terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

Por detrás do postigo desvidrado, Zefa do Prado, embiocava na escuridão espreitando a silhueta de Jaime, recorte móvel no ar pardacento, por vezes já atravessado de um ou outro raio de sol que dourava este e aquele telhado. Agente secreto posto em serviço, um resto de xaile pelos ombros, espiolhava a rua seguindo os passos do rapaz até a figura esfumar e desaparecer na curva. Enquanto isto, Zé da Adega descoroçoava e dava voltas ao miolo para não contar o que vira e supunha secreto e apenas seu. Moía-o não repartir com a mulher. Bem a conhecia. Virgínia era uma língua de trapos, não sabia guardar mexericos, e este era de alto lá, o que lhe impedia o desabafo. O segredo aturdia-o, pesava-lhe nos interiores. Para amenizar, espalhava-o pelos montes, abria-se à indiferença das ovelhas e contava-lhes o que vira. Mas não resolvia. Adormecido, a mente expandia o mal estar e apoquentava a mulher, homem, tu não andas bom, dantes, dormias que nem pedra; agora, levas as noites aos esticões e a revirar a cabeça na almofada como um danado. E ele com desculpas e atenuantes esfarrapadas, uma ovelha perdida, menos leite na ordenha, o dinheiro que faltava para a contribuição. A agravar, vinham-lhe as histórias que ouvira na infância, histórias de segredos invioláveis que torturavam os detentores. Vinha-lhe o tocador que fora ao canavial por uma flauta e que, mal a punha à boca, logo divulgava o segredo que alguém fora enterrar nesse lugar. E, na sua crença ingénua, temia que castigo semelhante caísse sobre ele. Por vezes, imaginava que o Chico aportava a casa, havia um estrilho tamanho mas resolvia o seu mau estar. E chegava mesmo a fingir o assombro devido, no momento em que a mulher lhe comunicava a nova.  Mas a vida não se dobra aos desejos de cada um.  Zefa e Zé, presentes e sem interferência, pareciam anjos de Wim Wenders. Não julgavam. Refém da amizade que dedicava a Jaime, Zefa emudecia contrariando a sua natureza; quanto ao Zé, sujeito de boa índole e algum romantismo serôdio, sentia-se compelido a proteger os amantes e apoquentava-o o remorso se, em pensamento, chamava o Chico.

Mas os anjos mundanos perderam as asas, habitam a Terra de olhos inquietos e desejantes, e eternamente guardam o céu a que aspiram e lhes é incógnito. São por vezes de uma imperfeição tocante, de outras, mera boçalidade; uns dias capazes de heroicidade e noutros apenas malévolos, vaidosos, autênticos barris de inveja. Ninguém sabe onde nasceu, quem acendeu o rastilho, mas a bomba rebentou: era fonte segura, tinham-no visto, Jaime andava metido com a filha do Pelinhos. E foi um diz que diz, um tal arrasar da mulher que, com filha crescida e pouco mais nova que Jaime, devia ter juízo. Porém, qual fosse a razão, o burburinho fazia-se em surdina e em surdina se esperava a vinda do Chico. Enquanto isso, as madrugadas fizeram-se de companhia, havia gente que desejava surpreender a desfaçatez dos amantes.  


domingo, 29 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

A primavera é um tempo destemido. Ele são botões que despontam em todo o canto, no meio de cardos e escolhos, por entre espinhos, na correnteza de ervas que ladeiam os trilhos. Ele são as crias que nascem e logo tentam seguir as mães, ternura de patas que desfalecem e as faz  cair de joelhos aos primeiros tentos; contudo, logo insistem e retomam a marcha, a verdura dos membros flectindo aqui e ali, mas ganhando firmeza a cada passo. Que, por natureza, reagem ao mundo com rapidez; na mesma hora em que nascem e tenteiam, já as crias correm seguras. E é vê-las, contentes do equilíbrio, buscando sôfregas tetas de que gulosas e frágeis se fazem senhoras, uma escorrência de leite a descer pelo canto da beiça, vírgula de imperfeição no gesto primeiro. E a imobilidade materna a pontuar amorosa atenção, imersa na ternura animal que lhe pertence e que, se fora humana, havia de ser colo e braço de aconchego fazendo ninho ao rebento, entre o médio e o indicador da mão livre, um mamilo que espreita e atrai. Será o mesmo impulso – preensão e sucção - a guiar as crias, mas só nos humanos a saciedade se faz anunciar em música de nomes pequenos, tesouro escondido de  que só as mães possuem a chave. No emaranhado de novo sons,  o ouvido capta e releva a terna modulação da  palavra e por ela se deixa cativar. Significação e sentido acompanham os humanos desde a linguagem sensorial.

