segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

O Chão do Natal

 

Quando o natal se aproxima penso mais nos sem abrigo que vejo dormindo tapados com cartões e jornais no banco marmóreo e corrido do túnel do metro que vai desembocar no Centro Comercial Vasco da Gama. Não que sejam mais ou menos infelizes que outros espalhados Lisboa fora e que pernoitam em vãos de porta na Baixa, nos degraus da estação dos Restauradores, e em tanto lugar. Mas aquele túnel é frígido, percorre-o uma corrente de ar gelada que desanima e abotoa qualquer ser.  É inconcebível que alguém consiga adormecer sobre o gelo de lápide de tais bancos. Mas observei durante vários minutos um adormecido e não deu por mim. Dormia quieto, tranquilo, igual à maioria das pessoas em sua cama: posição fetal, as mãos sob a face, um cartão debaixo do corpo e embrulhado num casaco comprido e sujo, pejado de folhas de jornal abertas. Debaixo destes preparos havia uma vida a respirar, um suposto descanso que eu devia, ao menos, respeitar. E escrevi eu que “igual à maioria das pessoas em sua cama”. Mas igual como? Igual no ar de interior de frigorífico; ou no facto de não se poder virar e, mesmo adormecido, se obrigar a manter a posição; ou igual na fofura do colchão, na privacidade que o tempo de sono nos demanda. Com que sonham estes homens e mulheres, que os acorda para mais um dia, além do entorpecente frio. E como se chega aqui. E pára.

Se eu fosse um Jesus de todos os homens dava-lhes sonhos de verdade, fazia-lhes mais leves e bonitas as noites. E depois, quem sabe se, na posse da esperança e criando oportunidades, não se reassumiam. Era uma vitória sobre os cobertores e as sopas nocturnos.

12 comentários:

  1. Também me faz muita confusão e aliás, não sei como a Câmara não dá uma casa, nem que ponha o pessoal todo junto, tipo camaratas, não sei.

    Beijocas

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    1. É uma tristeza a que a democracia vai fechando os olhos, Cláudia. Não há regimes perfeitos, mas podem aperfeiçoar-se, não é?
      Um beijinho.

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  2. O pior é se tivermos de entrar outra vez em estado de emergência, afastando os voluntários das ruas, como aconteceu em Março do ano passado.
    Um único dia de fome para alguém fragilizado é demasiado grave.

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  3. Sempre bendigo esses voluntários, Joaquim. Mas não orgulha a democracia haver sem abrigo que sobrevivem por esforço do voluntariado e organizações particulares que lhes acodem. Uma vez vi na tv um lugar onde há uma sopa quente e se cedem camas e banho matinal. Não sei se é muito frequentado, mas imagino que sim. Nós não sabemos o que é estar vivo e não ter um espaço de pertença, qualquer cubículo por pequeno e pobre que seja. É forçoso que esta condicionante altere o pensamento de quem a vive.

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  4. Uma tragédia de gente que se vai multiplicando: a democracia não "conta" com eles. A história do Zé do Telhado teria a maior actualidade, tirar aos ricos para dar aos pobres. Mas anda tudo cheio de percentagens e números, num salve-se quem puder e esses, os sem tecto, não podem. Obrigada pela companhia, uma vez mais, que o seja por muito tempo. Bea pinta os quadros com palavras, eu escrevo com imagens e metáforas da cabeça e do espírito. O (meu) Natal é "pequeno", fechado e de sobressalto, que o teu seja com saúde e amizade. Ao menos...

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  5. Do fundo do meu coração: obrigada pelos votos, bettips. Tem horas em que me sinto mal por ter queixas. Queixo-me de quê quando há campos de refugiados, gente que agarra nos filhos e foge do lugar e do país onde sempre viveu e não sabe onde ou como vai cair; se morre, se vive. E depois há estes sem abrigo que são nossos, nos pertencem e continuam tão insolúveis como antes. Mas há que ir em frente. E fazermos o melhor que soubermos à nossa volta. Porque é onde estamos que as coisas nos acontecem e podemos agir.
    Entristecem-me tantos números e o árido caminhar do mundo e do país. Mas, na incerteza do que vivemos, quem sabe se estes não são ainda uns bons tempos.
    O meu natal - se o covid não estrague, e já nos rondou de perto - será semelhante aos natais passados. Diz uma amiga sábia que a felicidade se treina. Não diria a felicidade, mas a boa disposição é planta de cultivo.
    Pois, bettips, vamos fazer-nos companhia e continuar pintando, cada uma com seus pincéis:).
    Um beijinho

