviam; e ajudando com a calçadeira, estão novinhos, só os calcei no casamento da Bea e no funeral de x. Para que é este gastador de dinheiro, uns sapatos que não me servem para mais nada, foste gastar o dinheiro nisto para quê, eu nunca gostei de sapato de verniz. E, depois de calçado, a levantar-se e a mirar o espelho, olha lá, tu não tens aí um bocado de laca, é que o arrepio da frente espeta por todo o lado. E o noivo, feliz por inteiro e de ponto em branco, empapoilado, lindo, qual laca, aqui ninguém usa isso, vamos mas é embora, está bom assim. Meu pai a olhar a imagem vaidosa e ainda a duvidar, eu pus-lhe água, mas ficava melhor com uma bombada de laca. O noivo a rir, pensa que isto é o quê, alguma cura nas laranjeiras. E sem transição, vamos embora que já estamos atrasados. Entreabriu a porta da cozinha, espreitou e, vejam lá se chegam antes do fim. Um inglês muito calmo, tem missa? E o noivo, tem. Então comemos o resto.  Ele riu e fechou a porta.  Entretanto, minha tia tinha ido ao nosso quarto num instante e estendia a laca ao irmão, vá lá que eu a trouxe, põe à tua vontade. Saímos.
Lá fora, um dia de sol garrido. O noivo a exultar, é o primeiro dia de sol deste ano. E quanto gostei do lugar. Na frente de cada casa verdejava um jardim airoso sem uma folha velha ou erva daninha.  A rua deserta. Nada. Só as habitações todas iguais com seus jardins de cores alternadas. Um mimo. E, ao meu agrado o noivo, pois é, tenho de pagar isto tudo, pensas o quê; a renda da casa inclui o arranjo de exteriores e não escolhemos nada, são os serviços que fazem tudo.
Depois, fomos de carro até à igreja, por caminhos que me pareciam o bosque da Branca de Neve ou assim, os esquilos a atravessarem a estrada de um lado a outro e o noivo cauteloso, não se podem atropelar, somos multados, é espécie protegida, os ingleses são malucos pelos esquilos. E abria as janelas bem disposto, é pá tenho que abrir isto a ver se o cheiro da laca evapora. Minha tia a fingir-se ofendida, hã, hã, até cheira bem, ouviste. 
Enfim, eis-nos na igreja. Até esse momento, achávamos nós que a farpela condizia com o acontecimento. Mas, louvado seja Deus, que engano. Entreolhámo-nos, íamos as quatro de preto, tudo preto: casacos, saias, calças, vestido, sapatos, malas, luvas. Sem combinação prévia, acabámos todas iguais, no género tão português, “o preto é chique, dá um ar”. Portanto, estávamos bem. Muito finas, mas em Portugal. E é que, excepto o tom de pele, não havia em nós um rudimento colorido. Mas as inglesas, meus deuses, brilhavam em claridade e tons pastel. E olhavam para nós estranhamente, senti-me – só por um bocadinho - elemento de um trágico  coro grego. Mas aceitei, éramos nuvem negra compacta por entre risonha primavera. E isto pensei enquanto, educadas,  nos cumprimentavam, talvez a julgarem que Portugal está cheio de viúvas ou que as portuguesas são estranhas e funestas criaturas.
(cont.)

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Desgosto


O que é que de humano não se cumpriu quando  alguém  mata uma criança inocente. E como pode o monstro que tira a vida à própria filha, usar o nome de homem.