Ora os nossos quase incógnitos amantes, ainda meio inexistentes porque não reconhecidos, pareciam acompanhar o despudor primaveril. Juventude que desabrocha maravilhada, Jaime atardava-se cada vez mais por casa alheia. Saía vagaroso e bendito, como quem  vem do que lhe pertence por natureza e condição. Que véu espesso lhe ocultava a realidade, não o saberia talvez. Num primeiro momento, os amantes param o tempo, são eterno presente. Existem à semelhança dos rituais religiosos: vibram em mundo próprio e intransmissível, lente colorida e transformadora que sobrepõe o sonho à realidade. Imbuídos no incomensurável presente, elidem o futuro e, guiados por sentimento e paixão, mergulham no efémero paraíso de todos os impossíveis. Floresce-lhes a inaudita flor das altas montanhas, e, em inédito e assombrado desvelo contemplam e alimentam a cria. Mas, se a Jaime assistia a juventude e os primores do sexo; se podemos crer na força que nele tinha a novidade conjunta de sexo e amor; se tal constituiu descoberta e encanto, que dizer  da filha do Pelinhos, abandonada de missivas e que pouco se deixava ver. Não fora a luz sub-reptícia que por vezes lhe cintilava no olhar, diríamos até que nada a alterava. As mulheres aprendem cedo a arte do disfarce. São elas as grandes e quase inatas fingidoras.  No quadro, Jaime aparecia como incauto equilibrista, braços em cruz experimentando o arame. Mas, e ela?! Não tinha ela experiência de homens que bastasse, não havia de sua parte um palmarés que justificava o resguardo de passageiras paixões. Que dizer dela, mulher vivida que atirava às urtigas o seu mundo organizado. Em que pensaria, nesse tempo sem par. Se acaso pensava no assunto, que espaço deixara ao Chico e à vida de antes.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Lili

 

Num repente, enviuvaste. Partilhaste o filho, ganhaste nora e netos, perdeste o marido. Entregaste-te ao amor da família e não acautelaste nenhum dos avisos e cuidados do companheiro de vida, o único capaz de fazer-te sair de casa para visitas pontuais e nunca chorosas. Encontrei-te algumas vezes e passeavas contente pelas ruas da vila. Jamais foste viúva inconsolável. Ias de visita a alguém muito querido, movia-te a saudade. Coxeavas, mas sorrias bem disposta, como se as pernas dolorosas fossem nada. O teu olhar, talvez por idade ou condição de avó, ganhara ondas de ternura. Anotei a mudança, causa da minha aproximação. Convidei e aceitaste um lanche em minha casa. Doente, vivias sem queixas. Então, já alienaras todos os bens em favor do núcleo familiar. Contrariaste recomendações do companheiro que, à beira da partida, ainda zelava por ti. O amor cega. Instada, fizeras-te pobre como Job. Despojada e já doente, a visão a acompanhar a negação das pernas, tornaste-te depósito incómodo. O Lar foi solução. Ninguém te perguntou o que desejavas, nada escolheste.

