Sempre
que fazes anos há uma exultação em fundo triste, acordéon que atapeta de
alegrias a desalentada plangência de violinos a vincar o fim do décor. Aquecemo-nos
em gargalhadas e ditos, lembranças e memórias risíveis a que então não encontrámos
graça, quotidianos nadas que, em
companhia, resplendem. Em companhia e por sofrimento. Juntamo-nos as três e a
cor da vida altera, em escasso tempo vivemos rosa, azul de céu, amarelo soalheiro.
A junção de forças gera uma alegria centrífuga de que os outros são satélite. O nosso riso escapa pela janela aberta, rola rua abaixo, galga para lá do portão
que já não fecha, atravessa a estrada e entranha nas paredes de casas fronteiras;
há um resto de nós em lugares onde só a voz chega, que nunca pisámos e nos são
estranhos. Um fundo de boa disposição plana acima de conversas e barulho. Li na
“Carta a um menino que não nasceu” de Oriana Fallacci, que o sofrimento propicia
sinceros e alegres sorrisos. Condiz. Lá fora,
a noite preencheu os interstícios de laranjeiras insomnes que avultam hirtas e rotundas,
quase barriga com barriga, e a que estragamos o sono. Juntarmo-nos segrega uma névoa sobre o mal que
nos é próximo, que está no meio de nós, mudo, sombrio, pronto a agarrar-nos. E
os pequenos bichos da terra emudecem, respeitam o som que lhes não pertence e,
perplexos, adiam o reinado que a noite promulgou. E é como se gargalhadas e
ditos nos isolem do pior que sabemos. Mas, no burburinho feliz, cada uma se interroga,
“até quando”. E tu que nem sonhas e nem sabes, tu desanuviado nos oitenta e
sete, orgulhoso, sou o mais velho da terra. E rematas triunfante, os outros já
bateram a bota. Estás contente e sais a espaços do teu mundo de silêncio. Que sabes de nós?! Tu, sempre de costas para sofrimento alheio que te desarranje a
vida. Tens trabalho restrito, manter-te vivo. E, contudo, laborioso. De facto, só agora fazes os anos.
sábado, 30 de maio de 2020
segunda-feira, 25 de maio de 2020
Reencontro
Tinha
já a insuspeita cor do verão e a luz era tão clara que adoecia nos olhos. Uma
ou outra criança sem alarde e o som ritmado de ondinhas folgazãs em desmaios
enviesados como quem apronta uma partida, correndo numa direcção e a inflectir, de
súbito, noutra. O leve som da água batendo palmas de espuma, contente de haver verão
num dia de primavera. Eu, franzida para o azul esplêndido do céu; baixando as
pestanas, a esfumar, a linha do horizonte. À direita, num virar de cabeça, a rigidez
tímida e nebulosa da serra, pedindo desculpa de assim despida, nua, pele áspera,
mazelas aqui e ali por entre o verde que se adivinha além névoa. A serra de sereno
perfil, mistério de alma cândida guardando as águas. Lá atrás, um caminho de calor nas dunas
floridas de amarelo e rosa-lilás e a ausência dos cardos azulados e marítimos
que, em Agosto, se erguem belos e terríveis e convidam, vem!, beleza trágica e intocada de
sangue e espinhos, um indescritível pavor de calcanhar que a
mente adivinha. Erguendo um pouco a cabeça, abraço com os olhos a transparência
anilada, paixão dos meus sentidos, fundo desejo da alma. Sou desta praia como
de nenhuma, lugar onde volto a ser criança. Braços abertos, riso de água cheio
de gotas, rodeia-me, quanto tardaste.
quinta-feira, 21 de maio de 2020
Quinta Feira de Ascensão
Tem
dias em que o covid me inspira. Não ele,
mas as decorrências. Além disso, não
esqueço a promessa que fiz aqui de ir dando notícias em croniquetas do arco da
velha.
Como
escrevi em algum lugar (blog), a primeira
pessoa que encontrei no passeio matinal (cruzámo-nos, cada uma de seu lado da
estrada) foi "uma rapariga da minha idade”, conheço-a dos bancos da escola
primária. Pois a "rapariga" regressava a
casa e trazia na mão ramo mui gracioso que me acordou para a data, hoje é quinta feira da Ascensão, dia da espiga. Desde
essa ascensão milagrosa que Nossa Senhora tomou o gosto e vai daí de vez em
quando desce à Terra e ascende. Não há-de ser mau. O que é que a espiga tem a
ver com Nossa senhora a ascender ao céu, não sei, apesar de ser católica romana
e apostólica, de minha mãe ter sempre um raminho benzido no domingo de ramos e
que meu pai, um incréu do piorio, pendurava de amuleto nas searas. Mas hão-de
estar relacionadas, talvez. E é que também passei pelas espigas, mas só passei.
Coitadinhas das espigas.
De
caminho, revi uma das velhotas que se sentava num recanto junto aos eucaliptos
a conversar. Pois ela tem quase oitenta anos e está proíbida de sair. Queixou-se-me:
quer conversar, há mais de quatro meses que não sai de casa e está fartinha do telefone,
já nem o pode ver. Atravessei a estrada para poder ouvi-la. E ela contente, a
passar a mão pelo desalinho dos caracóis que lhe caíam no rosto, dedos procurando
a lassidão do gancho. E olhava-me dolorosa, ofendida com as amigas que passavam
sem parar para uma converseta, com as
vizinhas que todas se afastam mal ela as chama e começa a falar, e que assim
não pode ser, de tão longe, mesmo que falem, não as ouve. E tornava, então
diga-me lá, já oiço mal e botam-se naquela lonjura para quê? Disse-me a minha
filha que o bicho só precisa de dois metros, para que é aquilo. E ia-se chegando.