Um Fait Divers


O casamento realizava-se de manhã e chegámos de véspera.  A noite ia alta quando aterrámos em Heathrow e já o nosso portuguesito aguardava. Rumámos a sua casa sem incidente e tratámos de descansar. Dormi com minha tia na cama do casal e lembro-me de acordar com a claridade, uma perna descansando sobre o aquecedor de parede. Ainda não eram as cinco e já a luz exterior invadia o quarto, aquela gente não usa persianas e não tem o nosso hábito de ambientes escurecidos para dormir. Enquanto a minha companheira dormitava, embeveci à janela, observando incrédula três esquilos que brincavam no quintal sobre uma mesa redonda e que, não fora os movimentos, me pareciam ternos bibelots. Encantei no espaço, separado da rua e possivelmente de outros quintais por sebe muito verde. Os meus olhos seguiam a vida dos esquilos que atravessavam a sebe, sumiam e regressavam. E não eram apenas três. A natural desenvoltura dos animais fez-me presumir habituação ao lugar, pensei mesmo que seriam da casa.
Como sempre, fui a primeira a tomar o pequeno almoço. Havia pão, leite, manteiga, queijos; e eu levara um tupperware com café solúvel. Tinha ouvido dizer que em Inglaterra não havia café, os ingleses não têm hábito de tomar bicas e, se as havia, eram sem préstimo. Na altura, a bica era-me imprescindível. Deu jeito a nós três e em todas as manhãs, parece que o café disfarçava  o sabor esquisito do leite. Bem, mas quando os rapazes ingleses se levantaram e nos viram a comer torradas e beber café com leite, fizeram um esgar como se mastigássemos serradura e negaram-se a acompanhar-nos. Espiolharam o frigorífico e franziram o nariz. Entreolharam-se e afirmaram peremptórios que queriam um pequeno almoço a sério. Debandaram e ouvimos bater a porta da rua. Traduzido o que eu entendia do que eles diziam, foi unânime que eram muito finos e tinham ido comer fora. E não pensámos mais neles.
 Abandonávamos a cozinha quando ouvimos a porta. Eram os mesmos dois ou três e caminhavam em balança, um saco de cada lado a abarrotar não sabíamos de quê, além de uns indiscretos cacetes gigantes que, em desplante atrevido se perfilavam acima dos sacos. Dirigiram-se à cozinha e fomos enfeitar-nos para a boda (no meu caso, vestir um vestido e calçar uns sapatos e no das minhas companheiras, idem). Quando descemos, garanto, não havia espaço livre na mesa da cozinha: ovos quentes, ovos mexidos, sumos, bacon frito, fiambre em grandes nacos e também frito, milho, feijões vermelhos cozidos, bife, e sei lá que mais.  Uma catrefa de frigideiras e pratos sujos no lava-loiça e a mistura de cheiros, davam conta da azáfama. Sentados à mesa, manga arregaçada como se se aprestassem a uma trabalheira, os ingleses conversavam baixo e, ininterruptos, iam comendo  de uma malga e de outra, os cacetes, ora partidos em bocados, a desaparecerem. Ofereceram-nos e declinámos com o mesmo bom modo que tinham usado connosco.
(cont.)