Quando já te adaptavas à proximidade de estranhos - eram apenas cinco ou seis pensionistas e os cuidadores faziam de família –, quando tinhas aprendido a gostar da companhia, transferiram-te. Havia um Lar mais próximo e barato. Que era também uma colmeia de utentes, com todas as decorrências da circunstância. Mais uma vez não foste consultada. Contudo, os negócios familiares cresciam vigorosos, os proventos floresciam. E tu, paulatina,  ias cegando por via de cataratas que ninguém pensou em tratar, uma visita de longe em longe. Até que, vislumbrando apenas vultos, o Lar alertou a família. Depois, foi a morosidade de anos no SNS esperando consulta. E eu a dar-te esperança, prometendo revistas sem fim.  Quando, enfim, foste consultada, a oftalmologista indispôs-se com os parentes. Estavas cega, era irreversível.

Tão pouco te vali. Mas, ansiando as visitas do núcleo familiar que te rareavam, aceitavas de boa mente a insuficiência da substituta. Falávamos deles todo o tempo e era como se voltasses atrás e vivesses ainda à sua beira. Gulosa, eras grata por miudezas e doces caseiros, mas, por mais instada, nunca sugerias. Alegre e com gulodice de menina, apetecias tudo que viesse. Mas já não te movias.  Por vezes, deixavam-me ficar um pouco mais e empurrava-te a cadeira até à mesa do jantar.

E faltas-me, queres o quê. 

Sabia-te perto do fim. Na última visita senti-te a involução. Desprendias-te. Olhos semicerrados, não sorriste como de outras vezes, a minha mão a descer  levemente a tua pele de cetim, tentativa de aquecer-te o rosto ora arrefecido. Fechaste os olhos, mas ainda acenaste a um pudim e marcámos o dia. Na tarde do dia seguinte adoeci de coisa nenhuma e piorei durante a noite. Progressiva, abatia-se sobre mim uma inexplicável agonia do corpo. Supus-me à beira de doença grave e ainda não identificada. Era manhã feita quando, breve e em pesadelo, adormeci. Acordei cansada mas normal.

Após os trâmites da morte, perguntei quando começaste em agonia, a que horas morreste. A família ignorava. E eu para que quero saber o que sei?!

 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Lili

 

Lembro-te ainda jovem:  alta,  cabelo negro e fino, ligeiramente ondulado, compleição sólida de carnes a que distraída inadvertência chamava sensualidade, termo que apenas iludia o prenúncio de excesso de peso. Recordo a pele branca e cetinosa, encanto do meu então moreno escuro, e os dedos de fuso ressuscitando dextras agulhas.  “Tia Lili”, nome exíguo bailando indeciso na densidade da tua figura, sugestão de ternuras em ti inexistentes.  Chegavas de um lugar de nome esquisito, a que se acedia de comboio e que todos desconheciam. Era o tempo de ninguém conhecer o significado de viajar, ter férias, ir a uma consulta médica, o mundo das análises clínicas, incógnito por inteiro.

A imagem mais antiga e completa que guardo é talvez a prova de um vestido de nylon muito rodado, o branco de neve pintalgado de  bolinhas vermelho sangue – minha mãe tinha bom gosto - e tu, num desfastio de obrigação e dever, rosto sério e sem pingo de ternura, a rodopiar alfinetes em bainha, enquanto eu, vaidosa e tola, rodava o nylon e te impacientava o gesto. E minha mãe a travar-me mansamente, mão no ombro, está quietinha, rodas a saia depois. Tia por afinidade, tinhas aprendido costura e, penso que, contrariada, me fizeste, no início do casamento, uma ou outra peça de roupa. Depois, bom, depois veio um bebé dos que dão trabalhos dobrados e muita aflição, um rebento  daqueles que, por motivos de saúde, levam os pais a desistir de mais filhos. Abandonaste a costura, não fizeste amizades no lugar, detestavas por igual sogra e demais família emprestada. Jamais saías de tua casa, nunca convidaste alguém fora da tua família de sangue. Os teus familiares chegavam manhãzinha e partiam embrulhados em noite e apitos de comboio. Conheci-os a ajudar em tua casa, na vida de muito trabalho que te coube. Anoitecidos de cansaço, seguiam para a terra de nome esquisito e que quase não visitavas; de que, provavelmente, eras saudosa.  Tinhas um gosto particular por fotonovelas. A vida inteira das fotonovelas te passou pelas mãos. Contudo, não eras mulher de partilhas, nunca se soube o que lhes fazia depois de lidas nem como as adquirias, imagino que o marido as comprava, não saías do gineceu. Com o meu tio, que já perdera uma noiva para a tuberculose, fizeste par indissolúvel e benquisto, só interrompido por morte. Diz quem viveu meia dúzia de anos em tua casa e, por desábito, vos achava admiráveis, que jamais assistiu a uma discussão, um levantar de voz, uma palavra em gume. E salvaguarda ternura e carinho visíveis, bem comum aos dois.

