Penso
por vezes nas tuas mãos. Ontem, pensei nelas ao olhar os tugúrios caídos no
Afeganistão, aqueles tijolos de adobe reduzido a pó, esqueletos de miséria purulenta.
À vista deles, fez-se presente a barraca que meu avô construiu para arrumos e
seus fazeres manuais, e que existia há já mil anos na casa da minha infância. Idêntica
às imagens da Tv, depois das feridas do tempo que a envelheciam e retalhavam, os elementos a intrometerem-se com prejuízos de adaga, foi derrotada por uma
tempestade. Morreu no tom cavo de quem não tem mais que a lama empapada em
monte de adobe esventrado e batido de
chuva. E sobre esses recados da miséria, as tuas mãos numa elegância de asa,
moldando gestos, falanges desenhando pesares, a meia lua das unhas a ressumar
uma ternura triste. As tuas mãos ciganas. Pombas da paz adejando. Sobre a minha
insónia. Ou no amontoado da pobreza nua dos afegãos. E o meu desalento choroso à
vista dos destroços. Eu que não entendia a proibição de rondar o hermetismo da
barraca, o zelo de minha mãe arredando-me do perigo, ali não. Talvez que já as tuas mãos por lá a secar-me o
desgosto dos olhos sem paisagem, a minha infância atida à permanência
inexistente, e agora. Eu incólume e ainda desatendida de irresolúveis. Ou os
afegãos a dizerem para a câmara: há muitos doentes a precisarem tratamento, mas
não temos como levá-los ao hospital. E, nas suas costas, nuvens de pó e
calamidade. Ao rés da pele, as tuas mãos conversam comigo, situam-me, eles não choram
a paisagem perdida. Observa, perderam o seu tudo que era nada; o pó que os
protegeu é-lhes mortalha, não te compares. Comprimo-te a mão contra a minha
face e o morno da pele descansa-me, é gesto de pássaro que chegou ao ninho.