domingo, 21 de janeiro de 2024

Olívia

 

Corremos por dentro do tempo e rápido nos chega o fim. Talvez já nem existas. Não sei mesmo se a morte te aconteceu. Não uma morte comum, das que se apresentam como portas fechadas a impelir-nos ao caminho. Falo da tua morte física. Sempre me pareceste desvivida e sem ousadia. Hoje hesito grandemente no particípio. Exerci a força de que fui capaz para te despertar do que eu supunha  letargia, queria mover-te. Fora de igrejas e catequeses; fora de primas benquistas e vorazes; fora de um sistema que te prometia nada e tu abraçaste ou te abraçou. Ou ambos. Talvez eu tenha, finalmente, crescido. Ou envelhecido. Nunca eu te pensei como se fosse tu. Nunca. Usei a conhecida bengala: não se pode ser o outro porque o outro é um outro eu - afirmação que tem tanto de semelhança como de diferença; uma desculpa para não me pôr no teu lugar. Se tal acontecera, logo saberia que não poderias ser diferente.  Foste ou ainda és feita de mil pedaços incógnitos; estás, talvez, nos meus antípodas. Que parvoíce a minha pretender a mudança vendo-te uma vez por ano. Que loucura ter olvidado que não se foge a quem se é. As minhas sugestões eram como água escorrendo entre os teus dedos. Um dia alguém me disse, “ fica a frescura”. Mas nem sei se houve frescura, não sei se desejavas que voltasse; se não fui, em cada encontro, o empecilho que rodeaste como sabias; se, ao partir, não deixava em ti um alívio. É verdade que nunca me convidaste e chegaste a recusar dias em que me propunha visitar-te. Motivos tão fúteis! Mas olha, mesmo assim não cheguei lá.  Tu não querias ver-me, era eu a intrometida, sempre eu a convidar-me e a mostrar um mundo bonito, sem queixas e pesares, onde as pequenas novidades tinham lugar. Um mundo que ignoravas e talvez acreditasses, quem sabe se não fazias como as crianças nas histórias:  intuem que é um mundo a fingir, mas afligem-se na mesma, choram ou riem consoante o assunto.

E é como te digo, envelheci:  ver o passado com os olhos de hoje dá-nos nova dimensão. Não me parece que seja sabedoria.  Raro respondeste às minhas missivas compridas. E, porque não te esquecia no Natal, ligavas a agradecer. Ao invés do que afirmavas ao telefone, era um bem parecer; decidi não escrever mais e esvaneceste.

Ou preferias evitar-me para impedir desconcertos e dúvidas sobre ti mesma. Para não te arrependeres do caminho. É uma hipótese.

Sem serventia, penso em ti com frequência. E tenho entre as páginas de um livro o último cartão de natal que não enviei. Já tem anos, mas continua a fazer-me pensar.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Lamento

 

Por vezes, revelo aos mais próximos o meu gosto pela escrita. Mas nunca to disse. Tu não lias. Só nos últimos dez a quinze anos a solidão te levou ao jornal do café e qualquer diário te servia. Antes, sempre que me procuravas e encontravas a ler, “fazias uma pregação”. Agastado, lançavas-me remoques pelo tempo que dizias perdido em vez de ajudar aqui ou ali; em vez de minorar os trabalhos maternos. E, aos gritos, perdigotos por todo o lado, davas exemplos: podia ajudar na terra, plantar couves e alfaces, amanhar uns canteiros de cheiros, salsa e coentros.  Ou podia tratar da criação. Assim faziam as mais. A tua exaltação a crescer e eu a minguar, sem um mas de que temia o preço. Então, obrigava-me a deixar o romance que tinha em mãos. Contrafeita, ia fazer alguma coisa. Em nossa casa e fora dela nunca o trabalho faltou. Portanto, pensava eu, para quê dizer-te que além do tempo que perdia a ler, outro tanto fazia com a escrita.  Se to contasse, repetias a lengalenga de sempre; e olha, cada vez mais te dou razão e a acho certa, “estou farto de te dizer, és inteligente, mas esperteza não tens nenhuma”. Sabes, se explano a ideia que tenho acerca de alguém, as manas sorriem meio a troçar, e declaram no que então era só vocabulário teu, “és uma anjinha, tu”. Havia na tua voz um timbre desconsolado e, em simultâneo, uma espécie de desalento feroz por eu ter saído deste modo, como se esse facto constituísse uma desobediência vingativa do destino, uma deliberada e crescente ignorância do teu desejo. Mas não somos como queremos, o lema “Querer é poder” fracassa em muito parâmetro. Tu não eras o que eu queria, nem eu fui quem tu quiseste.

Mas o tempo dobra-nos. Dobrou-nos. Tenho esperança que, lá bem no fundo de ti, te tenhas conformado. Desagradei ao nascer, era fêmea. E dei-te cabo da juventude que, por acaso - bem me lembro -, custaste a deixar. Cresci sem jeito para costuras e mal podia com uma enxada. Nunca consegui carregar padiolas de esterco contigo, erguê-las do chão era-me impossível e zangavas-te. Mas não conseguia na mesma e tinhas de requerer outra ajuda. Se te ajudava a regar as laranjeiras, infernizavas-me a vida com gritos e impropérios que não vou nomear. Mas olha, além de te dar razão (sou, de verdade uma desajeitada abécula), estou bastante arrependida de nunca te ter lido nada do que escrevi para ti. Nada.