(Cont.)

sábado, 21 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

Foi o Zé da adega,  simples detentor de estábulo, quem, num dos acasos da vida, deu de caras com o insólito. Passavam ele, o cão e as ovelhas pelo monte ainda mal iluminado de Zefa do Prado e da vizinha, quando enxergou a figura masculina saindo de casa da filha do Pelinhos. Firmou a vista, não lhe parecera o recorte do Chico. E mal podia crer no que os olhos viam:  em seu modo natural e aprumado, Jaime aproximava-se subindo a ladeira. Estacou num assombro. Mas Jaime cruzou-o com um sorriso; mãos nos bolsos e  lesto cumprimento,  afastou-se a caminho de casa. E ele, Zé, provavelmente esbugalhado, a chamar o cão só por disfarce do espanto, e acrescentando, sem competência, atabalhoada salvação. Em notável indiferença, retoiçando aqui e ali, as ovelhas eram gordos novelos espalhados pelo valado que, aos primeiros raios, verdejava levemente. E o Zé embuchado na surpresa, ainda não bem em si, “olha que ele há coisas…. quem havia de dizer”. Com gesto mecânico tocava o gado, mente centrada na descoberta, “o Jaime…um garoto ainda...o ai Jesus do Formosinho”. Chegou-lhe até um apetite de voltar ao estábulo, enfiar as ovelhas no redil e correr a casa, sacudir Virgínia, desentorpecê-la de sonhos até que os olhos lhe voltassem ao rosto e ganhasse vida. E, na interrogação estremunhada dos olhos dela, plantar o espanto, dar-lhe a nova. Mas aquietou. Ficavam os amantes com mais um dia de anonimato e respeitava o sono da mulher. Virgínia era moura de trabalho, viera para a sua cama a convite, alegre e de boa mente. Deixara a miséria e as sossegadas bebedeiras da mãe, viúva calma e trabalhadeira, senhora de grande mutismo que, verão ou inverno, se enfrascava pela noitinha, adentrada na chaminé, num ritual de tristura que ninguém entendia, a filha alertando mansamente, minha mãe, toca a deitar. E foi ponto assente para os dois: ficavam juntos. Não precisaram de papel passado senão quando nasceu o mais velho e o padre fez cara feia à mancebia. Para que contrariar o abade, não se lhes dava o papel, sentiam-se casados desde a descoberta comum da linguagem do corpo, pele na pele, ungidos de juventude saciada. Mas, a imagem de Virgínia logo lhe lembrou a filha do Pelinhos e se lhe pespegou a dúvida, que quereria ela com o garoto. Contas feitas por alto, ajuizou que a mulher quase dobrava a idade de Jaime. Seria desarvorada fome de fêmea o que assim a perdia. Estes e mais solilóquios empeçavam-lhe o caminho, dava por si parado, cajado na mão. O cão, desconfiado já do dono e intrigado com a demora, acercava-se numa corrida, a cauda balançando a um lado e a outro. Faltavam-lhe as ordens assobiadas para ser seta e, de orelha espetada, forçar ao trilho esta ou aquela ovelha que transviava. 

