Embebido em si, Jaime agradeceu retornar aos estudos
sem passar por casa. Sentia-se inseguro quanto ao bem estar materno, mas o instante
desejo de permanecer desanuviado justificava-lhe a convicção de melhoras.
Distância, desconhecimento e juventude velavam-lhe a realidade. E aliviava na ausência de notícia. Descontraía.
Empanturrado de liberdade e sonho, via-se
capaz de fazer caminho por si e tomar partido, deixando a aldeia e a tutela no passado, qual roupa antiga onde
o corpo já não cabe. Queria mudanças. Construía castelos. Projectava. Estudar e
ser doutor, ganhar nome na cidade. Antevia-se de bem com a vida, repimpado em
casamento feliz, pessoa de respeito a que os colegas de café acenavam com
agrado, mãos procurando lépida cadeira e abrindo espaço na mesa. Descoberto o juvenil
poder da amizade masculina, e assente na lembrança de garoto solitário, decidia-se
por um círculo de amigos, selecto e bem humorado, de longevidade e coesão invejadas.
Mas, apesar da imaginação à desfilada, a saudade insistia. As malas chegadas da
terra traziam-lhe os cuidados maternos. Revia a preocupação da mãe a vasculhar
o quarto e espreitar a mala aberta, ainda assim não olvidasse algum pertence ou
necessidade; vinha-lhe o eterno chão de ternura entretecido de pormenores; os
poucos conselhos; as surpresas escondidas sob roupas e livros e de que só dava
conta no desfazer da mala; o aconchego dos braços na despedida, olhos que, na
impossibilidade de segui-lo, derramavam, saíam de si, palpitavam na exaltação
inquieta das mãos, corriam-lhe o semblante e, protectores, se afirmavam no todo
do corpo, a querer memorizá-lo, fixar dobras e vincos, captar sombras e penumbra.
Não era ainda a saudade irremediável, funesta, que
modifica os interiores do homem, porque só dentro de cada um existe a verdade
possível, só o pensamento nomeia e qualifica. E a morte ainda não existia em
Jaime. Mau grado a estranheza sentida na ausência das pequenas surpresas sob a
roupa, o escrúpulo de Celestina suprira mais desconfianças. E a juventude
fazia o seu papel.
Deste modo, enquanto Jaime se afirmava e eu crescia, enquanto a filha do
Pelinhos vivia alegremente de amealhar em fins de semana por montes e lugarejos,
toda a aldeia estava ciente da morte iminente de Veridiana e a lamentava como
se já o facto consumado. Restava apenas a dúvida acerca de Jaime, será que o
pai o chama antes, ou depois da morte. E as mulheres com seus lamentos de
agoiro, coitadinha, tanto que ela gostava do filho, vai-lhe atravessado. Outras, pobrezinha, anda ele todo lampeiro lá pelos estudos, sabe-se
lá a fazer o quê, e ela aqui neste padecer. Ou ainda, que Deus não se demore a
chamá-la, está fartinha de penar e tanto
sofrer não se deseja a ninguém, o Formosinho está um caco, nem parece ele. Mas, até ali, as invejas chegavam em seu disfarce de apertar xailes ao peito, Deus o
dá e Deus o tira, Ele lá sabe porquê.
O irrefutável da morte chegava com aviso. Muitos tinham reparado nos
corvos sobrevoando a casa. Três dias a fio, no alvor matinal, as aves proféticas
a assinalaram, revoluteando sobre as telhas. Era certo o odor fétido, nada a
fazer.
A parte final é mais triste e forte... Mas não deixa de ser um belo texto.
ResponderEliminarAdorei a frase "empanturrado de liberdade e sonho..." Que lindo!
Beijocas
A juventude é assim, desmede.
EliminarBom fim de semana, Cláudia.
Infelizmente a intermitência da crónica não adiou a intermitência da morte - aqui não há milagres, só o milagre da escrita.
ResponderEliminarE esse, deu-se ao fim de treze dias de espera que valeram o voltar ao desfrute de frases cheias de alimento para qualquer espírito ávido.
Obrigada, Joaquim. Certo, tenho andado a pensar noutra coisa. Que nem só de escrita vive o homem. Mas também:).
EliminarE, olhando bem, que é como quem diz, se ler, houve um pequeno milagre, sim.
Um fim de semana agradável.
Um pouco forte, mas gostei!
ResponderEliminarBjxxx
Ontem é só Memória | Facebook | Instagram | Youtube
:). Bom Fim de Semana, Teresa.
ResponderEliminarNa minha terra existem muitos corvos. A sua cor preta impressiona. Dizem que o seu piar é um anunciar de morte. Não sei se é... mas que arrepia o silvo do piar de um corvo, é uma verdade
ResponderEliminarGostei de ler este texto que acaba de uma forma um tanto ou quanto arrepiante
Feliz fim de semana
Saudações poéticas
Os corvos, diz-se na minha terra, sentem o cheiro da morte. E quem sabe se não é mesmo verdade. Na última vez que estive na praia, eles andavam por lá como quem pisa chão que lhe pertence, donos de tudo. Acho-os feios, muito desajeitados e o crocitar é tudo menos bonito. Os pobres não têm culpa, mas não há ponta por onde pegar-lhes.
ResponderEliminarA morte e os símbolos a que lhe são associados tão bem descritos pela Bea! 👏👏👏... Boa semana!
ResponderEliminarA morte tem seus sinais específicos. Como nós temos os nossos e não deixamos de tê-los mesmo se ninguém os reparou. Existem.
EliminarBoa semana, Gracinha.
As aves agoirentas que depressa se transformarão em barulhentas carpideiras.
ResponderEliminarBoa semana
Hummm....Já não se usam as carpideiras. Mas ainda há quem tenha a ousadia de chorar quando perde quem gosta. Verter lágrimas, coisa patusca e de mau tom, popularucha mesmo. Ao que nós chegámos.
EliminarBoa semana, Pedro.
Li, sensibilizada o texto todo. Quanto amor de uma mãe em todos os pormenores. Quanta quase indiferença do filho que distraído consigo mesmo não dava conta do que se passava. Li, sensibilizada o texto todo, repito.
ResponderEliminarContinue a cuidar-se.
Uma boa semana.
Um beijo.
:). Não entendo como uma quase indiferença. A juventude não aguenta a tristeza contínua e agarra todas pontes que saltem sobre ela, é importante andar em frente e alapar na força da vida. Além disso, como se costuma dizer, Jaime não sabia da missa a metade, todos colaboravam com a mãe e lhe escondiam a gravidade da doença.
ResponderEliminarUm beijinho e boa semana, Graça.
Super blog
ResponderEliminarBea, hoje vim só deixar-lhe um beijo.
ResponderEliminarObrigada!
Outro para si, Teresa. E boa semana.
ResponderEliminarPois, parece que ainda estou dentro daquele espaço de tantos sentires, de tantas versões do sentir dos outros, de corvos da cor do luto...
ResponderEliminarObrigada, Bea, e boa noite.
Boa noite, Maria. Obrigada sou eu pela visita. Muitos mercis.
ResponderEliminarE Boa tarde:).