Começámos para aí a uns seis metros e terminámos quase a par. Talvez tenha
pensado que fiz como as vizinhas. Mas não.
Dia de compras. Chegada ao super, pus a
máscara e o parvo do elástico rebentou. Bonito serviço. Já inflectia para casa
quando me lembrei que na mala jaz o artefacto que alguém me deu. De
modos que fui toda florida comprar os
géneros; de resto, é a mesma aflição.
De
regresso e já sem máscara, vi as garotas da Secundária trajando verão. Tão
bonitinhas. Ficam horas ao espelho a experimentar isto e mais aquilo. E não
sabem - nunca saberão senão se envelheçam, e talvez nem lhes aproveite - que têm uma graça natural, um mover de cabeça
mais perfeito que a rotação da Terra, os cabelos mais lindos que todos os anúncios
de champô, o andar sobrenatural de antes dos vinte. As garotas da Secundária vazam
ternura nos caminhos. E tudo sem nos olharem, entretidas consigo mesmas.
quarta-feira, 20 de maio de 2020
Carrossel
Sentia-me de tal forma um intruso que gastava parte do dia rodando pelo
pátio deserto a pontapear pedras e identificar os pássaros que conhecia pelo
canto, pintassilgos, verdilhões, pardais, tentilhões, rolas, melros. Entendia a
impaciência de madame Claudine, mas desolava-me a acrimónia enfastiada que me
dedicava. Para não causar estrilho, fugia-lhe das vistas e, em presença,
emudecia. Penalizado observava Monsieur Le Directeur que lhe sofria as
azedas irritações de que eu era causa involuntária. Por vezes, enquanto
deambulava sem rumo fixo, pensava em Eugénia. Em boa verdade, nunca a parente
de tia Emília me fora de grande auxílio. Primeiro aparecera em nossa casa,
corpo avultando negrumes, toda cochichos e lamentos pelo finado. Depois, talvez
em memória da prima e não por apego de afecto, Eugénia procurava dar-me um
tecto e desaparecia. Feito e refeito, não havia que duvidar ou ter esperanças.
No meu infortúnio, pensava sem inveja na vida boa que ora teria. Imaginava-a passeando por terras de França,
país que eu continuava a desconhecer. A nova
Eugénia aguçava-me a curiosidade. Empoleirava-se em sapatos de salto,
dera ordem de despejo à verruga, emagrecera e colorira. Não me era difícil
colocá-la à beira de uma praia sacudindo a areia dos sapatos enquanto Fofuras
se banhava magnânimo, um Apolo nadador. De tanto lhe observar as mãos paradas
no volante, era capaz de apostar que Fofuras
nadava, corria e dançava com elegância. Seria um ás nesses
e noutros campos. Tinha mãos finas, nem um calo a estragar-lhes o desenho. No
meu mundo de mulheres, Octávio não ensombrava Fofuras, havia no último uma
qualidade de requinte que me maravilhava e encostava Octávio às cordas
juntamente com as botas de borracha, os calos das mãos e o mutismo. Nem
Monsieur Le Directeur que passava o tempo agarrado ao telefone para me
encontrar poiso, conseguia ultrapassar a minha idealização do companheiro de Eugénia.
Encerrado o colégio, Madame encomendava ao restaurante da aldeia as refeições. Eram apenas uns dias de intervalo até às desejadas férias. Nesse ano, os dias estenderam-se por semanas e, a dada
altura, por entre os cumprimentos da praxe
e a encomenda, a cozinheira quis saber se Madame estava de boa saúde. E
Madame, esqueceu a sua condição e desabafou. Não sei como
nem porque não, mas, no dia seguinte, o padeiro da aldeia, cara enfarinhada e
boina na mão, apresentou-se a falar com Monsieur Le Directeur. Que, durante férias, precisava de um
ajudante na padaria, tinha mais trabalho e menos gente no activo. Era pouca a paga, mas comia e dormia. E que
tomava conta de mim. Se quiséssemos… Fui chamado. Quando me inteirei do
assunto, assenti. De pães não sabia senão comê-los, não conhecia o trabalhado, mas era uma solução, deixava de ser estorvo. Agarrei-a tal qual e combinámos
que, depois de almoço, seguia para casa
do padeiro que é como quem diz, para o quartito minúsculo anexo à padaria.
segunda-feira, 18 de maio de 2020
Um Fait Divers
E
tentámos. E re-tentámos. Empurrava-a, havia um momento em que parecia estar a
conseguir, equilibrávamos forças. Mas, num repente, a balança desmanchava, ela
vinha para trás em todo o peso que eu inábil não sustentava e… chão. Minha tia,
senhora enxuta de carnes, fazia coro comigo, entrecortando por entre
gargalhadas, não sou capaz de subir isto, a gente nunca mais sai daqui. E perdíamo-nos
de riso. E eu, agora é que é, vamos ter juízo. Agora não nos rimos tia, que é
para correr bem. Se eu não rir, tenho força de certeza. Vá! Um, dois, três:
forçaaaa! Várias vezes. E nada. Repetíamos a fase de equilíbrio periclitante e
depois o peso dela vencia-me e voltávamos à estaca zero. Entretanto, solicitei ajuda,
é pá, tens que dar aqui uma ajuda senão nem chegamos a entrar no táxi. E ríamos
desalmadas. O noivo veio, ocupou o lugar de guindaste e num segundo a pôs
dentro do táxi. Entrei de seguida, as duas rindo parvamente. Fechou-nos a porta
e regressou à sua festa descansado.