Já em campo aberto, ovelhas no pasto, o Zé entregava-se a estender o problema, desdobrava-o em cuidados que se dispensam a coisa rara. E, a cada pedra levantada, lhe parecia maior o imbróglio. Os personagens cresciam-lhe no pensamento, o Chico, o Formosinho, a filha do Pelinhos, Jaime e mesmo a Zefa do Prado. E verificava que o mesmo problema se fazia outro em cada um. E isto até cair em si e reparar que a solução, se solução havia, não era coisa de sua lavra; e que, à data, só ele participava do segredo.

 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Três ou Quatro Sílabas

 Neste país

onde se morre de coração inacabado

deixarei apenas três ou quatro sílabas

de cal viva junto à água


É só o que me resta

e o bosque inocente do teu peito

meu tresloucado e doce e frágil

pássaro das areias apagadas


Que estranho ofício o meu

procurar rente ao chão

uma folha entre a poeira e o sono

húmida ainda do primeiro sol


Eugénio de Andrade, Véspera da Água (1973)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

Às portas do estio, a aldeia regurgitava de vida e economizava a noite. Em saia longa e de cauda, os dias passeavam na duração. Alimentados por incógnitas marés distantes e luas benévolas a que pouco faziam caso, homens e mulheres madrugavam revigorados. Era como se o alimento lhes viesse também do ar claro e das horas solares, tónicos milagrosos e revigorantes actuando sobre o cansaço quotidiano que lhes endurecia o rosto e assombrava a figura involutiva. Não que o afastassem de todo, mas pincelavam-no de alguma leveza. Emprestavam ao olhar de uns e de outros modo menos granítico e acerado, alisavam gesto e voz, faziam mais erecta a figura.

Desde cedo se ouvia bulir. Nos campos, o som cavo de enxada cuidadosa animava a terra, tratando da semeadura ou plantando leguminosas e outras vitualhas que enriqueciam a mesa e melhor enganavam o infindo  apetite. Outros recorriam a meio diverso. Recebiam da fábrica de pinhão sacadas de pinhas e, na rua de casa, procediam à queima que as violentava, a coluna de fumo num alerta.  O ar cheirava a lume e a aragem fazia-se menos fresca com o odor da resina aquecida. Ouviam-se os estalidos das pinhas que, encaloradas, abriam os alvéolos deixando à vista as sementes. Junto à fogueira, duas figuras munidas de pá comprida, forquilha ou pau, atentas às pinhas e a retirá-las à medida que estrondeavam em obediência à dilatação.  E todos conheciam o passo seguinte:  frutos sacudidos e vasculhados, sementes juntas em monte, o fogo esmorecia ou era de novo alimentado pela tristeza desalentada das pinhas estropeadas e tão sem graça como mulher abusada. Num ápice, se ouviam os martelos ao despique, partindo, um a um, os pinhões. E a função prolongava até ser tempo de comer uma bucha e sair para o trabalho. Então, o monte de pinhão era carregado para casa. Nessa noite, serão fora, toda a família se afadigava a despir as sementes. Horas a fio, o incessante batuque dos martelos. Indistintas, as madrugadas competiam a homens e mulheres. Mas os serões eram de todos, dos mais velhos aos mais novos; nem sempre pacíficos. Os homens, cansados da enxada e açodados por prazos de entrega, menos pacientes que as mulheres, não raro sovavam os filhos pela inabilidade: se partiam o pinhão, se martelavam um dedo, se esmoreciam de cansaço. Na maioria das famílias, não eram serões fáceis. Deitavam-se a horas mortas, a pele escurecida do pó negro dos pinhões. E logo dormiam.

Andava o povo tão embrenhado na lida, tão sequioso de algum bem extra, que já o caso ia alto quando foi notado. Ao invés do hábito, e mau grado ditos e mexericos, a bisbilhotice sussurrada, ninguém lhe aumentou o volume. Do que mais tarde soube, à época, houve como que um sentimento de protecção geral a comedir o diz que diz.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Concerto de Ano Novo - 2023

 

Ponto Três: Thaís: Méditation (Jules Massenet), peça que teve o brilho de um violinista exímio e cujos agudos não feriam os ouvidos – a música, de suavidade extrema, parecia chamar a saudade amorosa em cada nota. Desconhecia esta ária tão linda. Quando li acerca, soube que se trata, afinal, de um eremita que pretende convencer uma adúltera a seguir a vida santa, desejo que a senhora parece aceitar, mas logo condena ao fracasso.

