segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Água Viva

 

Penso-te com a constância das ondas. Que coisa existe mais sem sentido que o incessante enrola-desenrola que, no estio, se faz suave arrulho da água e, nas invernias, desenvolve insana fúria, jeito de besta sem cabresto que os homens  sofrem e, por vezes, lhes leva a vida. Ou a que assistem da praia. Fora de alcance, estarrecem com o monstro que se espoja em destruição e dela se alimenta. E há a sensação de ser folha inerme, um deus-dará em trambolhão na tempestade.

Não te penso nesse rigor de terrífica beleza, movido a ondas de força enraivada que, por vontade ou sem ela, em algum inverno nos chega. Breve barcarola que somos. Salvos da procela por acaso ou destino a que também podes chamar Deus. Ou ajudados por outros como tu, que te içam mediante a força dos braços, facto que, para muitos, é metamorfose de mão divina, gratidão do tamanho largo que a palavra encerra.

Existes-me mais em ameno verão, onda que rola mansamente e assim desmaia. Como ela te vais gastando no caminho, entranhas, perdes-te um tanto; mas uma parte de ti recua, volta a quem é, refaz-se. E, quem sabe, a renovação te habita o ser e retornas por natureza.

Na beira-mar, veraneantes solares passeiam na espuma leve e os seus passos sem vinco vivem na memória dos pés.

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Que é dos Pássaros?

 

Acordava com o pipilar brando dos pássaros. Era um balbucio leve na madrugada, piados ligeiros de quem, por respeito, suspeição ou mera delicadeza, teme erguer a voz. Não espreitava o vermelho dos números digitais vivendo com uma hora atraso. Bastavam-lhe os pássaros na árvore grande que lhes servia de casa. Locatários de longa duração, estavam com ela para a vida. E, na hora azul, chamavam-se uns aos outros em algaraviada de sons musicais, esvoaçando baixo, qual marinheiro que lança a rede e traz peixe para casa. Via-os acomodar pelas ramadas. No ar ainda morno, e à medida que o conjunto harmonizava, sentia-lhes a mudez progressiva. Pensava que seriam famílias inteiras e diversas – várias espécies habitavam a árvore -, cada uma chamando os seus. E lembrava Florbela “a noite sobre nós se debruçou/ minh’alma ajoelha, põe as mãos e e ora/o luar pelas colinas, nesta hora/ é água de um gomil que se entornou”.  E cria que rezava com eles nesse silêncio abençoado dos dias que findam e finalmente respiram, o princípio da noite refrescando o ar. A majestosa protecção arbórea acolhia o desejo de qualquer asa. E ela reconhecia-lhe a grandeza magnânima de um deus vegetal acolhedor e propício a casa de pássaros. Amava-a pela receptividade; pelo viço clorofílico que emanava; pela sombra refrescante a que a terra era grata; pelos tons de amarelo-laranja com que se aprontava no princípio do verão e a faziam mais linda; pelo sombreado da copa, mitigando  o denso calor alentejano. Mas amava-a também por si mesma e por quem lha plantara e nenhuma outra voltaria a pôr na terra. Parecia-lhe, ao longe e ao perto, um deus de braços abertos, um deus benévolo que não arredava pé e se deixava ver mais que os humanos, que a protegia num abraço verde e cúmplice; um deus que a testemunhava em pressas e vagares. Abria a janela e, da cama, via-lhe a explosão de folhas e assistia ao contentamento dos pássaros a recrudescer com o sol. Os pássaros que a encantavam e lhe visitavam a janela. Que nasciam ano após ano. Notava-os desde a azáfama primeva dos pais a fazer ninho e deliciavam-na os primeiros voos dos filhos pousando ingénuos nas hastes mais baixas da árvore, quiçá por serem jovens e não aperceberem o perigo que são os saltos de um  gato. Algumas aves voltavam ritualmente em cada primavera. A maioria era cativa.

Mas, agora que o deus vegetal foi impiedosa e cruelmente morto, onde param os pássaros, onde poisam e pernoitam as aves que alegravam as madrugadas e orientavam o passo dos relógios, onde mora a ternura móvel e harmoniosa que enche os dias do estio.

Sem deuses,  as madrugadas e os dias impregnaram de opaco silêncio. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Dizendo sobre o Dito

 

Faço desde já a minha declaração de morte: nenhuma parte de mim vai restar depois da cremação e nem desejo que espalhem as cinzas aqui ou ali, enterrem-nas anónimas em qualquer sítio sem nome e que delas não fique sinal. Pretendo esvanecer como surgi, sem escarcéu nem trabalhos para quem fica. Estou-me borrifando para árvores genealógicas e, podendo, nem pegada ecológica deixava.

