Nos
intervalos desta vida de férias, respirando os bons ares do campo, dava escola
paga e fazia recreios de horas e que os “alunos” adoravam tanto como eu.
Tinha-os em nossa casa das nove às cinco e as horas passavam por nós sem que déssemos
por tal. É claro que meu pai ralhava todos os dias porque os garotos lhe
pisavam isto e mais aquilo, discurso que tinha apenas uma pontinha de verdade
porque, brincando todos na rua de casa, por vezes a bola intrometia-se na
agricultura e aninhava nos canteiros de feijão-verde, tomateiros, nabiças e o
mais. Na escola paga, também era feliz, ensinar divertia-me. Brincalhona
empenhada e mais velha que os outros garotos, não se notava tanto a falta
de jeito. Portanto, jogávamos horas sem fim “ao mata”, desforra atrás de desforra, e sentia-me vingada dos
dissabores sofridos na ginástica do colégio onde nem uma bola apanhava. Limitava-me
a permanecer ao fundo do campo, sem estorvar a equipa a que pertencia e pronta a ser morta quando o adversário entendesse.
Era uma morte santa e chegava-me bem no finzinho do jogo, uma vez que estava
derrotada à partida. O esmero na pontaria dirigia-se às rebeldes e ousadas
garotas que corriam desalmadas e tentavam por tudo apanhar a bola, condição
para não morrer. Enquanto na escola paga conseguia ser das melhores e todos me
queriam na equipa, no colégio, jamais fora escolhida; no final do "vamos escolher" das duas chefes de equipa, sobrava eu e outra aluna. Sempre as mesmas. Acontece
que ela tinha pé chato, eu era apenas desajeitada, factor que me acompanha a
vida. Mas pronto, habituei-me a conviver comigo.
Depois, havia as horas compridas de tarefas
domésticas. Um aborrecimento pegado. Entre outras coisas, competia-me passar a
ferro. Usava um ferro de brasas e, enquanto “pegavam”, ia ler. De vez em quando
distraía e as brasas ardiam por completo, quando ia pelo ferro só havia cinza. Hoje
lamento profundamente o pouco que ajudei minha mãe. O quanto não vi de trabalho
por fazer, o tempo que gastei a ler enquanto ela se esfalfava sem me
obrigar a acompanhá-la.
Havia
o arrancar das batatas e pô-las em monte no barracão. E desembandeirar milho, e
descamisar, e malhar, e joeirar na eira. Uma data de coisas que obliteravam o
colégio. E com as modernices passámos apenas a atafulhar a debulhadora (era o
que mais gostávamos) Eu, de forquilha em punho, era belzebu atento servindo as
maçarocas à dentuça da máquina. Minha mana e primo a carregarem os milhos aos
pouco enquanto meus pais lançavam gigas de muito quilo e a bebé cirandava por ali, nós aos gritos, sai, sai, ou ainda te pisamos. Envoltos em nuvem de pó vivo e em sintonia com os estremeções do monstro, dentro do hálito de gasóleo transpirado, habitávamos um barulho de
inferno. E terminávamos sujos e empoeirados. Ríamos uns dos outros e uma comichão
insistente obrigava-nos a um banho no tanque onde meu tio caçula tinha posto peixinhos
vermelhos apanhados na vala ora seca, e que nos circundavam em voltas de contorcionista admirado. Meu pai ajustava o preço com o senhor da debulhadora contando os sacos de milho. E comandava ao rés da máquina, vá, saiam lá daí que sujam a água. Mas depois ficava na conversa e
era noite. Aproveitávamos a distracção e permanecíamos no tanque de rega até
já não nos enxergarmos uns aos outros. Brincávamos. Então, minha mãe abria a janela e envolta na luz amarela do candeeiro de petróleo, meio a rir meio
severa, saiam da água. E trazia-nos as toalhas. Era verão e existíamos sem
depois.