Ponto Quatro: a soprano Kristine Opolais. Em geral, não aprecio o bel canto, os agudos bolem-me com o sistema nervoso até nos violinos. Desta vez, não. A jovem Kristine entrou por olhos e imaginário, habitada do maravilhoso que nos povoa. Surgiu esplendente e curvilínea, sugestivos brilhos de sereia à conquista de Ulisses atentos e quietos - acredito que manietados no lugar. Mais tarde, pisaria o palco em metamorfose de fada boa - um  longo vestido rosa pálido franzindo vaporoso, acolitado por etéreo véu cinza que, qual poalha translúcida, lhe recobria a saia e se interrompia na frente como ordena o manual de fadas elegantes;  um ombro nu e outro submerso por enorme laço, completavam a aparição. Visão maravilhosa e pronta a encantar-nos com voz requebrada mas portentosa, desfiando melodias sentidas e emotivas. Tocou-me particularmente a já citada Madama Butterfly a que sempre me rendo. E, a finalizar, fruto de encenação inesperada, a diva veio cantando a partir do átrio de entrada do público, inefáveis minutos vividos só da voz que sentíamos aproximar. Chegou descalça, os longos cabelos loiros esparsos pelas costas, e cantou Rusalka: A Canção à Lua (Dvorák). Desde o balcão, segui-lhe, debruçada - talvez como outros, mas não asseguro -, o bailado dos pés descendo os degraus, saias adejando em nuvem; as vezes em que, súbita, se virava ao público, sempre cantando, e os cabelos lhe dançavam em volta; a corrida breve até à primeira fila, a elegância torneada dos braços segurando a leveza do vestido. E, já no palco, o final apoteótico da ária. Ali, não estava apenas Kristine, estava também a fada dos contos infantis com sua voz perfeita e as emoções certas; a fada que habita o fundo de cada um de nós na esperança de breve ressurreição. Aplaudimos Kristine por essa recriação soberba e pela interpretação sentida.

E havia contentamento a pairar. O calor dos aplausos denotava o odor grato pelos bons momentos. Christine agradeceu o encontro com o público cantando a “Granada” que Mário Lanza imortalizou. Um gesto lindo e pouco usado nos espectáculos da Gulbenkian. Mas que bem lhe - e nos - assentaria um fado de Coimbra!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Concerto de Ano Novo - 2023

 

Como anualmente acontece, o concerto de ano novo predispõe o auditório. A mim, que de música não entendo mais que a agradabilidade do som, satisfaz-me em absoluto e cria alguma esperança. A guia é a contemplação estética. Estética de conjunto e não apenas de notas musicais. Parece-me altamente provável que repita nestes concertos a relação que tenho com os vinhos – acho-os tanto melhores quanto mais fujam a ser vinho. Portanto, desculpem-me os puristas da música clássica, os devotos do bel canto, os eruditos que dominam a distribuição musical dos instrumentos e das vozes nos pormenores mais ínfimos. Porque estou do outro lado. Do lado em que só o gosto predomina.

Dizia o eu de mim que também este concerto me fez quase feliz.  Rodeada de uma enormidade de gente encasacada e perfumada a contento, pouco dei por ela. Em volta, os que me são queridos e que, pontuais, me fazem companhia. Não será companhia segura, mas ainda não falharam. Devo ser a mulher sozinha mais acompanhada do mundo. Ou das mais.