Primeiro,
comentámos a nossa triste figura e rimos ainda mais. Tentei distrair o riso e comecei
a olhar o exterior. Noite e luzes, algumas casas iluminadas. Digo para a minha
companheira, não sei para que estou a olhar, não conheço nada, pouco vejo e não
faço ideia do lugar em que estamos. E Logo ela, ai, e se o homem nos
rouba? Deve ter percebido que somos estrangeiras; e se pensa que somos ricas e
nos quiser roubar, o que é que a gente faz. E eu a acordar de repente, ó tia, trouxe
carteira? A pochette só tem lenços de papel. E minha tia assustada com outro assunto,
ai Bea não estou a gostar da cara dele, o homem está farto de olhar para a gente
pelo espelho retrovisor. Ó tia, com a palhaçada que fizemos, se não olhasse
é que era admiração. E para que é que o
senhor nos quer, não me diz; ricas!, nem carteiras temos; o que me preocupa é pagar o táxi. Mas minha
tia fincava-se na desgraça, antevia o roubo das nossas pessoas, ele leva a
gente aí para um descampado e não conhecemos nada; com este escuro, sabemos lá se estamos a caminho de casa.
Entre
os medos de minha tia e os meus receios pecuniários fui alinhavando umas frases
sobre ir lá acima – lembrava-me de upstairs e downstairs – e trazer a carteira
para fazer o pagamento (nem me ocorreu que a moeda era diferente). Mas, facto incrível,
não parávamos de rir. Aqui me penitencio, ia desenhando com pormenor as cenas que minha tia
imaginava e levava-a a rir em dobro, no que eu acompanhava. A dada altura, o condutor,
que me parecia inofensiva pessoa e bastante profissional, emitiu um jocoso, “big
party, hem”? Achei ligeiramente
estranho, mas acenei que sim a limpar as lágrimas. A desconfiança de minha tia, que é que ele disse?
Eu, fez um comentário sobre a festa. E ela com mente de filme negro, vais ver
que ele já sabe que não há mais ninguém
em casa; e se vem atrás de nós para roubar tudo, que é que a gente faz. E eu, Tiiiiaaaa!
Na hora de descer já éramos as antigas de nós. Mal iniciei a
conversa que tinha estudado sobre o pagamento, ele que não, o pub pagava.
Sorriu, desejou-nos boa noite, inverteu a marcha e apontou-nos a porta de casa.
Resumindo:
no dia seguinte, pedimos ao noivo para nos desculpar perante o condutor. Que figura,
o senhor havia de pensar que éramos duas portuguesas chaladas. Mal vistas por pessoa que decerto nunca mais veríamos, isso é que não. Resposta, não
se preocupem, falei com ele antes de vos trazer, expliquei-lhe tudo. E eu,
feita a palerma que sou, ai que querido, e que lhe disseste. Disse-lhe que
vocês estavam as duas bêbadas e já nem conseguiam subir para o táxi. Que vos levasse
a casa e reparasse se entravam na porta certa.
FIM
quinta-feira, 14 de maio de 2020
Um Fait Divers
Da cerimónia numa igrejinha florida com as cores do ramo da noiva,
as peripécias pertenceram à filha do casal que atrasou o enlace para aí
uns dois anos e se passeava na carpete vermelha, a perder os sapatos
minúsculos, tão linda e loira como a mãe, vestidinho branco, casaco e lacinhos
em dois tons violeta a copiar o matiz das flores. A noiva estava gloriosa,
simples maravilha no seu vestido que esperara anos pela ocasião.
Há quem diga que o almoço foi um portento, mas, para portuguesas
de gema como nós, não valeu nada. Pouco aproveitámos, “matámos a fome”.
Sabendo-nos gulosas, a noiva recomendara os bolos, mnhã, mnhã, mnhã.
Expectativa gorada. Eram doses individuais de cheese cake que até me pareceram
coisa instantânea que se vende em supermercado. Na lembrança das nossas mesas
de doces, aquela nica que os ingleses raparam contentes, soava-nos a anedota. A
compensar, houve discursos e brindes que nunca mais acabavam, dos pais, dos
padrinhos, das damas de honor, das amigas dela, dos amigos dele, dos
amigos dos dois. Dali seguimos para o pub alugado para o efeito e onde assisti
incrédula a um espectáculo de extraordinário desempenho e sincronia dançante
por parte dos ingleses em geral, velhos, novos e de meia idade. Pela mostra,
deduzi que se juntariam em festas e que dançavam sempre as mesmas músicas,
havia ali muito treino. Jamais esquecerei os saltos altos das mulheres e a
desenvoltura que as animou horas a fio. Mais parecia estarmos naqueles filmes
indianos em que há uma multidão dançante que faz rodas e liga e desliga e volta
a rodar e dar as mãos. Gostei de vê-los, mas era peixe fora de água e fartei-me
de observar. As efusões festivas deixam-me sem jeito, por mim, o casamento
estava acabado. Auscultei minha tia que se aborrecia a meu lado, queixando-se
de uma perna. Queríamos ir dormir para uma casa que não sabíamos
onde era. Abordei o noivo. E ele, que a noite ainda estava no princípio e tal e
tal. Estaríamos com ar especialmente enjoado porque nos olhou e anuiu, querem
ir já? E eu que nunca me lembro que há táxis, se nos levares; a gente nem sabe
onde é. Ele, não preciso ir. Soou-me um alarme cá dentro, vamos a pé? Dás-nos a
chave e vamos a pé? Ai a gente vai-se perder de certeza. E ele a rir, dou-vos a
chave, mas são mais de seis quilómetros, pensam que estão onde? E eu, sei lá,
não fazemos ideia nenhuma. Ele divertido, não se preocupem vou falar com o
motorista do táxi que está de serviço ao pub.