Presentificou-se-me esta decisão antiga por ter lido no blogue de Manuel Jorge Marmelo o despautério Luso-brasileiro em relação ao coração de D. Pedro IV. Ignorava-o por inteiro, mas estava guardado em  frasco de formol que agora rumou ao Brasil com muito fausto e pompa – mas por que carga de água meus deuses. Bom. Segundo consta, em seus tempos de louvor, e talvez da boca para fora, D. Pedro IV dedicou o coração à cidade do Porto (a mim parece-me só um arroubo terno ou mera conveniência). E pronto. Quando morreu el-rei, deve ter havido trabalho de bisturi e lá se guardou o dito  músculo. Numa cidade tripeira acho que não está de todo mal, sendo embora um nojo - tanto as tripas como o coração em formol.

Parece que existia discreto,  numa igreja – fui ao Porto algumas vezes e ninguém me falou dele. Beeemmm, e então não é que sua excelência o Bolsonaro presidente resolveu reclamá-lo para as comemorações da independência do Brasil (sete de Setembro). Ah, pois é, então que é isto, faltava o coração ao monarca-imperador, estava o senhor cadáver todo incompleto lá nos brasis. Não pode ser. Diga-se em abono da verdade que aquele coração faz tanta falta no Brasil como em Portugal. E não vejo a razão de lhe chamarem relíquia. É que não encontrei informação acerca da santidade de D. Pedro - deve estar com boa cara aquele coração, a cor toda comida do formol. Mas pronto, já que lá têm as ossadas – o imperador até veio a morrer onde nasceu, no palácio de Queluz – fiquem-lhe com o coração. Demos-lhes tudo, não venham para cá com mais pedidos dementes.

E posto isto, é melhor que o Manuel Jorge não se ponha com ofertas à cidade do Porto, preterindo por exemplo Munique que lhe dá atenção aos projectos.  Aquela malta da Invicta leva tudo à letra e como ele oferece à cidade o seu trabalho se ela o precise (isto é que é amor a uma cidade, assim, sim), parece-me bem que está lixado ainda em vida. Bom, pelo menos garante que ninguém lhe guarda bocadinhos em formol. É tétrico, sim senhor.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Este Pequeno Mundo

 

Os dias já começaram a emagrecer. Nota-se no leve oblíquo dos raios solares que, nas mesmas horas, expõem à luz o  que antes resguardavam na sombra; ou o inverso. Vê-se na calma triste que se apossa do viço em flores sazonais e que iniciam o fim de ciclo; talvez se repare no voo de gaivotas sôfregas que reclamam o seu espaço e chegam mais cedo à praia; pela tarde, sobrevoam o reino que cedem aos homens no palpitante calor do estio. Sente-se no frio ligeiro das madrugadas, quando o corpo insatisfaz na frescura dos lençóis. Rebrilha no olhar dos regressados, ainda povoado de sonho e  isento da mordida dos relógios, um vagar de gestos que lhes vem do repouso que houve. E no entanto, a mente não pára de impor a realidade e desenha as pressas de sempre, os compromissos, a vida quotidiana quase elidida.

Mas, enquanto o espírito se prepara para o outono, lá longe há um inferno hiante e os sons da desgraça sobressaltam, martelam-nos a mente transbordante de gritos e perdas, que o fogo é malvado e galga feroz  por todo o lugar. Estorrica os pobres animais acorrentados que a aflição dos homens esqueceu ou foi incapaz de soltar, leva no ardor os malogrados bichos que encurralou e não podem ou não sabem como fugir-lhe. Que são tão inocentes como os homens que o sofrem. Mata a floresta de árvores centenárias, os bosques verdes, as espécies rasteiras que a terra alimenta e necessita. Traga o oxigénio do ar e todo o que as espécies vegetais nos dariam. Compromete-nos o futuro. Portugal é tão pequeno mas bate records,  é o terceiro país da Europa com mais terra ardida. Os bombeiros fazem o que podem perante o inimigo mortífero e arrasador. Mas estes fogos sucessivos, este Portugal a arder anualmente, não desperta governos? Não haverá alguém capaz de declarar guerra aberta ao fogo e a quem o alimenta? Homens e mulheres choram os haveres perdidos. Choro com eles, que pouco haverá no mundo das coisas que seja capaz de ultrapassar o valor de um lugar de pertença e de descanso, que, para a maioria, foi conquistado a palmo e a poder de suor. E, se há idades em que o recomeço surge como nova oportunidade, outras existem em que já não há tempo, em que se deseja apenas acabar dentro do mundo que se criou. Para muitos já não será possível. Choro todas as perdas. Choro pelo Portugal verde que vai desaparecendo, ano após ano. Choro pelos vindouros que não vão encontrar um país independente e capaz de lutar por si mesmo. Porque o deixamos inerme, incapaz de defesa.  