Passo à referência dos motivos do meu contentamento:

Ponto Um: a maestra ucraniana Oksana Lyniv – Juvenil e airosa no trajar conservador, casaca que lhe firmava a cinturinha de vespa (vespíssima, diria Pessoa se acaso lhe pusesse os olhos).  Entusiasta no exercício das funções, fez da orquestra o seu instrumento privilegiado; e foi integradora e quase humilde – em cada vez, trouxe a soprano pela mão, dando-lhe a primazia nos aplausos. Ressalvo que foi ineditamente grata ao público rendido e ofereceu uma música extra – Cavalleria Rusticana – muito participada, facto que só vi acontecer na Gulbenkian com o músico Mário Laginha; porém, admito não ser frequentadora assídua.

Ponto Dois: as peças tocadas e cantadas eram escolhidas e avulsas – Strauss, Verdi, Puccini, Dvorák, Massenet -, não constituíam um todo contínuo o que aumentou o meu gosto. Comove-me sempre a Madama butterfly - foram apresentadas três árias. A selecção, esmerada e a contento.

(cont.)

sábado, 7 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

                O tempo irreversível foi andando, passo certo como só ele. Conservou abertas as pequenas frinchas de esperança no coração dos pais de Ernesto, murou de silêncio a natureza transida, deu nova arte às brincadeiras das crianças, assistiu ao zelo aziago dos homens que blasfemavam com a escassez da forragem, o gado em manjedouras tristes. E trouxe o Chico. O homem passou uns dias letárgico e mono. Comia, dormia, sentava-se uns minutos na rua. Encasacado, a risca do cabelo desalinhada e barba por fazer, pensaram-no doente. Mas logo, renovado de forças, se dedicou à limpeza e arrumação cuidada da carrinha. Quando a mercadoria voltou à ordem que só ele dominava e fazia a admiração feminina, e porque o inverno era tempo de miséria pungente e dali nada retirava, voltou a partir.

Na aldeia, o sufoco invernoso eternizava os suspiros e o frio levava mulheres e crianças a catar os pinhais. Não havia, a média lonjura, mais que as árvores e mato; ramos secos e pinhas, há muito desaparecidos. Chegavam cansados de calcorrear, um feixe magro de gravetos à cabeça das mulheres e,  na mão dos garotos, uma ou outra pinha preterida em buscas anteriores. Uma insuficiência para o frio que atazanava os corpos a todo o comprimento da noite.

E foi assim até a primavera se apresentar em claridade e a terra sair do marasmo. Voltaram a soar os balidos do gado e ouviam-se os chocalhos das vacas  a caminho do pasto de mistura aos gritos dos homens e das crianças que as tocavam. Os dias mostraram o seu poder elástico enquanto a natureza se enfeitava de verde e botões avulsos. A silhueta das mulheres clareou e os laços armados de goma nos aventais das raparigas alegravam a vida e chamavam amores. Na mercearia, a um canto do balcão, a vaidade da rima de chapéus novos convidava.  Após o avio semanal, a rima modificou e o mundo da rua coloriu. Chapéus de palha com remates de fita e garridice de cores protegiam a cabeça das crianças mais abonadas. Mas a surpresa geral era a carta. Época de pouco escrevente, as cartas eram luxo; ou, tarjadas de luto, aviso de grande perda. A carta  chegava branca e pontual - um dia sim, um dia não - para a filha do Pelinhos. E o mulherio invejando a sorte, a relembrar bilhetinhos engordurados, gatafunhos e erros que marcavam encontros e denunciavam amores, em papel de caderno antigo e linguagem de lenços de Viana. Escondiam-nos junto ao coração como fortuna bem guardada; e era ainda bendizendo essa memória que exclamavam, olhem bem o que havia de dar ao Chico. E vinha-lhes uma saudade do que não houvera e, então, não careciam: nunca na vida e só para elas uma carta endereçada e com selo. Nunca a expressão de um amor palavroso e de romance em caneta de tinta permanente com o seu nome caprichado no endereço. Em força de gesto invariável, a filha do Pelinhos chegava-se à mercearia mal via o carteiro. O homem, ainda sentado na bicicleta, um pé nos pedais outro no chão, abria a mala do correio e passava-lha. Só depois entrava a depositar o correio restante sobre o balcão; e já ela seguia, alada, até casa.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Sombra Chinesa