sábado, 9 de maio de 2020

Um Fait Divers


É uma história antiga e a pedido. Os participantes, não obstante os anos que passaram, estão no mundo dos vivos e é provável que dela recordem pormenores que a minha memória considerou despiciendos. Na ausência de outra versão - que eu saiba, nenhum a passou à escrita -, terão de contentar-se com o que recordo.
Na primavera em que o meu filho mais novo frequentava o segundo ano da escola antes dita primária, houve o alinhavo de um abalo quando a família recebeu o convite de casamento. E logo ligámos uns aos outros. Auscultávamos quem tinha sido convidado e as hipóteses de presença. Afinal, a boda era em Inglaterra e a noiva uma inglesinha loira que já conhecíamos. Entrava-nos nas economias. Nenhum de nós tinha alguma vez posto  pé em terras de sua majestade a rainha Isabel II. No mínimo, estranhávamos  confraternizar com gente que não entendíamos e de certeza esquisita, porque os estrangeiros são dessa qualidade. Mas o nubente era-nos muito querido, gostávamos dele a valer. Após ponderação de factores, entre desistências imediatas, nãos que viraram sim, e evasivos talvez, apurámos quatro pessoas. Eu, meu pai, a minha irmã mais nova e uma tia irmã de meu pai. De pedra e cal. Só por morte não voávamos até Heathrow. Cada um tratou dos seus pertences e alfinetes para a boda, comprei os bilhetes por junto, avisei da documentação, fretei os serviços do meu motorista privado e marquei a hora da partida na casa de cada um. Era tempo de flores e sol, braços e pernas a descobrir a liberdade. Mas, de Inglaterra caprichosa e muito ela, temíamos o frio, a chuva, e até, quiçá, um reticente smog de inverno atardado na debandada do gelo e que ali nos fizesse surpresa.
Na data e hora aprazada,  lá partimos. Atracados a uma maleta pequena, seguimos de mistura com ingleses talvez contentes pelo regresso a casa, passada natural de quem está habituado a viagens, a sua discrição em contraste com os nervos da nossa verbosidade (eu e a mana). Sobressaltando do vulgo, o receio dos nossos acompanhantes ensarilhava-se nos pés e, desde a manga que nos conduziu ao aparelho, evidenciavam certa dificuldade no andar, o medo a puxá-los para trás. No avião, eles num banco de três lugares e eu no lado oposto, anexa à coxia. Todos juntos. Era a minha segunda viagem de avião. Tinha viajado a Paris na Air France e o pessoal de bordo apresentara-se tão estilizado como publicidade de revista. Portanto, esbugalhei para a hospedeira de meia idade, barriguda e estrábica, que nos alertava em linguagem gestual e voz off, metida em saia de pregas assaz inconveniente à desbunda do corpo. E eu a pensar, está bem, está; se isto cai nem consigo tirar o colete do lugar, quanto mais. Num soslaio à lateral, três perfis muito atentos olhavam a senhora. Mal ela terminou, minha tia mete a cabeça fora do friso (ia no lugar do meio), ó bea, que é que ela disse. Eu, nada de importante, tia, é só para o caso de haver algum problema. Ela encostou o desalento resignado e saiu-lhe interjeição tão cava e suspirosa como se estivéssemos à beira da queda livre. 
Depois do cinto posto, silenciaram o terror e, na subida do aparelho, a tensão adivinhava-se na força das mãos enclavinhadas no suporte dos braços, amparo de nada que lhes parecia alguma coisa. E, apesar de a não ver, tenho certeza que minha tia, olhos fechados, balbuciava para os interiores, ai valha-me nossa senhora. Meu pai, esse, petrificara. E compadecia observar a aflição que gritava  pelos nós dos dedos de onde o sangue lhe fugira.
(cont.)

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Próximo da Zona de Embarque


Ao pequeno almoço, entretive-me a ler a crónica de Dulce Maria Cardoso que, afinal – dou a mão à palmatória –, continuou Lobo Antunes nas crónicas do meu coração. Todo o conjunto de outras crónicas, por mais bem escritas, não me entram igual e nem no mesmo lugar. É uma crónica sobre velhos e covid, mas, acho eu, que sou uma achista daquelas que muita gente não absolve por achar ser coisa de acaso, e os achismos assim e assado. Pois eu acho, hei-de continuar achando enquanto viva, e estou-me positivamente borrifando para os cientistas da opinião, aqueles que nunca acham, que opinam com ciência e rigor, que sabem e não se baixam a achar nada, que isso é coisa de pobretanas mal informados com sede de pôr a boca no mundo e amandar baboseiras para cima dos colarinhos engomados - metafísica ou realmente - dos conceituados donos da opinião universal. Pronto, eles têm razão. Mas, ainda assim, estamos num país livre e, portanto, dentro de todos os achismos que proliferam, lá está, preto no branco, o meu. Mas não esqueçamos o assunto em causa, dizia eu que acho mesmo que a citada crónica é mais sobre a velhice que acerca do malfadado vírus. E isto porque a senhora Dona Dulce Maria (no que me lembra certa Inês Maria que tem voz e gargalhada extraordinárias além de também escrever uns textos supimpas). Bolas, já me distraí de novo. Pois a Dona Dulce que é também Maria escreve muito acertadamente que a mãe (a sua) embora não use as felizes palavras de Eduardo Lourenço, sente o mesmo que ele – um pensador é outra coisa com as palavras, mas provavelmente não arruma os quartos nem recebe com mesa posta e assados no forno e bolos; digo eu. E não é que é verdade e existem sintonias? Se não fora esta comunhão, como é que os escritores vendiam? Bom, não nos dispersemos de novo (se escrevo, nos, fico muito mais descansada, sou eu no meio de muitos) e vamos ao oráculo de Eduardo Lourenço. Encontrando-o a escritora num dia de ridente sol em que passeavam ambos pelos tão, mas tão agradáveis jardins da Gulbenkian – aqueles tais onde eu devia ter namorado -, à trivial pergunta sobre como se sentia, respondeu o eminente com outra pergunta, “Como acha que se sente um homem que fita o abismo que o levará?”. A mãe de Dona Dulce, perante a perspectiva de confinamento até final do ano diz antes, a rejeitar de um lado e a aceitar do outro, "Já temos tão pouco tempo e vamos gastá-lo assim?" E Eu, que sou um bocadinho mais nova que ela, penso igual; mas reparo que, na gente da minha faixa, a verdade anda subsumida, não é tão directa. Em vez do fim, fala-se do tempo, da primavera que reverdece, da algaraviada dos pássaros e outros nenhures. Ou dizemos como aquele senhor por cuja casa passo nas caminhadas, a quem apenas digo bom dia se está sentado à porta. Ontem tirava o carro de recuas e eu no passeio, à espera da manobra completa. Quando saiu a fechar o portão e já eu iniciava a marcha,  disse simpaticamente, “parece que hoje está mais macio”. E eu que sim, estava mais agradável. Não sei onde fomos buscar a conversa, mas terá sido ao antigo de nós.  

