Corremos
por dentro do tempo e rápido nos chega o fim. Talvez já nem existas. Não sei
mesmo se a morte te aconteceu. Não uma morte comum, das que se apresentam como
portas fechadas a impelir-nos ao caminho. Falo da tua morte física. Sempre me
pareceste desvivida e sem ousadia. Hoje hesito grandemente no particípio.
Exerci a força de que fui capaz para te despertar do que eu supunha letargia, queria mover-te. Fora de igrejas e
catequeses; fora de primas benquistas e vorazes; fora de um sistema que te
prometia nada e tu abraçaste ou te abraçou. Ou ambos. Talvez eu tenha,
finalmente, crescido. Ou envelhecido. Nunca eu te pensei como se fosse tu.
Nunca. Usei a conhecida bengala: não se pode ser o outro porque o outro é um
outro eu - afirmação que tem tanto de semelhança como de diferença; uma
desculpa para não me pôr no teu lugar. Se tal acontecera, logo saberia que não
poderias ser diferente. Foste ou ainda
és feita de mil pedaços incógnitos; estás, talvez, nos meus antípodas. Que
parvoíce a minha pretender a mudança vendo-te uma vez por ano. Que loucura ter olvidado
que não se foge a quem se é. As minhas sugestões eram como água escorrendo
entre os teus dedos. Um dia alguém me disse, “ fica a frescura”. Mas nem sei se
houve frescura, não sei se desejavas que voltasse; se não fui, em cada encontro,
o empecilho que rodeaste como sabias; se, ao partir, não deixava em ti um
alívio. É verdade que nunca me convidaste e chegaste a recusar dias em que me
propunha visitar-te. Motivos tão fúteis! Mas olha, mesmo assim não cheguei lá. Tu não querias ver-me, era eu a intrometida, sempre
eu a convidar-me e a mostrar um mundo bonito, sem queixas e pesares, onde as
pequenas novidades tinham lugar. Um mundo que ignoravas e talvez acreditasses, quem
sabe se não fazias como as crianças nas histórias: intuem que é um mundo a fingir, mas afligem-se
na mesma, choram ou riem consoante o assunto.
E
é como te digo, envelheci: ver o passado
com os olhos de hoje dá-nos nova dimensão. Não me parece que seja sabedoria. Raro respondeste às minhas missivas compridas.
E, porque não te esquecia no Natal, ligavas a agradecer. Ao invés do que
afirmavas ao telefone, era um bem parecer; decidi não escrever mais e esvaneceste.
Ou
preferias evitar-me para impedir desconcertos e dúvidas sobre ti mesma. Para
não te arrependeres do caminho. É uma hipótese.
Sem
serventia, penso em ti com frequência. E tenho entre as páginas de um livro o
último cartão de natal que não enviei. Já tem anos, mas continua a fazer-me
pensar.