Apenas nos filmes tinha visto um táxi inglês, mas sempre julgara que fosse modelo de outra época. Só que os ingleses fazem gala em manter a dita - em algumas que são bastantes coisas. Um soslaio e adorámos o táxi. E, ou porque o noivo estava contente, ou por qualquer outra razão não etílica, estávamos também todas sorridentes, talvez pensando na proximidade daquela cama que nos esperava. O noivo abriu-nos a porta do táxi e foi indicar o endereço ao motorista. Minha tia rindo para os degraus do automóvel, ai com esta dor na perna não sou capaz de subir este degrau tão alto. E a tentar, ai Bea eu não consigo, é que nem pensar. E eu que faço sempre tudo fácil, não é capaz o quê, eu empurro, tia; vá, um, dois, três: forçaaaa!
Apenas nos filmes tinha visto um táxi inglês, mas sempre julgara que fosse modelo de outra época. Só que os ingleses fazem gala em manter a dita - em algumas que são bastantes coisas. Um soslaio e adorámos o táxi. E, ou porque o noivo estava contente, ou por qualquer outra razão não etílica, estávamos também todas sorridentes, talvez pensando na proximidade daquela cama que nos esperava. O noivo abriu-nos a porta do táxi e foi indicar o endereço ao motorista. Minha tia rindo para os degraus do automóvel, ai com esta dor na perna não sou capaz de subir este degrau tão alto. E a tentar, ai Bea eu não consigo, é que nem pensar. E eu que faço sempre tudo fácil, não é capaz o quê, eu empurro, tia; vá, um, dois, três: forçaaaa!
quarta-feira, 13 de maio de 2020
Contra a Corrente
O
confinamento começou por ser um auto sequestro e acabou em imposição estatal. Como toda a imposição, não foi um mar de facilidades. É certo, cada um
esteve em sua casa em tele trabalho ou sem obrigações de maior, próximo – em
princípio – de quem mais lhe é querido. E havia
aqueles inda bastantes que não confinaram.
Era necessário que alguns continuassem no seu posto. A comandar, o pessoal de
saúde que convivia e assistia os infectados. Mas também todos os outros que nos
permitiram estar em casa rodeados de conforto. E não faltam por aí programas de
rádio e Tv, bloguers e faceboquianos, mensageiros de what’app e outras redes, a
desembrulhar e exibir as múltiplas funções descansadas e positivas do
confinamento. Advogam que foi tempo reflexivo, que fez certa limpeza nas
relações e manteve as realmente próximas, que permitiu limpezas em casa, que
deu a pais e filhos mais tempo para estarem e se compreenderem uns aos outros, que
deu tempo para cumprir e voltar aos hobbies, que aproximou os casais no
repartir de tarefas, e até, vejam bem, melhorou o planeta. Lendo e ouvindo,
quase parece hiato necessário, trouxe-nos o tempo que a todos faltava para; e,
caso a caso, teve a sua performance. Tudo se fez, afinal, da melhor maneira.
Rendeu. Portanto.
Entretanto,
nada tendo a ver, preocupa-me que o buraco na camada de ozono tenha fechado.
Fechou?! Então não era dano irreversível, coisa que, como os outros buracos, só
alarga e com a agravante de ser impossível remendá-lo? Pois, parece que não. Li
que fechou. Não constava na última radiografia, mas a cura é alheia a qualquer
esforço humano. Resumo: o planeta sabe recuperar-se, coisa que nunca
aprenderemos. Ah, pois, o covid-19 e a pandemia e o confinamento. E a minha
tristeza por não lhe encontrar piada ou mérito mesmo que indirecto. A minha
casa está tão arrumada ou desarrumada como sempre; e, se limpasse alguém dos
meus afectos era capaz de ficar deserta, portanto, Deus os conserve que são tão
poucos. Vivo exactamente da mesma forma que antes mas sem as partes boas:
fiquei longe do que e de quem gosto, deixei de esperar pelos dias; no meu
horário, noite é a parte boa, tem um tempo que passa sem dar por ele. É
indubitável, dormir tem sortilégio próprio.
Lamento
contradizer as vozes gerais mas livros, filmes, séries e mesmo as minhas flores
são coisas demasiado menores, não chegam a uma alegria pequena; já me fartei de
bolos (embora os mantenha); detesto arrumações e não tenho pachorra para
mudanças, pago para não mexer no lugar das coisas em casa. Diz Filomena Molder
que as casas são uma chatice, começam a envelhecer desde a construção,
exigem-nos, requerem a nossa atenção constante; ou caem de podres.
Olho
em frente e andam a inventar normas para limitar a frequência nas praias. E eu
tanta vez sozinhita um dia inteiro, sei de antemão que as normas e regras me
prejudicam e repugnam, praia é lugar de liberdade. Ou seja, voltar a antes não
é possível; o presente não é aliciante; e o futuro, visto daqui, do alto do
tempo de calamidade e com o covid em fundo, não vale um chavo.
