sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Sombra Chinesa

 

Embebido em si, Jaime agradeceu retornar aos estudos sem passar por casa. Sentia-se inseguro quanto ao bem estar materno, mas o instante desejo de permanecer desanuviado justificava-lhe a convicção de melhoras. Distância, desconhecimento e juventude velavam-lhe a realidade. E  aliviava na ausência de notícia. Descontraía. Empanturrado de liberdade e sonho, via-se  capaz de fazer caminho por si e tomar partido,  deixando a aldeia  e a tutela no passado, qual roupa antiga onde o corpo já não cabe. Queria mudanças. Construía castelos. Projectava. Estudar e ser doutor, ganhar nome na cidade. Antevia-se de bem com a vida, repimpado em casamento feliz, pessoa de respeito a que os colegas de café acenavam com agrado, mãos procurando lépida cadeira e abrindo espaço na mesa. Descoberto o juvenil poder da amizade masculina, e assente na lembrança de garoto solitário, decidia-se por um círculo de amigos, selecto e bem humorado, de longevidade e coesão invejadas. Mas, apesar da imaginação à desfilada, a saudade insistia. As malas chegadas da terra traziam-lhe os cuidados maternos. Revia a preocupação da mãe a vasculhar o quarto e espreitar a mala aberta, ainda assim não olvidasse algum pertence ou necessidade; vinha-lhe o eterno chão de ternura entretecido de pormenores; os poucos conselhos; as surpresas escondidas sob roupas e livros e de que só dava conta no desfazer da mala; o aconchego dos braços na despedida, olhos que, na impossibilidade de segui-lo, derramavam, saíam de si, palpitavam na exaltação inquieta das mãos, corriam-lhe o semblante e, protectores, se afirmavam no todo do corpo, a querer memorizá-lo, fixar dobras e vincos, captar sombras e penumbra.

Não era ainda a saudade irremediável, funesta, que modifica os interiores do homem, porque só dentro de cada um existe a verdade possível, só o pensamento nomeia e qualifica. E a morte ainda não existia em Jaime. Mau grado a estranheza sentida na ausência das pequenas surpresas sob a roupa, o escrúpulo de Celestina suprira mais desconfianças. E a juventude fazia o seu papel.

Deste modo, enquanto Jaime se afirmava e eu crescia, enquanto a filha do Pelinhos vivia alegremente de amealhar em fins de semana por montes e lugarejos, toda a aldeia estava ciente da morte iminente de Veridiana e a lamentava como se já o facto consumado. Restava apenas a dúvida acerca de Jaime, será que o pai o chama antes, ou depois da morte. E as mulheres com seus lamentos de agoiro, coitadinha, tanto que ela gostava do filho, vai-lhe atravessado. Outras, pobrezinha, anda ele todo lampeiro lá pelos estudos, sabe-se lá a fazer o quê, e ela aqui neste padecer. Ou ainda, que Deus não se demore a chamá-la, está fartinha de  penar e tanto sofrer não se deseja a ninguém, o Formosinho está um caco, nem parece ele. Mas, até ali, as invejas chegavam em seu disfarce de apertar xailes ao peito, Deus o dá e Deus o tira, Ele lá sabe porquê.

O irrefutável da morte chegava com aviso. Muitos tinham reparado nos corvos sobrevoando a casa. Três dias a fio, no alvor matinal, as aves proféticas a assinalaram, revoluteando sobre as telhas. Era certo o odor fétido, nada a fazer.

 

 

19 comentários:

  1. A parte final é mais triste e forte... Mas não deixa de ser um belo texto.
    Adorei a frase "empanturrado de liberdade e sonho..." Que lindo!

    Beijocas

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    1. A juventude é assim, desmede.
      Bom fim de semana, Cláudia.

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  2. Infelizmente a intermitência da crónica não adiou a intermitência da morte - aqui não há milagres, só o milagre da escrita.
    E esse, deu-se ao fim de treze dias de espera que valeram o voltar ao desfrute de frases cheias de alimento para qualquer espírito ávido.

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    1. Obrigada, Joaquim. Certo, tenho andado a pensar noutra coisa. Que nem só de escrita vive o homem. Mas também:).
      E, olhando bem, que é como quem diz, se ler, houve um pequeno milagre, sim.
      Um fim de semana agradável.

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  3. Na minha terra existem muitos corvos. A sua cor preta impressiona. Dizem que o seu piar é um anunciar de morte. Não sei se é... mas que arrepia o silvo do piar de um corvo, é uma verdade
    Gostei de ler este texto que acaba de uma forma um tanto ou quanto arrepiante

    Feliz fim de semana
    Saudações poéticas

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  4. Os corvos, diz-se na minha terra, sentem o cheiro da morte. E quem sabe se não é mesmo verdade. Na última vez que estive na praia, eles andavam por lá como quem pisa chão que lhe pertence, donos de tudo. Acho-os feios, muito desajeitados e o crocitar é tudo menos bonito. Os pobres não têm culpa, mas não há ponta por onde pegar-lhes.

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  5. A morte e os símbolos a que lhe são associados tão bem descritos pela Bea! 👏👏👏... Boa semana!

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    1. A morte tem seus sinais específicos. Como nós temos os nossos e não deixamos de tê-los mesmo se ninguém os reparou. Existem.
      Boa semana, Gracinha.

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  6. As aves agoirentas que depressa se transformarão em barulhentas carpideiras.
    Boa semana

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    1. Hummm....Já não se usam as carpideiras. Mas ainda há quem tenha a ousadia de chorar quando perde quem gosta. Verter lágrimas, coisa patusca e de mau tom, popularucha mesmo. Ao que nós chegámos.
      Boa semana, Pedro.

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  7. Li, sensibilizada o texto todo. Quanto amor de uma mãe em todos os pormenores. Quanta quase indiferença do filho que distraído consigo mesmo não dava conta do que se passava. Li, sensibilizada o texto todo, repito.
    Continue a cuidar-se.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  8. :). Não entendo como uma quase indiferença. A juventude não aguenta a tristeza contínua e agarra todas pontes que saltem sobre ela, é importante andar em frente e alapar na força da vida. Além disso, como se costuma dizer, Jaime não sabia da missa a metade, todos colaboravam com a mãe e lhe escondiam a gravidade da doença.
    Um beijinho e boa semana, Graça.

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  9. Bea, hoje vim só deixar-lhe um beijo.
    Obrigada!

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  10. Outro para si, Teresa. E boa semana.

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  11. Pois, parece que ainda estou dentro daquele espaço de tantos sentires, de tantas versões do sentir dos outros, de corvos da cor do luto...
    Obrigada, Bea, e boa noite.

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  12. Boa noite, Maria. Obrigada sou eu pela visita. Muitos mercis.
    E Boa tarde:).

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