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Névoa


Um Estado de Calamidade há-de ser coisa catastrófica, do pior. Calamidade é termo assaz infeliz para definir uma retoma cuidadosa, ou o que se pensa como tal. Mas, se não se entende a designação, menos se entende que, num regresso cauteloso, as Tvs recomendem prudência a torto e a direito – coisa razoável, o vírus não emigrou – e depois, façam um périplo pelas cidades de norte a sul e concluam, naquele meio ar tristonho, que ruas e lojas continuam às moscas e a afluência é apenas de necessidade. Decidam-se: não foi o que recomendaram? Não é o que as duas senhoras que já enfastiam, tanto recomendam? Pois então. Convenceram os portugueses que o SNS não suporta uma vaga séria de covid-19. A malta, que tem medo de morrer desde que o mundo é mundo,  refreou as doenças corriqueiras, as crónicas, o mal estar assustado mas não fatal, no serviço de urgência dos hospitais; e os médicos de família autoimpuseram-se uma quarentena sem fim (ainda não terminou, vá-se lá saber porquê, mas deve ser por medo deles). E vai-se a ver temos uma população mais saudável desde o covid-19. Não há como um vírus para melhorar doenças, a poluição nos oceanos, o ar que se respira e a nível geral. Até os cientistas já verificaram que o buraco na camada de ozono fechou (tiveram o cuidado de dizer que não foi devido ao vírus). Regride-se ao tempo em que não havia férias (haver há mas de pouco valem, não se pode ir a lado nenhum sem risco), não há domingos e feriados de passeio, não há estrangeiro que nos receba. Cada um em seu poiso e todos ligados.
A net, que à generalidade das pessoas conquistou desde o primeiro minuto de uso, por este andar vai enfastiar, fica-se enfartado dela como de um prato de favas com chouriço. Que uma coisa é a liberdade de uso e até a transgressão; e outra, ser a única hipótese de conversa e socialização fora de portas. E, quem sabe, dentro da família próxima, aquela que nos acompanha e está no mesmo barco, se geram sintonias desconhecidas e antes inibidas por tanta solicitação exterior. Os divórcios adiam-se ou prescrevem, os desavindos irmanam-se, os insolentes baixam a grimpa de boa mente, os descontentes silenciam. E posto que até a alma parece curada de seus males, fica só a astuta ganância a rilhar o dente, congeminando por onde rebentar as barreiras que a promessa de morte macabra ergueu no espírito dos homens de boa vontade. Ela e eu aguardamos a liberdade que não há. O mundo pode não ser igual a antes. Mas, digo eu, se não for livre, é de pouca serventia.