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Como Açúcar no Fundo da Chávena

 

         As férias, tal como hoje se me apresentam, terminaram. Partiram os veraneantes que se apresentaram de visita. Uns, rumaram a penates, dentro ou fora do país; estes, apenas demandaram outras paragens e, algures, continuam a evasão estival; um ou outro, só agora goza férias. A todos desejo a recuperação de dois anos de insegurança que nos tolheu os passos e muito impediu. Por exemplo, o tão desejado tempo de lazer.

         Portanto, no finzinho desta primeira semana do pós-férias, fulo comigo ou apenas solidário, o relógio ameaça parar. Agora deu-lhe para atrasar as horas, alarga os minutos e vem desopilar o mau humor na pressa nervosa dos segundos, tic, tic, tic que até parece salto alto em fervente irritação. Antes, não me soava a corrida dos segundos, agora escuto aquele sapateado de máquina exasperada. Que coisa! Quanto a mim, e apesar da verdade ser inversa, garanto que os dias me são maiores. Devo sofrer da doença do relógio – oxalá não seja contagiosa – e acrescento à jornada um sem sabor que, por mais que faça e refaça, recusa mudança (às tanta é constipação d’alma). Portanto, são dias insossos, desenxabidos de todo e que contrario como posso. Voltei aos livros, penso no moreno café com leite das sextas e segundas que me tardam mais que o amigo do senhor rei, zanzando para as bandas da Guarda.

Mas ficam os bálsamos da presença. Persegue-me a benigna saudade dos teus cuidados, a medida verificada de te ser importante, a companhia que me és. Ninguém vê e comenta filmes comigo, senão tu; ocupas-te com o que leio, perguntas, dás opinião se acaso conheces; só tu me ofereces bilhetes para um espectáculo surpresa que sempre faz o meu gosto. E como a alma se afeita ao que lhe cai bem. Bastam uns dias e logo o hábito quer entrar. Que há bons hábitos, hábitos que são vida - sem metáfora. Mas pronto, resta a lembrança. Quero crer em amores fáceis e indestrutíveis. Tenho razões para acreditar. Como é que dizia Freud? “Temos de amar, senão adoecemos”. Colhi a frase num romance, mas tenho esperança que seja ele o autor; só lhe ficava bem, pois não era? E reparo que sou mais parecida comigo (o eu que imagino existir) nas tuas fotos. Ó inefáveis mistérios.

domingo, 7 de agosto de 2022

A manhã perlada e Ana Luísa Amaral

 

Encantam-me as manhãs perladas. São pequeníssimas gotas suspensas que refrescam o ar e o rosto de quem passa. Ia eu ao pão pela fresca, mergulhada no silêncio da manhã deserta e sem sol, eis senão quando, deparo com duas vizinhas mais ou menos acocoradas, cada uma de seu lado da rua. Uma caiava com zelo o muro baixo do quintal enquanto a outra, vassourinha anã em punho, varria reclamando dos serviços camarários que nem ali abordavam. Mas, prioritariamente, praguejava contra todos os veículos motorizados que lhe rasavam a porta: porque é só pó e o degrau da entrada não pára limpo; porque as flores nem medram; porque  a rua não tem descanso. A primeira, avançando na caiança, alimentava a conversa a poder de “ah, pois é” e “é mesmo”. Atenta a pormenores e requebros do muro, e talvez habituada à queixosa, ia largando inóquos de marcar presença.  Dei-lhes a salvação e deixei-as a terminar trabalho. Aposto que nunca vão saber quem é Ana Luísa Amaral. Que pena! Entre nós (eu e elas), Ana Luísa Amaral é a grande diferença. Ana Luísa Amaral de quem sei alguma poesia, que ouvia se me apetecia a conversa de “o som que os versos fazem ao abrir” e me entrava na alma sem precisar pedir. No programa, maravilhava-me o seu saber e afabilidade, a forma tão única de ver o mundo, afirmativa e sem narcisismo. Ana Luísa que sempre imaginei poder ser uma boa amiga. Que vivia algures no norte português, dava aulas na universidade do Porto e tinha uma cadela Emily Dickinson, uma filha muito amada de nome Rita e conversava atraente e sugestiva. Era de certeza uma boa e querida professora. Morreu-me.  Descansa, Poeta.

