Pergunto-me por vezes a razão de estar atenta às pessoas que seguem viagem comigo nos transportes públicos. Suponho que a pouca frequência de habitá-los me espicaça e de cada vez encontro um mundo novo. O hábito tem outros olhos. Terá sido por isso que guardei aquele cabelo azul em obediência saliente, espraiado pelas costas e reluzindo vida marítima. Era uma menina do mar sorridente, dir-se-ia mesmo feliz e em conversa, talvez com o grande deus do mar, que cingia ambos. Um mundo de apetite e sorrisos travessos (sim, sim, vi bem a sua natureza) a cintilar sobre o dia cinzento, guarda chuvas chorando mágoas que não lhes pertencem, pinga aqui, pinga ali, nó de mãos ciosas, inconscientes de dedos chuvosos. E os dois cintilando sem dar conta. Talvez como as estrelas que todos olhamos e não nos vêem, mas são mais belas por esse intocado que resplandece. Do outro lado, uma mãe devota carregava no colo a criança e procurava lugar. Hoje é difícil ver este quadro, uma criança guardada dentro dos braços. Quando a jovem se sentou, reparei que a garotinha usava chupeta e, braço levantado, os dedos ninavam a sua cantiga no lóbulo da orelha materna. Lembrou-me o verso de Miguel Torga sobre um carneirito e a mãe ovelha. Não sei se, como no poema, a vida parou a ver, mas a bebé foi fechando os olhos e adormeceu. A mãe ajeitou-a melhor na cama dos braços, como se daí a minutos ela não chegasse ao destino, e antes fossem assim unidas até ao fim do mundo. Na lufa-lufa das manhãs não vi sair a menina do mar. Mas, quebrado o encanto, o deus já não era deus; era um rapaz encostado numa esquina do Metro a olhar para nada e que, na estação seguinte, ouvia música metido consigo.
Numa
das estações, não sei qual, entrou um pedinte – há muitos nesta época do ano.
Não costumo ceder a quem pede. Não sei que doença tinha ou se sofrera queda
grave. As pernas eram uma chaga em carne viva e apoiava-se numa muleta. Mais parecia
que lhe tinham escavado a perna em vários lugares. Faltava-lhe carne, via-se
sangue e os pequenos vasos que percorrem os músculos. Podia ser um bêbado,
alguém atropelado, sei lá. À vista daquelas chagas arrepiou-se-me a pele. Qualquer
que seja o motivo, não consegui ficar indiferente. Mesmo sabendo que em nada
contribuo para o seu bem-estar. Quem sabe era um dos muitos sem abrigo que
vivem por Lisboa como por outras cidades do mundo. De certeza se exibia para
suscitar piedade e receber esmolas. Mas não interessa o motivo e nem o fim.
Alguém ferido daquela maneira não devia precisar exibir a moléstia para
sobreviver.
O
resto da viagem não recordo quem entrou e quem saiu, aquele desgraçado tomou-me conta do pensamento. A questão não me abandona. Como se resolvem problemas
destes. Quando.