 

Incongruência do tempo, ser imune ao que gera. Não se apressa nem retarda. Quer terríficos cataclismos, quer contratempos de trazer por casa esbarram na sua indiferente acefalia.  Nesse oceano de costumes que é a vida, não se agitam os homens antes da desgraça ou da sorte imprevistas, e só algumas almas predestinadas e portadoras de sensibilidade incomum sentem a agonia que, tanta vez, não lhes pertence. Ignora-se a razão por que o corpo colabora com a tristeza e não exulta na previsão do benefício. Quem sabe se acontece apenas porque a desgraça põe em causa a integridade física e, adivinhando a ameaça, o corpo dispara. Idênticas a tanto animal que detecta descalabros - naturais ou emotivos -, assim elas adoecem de coisa nenhuma, antevendo ninguém sabe o quê. Não são videntes, não preveem qualquer acontecimento, antes o sofrem incógnito. Vem-lhes o sentir tão espontâneo e imediato como possivelmente acontece em seres vivos irracionais que uivam e alvoroçam sem que se entenda o motivo. E é isto um facto tão inexplicável no homem como neles.

Ora, na aldeia, ninguém sofria de distúrbios sem motivo e as poucas admirações surgiam com o uivo continuado dos cães de Zé da adega que nunca falhavam a adivinhar trovoadas: os animais eram avessos à electricidade espalhada no ar e encafuavam, todos tremeliques, no mais fundo do estábulo, muito antes da trovoada deflagrar. Havia também o temor aos corvos. Se as aves sobrevoavam alguma habitação insistente, eram prenúncio de morte próxima.  Porém, reparavam todos, quando tal acontecia, já nessa casa havia um enfermo. E também isso se escondia do defunto a haver e se explicava em crueza lapidar: “corvos são pássaros que comem carne podre e lhe sentem o cheiro a léguas”. As aves eram a cadeira eléctrica que se escondia do condenado, não havia escapatória.

Sem avisos nem sinais, a vida seguiu. Alguns notaram vagamente a continuidade das visitas de Jaime a Zefa do Prado. E o mais que delas se soube e viu foi a mudança de posição da cadeira de quarto. Fugido ao centro da rua, Jaime chegara-se ao canteiro de flores debruado de canas certas e cruzadas que separava o território da Zefa do da filha do Pelinhos. E, depois da figura de Jaime se tornar hábito, quando já nem era reparado, as conversas cessaram abruptas. Sem explicação, o rapaz perdeu-se por outras bandas. Comentava-se na aldeia que eram ideias de rico sem mais que fazer. Caprichos. Ainda vaidosa da companhia, a Zefa sorria. E minha avó, exímia contadora, tudo me apontava. Aos meus treze anos Jaime aparecia como um jovem Deus. Por vezes, em visão unilateral, admirava-lhe a compostura e o ser masculino. Vinda de um mundo de mulheres, os rapazes interessavam-me pelo desconcerto. Ainda só me agitava a curiosidade.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

A Aranha: Romance ouvido num Jardim por entre densa Folhagem

 

Adoro as tuas pernas, meu amor,

as mais bonitas que entre folhas vi!

Se as pudesse afagar aqui, e aqui…

oh! O prazer de as conhecer de cor!

 

Na sua cor de céu vazio de estrelas

como hão-de os pêlos delas ser macios!

Destas pernas virão supremos fios

de teias como tule, lisas e belas.

 

Aranha minha, tesouro viscoso,

a minha dor é não poder tocar-te

no perigo de depois me achares delicioso,

a mim, que desfaleço em êxtase e na arte

 

de querer tecer-te linhas muito mais ternas

carregadas de fina sedução

e insistindo contigo a minha sorte:

poder ter-te encostada no meu peito.

Dizer-te tanta perna para tão curto feito!

 

Por uma perna tua eu suportava a morte –

toma os meus palpos, patas, linfa, coração.

 

(Ana Luísa Amaral, MUNDO)