 

Um adeus triste

Porque no pesadelo e de repente

 o futuro rasgou-se, as cortinas soltaram-se.

 Na profecia só ficaste tu.

 

 E a tua falta mais que a tua

 ausência em pequeno mosaico

 se fechou. Entendo agora como uma cadeira

 pode ser só esta cadeira porque

 é tua.

Ana Luísa Amaral

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Sem Gaivotas ou Cavalos a fazer Sombra no Mar

 

    Nos intervalos desta vida de férias, respirando os bons ares do campo, dava escola paga e fazia recreios de horas e que os “alunos” adoravam tanto como eu. Tinha-os em nossa casa das nove às cinco e as horas passavam por nós sem que déssemos por tal. É claro que meu pai ralhava todos os dias porque os garotos lhe pisavam isto e mais aquilo, discurso que tinha apenas uma pontinha de verdade porque, brincando todos na rua de casa, por vezes a bola intrometia-se na agricultura e aninhava nos canteiros de feijão-verde, tomateiros, nabiças e o mais.  Na escola paga, também era feliz, ensinar divertia-me. Brincalhona empenhada e mais velha que os outros garotos, não se notava tanto a falta de jeito. Portanto, jogávamos horas sem fim “ao mata”, desforra atrás de desforra, e sentia-me vingada dos dissabores sofridos na ginástica do colégio onde nem uma bola apanhava. Limitava-me a permanecer ao fundo do campo, sem estorvar a equipa a que pertencia e  pronta a ser morta quando o adversário entendesse. Era uma morte santa e chegava-me bem no finzinho do jogo, uma vez que estava derrotada à partida. O esmero na pontaria dirigia-se às rebeldes e ousadas garotas que corriam desalmadas e tentavam por tudo apanhar a bola, condição para não morrer. Enquanto na escola paga conseguia ser das melhores e todos me queriam na equipa, no colégio, jamais fora escolhida; no final do "vamos escolher" das duas chefes de equipa, sobrava eu e outra aluna. Sempre as mesmas. Acontece que ela tinha pé chato, eu era apenas desajeitada, factor que me acompanha a vida. Mas pronto, habituei-me a conviver comigo.

 Depois, havia as horas compridas de tarefas domésticas. Um aborrecimento pegado. Entre outras coisas, competia-me passar a ferro. Usava um ferro de brasas e, enquanto “pegavam”, ia ler. De vez em quando distraía e as brasas ardiam por completo, quando ia pelo ferro só havia cinza. Hoje lamento profundamente o pouco que ajudei minha mãe. O quanto não vi de trabalho por fazer, o tempo que gastei a ler enquanto ela se esfalfava sem me obrigar a acompanhá-la.

Havia o arrancar das batatas e pô-las em monte no barracão. E desembandeirar milho, e descamisar, e malhar, e joeirar na eira. Uma data de coisas que obliteravam o colégio. E com as modernices passámos apenas a atafulhar a debulhadora (era o que mais gostávamos) Eu, de forquilha em punho, era belzebu atento servindo as maçarocas à dentuça da máquina. Minha mana e primo a carregarem os milhos aos pouco enquanto meus pais lançavam gigas de muito quilo e a bebé cirandava por ali, nós aos gritos, sai, sai, ou ainda te pisamos. Envoltos em nuvem de pó vivo e em sintonia com os estremeções do monstro, dentro do hálito de gasóleo transpirado, habitávamos um barulho de inferno. E terminávamos sujos e empoeirados. Ríamos uns dos outros e uma comichão insistente obrigava-nos a um banho no tanque onde meu tio caçula tinha posto peixinhos vermelhos apanhados na vala ora seca, e que nos circundavam em voltas de contorcionista admirado. Meu pai ajustava o preço com o senhor da debulhadora contando os sacos de milho. E comandava ao rés da máquina, vá, saiam lá daí que sujam a água. Mas depois ficava na conversa e era noite. Aproveitávamos a distracção e permanecíamos no tanque de rega até já não nos enxergarmos uns aos outros. Brincávamos. Então, minha mãe abria a janela e envolta na luz amarela do candeeiro de petróleo, meio a rir meio severa, saiam da água. E trazia-nos as toalhas. Era verão e existíamos sem depois.