terça-feira, 12 de maio de 2020
Um Fait Divers
Faltava
meia hora para o casório. O noivo dava pressa a todos, enquanto ajudava meu pai
com um fraque que nunca o tinha visto mais gordo e uns sapatos de verniz
brilhante. Meu pai sentado na cama em peúgas, já de rosa na lapela e ainda a
resmungar, sapato na mão. Fixo no adorno de fivela, depreciava num misto de
desdém e estranheza, mas para que é isto bom, então os meus sapatos não serviam;
e ajudando com a calçadeira, estão novinhos, só os calcei no casamento da Bea e
no funeral de x. Para que é este gastador de dinheiro, uns sapatos que não me
servem para mais nada, foste gastar o dinheiro nisto para quê, eu nunca gostei
de sapato de verniz. E, depois de calçado, a levantar-se e a mirar o espelho,
olha lá, tu não tens aí um bocado de laca, é que o arrepio da frente espeta por
todo o lado. E o noivo, feliz por inteiro e de ponto em branco, empapoilado,
lindo, qual laca, aqui ninguém usa isso, vamos mas é embora, está bom assim. Meu
pai a olhar a imagem vaidosa e ainda a duvidar, eu pus-lhe água, mas ficava
melhor com uma bombada de laca. O noivo a rir, pensa que isto é o quê, alguma
cura nas laranjeiras. E sem transição, vamos embora que já estamos atrasados.
Entreabriu a porta da cozinha, espreitou e, vejam lá se chegam antes do fim. Um
inglês muito calmo, tem missa? E o noivo, tem. Então comemos o
resto. Ele riu e fechou a porta. Entretanto, minha tia tinha ido ao nosso
quarto num instante e estendia a laca ao irmão, vá lá que eu a trouxe, põe à
tua vontade. Saímos.
Lá
fora, um dia de sol garrido. O noivo a exultar, é o primeiro dia de sol deste ano.
E quanto gostei do lugar. Na frente de cada casa verdejava um jardim airoso sem
uma folha velha ou erva daninha. A rua
deserta. Nada. Só as habitações todas iguais com seus jardins de cores
alternadas. Um mimo. E, ao meu agrado o noivo, pois é, tenho de pagar isto
tudo, pensas o quê; a renda da casa inclui o arranjo de exteriores e não
escolhemos nada, são os serviços que fazem tudo.
Depois,
fomos de carro até à igreja, por caminhos que me pareciam o bosque da Branca de
Neve ou assim, os esquilos a atravessarem a estrada de um lado a outro e o
noivo cauteloso, não se podem atropelar, somos multados, é espécie protegida,
os ingleses são malucos pelos esquilos. E abria as janelas bem disposto, é pá
tenho que abrir isto a ver se o cheiro da laca evapora. Minha tia a fingir-se
ofendida, hã, hã, até cheira bem, ouviste.
Enfim,
eis-nos na igreja. Até esse momento, achávamos nós que a farpela condizia com o
acontecimento. Mas, louvado seja Deus, que engano. Entreolhámo-nos, íamos as
quatro de preto, tudo preto: casacos, saias, calças, vestido, sapatos, malas,
luvas. Sem combinação prévia, acabámos todas iguais, no género tão português, “o
preto é chique, dá um ar”. Portanto, estávamos bem. Muito finas, mas em
Portugal. E é que, excepto o tom de pele, não havia em nós um rudimento
colorido. Mas as inglesas, meus deuses, brilhavam em claridade e tons pastel. E
olhavam para nós estranhamente, senti-me – só por um bocadinho - elemento de um
trágico coro grego. Mas aceitei, éramos
nuvem negra compacta por entre risonha primavera. E isto pensei enquanto,
educadas, nos cumprimentavam, talvez a
julgarem que Portugal está cheio de viúvas ou que as portuguesas são estranhas e
funestas criaturas.
(cont.)
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Desgosto
O que
é que de humano não se cumpriu quando alguém
mata uma criança inocente. E como pode o
monstro que tira a vida à própria filha, usar o nome de homem.
Um Fait Divers
O
casamento realizava-se de manhã e chegámos de véspera. A noite ia alta quando aterrámos em Heathrow e
já o nosso portuguesito aguardava. Rumámos a sua casa sem incidente e tratámos
de descansar. Dormi com minha tia na cama do casal e lembro-me de acordar com a
claridade, uma perna descansando sobre o aquecedor de parede. Ainda não eram as
cinco e já a luz exterior invadia o quarto, aquela gente não usa persianas e
não tem o nosso hábito de ambientes escurecidos para dormir. Enquanto a minha
companheira dormitava, embeveci à janela, observando incrédula três esquilos
que brincavam no quintal sobre uma mesa redonda e que, não fora os movimentos, me
pareciam ternos bibelots. Encantei no espaço, separado da rua e
possivelmente de outros quintais por sebe muito verde. Os meus olhos seguiam a
vida dos esquilos que atravessavam a sebe, sumiam e regressavam. E não eram
apenas três. A natural desenvoltura dos animais fez-me presumir habituação ao
lugar, pensei mesmo que seriam da casa.
Como
sempre, fui a primeira a tomar o pequeno almoço. Havia pão, leite, manteiga,
queijos; e eu levara um tupperware com café solúvel. Tinha ouvido dizer que em
Inglaterra não havia café, os ingleses não têm hábito de tomar bicas e, se as havia, eram sem préstimo. Na altura, a bica era-me imprescindível. Deu jeito a nós três e
em todas as manhãs, parece que o café disfarçava o sabor esquisito do leite.
Bem, mas quando os rapazes ingleses se levantaram e nos viram a comer torradas e
beber café com leite, fizeram um esgar como se mastigássemos serradura e
negaram-se a acompanhar-nos. Espiolharam o frigorífico e franziram o nariz.
Entreolharam-se e afirmaram peremptórios que queriam um pequeno almoço a sério.
Debandaram e ouvimos bater a porta da rua. Traduzido o que eu entendia do que
eles diziam, foi unânime que eram muito finos e tinham ido comer fora. E não
pensámos mais neles.
