Em garota, nos serões de inverno,
costumava ficar sentada à mesa, olhando fixamente a pressa de agulhas de minha
mãe que, chegada à luz do candeeiro de petróleo, tricotava para mim ou minha
irmã. Abismava na pressa frontal com que as malhas passavam de uma agulha a
outra e, milagre dos milagres, ia crescendo uma peça na sua parte inferior. Por
certo, ali haveria passe de mágica, pois se apenas mudava as malhas de uma para
outra agulha, como é que lhe nasciam e cresciam mangas, costas, frentes. Mas,
perante o surdir destemido do trabalho, calava as dúvidas. Ora, certa noite de
maior pressa, minha mãe deixou escapar que atrasara o tricot e não conseguiria
terminar o casaquito antes do Natal. No dia seguinte, enquanto moirejava longe,
pensei em fazer surpresa e dar-lhe uma ajuda. Trouxe a obra para o meu colo,
passei a lã pelo pescoço, enrolei o fio da direita num dedo como lhe via fazer
e dispus-me a mudar as malhas de agulha. Foi o busílis. As malhas fugiam-me,
faziam finca-pé e resistiam à mudança de agulha como os portugueses aos
castelhanos. Quando, enfim, consegui mudar uma, entendi a dimensão da minha
ignorância e percebi que à facilidade de minha mãe correspondia, em grau
elevado, a minha inabilidade. Portanto, o meu desejo de ajuda cingiu-se a mudar
de lugar duas malhas e a recolocá-las, desanimada da tarefa. Não me lembro se
deixei ou não cair malhas. Sei que arrumei tudo no lugar e passei a dar maior
valor à função e que, finalmente, criei coragem e inquiri de minha mãe como
podia crescer o tricot apenas com a mudança de malhas de uma agulha a outra.
Minha mãe sorriu docemente e, abrandando o ritmo, explicou como tecia e ia
consumindo a lã que dobávamos as duas em novelo. E tudo fez sentido. Nunca lhe contei
dos meus vãos propósitos de ajuda. Suponho ter herdado o gosto pelo tricot e
lamento não me ter interessado por ele quando mo podia ensinar. Foi coisa que
não me ocorreu. Penso nisto enquanto teço, talvez com a destreza que antes lhe
pertenceu, sorrindo de mim e da minha ignorância, tal como se assistisse um
filme. À medida que se prolonga, o passado vai-se tornando cada vez mais o filme
que protagonizámos ou em que fomos figura secundária.
Ontem encontrei um ex-aluno que me
reconheceu (reconhece-me sempre). Disse-me, “gosto muito de si”. Assim mesmo. Babei
a olhá-lo nos olhos gratamente; perguntei pela filha que tem 18 anos; lembrei,
agora que já não existe leitor para tal, a cassete dos Dire Straits que tocava
enquanto lhe dava boleia e trouxe à liça o entusiasmo dele com o grupo.
Abraçámo-nos e desejámo-nos bom natal. Não lhe disse que o encontro por vezes
aos esses pela rua, desamparado e só; não lhe contei da infinita pena e
desolação que me dá vê-lo e saber que só a mãe o recebe. Meu pai, que eu
acompanhava, elidiu. Éramos só nós a fazer parar o tempo, unidos na sintonia
antiga que recuperamos em cada encontro.
Talvez
o passado não seja apenas um filme.
Talvez não, se houver partilha. Bjs
ResponderEliminarEstá dito, está feito, prosa.
EliminarBoa noite para ti.
Que bonito, que bonito. Uma escrita que comove.
ResponderEliminarOh! Mas é que eu é que... sabes, como dizia uma colega minha de escola, contando que um aluno estava a ser repreendido pelo director por ter sido apanhado a beijar uma garota. Resposta do miúdo, "então e ela pra qué que...eu cá qué que....".
ResponderEliminarPronto, olha, fiquei assim gaga de tu ti tigo a espreitares à minha janela. Ou será antes gagá?! Mau Maria.
Beijinho. E volta, ouviste? Que é como quem diz, leste.
Eu pensava que saía anónimo... Foi sem querer...
EliminarMas que avó tão querida (desculpa, mas considero que este bocadinho é, deveras, imprescindível).
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