domingo, 3 de maio de 2020

Dia da Mãe - Fim do Primeiro Acto


Último dia de confinamento. Um dia de verão, diz a meteorologia. Também o dia que a convenção te atribuiu.  Hoje, primeiro domingo de Maio, é Dia da Mãe. Dia das mães que não se visitam, são vistas por Skype, em vídeo conferência, através de uma janela. Ou a celebração faz-se por telefone.  Ou, se és mãe ainda jovem, tens a sorte de os filhos dentro de casa, e recebes, suprema glória, uns beijinhos e abraços, fazes um almoço melhorado, inventas uma brincadeira nova, serves a sobremesa preferida (deles). E sentes que a vida encaixa, arruma-se, vale a pena. Logo à noite, quiçá já na hora de almoço, as televisões desdobram-se em mostras do amor filial emoldurado em corona vírus. E tu, hoje, especialmente hoje, ficas bem na fotografia do encerramento que não vai ser.
Ao invés do habitual, não te comprei flores e nem te visito. Sei, moras no mesmo concelho. Desculpa.  Também não as vou ter. No meu telemóvel vai entrar um sms que diz, como sempre, “feliz dia da mãe”.  Mas hei-de sair de bicicleta, a aragem a bater-me no rosto. De bicicletas soubeste a parte má, arrumá-las e atar livros e almoços no suporte. É também por isso que insisto e  te levo a passear. Anda, vamos…

sábado, 2 de maio de 2020

Dois de Maio


         Penúltimo dia de confinamento. Depois de amanhã passamos à amável situação de calamidade. Então, vou postar em dias alternados. Porque sempre gostei de saltos. Portanto. Quiçá apuro as meninges. Estive a reler  os escritos deste tempo e é fora de dúvida,  preciso de um refresh, é prosa  claustrofóbica e um dia destes ainda encaracolam bolores e  cogumelos texto acima.
         Nesta era de medidas sanitárias, o fim de semana apenas prolonga a modorra indistinguível dos outros dias. Em tempos, havia por vezes os filhos e uma ou outra visita. Em tempos, curtia a solidão da casa, almoçava de apetite na hora do desejo; lia, escrevia ou sentava-me na rua sem bulir, olhando o mundo das coisas rodeado de insectos e animais pequenos a fazerem a sua vida sem alarde, alheios à minha presença de gigante pacata.
         No início das restrições, assinalava o fim de semana com um bolo ou um doce. Mas  foram semanas em demasia. Apesar da minha imortal fome de doces caseiros, ainda sou capaz de reconhecer que o maior prazer é comê-los em companhia. Sabor tão esquecido e que minguou a vontade. Talvez saltando umas semanas consiga renovar o prazer. Quem sabe.
         Portanto, os meus vestidos passaram a ser o sinal de fim de semana. Um arzinho de diferença. E provei na carne a falsidade daquelas mulheres que afirmam peremptórias, um ressaibo de orgulho indomado na voz, eu visto-me para mim, gosto de estar bem para mim.  Bom, não digo que não gostemos de nos olhar ao espelho e nos agradar a imagem. Mas ninguém, mulher ou homem, se veste apenas para si. Que pobreza, essa auto satisfação quase fanfarrona. Vestirmo-nos é uma necessidade (nus, sofreríamos bastante mais) e um pressuposto social, uma convenção. Quem lhe fuja, sofre as sanções respectivas. Mas o avanço civilizacional exige mais. Não quer apenas que a roupa nos cubra por necessidade e obrigação. É preciso juntar o agrado. E o agrado, bata onde bata, procura um tu (outro espelho), não se limita à bazófia vulgar de, visto-me para estar bem para mim, os outros não me importam. É que importam. Importam sempre. Ainda não descobri por que fazemos afirmações tão tolas como se fossem verdades insofismáveis. 

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Um de Maio


Há certa falta de viço neste Dia do Trabalhador em que celebramos as tão suadas vitórias e lutas por melhores condições laborais. E quanto por elas se sofreu. A vontade que foi necessária para levar avante a luta contra o poder. E por quanto tempo o trabalho se manteve ainda em condições desumanas.  Em Portugal, tanto devemos a Abril de 74. Tanto.
À beira de não sabemos o quê que se segue, falta vontade genuína, o anseio de futuro minado pela interrogação. Ter esperança em quê; continuar a luta para obter o quê; o que é que vai seguir-se ao lay off. A antevisão de despedimentos e falências não nos abandona. A certeza de um vírus presente e para que não existe vacina, também não. Portanto, celebrar conquistas laborais à beira não se sabe de quê, mas que vai afectar fortemente as pessoas e o sector,  que pode desmoronar a economia familiar de muita gente, não dá muito campo à esperança. Ninguém sabe o que, nem como, vai ser a continuação. Estamos a reerguer-nos, oiço dizer. Mas quando faltam certezas desta natureza, quase vitais, o receio acentua-se.
Talvez Maio nos esclareça. E oxalá não nos conte aquilo que não queremos mesmo saber.