Abandonávamos a cozinha quando ouvimos a porta.
Eram os mesmos dois ou três e caminhavam em balança, um saco de cada lado a abarrotar não
sabíamos de quê, além de uns indiscretos cacetes gigantes que, em desplante atrevido se perfilavam
acima dos sacos. Dirigiram-se à cozinha e fomos enfeitar-nos para a boda (no
meu caso, vestir um vestido e calçar uns sapatos e no das minhas companheiras, idem).
Quando descemos, garanto, não havia espaço livre na mesa da cozinha: ovos quentes, ovos mexidos, sumos, bacon frito, fiambre em
grandes nacos e também frito, milho, feijões vermelhos cozidos, bife, e sei lá que mais. Uma catrefa de frigideiras e pratos sujos no
lava-loiça e a mistura de cheiros, davam conta da azáfama. Sentados à mesa,
manga arregaçada como se se aprestassem a uma trabalheira, os ingleses conversavam
baixo e, ininterruptos, iam comendo de
uma malga e de outra, os cacetes, ora partidos em bocados, a desaparecerem.
Ofereceram-nos e declinámos com o mesmo bom modo que tinham usado connosco.
(cont.)
(cont.)
sábado, 9 de maio de 2020
Um Fait Divers
É
uma história antiga e a pedido. Os participantes, não obstante os anos que passaram,
estão no mundo dos vivos e é provável que dela recordem pormenores que a minha
memória considerou despiciendos. Na ausência de outra versão - que eu saiba,
nenhum a passou à escrita -, terão de contentar-se com o que recordo.
Na
primavera em que o meu filho mais novo frequentava o segundo ano da escola
antes dita primária, houve o alinhavo de um abalo quando a família recebeu o
convite de casamento. E logo ligámos uns aos outros. Auscultávamos quem tinha sido
convidado e as hipóteses de presença. Afinal, a boda era em Inglaterra e a
noiva uma inglesinha loira que já conhecíamos. Entrava-nos nas economias.
Nenhum de nós tinha alguma vez posto pé
em terras de sua majestade a rainha Isabel II. No mínimo, estranhávamos confraternizar com gente que não entendíamos e de certeza esquisita, porque
os estrangeiros são dessa qualidade. Mas o nubente era-nos muito querido,
gostávamos dele a valer. Após ponderação de factores, entre desistências
imediatas, nãos que viraram sim, e evasivos talvez, apurámos quatro pessoas.
Eu, meu pai, a minha irmã mais nova e uma tia irmã de meu pai. De pedra e cal. Só
por morte não voávamos até Heathrow. Cada um tratou dos seus pertences e
alfinetes para a boda, comprei os bilhetes por junto, avisei da documentação, fretei
os serviços do meu motorista privado e marquei a hora da partida na casa de cada
um. Era tempo de flores e sol, braços e pernas a descobrir a liberdade. Mas, de
Inglaterra caprichosa e muito ela, temíamos o frio, a chuva, e até, quiçá, um reticente
smog de inverno atardado na debandada do gelo e que ali nos fizesse surpresa.
Na
data e hora aprazada, lá partimos. Atracados a uma maleta pequena, seguimos de mistura com ingleses talvez contentes pelo regresso
a casa, passada natural de quem está habituado a viagens, a sua discrição em contraste com
os nervos da nossa verbosidade (eu e a mana). Sobressaltando do vulgo, o receio dos nossos acompanhantes ensarilhava-se nos pés e, desde a manga que nos conduziu ao aparelho, evidenciavam certa dificuldade no
andar, o medo a puxá-los para trás. No avião, eles num banco de três lugares e
eu no lado oposto, anexa à coxia. Todos juntos. Era a minha segunda viagem de
avião. Tinha viajado a Paris na Air France e o pessoal de bordo apresentara-se tão
estilizado como publicidade de revista. Portanto, esbugalhei para a hospedeira de meia idade,
barriguda e estrábica, que nos alertava em linguagem gestual e voz off, metida em saia de
pregas assaz inconveniente à desbunda do corpo. E eu a pensar, está bem, está; se isto cai nem consigo tirar o colete do
lugar, quanto mais. Num soslaio à lateral, três perfis muito atentos olhavam a
senhora. Mal ela terminou, minha tia mete a cabeça fora do friso (ia no lugar
do meio), ó bea, que é que ela disse. Eu, nada de importante, tia, é só para o
caso de haver algum problema. Ela encostou o desalento resignado e saiu-lhe
interjeição tão cava e suspirosa como se estivéssemos à beira da queda livre.
Depois do cinto posto, silenciaram o terror e, na subida do aparelho, a tensão adivinhava-se na força das mãos enclavinhadas no suporte dos braços, amparo de nada que lhes parecia alguma coisa. E, apesar de a não ver, tenho certeza que minha tia, olhos fechados, balbuciava para os interiores, ai valha-me nossa senhora. Meu pai, esse, petrificara. E compadecia observar a aflição que gritava pelos nós dos dedos de onde o sangue lhe fugira.
Depois do cinto posto, silenciaram o terror e, na subida do aparelho, a tensão adivinhava-se na força das mãos enclavinhadas no suporte dos braços, amparo de nada que lhes parecia alguma coisa. E, apesar de a não ver, tenho certeza que minha tia, olhos fechados, balbuciava para os interiores, ai valha-me nossa senhora. Meu pai, esse, petrificara. E compadecia observar a aflição que gritava pelos nós dos dedos de onde o sangue lhe fugira.
