Por
detrás do postigo desvidrado, Zefa do Prado, embiocava na escuridão espreitando
a silhueta de Jaime, recorte móvel no ar pardacento, por vezes já atravessado
de um ou outro raio de sol que dourava este e aquele telhado. Agente secreto
posto em serviço, um resto de xaile pelos ombros, espiolhava a rua seguindo os
passos do rapaz até a figura esfumar e desaparecer na curva. Enquanto isto, Zé
da Adega descoroçoava e dava voltas ao miolo para não contar o que vira e
supunha secreto e apenas seu. Moía-o não repartir com a mulher. Bem a conhecia.
Virgínia era uma língua de trapos, não sabia guardar mexericos, e este era de
alto lá, o que lhe impedia o desabafo. O segredo aturdia-o, pesava-lhe nos
interiores. Para amenizar, espalhava-o pelos montes, abria-se à indiferença das
ovelhas e contava-lhes o que vira. Mas não resolvia. Adormecido, a mente expandia
o mal estar e apoquentava a mulher, homem, tu não andas bom, dantes, dormias
que nem pedra; agora, levas as noites aos esticões e a revirar a cabeça na
almofada como um danado. E ele com desculpas e atenuantes esfarrapadas, uma
ovelha perdida, menos leite na ordenha, o dinheiro que faltava para a
contribuição. A agravar, vinham-lhe as histórias que ouvira na infância,
histórias de segredos invioláveis que torturavam os detentores. Vinha-lhe o
tocador que fora ao canavial por uma flauta e que, mal a punha à boca, logo
divulgava o segredo que alguém fora enterrar nesse lugar. E, na sua crença
ingénua, temia que castigo semelhante caísse sobre ele. Por vezes, imaginava
que o Chico aportava a casa, havia um estrilho tamanho mas resolvia o seu mau
estar. E chegava mesmo a fingir o assombro devido, no momento em que a mulher
lhe comunicava a nova. Mas a vida não se
dobra aos desejos de cada um. Zefa e Zé,
presentes e sem interferência, pareciam anjos de Wim Wenders. Não julgavam. Refém
da amizade que dedicava a Jaime, Zefa emudecia contrariando a sua natureza;
quanto ao Zé, sujeito de boa índole e algum romantismo serôdio, sentia-se compelido
a proteger os amantes e apoquentava-o o remorso se, em pensamento, chamava o
Chico.
Mas os
anjos mundanos perderam as asas, habitam a Terra de olhos inquietos e
desejantes, e eternamente guardam o céu a que aspiram e lhes é incógnito. São
por vezes de uma imperfeição tocante, de outras, mera boçalidade; uns dias
capazes de heroicidade e noutros apenas malévolos, vaidosos, autênticos barris
de inveja. Ninguém sabe onde nasceu, quem acendeu o rastilho, mas a bomba rebentou:
era fonte segura, tinham-no visto, Jaime andava metido com a filha do Pelinhos.
E foi um diz que diz, um tal arrasar da mulher que, com filha crescida e pouco
mais nova que Jaime, devia ter juízo. Porém, qual fosse a razão, o burburinho
fazia-se em surdina e em surdina se esperava a vinda do Chico. Enquanto isso, as
madrugadas fizeram-se de companhia, havia gente que desejava surpreender a
desfaçatez dos amantes.