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  6. A questão é complexa Bea e digo isto porque o fenómeno não é bem aquele que as pessoas pensam, sobretudo não é uma realidade uniforme. Cada uma daquelas pessoas tem uma história para estar na rua e em alguns casos bastaria um abrigo para voltarem a inserir-se mas noutros casos não, não se adaptam, não querem, às vezes voltam à rua depois de acolhidos nos centros por não aceitarem as regras que lá existem. Para mim é igual vê-los no Natal ou fora dele, é sempre uma realidade perturbante e até me irrita que nestas ocasiões é que as pessoas se lembrem dos mais frágeis e necessitados, às vezes só para ficarem bem na foto (desculpe a amargura).
    Para si e para os seus um bom Natal, sei o quanto a Bea gosta dele.
    Beijinho
    ~CC~

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    1. Pois eu, CC, diria que as pessoas, em geral, não se lembram deles. Quem passa por eles diariamente habitua-se à paisagem. E é verdade, há os que não querem regras ou autoridade de outrem. E cada um, como todos nós, tem a sua história; no caso deles, um motivo para viver na rua e dela. Mas não acredito que a maior parte não deseje um espaço que seja seu. Não consigo crer. E um, centro não é lugar que seja seu. É um remedeio com imposições, um faz de conta onde a vontade individual não sei se conta.
      É verdade, é sempre uma realidade perturbante, seja quando seja. Mas não consigo evitar pensar mais neles nesta altura do ano em que as famílias e os amigos se juntam ou pelo menos se desejam boas festas, dão prendas, fazem uma ceia melhorada e ficam horas à mesa e não apenas na degustação, que há muito motivo para além do paladar. Mas, sobretudo, vivem certa união e pertença. E eles estão lá, no sítio do costume, tapados com os mesmos trapos e papéis. Ainda que possa ser do seu agrado, não deixo de lamentar o facto.
      O Natal é a minha festa. Muito obrigada pelos votos, CC.
      Um beijinho

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  7. O Natal acalma a alma e amolece os corações humanos de quem tem e pode doar um pouco. Infelizmente cada vez mais existe mais pobreza e pessoas a viverem na rua sem terem nada de nada, a não ser uns cartões para se taparem. Infelizmente também, iniciado o novo ano, tudo se esquece, até se desvia a cara perante esses quadros de pobreza tão tristes. Existe quem dê mais depressa um prato de leita a um gato ou outro animal do que uma fatia de pão com manteiga a num pobre. Deixo votos de um FELIZ NATAL, extensivo a familiares e amigos/as. Muita Saúde, Paz e Amor.

    Cumprimentos
    .

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  8. Eles vivem na rua, é certo, mas olhe Ricardo que é raro encontrá-los a pedir. Dos que pedem nos cafés, já assisti a gente que lhes quer pagar o pequeno almoço ou o que desejem e eles recusam, querem dinheiro apenas. Terão as suas necessidades monetárias é certo, mas, do que tenho presenciado, não me parece que passem fome, ainda que bem alimentados não estejam.
    Há gente que trata melhor os animais que as pessoas. Ou as pessoas são causa de grande mágoa, ou são muito preguiçosos e lhes agrada mais a relação subalterna com os bichos - dá mais garantias de ser bem sucedida, o humano é quem ordena. Tenho pena dessa gente que não goza do prazer de relações com os seus iguais. Adão, a sós com os bichos, seria um infeliz:).
    Muito grata pelos votos, Ricardo. Que seja um Bom Natal. Com saúde, paz e amor. Isso mesmo.
    Um abraço

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  9. Uma realidade que nos perturba, mas que é, como a CC diz, muito complexa. Bem hajam aqueles que trabalham, porque lhes compete profissionalmente ou voluntariamente, para ajudar na resolução do problema.

    Desejo-lhe um Feliz Natal, bea, com saúde e em boa companhia. :)

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  10. Foi um bom Natal, Luísa. Obrigada pelos votos.
    Não é uma realidade simples de resolver, talvez nunca se resolva, e é opção de alguns. Mas não será a opção de todos; aos que estão porque a vida os empurrou e sozinhos são incapazes de sair, gostaria de resgatá-los. Sonhos.
    Boa noite.

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