(cont.)
sexta-feira, 8 de maio de 2020
Próximo da Zona de Embarque
Ao
pequeno almoço, entretive-me a ler a crónica de Dulce Maria Cardoso que, afinal
– dou a mão à palmatória –, continuou Lobo Antunes nas crónicas do meu coração.
Todo o conjunto de outras crónicas, por mais bem escritas, não me entram igual
e nem no mesmo lugar. É uma crónica sobre velhos e covid, mas, acho eu, que sou
uma achista daquelas que muita gente não absolve por achar ser coisa de acaso,
e os achismos assim e assado. Pois eu acho, hei-de continuar achando enquanto
viva, e estou-me positivamente borrifando para os cientistas da opinião,
aqueles que nunca acham, que opinam com ciência e rigor, que sabem e não se
baixam a achar nada, que isso é coisa de pobretanas mal informados com sede de
pôr a boca no mundo e amandar baboseiras para cima dos colarinhos engomados -
metafísica ou realmente - dos conceituados donos da opinião universal. Pronto,
eles têm razão. Mas, ainda assim, estamos num país livre e, portanto, dentro de
todos os achismos que proliferam, lá está, preto no branco, o meu. Mas não
esqueçamos o assunto em causa, dizia eu que acho mesmo que a citada crónica é
mais sobre a velhice que acerca do malfadado vírus. E isto porque a senhora
Dona Dulce Maria (no que me lembra certa Inês Maria que tem voz e gargalhada
extraordinárias além de também escrever uns textos supimpas). Bolas, já me
distraí de novo. Pois a Dona Dulce que é também Maria escreve muito
acertadamente que a mãe (a sua) embora não use as felizes palavras de Eduardo Lourenço,
sente o mesmo que ele – um pensador é outra coisa com as palavras, mas
provavelmente não arruma os quartos nem recebe com mesa posta e assados no
forno e bolos; digo eu. E não é que é verdade e existem sintonias? Se não fora
esta comunhão, como é que os escritores vendiam? Bom, não nos dispersemos de
novo (se escrevo, nos, fico muito mais descansada, sou eu no meio de muitos) e
vamos ao oráculo de Eduardo Lourenço. Encontrando-o a escritora num dia de
ridente sol em que passeavam ambos pelos tão, mas tão agradáveis jardins da
Gulbenkian – aqueles tais onde eu devia ter namorado -, à trivial pergunta
sobre como se sentia, respondeu o eminente com outra pergunta, “Como acha que se
sente um homem que fita o abismo que o levará?”. A mãe de Dona Dulce, perante a
perspectiva de confinamento até final do ano diz antes, a rejeitar de um lado e
a aceitar do outro, "Já temos tão pouco tempo e vamos gastá-lo assim?" E Eu, que
sou um bocadinho mais nova que ela, penso igual; mas reparo que, na gente da
minha faixa, a verdade anda subsumida, não é tão directa. Em vez do fim,
fala-se do tempo, da primavera que reverdece, da algaraviada dos
pássaros e outros nenhures. Ou dizemos como aquele senhor por cuja casa
passo nas caminhadas, a quem apenas digo bom dia se está sentado à porta. Ontem
tirava o carro de recuas e eu no passeio, à espera da manobra completa. Quando
saiu a fechar o portão e já eu iniciava a marcha, disse simpaticamente, “parece que hoje está
mais macio”. E eu que sim, estava mais agradável. Não sei onde fomos buscar a
conversa, mas terá sido ao antigo de nós.
quarta-feira, 6 de maio de 2020
Névoa
Um
Estado de Calamidade há-de ser coisa catastrófica, do pior. Calamidade é termo
assaz infeliz para definir uma retoma cuidadosa, ou o que se pensa como tal.
Mas, se não se entende a designação, menos se entende que, num regresso
cauteloso, as Tvs recomendem prudência a torto e a direito – coisa razoável, o
vírus não emigrou – e depois, façam um périplo pelas cidades de norte a sul e
concluam, naquele meio ar tristonho, que ruas e lojas continuam às moscas e a
afluência é apenas de necessidade. Decidam-se: não foi o que recomendaram? Não
é o que as duas senhoras que já enfastiam, tanto recomendam? Pois então.
Convenceram os portugueses que o SNS não suporta uma vaga séria de covid-19. A
malta, que tem medo de morrer desde que o mundo é mundo, refreou as doenças corriqueiras, as crónicas,
o mal estar assustado mas não fatal, no serviço de urgência dos hospitais; e os
médicos de família autoimpuseram-se uma quarentena sem fim (ainda não terminou,
vá-se lá saber porquê, mas deve ser por medo deles). E vai-se a ver temos uma
população mais saudável desde o covid-19. Não há como um vírus para melhorar doenças,
a poluição nos oceanos, o ar que se respira e a nível geral. Até os cientistas
já verificaram que o buraco na camada de ozono fechou (tiveram o cuidado de
dizer que não foi devido ao vírus). Regride-se ao tempo em que não havia férias
(haver há mas de pouco valem, não se pode ir a lado nenhum sem risco), não há
domingos e feriados de passeio, não há estrangeiro que nos receba. Cada um em
seu poiso e todos ligados.
A
net, que à generalidade das pessoas conquistou desde o primeiro minuto de uso,
por este andar vai enfastiar, fica-se enfartado dela como de um prato de favas
com chouriço. Que uma coisa é a liberdade de uso e até a transgressão; e outra,
ser a única hipótese de conversa e socialização fora de portas. E, quem sabe, dentro
da família próxima, aquela que nos acompanha e está no mesmo barco, se geram
sintonias desconhecidas e antes inibidas por tanta solicitação exterior. Os
divórcios adiam-se ou prescrevem, os desavindos irmanam-se, os insolentes baixam
a grimpa de boa mente, os descontentes silenciam. E posto que até a alma parece
curada de seus males, fica só a astuta ganância a rilhar o dente, congeminando
por onde rebentar as barreiras que a promessa de morte macabra ergueu no
espírito dos homens de boa vontade. Ela e eu aguardamos a liberdade que não há.
O mundo pode não ser igual a antes. Mas, digo eu, se não for livre, é de pouca
serventia.
domingo, 3 de maio de 2020
Dia da Mãe - Fim do Primeiro Acto
Último
dia de confinamento. Um dia de verão, diz a meteorologia. Também o dia que a convenção
te atribuiu. Hoje, primeiro domingo de
Maio, é Dia da Mãe. Dia das mães que não se visitam, são vistas por Skype, em vídeo
conferência, através de uma janela. Ou a celebração faz-se por telefone. Ou, se és mãe ainda jovem, tens a sorte de os
filhos dentro de casa, e recebes, suprema glória, uns beijinhos e abraços,
fazes um almoço melhorado, inventas uma brincadeira nova, serves a sobremesa
preferida (deles). E sentes que a vida encaixa, arruma-se, vale a pena. Logo à
noite, quiçá já na hora de almoço, as televisões desdobram-se em mostras do amor
filial emoldurado em corona vírus. E tu, hoje, especialmente hoje, ficas bem na
fotografia do encerramento que não vai ser.
Ao
invés do habitual, não te comprei flores e nem te visito. Sei, moras no mesmo
concelho. Desculpa. Também não as vou
ter. No meu telemóvel vai entrar um sms que diz, como sempre, “feliz dia da mãe”.
Mas hei-de sair de bicicleta, a aragem a
bater-me no rosto. De bicicletas soubeste a parte má, arrumá-las e atar livros
e almoços no suporte. É também por isso que insisto e te levo a passear. Anda, vamos…
sábado, 2 de maio de 2020
Dois de Maio
Penúltimo
dia de confinamento. Depois de amanhã passamos à amável situação de calamidade.
Então, vou postar em dias alternados. Porque sempre gostei de saltos. Portanto. Quiçá apuro as meninges. Estive a reler os escritos deste tempo e é fora de dúvida, preciso de um refresh, é prosa claustrofóbica e um dia destes ainda encaracolam bolores e cogumelos texto
acima.
Nesta era de medidas sanitárias, o fim
de semana apenas prolonga a modorra indistinguível dos outros dias. Em tempos, havia
por vezes os filhos e uma ou outra visita. Em tempos, curtia a solidão da casa,
almoçava de apetite na hora do desejo; lia, escrevia ou sentava-me na rua sem
bulir, olhando o mundo das coisas rodeado de insectos e animais pequenos a
fazerem a sua vida sem alarde, alheios à minha presença de gigante pacata.
No início das restrições, assinalava o
fim de semana com um bolo ou um doce. Mas foram semanas em demasia. Apesar da minha
imortal fome de doces caseiros, ainda sou capaz de reconhecer que o maior
prazer é comê-los em companhia. Sabor tão esquecido e que minguou a vontade.
Talvez saltando umas semanas consiga renovar o prazer. Quem sabe.
Portanto, os meus vestidos passaram a
ser o sinal de fim de semana. Um arzinho de diferença. E provei na carne a
falsidade daquelas mulheres que afirmam peremptórias, um ressaibo de orgulho indomado
na voz, eu visto-me para mim, gosto de estar bem para mim. Bom, não digo que não gostemos de nos olhar
ao espelho e nos agradar a imagem. Mas ninguém, mulher ou homem, se veste apenas para si. Que pobreza,
essa auto satisfação quase fanfarrona. Vestirmo-nos é uma necessidade (nus, sofreríamos
bastante mais) e um pressuposto social, uma convenção. Quem lhe fuja, sofre as
sanções respectivas. Mas o avanço civilizacional exige mais. Não quer apenas que
a roupa nos cubra por necessidade e obrigação. É preciso juntar o
agrado. E o agrado, bata onde bata, procura um tu (outro espelho), não se limita à bazófia
vulgar de, visto-me para estar bem para mim, os outros não me importam. É que
importam. Importam sempre. Ainda não descobri por que fazemos afirmações tão tolas como se
fossem verdades insofismáveis.
sexta-feira, 1 de maio de 2020
Um de Maio
Há
certa falta de viço neste Dia do Trabalhador em que celebramos as tão suadas vitórias e lutas por melhores condições laborais. E quanto por elas se sofreu. A vontade que foi
necessária para levar avante a luta contra o poder. E por quanto tempo o
trabalho se manteve ainda em condições desumanas. Em Portugal, tanto devemos a Abril de 74.
Tanto.
À
beira de não sabemos o quê que se segue, falta vontade genuína, o anseio de
futuro minado pela interrogação. Ter esperança em quê; continuar a luta para obter
o quê; o que é que vai seguir-se ao lay off. A antevisão de despedimentos e falências
não nos abandona. A certeza de um vírus presente e para que não existe vacina,
também não. Portanto, celebrar conquistas laborais à beira não se sabe de quê,
mas que vai afectar fortemente as pessoas e o sector, que pode desmoronar a economia familiar de
muita gente, não dá muito campo à esperança. Ninguém sabe o que, nem como, vai
ser a continuação. Estamos a reerguer-nos, oiço dizer. Mas quando faltam
certezas desta natureza, quase vitais, o receio acentua-se.
Talvez
Maio nos esclareça. E oxalá não nos conte aquilo que não queremos mesmo saber.
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